Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Não estou a acreditar, vamos à Luz, com 55 mil pessoas, e o Jorge Costa está na palestra a falar da 'Casa dos Segredos'? Ganhámos 2-1”

Aos 35 anos, Diogo Valente não pensa em pendurar as chuteiras, apesar de terminar contrato com o SC Espinho em junho. Viciado em chocolates, casado e pai de dois filhos, tem um vasto currículo, que começou no Beira-Mar, passou por Boavista, Chaves, FC Porto, Leixões, SC Braga, Académica e Gil Vicente, além da Roménia e da Turquia, antes de regressar definitivamente a Portugal. Com muitas histórias na bagagem, revela que Sérgio Conceição pagava um leitão a todos depois das vitórias, mas não sabe lidar com as derrotas, e conta que Jorge Costa criou uma "Casa dos Segredos" na Académica

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

É de Aveiro. Apresente a família onde nasceu.
Sou de Santa Joana, que fica a dois minutos de Aveiro. A minha mãe sempre foi funcionária pública, ainda hoje é, trabalha na Segurança Social, em Aveiro. O meu pai trabalhou durante muitos anos na Portucel, em Cacia, era desenhador. Entretanto, não sei precisar quando, despediu-se, começou a trabalhar para uma agência do meu atual empresário, ajuda-o em algumas coisas. Tenho um irmão mais novo, o Renato, que também jogou, fez um percurso parecido com o meu, esteve no Beira-Mar, depois foi para o Boavista, tinha umas condições também fantásticas. Só que para chegar onde queremos, para sermos profissionais, é preciso abdicar de muita coisa e ele não fazia vida de quem quer ser profissional. Quando passou a sénior, andou por clubes de Aveiro, até que há cinco anos viu que não dava para fazer vida de futebolista e começou a trabalhar.

Era uma criança sossegada ou irrequieta?
Sempre fui muito sossegado, muito tranquilo, muito envergonhado.

Da escola, gostava?
Nunca gostei muito mas fui até ao 10º ano sem reprovar, sempre a cumprir os mínimos, quando precisava da nota aplicava-me um bocadinho mais, estudava.

Como nasce a paixão pelo futebol, já havia na família gente ligada ao futebol?
Sim, o meu pai, conhecido como Jorge Canté, foi jogador até aos 40 anos. Chegou à III divisão nacional. Depois andou pelos clubes da distrital de Aveiro mas todos os anos ganhava o prémio de melhor marcador, porque era um goleador, o ponto forte era o jogo de cabeça. Desde pequenito que ia com ele para todo o lado, para os treinos, ver os jogos, não falhava um jogo. A paixão vem daí.

Torcia por algum clube?
Sim, quando era pequenito era portista. Portista ferrenho mesmo [risos].

Quem eram os seus ídolos?
Nunca tive grandes ídolos. Gostava do Vítor Baía, mas ainda não percebia muito de futebol, e acho que era mais pelo que ele significava para o Futebol Clube do Porto que era o clube de que eu gostava. E pelo estilo que ele tinha na baliza, não sendo a minha posição. Mais tarde, já depois de começar a jogar, tive um ídolo que ficou até hoje, o Drulovic. Ainda ontem fui a casa dos meus pais e andei lá à procura de umas coisas, abri o armário do meu quarto e lá tenho o poster dele, dentro do armário. Mais tarde tive o prazer de os conhecer. O Vítor foi meu colega de equipa no FC Porto e o Drulovic acabei por conhecer porque foi um pedido meu. Quando comecei no Boavista fiz o pedido a uma pessoa que o conhecia. Tive o prazer de conhecer os meus dois ídolos de infância.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Sempre disse aos meus pais que queria ser jogador. Mais tarde comecei a pensar noutra profissão porque os meus pais foram-me mentalizando: “Atenção que o futebol é difícil, podes não concretizar o teu sonho e tens de estar preparado”. Também com a intenção de eu me agarrar um bocado aos livros porque eles viam que as minhas notas não eram muito boas [risos].

Qual foi a alternativa em que pensou?
Professor de educação física. Mas nunca desisti do sonho de ser jogador de futebol.

Diogo com os pais

Diogo com os pais

D.R.

Com que idade e como começa a jogar no Beira-Mar?
Comecei com sete anos. O meu pai levou-me aos treinos, acabei por ficar e fiz um percurso lá até aos 15 anos. Estive um ano em que não podia jogar federado porque ainda não tinha idade, só comecei a jogar no ano seguinte, depois mantivemos sempre a mesma equipa desde as escolinhas até aos iniciados.

Sempre como extremo esquerdo?
Sim. No futebol de sete não havia essa posição, jogava no meio-campo, mas sempre do lado esquerdo. Assim que passei dos infantis para o futebol de 11, foi logo a essa posição a que me agarrei e onde construí toda a carreira.

Qual foi o momento no seu percurso em que percebeu que ia mesmo ser jogador de futebol? Ou nunca duvidou?
É claro que apesar de lutarmos por isso, nunca temos certezas. Mas quando sinto que vou conseguir é no primeiro ano de juvenil. Sou chamado para fazer parte da equipa do segundo ano, e começo a jogar no campeonato nacional, com equipas como o Boavista, o FC Porto... Tinha 14 anos. Lembro-me que faço um grande jogo num Beira-Mar - Boavista, parto a loiça toda e é aí que o Boavista me aborda.

Vai para o Boavista com 15 anos. É nessa altura que assina o primeiro contrato?
Sim. Fiz um contrato de formação na altura e penso que ganhava 100 euros.

Lembra-se do que fez com esse primeiro dinheiro?
Dei-o à minha mãe, com certeza [risos]. Sempre fui muito poupadinho, nunca tive grandes vícios, a minha mãe é que geriu sempre o meu dinheiro, só há pouco tempo deixou de o fazer, porque achou que eu já tinha maturidade [risos]. Mas sempre fui muito poupadinho, muito certinho nas minhas coisas.

Quando vai jogar para o Boavista vai viver para o Porto?
Sim. Na altura sabia que isso iria implicar a saída do conforto da casa dos meus pais, do sítio onde tinha os meus amigos… Os meus pais tiveram algum receio porque, conhecendo a minha personalidade, muito tímido, muito miminho, nunca tive tudo, mas nunca passei necessidade, os meus pais nunca me faltaram com nada, habituado ao bom ambiente no Beira-Mar, com os meus amigos… Ia para uma realidade completamente diferente, as coisas começavam a ser mais a sério e eles tiveram receio de que não me adaptasse a viver sozinho. Na altura fui para o lar dos jogadores do Boavista. Ficava debaixo da antiga bancada do estádio do Bessa. Não tínhamos grandes condições mas era o que o Boavista podia oferecer.

Foi para um quarto sozinho ou com mais alguém?
Éramos cerca de 20 jogadores no lar, eu vivia num quarto com mais três colegas. O Aguiar, de Peniche, o Jota, de Vizela, e o Gilberto, que joga no Covilhã e era de Guimarães.

Como foram os primeiros dias, as primeiras noites?
Não foi fácil. Eu estava habituado a ter tudo em casa, a mamã a preparar tudo ao filho e ali tive de me desenrascar. Além disso tive a mudança de escola. Não consegui ir para a escola onde os colegas da minha idade que viviam no lar andavam. Não consegui colocação porque cheguei mais tarde e acabei por ir para uma escola sozinho, em que tinha de apanhar o autocarro para ir para essa escola, tinha de me levantar mais cedo. Não foi fácil também porque apanhei colegas que já estavam no lar há mais tempo, há dois, três anos, que tinham alguma ratice…

Metiam-se consigo? Faziam-lhe muitas partidas?
Ui, passei mal naquele lar [risos]. Os meus pais todos os fins de semana iam ver os meus jogos, nós jogávamos aos sábados e eu depois aproveitava e vinha com eles passar o fim de semana a Aveiro, e regressava na segunda-feira. Quando regressava ou quando os meus pais lá iam, levavam-me sempre comida, eu era o único que tinha comidinha que os papás levavam... A meio da semana já não tinha nada, roubavam-me tudo [risos]. Não foi fácil, mas foi uma experiência muito boa porque me fez abrir a pestana. Fez-me perder um bocado o ser menino da mamã e ter de me desenrascar.

Em criança

Em criança

D.R.

Por que razão não continua no Boavista e vai para o Feirense?
A minha difícil adaptação, a falta de casa, dos meus pais e dos meus amigos acaba por afetar o meu rendimento. Também já namorava há um ano e tinha deixado a minha namorada em Aveiro... E os responsáveis do Boavista ligavam para o meu pai, falavam com ele, a perguntar o que é que se passava com aquele jogador de quem eles esperavam tanto. Se tinha algum problema, porque é que não rendia o que eles esperavam. Recordo-me que muitas vezes ligava para casa a chorar e isso preocupava muito os meus pais.

Queria voltar para casa?
Não digo que queria voltar mas passava ali momentos de solidão e sentia-me triste. Depois comecei a faltar às aulas porque chegou uma altura em que vinha muitas vezes a casa ter com os meus pais, ter com a minha namorada... Dava por mim a apanhar o comboio para Aveiro e comecei a faltar. Há um episódio interessante em que eu ligo para casa a chorar e a minha mãe... Até me vem a lágrima ao olho ainda hoje... A minha mãe vira-se para o meu pai e diz-lhe: “Ele vem-se embora, vamos buscá-lo porque o miúdo não pode estar a sofrer, o futebol não é tudo e se ele tiver de ser jogador vai ser noutro sítio, mas o miúdo não pode continuar assim”. O meu pai sempre foi muito exigente comigo, e disse à minha mãe: "Não, deixa-o lá estar, deixa-o sofrer, ele tem que ter espírito de sacrifício. Se ele escolheu isso, vai ter que ir até ao fim". E pronto, acabei por aguentar. Felizmente o meu pai teve essa frieza, se calhar custou à minha mãe, mas foi muito importante para mim.

Ou seja, foi para o Feirense porque o Boavista quis que rodasse?
Sim, foi inevitável. No futebol é assim, não há rendimento, estás na porta da saída e o Boavista dispensou-me, acabo por ir um ano para o Feirense porque o meu pai não quis que eu regressasse ao Beira-Mar porque era voltar à casa da partida e o meu pai sempre geriu muito bem as minhas situações no futebol.

Voltou a viver em casa dos pais?
Sim, fazia todos os dias a viagem de comboio para Vila da Feira, apanhava boleia de um colega meu de Estarreja, íamos juntos. Nesse ano do Feirense voltei a ter alegria e aquela vontade de jogar futebol e acabo por fazer um ano fantástico. Faço um campeonato de juniores fantástico, sou chamado à seleção nacional de sub-19. Sempre fui chamado às seleções distritais de Aveiro, mas ser chamado a uma seleção nacional foi um orgulho enorme.

Entretanto regressa ao Boavista para o último ano de júnior.
Exatamente, o meu último ano de júnior. O Boavista nunca me perdeu de vista. Há bocado disse-lhe que assinei um contrato de formação no Boavista, mas não. Era um subsídio. Nesse ano em que regresso ao Boavista é que assino um contrato de formação, porque comecei a ser chamado à seleção e eles seguraram-me logo. Passei a ganhar 80 contos (400€). Volto muito mais maduro, muito mais de olho aberto. Apanho a equipa que tinha deixado, mas como faço uma boa época no Feirense e vou à seleção já sou muito mais respeitado, com uma personalidade muito mais madura, não deixei que me pisassem. E acabo por fazer uma grande época. Sou campeão nacional de juniores.

Qual foi a sensação do primeiro título nacional?
Foi fantástico. Fui o único desse grupo que depois conseguiu fazer carreira. Houve mais dois ou três, o Hélder Calvino, o Vítor Borges e o Hugo, o guarda-redes, que acabam também por assinar contrato profissional, mas depois acabaram por desaparecer.

Diogo com o irmão mais novo

Diogo com o irmão mais novo

D.R.

Mas quando sobe a sénior não fica no Boavista, é emprestado ao Chaves. Ficou chateado?
Não. Sabíamos que tendo sido campeões nacionais de juniores muitos de nós iriam assinar contratos profissionais, e sete ou oito assinámos com o Bovista. Só isso já foi uma alegria enorme, agora o ficar na equipa, isso já era secundário, porque tínhamos exemplos de colegas que, antes de singrar no Boavista, andaram muitos anos a rodar na II Liga. Era normal rodar, apesar de ter havido três jogadores que ficaram no plantel principal do Boavista. Os nomes que já disse, o Vítor Borges, o Hugo e o Calvino, ficaram no Boavista, mas eu e o Daniel Almeida, que na altura era capitão das seleções jovens e era o nosso capitão da equipa de juniores, fomos emprestados ao Chaves, da II Liga.

Uma realidade completamente diferente. Ficou a viver sozinho em Chaves?
Fui viver com o Daniel. O Boavista teve esse cuidado de nos deixar juntos para nos adaptarmos melhor porque era uma cidade nova. Fui muito bem tratado, pessoas espetaculares. Na altura era uma viagem complicada, nós não tínhamos carro, tínhamos dois colegas que vinham todos os fins de semana ao Porto e apanhávamos boleia deles. Era a única maneira de vir a casa.

Como foi o embate de passar de um campeonato de juniores para uma II Liga, com homens muito mais maduros?
Foi uma grande mudança. O caso mais flagrante foi o meu colega, o Daniel, que sempre foi uma das maiores promessas do Boavista, foi campeão nos escalões todos do Boavista, era capitão das seleções jovens e quando fomos para Chaves há ali um choque, porque o futebol sénior é completamente diferente e ele acaba por não se adaptar. Eu começo bem, depois há mudança de treinador, deixo de jogar, mas faço uma segunda volta muito boa. E acabo por regressar ao Boavista na época seguinte.

Encontra Jaime Pacheco. Que tal?
Fantástico, foi até hoje o treinador que mais marcou a minha carreira, porque foi o treinador que teve a coragem de apostar num jovem de 20 anos, num clube como o Boavista, que não é o Boavista de hoje, era o grande Boavista. Hoje o Boavista está a começar a reerguer-se mas na altura ele teve essa coragem, devo-lhe muito, porque foi aí o começo do meu sonho, foi nesse ano que me torno jogador profissional de futebol.

Gostava dos treinos dele?
Ui, ui, não foi fácil. Fisicamente o Pacheco é muito duro, o estilo de jogo é muito físico, não é fácil. Sempre me disseram: "Se aguentas uma pré-época com o Jaime Pacheco, estás preparado para qualquer pré-época no futebol". [risos] É verdade.

Como ele era ao nível do relacionamento com os jogadores, no balneário?
O Pacheco valoriza muito o trabalho de treino e não olha a estatutos. Quem correr mais e quem der o litro vai lá para dentro. Depois de lá estar dentro é fazer pela vida e eu fiz pela vida, treinava forte, mereci a confiança dele e fui entrando sempre. Quando cheguei ao Boavista encontrei grandes jogadores. Ainda joguei com o João Vieira Pinto. Eu sentia-me envergonhado de falar com ele, tratava-o por você, era tão grande o respeito. Cheguei a ser colega de quarto dele, de estágio, e recordo-me que tinha vergonha de falar para ele porque temos diante de nós um nome consagrado do futebol português.

Diogo (o sexto atrás, a partir da esquerda) nos infantis do Beira Mar

Diogo (o sexto atrás, a partir da esquerda) nos infantis do Beira Mar

D.R.

Qual foi o seu jogo de estreia?
Entrei a 20 minutos do fim, num jogo contra o U. Leiria, no estádio Municipal de Leiria, ganhámos 2-0.

Estava muito nervoso, tremeram-lhe as pernas?
Sim. Tanto tremeram que eu acabo por me isolar duas vezes na cara do guarda-redes do Leiria, o Helton, e numa ele faz uma defesa muito boa e na outra foi mesmo tremedeira, ali acabadinho de entrar [risos]. Esse foi o primeiro jogo, mas o jogo que me catapultou foi aquele em que o Jaime Pacheco teve a coragem de fazer uma revolução na equipa depois de uma derrota pesada com o Sporting. No jogo seguinte íamos jogar ao estádio do Dragão e o Jaime Pacheco aposta em jogadores novos. Fui eu, o Nélson, que acabou por fazer carreira no Benfica, e o Carlos, o guarda-redes. Vínhamos de campeonatos inferiores e ele aposta em nós e ganhámos 1-0 no Dragão. Foi a primeira derrota do FC Porto no estádio do Dragão e foi a partir daí que comecei a ganhar confiança. Acabo por fazer uma reta final de época muito boa. Ainda fiz cinco golos.

E histórias desses tempos do Boavista?
Tenho várias. Posso contar uma que tem a ver com este jogo no Dragão. O Hélder Rosário ia jogar nesse jogo frente ao FC Porto mas ele estava tocado num joelho. Os fisioterapeutas ligaram-lhe esse joelho, que estava limitado. Quando o Jaime Pacheco viu aquilo disse logo: “Não, não, não. Vais ligar os dois joelhos, porque se vais só com esse joelho ligado, esse é o alvo e é aí que vão tentar acertar-te. Liga os dois que assim eles não sabem qual é o magoado”. É daquelas ratices do futebol [risos]. O Pacheco tinha coisas incríveis. Lembrei-me de mais uma.

Conte.
Quando estava no Boavista integrava frequentemente os trabalhos da seleção de sub-21, de preparação para o Europeu. E no Boavista tínhamos por hábito pesar-nos todos os dias na balança, porque o Jaime Pacheco era rigoroso, não queria que nenhum de nós estivesse acima do peso. Quem estava acima, no final dos treinos andava a correr sozinho até perder os quilos a mais. Ele não facilitava. E eu tinha essa preocupação e na altura fui a um estágio da seleção e levei a balança comigo [risos]. Porque quando ia para a seleção o Pacheco dizia logo: “Lá vais tu para a seleção, lá vais tu engordar”. Porque, na seleção, os treinos são diferentes, mais táticos, como há pouco tempo para trabalhar privilegia-se mais o trabalho com bola e o trabalho físico não é muito e ele já sabia que ia chegar com peso a mais. E eu com essa preocupação levei a balança comigo para o estágio, mas quando os meus colegas me viram a chegar de balança... O João Moutinho, o Nani e o Quaresma fartaram-se de gozar comigo [risos].

No Beira-Mar onde fez a formação

No Beira-Mar onde fez a formação

D.R.

O Jaime Pacheco entretanto sai e vem o Pedro Barny.
Fomos eliminados da Taça de Portugal, em Setúbal, acabámos por ter um ou outro resultado menos positivo para o campeonato, e o Jaime Pacheco chega a acordo para ir embora. O Pedro Barny quando chega não havia muito mais a fazer, chega mais numa de dar continuidade mas sempre com uma relação espetacular com os jogadores.

Nessa altura tinha empresário?
Sim, era agenciado pelo Rui Neno. Comecei a trabalhar com ele no último ano de júnior, é ele que me leva para o Chaves. Nessa segunda época do Boavista acabo por confirmar o meu valor. Comecei a ser chamado aos sub-21, seleção que já contava com grandes jogadores, o Quaresma, Manuel Fernandes, Nani, começo a jogar com jogadores já com nome feito.

E chega a fazer o Europeu de sub-21.
Sim. Eu começo a segunda época do Boavista, confirmo o valor que tinha mostrado na primeira e a partir daí começaram as abordagens ao meu empresário. Recordo-me que se falou no FC Porto e no Benfica. Tinham começado a sondar e em janeiro assino pelo FC Porto. Aliás, há um episódio engraçado.

Força.
Sabia que o FC Porto andava a observar os meus jogos no estádio e houve um jogo que me disseram que iam lá estar responsáveis do FC Porto a observar-me e eu não faço uma boa primeira parte. E o João Loureiro foi ao balneário. E quando ele descia ao balneário não era bom sinal [risos]. Toda a gente sabe histórias de que quando ele descia ao balneário iam andar cestos pelo ar e a verdade é que ele me deu uma dura, deu uma dura à equipa. Vira-se para mim: "E tu, ó miúdo, estás a dormir? O que é que se passa contigo?". Ele sentia que podia fazer negócio. Mas, pronto, a primeira parte não me correu bem, não sei se era por saber que estava a ser observado, sentia algum nervosismo. Depois acabo por fazer uma boa segunda parte, mas em janeiro há um jogo que define tudo.

Qual?
Era um jogo contra a Suíça que valia o apuramento para o Europeu de sub-21, no estádio do Bessa, faço um grande jogo, conseguimos o apuramento com um golo do Hugo Almeida, com uma assistência minha. Foi aí que o Boavista apalavrou com o FC Porto a minha venda. O contrato é feito entre os clubes depois desse jogo e a grande mágoa que guardo do Boavista, apesar de ser um clube que adoro, porque foi o Boavista que me fez jogador, que fez de mim o homem que sou hoje, é que a partir de janeiro deixo de jogar. Até hoje estou para perceber o porquê, pura e simplesmente deixo de ser opção. Um jogador que era titular.

Terá sido o FC Porto a pedir para não jogar?
Não sei, até hoje estou para saber. Já me disseram que podia haver alguma cláusula no contrato, no caso de eu me lesionar. Pôs-se a hipótese de, em janeiro, eu ir logo para o FC Porto, mas depois ficou acordado que seria melhor acabar a época no Boavista. Mas a verdade é que, sendo um jogador titular no Boavista, com estatuto, que era desejado pelos grandes de Portugal, de quem toda a gente falava, toda a imprensa falava do Diogo Valente, do fantástico pé esquerdo, a verdade é que estar meia época parado acaba por ter repercussão. E quando chego ao FC Porto, não digo que sou um desconhecido, mas se em janeiro os adeptos portistas diziam: "Eish, o Diogo Valente é nosso jogador", quando chego já há alguma desconfiança: "Mas então mas este jogador vem para o Porto?! Mas ele nem jogava no Boavista". Ou seja em meio ano, parece que tudo mudou.

Mas é o Diogo que escolhe o FC Porto ou é um negócio entre o Boavista e o FC Porto?
Não, a minha vontade também era o FC Porto, porque falou mais alto o coração.

No Boavista, ao lado de João Vieira Pinto

No Boavista, ao lado de João Vieira Pinto

D.R.

Quando regressa do Chaves para o Boavista, calculo que foi viver para o Porto.
Sim, como já ia integrar o plantel principal, o Boavista arranjou-me um apartamento.

Começam as saídas à noite nessa altura?
Não, nunca fui muito de sair. Gosto muito de ficar por casa, na minha paz.

Teve de mudar de casa quando vai para o FC Porto?
Sim. Quando assino o contrato com o FC Porto acabo por comprar casa em Gaia. Ainda a tenho, está alugada.

Como é que foi entrar num balneário com aquelas estrelas todas?
Alguns já conhecia. Conhecia o Bosingwa, que é hoje um dos meus grandes amigos do futebol e que me ajudou muito na minha passagem pelo FC Porto. Já o conhecia, a ele e ao Quaresma, ao Raúl Meireles, tinham sido meus colegas da seleção. Tínhamos um grande plantel, o Lucho González, Bruno Alves, Pepe, Lisandro López...

Cria uma relação especial com o Lucho González não é?
Sim. Tenho uma história muito bonita com ele, que é uma prova de humildade. A verdade é que eles todos são de uma humildade incrível, incrível mesmo e fui muito bem recebido. O Lucho foi um dos que me recebeu muito bem. No estágio da Holanda aproximámo-nos mais e ele acaba por me convidar para ir ao quarto dele beber um mate, que é uma bebida típica da Argentina. Trocamos conversa e digo-lhe que aprecio muito as qualidades do jogador argentino, aquele sangue, aquele temperamento. Disse-lhe também na altura que gostava muito de ter uma camisola da seleção da Argentina. Isto na pré-época de julho, na Holanda. Ficamos assim, no dia dos meus anos, 23 de setembro, chego ao balneário para me equipar, abro o cacifo e vejo lá um saco. Abro o saco e é uma camisola do Lucho González, da seleção Argentina. Veio-me uma lágrima ao olho. Tínhamos tido a conversa em julho e ele não se esqueceu e no dia dos meus anos presenteou-me com essa camisola.

Quando chega ao FC Porto é Co Adriaanse o treinador, certo?
Sim. Em janeiro sou contratação do Co Adriaanse, sou um desejo dele, mas só vou no final da época. A pré-época foi muito dura, quando me diziam que o Jaime Pacheco era aquilo que eu já disse, a verdade é que não. A pré-época do FC Porto custou-me mais. Fisicamente ele exigia muito, ele meteu na cabeça que queria ir longe na Liga dos Campeões e que tínhamos de estar fisicamente muito fortes para aguentar as competições internas e a Champions. Acordávamos às sete da manhã, tínhamos de fazer um treino de quase 10 quilómetros em jejum, depois voltávamos ao hotel, tomávamos banho e o pequeno-almoço, regressávamos ao campo às dez e meia para mais uma tareia, desta vez já com bola, mas fisicamente muito forte, e depois à tarde mais uma dose. 'Era tridiário'. Cada tareia...

Ele ficou conhecido pelo general. Vocês referiam-se a ele assim?
[risos] Não me recordo, mas ele era um autêntico general. Mesmo na hora da refeição, nós parecíamos meninos do coro. Lembro-me que os capitães, o Vítor Baía e o Pedro Emanuel, tinham de esperar que ele chegasse à mesa, levantar o dedo e pedir autorização para ele então dar autorização para nós nos levantarmos e irmos servir-nos da nossa comida. Ele estabelecia objetivos. Por exemplo, na pré-época fazíamos jogos contra a terceira ou quarta divisão da Holanda e ele definia objetivos do género: "O resultado hoje tem de ser mais de 15 golos e zero sofridos". E nós tínhamos que cumprir. Houve um jogo em que tínhamos de marcar 15 golos, mas marcamos 14. No dia seguinte levávamos uma tareia... A sério. Não sei o que é que se passou com ele nesse ano, depois acaba por entrar em conflito com a direção porque pediu um ponta de lança e a direção achava que havia soluções no plantel que podiam muito bem fazer essa posição. Na altura tínhamos o Lisandro López, o Hélder Postiga, o Tomo Sokota e o McCarthy, que acaba por ser vendido ainda na pré-época, mas ele embirrou e sai em confronto com o presidente. E isso acaba por influenciar o meu futuro no FC Porto.

Só fez um jogo.
É verdade. Eu sou um pedido dele e ele ainda na pré-época vai embora. Ou seja, eu fico ali um bocado à espera, quem é que vem agora? Será que vai apostar em mim?

Diogo foi chamado à seleção de sub-21 e jogou o Europeu de 2006

Diogo foi chamado à seleção de sub-21 e jogou o Europeu de 2006

CityFiles

Vem o Jesualdo Ferreira. Que também é uma pessoa peculiar, ao que consta.
Sim, bastante. Um excelente professor, porque ele ensina mesmo. Vai ao pormenor. Houve jogadores de grande nível já que sentiram que evoluíram muito com o Jesualdo.

O Diogo não foi opção. Chegou a perceber porquê, ele falou consigo?
Não, mas eu entendo. O Jesualdo chega a uma semana de começar o campeonato, agarrou-se um bocadinho à base que já vinha da época anterior, a jogadores que já tinham o seu estatuto e eu cheguei ao FC Porto ainda por confirmar o meu estatuto. Ainda por cima vinha de meia época sem jogar. Acabo por entender. Mas eu na altura queria jogar muito mais, não me agarrava ao facto de ser jogador do FC Porto, eu queria jogar. Para mim estar no FC Porto não me dizia nada, ali naquela altura eu queria e precisava de jogar. Surge o convite do Marítimo e eu acabo por ir para a Madeira. Mas se soubesse o que sei hoje, se calhar tinha tido um pouco mais de paciência. Vou para a Madeira em janeiro.

Chegou a sentir a mística do FC Porto?
Quando cheguei ao FC Porto, os treinos eram duros, havia muita seriedade no trabalho, jogadores que eu pensei que tinham um estatuto enorme e que se calhar não precisavam de trabalhar tanto, mas são muito sérios no trabalho, muito competitivos. Se calhar por isso também eu ainda não me sentia preparado. Se calhar não estava preparado para essa exigência que se vivia ali no FC Porto. Eu acho que a mística é isso, é a exigência, é o rigor, a cobrança que há uns com os outros. Há um bom ambiente. Vou contar uma história.

Força.
O Bruno Alves é uma pessoa espetacular, um colega do melhor que pode haver no futebol. Ele foi um dos que me recebeu muito bem, foi fantástico. Num jogo amigável contra uma dessas equipas holandesas, num pontapé de canto, eu estava encarregue de um adversário na marcação e esse adversário acaba por se antecipar e rematar à baliza. Por acaso não foi golo e ainda bem que não foi golo, porque o Bruno Alves, veio para cima de mim de uma maneira... Eu fiquei a pensar: "Ui, tu queres ver que ele me vai bater". Arregalou-me aqueles olhos: "Pega no gajo, marca o gajo bem". Isto é só um exemplo para ver o tipo de cobrança que havia. Mas cá fora já não se passava nada, era o melhor amigo. Dentro do campo era a cobrança total uns dos outros e acho que é isso a mística do FC Porto. Acho também que o FC Porto voltou agora a sentir isso, muito por mérito do Sérgio Conceição. Eu tive a felicidade de trabalhar com o Sérgio, ele é um treinador à Porto. O fruto do FC Porto estar a voltar aos tempos de sucesso, deve-se muito ao Sérgio porque ele é assim.

Vai para o Marítimo, isso obriga-o a sair do continente. Vai sozinho ou com alguma namorada?
Começo a namorar com a minha esposa, a Celina, no verão a seguir à minha primeira época no Boavista. Conheci-a através de um amigo. Ela trabalhava na empresa do pai, que era construtor. Ela é da Figueira da Foz. Conhecemo-nos em Aveiro e é uma relação que dura até hoje, temos dois filhos. Ela foi comigo para a Madeira, mas não ficou comigo.

Porquê?
O pai precisava muito dela e ela também não conseguia largar o trabalho, até porque a nossa relação ainda era muito recente e não ia arriscar. Esteve duas semana comigo, porque sentiu que era importante e para me ajudar a escolher casa, depois acabou por voltar à Figueira da Foz.

Diogo assinou pelo FC Porto em 2006

Diogo assinou pelo FC Porto em 2006

NICOLAS ASFOURI

Como foi a receção no Marítimo?
O Marítimo estava a fazer uma grande campanha, estava em 5º lugar, e o Ulisses Morais, o treinador, contacta o meu empresário a dizer que me queria muito. Vou e conheço uma ilha espetacular. Adorei a Madeira, uma qualidade de vida muito boa. Mas não foi uma passagem muito feliz porque vou com o intuito de jogar, para no final da época voltar ao FC Porto e integrar a equipa principal. As coisas estavam a correr-me muito bem, estava a fazer bons jogos, já tinha dois golos marcados, quando me lesiono e acabo por falhar o resto da época.

Que lesão foi essa?
Foi uma lesão muscular, que à partida não é nada de grave em comparação com outras lesões, mas a verdade é que foi a lesão mais duradoura que tive. Nunca foi bem curada, depois houve pressão para que eu voltasse a jogar por parte do Marítimo e eu a querer apressar as coisas, porque sentia que era uma época importante para mim... Fez com que eu acabasse por não curar bem. Até que tive duas recidivas e meti na minha cabeça: "Não volto a jogar mais esta época, vou preocupar-me apenas em recuperar da lesão, senão pode agravar-se". Quando já tinha metido isso na cabeça, liga-me o mister José Couceiro, na altura selecionador dos sub-21, e pergunta-me como estou. Digo-lhe que estou a recuperar, que não vai ser fácil e ele: "Mas eu estou a contar contigo". Nós íamos ter Europeu no final da época, na Holanda. Naquele momento caiu-me tudo. Peço autorização ao Marítimo para ir para o Porto para me tratar porque queria muito ir ao Europeu. Mas a verdade é que não dei tempo para me curar.

Faz o Europeu ou não?
Esse não faço. Fiz o Europeu em Portugal, no ano anterior, no meu último ano de Boavista. Foi uma experiência única. Merecíamos muito mais, e infelizmente acho que foi um fracasso para a seleção que nós tínhamos. Tínhamos Bruno Vale, Nélson, na altura titularíssimo do Benfica, Nani, Hugo Almeida, Quaresma, Varela, João Moutinho...

Não correu bem porquê?
Não sei. A verdade é que nunca nos encontrámos como equipa. Fizemos um apuramento tão bom, sempre com vitórias, e chegámos ao Europeu e as coisas não correram bem. Não percebi. Não sei se houve alguma euforia pelo facto de jogarmos em casa, se calhar não tivemos maturidade para viver com aquela euforia.

Pensaram que ia ser mais fácil por ser em casa?
Provavelmente. Jogámos em Braga contra a França com o estádio cheio. Perdemos e começámos mal. Ganhámos só o último jogo contra a Alemanha mas já não ia ser suficiente para as nossas contas e acabámos por ficar fora, foi uma grande desilusão e um grande fracasso, não podemos esconder.

Voltando à lesão, falha esse europeu e percebeu logo que não ia ficar no FC Porto.
Sim. Comecei a ver que ia ser mais um ano de empréstimo. Depois de uma época no FC Porto sem jogar... Ou melhor, eu faço um jogo, sou campeão nacional, mas a verdade é que não o sinto como os outros jogadores. Chego ao FC PORTO a duvidar do meu valor porque os índices de confiança não eram os melhores, depois saio, vivo aquele período de lesão em que tenho três ou quatro recidivas e chego a pensar: "Mas será que alguma vez vou ficar bom disto e vou voltar a jogar futebol?". Vivi sentimentos difíceis e quando chega o final da época sei que naturalmente vou ser novamente emprestado.

Diogo nos festejos do título pelo FCP, com um dos melhores amigos do futebol, Bosingwa

Diogo nos festejos do título pelo FCP, com um dos melhores amigos do futebol, Bosingwa

D.R.

Ir para Leixões foi pacífico?
Sim. Eu recebo o convite do Leixões, acabado de subir à I Liga. Era o Carlos Brito novamente. Mas a minha lesão arrasta-se até outubro. Foram oito meses. Volto a jogar em outubro, volto muito bem, numa forma incrível, a fazer grandes jogos pelo Leixões. Mas acabei a época um bocado menos bem porque acusei a falta da pré-época. Senti que iria ser emprestado novamente... E aconteceu. O Leixões ficou muito satisfeito com o que mostrei, sabia que a lesão afetou o meu rendimento e acaba por renovar o meu empréstimo com o FC Porto, por mais uma época.

Essa segunda época já com o José Mota.
Exatamente. Faço uma época espetacular. O José Mota é muito ao estilo do Jaime Pacheco, aquele ar de durão, mas ele quer é palhaçada. No trabalho é exigente. Conseguimos um feito histórico pelo Leixões, virámos a primeira volta em 1º lugar. Éramos a sensação da I Liga. Foi uma época muito boa, fui muito acarinhado pelos adeptos do Leixões. E sinto que foi uma época muito importante para mostrar às pessoas que ainda estava vivo. Desde a minha saída do Boavista que havia ali algumas dúvidas e essa época veio confirmar que estava bem.

Ainda tinha contrato com o FC Porto?
Sim, eu tinha assinado quatro anos com o FC Porto. Chego ao final dessa época a partir para o último ano de contrato. Eu tinha convites para fora, para Espanha, o Celta de Vigo esteve dois, três anos a tentar a minha contratação. Acabo por não ir porque o FC Porto na altura tinha grandes relações com o SC Braga. O FC Porto fez muita força para que eu fosse para Braga. Eu sabia que estava referenciado pelo Jorge Jesus. Mas acabei por não o apanhar em Braga porque é na altura que ele sai para o Benfica. Acabei por rescindir o meu último ano de contrato com o FC Porto e assinei três anos com o SC Braga.

Antes de irmos a Braga, histórias do Leixões, não há?
Eh pá, lembro-me de uma que não teve muita piada para quem passou por ela, mas que acabou por ser especial. Aconteceu no meu primeiro ano do Leixões, quando o Leixões subiu à I Liga, num jogo contra o Belenenses de Jorge Jesus. Precisávamos ganhar esse jogo porque estávamos a lutar pela manutenção e às tantas temos um penálti a nosso favor. Na altura o Jaime, um brasileiro que jogou no SC Braga, pediu para assumir o penálti, sentia-se confiante. O guarda-redes do Belenenses era o Júlio César, que depois foi para o Benfica. O Jaime teve a coragem de picar a bola e ele agarrou a bola. Agora imagine os adeptos do Leixões. Toda a gente sabe como são quando as coisas não correm bem. Perdemos o jogo, se não me engano. Nós, os colegas, não nos pegámos com o Jaime mas mostrámos que não ficamos satisfeitos com a postura dele. Só depois percebemos que os adeptos estavam descontrolados e que ele não ia conseguir sair do estádio. Então, o que fizemos? Ele acabou por sair na mala do carro de um colega [risos]. Senão eram capaz de o matar [risos].

Encontra no Braga o Domingos Paciência como treinador, mas não corre muito bem.
O Domingos é um treinador muito competente. Fazia parte da sua equipa técnica o Miguel Cardoso, que tinha muita influência. A verdade é que, curiosamente, o Domingos desde que perde o Miguel Cardoso não tem grande sucesso. Acho que os dois faziam uma equipa técnica muito boa. Gostei de trabalhar com o Domingos, aprendi bastante, sobretudo a nível tático, apesar de não ter sido uma época muito regular também. Comecei a jogar, mas acabo por não manter a titularidade. Foi uma época muito boa do Braga. Lutámos até a última jornada pelo título com o Benfica. O Paulo César faz uma época excecional, deu-me poucas hipóteses. Eu deveria ter feito muito mais, mas a verdade é que a equipa foi ganhando, o Paulo César com boas exibições e fui perdendo um pouco… Eu devia ter sido mais competitivo. Acho que poderia ter feito muito mais na minha carreira.

Faltou-lhe ambição?
Ambição não. Mentalidade. Se calhar não devia resignar-me tanto. Ok, a equipa está bem, o Paulo César está bem... No futebol as oportunidades vão surgindo e eu fui-me deixando ir abaixo.

Foi viver para Braga?
Não, continuei a viver na minha casa no Porto. A minha esposa continuava a trabalhar com o pai. Mas nos dois anos de Leixões todos os fins de semana ela vinha ter comigo, eu muitas vezes ia à Figueira da Foz durante a semana. Quando vou para Braga fico a viver no Porto porque tinha dois colegas, o Hugo Viana e o Andrés Madrid, que também faziam a viagem para o Porto e íamos juntos.

No Marítimo

No Marítimo

CityFiles

Na época seguinte vai para a Académica porquê?
Um jogador que vinha do FC Porto, que tinha feito uma época fantástica no Leixões, as pessoas esperavam mais. O Domingos acaba por falar comigo para dizer que se calhar seria melhor um empréstimo porque ia chegar um jogador para a minha posição. Entretanto liga-me o Jorge Costa, ia ser o novo treinador da Académica, e consegue convencer-me. Eu tinha muitos convites de I Liga, mas o Jorge Costa convenceu-me.

Que outros clubes de I Liga estavam interessados?
Não me recordo, mas na altura eu tinha sempre muitos clubes da I Liga interessados em mim, sempre fui muito cobiçado, felizmente.

Vai para Coimbra e como corre?
Passei dois anos num clube que também me marcou muito. Posso dizer que o Jorge Costa foi dos treinadores com quem mais gostei de trabalhar porque aquela ideia do "bicho" é errada.

Como assim?
Aquela ideia que tínhamos do "bicho", que víamos dentro de campo a espumar-se todo, agressivo... Não. Fora do campo é completamente diferente, muito tranquilo. Para além dos trabalhos dele serem top. É uma excelente pessoa, faz um bom ambiente, a liderança dele é muito natural. Se calhar pelo passado dele, a presença dele já mete respeito. Mas a liderança é muito natural. Tenho uma história muito boa que acho que caracteriza muito a liderança dele.

Vamos lá.
A "Casa dos Segredos" estava a dar na televisão e, antes de começar a época, na semana anterior, ele resolve criar a "Casa dos Segredos" na academia, com a equipa técnica dele e com alguns funcionários da academia. Cada um tinha um segredo. Ele dizia o segredo e nós tínhamos de desvendar de quem era [risos]. E onde é que ele começa a desvendar quem é a pessoa a que pertence cada segredo? Vamos para o primeiro jogo, íamos jogar no estádio da Luz e, na palestra pouco antes do jogo, ele resolve revelar o segredo de uma pessoa. Eu comecei a pensar: "Não estou a acreditar, nós vamos jogar no estádio da Luz com 55 mil pessoas e este gajo está aqui a falar-me da “Casa dos Segredos” e a desvendar um segredo?" [risos] Na altura foi um segredo de um elemento da equipa técnica. Primeiro jogo, contra o Benfica de Jorge Jesus, Aimar, Saviola, Di Maria, David Luiz. E nós, mas então o "bicho", aquele gajo que se espumava todo na televisão, está agora aqui com estas coisas? Ou seja, para tirar um bocado a pressão do jogo, ele utilizava aquilo. Tanto que fomos para o jogo e ganhámos 2-1 na Luz e começámos logo bem o campeonato. Fizemos um campeonato muito bom, até fomos considerados a revelação do campeonato até que o Jorge acaba por ter problemas pessoais e familiares e abandona o cargo técnico da Académica. A equipa acusou muito a saída dele.

E vem o Ulisses Morais.
Exatamente. Nós, a equipa revelação, acabamos por fazer uma reta final não tão boa apesar do Ulisses Morais ter qualidade. A equipa sentiu muito a saída do Jorge Costa. O Ulisses chega e a equipa não se consegue encontrar, os resultados não apareciam. Acaba por sair e os últimos jogos faz o José Guilherme, numa parte final em que equipa já não consegue mesmo recuperar.

Diogo num jogo pelo Leixões, disputa a bola com o seu amigo do FCP, Lucho Gonzales

Diogo num jogo pelo Leixões, disputa a bola com o seu amigo do FCP, Lucho Gonzales

FRANCISCO LEONG

Mantém-se na Académica porque quer ou porque não tinha outra hipótese?
Eu tinha feito uma boa época na Académica as pessoas estavam muito satisfeitas comigo, estou indicado para regressar a Braga para o último ano de contrato como SC Braga, e na altura é apresentado o treinador Pedro Emanuel na Académica e ele liga-me. Já tinha sido meu colega de equipa no FCP, perguntou-me qual era a minha vontade, se era continuar ou ser emprestado a outro clube. Digo que tinha de ouvir o SC Braga, entretanto o meu empresário teve um papel muito importante porque conseguiu que me desvinculasse do SC Braga. Eu também via com bons olhos ficar na Académica, só que como durante aqueles anos todos fui sendo vítima de empréstimos, o meu empresário, o Ulisses Santos diz-me que estou a chegar a uma idade em que não podia andar sempre de empréstimo em empréstimo. Ele acaba por convencer o Salvador em libertar-me. Depois consegue um feito que acaba por decidir muito o meu futuro.

O quê?
Ele consegue a rescisão com o SC Braga e o objetivo era fazer um ano de contrato apenas na Académica para depois poder sair livre e poder acabar de uma vez por todas com os empréstimos. A Académica fez um bocado de braço de ferro porque não queria que fosse só um ano porque queria receber algum dinheiro numa possível transferência. Mas o Ulisses disse-lhes que as condições eram essas e conseguiu convencê-los. Faço uma época muito boa, se calhar das minhas melhores épocas.

Com o Pedro Emanuel.
Sim, gostei muito de trabalhar com ele apesar da relação ao princípio ter sido um bocado estranha porque eu tinha sido colega dele no FCP, colega de palhaçadas, de brincadeiras e depois ali como treinador parecia que nunca nos tínhamos conhecido, porque o Pedro soube separar bem as coisas. Para mim foi um bocado estranho, então mas era meu colega e agora parece que não me conhece de lado nenhum. Mas ele é assim, e bem, é o trabalho dele não há que misturar amizades. Acabo por fazer um grande época porque o Pedro é muito bom treinador, tem uma ideia muito boa de jogo. Um excelente homem. A época acaba por ser coroada com a conquista da Taça de Portugal. Foi uma das maiores alegrias desportivas da minha carreira, a par do facto de ter jogador Champions e de ter sido internacional. Mas o Jamor, não há palavras.

Essa final da Taça de Portugal foi contra o Sporting?
Sim, ganhamos 1-0, cruzamento meu para o Marinho. É sem dúvida a festa mais bonita do futebol português. Subimos ao relvado e metade do estádio eram capas pretas. Foi incrível o ambiente que vivemos ali. Todos aqueles momentos depois, subir a escadaria para levantar o troféu...Só tive pena de não pode fazer parte dos festejos logo a seguir, porque sou chamado para o controlo antidoping e acabo por ficar três horas à espera. Não pude juntar-me aos festejos dos meus colegas no balneário, com a televisão, a imprensa, tudo no balneário a festejar e eu ali a espera de pôr o chichi para um frasquinho. O autocarro já tinha chegado a Coimbra, as ruas estavam repletas de pessoas e nós ainda em Lisboa porque faltava eu. Mas pronto, depois chegamos a Coimbra e foi um festa. Quando fomos no autocarro aberto pelas ruas de Coimbra, eram milhares de pessoas atrás de nós, fomos à Câmara para levantar o troféu também. É um momento único.

A seguir vai para a Roménia. Era algo que ambicionava, ir para fora?
Em anos anteriores tive uma proposta muito boa financeiramente da Turquia, da I liga, mas como sempre tive muitos interessados em Portugal e sempre tive garantidos os salários de FCP e SC Braga, o que me dava tranquilidade, ficava a pensar se valeria a pena, puxava o filme atrás do que tinha vivido quando era jovem e fui-me acomodando ao facto de estar tranquilo em termos financeiros. Mas se fosse hoje, tendo em conta as experiências que tive fora, tinha ido mais cedo e tinha feito carreira mais anos no estrangeiro.

Diogo co a mulher e os filhos

Diogo co a mulher e os filhos

D.R.

Quando lhe falaram da Roménia, o que pensou?
Eu acabo em alta, uma época muito boa e com o passe na mão, finalmente. O meu empresário diz-me as hipóteses que há. Voltou novamente o Celta de Vigo mas na altura estava na II Liga e eu não ia trocar I Liga pela II. É aqui que ganho laços com o meu empresário porque ele põe-me tudo às claras. Outro empresário se calhar tinha olhado só ao clube que lhe dava mais comissão e não comunicava ao jogador as outras propostas. Ele não. Ele disse-me as propostas todas que havia. Havia também o interesse do Celtic de Glasgow, da Escócia, e o CFR Cluj. Eram as propostas melhores. No Cluj tinha lá muitos portugueses, ia disputar a Liga dos Campeões na época seguinte, davam-me um contrato muito bom. Mas tinha o Celtic que, em termos desportivos, não havia dúvida de que era melhor, um campeonato muito à imagem do inglês, que era um sonho que eu tinha, jogar no futebol inglês, e que infelizmente não concretizei. Também tive o West Ham interessado, mas as hipóteses mais certas eram Celtic ou Cluj. Acabo por escolher o Cluj pela parte financeira, porque tinha 27 anos. Ia fazer um contrato de três anos e com aquela idade jogar futebol no campeonato inglês era muito difícil.

Qual foi o primeiro impacto quando chegou à Roménia?
Confesso que ia com algum receio por causa da ideia que temos do povo romeno. Mas posso dizer que temos uma ideia muito errada, fomos muito bem tratados. Cluj faz parte de uma zona que foi território húngaro e talvez por isso acredito que a mentalidade seja diferente de outras cidades da Roménia. Fomos muito bem tratados. Fui eu, a minha mulher a a nossa filha. Esqueci-me de dizer que a Inês nasceu quando eu estava em Braga.

Então temos de voltar um bocado atrás.
Sim, eu já tinha uma relação de cinco anos de namoro. Naquela altura, para além da viagem Porto-Braga que fazia para ir treinar, também fazia Porto-Figueira da Foz porque a minha esposa estava em casa dos pais. Eu estava no Porto e a minha esposa liga-me de madrugada a dizer que tinha ido para o hospital. Arranquei logo. A Inês acaba por nascer de manhã e pude assistir ao parto. É uma sensação indescritível.

Elas adaptaram-se bem à Roménia?
Elas ficam os primeiros meses de vida da Inês na Figueira da Foz, porque no Porto não tínhamos ninguém que nos ajudasse. A minha família está em Aveiro e a dela na Figueira. No ano seguinte quando fui para a Académica, aí sim, ficamos juntos em Coimbra, onde compro apartamento. Ficamos aí esses dois anos. Acho que foi bom para mim porque deu-me um pouco mais de responsabilidade e de iniciativa para fazer algumas coisas a que não estava habituado.

Voltando à Roménia...
Chegamos a uma cidade muito bonita. Sinceramente, o ano em que estive na Roménia nem parecia que estava fora de Portugal. Porque no balneário éramos 10 portugueses, estavam muitas vezes juntos, tínhamos um ambiente bom entre as famílias que lá estavam, almoçamos muitas vezes juntos. Foi aí que a minha esposa deixou de trabalhar. Custou-lhe um bocado porque o pai precisava muito dela, mas para uma adaptação mais rápida era importante que elas viessem comigo.

A língua não foi um problema?
Não porque é muito parecida com a nossa, muito fácil de aprender. Eu também falo bem inglês, embora os romenos falem pouco inglês. Eles fazem questão que aprendamos a língua deles. Na Turquia também é assim. Não é como em Portugal, em que acabamos por falar a língua do estrangeiro que vem para aqui.

O futebol romeno era muito diferente do que estava habituado?
Sim. O futebol português é muito mais evoluído.

Isso dificultou ou facilitou a adaptação?
Eu cheguei muito bem, era um nome sonante do futebol português. Jogámos a Supertaça e faço logo um golo. Comecei bem o campeonato. Depois houve uma fase em que deixei de jogar.

Porquê?
Opções.

Não houve nenhum problema?
Nada. Eu nisso não tenho grandes problemas porque sou de fácil trato, sou muito respeitador, gosto de bons ambientes, privilegio sempre o bom ambiente, tenho excelente relação com todos os colegas, acho que nunca tive uma picardia. Foi apenas opção.

Diogo na Académica a disputar uma bola com Alberto Zapater do Sporting

Diogo na Académica a disputar uma bola com Alberto Zapater do Sporting

FRANCISCO LEONG

Entretanto chega o Paulo Sérgio.
Sim, foi importante para nós porque a verdade é que o treinador romeno é muito limitado. As duas experiências que tive fora levaram-me a chegar à conclusão que em Portugal só não temos é dinheiro. Porque em termos de competência somos muito bons. Eles lá conseguem é ir buscar bons jogadores a pagar muito mais do que pagam em Portugal. Em termos de infraestruturas, cheguei ao Cluj e tinha condições que não tinha na Académica, não tinha no Leixões, lá as condições eram ao nível de um grande em Portugal. Tanto na Roménia como na Turquia. Na Turquia, por exemplo, todos os clubes têm um centro de estágio com quartos para os jogadores. Mas falta-lhes o resto, a qualidade de treino, a qualidade a nível tático. Ou seja, tanto o treinador como o jogador português têm muita competência, são muito mais evoluídos. Não temos é capacidade financeira para colocar o nosso futebol ao nível de outras ligas.

O Paulo Sérgio não ficou muito tempo.
Ele chega e sabíamos que íamos melhorar, porque é um treinador competente, mas acabamos por fazer uma fase final da Liga dos Campeões com 10 pontos no grupo, onde tínhamos Braga, Galatasaray e Manchester United. Uma equipa com 10 pontos é raro não passar aos quartos de final da Liga dos Campeões, mas a verdade é que não passámos porque o Galatasaray fez os mesmos 10 pontos mas passou por goal average. Conseguimos ganhar em Old Trafford, no último jogo do grupo. Depois há a pausa de inverno e aí há uma quebra muito grande da equipa e o Paulo Sérgio acaba por ser afetado por isso. A equipa estava num bom ritmo, temos aquela pausa, depois vamos para a Liga Europa, somos eliminados, começamos a perder os jogos também para o campeonato romeno, em que o objetivo é ser campeão nacional, e andamos ali sempre em 4º, 5º lugar. E o Paulo Sérgio acaba por sair e chega outro treinador romeno.

O Diogo não ficou lá também porquê?
O clube lutou todos os anos para ser campeão e teve uma grande receita na Liga dos Campeões, mas a verdade é que como não foi campeão no ano seguinte não vai disputar competições europeias e há ali uma quebra. Querem cortar no orçamento porque tinham feito um investimento muito grande naquele ano da Liga dos Campeões. Acabo por ser vítima disso. Querem cortar-me o salário. Reduzirem salário não ia aceitar. Uma das soluções era ser emprestado a um clube e o clube suportar uma parte do salário. Tinha propostas para a Grécia, Chipre, mas optei por voltar a Portugal.

Porquê?
Porque já tinha saído do país. Eu tinha saído muito feliz da Académica, foram dois anos muito bons, as pessoas adoram-me em Coimbra, fui muito respeitado, muito acarinhado e esse sentimento ficou. Também tinha o Estoril, do Marco Silva, para ir, mas acabei por ir para a Académica pelas razões que disse.

Que tal o Sérgio Conceição como treinador?
Complicado [risos]. O Sérgio é uma excelente pessoa, mas não sabe lidar com a derrota. Em vitória vê-se um ambiente muito bom. Lembro-me que chegou uma altura em que cada vez que tínhamos uma vitória ele pagava um leitão. No primeiro dia da semana tínhamos um leitão no balneário pago pelo Sérgio Conceição, porque ele fazia questão de nos premiar pelo esforço, pela vitória. Andámos três ou quatro jogos a comer leitão à pala do treinador [risos]. Nas viagens de autocarro quando íamos jogar com outras equipas víamos coisas de comédia do Fernando Rocha porque sabíamos que ele era muito amigo dele. Uma vez ganhámos um jogo e na semana seguinte depois de terminar o treino além do leitão tínhamos o Fernando Rocha no balneário. Mas quando perde é muito complicado lidar com ele [risos].

Explique lá isso.
Ele é muito exigente. Houve um treino em que as coisas não estavam a correr bem, a malta estava um bocado mais distraída na conversa e o treino durou 30 minutos. Chegou um ponto em que ele vira-se: “Não querem nada com isto? Então vamos embora". Acabou com o treino. É muito rigoroso, é ao detalhe. Para ele a vitória é tudo. Admiro-o porque fez uma carreira fantástica, está estável, mas a ambição dele é uma coisa... Ele só vê o sucesso. E por isso acho que está no sítio certo porque agora vive num ambiente de vitória. Num clube como a Académica em que a vitória não é constante como é no FC Porto, não é fácil. Mas a exigência que ele mete é boa. Um jogador profissional tem de ser tratado assim, com exigência. Sempre tivemos um grande respeito um pelo outro, mas eu sentia que ele exigia mais de mim do que dos outros e não me agradava. Ele embicou muito comigo porque dizia que eu tinha de ter um quilo a menos. Um quilo para ele faz a diferença. Elogiava-me muito, dizia que eu tinha umas condições de outro nível e se calhar daí exigir tanto. Só que para mim era demais. Aos 28 anos nunca pensei que ainda tivesse tanto para aprender a nível do jogo e aprendi com ele. Só queria tê-lo apanhado uns anos antes.

Aprendeu o quê, consegue dar um exemplo?
Em termos táticos e estratégicos ele é muito bom. O perceber o jogo e isso hoje em dia é muito importante. Um jogador hoje se quer ter sucesso tem de perceber o jogo. Para além do talento, se perceber o jogo, vai estar muito mais perto do sucesso. Se tivesse trabalhado com ele em anos anteriores não tenho dúvidas de que a minha carreira seria outra coisa. E aprendi outra coisa. Eu não fazia má vida, mas a boa vida que eu fazia se calhar para um jogador profissional que quer atingir o topo não é suficiente. O jogador tem que ser rigoroso em tudo. Na alimentação, no descanso, tudo. O Sérgio ensinou-me isso. Um quilo faz a diferença. É verdade. Comecei a ter mais cuidado com o peso, não é que eu andasse com excesso de peso, mas a verdade é que um quilo faz a diferença. Tive alguns conflitos com ele, nem sequer posso considerar conflitos, algumas trocas de palavras, mas tirando isso tenho uma grande admiração por ele.

Diogo (ao centro em baixo) com a sua equipa do Cluj, da Roménia

Diogo (ao centro em baixo) com a sua equipa do Cluj, da Roménia

DANIEL MIHAILESCU

Não fica na Académica porquê?
Ele acaba por sair, chega o Paulo Sérgio, que diz que não contava comigo. Eu tinha mais um ano de contrato com o Cluj, sabia que as coisas estavam cada vez piores em termos financeiros no clube, a minha dúvida era essa, saber como ia ser em relação ao salário, mas no final da época a Académica não renovou o interesse, o Paulo Sérgio não renovou o interesse e acabo por ir para o Gil Vicente. Acertei com o Cluj mais um ano de contrato de empréstimo com o Gil Vicente.

Foi viver para Barcelos?
Fui viver para Braga com a família. É no ano do Gil Vicente que nasce o meu segundo filho, o Santiago, que tem agora cinco anos. Nasceu durante o treino e não assisti.

Como foi essa época no Gil Vicente?
Má. Vou porque o João de Deus, o treinador que começa a época, pede-me que vá trabalhar com ele. É nesse ano que descemos. Vou por causa dele, mas ele já tinha acabado a época anterior um bocado tremido e foi um erro ter continuado. A época começou logo muito mal planeada porque sentiu-se que a direção não confiava nele e que à primeira derrota... Já tinham preparado a saída dele. O que acaba por me afetar. Entretanto chega o José Mota. Não digo que o grupo era mau mas a equipa era muito limitada e nunca conseguimos ser uma verdadeira equipa. Para piorar, em finais de fevereiro ou em março recebo uma carta do Cluj a dizer que o clube ia entrar em insolvência e que terminava o contrato comigo. O Gil Vicente a partir daí fica numa indefinição, sem saber se estou regular para continuar a jogar. Como já tinham tido o caso Mateus de uma inscrição irregular que deu a descida de divisão, não quiseram arriscar. Na altura o Gil Vicente pediu ao gabinete jurídico da Liga e da FPF opinião, para saber se terminando o contrato na Roménia até que ponto é que o contrato de empréstimo era válido.

E?
Nem a Liga nem a FPF foram capazes de dar resposta e o Gil Vicente para não correr riscos acaba por comunicar-me que não posso jogar. Fico a treinar. Ainda andei com o Sindicato dos Jogadores a tentar pedir respostas mas nunca as obtivemos. É então que o presidente, o António Fiúza, que já se tinha portado mal com o César Peixoto, invocando razões disciplinares que eram profundamente falsas, porta-se mal comigo também. Porque não tendo culpa nenhuma da situação que estava a viver, como tinha um salário alto, era dos jogadores mais bem pagos do plantel do Gil Vicente, ele entendeu que não fazia sentido pagar-me, porque eu não estava a jogar. Disse que eu não podia estar ali a gastar água e luz ao clube se não estava ao serviço do clube. Foram comportamentos muito maus dessas pessoas, que estragam o futebol. Vivi momentos muito difíceis.

Esteve meio ano sem receber?
Estive desde março sem receber. Mas meti tudo na justiça e recebi ao fim de cinco ou seis anos. Isto para dizer que vivi momentos difíceis, com dois filhos, um deles recém-nascido. Eu passava o dia todo em casa a pensar, estou a acabar contrato com o Cluj aos 30 anos, é uma fase importante da minha carreira, vou ficar sem jogar, vai afetar o meu futuro… Sentia muita preocupação.

Foi-se abaixo psicologicamente.
Muito, muito. Sem saber o que fazer, sem poder treinar. Lembrou-me que saía de casa à noite, ia correr à uma ou duas da manhã, para desanuviar a cabeça. Foram os piores momentos da minha carreira. Pelo tratamento que tive, por não estar a receber...

Diogo chegou ao Sanliurfaspor da Turquia em em 2015. Aqui com o filho do presidente do clube, depois de marcar o primeiro golo no campeonato

Diogo chegou ao Sanliurfaspor da Turquia em em 2015. Aqui com o filho do presidente do clube, depois de marcar o primeiro golo no campeonato

D.R.

Financeiramente ainda dependia dos valores do Gil Vicente?
Financeiramente estava estável. Mas eu vivo muito o futebol e a minha família sentia que eu estava triste, andava em baixo e não foram momentos bons. Tinha o meu filho recém-nascido, a esposa também em casa… São situações como profissional de futebol que não desejo a ninguém passar. Chegou o final da época e a verdade é que I Liga, zero, não tive convites nenhuns, o que é normal para um jogador de 30 anos que está quatro meses sem jogar. Para além de que o clube desceu de divisão e embora não tenha jogado grande parte da época fica marcado no meu currículo, porque faço parte do plantel. Acabo por apenas ter convites de II Liga, mas não quis.

Porquê?
Achei que era cedo para mim cair na II Liga. Na altura o Edinho liga-me, a dizer que tinha dado grandes referências minhas aos responsáveis do Sanliufaspor da Turquia, e acabo por receber uma proposta deles. Tenho uma grande relação com o Edinho e sei que ele se identifica muito com a minha maneira de jogar porque é ponta de lança. Acabamos por ir para a Turquia. Se calhar não era o que eu queria mas era a única coisa que eu tinha.

Mas era uma equipa de II Divisão da Turquia.
Sim. Numa cidade que ficava a 250 km da Síria, numa altura em que a Turquia vivia um período de muitos atentados. Tive algum receio de ir. Fui sozinho. Sabia que era o último ano em que poderia levar a família porque no ano seguinte a minha filha já estava na escola. Mas não arrisquei. Quis primeiro ir sozinho, não conhecia a cidade, não sabia se havia condições para a família.

Foi um choque muito grande?
Sim. Comparada com a Roménia a Turquia é diferente. Quando se chega ver logo aquela imagem das mulheres tapadas com a burka, ainda por cima naquela cidade poucas eram as pessoas que não cumpriam a religião muçulmana... Fui eu, o Edinho e o Cícero. Foi muito importante irmos os três porque nos ajudámos muito uns aos outros. O Cícero acaba por vir embora em janeiro porque não se adapta e também porque tem um convite de Portugal. Fico eu e o Edinho. Ficamos a viver juntos. Não levei a família, eles foram lá ter comigo duas vezes mas não ficaram a viver lá.

Chegou a apanhar algum susto por causa dos atentados?
Eu tenho um episódio logo quando chegamos à Turquia. Há um jogo da Taça em que vamos jogar contra uma equipa que fica na fronteira da Turquia com a Síria, em Diyarbakir. No estágio, ficamos num hotel em que eu e o Edinho não pregamos olho a noite toda. Ouviam-se bombas, mas uma coisa assustadora mesmo. Lembro-me do Edinho debaixo da cama cheio de medo [risos]. Mas foi um país de que gostei muito. Adorei a Turquia. As equipas viajam de avião para qualquer lado quando vão jogar fora porque o país é muito grande e fazem sempre escala em Istambul. Sempre que chegávamos a Istambul aproveitávamos para ficar lá, porque tínhamos folga no dia seguinte e pedíamos ao clube para adiar o voo para o outro dia. Conhecemos muito da cidade de Istambul, que é fantástica, lindíssima. É das cidades mais bonitas onde já estive.

Com a família

Com a família

D.R.

Mas não fica na Turquia. Porquê?
As coisas estavam a correr muito bem, eu estava a fazer golos, recuperei aquela alegria, aquela motivação, e em novembro, antes da paragem de inverno, o meu empresário é chamado porque eles queriam renovar contrato. Na altura achei por bem não renovar ainda porque sabia que as coisas continuando como estavam, a correr bem, eu podia ir para um clube melhor, para uma cidade melhor e quem sabe levar a família. Não renovei naquela altura. Dá-se a paragem de inverno, em janeiro vamos para Antália, para o estágio de pré-época e eu tenho uma lesão no joelho, nada de grave, não fui operado, mas uma lesão que acaba por afetar um bocado o resto da época. Venho recuperar para Portugal e volto numa fase em que há uma troca de treinador. Fico sem jogar e aí começo a sentir mais a falta da família. Os meus filhos são muito agarrados a mim, sentem muito a minha falta. Não foi fácil também para a minha esposa ficar sozinha com eles. E tenho um episódio marcante.

Pode contar?
Acabou a época e decido com a minha esposa irmos à Disney de Paris com a nossa filha, que ia entrar na escola a seguir. Sentia falta de estar com ela. Fomos só os três, o pequenito ficou em Portugal. Corremos tudo no parque da Disney durante três dias e há uma altura, no último dia, em que estávamos frente a uma fonte onde as pessoas têm a tradição de atirar uma moeda e pedir o desejo. A minha filha atirou a moeda e não nos disse qual era o desejo. Mais tarde, no hotel, ela disse à mãe qual tinha sido o desejo, mas pediu para não dizer ao pai. A minha esposa acaba por me dizer qual era o desejo da minha filha. Caiu-me tudo. Se por um lado queria continuar na Turquia porque tinha adorado, aí tirei as minhas dúvidas, porque o desejo dela era que o papá não voltasse mais para a Turquia. Parece que fiquei sem chão. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Eu também sabia que a parte final da época não tinha corrido muito bem e venho embora.

Veio para Portugal, para o Freamunde. Onde fixa a sua base para viver?
Em Aveiro. Na altura ainda não sabia o meu futuro em termos profissionais. Comecei a preparar o futuro, não tanto para mim mas para a minha esposa, abri um negócio para ela no shopping de Aveiro, uma loja de maquilhagem. Foi aí que ela voltou a trabalhar. Tive propostas de II Liga, andei sempre à espera de clubes melhores, mas chegou uma altura em que tinha de me agarrar ao que tinha. Na altura achei melhor opção o Freamunde.

Porquê?
Porque estava lá o Carlos Brito. Fui em outubro, mas só começo a jogar em janeiro porque o clube estava numa indefinição de retirar a inscrição de um jogador argentino para pôr a minha. Mas a FPF não autorizou e acabo por só poder jogar em janeiro. Apanhei o clube já em lugares de descida, com muitos pontos de atraso. Acabo por nem trabalhar com o Carlos Brito porque ele entretanto sai. Não foi uma época muito boa e no ano seguinte chego a acordo com o Oliveirense.

Onde fica duas épocas.
Exatamente. Em termos estatísticos foi um ano muito bom, se calhar foi a melhor época da minha carreira porque faço nove golos, nunca tinha feito tantos numa época e se calhar foi o que faltou na minha carreira, ter mais golos numa posição como a minha. Fomos à final four da Taça da Liga. Foi uma época feliz que vivi em Oliveira de Azeméis, com um grande grupo. O segundo ano acaba por não ser tão bom, foi mais tremido, não tão regular. E este ano, estive no SC Espinho.

Notou muita diferença da II Liga para o Campeonato de Portugal?
Nunca tive problemas nenhuns, alguns colegas diziam: "Mas tens necessidade em ir para o Campeonato de Portugal?". Porque viam um jogador com o meu estatuto ir para o Campeonato de Portugal como alguém que tem necessidade financeiramente falando. Mas a minha necessidade foi mesmo o jogar futebol, a paixão que ainda continuo a ter pelo futebol. As condições claro que são diferentes. O que sinto mais falta é das condições que tinha quando estive na I Liga e fora.

Em ação, com a bola, na Turquia

Em ação, com a bola, na Turquia

D.R.

O Campeonato de Portugal acabou abruptamente por causa da pandemia. De que forma é que isso prejudica a equipa e os jogadores?
Prejudica muito porque tínhamos objetivos bem definidos de ir ao play off de acesso à II Liga e não tenho dúvidas de que íamos conseguir porque estávamos muito bem, num momento de forma muito alto e isto deixou-nos com um sabor amargo. Felizmente tenho a minha carreira feita, não vivo deste dinheiro que recebo agora, mas acredito que para muitos jovens vai ser difícil. É uma situação muito delicada.

Tem contrato até quando?
Até agora, junho. Recebi alguns convites ao longo da época mas é claro que ainda não sei como vai ser porque é uma época inacabada, só agora é que parece que o mercado está a mexer um bocado.

Qual é a sua vontade?
Continuar a jogar. Obviamente que tenho de começar a pensar no final de carreira porque isto não vai durar para sempre, mas sinto-me ainda muito bem física e mentalmente. Tirei o curso de nível de 1 de treinador. Este ano devia avançar para o nível 2, para me preparar. Gostava de ficar ligado ao futebol, agora, se como treinador, diretor desportivo, ou empresário, ainda não sei. Mas vou sentir muita falta disto, de jogar.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Cluj. Investi em imobiliário e no negócio da minha mulher. Sou muito cauteloso.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Se calhar foi um carro, quando assinei pelo FC Porto. O FC Porto oferecia um carro a cada jogador e de seis em seis meses podíamos ir à marca trocar. E eu, a saber disso, que de seis em seis meses ia ter um carro com 0 km, durante quatro anos, fui comprar um carro, um Audi A4 cabrio. Foi uma extravagância porque não tinha necessidade naquela altura.

Tem ou teve alguma alcunha?
No Boavista eu era o Soneca. Nos treinos, aplicava-me, mas sou muito distraído e se calhar por aí puseram o nome de Soneca. Depois tive de mudar a minha personalidade [risos].

Tatuagens?
Não. Ando para fazer uma desde que a minha filha nasceu mas ainda não ganhei coragem, tenho medo de agulhas [risos].

Tem algum hobby?
Não. Gosto de viajar. Tenho uma outra característica que não é um hobby, mas um vício. Chocolates. Sou mesmo viciado. Quando era mais novo chegava a sair de casa de madrugada para ir a uma estação de serviço comprar chocolates. Hoje tenho sempre chocolates em casa e como todos os dias.

Quais os preferidos?
Gosto de todos, Ferrero Rocher, tabletes da Milka, os Guylian, tudo [risos]. A minha mãe diz que sou chocolatodependente.

Qual foi o país ou a cidade para onde viajou de que mais gostou?
O México. Adorei o México, para destino de férias.

Tem algum outro desporto que goste de praticar?
Gosto muito de jogar o Padelball, é uma espécie de futevólei, mas o campo é como o do Padel, tem vidros. E também gosto de Padel.

Diogo jogou duas épocas no UD Oliveirense

Diogo jogou duas épocas no UD Oliveirense

Gualter Fatia

Qual a maior frustração e a maior alegria que teve na carreira?
Não digo frustração, mas... As pessoas elogiam a minha carreira, tive uma carreira bonita mas o nível a que cheguei, tendo colegas meus tanto no FC Porto como no SC Braga como na seleção, vendo onde eles chegaram e onde eu cheguei, sinto um bocado aquela coisa... Porque é que eu não cheguei lá? Mas obviamente as lesões, as questões de processos, como caso do Gil, acho que podia ter feito muito mais, porque se os meus colegas chegaram lá, eu também deveria ter chegado porque eles não eram melhores do que eu em termos de qualidade. Mas o jogador não se reflete só na parte técnica, é preciso muito mais e se calhar faltou-me um bocado mais de mentalidade. Ver os meus colegas como Nani, Quaresma, Eder, Adrien, José Fonte, João Moutinho, todos eles foram meus colegas de seleção e ver onde eles chegaram... A maior alegria foi ouvir o hino com a camisola da seleção vestida, porque é uma sensação incrível, depois foi ganhar a Taça de Portugal e, por fim, outra sensação única, porque também era um sonho, jogar a Champions League, ouvir o hino da Champions também é outro momento marcante.

Algum clube onde gostava de ter jogado?
O Liverpool.

Algum treinador com quem gostava de ter trabalhado?
Jorge Jesus. Sou um admirador muito forte dele. Aprecio o tipo de futebol dele. E se tivesse trabalhado com ele de certeza que ia evoluir porque vejo a evolução que todos os jogadores que passam por ele têm.

E uma história para finalizar a entrevista, não há?
Só me lembro de uma que já foi contada por um colega.

Vamos ouvir a sua versão então.
Num estágio do Boavista, ficamos uma semana na Madeira porque tínhamos um jogo a meio da semana para a Taça com o Nacional e no fim de semana para o campeonato também com o Nacional. Estávamos ali há tantos dias fechados no hotel que é normal aquelas palhaçadas nos quartos. Eu estava no mesmo quarto do Tiago, que jogou no Benfica e no FC Porto, e no quarto ao lado estava o Carlos Fernandes, o guarda-redes. O Tiago lembrou-se de chateá-lo. Era de tarde, estávamos na hora de descanso e começamos a bater na parede do quarto para chatear o Carlos, pusemos um vaso daqueles grandes à porta do quarto dele e batemos à porta. A determinada altura, ele já cansado e furioso, entrou pelo nosso quarto adentro, pegou no extintor e foi tudo o que havia à frente. Eu fiquei branco. Tentámos fugir para a varanda mas ele estava mesmo furioso. Não havia nada no quarto que não estivesse branco. Ele acabou por ser multado pelo clube e tudo porque o quarto estava todo cheio do pó do extintor [risos], qualquer objeto que levantássemos ficava a marca [risos].