Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“O Jesus era muito peculiar, dizia: ‘Achas que és o Maradona? Penálti. Estás com manteiga nas mãos? És uma vergonha, meu’. Era assim”

Mário Felgueiras foi empurrado para a baliza por ser gordinho e da aldeia, mas acabou por conseguir jogar no clube do coração, o Sporting, foi campeão europeu em 2003, com 16 anos, andou pelo SC Espinho, Portimonense, SC Braga, V. Setúbal e Rio Ave, antes de se aventurar pela Roménia, onde deixou €200 mil. Seguiu-se a Turquia e o regresso a Portugal, ao Paços de Ferreira. Ainda voltou a sair, para o Chipre, mas as muitas lesões que foi tendo deixaram mossa e acabou por abandonar o futebol para se dedicar ao curso de Psicologia, aos investimentos imobiliários e a um franchising de uma pastelaria

Alexandra Simões de Abreu

PAUL ELLIS

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Caracterize-me um bocadinho o sítio onde nasceu e a sua família.
Sou originário de Neves, uma aldeia perto de Viana do Castelo. Tenho um irmão e uma irmã mais velhos e um irmão mais novo. O meu pai tinha uma gráfica e uma outra empresa na qual ainda trabalha, também de impressão gráfica. A minha mãe sempre esteve ligada à parte têxtil, foi feirante durante muitos anos e teve lojas de vestuário. Hoje continua ainda em Viana com uma loja dela, de roupa para senhora.

Era uma criança quietinha ou era malandro?
Tenho de admitir que gostava de ser engraçado, gostava de contar umas piadas, de brincar com toda a gente. Também sentia recetividade das outras pessoas que me rodeavam. Era um miúdo divertido que acabava por criar alguma empatia nas pessoas, mas sempre tive consciência daquilo que podia ou não fazer. Obviamente que sendo criança esses limites eram um pouco mais alargados, digamos assim, mas sempre tive consciência de quando tinha de parar e acima de tudo sempre tive noção do respeito pelos mais velhos.

Da escola, gostava?
Gostava, não era um sacrifício para mim ir para a escola, gostava de aprender e de sentir que tinha muito conhecimento, isso também me fazia sentir mais seguro. Agora não era aquele aluno de estar a estudar para tirar um 20 ou 100%, nunca foi esse o meu objetivo. Foi sempre o de passar e de me sentir confortável em relação a isso.

Quando era pequeno torcia por que clube?
Pelo Sporting, como toda a família.

O que dizia que queria ser quando crescesse?
Sinceramente não me recordo muito bem disso. Lembro-me que na altura já era muito apaixonado por computadores. Tinha a felicidade de ter um computador em casa e tinha um primo meu que vinha de França e que trazia disquetes cheias de jogos. Aquilo fascinava-me e ficava a vê-lo a instalar as coisas. Tínhamos que andar ali no MS-DOS a escrever os comandos e eu pensava: “Um dia, quando for grande, vou querer fazer isto”. Mas facilmente percebi que era melhor não e optei pelo futebol [risos]. Obviamente que gostava de futebol, adorava futebol e acabou por se proporcionar, mas nunca pensei em tornar-me jogador profissional de futebol.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
O meu pai sempre esteve ligado ao futebol. Fazia relatos na rádio, em Viana. Sempre houve uma ligação ao Vianense e naquele tempo havia muita rivalidade, mesmo com o clube da minha aldeia, o Neves, que então estava na antiga segunda divisão B. Ao domingo ia no carro com o meu pai sempre a ouvir o relato do Vianense e isso também provocou em mim um interesse. Também ia com o meu pai ver alguns jogos… Mas já não me recordo ao certo como é que fui lá treinar. Penso que no verão havia captações e o meu pai falou com alguém da estrutura do clube e eu acabei por ir lá. Antes já tinha tentado no Neves, o clube da minha aldeia, mas não houve muita abertura e depois consegui ficar no Vianense.

Mário Felgueiras na Primeira Comunhão, com os pais

Mário Felgueiras na Primeira Comunhão, com os pais

D.R.

Desde sempre que quis ser guarda-redes?
Não. Sempre gostei de jogar à frente, de marcar golos e era esse o meu objetivo [risos], mas a verdade é que quando fui para o Vianense, com nove anos, não havia guarda-redes, ninguém queria ser guarda-redes, era no tempo dos pelados, não havia relva nem sintético e acabei por ser um pouco "empurrado", porque era gordinho, era aquele que vinha da aldeia... Portanto em tom de brincadeira podemos dizer que os meninos da cidade me "empurraram" para guarda-redes. A verdade é que o que eu queria era estar lá no meio.

Quem eram os seus ídolos?
Quando comecei como guarda-redes tinha três ídolos. O Vítor Baía, que naquele tempo era o ídolo de todos os aspirantes a guarda-redes; o Oliver Kahn e depois o Buffon, que era muito novo e naquela altura via-se muito pouco guarda-redes tão novos a imporem-se.

Esteve no Vianense até aos 14 anos, altura em que vai para o Sporting. Como é que isso aconteceu?
Na altura começo a jogar nas seleções distritais. Eu fazia sempre parte da seleção de Viana e o meu treinador, Gomes Ribeiro, também fazia um bocado de scouting para o Sporting. Ele já me tinha referenciado e inclusive fui treinar ao Sporting com 12, 13 anos. Lembro-me que estava cheio de vergonha de dizer de onde é que vinha, fui com o meu pai e com o meu irmão, mas não fiquei. Não me chamaram mais. Entretanto continuo a ser chamado à seleção de Viana e há o Torneio Lopes da Silva, que nos corre muito bem e fui eleito o melhor guarda-redes do torneio. Recordo-me que antes de irmos jogar, mostravam-nos vídeos dos torneios anteriores e os melhores guarda-redes eram sempre ou os de Lisboa ou os do Porto. Eu fiquei a pensar naquilo, porque é que são sempre os de Lisboa ou do Porto? E durante o torneio todo, aquilo ficou-me sempre na cabeça. Acabei por conseguir ser o melhor guarda-redes do torneio e a seleção de Viana ficou em 9º ou em 10º lugar. Entretanto o melhor guarda-redes e o melhor jogador desse torneio são chamados para a primeira vez seleção de sub-15 que foi criada. Comecei a ir à seleção ainda sendo jogador do Vianense, o que era também uma coisa rara. A partir daí surgiram propostas do FC Porto, do Sporting, também do Benfica e do Braga.

Foi para o Sporting por ser sportinguista?
Inicialmente até tinha tudo certo com o FC Porto, fui treinar também à Constituição, ainda era pelado, e não me senti muito, digamos, enquadrado. De qualquer das formas não houve acordo entre o FC Porto e o Vianense, ou seja, eu iria para a equipa satélite deles, iria ser juvenil de primeiro ano, não iria logo para o nacional. Então disse que para isso ficava no Vianense, que ia ao nacional, ia jogar com os mais velhos. Entretanto surge o Sporting, já com a Academia, ou seja, havia relva [risos]. Motivou-me de forma diferente. O facto de toda a minha família ser sportinguista ajudou. Na altura ir para Alcochete não era propriamente a mesma coisa que ir para o Porto ou para Braga, que era muito mais perto de casa. Ainda hoje não sei como é que tomei essa decisão, porque era muito novo, mas também já ia com um ano de seleção nacional, conhecia praticamente todos os jogadores do FC Porto, como do Benfica e do Sporting.

Como foi a primeira noite em Alcochete, sem os pais e os irmãos?
Não sou uma pessoa muito nostálgica. As coisas passam, guardo aquele sentimento, mas as memórias não ficam aqui precisas. É sinal de que estava bem e que acabou por não me marcar negativamente. Recordo-me que nos primeiros meses foi difícil, na parte emocional com a família, mas por outro lado era um mundo totalmente novo. Estava a conhecer imensa gente, éramos 50, se não me engano, na Academia, uma escola nova, miúdas novas, uma cidade nova e eu sempre gostei de conhecer, portanto estava mais entusiasmado do que triste ou desanimado.

Mário Felgueiras na escola primária

Mário Felgueiras na escola primária

D.R.

De certeza que foi alvo de alguma partida e que também as fez enquanto esteve na Academia. Lembra-se de alguma?
Recordo-me que na altura estive com jogadores como o Fernando Ferreira, que agora está no Académico de Viseu, o Pimenta, o Rui Lopes, o Yannick Djaló, o Semedo, o Zezinando, e houve um dia que não tínhamos nada para fazer e decidimos saltar para o outro lado da cerca. Há ali muitos touros, muitas vacas e recordo-me que ia com o Fernando e começamos a andar, andar, andar e a desafiar os touros [risos]. Entretanto um dos touros vira-se para nós e começa a encarar, nós começamos todos a correr, a tentar saltar para dentro da cerca da Academia [risos]. Lembro-me da sensação da adrenalina, do coração ao pé da boca.

Os primeiros namoros e as primeiras saídas à noite também começam nessa altura?
Em Viana, de vez em quando, já conseguia chatear tanto os meus pais que, não era sair à noite, porque era muito novo, mas dava umas saídas. Os meus pais sempre me disseram "tens toda a liberdade mas com responsabilidade". Eu sabia que podia fazer aquilo que quisesse, desde que fosse responsável pelos meus atos. Isso permitiu-me ganhar a confiança deles e em certa medida ganhar alguma experiência. Quando cheguei a júnior, era maior de idade, já tomava as minhas decisões, comecei a esticar-me um bocadinho mais.

Nunca teve problemas por causa de noitadas?
Eu gostava de sair e gosto de me divertir, é verdade, acho que a vida tem de ser aproveitada, mas temos de ter consciência de quando podemos ou não sair. Houve fases da minha carreira em que fui um bocado ligado a essa imagem que nem era totalmente verdadeira, até porque estou com a minha esposa desde os 21, 22 anos. Mas infelizmente, mesmo depois, as pessoas ainda ligavam ao que eu tinha feito quando era mais novo.

Com quem é que costumava sair e para onde iam?
Normalmente o pessoal que estava na Academia acabava sempre por querer sair junto. Éramos juniores, jogávamos no sábado à tarde, é normal que aqueles que não podiam ir a casa, como eu, iam às discotecas no Montijo e no Seixal.

Mário Felgueiras (à esquerda, com camisola alaranjada) a festejar uma conquista do Vianense num torneio de verão

Mário Felgueiras (à esquerda, com camisola alaranjada) a festejar uma conquista do Vianense num torneio de verão

D.R.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Deve ter sido à volta dos 70/80 contos [400€].

O que fez ao primeiro ordenado?
Devo ter ido ao Freeport, que tinha aberto na altura, comprar roupa [risos].

Quem foi o treinador que mais o marcou no período de formação?
Todos eles, em certa medida, tiveram influência mas tenho que dar uma palavra de agradecimento e reconhecimento ao mister Luís Martins, o meu treinador quando cheguei e que foi sempre o mais paciente comigo. Foi uma pessoa que posteriormente me ajudou na carreira. Mas todos eles ajudaram, o João Couto, o Luís Dias, o mister Paulo Bento também.

E qual foi a maior amizade que ficou desses tempos de formação?
O Fernando Ferreira. Ainda hoje é amigo de família, passei muitos dias na casa dele e ele na minha. Não sou pessoa de ter muitos amigos, o Fernando realmente é um daqueles com quem continuei sempre a falar, todos os outros tenho uma enorme saudade deles, mas não são pessoas com que diariamente ou mensalmente mantenha contacto.

Quando é chamado pela primeira vez ao plantel principal do Sporting?
Sou chamado pelo Bölöni, ainda não era júnior sequer, salvo erro. Fomos campeões europeus e o Bölöni de vez em quando ia ver os treinos da formação. Um dia quando cheguei da escola, estava sozinho no quarto, até estava na casa de banho e começo a ouvir o mister Jean Paul no corredor: "Ó Mário, ó Mario". O que se passa? Será que já fiz asneira? "Posso entrar?"; "Estou na casa de banho, mas pode entrar, diga-me o que é que se passa?"; "Tens de te equipar rápido porque foste chamado para equipa A"; "Chamado para a equipa A!". Eu nem acreditava, tinha uns 15, 16 anos, era um miúdo. Recordo-me de lhe dizer: "Mister, deixe-me só terminar aqui e eu vou lá abaixo buscar o equipamento". Equipei-me no meu balneário da formação e fui sozinho. A roupa era a da formação. Recordo-me de ter ligado aflito ao meu pai a dizer que ia treinar à equipa A. Fui treinar perplexo, a olhar para eles todos [risos].

Quem é que o recebeu?
O Pedro Barbosa, depois também veio o Nuno Santos, que era guarda-redes e que me ajudou bastante nessa adaptação inicial. O César Prates também era cinco estrelas. Eu tentei absorver um bocadinho de tudo, começámos a correr à volta do campo, estava muito tenso, mas foram todos impecáveis. A partir daí de vez em quando ia sendo chamado. Já ia mais à vontade, também havia pessoal muito novo, o Carlos Martins, o Hugo Viana, o Custódio, o Miguel Garcia, todos eles eram impecáveis e isso também me permitia estar um bocadinho mais à vontade.

É chamado para fazer pré-época com a equipa A, pelo José Peseiro?
Sim, e aí já fomos mais alguns, o Miguel Veloso, o Moutinho, se não me engano, o Saleiro... Como já ia com os meus colegas de equipa, ficava mais à vontade. Cheguei inclusive a ir para o banco no primeiro jogo do campeonato, acho que com o Gil Vicente, porque os guarda-redes eram o Ricardo, o Tiago e o Nélson, só que o Nélson tinha sido operado ao joelho e o Tiago lesionou-se dois ou três dias antes, por isso fui chamado. Foi o Ricardo que jogou.

Curiosamente nunca chegou a estrear-se pelo Sporting.
Não. Nunca joguei oficialmente pelo Sporting.

Mário Felgueiras fez a formação no Vianense antes de ir para Alvalade

Mário Felgueiras fez a formação no Vianense antes de ir para Alvalade

D.R.

Porque na época seguinte é emprestado ao Espinho. Como é que isso acontece?
O campeonato acabou um bocado mais tarde e nós fomos campeões de juniores. Entretanto há uma indefinição muito grande, se continuamos no plantel principal ou não, e com esta indefinição todas as outras equipas foram fechando os plantéis. Começou a ser complicado para mim arranjar equipa, ainda estava contratualmente ligado ao Sporting. Eu pensava, então sou campeão europeu, sou campeão de juniores e mesmo assim não tenho um clube de segunda liga interessado? Comecei a ficar preocupado e numa altura em que vou Alcochete para renovar a minha matrícula na escola, encontro o Rui Lopes, que é mais novo dois ou três anos. Eu já tinha carro, ele ia de comboio para Espinho, e disse-lhe que podia vir comigo porque também ia para cima. Ele veio comigo e é o irmão dele, o Álvaro, que o vai buscar à portagem e pergunta-me: "Como está a tua vida, pá? Nós estamos a precisar de um guarda-redes". Eu acho que o Sporting queria enviar-me para o Estrela das Vendas Novas, da terceira divisão. Disse-lhe: "Fala com o mister". Entraram em contacto, chegou-se a acordo com o Sporting e foi assim que fui emprestado ao Espinho.

Foi viver para onde e com quem?
Fui para Espinho sozinho. Tinha contratualizado com o Espinho para me emprestarem um apartamento mas nos primeiros dias, enquanto não o tive, o André Cunha, que na altura jogava no Espinho, e que esteve no Gil Vicente alguns anos, sem me conhecer de lado nenhum disse: "Em vez de ires para Viana todos os dias, ficas na minha casa”. Tínhamos treinos bidiários e foi impecável comigo, deixou-me ficar com ele e com a mulher, para eu não ter de fazer 80/90 quilómetros diariamente enquanto não arranjei casa.

Lembra-se do seu jogo de estreia como sénior?
No Espinho inicialmente não jogava, o guarda-redes era o Tó Ferreira, um guarda-redes muito experiente, tinha sido o melhor guarda-redes da segunda liga, mesmo com o Espinho a descer. Estive cinco, seis meses sem jogar, sempre no banco. De um momento para o outro parece que a minha vida desabou, vinha do Sporting de fazer a pré-época com a equipa A, campeão de júnior e de repente estou no Espinho, sem jogar. Depois houve uma chatice qualquer entre o Vítor Pereira e o Tó Ferreira e surgiu a minha oportunidade. Agora sinceramente já não me recordo do primeiro jogo. No ano a seguir continuo emprestado ao Espinho porque é o Vítor Pereira que pede. Fiquei só eu e outro jogador, do resto da equipa foi toda a gente embora.

Como é que depois vai parar ao Portimonense?
Na última época em Espinho joguei os jogos todos. Estávamos sempre a tentar subir mas, por uma ou outra razão, na parte final não conseguíamos. Entretanto terminei o contrato com o Sporting, havia possibilidade de renovar mas era com a equipa B. Na altura já era o Jorge Mendes o meu empresário e acabámos por não renovar. É quando surge a hipótese de ir para o Portimonense, segunda liga. Era um passo acima. O Jorge Mendes passou uma fase da vida dele em Viana e conhecia o meu pai. Naquele tempo ele estava a começar, não era o que é hoje, e acabei por ser representado pela Gestifute e depois pelo senhor Carlos Rente, tio do Hugo Viana.

Como foi a mudança do norte para o Algarve?
Em Portimão foi fantástico. O treinador era o Luís Martins, conhecia-me, o treinador de guarda-redes também era impecável, era o Rui Correia, que estava a começar esta ocupação nova, tinha acabado de terminar a carreira. Acabei por encontrar no Portimonense uma série jogadores que também vinham do Sporting, um deles era o Emídio Rafael, com quem eu tinha jogado na formação do Sporting, também estava o Paulo Sérgio, o Miguel Ângelo... Depois também vieram os dois Nunos, o Coelho, do FC Porto, que eu já conhecia da seleção, e o Pimenta, que também esteve comigo na Academia. Posso dizer que foi dos melhores anos da minha carreira. Tínhamos um espírito fantástico e viver no Algarve era ainda melhor, porque realmente aquilo é muito bom.

O Luís Martins sai e vem o Vítor Pontes.
Sim e foi uma diferença brutal porque era um treinador que já tinha tido um período na primeira liga, estava muito ligado ao José Mourinho, um registo totalmente diferente. Ao início acabou por custar-me um bocadinho. Ainda houve três, quatro jogos em que não joguei, estavam a ver se eu ganhava mais nervo. Mas depois joguei.

Mário (à esquerda) com alguns dos colegas a formação no Sporting

Mário (à esquerda) com alguns dos colegas a formação no Sporting

D.R.

Como vai parar ao SC Braga a seguir?
Na altura o diretor desportivo do Braga era o Carlos Freitas, que tinha estado no Sporting, já me conhecia. Havia a possibilidade de assinar com o FC Porto, o presidente do Portimonense, Fernando Rocha, falou-me dessa situação, mas a verdade é que passava por novo empréstimo, possivelmente continuaria colocado no Portimonense e eu sentia que precisava de algo mais. Mesmo tendo plena consciência de que o SC Braga também era uma equipa que vinha a crescer, iria ser muito difícil para mim jogar, mas acreditava que estava mais próximo de jogar no Braga, do que se fosse para o FC Porto. Estar num clube grande para andar sempre emprestado de um lado para o outro... Pensei que seria melhor assinar pelo SC Braga.

Foi viver para Braga ou voltou a casa dos pais?
Ao início fiquei em casa dos pais mas acabei por ficar com um apartamento em Braga para quando estivesse mais cansado poder ficar em Braga.

Como é que foi o embate com o Jorge Jesus?
Na altura do Portimonense tivemos um jogo para a Taça da Liga com o Belenenses e eu não joguei esse jogo. Mas recordo-me que estava na bancada a ver e na altura o Jorge Jesus já tinha um estilo muito peculiar. Observei-o muito e realmente achava piada à forma apaixonada e à intensidade com que ele vivia aquele jogo. Tem uma forma de estar realmente única. Entretanto quando chego ao Braga também vinha com uma perspetiva de futuro. Ou seja os dois guarda-redes eram o Eduardo e o Kieszek. O Eduardo vinha de fazer uma época fantástica no Setúbal, o Kieszek já tinha estado a jogar no Braga, ou seja, eu sabia que iria ser o terceiro guarda-redes. A minha perspetiva era de aprender, evoluir e estando na I Liga seria muito melhor. Ao início com o mister Jorge Jesus foi um bocado complicado, no sentido em que não estava habituado a um registo assim. Mas como eu era miúdo e era guarda-redes, também passava um pouco ao lado daquilo.

Mas qual era esse registo?
O registo que toda a gente conhece [risos]. Muito intenso, ao pormenor, ao detalhe, numa altura em que isso não era sequer assunto no futebol. Inovações mesmo na questão da colocação e da zona de distribuição das bolas paradas da equipa à zona. Para nós guarda-redes isso também influenciava muito, uma coisa é termos uma marcação homem a homem, outra coisa é à zona, e a verdade é que ele tornava tudo mais simples, pegava em pontos que na altura todos os outros com quem eu tinha já experienciado, não quer dizer que fossem piores, não tinham era ainda falado nesses assuntos. Esse ano posso dizer que jogo no Braga, jogo, porque faço uns minutos no último jogo do campeonato, foi ele que me proporcionou a estreia na I Liga. E se calhar foi com ele que mais evoluí a nível tático, a nível mental, mesmo não jogando, aprendi muito com as coisas que ele dizia, com a forma como ele via o jogo.

Lembra-se de algum episódio mais caricato que tenha vivido com Jorge Jesus?
Ele comigo teve alguns engraçados porque eu tinha um bocado a mania que jogava bem com os pés. E quando temos grandes jogadores à nossa volta, mesmo que eu faça um passe um bocadinho para o lado, se o outro jogador for muito bom facilmente consegue corrigir esse meu mau passe e se calhar ninguém repara. Obviamente que no SC Braga eu sentia-me muito mais à vontade a jogar com os pés porque tinha sempre soluções, todos os jogadores queriam a bola, não se escondiam. E quando fazia um passe um bocadinho mais atrasado eles facilmente corrigiam esse erro. Gostava dos passes longos, gostava muito de fazer passes nas costas da outra equipa quando eram os treinos conjuntos e o Jorge Jesus ficava muito chateado, porque às vezes queria trabalhar a zona de pressão e como eu batia longo, acabava por destruir tudo aquilo que a equipa estava a tentar fazer. Muitas vezes ficava chateado e começava a gritar comigo e a dizer que eu tinha a mania que era número 10. Na altura a equipa tinha jogadores já muito experientes, o César Peixoto, o Andrés Madrid, o Vandinho, o Wender, o Jorginho, uma equipa fantástica, e começavam sempre todos a gozar comigo quando o mister Jesus me dava essas duras. E há uma altura em que ele, já tão cansado de me dar duras, vira-se para trás e diz: "Olha lá, tens a mania que és o Maradona. Penálti". E então sempre que eu batia a bola longa, ele marcava penálti contra mim, que era para a minha equipa ficar chateada [risos]. Mas há mais.

Força. Conte.
Noutra altura, e essa nunca mais me esqueço, num jogo amigável com o Espinho, no estádio principal do Braga, um jogo da pré-época... Íamos jogar contra uma equipa onde eu tinha jogado, tinha muitos amigos e queria mostrar que estava no Braga - por acaso joguei nesse jogo -, e há um remate qualquer, acho que do Carlos Manuel, em que largo a bola para a frente, vem um jogador do Espinho na recarga e marca golo. Só que estava fora de jogo e, claro, fiquei aliviado. Mas o mister Jorge Jesus levanta-se do banco, com o estádio todo a ouvir :" Ó rapaz, estás com manteiga nas mãos, pá? És uma vergonha, meu". E eu, um miúdo, toda a gente a olhar para mim, a sério que ele me está a dizer isto? [riso]. Ao início aquilo mexe muito, mas depois acabei por perceber que não era por ser com o Mário, não era por ser com este ou aquele, é a forma de ele ser, viver as coisas, e criar compromissos com os jogadores. Depois no final já me ria com aquilo. Ele acaba por colocar-me a jogar com o FC Porto e foi a minha estreia na I Liga.

Mário foi campeão da Europa de sub-17, em 2003

Mário foi campeão da Europa de sub-17, em 2003

D.R.

Entretanto conhece a sua mulher.
Sim, conheci a minha mulher já com o decorrer do ano em Braga. Chama-se Carina, era enfermeira, agora não exerce, e conheci-a numa saída à noite. Estava com um amigo meu que também conhecia outros jogadores do Braga, vi-a e disse ao meu amigo: "Quero conhecer esta miúda". E ele: "Eh pá, vai ser difícil porque já conheço Braga de muitos anos e colegas teus já tentaram..." Aquelas conversas. "Deixa-me ir falar com ela". Ele acabou por apresentar-nos. Na altura pedi-lhe o número mas ela não deu, disse que se eu quisesse dava-me o email e podíamos falar por email. Na altura ainda não havia Facebook, só Messenger. Adicionei-a no Messenger e ficava acordado até às duas e três da manhã, que era quando ela chegava dos turnos do hospital, para ver se entrava no Messenger, para eu poder ao menos dizer um "olá". Estive muito, muito tempo até conseguir levá-la a tomar um café. Devo tê-la conhecido em novembro e só consegui tomar um café com ela em maio ou junho do ano a seguir. Que é o ano em que vou para Setúbal.

Por que não fica no SC Braga?
O mister Jorge Jesus sai para o Benfica. Recordo-me que ele na altura, no final do jogo no Dragão, perguntou-me: "Então estás contente pela estreia?"; "Estou mister, obrigado". Falámos muito vagamente que se ele continuasse no Braga eu passava a segundo guarda-redes, ou seja, o Eduardo seria obviamente o titular mas assim que houvesse alguma possibilidade eu começaria a jogar e se o Eduardo fosse vendido, até poderia vir a ser uma aposta. A verdade é que o Jorge Jesus sai para o Benfica e quem vem para o SC Braga é o Domingos e eu vou emprestado porque ele disse que não contava comigo. É quando surge o Carlos Azenha, que estava no V. Setúbal, uma equipa da I Liga. O que eu queria era jogar. Tinha estado um ano em aprendizagem e queria jogar. Mas foi terrível, foi um desastre, foi um ano muito complicado para mim.

Porquê?
Porque foi um ano em que havia todos os dias no V. Setúbal 10 a 15 jogadores com chuteiras na mão a perguntar se podiam treinar. Uma equipa da I Liga que não tinha se calhar quatro ou cinco jogadores contratualizados, é impossível ser um ano de bom presságio. E para mim foi um choque no sentido em que vinha do SC Braga. Depois também houve muita confusão na altura da discussão do contrato porque eu sabia que o V. Setúbal se atrasava com os ordenados e não queria ficar com ordenados em atraso. Consegui que o Braga se responsabilizasse caso o V. Setúbal não pagasse o ordenado. Mas foi um ano muito complicado, tive colegas meus que durante o ano chegavam aos balneários com as malas todas porque tinham sido despejados. Uma série de coisas.

Mário (à direita) com Miguel Veloso, João Moutinho e Saleiro

Mário (à direita) com Miguel Veloso, João Moutinho e Saleiro

D.R.

Chega a uma equipa onde estão quatro guarda-redes e onde há mudanças de treinador.
Sim, era eu, o Matos e o Miguel Rosa, depois veio o Nuno Santos. Depois de sair o mister Carlos Azenha, vem o Quim e no primeiro jogo retirou-me logo, disse que era para proteger-me. Que grande proteção que me está dar [risos]. Todos aqueles que tinham vindo através do Azenha foram, digamos, retirados da equipa. Entretanto o Quim vai embora e vem o Manuel Fernandes, que já me conhecia do Sporting. Mas lesionei-me no joelho e fiquei algum tempo parado. Depois, num jogo contra o Benfica, já na parte final, o Cardozo dá-me uma joelhada e eu fiz uma rutura traumática nas costelas. Acabei por ter de jogar sempre anestesiado, até que chegou uma altura em que já não aguentei mais. Foi um ano muito complicado, com muitas histórias negativas e foi muito difícil, pelo menos para mim.

Estava sozinho em Setúbal?
Estava porque a minha esposa, na altura namorada, trabalhava no Hospital São João do Porto. E era a fase inicial do namoro, não queríamos arriscar.

Nesse ano qual foi o episódio que mais o marcou?
Tenho a lesão na costela, recupero e entretanto tenho um problema no joelho mais ou menos em fevereiro ou março, na altura o médico era o Frederico Varandas e recordo-me do que ele disse: "Se calhar a época vai acabar para ti, é melhor ires lá acima a Braga ser operado". Lembro-me que vinha para cima contente por me vir embora. Vinha lesionado, ia ser operado mas em certa medida vinha aliviado por vir para cima. A verdade é que acabo por ter de voltar a Setúbal, jogo no Marítimo e dou um frango tremendo, num jogo muito complicado em que podíamos ter descido de divisão. Jogo com pontos no joelho, jogo todo anestesiado, mas ninguém deu valor a isso, as pessoas não querem saber, os adeptos não querem saber disso. E para nós, jogadores, que temos de sofrer estas coisas todas, na nossa solidão, para mim foi um ano muito complicado e achava que podia ter havido um pouco mais de gratidão.

Chegou a ter ordenados em atraso?
Sim, mas entretanto o Keita, o nosso avançado, é vendido para o SC Braga e foi uma das formas de eu conseguir jogar com o pagamento dos ordenados em atraso, que se não me engano era de dois ou três meses. Como o Braga também seria responsável por essa por essa dívida, só pagaria o Keita quando o Setúbal me pagasse a mim os ordenados em atraso. Recordo-me que veio aqui o roupeiro do Vitória de Setúbal, já eu estava no Rio Ave, se não me engano, para me pagar os valores em falta.

Não passa por Braga ainda com o Domingos Paciência?
Venho para Braga e entretanto surge a hipótese do Rio Ave, vou para lá emprestado, faço a pré-época e entretanto no momento em que o Kieszek é vendido ao FC Porto, o Quim lesiona-se e o SC Braga fica sem guarda-redes. Tinham o Marcus que vinha do Marítimo mas também estava na altura com problemas físicos. O Salvador liga-me e diz para eu vir embora porque tinha de voltar para Braga. Precisavam de mim, não tinham guarda-redes, estavam na pré-eliminatória da Liga dos Campeões e tinham um jogo com o Celtic. Volto para Braga e acabo por jogar os dois jogos da pré-eliminatória da Liga dos Campeões, com o Celtic.

Mário (ao centro, atrás) num treino do Sporting

Mário (ao centro, atrás) num treino do Sporting

D.R.

E depois volta ao Rio Ave?
Isso mesmo. Faço esses dois jogos, entretanto vem o Felipe, o brasileiro, o Domingos diz-me que a aposta dele seria o Felipe, isto três dias antes de começar o campeonato. A sorte é que tenho o Carlos Brito no Rio Ave a dizer que queria na mesma que eu voltasse ao Rio Ave. Recordo-me que estava a falar com o Artur Moraes e ele estava a dizer-me: "Eh pá, agora vais ver, vão-me mandar embora porque vem o Felipe e é ele que vai jogar". E é engraçado que é o ano em que saio, é o ano em que o Felipe vai embora em janeiro e o Artur acaba por jogar, vai à final da Liga Europa e assina pelo Benfica [risos] Ou seja, no ano em que ele queria ir embora e quem vai embora sou eu, é o ano da reafirmação dele.

No Rio Ave foi mais tranquilo do que em Setúbal?
Também foi um início complicado, os primeiros jogos correram muito mal, estávamos em último ou penúltimo e acabei por sofrer também um bocado por isso, deixei de jogar, começou a jogar o Paulo Santos. Depois na fase final ainda fiz mais uns jogos, mas foi na altura em que comecei a pensar que em Portugal é sempre assim, se as coisas estão a correr mal para a equipa, sobra sempre para mim e acabo por deixar de jogar ou porque sou novo, ou porque sou inexperiente, ou por isto, ou por aquilo. Chegou uma altura em que disse basta, quero ir para fora. Entretanto o mister António Conceição está no Brasov, da Roménia, falou comigo, o meu empresário naquela altura já não era o Jorge Mendes, era o Ulisses e fui para o Brasov. Fui sem qualquer tipo de conhecimento, para onde é que ia, como é que era o país, eu só queria era sair daqui.

Já tinha casado?
Vivíamos juntos. Entretanto comprei casa em Braga e como de Vila de Conde é perto, ia e vinha todos os dias, partilhava carro com o João Tomás, o Bruno Gama e o Paulo Santos, que também viviam em Braga. Eu e a Carina acabámos por nos juntar nessa altura. Depois quando vem a fase de ir para Brasov fiquei outra vez sozinho porque como fui emprestado pelo Braga não sabia se ia continuar no estrangeiro ou não. A Carina também estava estável no São João, era a profissão para a qual ela trabalhou e estudou, por isso não havia motivos para naquele ano arriscarmos.

Como foi o impacto quando chegou à Roménia?
O primeiro impacto foi uma coisa fantástica. Recordo-me que quando saí de Braga, no caminho para o aeroporto, só ia a pensar para onde é que eu vou, o que é que eu vou fazer... O Ulisses foi comigo e quando chegamos à Roménia estava um calor tremendo, era verão e fomos numa carrinha de Bucareste a Brasov. Ao volante ia o roupeiro do clube, que nem inglês falava. Iam também connosco o Baltazar, o adjunto, e outros jogadores portugueses, éramos uma comitiva grande. Íamos por aquelas montanhas todas da Transilvânia, uma paisagem totalmente diferente daquelas a que estamos habituados e foi um choque tremendo. Mas o desconhecido sempre me deixou à vontade. O facto de ninguém me conhecer, de poder mostrar aquilo que valia sempre me deixou confortável e com motivação. Quando cheguei a Brasov o Ulisses virou-se para mim e disse-me assim: "Tu só assinas o contrato se o Toni - o treinador - assinar a renovação". Na altura o mister tinha a renovação só apalavrada. Entretanto o Toni sai da reunião e diz: "Pronto, já podem ir, já está tudo certo". Entrei, o empréstimo ficou todo certo, fui ganhar um bocadinho mais do que ganhava aqui em Portugal, com condições melhores, estava super contente.

Mas?
Entretanto passados uns dias íamos voltar para Portugal porque a pré-época ia ser feita aqui em Ofir. Entretanto começo a ver o mister Toni muito nervoso, sempre ao telefone, muito stressado e pensei "há problemas". Já sabia que na Roménia há muitos interesses e os patrões pensam que mandam em tudo. Passado um dia ou dois, o mister Toni vem dizee-me que ia à Roménia tratar tudo com o patrão, porque ou era como ele queria ou então não ficava lá. Foi à Roménia e ligou-me a dizer que se tinha despedido [risos]. E agora? Vou para para um clube que nem sequer o estádio eu tinha visto, vou para lá por causa do treinador e agora o treinador vai embora? Fui logo falar com o treinador de guarda-redes, um romeno, com um adjunto, e disse-lhes: "Quero ir embora porque o Toni vai embora e não faz sentido eu estar aqui. Já sei que depois vão querer meter outros e ainda vou ser prejudicado com isso". E é esse treinador, o Daniel, que me diz: "Está tranquilo, eu já te vi a treinar, o Toto - que era o treinador de guarda-redes - também, e tu não te vais embora. Não tens a nossa autorização para ir embora. Eu sou romeno, mas não sou como aqueles romenos que tu se calhar tens na ideia. Confia em mim que não te vais arrepender".

O que fez?
Estive ali dois ou três dias de cara feia, mas o treinador de guarda-redes vinha sempre ter comigo, tinha assim um estilo soviético, mas cheio de humor negro. "Não te preocupes. Trabalha comigo e vais ver que te vais valorizar". E a verdade é que naquele ano em que estive menos recetivo e que estava com mais receio, foi o ano de viragem da minha carreira. Acabei por ficar, acabei por ser idolatrado pelos adeptos, no campeonato era sempre dos melhores em campo e foi aquele ano que precisava para me sentir bem.

Mário Felgueiras com a mulher, na Turquia

Mário Felgueiras com a mulher, na Turquia

D.R.

No Brasov apanhou vários treinadores. O Pepe Murcia, o Sumudica...
Sim, apanhei muitos. Foi a minha melhor adaptação à Roménia, foi a forma de aprender a lidar com eles e ver como é que podemos realmente fugir àquela instabilidade toda. E o melhor que temos a fazer ali é focarmo-nos no nosso trabalho, tentarmos ser regulares, sermos um exemplo no treino porque eles ligam muito a isso. Não interessa muito a vida que tenhas cá fora, se chegares lá dentro sempre constante e regular eles dão muito valor a isso. Se eu tivesse andado nesse vaivém dos treinadores, tinha-me obviamente prejudicado. Em Portugal sofri sempre por essa instabilidade e ali aprendi que todos os fatores externos não podem influenciar a minha performance. Tanto que tive cinco treinadores e nenhum deles questionou sequer retirar-me da equipa.

Depois vai para o Cluj. Muda como, porquê, através de quem?
Entretanto faço uma época muito boa, o Brasov tinha opção de compra ao Braga, mas o patrão, que tinha muito dinheiro, ao mesmo tempo nunca queria dar dinheiro [risos]. E eu disse-lhe: “Eu gosto do Brasov e acho que tem condições para se tornar um clube importante. Se quiser estou disposto a negociar consigo. Faz uma proposta ao Braga, eu estou a ser sondado por outros clubes grandes aqui da Roménia, mas dou preferência ao Brasov”. Ele disse que ia pensar. Mas o pensar dele demorou tanto que já tinha passado o prazo para o Brasov acionar essa cláusula, ou seja os outros podiam entrar na corrida sem perder dinheiro. Quando assim foi acabei por optar pelo Cluj, porque era o melhor clube na altura. Tive propostas de todos os clubes que estavam na frente do campeonato, mas o Cluj tinha a Liga dos Campeões, tinha muitos portugueses, era um estádio novo, uma cidade diferente, um clube que parecia mais estável na Roménia, assinei.

Gostou mais de viver em Cluj?
Sim, é uma cidade universitária, é diferente. Também o facto de sermos felizes profissionalmente leva-nos a ver as coisas de uma forma mais leve e animada. Como em Cluj fui muito feliz, a cidade para mim é fantástica, é uma cidade grande, que tem muito movimento, com pessoas muito afáveis. Quase todos têm descendência húngara, têm uma forma diferente de estar.

Teve três treinadores, entre eles o português Paulo Sérgio.
Certo. O Paulo Sérgio foi no primeiro ano. O Cluj não fugia à instabilidade que é típica deles. Alternância de treinadores, querem sempre resultados rápidos, muita euforia quando se ganha e muito problema, muita negatividade quando se perde. É típico deles. Convém andarmos ali entre os pingos da chuva e acaba por passar. É difícil terem paciência e haver um projeto a médio ou longo prazo, por isso para os treinadores portugueses também era complicado. Se já em Portugal muitas vezes são despedidos rapidamente, então na Roménia...

Ficou sempre sozinho?
Eu assinei um contrato de quatro anos, que me permitia ter uma independência e estabilidade financeira grande e já não se justificava a Carina continuar em Portugal, já não se justifica o que ela ganhava tendo em conta o que eu ganhava fora e o que tínhamos projetado para as nossas vidas. Foi um ano muito desgastante em Brasov, porque se profissionalmente corria muito bem, a nível pessoal acabaram por surgir muitos problemas, muitas chatices, desconfianças... Para as coisas continuarem nós achávamos que tínhamos de estar juntos. Decidimos que ela abdicava de exercer a profissão dela. Ela acabou por vir ter comigo e desde aí andou sempre comigo. O primeiro ano em Cluj profissionalmente para mim foi fantástico, mas para ela foi muito complicado porque sempre foi uma pessoa independente, sempre trabalhou, nunca precisou de mim para nada e de um momento para o outro vê-se completamente dependente de mim. Num país que não conhecia, em que a questão das mulheres é um problema, porque quando estão associadas aos jogadores de futebol há sempre polémicas, o facto de não perceber a língua...

Que género de polémicas?
As mulheres na Roménia infelizmente tinham uma educação em que devem procurar um homem que lhes possa dar uma boa qualidade de vida, elas devem ficar em casa a tratar dos filhos. Todas elas procuram sempre alguém que as possa retirar dali ou que possa dar-lhes uma boa vida sem terem de fazer nada. Para a Carina isso era o oposto daquilo que sempre defendeu e estava habituada. Foi complicado. Na altura em que fui para Cluj ia com a promessa de que ela ia ter trabalho, mas não aconteceu.

Como assim, explique melhor?
Quando negociei o contrato com o Cluj o presidente era médico e eu disse-lhe: "A minha mulher é enfermeira, se puder arranjar no hospital uma ocupação para ela..."; “Não te preocupes que isso conseguimos". Só que foi protelando e acabaram por não arranjar nada. Até porque na Roménia não havia o curso de enfermeira. As enfermeiras lá não existem, ou é uma médica ou quase uma auxiliar médica. Não havia bem a profissão de enfermeira e depois o facto de ser estrangeira não lhe permitia ter uma série de poderes para ter um contrato de trabalho. Ela depois foi fazer voluntariado num orfanato mas o choque foi tão grande que chegava a casa quase todos os dias a chorar ou transtornada com o que se passava lá dentro e eu disse-lhe que se era para aquilo mais valia não continuar. Acabou por ir para a universidade tirar algumas formações, mas nunca é o mesmo do que acordar, ter um trabalho, ter a independência financeira e por isso foi um ano de adaptação complicado nesse aspecto. Mas viemos a Portugal no verão e casámos.

Mário Felgueiras (à esquerda) jogou no Portimonense em 2007/08

Mário Felgueiras (à esquerda) jogou no Portimonense em 2007/08

D.R.

Acaba por ficar só dois anos e meio no Cluj. Porquê?
Porque no final do segundo ano começou a haver problemas de ordenados em atraso, apercebi-me que havia ali questões que não estavam a ser corretamente tratadas, eles tinham tido oportunidade de me vender e acabaram por não o fazer. Mas como eu também tinha um contrato que considerava bom, acaba por não forçar muito a saída. Sentia-me bem, sentia-me apreciado, respeitado, no fundo tinha ali a conjuntura perfeita para continuar mais uns anos. No final do segundo ano tenho uma reunião com o patrão e perguntei-lhe o que é que ele estava a prever para a época seguinte, porque eu precisava de algo mais.

Como assim?
Eu queria ouvir a mensagem que vamos continuar na Liga dos Campeões, que ia investir. Eu tinha percebido já havia ali um desinvestimento, até pelos últimos jogadores que tinha trazido. Comecei a ver que os jogadores já não vinham com contratos tão bons. Mas ele disse-me: "Não te preocupes Mário, vou fazer uma reestruturação na equipa, vais ficar tu o capitão de equipa. Quero que sejas agora tu a pessoa a ajudar-me na equipa". Recordo-me que cheguei a casa e comentei com a minha esposa que não ia forçar a saída nesse verão. A verdade é que fomos eliminados na segunda ou terceira pré-eliminatória e desde aí nunca mais pagou um ordenado. Isto em julho. Eu tinha colegas meus que já tinham ordenados em atraso desde março, porque assinaram a licença que recusei assinar. A mim não deixavam chegar a muitos meses de atraso para eu não poder rescindir unilateralmente. Até que em outubro, novembro, chegaram aos três meses de atraso e pensei realmente alguma coisa está mal com o clube.

O que aconteceu depois?
Comecei a perceber que o clube estava a preparar tudo para entrar em insolvência. Meti a carta para rescindir unilateralmente em dezembro e a verdade é que aquilo já estava de tal forma feito que acabei por não receber o dinheiro todo que tinha para receber, recebi só 10%. Eles entretanto fizeram um plano de reestruturação económica e houve ali uma jogada qualquer, mesmo com os tribunais, em que os jogadores foram postos do lado dos credores e foi feito o plano sem termos concordado. Perdi uma quantidade ainda grande de dinheiro e em janeiro vou para a Turquia. Mesmo assim complicaram-me a vida dizendo a clubes que pensavam que eu estava livre porque tinha uma declaração provisória da FIFA, que eu ainda pertencia ao Cluj, que era tudo mentira. E acabaram por receber dinheiro pela minha transferência para o Konyaspor e eu perdi o dinheiro todo, porque entretanto o clube entrou em insolvência, não recebi nada. Parece que o clube está outra vez em grande, foram campeões. Magoou-me muito a forma como tudo foi tratado e decidi mesmo sair, porque já não confiava mais nas pessoas.

Quanto dinheiro perdeu?
Cerca de 200 mil euros.

O Konyaspor surge como?
Ponho a carta em dezembro, surgem notícias a dizer que eu já tinha rescindido e a partir daí é normal que comecem a surgir empresários e clubes interessados. Só que depois todos eles ficavam assustados por termos de ir para a FIFA pedir a declaração provisória. No fundo esta lei devia ser muito mais prática, muito mais eficiente. Uma pessoa está com três, quatro, cinco, seis meses de salários em atraso e ainda põe a carta na FIFA. Tudo bem que temos licença para assinar imediatamente a seguir, mas a verdade é que os clubes ficam sempre com receio porque se assinamos e depois vem uma multa pesada da FIFA... A FIFA devia ser muito mais célere na resolução destes assuntos.

Em 2008/09 Mário assinou pelo SC Braga

Em 2008/09 Mário assinou pelo SC Braga

Lynne Cameron - PA Images

Voltando à Turquia.
O Konyaspor surge no último dia praticamente. Na altura o Ulisses, que ainda era meu empresário, falou-me da hipótese de ir para o Bari, em Itália, que era onde estava aquele que foi meu diretor desportivo na Roménia. Disse-lhe que não ia para um clube depois de me terem posto naquela situação na Roménia. Entretanto, liga-me um empresário turco que conhecia o Neca, na altura tinha jogado comigo no Setúbal e já tinha jogado no Konyaspor. Tenho muitos empresários a ligarem-me, todos a dizerem-me que tinham proposta do Konyaspor e eu: “Que raio, o Konya trabalha com muitos empresários” [risos]. Mal sabia que aquele turco que me tinha ligado era mesmo porta-voz do clube. E é engraçada toda a história.

Força.
O período das transferências acabava no domingo e ele, na quinta-feira, liga-me e diz-me: "Pronto, Mário, os valores são estes, estes e estes. Como é, aceitas? Vou enviar-te tudo por email". E eu: "Está bem, envia tudo por email que depois respondo." Respondi, disse-lhe que sim, ele na sexta-feira de manhã liga-me e manda-me os bilhetes de avião para essa sexta à noite. Ele envia-me bilhete para Antália onde ia estar um motorista à minha espera para levar-me a Konya, tinha de passar aquelas montanhas todas da neve. Ao final da tarde vou com a minha esposa até ao aeroporto, já com as malas todas feitas, mas não sei porquê, estava com um sentimento de que não era aquilo que eu queria.

Porquê?
O contrato era muito melhor do que aquele que tinha na Roménia, não há comparação. As condições, um estádio novo, um campeonato que não tinha nada a ver com o romeno, um campeonato bom, forte, mas havia ali qualquer coisa que estava a mexer comigo. E quando chego ao aeroporto, saio do carro, vou tirar as malas e vejo que a Carina está a chorar dentro do carro. Ela disse que era normal e que quando eu já tivesse casa ia logo ter comigo. Mas deu-me assim uma pontada e disse: "Não, não vou". Meti as malas dentro do carro outra vez, entrei e disse-lhe: "Vamos ao cinema, que eu não vou para a Turquia". E ela: "O quê? Estás maluco"; "Não vou para a Turquia". Liguei o carro, voltámos para Braga e fomos ao cinema. Na viagem do Porto para Braga ligo ao meu advogado, e disse-lhe para ligar aos turcos porque não queria ir. “Vou desligar o telemóvel, vou ao cinema e não quero que ninguém me chateie"; "Mas estás maluco?", "Não, não vou. Vou ficar sem jogar até ao verão e depois logo se vê o que é que acontece". E foi assim, desliguei o telemóvel e fui ao cinema à sessão da meia-noite ou meia-noite e meia [risos].

E depois?
Estava a ver o filme, que já não me recordo qual era, mas não estava lá. Na verdade eu queria era fugir daquilo tudo, mas não tinha para onde fugir. Saio do filme, deviam ser umas duas e meia, três da manhã, ligo o telemóvel e estava carregado de mensagens, de chamadas, uma coisa tremenda. Uma mensagem do advogado dizia: "Eles aumentaram-te o contrato, já te enviei os bilhetes para o meio-dia e meia, dorme, pensa e de manhã diz-me alguma coisa que eles estão mesmo aflitos". Por acaso eu não tinha feito aquilo para fazer bluff. Eu não queria mesmo ir. Mas a minha mulher virou-se para mim: "Vamos dormir, deixas as malas no carro e amanhã de manhã, quando acordares, logo vês o que queres fazer". OK. Eram oito da manhã e já estava de pé. Acabei por ir, cheguei a Antália já de noite, fiz uma viagem de cinco horas numa carrinha toda partida, o meu advogado encontrou-se comigo em Istambul, porque fizemos escala, Porto-Istambul-Istambul-Antália. Entretanto vêm também dois empresários russos porque foram eles que desbloquearam a transferência no Cluj, e acabei por chegar a Konya de manhã. Vou ao hotel, tomo um banho, havia jogo ao meio-dia e o presidente disse-me para ir logo para o estádio para ver o jogo. No meio daquele stress total, lá vou eu ver o jogo e eles não têm mais nada, no intervalo, começam a anunciar que me tinham contratado. Eu ainda não tinha assinado nada. Avisei o presidente que se houvesse alguma coisa que não estivesse correta, não assinava. Fomos para o hotel à tarde, eu estava com uma direta, só queria era dormir, já nem queria assinar nada [risos]. Estava tudo correto, acabei de fazer os exames médicos assim um bocado às três pancadas e assinei. Isto foi no domingo e na quarta-feira seguinte jogávamos com o Galatasaray para a Taça.

E jogou logo?
O treinador chegou-se ao pé de mim: "Quero que jogues já quarta-feira"; "Ó mister, eu estou desde dezembro em casa de férias (na Roménia o campeonato parava no dia 13 ou 14 de dezembro)”. Estive mês e meio parado em casa, ainda por cima Natal, passagem de ano, e ele diz-me que ia jogar contra o Galatasaray. Perdemos 4-1, o jogo não me correu propriamente bem e no jogo a seguir para o campeonato ele já me disse: "É melhor ganhares forma, vamos esperar mais um ou dois jogos e depois começas a jogar". Na semana a seguir lesionei-me no ombro, num treino, num lance de nada, com um romeno, por acaso. Fiquei um ano totalmente parado, sem fazer nada. Ou seja, tudo aquilo que estava a pressentir… Foi o momento em que a minha carreira começou realmente a cair.

Ficou lá ou veio para Portugal?
Ficámos lá. A minha mulher já estava comigo.

O que é que acharam da Turquia, dos turcos e do sítio onde estava?
Não tenho razão de queixa nenhuma deles. Se tenho razão de queixa foi mesmo de mim, porque fiquei desesperado, foi um ano praticamente a ver os outros a jogar. Eles quiseram inclusivamente renovar contrato no ano a seguir e eu forço tudo para vir para o Paços de Ferreira. Não tenho razão nenhuma de queixa deles, ainda hoje tenho contacto com todos, a minha mulher adorava. Andava sozinha para todo o lado, ia aos mercados tradicionais, já conhecia as pessoas, ela é "viciada" em ginásio e ia ao ginásio, à parte mista. Há uma série de contrastes culturais a que nós acabámos por nos adaptar. Nós também somos muito de mochila às costas, conhecemos praticamente o país todo. Sempre que tinha folga, pegávamos na mochila, por isso foi um ano muito enriquecedor. Estive muito tempo em casa, o que nos permitiu conhecer muita coisa que quando jogava não tinha disponibilidade.

Mário com o mítico guarda redes Huigita

Mário com o mítico guarda redes Huigita

D.R.

O Paços de Ferreira surge como?
Eu tinha-me lesionado e o Konyaspor vai buscar outro guarda-redes ao Fenerbahçe, que é o que está lá ainda, e começa a jogar a titular. Regresso aos treinos em agosto e em setembro ou outubro há uns jogos para a taça. O treinador disse-me: "Vou pôr-te a jogar nestes jogos para ver como é que tu estás". Eu faço os dois jogos e no dia a seguir de manhã acordo outra vez com muitas dores no ombro, fui fazer uma ressonância e foi mesmo a golpada final. Fiquei outra vez de outubro até janeiro sem treinar, lesionado. Na altura o Marafona está para ser vendido ao SC Braga, eu queria sair a todo o custo, estava desesperado, já nem era o dinheiro que me motivava e cometi a loucura de dizer que ia para Portugal. Eles ficaram malucos comigo, os turcos.

Porquê?
Vou confessar. O que eu vim ganhar para Portugal nesse ano, nem chegava quase a um ordenado meu na Turquia. Eu queria mesmo sair dali. Pensei, vou para Portugal, vou tratar-me. Tanto que assinei com o Paços de Ferreira ainda lesionado. Venho numa quarta-feira, também no último dia de transferências, faço os exames e na manhã seguinte vou outra vez para a Turquia, sem saber se o Paços de Ferreira iria querer-me ou não, devido à lesão. Estava à espera dos resultados, entretanto ligam-me de Portugal a dizer que iam arriscar, iam ficar comigo, sabendo que eu tinha ainda mais um mês pela frente de recuperação. Já só voltei à Turquia para rescindir. Agora imagine estar ali no meio dos turcos com o tradutor pelo meio, eu a tentar rescindir, a tentar receber o meu contrato para vir embora. Foi quando lhes mostrei: "Olhem, esta é a minha proposta para ir para o Paços de Ferreira, vou ganhar isto por mês". Eles pensavam que era um prémio de vitória: "Não, isto não é um prémio de vitória, isto é o meu salário por mês. Para vocês verem que não estou maluco. Quero ir embora" [risos]. O presidente só disse: "Então tens mesmo de ir embora porque não estás bem da cabeça. Se estás a abdicar do que te damos aqui para ires para Portugal ganhar isso é porque realmente alguma coisa não está bem". Eles queriam ainda renovar comigo mais um ano.

Mas se tinha gostado tanto da Turquia porque é que não queria lá continuar?
Porque o guarda-redes, o Serkam, estava bem, tudo lhe corria muito bem, nessa época eles até ganharam a Taça da Turquia, e não poder participar, ver todos a ganhar, as festas no balneário, tudo isso estava a custar-me muito. Por mais dinheiro que eu ganhasse já não sentia aquele ânimo. Foi isso que me levou a sair. A minha mulher disse-me: "Vais-te arrepender. Tens a certeza?" Também já estava um pouco desconfiado em relação aos fisioterapeutas que não davam aquele aconselhamento e acompanhamento que eu também precisava. E comecei a ouvir a opinião de médicos, uns diziam que eu nem podia jogar mais, outros que podia mas tinha que ter pessoas competentes ao meu lado, tudo isso levou-me a vir para o Paços de Ferreira que na altura tinha um departamento médico fantástico.

Está arrependido de ter voltado?
Estou. É o único arrependimento que tenho na minha carreira. Não devia ter voltado, não pelo país ou pelas pessoas, obviamente, porque isso é inquestionável que nós só damos valor ao nosso país quando estamos fora, mas em prol da minha carreira não deveria ter voltado para Portugal. Mas, por outro lado, nasceu o meu filho, uma série de coisas aconteceram, voltei para a universidade, conheci pessoas muito boas.

Mário (à esquerda) ao lado de Paulo Sérgio, numa conferencia de imprensa do Cluj, da Roménia

Mário (à esquerda) ao lado de Paulo Sérgio, numa conferencia de imprensa do Cluj, da Roménia

PAUL ELLIS

Vamos por partes. Volta para Portugal e...
Volto a treinar em abril. Só que vinha de um interregno de um ano e tal, obviamente precisava de treinar muito mais tempo para voltar a estar em forma. Na altura, no Paços, o guarda-redes era o Defendi, que começou a jogar depois do Marafona ter saído. Também estava bem, a equipa estava bem, estávamos a disputar os lugares europeus.

Era Jorge Simão o treinador.
Era o Jorge Simão, sim. Esse período também me custou porque de um momento para a outro fico sem ganhar dinheiro. E venho para Portugal na expectativa de que como tinha estado lá fora as pessoas já me conhecem, já sabem que sou mais experiente, mas acabo por sentir que nada disso era verdade. Ainda me associavam ao Mário mais novo, outros associavam ao Mário que vem lá de fora e já não quer saber nada de Portugal, vem só para acabar a carreira, outros, que eu vinha porque estava lesionado... Ou seja, a conjuntura toda não estava favorável. Depois comecei a treinar, comecei a ver que o Rafa [Rafael Defendi] estava bem e por mérito dele, fiquei ainda um mês a ir para o banco. Na época a seguir estava a pensar que ia ser a minha época, faço a pré-época mas acabo por não começar a jogar.

É quando nasce o seu filho?
O Vicente nasce em novembro de 2016.

Assistiu ao parto?
Não, não tive coragem. Estava cá fora, mas a médica passou-mo logo para cima de mim, ainda cheio de sangue e tudo. Não foi parto normal, mas mesmo que fosse normal não queria. Essas coisas fazem-me confusão [risos].

Na segunda época no Paços só faz 10 jogos.
Essa segunda época começa a 15 de agosto e eu vi que não era opção, quem era o treinador de guarda-redes era o Matos, que tinha estado comigo no Setúbal. O facto de ele ter vindo até pensei que poderia ser um plus na decisão de jogar, pelo facto de já me conhecer, de saber como é que eu trabalhava, mas a verdade é que eles optaram por continuar com o Rafa, dando continuidade ao que ele tinha feito na época anterior. E mais uma vez acontece uma situação engraçada de eu ir para o Boavista porque o Mickael estava para ser vendido para o Sunderland e então abordaram-me para saber a minha situação. Fui falar com o presidente do Paços de Ferreira. Faltavam dois dias para terminar, mais um desespero, mais um stress, ir para casa sempre com o telefone na mão e acabam por não me deixar sair. O presidente disse que contava comigo. Passado uma semana o Rafa lesiona-se e começo a jogar. Estou a jogar a bem e passados uns jogos lesionei-me outra vez [risos].

Onde?
Lesiono-me nas costas e estive cerca de dois meses sem treinar, sem jogar. Mais um período em que estava outra vez a ficar maluco. É quando nasce o meu filho. Recordo-me que o meu filho nasceu e eu quase não podia pegar nele ao colo porque as dores nas costas eram grandes. Quando volto a treinar, o Rafa já tinha voltado a jogar, era sempre um dos melhores sempre em campo, por isso a mim só me coube esperar. Entretanto há mudança de treinador e acabo essa época a jogar.

A época a seguir é a última no Paços de Ferreira e é uma época um bocado conturbada.
Muito conturbada. Foi uma época muito difícil de gerir a nível emocional, a nível físico...

Um das coisas que Mário mais gosta de fazer é viajar

Um das coisas que Mário mais gosta de fazer é viajar

D.R.

É essa época em que há o jogo com o FC Porto e perdem 6-0. Consegue encontrar uma justificação para esse descalabro?
Não. Da mesma forma que perdemos 6-0, também perdi 8-1 com o Vitória de Setúbal, na Luz. O futebol tem destas coisas, quando animicamente não estamos bem, tudo salta à vista e basta em momentos cruciais do jogo a equipa não estar estável, é um navio que se afunda. Recordo-me que esse ano foi um ano muito complicado nessa gestão de compromisso, a forma como nos preparávamos se calhar não estava a ser a melhor. A nível emocional, a nível mental, não estávamos preparados para entrar numa situação de crise e conseguirmos sair dela, o grande problema do Paços de Ferreira foi mesmo esse. Entretanto a direção decidiu demitir o Vasco Seabra e é quando entra o Petit. Houve nos primeiros jogos uma mensagem boa, a equipa acabou por ganhar alguns jogos mas depois o discurso não entrava nas nossas cabeças e o Petit acabou por sair. A verdade é que havia ali uma série de problemas à volta do clube que também não nos ajudaram.

O que é que estava a acontecer?
O Paços de Ferreira vinha habituado de anos muito bons, na Liga Europa, Liga dos Campeões, inclusive com o Paulo Fonseca. Havia aquela imagem de culto ao Paulo Fonseca. Depois a proximidade dos adeptos criou confusão com alguns jogadores, tudo isso junto, também algumas indecisões se calhar da parte da direção. O facto de substituir treinadores mostra que não está segura daquilo que decide, tudo isso junto acabou por levar-nos ao fecho que tivemos, que foi a descida de divisão, e que foi muito complicada. Penso que ninguém pode duvidar que quando se desce de divisão toda a gente sofre. Para mim foi um ano atípico, um ano que me fez sofrer muito mas em que aprendi muito.

Aprendeu o quê?
Aprendi a dar valor aquilo que realmente deve ser valorizado. Por vezes andamos de tal forma inseridos nesta bola de neve que é o futebol que vamos de arrasto com ela e não damos valor a muitas outras coisas. No jogo com o FC Porto, em que ganhamos 1-0, fui muito criticado por queimar tempo. Eu durante muito tempo joguei infiltrado, estava com um problema no tendão de Aquiles. No lance que as pessoas falam que ninguém me tocou e que eu me atirei para o chão, obviamente que se a minha equipa estivesse a necessitar de ganhar, eu teria de levantar-me rápido, teria de fazer um esforço maior para não perder tanto tempo. Naquele momento o que senti foi dor, obviamente não para estar ali completamente estendido, mas aproveitei para a equipa, para os meus colegas, aqueles que para mim eram a equipa da minha cor, pudessem descansar. Estávamos em último, as pessoas esquecem-se que estávamos a lutar contra o FC Porto, uma equipa que ainda não tinha perdido naquele ano. Os nossos adeptos tinham entrado no nosso treino nessa semana, tinham apertado connosco, ou seja, estávamos a ser acusados de facilitar contra o FC Porto porque o Benfica dizia isto e aquilo, o FC Porto dizia aquilo e aqueloutro, nós andávamos ali no meio daquela bola toda. Tudo isso não nos leva a ter comportamentos se calhar, que não são dos mais corretos, mas a verdade é que nós tínhamos de ganhar a todo o custo e acabámos por ganhar.

Sofreu na pele aquele gesto. Chegou a ser ameaçado, não foi?
Sim, posso dizer que cheguei ao balneário e tenho o meu telemóvel já inundado com mensagens a insultarem-me, a ameaçarem-me. Alguém descobriu o meu número, escreveram uma série de coisas no Facebook, tive de fechar essas coisas todas. Na Roménia era idolatrado, na Turquia também, aqui funcionou um pouco ao contrário. E o facto de estar em casa, o facto de ver o nome dos meus pais expostos, a morada, os NIFs, todas essas coisas, custou-me muito. Foi uma das razões que me fez dizer isto não é o futebol pelo qual lutamos e queremos. Percebo a frustração das pessoas quando perdem, da mesma forma que percebo a alegria de todos aqueles que ganham, mas tem de haver um equilíbrio e uma dignidade mínima. Ninguém se lembrava que tínhamos perdido 6-0 na primeira volta, aí já ninguém disse nada. Todas essas diferenças, esses desequilíbrios começaram a cansar-me. Hoje, olhando para trás, aprendi que isso não vale a pena. Na altura devia ter pensado de outra forma, devia ter agido de outra forma, não dando tanta importância a esses acontecimentos. Nem soube aproveitar esses momentos, depois, passado um mês, parto a mão num jogo contra o Sporting.

Num lance com o Bas Dost.
Sim. Acabámos por descer de divisão. Fomos todos para Portimão, no jogo em que descemos, foi a equipa toda. E é uma impotência a pessoa não poder estar ali dentro do campo, não poder ajudar, os meus colegas aflitos, o pessoal nervoso, ansioso, a equipa estava completamente bloqueada e não conseguimos pontuar, quando dependíamos somente de nós.

Em 2014/15 Mário assinou pelo Konyaspor, da Turquia

Em 2014/15 Mário assinou pelo Konyaspor, da Turquia

D.R.

E é aí que rescinde com o Paços de Ferreira por mútuo acordo?
Quando venho para o Paços assinei por ano e meio. Recuperei do problema que tive no ombro, e na altura em que peço para sair para o Boavista, o presidente não me deixou sair e em janeiro há outra possibilidade de voltar à Roménia, mas não me deixam sair também e ele propõe-me a renovação do contrato. Nessa altura tinha 30 ou 31 anos. Disseram-me: "Tendo em conta tudo aquilo que tens sido para nós, no balneário, a forma como tens estado a treinar, o facto de ficares chateado por não jogar mas respeitando sempre toda a gente, tem sido um exemplo". Quiseram renovar por mais quatro ou cinco anos. Eu tinha 30 anos, estava na universidade outra vez...

Em que curso?
Psicologia, ainda estou a tirar. E então pensei, bem verdade seja dita já não vou voltar a ganhar dinheiro no futebol que me permita ter uma vida sem fazer mais nada. Vou estar em casa, tenho o meu filho, permite-me ir e vir todos os dias de Braga para Paços de Ferreira, tenho a universidade, tenho investimentos feitos, é um clube estável - estavam na altura a fazer os balneários novos -, para mim vai ser impecável. Renovo e nesse ano descemos de divisão. O meu nome andava a ser falado, perguntavam porquê renovar por tantos anos e então propuseram-me reduzir o salário ou rescindir. Tendo em conta que íamos para a II Liga, se calhar também era um favor que fazia a algumas pessoas e acabei por dizer: "Ok, se tiver alguma proposta termino o contrato e vai cada um à sua vida". E foi o que aconteceu. Surgiu a hipótese de ir para o Anorthosis, terminei o contrato que tinha com o Paços de Ferreira e fui para o Chipre.

E que tal?
No Chipre foi muito mau [risos]. Íamos à pré-eliminatória da Liga Europa que começava em finais de junho. O primeiro jogo era com uma equipa da Albânia e então a pré-época tinha que começar logo no início de junho. Eu estava ainda lesionado da mão que tinha partido em abril. Vou ao Chipre para negociar. Já tinha o contrato praticamente todo estabelecido, chego lá e o presidente: "Estive a ver as tuas lesões e ainda tenho um bocadinho de medo"; "Presidente, então fazemos assim vou fazer as ressonâncias que o presidente quiser e se eu tiver algum problema não se preocupe que eu não assino e vou-me embora para casa. Só me paga o bilhete de avião para me ir embora". Fiz ressonância ao ombro, às costas, à mão, fiz ressonância a tudo e ele acabou por dizer: "Dizem-me que está tudo operacional". Assinei o contrato, entretanto fazemos a pré-época e vamos jogar com a equipa da Albânia e somos eliminados por uma equipa semi-amadora, alguns jogadores trabalhavam, e aquilo foi um choque.

Imagino.
O Anorthosis é uma equipa grande no Chipre, equiparável ao Apoel, é uma equipa que tem muitos adeptos, vivem intensamente, têm um estádio à inglesa, num treino à porta aberta tínhamos sete mil pessoas no estádio, é um clube mítico. Somos eliminados da Liga Europa e começa logo a haver problemas de dinheiro. Comecei a perceber que havia alguns pagamentos que iam começar a atrasar e entretanto tivemos que ficar o mês de julho e de agosto praticamente todo em pré-época porque o campeonato só começava no dia 25 de agosto. Ou seja íamos ficar dois meses a treinar, com 38/40 graus, ainda por cima no Chipre há poucas equipas e nenhuma estava a fazer pré-época, não tínhamos com quem fazer jogos. Aquilo parecia lazer. Entretanto eu queria trazer a minha família mas não conseguia porque era época alta, aquilo é praia, é só turismo, era muito difícil arranjar casas. Eu tinha que andar sempre de hotel em hotel. Ficava três dias num, enchia, tinha de ir para outro, andava sempre com as malas todas. Foi um stress. Se tivesse 20 anos ainda me sujeitava a isto, agora com 30, com as lesões todas que tive, venho para aqui e ainda tenho de andar de um lado para o outro?

Numa das várias viagens que fez com a mulher

Numa das várias viagens que fez com a mulher

D.R.

Veio embora?
Não, lá tentei adaptar-me, também me apercebi que eles eram um bocadinho assim, era a forma deles estarem, e a minha esposa acaba por vir com o meu filho no início de agosto. Vieram, ainda não tinha casa, estávamos num hotel que era terrível. Entretanto encontro uma casa com valores astronómicos de renda, mas estava tão desesperado que acabei por aceitar. Vou para essa casa e o que é que acontece? Estava cheia de baratas [risos]. Só que as baratas lá são tipo pássaros, não são como as nossas, aquilo voam e tudo [risos]. A casa tinha sido toda renovada, parecia fantástica, com piscina, com jardim e quando começamos as limpezas, começamos a ver uma ou outra. Há até um dia que saio com o meu filho para ir buscar comida e liga-me a Carina aflita: "Vem rápido para casa, vou-me já embora". Quando cheguei a casa estava uma barata enorme nos cortinados. Depois descobri que tínhamos ninhos de baratas atrás das sanitas... Era horrível, até se atiravam para a piscina. Foram lá uns homens fazer a desinfestação e disseram que nunca tinham visto nada assim.

Ficaram lá?
Sim. Vem o primeiro jogo do campeonato, isto já no final de agosto, e eu andava com umas dores nas costas, mas eles sempre a forçarem, o treinador de guarda-redes sempre a dizer que eu tinha de treinar. Eu também não podia facilitar. No aquecimento para o jogo acabei por sentir uma pontada muito grande e fiquei sem função motora na perna direita. Fiquei assustado, não tinha controle motor, praticamente não conseguia levantar o pé. Portanto, nem me estreei no campeonato. Levam-me para o hospital ,fazem uma ressonância e tinha o fragmento de um disco partido, que ficou a comprimir o nervo. Decidiram fazer tratamento intravenoso e acabei por ficar no Chipre. Quando volto a treinar no início de outubro, o presidente diz-me: "Tu não podes jogar"; "Não posso jogar porquê?" "Porque tirei-te a licença". Sem eu saber retiraram a minha inscrição na Federação e foram buscar outro guarda-redes à Lazio.

O que fez?
Eles quiseram um acordo. “Pagamos um mês e vais-te embora"; "Desculpe lá mas vocês não me vão pagar só um mês, de agosto ou de julho - porque eles ainda por cima não me tinham pago quase nada. Agora vou para onde, lesionado?". Então fiquei lá até janeiro, até que meti a carta para rescindir unilateralmente, alegando salários em atraso e o facto de eles me terem retirado a licença porque não o podiam fazer sem a minha autorização. Voltei para Portugal com esta questão das costas que eles não trataram totalmente bem, mas entretanto estava em condições de jogar. Tive propostas para ir para fora mas já não me interessava, acabei por ir ficando, como em Portugal diziam que eu estava sempre lesionado, tomei a decisão de me retirar.

Mário Felgueiras a defender a baliza do Paços de Ferreira, frente ao FCP

Mário Felgueiras a defender a baliza do Paços de Ferreira, frente ao FCP

MIGUEL RIOPA/Getty

Mas ainda chega a assinar pelo Espinho.
Chego a assinar com o Espinho porque nesse verão estava com aquela coisa de vou jogar aqui em Portugal, já nem era pela parte financeira porque eu já estava com outros negócios, envolvi-me na área da restauração, do imobiliário, ocupei-me com os estudos, ou seja, eu queria era terminar com aquele sentimento bom de futebol. E o Espinho surge porque eu tinha jogado lá dois anos e tenho grandes amigos. Estava lá o Diogo Valente, que é um dos amigos que tenho no futebol. Entretanto o fisioterapeuta, o Pepito, que já era do meu tempo, um grande maluco também sempre a chatear-me e no fundo isso acabou por promover aquele gosto bom do futebol, no sentido de ser apreciado. O presidente, o senhor Nuno e o vice-presidente falaram comigo e eu disse-lhes: "Fazemos assim, vou vendo como é que as coisas se desenrolam, vou de férias para o Algarve, vou lá passar uns dias, vou pensar, porque se for para aí quero estar a 100%, não quero ir só para andar a enganar". Fui de férias, entretanto tinha outras propostas na segunda liga, que eram até valores inferiores aos do Espinho, e toda essa "importância" que o Espinho me deu, fez-me sentir que eles mereciam e acima de tudo mereciam porque realmente ajudaram-me quando eu mais precisei deles, no início da minha carreira. Foi isso que me levou a tomar essa decisão. Facilmente chegámos a acordo. Nos primeiros dias fui treinar, sentia-me bem com toda a gente, é um grupo espectacular, mas fisicamente já não era o mesmo e não era correto perante os meus colegas, perante os adeptos. Depois o facto de estar metido em outros investimentos, estava a divergir a minha atenção, por isso decidi parar.

Que investimentos são esses?
Sempre gostei do imobiliário, de comprar e de vender. E tenho na área da restauração um franchising de uma pastelaria. Agora, com esta crise, já não é o melhor negócio, mas se Deus quiser, melhores dias virão.

Está em que ano do curso de psicologia?
No segundo ano.

Porquê psicologia?
Senti que ao longo da minha carreira se tivesse tido um acompanhamento, ou se tivesse sido mentalmente mais forte, mais estável, teria tido outro sucesso. Hoje em dia já se fala muito mais, ainda bem. Estar dentro de um campo, tomar decisões em segundos, ouvir 30, 40, 50 ou 100 pessoas a gritar, a insultar o tempo tempo; as 24 horas antes do jogo, a semana toda, a ansiedade, acho que isso vai muito mais além do que qualquer formação que possamos tirar sobre o que é a vida ou sobre o que é pensar positivo. No alto rendimento há coisas que só passando por elas para percebermos o que é que sentimos. Da mesma forma que eu passei por muitos momentos de ansiedade, de nervosismo e incertezas, muitos outros colegas também o passaram e passam. Uns confessam, outros não, sofrem sozinhos. Vivemos numa era de muitos haters, toda a gente diz: "Ah, eles têm uma vida fantástica". A dor não é mensurável, para mim é muito doloroso, para ti pode não ser nada. A área da psicologia sempre me chamou a atenção. Pode vir a ser uma ferramenta útil para vir a ajudar colegas seja como como diretor num clube, ou como psicólogo, ou como treinador, treinador de guarda-redes, não sei. Tive situações num grupo de 25 jogadores, em há um ou outro que estão chateados e a maior parte dos treinadores nem sequer quer perceber porque é que eles estão chateados. Chegam de manhã, veem que ele está chateado e automaticamente: "Este gajo já não conto com ele". Eu acho que a função do treinador, sendo um líder, como todos os outros líderes de uma empresa, será a de convergir toda a gente no mesmo caminho e no mesmo sentido. Eu hoje nas minhas empresas tenho mais de 10 colaboradores e não é fácil, também há dias em que eles têm comportamentos em que eu facilmente me salta logo a tampa, mas depois tenho de parar e pensar, mas se calhar ele vive com um salário mínimo, tem um filho, tem casa para pagar, tem o avô doente, etc. Os comportamentos sempre me fascinaram e tentar perceber a razão, não é arranjar uma desculpa, mas tentar perceber a razão de ser fascina-me.

Mário com o filho Vicente

Mário com o filho Vicente

D.R.

Diz-se que a posição de guarda-redes é a mais ingrata numa equipa. Concorda?
Concordo e isso vem um pouco ao encontro daquilo que eu estava a falar. Nunca fui ponta de lança mas sendo guarda-redes e estando cá atrás o nosso erro é sempre escrutinado ao máximo. Qualquer golo que sofram, olham sempre para o guarda-redes como se ele pudesse ter feito mais. E eu facilmente enumero uma série de erros que acontecem antes e que poderiam ter prevenido aquele golo. E hoje há as redes sociais, um erro que aconteça, uma má declaração que tenhamos, uma má prestação, é muito complicado. Acredito que, com o tempo, as coisas fiquem ainda piores e os miúdos que hoje começam a jogar não têm a mínima noção do que é ser atleta de alto rendimento, o que é estarem expostos. E no fundo todos nós procuramos a apreciação dos outros.

Qual foi a melhor defesa que fez, tem ideia?
Não foi a melhor defesa, mas acredito que tenha sido se calhar a defesa que tenha marcado a viragem, o ponto favorável da minha carreira, que foi quando fomos jogar pelo Brasov a Cluj. Eu sabiam que eles estavam a observar-me, e há um penálti, defendo, a bola vai ao poste e depois sai. Senti claramente que ao defender aquele penálti tinha praticamente conseguido que eles me contratassem.

Qual foi o golo mais difícil de engolir?
Os frangos são todos difíceis de engolir. Houve dois que me marcaram. Um foi num jogo pelo Vitória de Setúbal na Madeira com o Marítimo. Um livre que eu ainda hoje não sei como é que pus a bola dentro da baliza. E é um outro, num jogo contra o Inter de Milão, pelo Cluj. Depois da fase da Liga dos Campeões passámos para a Liga Europa porque terminamos em terceiro e há um lance em que vou agarrar a bola, o campo estava todo gelado, e não sei como é que a bola me escapou por entre as pernas, sobra para o Guarín, que passa ao Cassano que acabou por fazer golo. Esse golo manchou as minhas exibições.

E o melhor defesa com quem jogou? Aquele com quem se entendeu melhor?
Não quero dizer que é o melhor defesa, vou dizer que é a melhor pessoa, que para mim é o que vale mais, é o Ricardo Xerife que estava no Paços de Ferreira e que agora está no Feirense. Para mim é o jogador mais completo em todos os sentidos. Valores que se sobrepõem aos valores futebolísticos.

Qual era a sua maior angústia enquanto guarda-redes?
Quando começava o jogo e a minha equipa não conseguia sair do nosso meio-campo e as bolas andavam sempre ali a sobrevoar a grande área e eu não conseguia tocar nelas. Isso nos minutos iniciais angustiava-me.

Quem foi o melhor avançado contra quem jogou?
O Falcao e o Van Persie, talvez.

O melhor guarda-redes com quem jogou na mesma equipa?
O Eduardo.

Quais eram os seus pontos mais fortes e os mais fracos?
O ponto mais forte, o jogar bem com os pés. Penso que o meu jogo posicional era muito bom, não tinha necessidade de fazer grandes voos porque acabava por me posicionar bem. Fazia uma boa leitura do jogo, nos passos nas costas da defesa. Penso que era um guarda-redes eficaz acima de tudo, não era de show off. Os pontos fracos... Se calhar nos cruzamentos não era tão eficaz a sair dos postes.

Tem ou teve alguma alcunha?
Na Roménia chamavam-me Super Mário.

De quem foi a maior dura que levou?
Tirando as do Jorge Jesus, os treinadores nunca me chamaram a atenção. Tive numa altura um problemazito com o Carlos Brito, no Rio Ave, mas penso que isso se passou por estarmos os dois muito tensos nesse dia. Foi um lance em que ele queria que eu tivesse saído da baliza e eu disse-lhe que não tinha hipótese. Ele disse-me qualquer coisa do tipo: "Está mas é calado e na próxima sais, se não vais mas é tomar banho". E eu disse-lhe: "Então vou tomar banho"; "Então vai tomar banho, vai para casa....". Aquelas coisas. Depois fui pedir desculpa e acabou por serenar tudo.

Em 2018/19 o guarda redes assinou pelo Anorthosis, do Chipre

Em 2018/19 o guarda redes assinou pelo Anorthosis, do Chipre

D.R.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Tive um Panamera que comprei na Roménia e que trouxe para Portugal. Tive-o aqui mas depois por causa dos problemas nas costas, vendi-o.

Tem tatuagens?
Tenho algumas. A primeira que fiz é um gato, tinha uns 15 anos quando a fiz. Não sei como é que a minha mãe deixou. Na altura tinha que se ter um documento em como a mãe autorizava a fazer a tatuagem. Fiz um pouco por irreverência.

Porquê um gato?
Era um gato que nós tínhamos e do qual eu gostava muito.

É supersticioso?
Eu acredito que tudo está relacionado de certa forma e que o facto de acreditarmos em alguma coisa, no que quer que seja, se calhar conseguimos canalizar algumas energias para aí. O número 13 a mim sempre trouxe alguma confiança, alguma bonança.

E tem fé, acredita em Deus?
Já acreditei mais, já acreditei menos, mas tenho vindo a aprender que temos de acreditar acima de tudo em nós, em sermos correctos. E acredito que há energia positiva, seja Deus, seja aquilo que quisermos chamar.