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A casa às costas

Jorge Costa, parte II: “Tive papagaios, passarinhos, peixinhos, tartarugas, um pavão. E coelhos... deitava-me com três, acordava com 20”

O menino que sonhava ser veterinário é, aos 48 anos, um homem de feitio mais refinado, como faz questão de dizer. O Bicho acalmou, mas continua com a mesma ambição de ganhar e confessa que um dia gostava de voltar ao seu FC Porto, a casa onde ganhou o seu melhor amigo, Sérgio Conceição. Se o regresso ao Porto está perto ou se o futuro próximo passa por continuar a ser treinador além fronteiras, isso ainda não sabe

Alexandra Simões de Abreu

CARL DE SOUZA

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Sempre soube que quando pendurasse as chuteiras ia ser treinador?
Eu não sabia muito bem aquilo que iria fazer. O que aconteceu foi que acabo a minha carreira no Standard de Liège, regresso a Portugal e decido acabar a minha carreira de futebolista. Entretanto, queria aproveitar um bocadinho a vida. Ao contrário daquilo que as pessoas possam pensar, um jogador de futebol tem um vida muito intensa, poucas férias, não tem fins de semana, não tem feriados. Eu queria aproveitar um bocadinho a vida e então comprei um barco.

Um barco? Tem carta?
Sim, patrão de vela e motor. Comprei um barco a motor, porreirinho com dois quartos em baixo. Entretanto em outubro recebo uma chamada do Jorge Mendes com a possibilidade de ir para adjunto do Braga e iniciar a minha carreira como treinador.

Nessa altura já tinha algum nível do curso feito?
Estava a tirar o nível dois. E pronto, foi automático, acho que nem pensei, não foi a parte financeira de todo que me levou a aceitar, o que me levou a aceitar foi a falta que o futebol me estava a fazer. A minha iniciação como treinador foi uma coisa natural que caiu do céu, não estava de todo programado, os meus planos era usufruir um bocadinho da vida , mas muito rapidamente dou o passo seguinte que é ser treinador de futebol.

Essa primeira experiência como treinador adjunto era o que estava à espera?
Eu fui contratado como treinador adjunto quando o Braga ainda não tinha treinador principal. Entretanto, o Rogério Gonçalves é o escolhido para treinador principal e para mim foi tudo uma novidade porque comecei a ver o futebol do outro lado. Foi acima de tudo uma aprendizagem. Entretanto passo a treinador principal.

Jorge Costa com os três filhos

Jorge Costa com os três filhos

D.R.

O que foi mais fácil e difícil no início?
Aquela parte de liderar um grupo não foi difícil, até pela minha forma de ser e de ter sido capitão. Controlar as emoções foi o mais difícil. Mudar o chip, perceber que já não sou mais jogador e que sou treinador.

Deixar de pensar com o coração, é isso?
Exatamente e achar que todos os jogadores tinham que fazer aquilo que eu fazia enquanto jogador. Eu olhava para o jogadores, revia-me e pensava: "se fosse eu teria feito isto de outra forma". Perceber que num grupo de 25, 26 são todos diferentes, uns mais limitados, outros com mais competências, esta gestão emocional na forma como falava com eles foi o mais difícil. E também a nível técnico, mas eu estava a tirar o nível dois. De tal forma que, quando saio do Braga, tomo esta decisão: "alto, pára, pensa bem no que estás a fazer". Acabo entretanto o curso UEFA PRO e decido dar um passo atrás na minha carreira e ir para Olhão, porque eu próprio sentia que não estava completamente preparado, não tinha as competências necessárias para estar a assumir projectos de grande dimensão.

Pensava isso porquê?
Eu faço uma época no Braga, conseguimos o 4.º lugar, com o Belenenses do Jorge Jesus, que era o nosso grande rival ao 4º lugar. Na altura era o Porto, o Sporting e o Benfica e depois é que vinha o Braga, o Guimarães, o Belenenses. Fiz essa época, modéstia à parte, bem, chegámos à meia final da Taça de Portugal. Inicio a época e a minha relação com o presidente do Braga não foi a melhor, culpa minha, pelo meu feitio, por achar ainda que era a última bolacha do pacote. Achava que era um bocadinho assim: "eu quero, posso e mando". E bati de frente algumas vezes com o presidente do Braga. A relação começou a não ser a melhor, culpa minha, volto a repetir, do meu feitio, e por isso achei que devia dar dois passos atrás, em todos os aspectos. No aspecto técnico, no aspecto de relações humanas, o perceber as dificuldades que alguns clubes tinham e portanto ter ido para Olhão foi o melhor que me podia ter acontecido, porque encontrei gente com mais dificuldades, gente fantástica, adeptos fabulosos.

Tinha sido pai há pouco tempo nessa altura.
Sim, fui pai do Salvador estava ainda no Braga.

Em Olhão consegue a subida.
Sim, consigo a subida, mas ao contrário de todos os conselhos de gente mais experiente, acabo por ficar mais um ano que também correu bem: conseguimos a manutenção de uma forma mais ou menos tranquila.

E foi para Coimbra porquê? Como é que surge?
Consigo uma subida histórica em Olhão, passados 33 ou 34 anos. Dou alguma estabilidade ao clube no sentido de terem ficado na primeira Liga já com as obras feitas no estádio, com outras condições e eu achava que o meu ciclo ali estava fechado - e fui para a Académica que é um clube histórico também.

O convite vem de quem?
Surge através do Luís Agostinho, o diretor desportivo que me reuniu com o presidente. Foram seis meses fantásticos. Lembro-me de começar a época, irmos ganhar à Luz o primeiro jogo, e é preciso contextualizar isto, porque foi em agosto, com os emigrantes todos cá, o Estádio da Luz completamente cheio, o Benfica vindo de ser campeão nacional e ganhámos 2-1, na Luz.

Estava confiante de que ia ganhar?
Claro que há aquelas dúvidas de como é que a equipa se vai apresentar, não vínhamos de uma série de seis, sete jogos onde já percebemos aquilo que somos capazes de fazer; para muitos jogadores era a primeira vez que pisavam o Estádio da Luz - e como já disse o Benfica vinha de ser campeão. O estádio estava cheio e eu notava na cara dos jogadores que eles estavam completamente bloqueados, muitos deles não devem ter dormido na véspera. E eu brinco muito com os meus jogadores, claro que nunca se pode esquecer que eu sou o treinador e eles são os jogadores, mas eu procuro estar próximo deles e tirar o máximo deles. A minha forma de liderar é liberdade/ responsabilidade e acima de tudo, frontalidade e tranquilidade. Então, para retirar um bocadinho da pressão, lembrei-me de brincar com eles e fazer uma espécie de “Casa dos Segredos” com os adjuntos, como já contou o Diogo Valente numa destas entrevistas de “A Casa às Costas”. Tínhamos um grupo fantástico, foi uma forma de liderar mais liberal do que o eu quero, posso e mando.

Quanto passa do Braga para o Olhanense, o tipo de jogador é completamente diferente?
Tive a felicidade de ir para um clube que tinha excelentes relações com os os três grandes e eu tinha uma excelente relação com o Porto e tinha emprestados sete jogadores dos sub-21, mas todos com uma qualidade brutal, muito acima da média. Portanto, eram os meus meninos, eram meninos de 20 anos, 19, 21. Tinha uma equipa muito jovem, uma mistura de Rui Duarte, com o Djalmir, Bruno Veríssimo, com o Ukra, Castro, João Gonçalves... Vou-me esquecer de alguns nomes de certeza. Lembro-me de as pessoas terem dito “II Liga sem experiência, esquece”. Mas sempre fui da opinião que não tem a ver com a idade, tem a ver com competência. Se um jogador é competente e se tem 19 anos, serve; não preciso de jogadores de 28 ou 29 anos com muitos jogos, mas com pouca qualidade. Prefiro e opto sempre pela qualidade, independentemente de saber que muito deles cometeram erros, mas também sabendo que passados anos foram muito melhores jogadores do que aquilo que eram quando me chegaram às mãos.

Jorge Costa assume co comando técnico do SC Braga em 2006/07

Jorge Costa assume co comando técnico do SC Braga em 2006/07

CityFiles

Porque é que sai da Académica e como é que vai treinar o CFR Cluj da Roménia?
Saio da Académica por problemas pessoais, particulares, guardo-os para mim, e na altura sinceramente decidi fazer uma nova pausa até que me aparece um convite da Roménia. Já era um namoro antigo e eu decidi reiniciar a minha carreira fora do país.

Qual foi o primeiro impacto, assustou-se, era o que estava à espera?
O primeiro impacto não foi agradável; entretanto, depois conheci uma cidade fantástica. Cluj é realmente uma cidade fantástica e tinha óptimas condições, tinha uma boa casa, o estádio era maravilhoso, as pessoas foram fantásticas no trato.

Jogadores e de futebol, muito diferente de Portugal?
Tinha muitos jogadores portugueses, tinha muitos jogadores brasileiros, argentinos, tínhamos uma equipa belíssima, um grupo de trabalho também muito bom. Só que eu cometi um erro grande: tinha um prémio de campeão e tinha uma cláusula no contrato que a qualquer momento eles podiam despedir-me, a não ser que nos últimos três jogos eu fosse em primeiro ou a dois, ou três pontos, não me lembro exactamente, do 1.º classificado. Eles despediram-me a cinco jogos do fim, quando eu ia em primeiro com cinco pontos de avanço sobre o segundo. Ainda hoje continuo a achar que isso foi uma estratégia baixa deles para não me pagarem o prémio de campeão nacional.

Foi embora e vai parar a Chipre.
Entretanto, quando saio do Cluj o Sérgio Leite, que foi guarda-redes do Boavista e que era empresário, falou-me na possibilidade de ir para Chipre. Fui, gostei e fiquei dois anos em Chipre em clubes diferentes.

Um futebol muito diferente do romeno e do português?
Não, um campeonato acima de tudo perigoso, porque tu nunca sabes exatamente se estás a jogar com o baralho todo, ou se há ali metade do baralho que está viciado. O Chipre tem esse problema das apostas que me desagradou e que me fez em determinadas alturas pensar se realmente estava a jogar com o baralho todo ou se havia partes do baralho que não estavam a funcionar muito bem.

É o Jorge Costa que decide vir embora?
Não, sou despedido no segundo ano.

Jorge Costa foi treinar o AEL Limassol do Chipre em 2012

Jorge Costa foi treinar o AEL Limassol do Chipre em 2012

Christof Koepsel

Surge-lhe logo o Paços de Ferreira?
Sim, surge o Paços de Ferreira, mas foi já na parte final da época, num ano difícil do Paços que tinha começado com o Costinha, depois foi o Calisto, com uma equipa que tinha disputado a Liga dos Campeões, mas que estava a passar por uma fase muito complicada.

Mas não fica no Paços. Porquê?
Eu fui ao playoff com o Aves, garanto a permanência, mas entretanto o Paços decidiu e bem, não tenho nada a dizer, pelo Paulo Fonseca, que de uma forma surpreendente decide voltar ao Paços de Ferreira, depois de ter passado pelo FCP. E com toda a humildade - o Paulo tinha sido a grande referência como treinador do clube, tinha conseguido uma qualificação histórica para a Liga dos Campeões -, acho que foi uma opção perfeitamente natural do Paços de Ferreira em optar pelo Paulo Fonseca. Estou convencido de que se o Paulo não decidisse dar essa passo atrás na carreira, provavelmente eu teria continuado em Paços.

Segue-se uma aventura por África, outro mundo, completamente diferente.
Do nada o Deco propõe-me ser selecionador do Gabão, o que na altura me fez um bocadinho de confusão. "Mas espera aí, o que é que faz um selecionador? Vou para África fazer o quê?" E é aquela coisa que primeiro estranha-se e depois entranha-se, porque realmente foi fantástico, a todos os níveis.

O que é que realça desses anos em África e daquilo que viu?
Mudou a minha vida completamente por vários motivos. Porque conhece-se uma realidade completamente diferente. Já tinha ido a Cabo Verde e a Angola, mas era ir e vir. Viver em África foi fantástico, vivi num país muito bom, um país grande, onde tinha todas as condições. Vivia numa casa fantástica, com piscina, tinha todas as condições de qualidade de vida. A nível pessoal aconteceu-me a melhor coisa que podia ter acontecido na vida, conheci a minha atual mulher. Foram dois anos e meio fantásticos que infelizmente acabaram, porque por mim ainda lá podia estar. Fui muito feliz.

Mas foi-se embora.
Estive lá dois anos e meio, o que em África é muito. Acho que ninguém aguenta muito tempo lá, e eu fiquei dois anos e meio.

É muito diferente ser selecionador ou treinador de um clube. Qual é a que lhe agrada mais?
Agrada-me muito mais ser treinador de um clube. Num clube acabas um jogo e pegas num jogador, vais para o campo, alteras o que tens de alterar, tentas e insistes, insistes, insistes; na seleção, basicamente, é escolher o melhor 11. E estamos a falar de uma seleção africana onde há deslocações grandes dos jogadores que estão fora, na Europa, a maior parte deles. Portanto, não tens quase tempo para trabalhar. Quando estás num clube na pré-época observas, é quase como um bebé, vais vendo crescer, ensinas a andar, ensinas a correr, ensinas a comer, a falar, vais ensinando, não que eles precisem de ser ensinados, mas vais fazendo as coisas à tua maneira. Na selecão os jogadores vêm de 20 clubes diferentes com hábitos diferentes, maneiras de jogar diferentes, maneiras de pensar diferentes; portanto, conjugar isto tudo, de um grupo de 23 conseguires fazer um 11 um bocadinho como tu queres, é mais difícil.

Depois do Gabão, vai para a Tunísia, uma outra África.
Sim, mas foi um erro. Não foi um erro porque fui para um clube histórico, um clube grande, mas um clube de gente pouco séria. Fiquei na Tunísia três semanas.

Porquê?
Porque me ficaram de pagar uma vez, ficaram de pagar uma segunda vez, ficaram de pagar uma terceira vez e à terceira peguei nas minhas coisas e vim embora.

O Bicho torna-se seleccionador do Gabão, em 2014

O Bicho torna-se seleccionador do Gabão, em 2014

ISSOUF SANOGO

Segue-se o Arouca.
Surge o Arouca, num projecto que era um projecto de subida em que tudo correu mal, desde o início.

Então?
Porque os jogadores não estavam minimamente imbuídos naquele projeto. Desde o primeiro dia mostraram vontade de sair, não queriam jogar na II Liga, com promessas do presidente e da direção de que não havia problemas, que eles iriam ficar - e a três, quatro dias do primeiro jogo, há quatro jogadores que se recusam a jogar e que são postos à parte, à margem do grupo e já não houve tempo de reformular todo o plantel. Havia mau ambiente por causa dessas questões que não são agradáveis e portanto foi um projeto que desde o início começou mal.

A seguir vai para o Tours em França.
Vou um bocadinho pela experiência do campeonato francês. Num projeto que eu tinha quase a certeza que era impossível, era o último classificado, tinha quatro pontos em meia volta do campeonato, portanto só um milagre. Mas esteve quase para acontecer porque conseguimos fazer 21 pontos na segunda volta, ficamos próximos de conseguir esse milagre. Houve uma fase em que nós vínhamos de quatro jogos com três vitórias e um empate e estávamos numa fase boa e tínhamos um jogo em casa contra o Valenciennes e é quando nos morre um jogador na academia e o jogo foi adiado. Quebrou ali um bocadinho aquela série de bons resultados.

Como é que o jogador morreu?
De morte súbita, morre a dormir. Foi complicado, foi no nosso centro de estágio, onde estávamos o dia todo. Estamos a falar de um jovem de 17 anos, foram momentos difíceis com os pais, com a polícia, com tudo. Era uma equipa que tinha muitos jovens da Academia e os miúdos sofreram muito. Foram momentos realmente difíceis, aqueles momentos em que vemos que a vida não vale, o futebol não vale, não vale nada.

Segue-se a Índia.
Há quatro ou cinco anos que me chateavam para ir e eu não queria, era longe. Até que tive uma conversa com o Hélder Postiga que tinha lá estado, com o Sereno que também lá tinha estado, e que me disseram maravilhas da Índia e eu decidi ir ver.

E?
O primeiro impacto difícil, difícil. Cheguei a Mumbai à noite, um aeroporto fantástico, quando saio do aeroporto um trânsito...E estamos a falar às duas da manhã, estamos a falar de uma cidade com 20 milhões de habitantes e um trânsito... Eu pensei, este é um novo Mumbai, portanto deve ser uma coisa mais moderna... Esquece. Nós estávamos bem instalados num condomínio fechado, mas quando saíamos, era lixo na rua, uma pobreza… Mas é de extremos. Tens hotéis fantásticos de cinco estrelas, tens Ferraris, tens Lamborghinis e depois tens a maior favela da Ásia. Como íamos ficar em Nova Mumbai pensei que fosse uma coisa mais moderna. Mas não. E estávamos a nove ou dez quilómetros do centro. Só que para fazer esses nove ou dez quilómetros demorávamos. no mínimo, 01h45 a chegar lá. Portanto a minha vida social era zero: treino, condomínio, condomínio, treino. Cada vez que queríamos ir jantar fora perdíamos a vontade.

Estava sozinho com a equipa técnica ou estava com a família?
Estava sozinho. As deslocações eram muito difíceis, íamos jogar fora sempre de avião e só de Nova Mumbai ao aeroporto demorávamos duas horas. Agora o campeonato era engraçado, gente séria, gente que quer aprender, quer evoluir, que gosta muito daquilo que faz e por isso é que eu fiquei lá dois anos também. O primeiro ano foi difícil, lembro-me que na primeira semana queria vir embora. Puseram-me num belíssimo hotel junto ao aeroporto a mim e ao meu adjunto para me acalmar. porque eu estava chocado - não sei se chocado é a palavra, mas custou-me muito a adaptar.

O que lhe custou mais?
A falta da família, a falta de poder ir dar uma volta pela cidade e tomar um café. Faltou-me muito um bife, em Mumbai não se come carne de vaca, senti muita a falta de um bife [risos]. A comida é fantástica, mas infelizmente por questões de saúde não posso comer aquele tipo de comida que é fabulosa, mas muito picante, muito condimentada e foi um choque cultural. Mas depois adorei. Eles têm muito respeito pelas pessoas, então por mim era sempre com o "sir", "sir, sir, sir", o que fez com que eles se retraíssem um bocadinho naquele primeiro contacto. E eu senti-me um bocadinho isolado; depois percebi que eles não falavam comigo por respeito, por medo quase. Quando começámos a tornar as relações mais próximas foi bom.

Foi embora porquê?
Porque acabou o contrato. Entretanto acabo na Índia, começam contactos, contactos, contactos, até que começa o coronavírus, passado uma semana. Saí da Índia mesmo na altura certa e, como em todas as áreas, isto parou completamente e agora finalmente começam a aparecer projectos e propostas.

A sua ideia é ficar por cá ou ir para fora outra vez.
Sinceramente quando voltei da Índia pensei em ficar por cá e a minha prioridade será sempre ficar em Portugal, mas são coisas que tu não consegues controlar, porque não dependem de ti, dependem de quem te queira e da forma como te querem. Já tive contactos de cá, de fora, estou numa fase de tentar perceber o que será melhor para mim, para o meu futuro.

Jorge Costa chega ao comando técnico do Arouca em 2017

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Gualter Fatia

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Gabão.

Qual foi a maior extravagância que fez porque sim, porque podia?
Se calhar foi ter comprado um barco porque sim, porque me apeteceu.

Onde é que foi investindo o seu dinheiro ao longo dos anos?
Em imobiliário.

Já sabemos que é um homem de fé. E supersitções, tem?
Cada vez menos. Vamos largando, acho eu. Até posso contar uma história. No Penafiel, e isto foi em 90, não tínhamos fato de treino de estágio, íamos com a nossa roupa e houve uma altura em que eu levava uma camisola de gola alta e ganhámos o jogo. No jogo a seguir a mesma roupa e empatámos ou ganhámos, já não sei, mas fizemos ali mais uma série de três, quatro jogos sem perder. Entretanto o tempo começou a mudar e começou a ficar calor, até que perdemos um jogo e eu quase que fiquei contente porque podia largar aquela roupa e pôr uma coisa mais fresca [risos]. Isto é daquelas superstições que todos nós temos e depois a idade e a experiência de vida vão-te dizendo que não é por isso que as coisas te correm melhor ou pior. Portanto hoje sou quase zero.

Tatuagens tem?
Tenho.

Qual foi a primeira e o que é?
As iniciais dos meus filhos.

Tem algum outro desporto que goste muito de seguir?
Eu vejo muito desporto e vejo um que é um problema aqui em casa porque ninguém gosta: o ciclismo. Também gosto de ver Fórmula 1, ténis. Gosto muito de desporto. O ciclismo, gosto muito de ver as provas de montanha, adoro a Volta a Portugal, já fui ver várias vezes, gosto da subida à Torre. Adoro ver o Giro, a Volta à França, a Vuelta. Sobretudo quando são as etapas de montanha. E acho que o ciclismo tem uma parte de estratégia brutal que quem não aprecia ciclismo não compreende. É um desporto de equipa, não é nada individual, é uns a trabalhar para os outros.

Gostava de um dia treinar o Futebol Clube do Porto?
É difícil, acho que iria sofrer muito e eu quero uma vida sem sofrimento.

Defina Pinto da Costa em três palavras.
Obreiro, líder e insaciável.

O que é que o Pinto da Costa tem de diferente dos outros presidentes?
Ele é uma pessoa muito inteligente. É uma pessoa de pensamento rápido, é uma pessoa de estratégia, é um apaixonado por aquilo que faz. Mas acima de tudo a inteligência dele e a vontade. Ainda nestas eleições, ele candidata-se - e isto são palavras dele - não por aquilo que fez, mas por aquilo que quer fazer. Não é fácil tu encontrares esta motivação.

Tendo em conta a idade dele não acha que podia ter dado lugar a alguém mais novo?
Da mesma forma que lhe disse há pouco que fui para a II Liga com miúdos, aqui não era a questão da idade, nem da experiência, era a questão da motivação e da qualidade, isto aplica-se no sentido contrário ao Pinto a Costa. Tem motivação, tem todas as competências, é a pessoa certa no lugar certo, não há dúvidas.

Ser dirigente nunca o aliciou?
Depende. Ser dirigente de escritório, estar fechado num escritório, não. Dirigente de estar próximo era uma coisa que me via a fazer. Por exemplo, diretor desportivo sim porque tens papel importante, tens poder de decisão, estás próximo. Agora aqueles dirigentes de escritório, não.

Na época 2017/18 Jorge Costa ainda treinou o Tours, de França

Na época 2017/18 Jorge Costa ainda treinou o Tours, de França

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Gostava de um dia voltar ao FCP?
Claro que sim, sem dúvida.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
A minha resposta é básica, até parece que está na moda agora, mas foi o Sérgio Conceição. Foi e é o Sérgio Conceição.

Então acha que o FCP está bem entregue?
Essa é aquela pergunta que parece que estou a responder por conveniência. O Sérgio cresceu comigo. Nas circunstâncias, no contexto, no momento, o Sérgio é claramente a pessoa certa no lugar certo, sem dúvida nenhuma.

Mas o Sérgio não pensa e age ainda muito com o coração?
O Sérgio é o meu melhor amigo, isto quer dizer que o conheço muito bem. Conheço o Sérgio, conheço a sua família há muitos anos e uma coisa garanto: o Sérgio não vai mudar. O Sérgio é das pessoas com melhor coração. Muito competitivo. É este o Sérgio e por isso é que ele desperta paixões e ódios. Mas conhecendo-o como o conheço não tenho problemas em dizer que o Sérgio é dos melhores seres humanos que eu conheço.

O facto de ele ter sempre o coração ao pé da boca não pode prejudicar o FCP?
Mas isso é o Sérgio e por isso é que ele desperta emoções completamente opostas. Ele não vai mudar.

O Jorge já disse que mudou.
Eu fui-me refinando [risos]. Sim, eu mudei. Mas atenção, a ideia que as pessoas têm do Jorge Costa, não é o Jorge Costa do dia a dia. Há muita gente que só me conhece de me ver jogar e de treinar e também sou muito competitivo, mas hoje tenho atitudes diferentes daquelas que tinha aos 25 e mesmo aos 30 anos.

Hoje em dia como treinador, como é que se processa nas equipas que treina a escolha do capitão?
Por exemplo, na Índia fui eu que decidi. Até retirei a braçadeira a um para dar a outro, porque achava que tinha um perfil mais adequado. Mas normalmente os capitães já vêm de épocas anteriores e, se não tiveres nada contra, aceitas pacificamente.

Já fizeram estas pergunta dezenas de vezes e eu vou fazer mais uma: consegue explicar o que é a mística?
A mística é uma coisa muito complicada. É dedicação e paixão. Dedicação, mais do que paixão. Porque a paixão só por si não é suficiente. Quando me perguntam para definir a mística é sempre complicado porque as coisas são tão naturais. Nós éramos muito dedicados e fazíamos as coisas com uma paixão louca.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
O meu sonho de menino era ser veterinário.

Tem animais de estimação?
Tenho. Sempre tive. Já tive papagaios, passarinhos, peixinhos, gatos, tartarugas, um pavão que me ofereceram, já tive coelhos, hoje deitava-me com três coelhos, amanhã acordava com 20 [risos]. Agora tenho um cão meu, um pastor alemão chamado Ralf, e dois beagles emprestados do meu filho que estão sempre comigo.

Tem três filhos, algum deles jogou ou joga futebol?
Jogou o mais velho, o David. Entretanto optou pela vida académica, por estudar.

O que é que ele faz hoje em dia?
Ele formou-se me Les Roches, Marbella, em Business and Management e está ligado a essa área de sales, de vendas. O Guilherme está a tirar precisamente o mesmo curso que o irmão mais velho, mas está em Vila do Conde. O Salvador estuda.

Porque é que acha que nenhum seguiu o futebol?
Não sei, o que esteve mais próximo foi o mais velho, o David, que chegou a jogar na seleção do Algarve e até tinha qualidade. Mas depois também decidiu ir meter música à noite e fazer de DJ, portanto eram duas operações em que não batia bem a bota com a perdigota. Mas era aquele que tinha e tem mais paixão pelo futebol. Ele adora futebol, mas preferiu seguir outro caminho.