Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Peixoto: “No FC Porto levava muita porrada no treino e não havia faltas. O Mourinho combinava com os jogadores e era pimba, pimba, pimba”

A César Peixoto só faltou o Sporting, clube de que gostava quando era pequeno, para poder dizer que jogou nos três grandes de Portugal. Ainda que os tempos de maior glória tenham sido vividos no FC Porto, foi no Benfica que conquistou o título que lhe deu mais gozo, duas épocas depois de o terem dado como acabado para o futebol. Teimoso e irreverente na juventude, explica a mística do FC Porto, fala da grandeza do Benfica e da eficácia de JJ, da sua passagem fugaz por Espanha e de como fez questão de terminar a carreira na posição que lhe dava mais gozo, a de médio. Depois, tornou-se treinador e deixou recentemente o comando do Chaves, mas diz-se tranquilo e à espera de novos projetos

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

Nasceu em Guimarães. Fale-nos um pouco da sua família.
Sou de uma família humilde, trabalhadora. O meu pai trabalhava, já está reformado, mas trabalhou quase toda a vida na câmara, como motorista. A minha mãe trabalhava numa fábrica metalúrgica onde faziam talheres, garfos, facas, esse tipo de coisas. Tenho mais um irmão e uma irmã, eu sou o mais velho.

Era um miúdo era reguila ou dos mais tranquilos?
Sempre fui o mais reguila da família [risos]. A minha mãe diz que eu era muito irrequieto e que tinha de estar sempre com o dobro da atenção.

Gostava da escola?
Gostava, mas não estudava muito. Gostava de ir para a escola, de lá estar com os amigos, a jogar futebol e matraquilhos. As notas eram o "quanto baste" para ir passando de ano.

O gosto pelo futebol vem daí, dos recreios da escola, da rua?
Sim. Os meus pais iam trabalhar de manhã cedo e nós ficávamos com a minha avó paterna durante o dia. De manhã ia para a escola e à tarde andava pela aldeia de um lado para o outro, não havia os perigos de hoje em dia, por isso andava sempre na rua a jogar futebol com os amigos, fazíamos as balizas com duas pedras e jogávamos uns contra os outros, passava o dia fora de casa. Os meus irmãos já nem tanto, mas eu sempre mais irrequieto, não parava em casa.

Nessa altura quem eram os seus ídolos? Quem é que tentava imitar?
Pode parecer estranho, mas nunca tive muitos ídolos. Sempre quis ser jogador de futebol, mas não tinha nenhum ídolo que dissesse: quero ser igual a ele. Não tinha mesmo.

E clube? Torcia por qual?
Sempre gostei do Barcelona e do AC Milan. Na altura o campeonato italiano era muito forte e eu admirava a equipa do George Weah, Baresi, Maldini.... Também o Barcelona do Cruyff e mais tarde do Bobby Robson. Em Portugal, na minha infância, já não tenho bem noção, mas acho que era sportinguista [risos]. Mas a partir do momento em que me tornei profissional, joguei no FC Porto, joguei no Benfica, tive várias oportunidades de ir para o Sporting, mas nunca fui, por isso não era fã de nenhum clube. Lembro-me que gostava do Sporting, na altura em que tinha o Figo, o Paulo Sousa, o Juskowiak, o Paulo Torres, o Peixe, uma série de jogadores portugueses. Gostava dessa equipa, não era especialmente do clube.

Lá em casa eram adeptos de quem?
É tudo do Vitória de Guimarães.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não, nunca houve.

César Peixoto em bebé

César Peixoto em bebé

D.R.

Quando e como começa a jogar futebol num clube?
Aos 10 ou 11 anos. Havia treino de captações no Vitória de Guimarães, eu ouvi falar disso em algum lado e pedi ao meu pai para me levar. Fui eu e um primo, fomos os dois. Acho que foi no segundo treino, fui escolhido no meio de cento e tal miúdos. Fui como qualquer outro miúdo, à procura do sonho, à procura da oportunidade, à espera que me escolhessem e acabou por correr bem.

Mas a dada altura foi para o Ribeira de Pena.
Sim. O Vitória de Guimarães tinha sempre iniciados B, iniciados A, juvenis B, juvenis A, juniores B, juniores A. E a equipa B de juvenis jogava pelo Ribeira de Pena. Era um protocolo que eles tinham, treinávamos lá todos, emprestados. Ou seja, treinávamos em Guimarães na mesma, mas ao fim de semana jogávamos lá em Ribeira de Pena.

Aconteceu o mesmo quando representou o Brito SC em 1996/97?
Sim, exatamente a mesma coisa. Era um protocolo que eles tinham, fomos emprestados, eu e o Makukula, o avançado que esteve no Benfica e no Sevilha. Acabei por fazer uma boa época e regressei ao Guimarães no último ano de júnior, com o professor Manuel Machado. Enquanto estive no futebol de formação nunca fui visto pelo clube como um potencial jogador para a equipa principal. Tive de andar pelas equipas B aqui e ali até que, no último ano, vinguei. Dei o salto em termos físicos mais tarde do que os meus colegas. Eles diziam que tinha muita qualidade mas que fisicamente era muito franzino e naquele tempo dava-se muita importância a isso, hoje em dia felizmente nem tanto mas dava-se muita importância a isso nas camadas jovens do Vitória de Guimarães. Quando fui para o Brito dei o salto fiz uma boa época mas mesmo assim não fiquei na equipa principal do Vitória.

Começa a jogar em que posição?
Como infantil comecei como defesa esquerdo, mas rapidamente passei a extremo esquerdo. Era muito rápido na altura e muito forte no um para um, fazia muitos golos. Lembro-me que no último ano de júnior fiz 20 ou 21 golos, era muito agressivo ofensivamente, marcava também de bolas paradas, ainda o fiz depois enquanto profissional, mas era muito rápido.

Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
500 euros. Quando fui para o Brito emprestado, ganhava 70 euros.

O que fez com esse primeiro dinheiro, lembra-se?
Os 70 euros do Brito nunca os cheguei a receber [risos], eles não me pagaram. Foi acordado mas nunca chegaram a pagar. Depois no Caçador das Taipas, o clube da minha terra, quando comecei a receber uma das primeiras coisas que fiz foi comprar o meu primeiro carro, um Seat Ibiza comercial. Pagava a prestação, acho que eram 250 euros e ficava com os outros 250 euros para mim. Mas houve uma fase, no Brito SC, mesmo antes de chegar ao último ano dos juniores no V. Guimarães, em que estive para abandonar o futebol.

Então?
Na altura eu já queria ir para o Clube Caçadores das Taipas e o Vitória de Guimarães não me deixava porque tinha aquele acordo com o Brito. Mas eu queria ir para o Taipas, que era o clube da minha terra, e andei ali meio frustrado com aquilo. Acabei por deixar de estudar e como a minha família era humilde, acabei por ir trabalhar para uma fábrica de calçado na minha freguesia.

Foi fazer o quê em concreto?
Fui fazer sapatos e sapatilhas, que era o que eles faziam lá. Aí recebi o meu primeiro ordenado, que foram 250 euros. Depois é que acabei por ir para o Brito, trabalhava e jogava. Trabalhava durante o dia na fábrica de calçado e treinava à noite no Brito, nos juniores. Ao fim de semana jogava pela equipa de seniores do Brito, porque, como estava muito bem, o treinador punha-me a jogar pela equipa principal, que era no regional. Domingo de manhã ainda jogava pelos juniores. Fazia dois jogos por fim de semana. Isto com 17 anos.

Deixou os estudos em que ano?
Completei o 9º ano. Comecei o 10º mas entretanto fui trabalhar.

Os seus pais não se chatearam por deixar os estudos?
Não, como já disse, na altura eu era um bocado malandro, eles tinham dificuldades e tive de ir trabalhar por inerência das dificuldades que eles tinham e por eu também não ser um aluno brilhante...

César Peixoto no carro com Pinto da Costa, a caminho de ser apresentado no FCP

César Peixoto no carro com Pinto da Costa, a caminho de ser apresentado no FCP

D.R.

Entretanto regressa ao V. Guimarães?
Sim, a época correu-me bem no Brito, o Vitória chamou-me e aí os meus pais, da mesma forma que quase me obrigaram a trabalhar na fábrica, também perceberam que ali poderia continuar a perseguir o meu sonho. Saí da fábrica e fiquei só a jogar nos juniores do Vitória de Guimarães. Eles fizeram um esforço e eu acabei por fazer uma boa época, mas não fiquei na equipa principal do Guimarães. O Vitória tinha o Fafe, que era a equipa satélite, e queria que fosse para lá, mas eu não quis, quis romper com o Vitória e fui para o Taipas.

Não quis ir para o Fafe?
Porque queria ficar na minha terra, mais perto, conhecia as pessoas. E também queria desvincular-me um pouco do Vitória porque senti que nunca fui muito valorizado e então queria sair debaixo das rédeas deles e ir para um clube onde as pessoas me conheciam, onde conhecia toda a gente e onde sentia que podia ser valorizado. Foi quando fiz o primeiro contrato como jogador, a receber 500 euros.

No Caçador das Taipas faz duas épocas e é campeão.
A primeira época foi na II B, tive uma lesão, uma pubalgia que me impediu de jogar bastantes jogos e a equipa desceu para a III divisão. Eu passei metade do campeonato lesionado, não consegui jogar. Entretanto na época seguinte eu estava para sair mas não consegui, fiquei no Taipas e, aí sim, fomos campeões nacionais da III divisão. Tinha uns 19, 20 anos.

Já tinham começado os namoros, as saídas à noite.
Sim, sim, sempre gostei [risos].

Como surge o interesse do Belenenses?
Nessa época fomos campeões, na Taça de Portugal também fomos longe e eu marquei uns 20 golos, fiz uma época fantástica, e começaram a surgir vários interessados. O Belenenses surge porque o meu treinador, o mister João Cardoso, foi jogador do Belenenses e aconselhou-os a irem ver-me no Taipas. Eles seguiram uns dois, três jogos, gostaram e entraram em contacto. Mas havia também o Gil Vicente muito interessado, era o mister Luís Campos o treinador, queria contratar-me o mais rápido possível. Lembro-me de reunir com o Gil Vicente, sem empresário, só tive empresário quando fui para o FC Porto. Tinha duas propostas concretas, depois surgiam outras mas eu já estava mais ou menos com as coisas decididas e falei-lhe dos valores que o Belenenses me oferecia, mas eles não acreditaram, achavam que eu estava a enganar, que era muito, e vim embora. Depois ligou-me o mister Luís Campos, acho que o Gil Vicente ia jogar ao estádio da Luz, e ele queria-me de tal forma que me punha a jogar logo a titular no estádio da Luz, contra o Benfica.

A ideia não o seduziu?
Um jogador que está na III divisão e que tem o sonho de chegar lá acima e de repente tem um treinador a dizer que passado três ou quatro dias vai jogar no estádio da Luz a titular... claro. Mas eu já tinha dado a minha palavra e disse-lhe que não voltava atrás. No dia seguinte assinei com o Belenenses e quando as pessoas do Gil Vicente ouviram de manhã na rádio que eu ia com o presidente e vice-presidente do Taipas a Lisboa para assinar pelo Belenenses, ligaram logo para o presidente a oferecer mais dinheiro do que o Belenenses tinha oferecido. Queriam dar o dobro do que o Belenenses me dava. Mas eu não cedi porque tinha dado a minha palavra. E acabei por vir para o Belenenses. Era mais fácil ficar no Gil Vicente, que era perto de casa, mas senti que devia vir para o Belenenses, que também era uma boa equipa e não quis falhar com a minha palavra.

Sai do “ninho” para Lisboa. Foi difícil?
Chorava todos os dias na primeira semana [risos].

Foi viver para onde e com quem?
Eu tinha um colega no Taipas, que era de Barcelos, que conhecia o Tuck, um dos capitães do Belenenses. Por intermédio dele, apresentaram-me o Tuck, que ficou quase um padrinho. Eu assinei a meio da época, mas só vim depois de acabar a época. Quis ficar no Taipas até ao final, foi uma das minhas condições, porque me sentia mal de no ano anterior termos descido e eu queria ajudar a repor a equipa onde estava. Acabámos por ser campeões e subimos, que era o que eu pretendia. Entretanto nessa fase conheci o Tuck e quando vim para Lisboa na primeira semana fiquei em casa dele, ia e vinha com ele todos os dias para o treino. Foi ele que me ajudou nessa fase.

O que é que lhe custou mais na adaptação a Lisboa?
Custou muito, todos os dias sentia-me sozinho, sentia-me perdido. Nunca tinha vindo a Lisboa, só nas visitas de estudo da escola, não conhecia nada, nem ninguém. Na primeira semana confesso que foi difícil.

Não deixou nenhum coração partido em Guimarães?
Tinha lá a minha namorada, sim. Todos os fins de semana ia a casa. Eu chateava o Marinho Peres com isso, ele dizia: "Como é que um miúdo tem coragem de pedir para lhe dar folga todos os fins de semana para ir a casa?" E eu respondia: "Ó mister, mas é que se eu não for, não consigo ficar aqui" [risos]. E ele lá deixava.

César com alguns colegas do FCP

César com alguns colegas do FCP

D.R.

Deve ter notado também muita diferença ao nível de futebol e de condições do clube. É um passo grande passar do Caçador de Taipas para o Belenenses.
As diferenças maiores é que havia jogadores com mais qualidade, como é óbvio. O ritmo do jogo era mais rápido, tinha que executar as coisas muito mais rápido e, claro, era um clube muito maior. Passar da III divisão para a I foi uma subida muito rápida e custou. Mas passado um ou dois meses estava perfeitamente enquadrado em termos futebolísticos. Quanto à vida social, a grandeza da cidade, a confusão dos caminhos para ir para o treino, isso nos primeiros tempos era difícil, tinha receio de me perder, não conhecia ninguém.

Foi viver para um apartamento sozinho?
Não, depois acabei por conseguir encontrar um amigo de um amigo meu, que era das Taipas, e fiquei a viver com ele, o que facilitou as coisas. Ele foi uma grande ajuda, ainda hoje sou amigo dele, já lá vão quase 20 anos. É uma pessoa mais velha que trabalha no aeroporto, na PGA.

Gostou do treinador, o Marinho Peres?
O Marinho Peres era uma personagem. Era engraçado, bom treinador, e na altura fizemos das melhores épocas dos últimos anos do Belenenses. Tínhamos uma equipa experiente, com malta já com muitos anos de I Liga, eu era um miúdo, mas gostei, gostei de trabalhar com ele.

Fizeram-lhe alguma partida, foi praxado?
Não, eu notava era que havia muita desconfiança em relação a mim. Há o SC Braga, há o Gil Vicente, há o Vitória de Guimarães, há tantas equipas no norte, e vem para o Belenenses um miúdo da III divisão? Será que é bom, será que está preparado para a I Liga? Atravessei ali uma fase em que senti que os colegas desconfiavam um pouco se poderia atingir o nível deles ou não. Rapidamente me ambientei. Era malta porreira, tinha o Tuck, o Marco Paulo também foi porreiro, o Pedro Henriques, que é comentador agora, era meu companheiro de quarto e ainda hoje sou amigo dele também.

É verdade que quis vir embora?
Sim. Foi mais ou menos na abertura do mercado, vou ter com o falecido José António, que era o diretor desportivo, eu praticamente não tinha sido convocado, não tinha sido utilizado, e disse-lhe: "Não me sinto feliz aqui, não gosto de estar na cidade, sinto-me perdido, estou longe dos amigos, da família, da namorada, não estou a jogar, quero ir embora, não estou aqui a fazer nada". E ele: "Então e vais para onde?"; "Vou para o Taipas outra vez"; "Então estás na I liga e vais para a III outra vez?"; "Não quero saber, eu quero é ser feliz, vou-me embora"; "Tem calma, tu és maluco" [risos]. Passado duas, três semanas, acho que foi o Neca, um miúdo que tinha vindo das camadas jovens, uma aposta lá do clube, lesionou-se e abriu-se uma janela de oportunidade para mim. O Marinho Peres apostou em mim, o primeiro jogo que fiz foi no Farense, ainda o Farense estava na I Liga, e correu muito bem. Marquei um golo, fiz uma assistência e a partir daí joguei sempre.

Marcou muitos golos na época de estreia na I Liga.
Sim, acho que fiz uns 13 ou 14 jogos e marquei oito ou nove golos. Para um extremo é muita coisa, no primeiro ano na I Liga são bastantes golos.

Entretanto é convocado pela primeira vez à seleção e vai para o FCP.
Sim, sou chamado à seleção de sub-21 pelo Agostinho Oliveira. Comecei a ser quase como o jogador revelação do campeonato e começaram a aparecer várias equipas interessadas, vários empresários interessados, a toda a hora a ligarem-me, até que surge o interesse do FC Porto, por intermédio do Jorge Mendes, que depois ficou meu empresário. Tinha outros clubes, mas muito pelo projeto e porque queria ir para o norte, queria ir para a família e para junto dos amigos, assinei pelo FC Porto. Na altura falava-se também do Sporting, do Benfica, do Middlesbrough de Inglaterra, que na altura era um clube investidor. O Inter de Milão também e depois até foi para lá o Caneira.

Chegou a ser abordado por esses grandes?
Não, isso era o empresário que me falava. Eu dizia-lhe: "Eu não quero ouvir ninguém, eu quero ir para o Porto, quero ir para o norte, quero ir para ao pé da família". Não quis saber nem de Benfica, nem de valores, nem de nada. Não andei a negociar daqui e dali, eu queria ir para o norte. Eu não gostava de estar em Lisboa.

Nunca se adaptou à capital?
Na altura não, agora adoro, eu vivo em Lisboa. Mas na altura não gostava, não me enquadrava aqui.

Porquê?
Por estar sozinho. Da cidade, da luz da cidade, do mar, sempre achei fantástico, fiz passeios em Lisboa giríssimos. Mas naquele tempo eu queria era estar com os amigos, com a namorada, com os meus pais, era mais por causa disso.

Quando vai para o FC Porto, volta a viver em casa dos pais?
Sim.

César num treino do FCP, com José Mourinho

César num treino do FCP, com José Mourinho

D.R.

Como foi o embate de entrar no balneário do FC Porto?
Foi muito engraçado. Na altura foi uma confusão enorme a minha ida para o FC Porto porque o Belenenses não queria que eu saísse. Acho que queriam mais dinheiro e foi ali uma luta gigante para eu sair, tivemos de fazer as coisas meio às escondidas.

Como assim?
[risos] Este episódio foi engraçado. Foi a meio da semana, nós jogávamos contra o FC Porto, agora já posso contar essas coisas, mas o jogo que marca a minha carreira, acho que muita gente se lembra, foi o de um golo que fiz pelo Belenenses ao FC Porto. Ganhámos 3-0 em Belém e entretanto o Jorge Mendes falou de interesse já mais concreto do FC Porto. A meio da semana, uma pessoa que trabalhava com o Jorge Mendes levou-me ao Porto, às escondidas, sem ninguém saber. Fui ao escritório do Jorge Mendes no Bom Sucesso, comi qualquer coisa às escondidas e estiveram a discutir os valores com uma pessoa da administração da SAD do FC Porto. Assinámos e saímos do Porto eram umas três da manhã, mais ou menos, chegámos a Lisboa às seis e tal, e às oito da manhã tinha de me apresentar no Belenenses para ir para o Porto outra vez, de estágio, porque íamos jogar ao Salgueiros [risos]. Por acaso ganhámos e eu fiz um golo. Mas foi tudo muito às escondidas, porque eu ainda tinha contrato com o Belenenses, assinei um pré-acordo com o FC Porto e ia para cima no final da época. Entretanto no final da época faltava o Porto entender-se com o Belenenses e isso é que custou mais um bocado.

Fez a pré-época com o FCP?
Não, eu cheguei ao Porto no último dia de inscrições. Estive com o Belenenses na pré-época, em Seia, mas como me tinha lesionado no final da época não conseguia treinar e entretanto vou para cima no último dia de apresentação. Fui às escondidas porque no FC Porto queriam fazer surpresa com a minha contratação, porque eu era uma revelação do campeonato. Dormi num apartamento no Porto e fui de manhã com o Jorge Mendes tomar o pequeno-almoço à Praça Velasquez com o presidente Pinto da Costa.

Foi a primeira vez que o conheceu?
Sim, só tinha falado com ele por telefone, nada mais. Lembro-me que ele começou-se a rir: "Então estavas com medo de não vir?". Porque aquilo ainda demorou uns meses entre o FC Porto e o Belenenses. E ele: "Tranquilo, a gente não falha com a palavra". E recordo-me que fui para o estádio no carro do Pinto da Costa, com ele a conduzir. Ele é que me levou e quando entrei no balneário já estavam lá os jogadores todos. Cheguei todo envergonhado e ele apresentou-me: "Aqui está o homem".

Estava muito nervoso?
Estava extremamente nervoso, porque ia jogar com aqueles jogadores todos que eu via na televisão há um ano. Foi tudo muito rápido. Quando entro no balneário estão todos sentados com o treinador e entro eu sozinho, tudo a olhar para mim, foi um bocado intimidante [risos].

Nem sabia onde é que havia de se sentar.
Exatamente. Toda a gente tem o seu lugar, o seu cacifo, andei ali as primeiras semanas um bocado...Ter de me ambientar à nova realidade não foi fácil.

Levou com a famosa praxe do balde de água cheio de porcarias?
Por acaso fizeram isso mas eu consegui desviar-me, consegui topá-los [risos].

Lembra-se de mais algumas partidas?
Não. Primeiro receberam-me muito bem, depois, como eu era individualista, diziam-me: "Miúdo, ou começas a soltar a bola ou vais levar muita porrada aqui". Só que eu era teimoso e irreverente, não soltava na mesma, e eles pimba, pimba, pimba, davam-me muita porrada nos treinos. Mas nós tínhamos um balneário fantástico, naqueles dois anos com o Mourinho ganhámos tudo, tínhamos uma união fantástica e fui rapidamente assimilado. Eu era dos mais novos da equipa, eu e o Postiga, éramos como se fôssemos os meninos deles. Hoje em dia é normal ter miúdos nas equipas principais, mesmo dos grandes clubes. Há 20 anos não era assim tão normal, com a minha idade, com a idade do Postiga, ser aposta e estar lá no meio deles. Nós éramos os protegidos deles e as coisas correram bem.

Consegue explicar o que é a mística do FC Porto? O que sentiu?
Não é uma coisa que se explique, sente-se, é uma atitude diária, é um viver o balneário, o viver uma equipa onde o argumento "equipa" tem de estar acima de tudo. Acho que era isso que era a grande força da mística do FC Porto. Era a união que havia, todos pelo mesmo objetivo, o individual nunca sobressaía mais do que o coletivo. Toda a gente punha à frente a equipa, só depois o eu. E isso era alimentado diariamente pelos jogadores mais velhos, a atitude, a forma como trabalhavam, a agressividade nos exercícios, a dar sempre o máximo. Se um estava a facilitar, vinha logo outro chatear a cabeça para não facilitar. Depois o ambiente, íamos almoçar juntos, jantar juntos, acabava um jogo e, sem combinar nada, olhávamos uns para os outros e íamos todos para a noite, 14 jogadores juntos, sem combinar nada. Isso são coisas que vais fazendo e que de repente estás imbuído, nem sentes e já estás lá. Acho que é isto.

César Peixoto a disputar uma bola com Zé Castro

César Peixoto a disputar uma bola com Zé Castro

JOAO ABREU MIRANDA

E o Mourinho?
O Mourinho na altura era um treinador que revolucionou o futebol. Sempre tive uma relação de amor/ódio com ele. Ou estava tudo muito bem, ou tudo muito mal.

Porquê?
Porque eu era irreverente. O Mourinho, só mais tarde é que percebi, combinava com os meus colegas para me darem porrada, porque eu não soltava a bola como ele queria, e não marcava falta. Então às vezes enervava-me, levava tanta porrada e ele não marcava falta, que começava a resmungar com ele. Chegou a mandar-me para o banho uma vez ou outra por causa disso.

Alguma vez teve uma conversa consigo à porta fechada?
Várias vezes. Sempre fui muito irreverente e achava que devia jogar, queria impor-me e para mim não havia limites. Não faltava ao respeito com o grupo, a nada, mas queria sempre mais. Eu achava que não tinha tempo, que tinha de ser já e cobrava isso um bocado. Depois da passagem de ano, o Mourinho marcou treino para dia 1 e, como é natural na passagem de ano, toda a gente se deita um bocado mais tarde. Ele marca jogo treino com a equipa B para quem estava a jogar menos, eu naquela fase não estava a jogar tanto. Só que eu vi uma câmara lá em cima na bancada e até gozei com aquilo: "Olha, vai dar em direto, vai ser transmitido" [risos]. Não atingi que fosse ele a gravar o treino e estava na brincadeira. E o que é que ele faz? Faz um filme desse jogo com a equipa B, no dia 1. Naturalmente toda a gente estava meio cansada, sem muita disposição para treinar, até pelo dia que era. A bola ia para um lado, mas a câmara só me filmava a mim. Um dia chegou ao pé de mim, entregou-me o CD: "Vê isto". Nós andávamos sempre assim, mas sempre com respeito. E então tinha aspetos positivos e aspetos negativos. Os positivos eram todos com bola, aspetos negativos eram todos sem bola, em que ele dizia que eu tinha de correr mais para trás, tinha de defender mais, tinha de não sei o quê, que eu só queria jogar com bola, aquelas coisas.

O que lhe disse depois de ver?
Não disse nada, fiquei calado [risos]. Acho que só disse: "Ó mister, num dia destes, é normal". E ele: "Está bem, está bem".

O que ele tinha de tão diferente dos outros treinadores?
Ele estava 10 anos à frente dos outros todos. Neste momento não acho isso, mas naquela altura estava verdadeiramente 10 anos à frente. Nós éramos uma equipa com muitos portugueses e facilmente essa mística de que se fala foi passada, tínhamos um espírito de grupo fantástico, aliou a qualidade e o avanço dele a isto tudo, à qualidade individual dos jogadores e sobretudo a um grande grupo de trabalho que conseguiu construir. Nisso ele tem mérito, nós também, mas ele é que construiu o grupo. Foi isso, essa mistura de tudo que nos deu uma confiança tremenda. Nós íamos para os jogos e já sabíamos que que íamos ganhar, só não sabíamos por quanto. Sentíamos isso, a confiança era enorme no nosso trabalho, no nosso grupo, nos nossos colegas, tínhamos uma confiança cega uns nos outros, toda a gente sabia o que é que tinha de fazer e isso é um grande mérito da parte dele. Ganhámos a UEFA, agora Liga Europa, a Liga dos Campeões, Taças de Portugal e os campeonatos e com poucas derrotas.

 César Peixoto no FC Porto

César Peixoto no FC Porto

Alex Livesey

Vários jogadores já disseram que aquela primeira época com ele no FC Porto foi imbatível, acabou por ser melhor do que a segunda, ou seja, vencer a Taça UEFA foi melhor do que vencer a Liga dos Campeões. Para si também foi assim?
Sim, porque sinceramente acho que jogámos melhor na primeira época. Acho que foi uma época perfeita e foi sobretudo a primeira grande conquista a nível internacional, depois de largos e largos anos. Ninguém estava à espera, mesmo nós, quando começámos a época, não estaríamos à espera de chegar ali. No segundo ano já éramos uma equipa que ganhou a Liga Europa, ganhámos o campeonato, já éramos uns vencedores. A primeira foi realmente uma época memorável. Acho que nesse ano quando fomos à final, muita gente em Portugal esqueceu quase as rivalidades que havia, porque era uma equipa portuguesa que há anos e anos não ia a uma final europeia. E olhe que isso é difícil em Portugal. E fomos nós, fomos nós que conseguimos de novo esse feito. A festa foi brilhante, foi fantástico.

Na segunda época não joga tanto.
Na segunda época foi quando tive a lesão no joelho pela primeira vez, no ligamento cruzado anterior. Em Marselha, aos sessenta e tal minutos, vinha de cinco jogos a jogar de início, tinha quatro golos seguidos e lesionei-me até ao final da época, estive seis ou sete meses parado.

E na época seguinte as coisas são bem diferentes. Vem o Del Neri, completamente diferente do Mourinho.
Seria sempre difícil para qualquer treinador depois daqueles dois anos com uma equipa que ganhou tudo, com jogadores que tinham conquistado tudo, com um treinador com uma liderança muito vincada. Não era fácil para qualquer treinador fazer a transição. A cobrança iria ser enorme por parte dos adeptos, do clube, pelos próprios jogadores, estávamos habituados a ganhar. Por isso acho que foi um ano atípico no FC Porto. Penso que tivemos três ou quatro treinadores.

Sim, veio o Víctor Fernández também e o José Couceiro. Mas já não chegou a jogar com o Couceiro, pois não?
Mas ainda joguei com o Víctor Fernández, depois tive uma chatice com ele e acabei por sair.

Que chatice?
Isso não vou contar. Mas acabei por sair e fui emprestado nos últimos três meses ao Vitória de Guimarães.

Quem lá estava era o Manuel Machado.
Sim, que tinha sido meu treinador nos juniores do Guimarães. O Manuel Machado se calhar era dos treinadores que melhor me conhecia. Foi ele que me foi buscar ao Brito para os juniores outra vez. Ele percebeu que eu estava com problemas no FC Porto e o Vitória de Guimarães não estava muito bem e ele fala diretamente comigo e convida-me. Estive lá três meses e correram bem, fomos à Liga Europa. O Vitória de Guimarães já não ia há nove anos e acabámos muito bem o campeonato. O Manuel Machado é peculiar na forma de estar, acredita nas suas ideias. Penso que se calhar as pessoas acham que ele é diferente pela forma como ele verbaliza as suas convicções, mas era uma pessoa calma, tranquila.

Ficou a viver com os seus pais nesse tempo todo?
Não. Logo que fiz o contrato com o FC Porto, como é óbvio, fui ganhar um pouco mais de dinheiro e consegui tirar a minha mãe do trabalho, foi das primeiras coisas que fiz, porque a minha mãe trabalhava naquela fábrica metalúrgica e estava sempre doente, tem uma saúde muito frágil. Até hoje nunca mais trabalhou, sempre os ajudei. Fui ajudando a família toda, os meus irmãos, e mais tarde consegui, penso que no segundo ou terceiro ano do FC Porto, comprar uma casa em Braga, que ainda a tenho, e passei os meus pais, que viviam na aldeia, numa casa alugada sem muitas condições, para o meu apartamento nas Taipas, que já tinha todas as condições e mais algumas, e eles ainda hoje lá vivem. E eu fui para Braga.

César a festejar um golo pelo FC Porto

César a festejar um golo pelo FC Porto

FRANCISCO LEONG

Como eram as saídas à noite no Porto?
O meu pai era rigoroso, nunca tinha saído à noite até ao momento em que vou para o Porto e começo a descobrir o que era sair à noite, o que era ter miúdas, essas coisas todas, e confesso que aí, no início dessa fase, perdi-me um bocadinho.

Chegou a ter problemas no FC Porto por causa disso?
Um ou outro sim. Fui chamado à atenção.

E com os adeptos, teve problemas?
Não. Com os adeptos fui tendo ao longo da carreira uma coisa ou outra, mas isso é simples, porque eu joguei no Vitória de Guimarães e depois joguei no Braga, são os dois maiores rivais. Joguei no FC Porto e depois no Benfica, os dois maiores rivais. Ou seja, fiz 15 anos na I Liga, nos melhores clubes, e é natural que houvesse aqui e ali uma boca ou outra, mas eu afastava-me, não sou uma pessoa violenta, nem de confusões. Se via que não estava ambiente para mim, ia-me embora. Mais valia, porque quem perdia era eu, eu é que era jogador, eu é que era conhecido e o problema seria para mim, para a pessoa em questão era uma confusão, nada mais. Nós, jogadores, já éramos reprimidos por sair à noite, então se saíssemos à noite e houvesse confusão, se andássemos à porrada, pior ainda. Sempre tive a frieza e o discernimento de perceber não posso ter problemas e ia-me embora.

Depois do empréstimo ao V. Guimarães, regressa ao FC Porto, com o Co Adriaanse.
Sim. Nós tínhamos tido no ano anterior três treinadores e no FC Porto não é normal. Foi-lhe passada a mensagem que tínhamos um balneário difícil, complicado para gerir, e ele entrou ali como um general para meter logo tudo em sentido, porque percebeu que vinha para um balneário onde tinha campeões europeus, Liga Europa, não sei quantos campeonatos e que não era fácil de nos controlar. Achava ele. Então veio como um general e as coisas acabaram por correrem muito bem, acabámos por voltar a ser campeões e penso que ganhámos a Taça de Portugal também. Veio com um estilo de jogo diferente, com uma estrutura diferente, mas, apesar dessa autoridade toda, com o tempo, ele foi percebendo que não era necessário aquilo tudo e foi-se adaptando à realidade do que era a nossa cultura, enquanto latinos, que é diferente da dele, holandesa. Aos poucos foi amolecendo e foi criando alguns laços e as coisas correram bem no primeiro ano.

Volta a lesionar-se.
Sim, jogava sempre, mas lesionei-me outra vez no mesmo joelho e fiquei oito ou nove meses fora. E nesse segundo ano dele fui para o Espanyol.

Porquê?
Fui dispensado. Sinceramente não sei por quem é que fui dispensado, ainda tinha mais um ano de contrato com o FC Porto, mas fui dispensado lesionado. Quando me lesionei, era o melhor marcador da equipa, tinha quatro ou cinco golos. Em 24 jogos tinha feito 23, sempre os 90 minutos, nunca era substituído, mas lesionei-me e passei a época toda lesionado, a recuperar-me, e no final da época dispensaram-me. Até hoje não consigo perceber, ninguém me explicou exatamente o porquê.

Pensaram que estava acabado por causa do joelho?
Penso que foi por aí, porque era o segundo ligamento cruzado anterior no mesmo joelho e é capaz de ter sido por aí, mas nunca me disseram abertamente porque é que foi. Disseram que não contavam comigo e que teria de arranjar clube. Aquela malta que estava comigo foi sendo vendida, foi saindo e eu continuei. Era dos poucos que ainda lá estava daquela equipa do Mourinho, muitos já tinham saído para o Chelsea, outros para o Barcelona e para outros lados. O Costinha e o Maniche tinham ido para a Rússia, já se tinha desmantelado muito a equipa que tinha estado com o Mourinho. Mas não estava a contar nada acabar a época lesionado e ser dispensado. Fiquei muito surpreendido e desiludido, não vou mentir.

César Peixoto enquanto jogador do SC Braga ganha um lance em pleno San Siro, onde jogou com o Milan na Taça UEFA de 2008/09

César Peixoto enquanto jogador do SC Braga ganha um lance em pleno San Siro, onde jogou com o Milan na Taça UEFA de 2008/09

GIUSEPPE CACACE/Getty

Que ofertas é que teve, só do Espanyol?
Não foi um processo fácil como é natural. Um jogador que tinha tido a segunda ligamentoplastia ao joelho, uma das lesões mais graves que um jogador de futebol pode ter, estando parado há meio ano, não era fácil um clube acreditar que eu estivesse bem. Se o meu próprio clube se calhar não acreditava, os outros... Daí a minha desilusão e a minha frustração, porque sabia que não ia ser fácil. Recordo-me que tive uma reunião no Porto e disse-lhes: "Então vocês deixam-me ir de borla, se surgir algum interessado." E eles fizeram questão de dizer que desde que fosse para fora, tudo bem. Para os outros grandes, para o Benfica e Sporting, era impossível deixar-me ir. Entretanto apareceu acho que o Portsmouth, o Jorge Mendes falou da situação e na possibilidade de eu ir lá uma semana treinar, só para eles perceberem que eu estava bem. Quando se começou a falar dessa possibilidade ser mais efetiva o FC Porto pediu dinheiro e, claro, eles não pagaram, porque não tinham essa confiança, não tinham a certeza, a partir desse momento eu era um jogador de risco, tanto podia jogar 30 jogos, como podia estar meio ano parado e eles não avançaram.

O que fez?
Na altura fiquei extremamente chateado e disse-lhes "então não vou para lado nenhum, vou esperar que acabe o contrato e vou sair livre para onde eu quiser". Eles meteram-me na equipa B e no último dia de mercado surgiu o Espanyol. Eu não queria, porque estava tão chateado com eles: “Ah é? Vocês querem ir por aí, então não vou jogar”. Mas depois não consegui e fui para o Espanyol de Barcelona. O Jorge Mendes aconselhou-me, o projeto era ótimo, porque iria terminar contrato em condições normais, se fisicamente estivesse bem, no Espanyol, ou seja no campeonato espanhol. Ficava livre aos 25 anos e depois poderia escolher. A minha perspectiva de carreira era óptima.

Chegou a jogar no Espanyol?
Acabei por treinar uma semana e meia, fomos fazer um jogo amigável na pré-época contra o Tarragona, se não me engano, e aos 20 minutos do jogo levei uma pancada fortíssima e saí de maca outra vez, lesionado no mesmo joelho. Fui para o hospital, pensavam que tinha rebentado o joelho todo outra vez, mas felizmente não. Estirou de uma maneira que esteve por um fio. Acabei por estar oito ou nove meses em que eu andava dois, três metros e o meu joelho inchava, estava sempre a tirar líquido com uma seringa, enchia uma garrafa de litro e meio por dia.

César Peixoto chega ao Benfica em 2009/10

César Peixoto chega ao Benfica em 2009/10

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Quando vai para Espanha, vai sozinho?
Sim, estive sozinho o primeiro mês e meio porque coincidiu com o nascimento do meu filho, o Rodrigo.

O seu filho Rodrigo é filho de Isabel Figueiras. Como e quando a conheceu?
Sobre esse assunto não vou falar.

Estava a dizer que o seu joelho continuava a inchar...
Sim, nunca consegui jogar. Cheguei a ir falar com o ortopedista Ramon Cugat, que era quem operava os jogadores do Barcelona, era muito famoso, fui à clínica dele duas três vezes fazer fatores de crescimento no joelho. Entretanto há um dia em que vou com o médico do clube e, à frente dele, dá-me como acabado para o futebol. Disse que era impossível, que nunca mais iria ficar bom, a única solução era ir para uma clínica para a Suíça, abrir o joelho, reconstruir tudo e ficar a viver lá mais de um ano na esperança de que se tudo corresse bem voltava a jogar.

O que sentiu?
Comecei a resmungar com ele. Foi ele quem operou o Mantorras e não correu bem. Lembrei-me disso e comecei a dizer-lhe "queres fazer-me o mesmo que fizeste ao Mantorras...", tudo à frente do médico do clube. Eles lá me acalmaram, mas foi a minha sentença de morte no Espanyol, porque nunca mais acreditaram que eu poderia ficar bom. Com isso tudo, sem eles saberem, vim a Portugal ter com o Dr. José Carlos Noronha, foi quem me operou ao joelho e foi das pessoas mais importantes da minha carreira. Ele fez-me uma ressonância e diz: "Isto é um problema no menisco. Se limpar aqui 10%, passado um mês e meio estás a treinar normal sem dores e o joelho já não te inflama, porque o ligamento não rompeu, já está estabilizado". Voltei a Espanha com o relatório dele, mas eles não acreditaram e eu disse que vinha embora. O Jorge Mendes lá resolveu o que tinha a resolver, perdi dinheiro para vir embora.

Ainda tinha contrato com o FC Porto?
Sim. Poderia ter ido recuperar no FC Porto, mas não quis, porque estava chateado e revoltado com a forma como me tinham mandado embora lesionado. Nem acionei o seguro, paguei a operação que fiz ao menisco do meu bolso e fui treinar de favor para o Braga, já era o Jorge Costa, que foi meu colega, o treinador. O Jorge Mendes também tinha boas relações com o Braga e deixaram-me recuperar lá os últimos três meses da época. Sempre que era possível treinava com a equipa e eles perceberam que estava a 100% para continuar a jogar, foi aí que assinei pelo SC Braga.

César (à direita) jogou duas épocas pelo Benfica

César (à direita) jogou duas épocas pelo Benfica

MIGUEL RIOPA

Na segunda época em Braga tem Jorge Jesus como treinador. Como foi?
Foi fantástico. Vínhamos de uma época que não tinha corrido muito bem, tivemos três treinadores, e depois veio ele e conseguiu estabilizar a equipa. Os jogadores rapidamente perceberam e reconheceram-lhe capacidade e qualidade, a partir daí seguiam-no. Depois o que ele ia falando, ia acontecendo, e os resultados também foram aparecendo.

O embate ao início não foi difícil? Vários colegas seus já referiram que ele consegue ser muito duro na forma como às vezes aborda os jogadores.
Sim. Mas isso também é mais fama do que outra coisa, porque ele sabe o momento em que tem de fazer isso ou não. Quando chegou, como eu era um dos jogadores mais experientes, com mais títulos, era um dos nomes importantes do balneário, que tinha mais estatuto, quis ter logo uma conversa comigo, mais dois ou três. Tentou logo passar-me para o lado dele para tentar perceber o trabalho dele. Ele não é isso tudo do eu quero, posso e mando. É quando tem de ser. Hoje em dia sou treinador e fui jogador dele durante quase quatro anos e ele é chato, é exigente, mas a verdade é que é competente, ganha títulos e nós todos enquanto jogadores tornamo-nos melhores e percebemos melhor o jogo com ele. Há momentos em que os jogadores têm de perceber que há ali um líder e quem é que manda, porque se houver dúvidas sobre quem manda não é muito bom. Às vezes ele perde um bocado a noção, aqui e ali, mas isso são coisas do momento. Ele acabou por chegar lá e saber muito bem como é que havia de se movimentar para ter a equipa do lado dele. Fizemos uma época brilhante, ganhamos a Intertoto. A nível pessoal, depois de quase dois anos parado, fiz em termos de minutos jogados e de treinos a melhor época de sempre, com menos lesões. Tornei um sonho realidade e fui convocado para a seleção A, depois de dois anos em que me davam como acabado para o futebol.

Foi convocado por Carlos Queiroz?
Sim. Cheguei a entrar num jogo amigável com o Brasil, em que perdemos 6-2 ou qualquer coisa assim, entretanto fui convocado para outros jogos oficiais mas nunca cheguei a entrar. Só tenho uma internacionalização, mas depois de dois anos sem jogar conseguir dar a volta por cima, ganhar a Intertoto, jogar Liga Europa num clube como o SC Braga, que estava a crescer, e depois ser convocado para a seleção, para mim foi fantástico.

Depois segue para o Benfica com o Jorge Jesus.
Sim, tinha alguns clubes interessados. Comecei a pré-época com o SC Braga no Algarve, já com o Domingos Paciência, que assumiu a equipa. Entretanto surgiu o interesse do Benfica através do Jorge Jesus. Foi ele que me quis lá.

Não hesitou.
Não. Eu gostava muito de representar o SC Braga, mas era um treinador com quem tinha gostado muito de trabalhar, era voltar outra vez a um grande clube, era mais um trunfo depois daqueles dois anos, e na altura já estava com a Diana Chaves, o trabalho dela era em Lisboa, o meu filho vivia em Lisboa também, portanto, tudo se inclinava para vir para Lisboa e claro que não hesitei. Fui o último reforço do Benfica nesse ano, não fiz a pré-época com a equipa, cheguei mesmo no último dia.

O regresso a Lisboa foi diferente da primeira vez.
Sim, já estava completamente ambientado, já conhecia e gostava de Lisboa. Já era mais um cidadão do mundo do que o cidadão da aldeia, como era aos 20 anos, quando vim para Lisboa a primeira vez.

César com Carlos Queiroz num treino da seleção

César com Carlos Queiroz num treino da seleção

D.R.

Tendo em conta que teve experiências no FC Porto e no Benfica, são mundos muito diferentes?
Sim. Diferentes culturalmente e nas mentalidades de uma cidade e de outra, assim como dos próprios clubes. O FC Porto enquadra-se mais na cultura do que é a cidade do Porto, da mentalidade das pessoas do norte. O Benfica, maior em termos de grandeza e mais aberto, como uma cidade grande, que é Lisboa, em termos de mentalidade. São estas as grandes diferenças, porque depois acabas por ter as mesmas condições. É mais pela grandeza do clube, dos adeptos, da própria cidade e a abertura em termos de mentalidade e cultura de clube que é diferente.

Existe no Benfica uma mística como no FC Porto?
Na altura o Benfica vinha de não ganhar nada há seis ou sete anos e nesse ano ganhámos. A tal cultura vencedora foi criada esse ano, quando chegou o Jesus. Começou aí outra vez essa, não sei se se pode chamar mística. Já deve ter havido há muitos anos, foi perdida e entretanto naquele momento arrancou-se para o que o Benfica é hoje em dia. Foi aí o ponto de viragem. Eu cheguei ao Benfica numa fase diferente da que cheguei ao FC Porto.

Houve alguém com quem tivesse tido maior empatia no balneário do Benfica?
Dava-me bem com toda a gente. Eu normalmente dou-me bem com os jogadores e muito bem com as pessoas da estrutura, o roupeiro, os enfermeiros, médicos. Dentro da equipa do Benfica tínhamos um grupo fantástico, diferente, não havia muito aquela cultura que havia no FC Porto naqueles anos, no FC Porto íamos almoçar e jantar constantemente juntos. Em Lisboa e hoje em dia, isso existe cada vez menos, vejo agora enquanto treinador isso. E na parte final da minha carreira, quando estava no Gil Vicente, não existia muito. Mas não era por isso que o grupo não era saudável ou não era bom, porque era.

Notou diferença do Jorge Jesus no Braga para o Jesus no Benfica?
Depois de termos sido campeões e de ter corrido tão bem pareceu-me... relaxado não é a expressão correta... algo diferente, sim. As coisas depois acabaram por não correr muito bem, mas era o mesmo. Mesmo nós como equipa... O ano anterior tinha corrido tão bem e perdemos logo a Supertaça. Na pré-época estava a correr tudo muito bem, nós éramos vistos como favoritos. Na altura era o Villas Boas o treinador do FCP e a pré-época não lhe estava a correr nada bem, já se falava que ele podia ser despedido e nós fomos para o jogo da Supertaça quase convencidos que íamos ganhar e acabámos por perder. Foi um embate forte. Nas primeiras jornadas perdemos muitos pontos e acho que todos facilitámos um bocado nessa fase e depois já não conseguimos recuperar e se calhar ele também tem alguma culpa aí.

César terminou a carreira de jogador no Gil Vicente

César terminou a carreira de jogador no Gil Vicente

MIGUEL RIOPA

Sai do Benfica para o Gil Vicente como e porquê?
Eu no Braga com o Jesus jogava sempre como médio ofensivo, médio interior, nunca joguei como defesa esquerdo. Mas quando ele me contratou para o Benfica diz-me: “A vaga que eu tenho neste momento é como defesa esquerdo, mas tu vens, tu fazes isso bem, e mal eu possa ponho-te a jogar na tua posição”. E fui para Lisboa com esse pretexto de mais cedo ou mais tarde voltar a jogar na minha posição. A primeira época foi correndo bem, a equipa ganhou e ele acabou por me pôr a época toda como defesa esquerdo. Na segunda época falo com ele e volta-me a dizer que quando puder põe-me a médio, mas que eu era defesa e tal... E fui andando, fui andando, até que chegou um dia em que lhe disse: "Mister, gosto muito de si, gosto muito do clube, gosto muito de estar aqui mas eu prefiro ir para outro lado e jogar onde eu gosto, porque não estou feliz dentro de campo. Para mim o mais importante é sentir-me bem no que estou a fazer e não gosto de jogar naquela posição, por isso vou procurar clube". Ele na altura tentou demover-me: "Não faças isso, não faças isso". Mas eu, como quase sempre quando tomo uma decisão, depois não volto para trás, e não voltei. E acabei por sair para o Gil Vicente, porque queria jogar como médio. Sem haver problema nenhum entre mim e o Jesus, sem haver problema nenhum entre mim e o Benfica, pelo contrário, fui sempre muito bem tratado no clube. Foi uma decisão minha. Eu já tinha 31 anos e queria acabar a carreira a sentir-me bem, feliz a jogar na posição que eu queria. Já tinha muitos títulos, tinha jogado em grandes clubes e acho que me sacrifiquei, entre aspas, durante dois anos a jogar numa posição em que não rendia o que achava que poderia render e muitas vezes fui criticado pelos adeptos do Benfica. Eu percebo, porque não era um defesa esquerdo brilhante. Cumpria taticamente, era muito eficiente, era um jogador de equipa. Sujeitei-me e condescendi muitas vezes porque sempre tive um sentido de equipa muito grande, mas sentia que queria algo para mim.

Na altura não surgiram outras propostas, só o Gil Vicente?
Surgiram. Surgiu nomeadamente uma muito boa da Turquia, do Orduspor, onde estava o Miguel Garcia, mas era uma cidade que ficava muito longe. Queriam dar-me três anos de contrato com valores muito bons. Na altura lembro-me que o presidente do Benfica me ligou: "Queres ir embora e rejeitas uma proposta destas? Como é que é possível?". Estava um bocado chateado. Mas eu disse-lhe: "Presidente, eu percebo a sua posição, mas é uma cidade muito longe, se eu já tenho dificuldades para estar com o meu filho aqui, e vivo aqui ao lado, se vou para a Turquia, vou perder o contacto com o meu filho de todo, não vou conseguir estar com ele e eu prefiro poder estar com o meu filho e ganhar muito menos, porque para mim o dinheiro e a fama não são tudo". E recusei, não fui.

Foi complicado deixar Lisboa para ir para Barcelos?
Não. Eu ia à procura de ser feliz a jogar futebol. Portanto ia motivado. Também fiz três anos de contrato com mais um de opção, mas esse de opção à partida era para ser diretor desportivo no final, ou seja, era um projeto também para o pós futebol, que é tão difícil para nós, jogadores. Fazia-me sentido.

Não foi no início da época, pois não?
Não, só fui a meio. Ainda estive três ou quatro meses no Benfica a treinar sozinho, porque recusei aquela proposta da Turquia e porque tinha uma proposta da Arábia Saudita também muito forte mas que, pelos mesmos motivos, recusei. Na altura a Diana já estava grávida da nossa filha e na Arábia Saudita a situação das mulheres é muito complicada. Numa conversa que tive na altura com o Jorge Mendes, ele diz-me: "Não vás, eu conheço-te. Tu não vais ter vida social, ainda por cima tens a mulher grávida e para ti não vai ser bom, não te vais aguentar lá. Fica tranquilo que eu vou resolver a tua vida desportiva financeira, não te preocupes com isso". Financeiramente era muito, muito bom mesmo, mas acreditei nele, foi sempre o meu empresário, e fiquei no Benfica à espera dessa oportunidade que depois acabou por não surgir. A meio da época apareceu o Gil Vicente.

Está arrependido?
De ter saído do Benfica, estou. Acho que foi um erro na minha carreira. De não ter ido para aqueles sítios, não estou arrependido, porque optei pelas pessoas que amava.

César Peixoto com a mulher, Diana Chaves, e os filhos Rodrigo e Pilar

César Peixoto com a mulher, Diana Chaves, e os filhos Rodrigo e Pilar

D.R.

Fale-nos um bocadinho dessas quatro épocas. Quais as que mais o marcaram?
Acho que tudo acontece por uma razão. Eu tinha tido a felicidade na minha carreira na I Liga de estar sempre da Liga Europa para cima. Nunca tinha vivido a experiência de estar a lutar para não descer de divisão, num clube com mais dificuldades e menos condições. Foi difícil mas foi de uma aprendizagem enorme. Até hoje, enquanto treinador a começar por baixo, essa experiência deu-me conhecimentos para estar mais adaptado ao que é a realidade de alguns clubes. Quando estamos nos grandes clubes é tudo muito fácil, não falta nada. Ainda bem que o Gil Vicente hoje está na I Liga porque claramente é onde tem de estar, é um clube histórico de uma região que tem paixão pelo futebol. Quando lá estive, a primeira época foi boa, acabámos por ir à final da Taça da Liga, contra o Benfica. E depois foram épocas difíceis em que tivemos muitas dificuldades para nos mantermos, tornei-me capitão de equipa, acabámos por ter dificuldades e era viver o dia-a-dia. Fortaleceu-me muito enquanto pessoa, enquanto líder, porque várias vezes enquanto capitão tive de intervir e ter uma voz ativa. Comecei a falar pela primeira vez para o grupo, por isso há sempre coisas positivas a tirar.

Por que razão veio embora se o projeto era para ficar como diretor desportivo?
No futebol, como se costuma dizer, o que hoje é verdade amanhã é mentira e tudo muda muito rapidamente. Bastou mudar o treinador, as coisas não estavam a correr bem à equipa, andávamos sempre a lutar para garantir a manutenção. O clube achou que eu e um ou outro dos mais velhos podíamos ser a causa das coisas não estarem a correr bem e optaram por me suspender. Ou seja, acabei a minha carreira despedido.

É uma frustração.
Sim, foi muito, muito difícil, porque depois de uma carreira de que me orgulho, acabar dessa forma... nenhum jogador está à espera. Eles quiseram chegar a acordo, mas, mais do que o dinheiro, estaria a minha honra e a forma como terminava a minha carreira, não aceitei acordo nenhum, fui para tribunal e venci, porque não tinham nada para me apontar. O futebol por vezes tem estas coisas que em nada o dignificam. Acabámos por romper a ligação dessa forma.

Até aí já tinha pensado bem no seu futuro depois de pendurar as botas?
Não, porque foi de um dia para o outro, não estava nada à espera que aquilo acontecesse. Cheguei um dia ao clube e comunicaram-me que estava suspenso, que tinha um processo disciplinar e que ia reunir à tarde com o presidente.

Foi acusado de quê no processo disciplinar?
Alegavam situações absurdas que nem vale a pena estar a comentar, porque depois fomos para tribunal e eles não provaram nenhuma e perderam. Tiveram que pagar tudo e mais alguma coisa porque claramente não tinham motivo nenhum. Eles quiseram arranjar bodes expiatórios para o que estava a acontecer à equipa. O treinador que veio achava que eu estava contra ele. E não estava. Foi por aí que acabou. Tive entretanto várias propostas mas fiquei tão desiludido e frustrado com aquilo que não quis jogar mais.

Já tinha algum nível do curso de treinador?
Como disse, não estava preparado para aquilo e andei dois, três anos sem saber muito bem o que queria fazer, um bocado frustrado com o futebol. Na parte final da minha carreira já tinha interesse sobre o que era ser treinador, para que servia em concreto cada exercício, mas não tinha a certeza se queria ser diretor desportivo ou treinador. Sabia que queria ficar ligado ao futebol, não sabia bem em que função. Nesse altura vim para Lisboa e dediquei-me mais à família, estive com os meus filhos e fui tirando o curso de treinador sem ter a certeza de que era aquilo que queria. Isto muito impulsionado também pela Diana, que me dizia: "Diretor desportivo não, para ti é melhor treinador, porque tu tens de sentir pressão, convives bem com pressão. Estar sossegado e tranquilo não te vai motivar". Fui tirando os níveis na Irlanda, sem compromisso, e, no último teste, em Londres, para tirar o 3º nível, estava a ver um colega e estava a dar-me aquele friozinho no estômago, como me dava quando eu entrava para os jogos. E eu: "Eh pá". Já não sabia o aquilo era há dois ou três anos. Fui para dentro do campo fazer o teste e a adrenalina e o entusiasmo foram de tal nivel que pensei: "É isto mesmo que eu quero". Só aí é que percebi que realmente queria era ser treinador.

César Peixoto treinou a Académica em 2019

César Peixoto treinou a Académica em 2019

Gualter Fatia

Foi à procura de clube depois?
Ninguém sabia o que é que eu estava fazer, não comuniquei a ninguém. Fui fazer um estágio com o Paulo Fonseca, a Kiev, ao Shakhtar. É um treinador que admiro, gosto da forma como jogam as equipas dele, da sua ideia de jogo. Estive lá uma semana, em que fui maravilhosamente bem recebido, foram fantásticos todos. Quando cheguei a Portugal, comecei a conhecer pessoas para fazerem parte da minha equipa técnica. Fiz quilómetros e quilómetros sozinho, de um lado para o outro, através de contactos deste e daquele. Fiz questão de estar com as pessoas pessoalmente, conversar com elas, duas, três, quatro horas, para me explicarem o seu currículo, para eu ver como eram como pessoas e com que personalidade, para saber no que acreditavam, a ideia de jogo que tinham, se se identificavam com a minha ideia ou não. Para depois formar uma equipa técnica. O passo seguinte foi reunir num hotel em Braga, dois dias seguidos, de manhã à noite, com eles, com os miúdos que convidei para a minha equipa técnica, para formar um documento com a minha ideia de jogo, com tudo ao pormenor. A partir do momento em que formámos a ideia de jogo, tudo direitinho, porque acho que todos têm de saber exatamente o que é que eu quero em cada momento, ou o que queremos em cada momento, para que se os jogadores me perguntarem a mim ou a eles toda a gente falar a mesma língua. Depois de ter isso pronto, a equipa técnica e o modelo de jogo, passei ao passo seguinte, procurar clube.

Aí estávamos em que ano?
Foi o ano passado. Sou treinador há um ano e um mês sensivelmente. Comecei a fazer contactos com pessoas do futebol que pudessem ajudar a lançar-me. Não foi fácil. Porque as pessoas às tantas não acreditavam em mim. Diziam sempre: "Eh pá, agora não, se calhar a meio da época. Não é fácil, nunca treinaste, não tens currículo". Mas eu não desisti, fui trabalhando nesse aspeto, até que surgiu a oportunidade do Varzim e iniciei esta carreira. Um projeto muito difícil, que toda a gente dizia que estaria condenado à descida de divisão, e em nove jogos conseguimos salvar o clube.

Estava muito nervoso na primeira palestra que fez aos jogadores? Sentiu o tal friozinho na barriga?
Sim.

Já a tinha preparada?
Não. Nessas coisas tenho tópicos em que sei que quero tocar mas depois vou muito pelo que sinto na hora e vou falando. Não vou com palestras decoradas, nem acho que isso faça sentido porque a mensagem assim não passa, as pessoas têm de sentir que é natural o que estamos a dizer. Também não sou de palestras muito grandes porque acho que os jogadores chegam a uma altura em que desligam e deixam de ouvir. Tento ser incisivo e direto no que quero. Mas o Varzim foi um projeto muito arriscado para início de carreira, porque à partida estava condenado para correr mal. Mas a adrenalina, a pressão, eu gosto disso. As pessoas diziam: "Tu és maluco, espera pelo momento certo, és novo, foste jogador, tens currículo, vai-te aparecer uma coisa melhor". Mas eu não sei porquê, o meu feeling quando fui reunir com o presidente do Varzim era que deveria ir. Felizmente correu bem.

D.R.

Lembra-se do primeiro jogo como treinador? O que foi mais estranho?
Eu passei quase três anos completamente desligado do futebol, por isso não foi uma passagem direta de jogador para treinador. Era comentador na RTP, só. Portanto, fiz um luto de três anos. Mas, por curiosidade, apanhei um jogador que tinha sido meu colega no Gil Vicente, o Sandro, e olhava para ele e achava estranho. Nas primeiras vezes em que o abordei, tínhamos de falar como treinador-jogador e aquilo fez-me um bocado de confusão no início, mas depois foi natural. O grupo também era porreiro, receberam muito bem as minhas ideias. O primeiro jogo claro que fica na memória. Por acaso estava a correr muito bem e acabámos por sofrer golo e empatámos 1-1, aos 97 minutos, já tinha passado sete minutos da hora. Mas a sensação foi ótima. Os primeiros momentos, quando fui para o banco, aquele friozinho antes de começar, aquilo que eu procurava estava lá.

Se as coisas correram bem porque não continuou no Varzim?
Por uma questão de projetos. Projeto da minha carreira, projeto do clube. O que eu pretendia não era bem o que o presidente da altura queria para o clube. Sem problema absolutamente nenhum, ainda hoje sou amigo dele e vai ser sempre o meu primeiro presidente enquanto treinador, mas percebi que havia muita coisa que eu queria alterar no clube e que ele não estava disposto ou não podia alterar e então seguimos caminhos diferentes. Só por isso, nada mais. Porque foi um clube em que adorei trabalhar, uma experiência vivida muito intensamente por toda a gente. Criámos uma onda fantástica também com os adeptos. No último jogo, contra a Académica, garantimos a manutenção e estava toda a gente a chorar porque achavam que não era possível. Marcou-me enquanto treinador e pessoa.

A Académica surge quando?
Surgiu mais tarde. Tive reunião com o presidente do Varzim, não chegámos a acordo. E lembro-me que estava a ir para o Mónaco ver a Fórmula 1, que era um dos sonhos que tinha, quando recebo uma chamada de um dos investidores da Académica. Tivemos a reunião e pronto.

Mas acaba por demitir-se.
O projeto Académica, como me foi vendido, era fantástico, no sentido em que era um grupo que iria comprar a SAD do clube, ia investir bastante dinheiro em infra-estruturas, no plantel, para fazer um plano de subida de divisão e depois estar na I Liga. Um pouco à imagem do Famalicão, por exemplo, que construiu uma equipa para lutar pelos lugares da Europa. Este era o projeto que me venderam. Na pré-época tivemos imensas dificuldades para contratar jogadores. Começámos a pré-época sem jogadores suficientes para treinar. Os meus adjuntos às vezes tinham de entrar nos exercícios porque não tinha jogadores suficientes. Começámos a época a contratar alguns jogadores na última semana, sem estarem a treinar. Os investidores sempre a dizer é hoje, é amanhã, é daqui a 15 dias, um mês e nunca se concretizou. Um clube que é um gigante adormecido. Infelizmente as coisas não correram como estava previsto e começámos a ter alguns problemas no dia-a-dia, no campo, nos salários, nas rendas dos jogadores, problemas de condições até para os jogadores, como falta de ligaduras e tratamentos, por exemplo. Isso foi desgastando a relação entre mim e o próprio clube. Eu exigia condições para os meus jogadores e para a equipa, para conseguirmos fazer um bom trabalho, mas as coisas não se concretizaram. Os resultados depois também começaram a não ser os melhores e chegámos a um ponto de desgaste em que achei que era melhor para mim e para todos que eu viesse embora, apesar dos jogadores não quererem. Custou-me imenso essa decisão. Foi a decisão que mais me custou, porque apesar de todas as dificuldades fui eu que construí a equipa, o plantel, e tínhamos uma empatia grande. Mas acho que foi a decisão que teria de ser tomada naquela fase.

Entretanto houve um jogo com o Farense que meteu polícia e tudo, por causa de uma confusão entre si e André Geraldes. Pode explicar o que se passou?
Nada de especial. Foi um jogo em que claramente fomos superiores e sentimo-nos verdadeiramente prejudicados, e fomos. No final, no túnel, houve aqueles apupos naturais que não deve haver a quente, mas que as pessoas não conseguem evitar. Rapidamente foi solucionado e não foi nada de extraordinário. Mas sabemos que as coisas depois tomam proporções que não fazem sentido. Aquilo não deu em nada. São coisas que acontecem muitas vezes e há umas em que não se sabe e outras que saem cá para fora e foi o caso.

César chegou ao GD Chaves a meio desta época

César chegou ao GD Chaves a meio desta época

D.R.

O GD Chaves surge logo a seguir à saída da Académica?
Surgiu naturalmente. Não foi nenhum empresário. Ligaram para mim, passado um mês e meio, e convidaram-me. Tivemos uma reunião, fizeram uma proposta e aceitei. Acabei por ir porque acreditava que era um bom clube, sério, com boas condições e que poderia fazer um bom trabalho.

Uma realidade muito diferente da Académica?
Logo à partida a distância para a família é muito maior. São 470km de Lisboa.

A família chateou-se muito?
Não, mas têm saudades. Às vezes quando saio de casa para ir para Chaves a minha filha chora e fica com saudades. Como é tão longe, não tenho tanta facilidade em vir a Lisboa. Mas, para mim, o que me importa é as condições que encontro no clube, a qualidade dos jogadores. E nisso o clube foi fantástico, tem boas condições de trabalho, é cumpridor, não nos faltou com nada. Os jogadores também têm qualidade. Chegámos numa fase difícil da equipa, tentámos recuperar ao máximo, o objetivo era subir de divisão, mas já não é possível.

Não concordou com a forma como terminou a II Liga, pois não?
Não, não concordei mesmo. Há duas ligas profissionais em Portugal, se dá para jogar uma, tem de dar para jogar a outra. Pessoalmente, enquanto treinador do Chaves, penso que esta classificação é um bocado enganadora, porque podia terminar de outra forma. Queríamos terminar o campeonato, até porque para os jogadores também é injusto, para as carreiras deles, para novos contratos, para sair era extremamente importante voltarmos a jogar porque íamos ter um calendário mais acessível, teoricamente, e a equipa já tinha saído daquele buraco em que houve cinco ou seis jogos em que não conseguíamos ganhar, já tínhamos vencido, estávamos numa retoma e acabámos por ter este fim abrupto. Não nos revemos nesta classificação. Mas isto é injusto também para todas as pessoas que trabalham nos clubes da II Liga e que se vêem arredadas do seu trabalho, em lay-off até ao final da época, ficando numa incerteza muito grande em relação ao futuro dos clubes e aos seus postos de trabalho. Pôs-se muita gente em causa, pensou-se pouco nas pessoas que trabalham e que sustentam a sua família através da II Liga.

Já sabemos que não vai continuar no Chaves. Foi o clube que o dispensou?
Foi por mútuo acordo. Eu tinha contrato até final da época e isto da pandemia acabou por precipitar o final da época. As coisas também não correram da melhor maneira e acabámos, por mútuo acordo, por dar por terminado o nosso compromisso laboral. Nada de especial.

Surgiram propostas entretanto?
Não, isto é muito recente e só agora é que saiu para o mercado o meu nome como estando disponível. Estou tranquilo e seguro que mais dia menos dia irá aparecer alguma coisa. Estamos num momento também difícil, por causa da pandemia, ainda não se sabe muito bem como vai ser, quando é que começa ou não a próxima época, e essa gestão também não é fácil. Tenho aproveitado para estar com a família.

César no dia em que completou 40 anos, com a mulher, os filhos e o "Riscas", o cão da família

César no dia em que completou 40 anos, com a mulher, os filhos e o "Riscas", o cão da família

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No FC Porto.

Investiu em quê?
Em imobiliário. Mas já me meti em negócios na área da decoração e da compra e venda de imóveis. Deixei de ter tempo e deixei-os, embora compra e venda de imóveis ainda vá fazendo.

Pratica ou praticou algum outro desporto além do futebol?
Faço padel e crossfit.

Qual a maior extravagância que fez?
Onde gastei mais dinheiro dessa forma foi com carros. O carro que tive e de que mais gostei foi um Z8.

Tatuagens?
Sim. Ao contrário da maioria dos jogadores de futebol, eu só fiz tatuagens depois de acabar a carreira. Estava em casa sem fazer nada [risos] e comecei a fazer. A primeira foi o signo do meu filho, que é virgem, com a data de nascimento dele. Entretanto, também fiz da minha filha e depois acrescentei outras coisas. Houve uma junção de bonsais, umas nuvens, umas flores, umas coisas assim. Tenho o braço esquerdo todo tatuado. Não está até baixo, se usar uma camisa ou camisola de manga comprida não se vê. Não vou fazer mais.

É crente?
Acredito em Deus, mas não sou praticante.

Superstições?
[risos] Tinha uma quando jogava. A minha mãe dizia-me sempre para eu usar os boxers ao contrário por causa do mau olhado. Então eu usava sempre os boxers do avesso por causa disso [risos].

Quem são as suas referências enquanto treinador?
Gosto do Cruyff, do Guardiola, do Paulo Fonseca, do Klopp.

Qual considera ter sido o momento mais alto da sua carreira, em que se sentiu mais feliz?
Foi quando voltei a ser campeão nacional pelo Benfica, em 2009/10. Depois de fazer aquela travessia no deserto de dois anos. Eu vinha de ser sempre campeão no FC Porto, depois deram-me como acabado para o futebol, e quando chego ao Benfica e volto a ser campeão foi uma realização pessoal muito grande.

Qual o clube de sonho no qual gostava de ter jogado?
No Barcelona.

E o treinador que mais o marcou?
O Jorge Jesus.

Tem algum passatempo?
Gosto de fazer exercício, de comer e beber com os meus amigos e de ver séries.

Quais são as favoritas?
Sobrevivente designado, House of Cards e Narcos.

Qual foi a maior frustração da carreira?
As lesões.

E enquanto treinador?
Ter de interromper o projeto Académica.