Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Porque saí do Benfica? O Toni disse que o Kulkov não jogava mais, mas pô-lo no meu lugar. Desorientei-me, dei uma pancada no adversário”

Do início da carreira até à saída do Benfica, António Pacheco revela alguns pormenores da sua vida pessoal e profissional nesta primeira parte da entrevista. Entre muitas histórias, conta porque fugiu de casa uma noite, aos 11 anos; o que o levou ao Benfica sendo simpatizante dos "leões"; fala das idas à discoteca para ouvir rock e relata o dia em que Eriksson gravou um treino seu para lhe dizer que tinha de trabalhar mais e falar menos. E ainda explica as razões da mudança da saída da Luz para o rival da Segunda Circular

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Portimão. Apresente a família.
Sou daqueles que nasceu em casa. Vivíamos numa casa de família com bastantes pessoas, chegámos a ser 11. Havia o meu avô e a minha avó maternos, dois filhos, o meu tio e a minha mãe, casados e com dois filhos cada um. Volta e meia tínhamos lá também a matriarca da família, a minha bisavó que como tinha cinco filhos fazia temporadas nas casas de cada um. Daí chegar a 11 às vezes. Felizmente a casa era relativamente grande, embora ocupada na sua plenitude aquilo era...deve imaginar [risos].

Mas eram tempos felizes esses?
Era isso que ia salientar. Saia toda a gente para ir trabalhar, ficavam só os mais pequeninos, neste caso eu, a minha irmã, mais velha cinco anos e meio, e os primos. Era só brincadeira.

Os seus pais o que é que faziam profissionalmente?
O meu pai era motorista marítimo, trabalhava na casa da máquina de uma traineira. Foi pescador a vida toda. Quando eu era pequenino, a minha mãe começou a trabalhar num hotel e fazia os quartos.

Havia alguém na família ligado ao futebol?
Em tempos o meu avô paterno foi guarda-redes, ainda jogou no Portimonense e nos clubes aqui de Portimão e arredores. O meu gosto pelo futebol desenvolve-se muito, porque o meu avô materno, com quem vivi, tinha uma grande paixão pelo futebol. Daí até eu ficar conhecido por Pacheco. Eu sou António Manuel Pacheco. Este meu avô é que era o velho Pacheco.

O futebol começa na rua?
Sim. Tive a felicidade de ter um espaço enorme na rua onde cresci e nós, miúdos, fomos fazendo daquilo um campo de futebol.

Quem eram os seus ídolos?
O meu pai era do Sporting e este meu avô era do Benfica, embora primeiro estivesse o clube da terra, o Portimonense. Os meus ídolos… O futebol naquela altura era uma coisa muito rara de se ver e praticamente nem resumos havia. Havia dois jogos por ano, a final da Taça de Portugal e a final da Taça de Inglaterra. Eram os dois únicos jogos que se viam em direto na televisão. Em relação aos ídolos, cresci a ouvir falar no Eusébio, apesar de não o ver jogar, mas havia outros jogadores que vi jogar algumas vezes e inclusivamente cheguei a ser colega de alguns, como o Bento, o Damas… Eu quando era pequenino puxava pelo Sporting, por causa do meu pai. Havia dois jogadores, o Jordão e o Chalana, mas aquele de quem mais gostava era do Jordão numa fase mais adolescente.

Estava a contar que começou a dar os primeiros chutos num campo ao pé de casa.
Sim. E tive a sorte de o dono desse terreno, o Sr. Dias, ser amigo da minha família, e como eu passava tantas horas a jogar sozinho ou com alguém que estivesse disponível, o senhor começou a ganhar alguma admiração por mim, pelo facto de eu ser tão persistente, de passar ali tantas horas. As horas nunca chegavam, aquilo acaba sempre comigo a correr a frente da minha mãe ou da minha avó, para ir para casa [risos]. Como a minha rua ficava a caminho do aviário do qual o Sr. Dias também era dono, ele às vezes parava lá o carro e ficava a ver-me jogar. Anos mais tarde fiquei a saber que ele só vendeu esse terreno, que hoje é uma bomba de gasolina, numa fase adiantada da sua vida. Nunca o vendeu antes, porque gostava de dizer às pessoas “aqui jogou fulano tal”, já eu jogava no Benfica e na seleção.

E da escola, gostava?
Eu era um excelente aluno, na primária era, senão o melhor, um dos melhores alunos da minha classe. No ciclo já foi diferente, estreei uma escola que tinha um campo de futebol, todo bonitinho, com linhas, com redes que eu nunca tinha visto e por isso tornei-me um baldas.

Pacheco ao colo do pai

Pacheco ao colo do pai

D.R.

Quando é que começa a jogar futebol mais a sério?
Perto de mim havia um rapaz muito apaixonado pelo futebol que fazia uma equipa para nós podermos disputar jogos contra as outras aldeias, as outras ruas, os outros bairros, e comecei aí a iniciar a minha competição. Aos 10 anos jogava nos Escutas de Portimão para também poder participar em torneios. A partir dessa altura havia os treinos de captação dos clubes. E eu, na altura, fui a um treino à experiência ao Portimonense, num terreno baldio que havia na Praia da Rocha. Fui treinar com muita gente mais velha do que eu e fiquei apurado, mas como não tinha idade ainda tive de ficar mais um ano à espera. Continuei a jogar nos Escutas e também no Liceu, em Portimão. Um dia, houve uma chatice em casa, porque o meu pai era uma pessoa muito rígida com os horários das refeições... Ele saía, passava as noites fora e quando chegava não gostava de almoçar sozinho e então quando ele determinasse uma hora... Então, eu chegava sempre atrasado à hora do almoço e um dia decidiu castigar-me e disse-me: “Já não vais jogar para o Portimonense como castigo por chegares sempre atrasado”. Eu levei aquilo a mal, muito a mal mesmo. Na minha ingenuidade pensei: "não vou jogar para o Portimonense, vou para a Torralta". Era a primeira vez que a Torralta fazia treinos de captação.

E foi lá?
Antes disso tenho uma história engraçada. Eu era adepto do Sporting. E desde muito novo ia à lota de Portimão e, sempre que podia, vendia uns peixinhos nuns mercados de gado que havia perto de minha casa, para ter algum dinheiro para comprar uns bolos e beber uns sumos. Um dia estava no mercado do gado e achei dinheiro, umas notas. Já não me lembro de quanto era, mas sei que para um miúdo era uma quantia avultada. Os meus sonhos eram sempre coisas relacionadas com o futebol e pensei, tenho de ir comprar o equipamento do Sporting. Isto com uns 11 anos. Só que não era como hoje: havia poucas lojas de desporto, aliás, acho que em Portimão havia só uma. Lá fui eu a caminho da cidade - morava mesmo na extrema da cidade - e quando cheguei à loja, para grande desilusão minha, não havia equipamento do Sporting para a minha idade. E ironia do destino, pensei, mas eu não saio daqui sem um equipamento, para mim o futebol era tudo e sobrepunha-se até aos clubes. Qual era o único equipamento que havia? Saí de lá com o equipamento do Benfica, muito longe de sonhar que um dia o ia vestir a sério [risos].

Mostrou o equipamento em casa?
Não mostrei nada, escondi tudo. Em período de férias, durante o dia a minha mãe não estava e o meu pai chegava ao fim da manhã e, como pessoa do mar que era, almoçava e a seguir ao almoço dormia, porque às oito ou nove da noite tinha de ir para o mar novamente. Portanto, do ponto de vista logístico a coisa estava facilitada para mim. Passado uns dias aproveitei para vestir o meu equipamento novo e apresentei-me com mais três amigos no campo da Torralta. Fomos os três ao gabinete do coordenador do futebol, o senhor Augusto Palma. O senhor olhou para nós, eu estava no meio: “Tu e tu podem ir treinar. Tu aí no meio, não”. Fiquei cá fora, super triste, à espera que os outros terminassem o treino. Enquanto esperava, aquilo foi criando uma revolta imensa em mim. Não conseguia arranjar uma explicação lógica para ele não me deixar treinar. Às tantas, quando já não havia mais ninguém, entrei novamente, bati à porta, estava completamente desesperado, se ele não estivesse ali, acho que entrava para dentro do campo à mesma. Fui ter com ele e perguntei-lhe: "Desculpe lá, mas porque é que eu não posso treinar?" E ele respondeu-me que era por eu ser jogador do Portimonense. Havia uma grande rivalidade entre a Torralta e o Portimonense e eu como tinha ido treinar à experiência um ano antes no Portimonense, ele achou que eu era jogador do Portimonense. "É verdade, eu fui mas não fiquei apurado", menti-lhe. Ele lá me deixou ir treinar. A dada altura estamos todos sentados no campo para ele fazer a divisão e arranjar as equipas e pergunta-me: "Então e tu qual é a tua posição?"; "Extremo esquerdo"; "Ai sim? Então vais para extremo direito" [risos]. Conclusão, fiz um excelente treino, acho que a minha equipa ganhou 5-2 ou 5-3, eu fiz três golos.

E ficou logo?
O senhor Palma no fim virou-se para nós: "Tu não... Tu traz o bilhete de identidade e duas fotografias". E tínhamos de levar o formulário para casa para ser preenchido e assinado pelo pai. E aqui é que a coisa ficou muito difícil [risos]. Cheguei a casa, falei com a minha mãe e, por ela, tudo bem, ela era mais apaziguadora. Mas quando confrontei o meu pai ele disse-me que não... Naquela noite fugi de casa.

Para onde? Tinha 11 anos, certo?
Sim. Eu também só fiz aquilo porque o meu pai tinha saído para o mar, porque se ele dormisse em casa eu não me aventurava [risos]. Mas criei um tumulto, meti a família toda à minha procura durante a noite, os vizinhos também. Fiquei até às três da manhã dentro de um camião que estava numa oficina que tinha uns carros velhos à porta, a ver as pessoas todas à minha procura e eu a dar uma de forte. Depois, quando cheguei a casa a coisa foi muito difícil [risos]. A minha mãe ia-me matando, a família não dormiu a noite toda à minha procura.

Quando o seu pai chegou a casa e soube o que se tinha passado, o que lhe aconteceu?
A coisa foi contada de uma forma poética, digamos assim, relativizaram muito e passados uns dias o meu pai também entendeu que já tinha demonstrado bem o que pretendia, então lá assinou e eu fui para a Torralta. A época começou em setembro, não pude fazer os primeiros jogos porque ainda não tinha 12 anos, só os fazia em dezembro. A partir daí é que fiquei apto para poder jogar e faço o meu primeiro ano de iniciados.

E depois?
Havia uma grande rivalidade entre a Torralta e o Portimonense, e houve um dia em que o treinador não me meteu a jogar contra o Portimonense. No dia a seguir era difícil no liceu - os que jogavam, os que não jogavam, quem ganhava, quem perdia - e eu fiquei muito chateado. E fui para o Portimonense no ano a seguir. Só que entretanto começamos a ter noção do que são condições de trabalho, já não é só a rivalidade e o gozo por jogar futebol, já começam outras coisas a ter importância. O Portimonense era um clube antagónico à Torralta, não apostava nada na formação; nós treinávamos atrás da bancada central do campo de jogos, em alcatrão, não havia condições nenhumas, foi um ano muito difícil. A Torralta sempre em alta e nós com imensas dificuldades. Acabou essa época e voltei outra vez à Torralta. Mais uma guerra, foi muito difícil, mas contei com a ajuda do senhor Daniel Granadeiro que era o treinador dos iniciados e do senhor Palma.

Pacheco com a mãe

Pacheco com a mãe

D.R.

Quando assina o primeiro contrato?
No segundo ano de juvenil. Tinha 16, quase 17 anos. Eram quatro contos por mês.

Lembra-se do que fez a esse dinheiro?
Não sei. Foi no segundo ano de juvenil, eles davam quatro contos por mês, mas quem fosse internacional já ganhava mais. Portanto eu nesse ano passei de quatro para oito contos por mês. Normalmente eu ficava com o dinheiro para mim, mas sempre que era preciso - e a minha mãe fazia os possíveis para nunca me pedir nada - ajudava em casa.

A sua estreia como sénior ainda é na Torralta?
É. Quando faço o meu primeiro jogo como sénior, sou júnior ainda. Nessa altura já havia uma série de clubes que estavam interessados. Tive a possibilidade, ainda júnior, de ir para clubes grandes, tive a possibilidade de fazer um contrato de júnior e dois de sénior com um clube da primeira divisão, o Vitória de Setúbal, só que nessa altura o meu pai começou a refugiar-se no álcool. Anos mais tarde, viemos a saber que tinha doença de Alzheimer e morreu bastante novo com 60 anos. Como deve calcular, tornava-se difícil a situação em casa. E eu fiz uma proposta ao Torralta: "Eu fico cá se arranjarem um emprego para o meu pai". Eles arranjaram um emprego para o meu pai no campo onde eu treinava e jogava. Faço a primeira época de seniores na Torralta, o ordenado já era melhor, e lembro-me que a minha primeira grande compra foi uma aparelhagem de som, creio que custou nove contos [risos].

O que é que gostava de ouvir?
A minha banda de eleição é Pink Floyd.

Quando deixa os estudos?
Nunca tinha chumbado até ao 8.º ano. Chumbei e a minha mãe ficou escandalizada. Ainda tentei outra vez, mas eu não queria saber nada da escola, só queria era jogar futebol até que a minha mãe me disse: "Esquece lá isso, se é para fazeres essas figuras vais trabalhar". Foi isso que fiz.

Foi trabalhar para onde a fazer o quê?
Várias coisas. Aprendiz mecânico, aprendiz de pintor da construção civil.

Mas precisava de trabalhar com o dinheiro que recebia do futebol?
Nessa altura ainda não era sénior, tinha 16 anos. O meu primeiro contrato assinado a sério foi com a Soares da Costa, tinha 16 anos. Era ajudante de pedreiro. Aquilo não era fácil, e ai é que eu percebi o quanto eu gostava da escola [risos]. Quando passo para os juniores e já ganho oito ou dez contos por mês, pensei: vou voltar à escola. Agarrei-me àquilo e só não faço o 9.º ano porque já estava a treinar nos seniores e, quando começaram as aulas, fui operado à apêndice. Já não deu.

Estávmos no regresso ao Portimonense.
Sim. Depois da minha primeira época de sénior na Torralta, o Portimonense foi buscar alguns miúdos à Torralta, era o Vítor Oliveira o treinador. Eu já o conhecia e facilitou muito. Terminámos a época em 7.º ou 8.º lugar e chegámos à meia final da Taça de Portugal, onde fomos eliminados pelo Benfica. Aí já era um jogador de alguma forma conhecido, fiz um ano bastante bom.

Pacheco (1º em baixo à direita) com um grupo de amigos na adolescência

Pacheco (1º em baixo à direita) com um grupo de amigos na adolescência

D.R.

O Benfica surge através de quem?
Eu já tinha imensos clubes interessados. Posso dizer que fui contactado pelos três grandes e pelo Boavista. E o Boavista porquê? Porque, nos meus primeiros jogos pelo Portimonense, fomos jogar no campo do Salgueiros, contra o Boavista, e ganhámos 3-2 e eu fiz as três assistências. E quer o Major quer o treinador do Boavista ficaram impressionados com o meu jogo e mais tarde quiseram ir buscar-me.

Porque é que optou pelo Benfica?
Porque para além de, na altura, ser o melhor clube em Portugal, com o andar dos anos o meu sportinguismo começou a andar de lado e comecei a olhar mais para mim. O "eu" profissional sobrepôs-se ao adepto e achei que o Benfica era o clube que me dava mais condições para eu poder aparecer. Não estou sequer a falar de condições financeiras. Era o clube que ganhava mais e eu queria ir para um clube vencedor.

E foi o clube que fez a melhor proposta?
Não, a melhor proposta foi do Boavista. Fui contactado pelo famoso senhor Peres Bandeira. Eu tinha um carinho enorme por ele, ainda hoje me emociono de cada vez que o recordo. O senhor Peres Bandeira foi um pai para mim no Benfica e na minha estada no clube. Tinha uma admiração enorme por ele.

Foi para Lisboa de comboio com quatro malas?
Hoje as pessoas ouvem falar em futebol e nos milhões, nos carros e nas casas e essas coisas todas, mas naquela altura não era assim. Posso dizer que ganhava mais em prémios de que em ordenados, porque os clubes grandes não pagavam muito. Tinham era a particularidade de ganhar mais: Benfica, Sporting, Porto ganhavam mais jogos e como havia prémios de jogo, o ordenado começa a ser melhor. Foi essas contas que eu fiz, só que para isso era preciso jogar e era um risco que tinha de correr, apesar de saber que podia não ser muito utilizado, pelo menos de início. Mas sim, quando fui para Lisboa não tenho carro próprio. Entretanto, tinha conhecido umas pessoas que praticamente foram a minha família em Lisboa. Era muito amigo do filho, o Tó Zé. Eles emprestaram-me um apartamento na Graça até me estabelecer. Até aí, eu só ia a Lisboa para jogar ou para os treinos da seleção nacional, não conhecia a cidade. Não tinha carro, fiz duas ou três malas e fui de comboio até ao Barreiro, e o Tó Zé é que me foi buscar. Lembro-me que nessa noite não dormi nada.

Porquê?
A excitação era muita. Não é todos os dias que a gente vem lá não sei de onde e fica sozinho a pensar como é que iria ser a apresentação.

Quando vai para Lisboa deixou algum coração partido no Algarve?
Nós aqui no Algarve começávamos a namorar bastante cedo [risos]. Mas não tinha nada sério. Não era fácil haver namoros sérios, porque no verão recebíamos a visita daquelas miúdas loiríssimas, estrangeiras... que eram diferentes. Não quero de maneira alguma subestimar as algarvias ou as portuguesas, não é nada disso, mas éramos miúdos de 16 anos, até a questão da barreira da língua já é qualquer coisa que nos empurrava.

Pacheco fez a sua formação na Torralta

Pacheco fez a sua formação na Torralta

D.R.

Como é que foi quando chegou à Luz?
Eu tinha passado a minha adolescência toda a colecionar cromos, a ouvir relatos, a querer ser como imensas pessoas de quem iria ser colega. Acordei bastante cedo, chamei um táxi e dei a morada. "É para o estádio da Luz, se fizer o favor". Ele olhou pelo retrovisor: "Estádio da Luz?”. "Sim, senhor". Passado pouco tempo: "Ah pois é, hoje é a apresentação do Benfica, não é?”. “É". "Você vai lá ver a apresentação?". Eu não tive coragem de dizer que não ia ver a apresentação, mas que ia apresentar-me. "Sim, sim, vou ver". E ele sempre a olhar, não sei se ficou desconfiado, não faço ideia, mas foi sempre a falar comigo relacionado com o Benfica. Quando estou a chegar ao estádio da Luz vi imensa gente na entrada. Ai meu Deus do céu. "Agora chego ali de táxi, toda gente a ver quem é e quem não é". Eu super tímido e envergonhado, não estava habituado àquelas coisas. O difícil foi tentar chegar à entrada, porque havia muita gente.

Ninguém o reconheceu?
Não, não. Para me reconhecerem era preciso sair nos jornais e na altura não se saía nos jornais com essa facilidade. A nossa fotografia não aparecia. Fui pedindo licença e estava um senhor à porta e disse-lhe: "Era para entrar, sou o Pacheco que vem do Portimonense”. "Ah você é o Pacheco?”. “Sou". "Então pode entrar". Sempre pensei que houvesse alguém na porta que nos recebia, nunca pensei que fosse o porteiro do Benfica, que obviamente não tinha de saber os jogadores todos que vinham lá de não sei onde. Entrei e a partir daí é um mundo novo que se abre.

No balneário receberam-no bem?
O senhor Peres Bandeira apresenta-me aos treinadores. O Skovdahl tinha acabado de chegar, o Toni estava sempre com ele. No balneário, lembro-me de cumprimentar toda a gente e de ir dizendo o nome. O pessoal conhecido não nos passava cartuxo nenhum [risos]. Não houve uma receção calorosa, todos os anos apareciam jogadores novos, é mais um que vem aí. O plantel do Benfica, nesse ano, tinha mais de 30 jogadores por causa do campeonato de reservas. Aquilo era dividido entre as estrelas de um lado e os que tinham acabado de chegar, do outro.

Jogou no campeonato das reservas?
Sim, ainda fiz alguns jogos no campeonato das reservas.

E no balneário tinha lugar para si?
Havia os lugares marcados e havia também as sobras e eu fiquei com alguma das sobras de certeza absoluta. Mas não havia nomes, nem nada dessas coisas; o lugar que não fosse ocupado pelas estrelas, podia ser o nosso e o meu foi um caso desses.

No Torneio de Cannes em 1984

No Torneio de Cannes em 1984

D.R.

Foi para pré-época com a equipa principal?
Sim, na Suíça. Eu tinha vindo do Torneio de Toulon, da seleção de Esperanças, e estava com imensos problemas de pubalgia, por isso a minha pré-época foi praticamente em recuperação a treinar com o preparador físico, o professor Manuel Jorge. Não fiz muitos treinos, ainda entrei num jogo ou outro quando estava melhor, mas não foi uma pré-época normal. Entretanto, regressámos e fizemos alguns jogos particulares. Sei que na primeira jornada do campeonato fomos à Covilhã e eu fui convocado. Ganhámos 3-0, não entrei. No segundo jogo, com o Vitória de Setúbal, já não fui convocado e aquilo deixou-me de rastos. Fui confrontar o senhor Gaspar Ramos e disse-lhe: “Eh pá, isto assim é difícil, porque eu estava no Portimonense, na primeira divisão e jogava. Se a minha vida aqui vier a ser isto, não jogar, não sei...". Na altura, não havia transferências a meio do ano, e apresentei a minha perspectiva de que se o ano fosse assim, sem oportunidades para poder mostrar-me…

Qual foi a reação dele?
Respondeu-me: "A vida é assim mesmo, companheiro. O treinador é que faz a sua escolha, nós não podemos fazer nada. Tens de continuar a trabalhar”. O terceiro jogo era em Portimão, na minha terra, e aí joguei. Foi o meu primeiro jogo a titular pelo Benfica no campeonato. Mas não fiz um bom jogo sequer.

Estava nervoso?
Sim, era em minha casa e o estádio estava completamente cheio, muita gente conhecida e os aspectos exteriores tiveram uma grande influência no meu desempenho. Mas na 4.ª jornada também fui convocado e joguei com o Marítimo. Perdemos 1-0 e houve logo imensa contestação ao treinador.

Que entretanto, saiu.
Sim, mais à frente. Mas houve uma grande contestação, deviam estar mais de mil pessoas fora do estádio a chamarem nomes aos jogadores, aquelas coisas. Como era um recém-chegado e até fiz um bom jogo não fui muito castigado. Este treinador tinha a particularidade de só trabalhar com 18 jogadores. Ele escolhia 18 e os outros 18 ou 16 ficavam a treinar atrás da baliza ou nos espaços que não eram utilizados pela equipa principal. O Toni acompanhava o Skovdahl e o Jesualdo Ferreira ficava com os restantes jogadores. Nessa altura, passei por uma fase difícil porque para além de serem muitos jogadores, a concorrência era bastante forte: tinha o Wando, que já lá estava há dois anos e era um belíssimo jogador; tinha um dos meus ídolos, o Chalana, que tinha vindo do Bordéus. Por isso não era fácil chegar ali, impôr-me e começar a jogar no Benfica. Lembro-me de uma história a propósito do regresso do Chalana

Conte.
Num Benfica-Salgueiros. Era a primeira convocação do Chalana depois do regresso. Deviam estar 80 mil na bancada, uma coisa absurda. O Chalana era um ídolo, um jogador com um carisma muito grande no clube e tinha uma qualidade acima da média, acima do normal. Aquele foi um jogo que me marcou imenso porque foi bastante difícil para mim, fizesse eu o que fizesse, bem ou mal, eles não queriam saber de mim para nada, o que eles queriam mesmo era ver o Chalana a jogar. Então, de cada vez que eu pegava na bola, aquilo eram uns assobios [risos]. Entretanto eu saio, mas não é o Chalana que entra. Fiquei cá fora, no cimo da escadinhas e de repente ouço um grande barulho no estádio como se fosse um golo. E tinha sido só o Chalana a jogar as mãos aos atacadores das chuteiras [risos]. Eu acho que eles nem estavam a olhar para o jogo, estavam só a olhar para o Fernando. Assim que se levanta do banco foi uma coisa impressionante, era um ruído de golos atrás de golos a entrar na baliza. Quando ele entrou, foi a loucura, aquilo dava gosto ver a admiração e o carinho, era mesmo amor que os adeptos tinham por ele.

A adaptação a Lisboa, à cidade, foi muito difícil para si?
Não, porque aquele meu amigo, o Tó Zé, estava permanentemente comigo, não me sentia sozinho.

Começou a sair à noite?
Quando não era convocado, ia sair à noite. Tinha sorte, porque naquela altura para sair no jornal era preciso muito [risos]. Quem saía no jornal era o Diamantino, Carlos Manuel, o Shéu, Mozer, Magnusson, Bento, eram os grandes jogadores. Eu era só um miúdo que tinha acabado de chegar, Lisboa inteira não me conhecia, sem equipamento ninguém me conhecia, e então às vezes saía com o meu amigo, era um mundo novo para mim. Foi a altura também do aparecimento das primeiras discotecas.

Onde é que ia?
Como gosto de música rock, ia ao Plateau, que não era frequentado por nenhum jogador de futebol. Mais tarde, fiquei a saber que eles achavam que aquilo era um pouco pesado, era só música rock e a malta na altura gostava mais de luzes e de espelhos [risos].

Pacheco com a irmã

Pacheco com a irmã

D.R.

Entretanto saiu o Skovdahl e ficou o Toni. Com qual deles gostou mais de trabalhar?
Com o Skovdahl eu só treinava quando ele me metia a jogar. Por isso nem sequer deu para tirar uma grande ilação sobre o trabalho dele. Nessas alturas, treinava com o prof. Jesualdo Ferreira, que já conhecia, porque tinha sido treinador de um cunhado meu, em Silves, quando eu jogava na Torralta. Ele tinha 15 ou 16 jogadores, metia o pessoal a fazer umas coisas, mas como é óbvio gostava de estar atento ao que se passava com o Skovdahl e com o Toni. Era perfeitamente normal. Para nós, se calhar, não era muito agradável, achávamos que ele não nos dispensava a atenção que nós queríamos, mas era aceitável. Depois o professor Jesualdo passa a adjunto do Toni quando o Toni pega na equipa.

Começa a jogar mais?
Aí o processo de treino já é diferente, começa a ser mais inclusivo e o Toni deu-me uma oportunidade, aproveitei-a e nunca mais deixei de jogar. É nessa fase que eu começo a dar-me com os outros jogadores da equipa, em que já ia para os estágios dos jogos. Há um jogador fundamental nesta minha fase que é o Dito. Passávamos imenso tempo juntos. Até hoje somos grandes amigos, ele está aqui em Portimão. O Dito era solteiro; os outros jogadores, o Rui Águas, o Mozer, etc., já eram casados e então comecei a sair mais com o Dito, que também tinha carro. Foi uma pessoa fundamental nesta fase da minha carreira.

Apresentou o Plateau ao Dito?
[Risos] Certamente, não tenha a menor dúvida. Fomos lá variadíssimas vezes e ainda hoje, quase 40 anos depois, se for possível ainda lá voltamos os dois. E o nosso comportamento certamente será o mesmo. Ficamos os dois num cantinho, a ouvir a musiquinha, a beber um whisky com cola e a coisa resume-se a isso.

Estava a contar que começa a jogar e a estar mais perto da equipa.
Sim, é nessa altura que começo a conquistar mais a atenção de outros colegas de renome e começo a conviver mais com eles. O Bento, que não tinha um feitio muito acessível, ajudou-me imenso; o Silvino, o Shéu, cuja principal característica era dar-nos conselhos, “miúdo, deves fazer assim, olha mais isto, olha mais aquilo”; o Veloso, o Mozer, o Diamantino… .

Essa época acaba por ficar marcada pela final da Liga dos Campeões com o PSV, em que lhe saltou a bota. O que é que aconteceu?
O que aconteceu é que, como digo em jeito de brincadeira, o motor era de Fórmula 1 e os pneus não eram os mais aconselháveis para aquele motor [risos]. Vou dar a minha versão. A relva estava boa, toda direitinha, mas o terreno estava muito duro e o treinador queria que toda a gente jogasse com pitons de alumínio para não escorregar. Só que o terreno estava tão duro que os pitons tinham dificuldade em perfurar a terra. Isto ficámos a saber depois. E lembro-me que estreámos umas meias, que tinham aquela goma de produto novo, e com a transpiração aquilo não conseguia ter aderência. As botas saltaram-me três vezes. Saltou também ao Elzo e ao Shéu. E eu queria mudar as botas ao intervalo.

E mudou?
O Toni não queria. “Não, se escorregares vens logo cá para fora, tens de jogar de alumínio como os outros”. Quando me salta a segunda eu vou ao banco e peço: "Vão lá buscar as minhas botas piton de borracha se faz favor e ponham aí. Quando me salta a terceira vez, aquilo era uma jogada que eu iria ficar isolado, tinha acabado de passar o Lerby, meti a bola na frente e para evitar que me derrubasse, dei um pequeno salto e, quando apoiei o pé no chão, saltou a bota. Ainda tentei manter-me de pé, mas escorreguei e cai. Fiquei completamente desorientado, descalcei a outra e joguei-a logo para o chão, dirigi-me ao banco e fui buscar as outras que nunca mais saltaram [risos].

Essa final fica também marcada pelo penalti falhado…
Mas gostava de destacar esse jogo porque esse jogo acontece em maio de 1988 e é nisto que o futebol é maravilhoso: eu em maio de 1986 estava a disputar a fuga à despromoção à III divisão nacional e dois anos depois estou a disputar o jogo mais importante que existe a nível de clubes na Europa. Foram os dois anos mais eufóricos que eu tive na minha vida, foi realmente extraordinário. Não há dinheiro que possa pagar uma coisa destas.

Pacheco (1º em baixo à direita) na equipa do Portimonense da época 1986/87

Pacheco (1º em baixo à direita) na equipa do Portimonense da época 1986/87

D.R.

E na segunda época é campeão pelo Benfica.
Sim. Depois, no ano a seguir, há uma mudança de alguns jogadores - saíram o Rui Águas e o Dito, os meus dois amigos, para o FCP - e há entrada de novos jogadores, como o Paneira, o César Brito, que regressa do Portimonense, tinha ido para lá na minha troca e do Augusto.

Ainda vivia em casa dos seus amigos na Graça?
Não, só nos primeiros cinco ou seis meses é que estive na Graça, depois fui viver para um excelente apartamento que o Benfica fez o favor de não me pagar [risos].

Como assim?
Não pagavam. Se eu quisesse, que arranjasse e pagasse, era assim. Mas fiz uma choradeirazinha e lá me ajudavam a pagar metade do apartamento. Vivia na Avenida Estados Unidos da América, sozinho. Entretanto comprei o meu primeiro carro no final de 88. Um Toyota Corolla GTI, essa bomba [risos]. Era pequeno, mas andava muito.

Estava a falar das mudanças na equipa.
Sim, perdi umas referências, mas ganhei outras, passei a dividir o quarto com o Diamantino que foi a referência maior nessa fase e ainda hoje temos um relacionamento excelente. Somos campeões, vamos à final da Taça de Portugal, que infelizmente perdemos com o Belenenses. Um jogo que curiosamente estive a rever agora e é incrível como é possível um árbitro permitir aquela agressividade no jogo. A tática do Belenenses era de bater em tudo e em todos para nos desorientar. E conseguiram isso com a complacência do árbitro, por acaso um senhor por quem tinha e tenho uma grande estima, o Alder Dante. Mas só o facto de ser campeão nacional, para mim, já é um feito. Estamos a falar de um miúdo que chegou com 20 anos ao Benfica, com 21 fui à final da Taça dos Campeões Europeus, com 22 fui campeão nacional e fui à final da Taça de Portugal. Depois há ali uma altura que não percebi bem o facto de o Toni ter sido substituído pelo Eriksson.

Porquê?
Na minha maneira de ver, foi porque o Eriksson tinha feito um trabalho de referência e tinha deixado uma marca indelével no cube. O Benfica nessa altura tinha um projeto europeu bastante interessante, daí aquela final da Taça de Campeões Europeus, porque tinha jogadores com imensa qualidade. Na primeira tínhamos o Elzo, que tinha sido internacional pelo Brasil no Mundial do México; tínhamos o Mozer, que não tinha ido ao Mundial do México porque se lesionou, mas era internacional brasileiro; tínhamos o Magnusson, internacional sueco... Tínhamos o Chiquinho Carlos que, apesar de não ser internacional brasileiro, era um excelente jogador e tínhamos um sem-número de internacionais portugueses. Mas como o Eriksson tem essa particularidade de ser um treinador conhecedor, que estava na moda na altura, era uma referência e veio para Portugal. O Toni que já tinha trabalhado com ele, não viu nada demais. Creio que uma vez até o questionei sobre isso: "Então você ganha o campeonato, vamos à final da Taça e é substituído!?". Não me recordo do que é que ele disse. Mas o Toni era mais do que um treinador: era o treinador, era o conselheiro, era o diretor; ele, no fundo, representava o clube.

Pacheco chega ao Benfica em 1987/88

Pacheco chega ao Benfica em 1987/88

D.R.

Quando vem o Eriksson a sua relação com ele foi muito peculiar, não foi?
Foi [risos]. Sempre falei diretamente com as pessoas e questionava-as perante aquilo que eram as minhas dúvidas ou os meus interesses, de uma forma muito espontânea, mas sem nunca criar mau ambiente. Eu acho que eles olhavam para mim e pensavam: "lá está este puto parvo, sempre armado em esperto, sempre a chatear-me a cabeça [risos]".

O Eriksson repreendia-o muito à frente dos outros?
Sempre que eu fazia alguma coisa que justificasse, ele não tinha problemas em falar. E eu era um bocadinho refilão.

Conte lá a história em que ele o entalou com uma gravação do seu treino.
[Risos]. Isso é um episódio particular, porque eu queixava-me muito se não jogasse e houve um período em que ele não me pôs a jogar e eu fiquei fulo. E dei uma entrevista a dizer que, quando eu jogava, o Benfica jogava para a frente, e que quando eu não jogava, só jogava para trás e para o lado. Isto apareceu na primeira página do jornal "A Bola", o homem deu-me uma piçada à frente de toda a gente [risos]. "Estamos na presença de um colega que não quer saber da equipa... ". Aquelas coisas para passar a mensagem também para os outros. E, depois, arranjou forma de mostrar-me porque me punha ou não a jogar. O que ele quis dizer é que se calhar eu falava muito e trabalhava pouco - e é aqui que entra a astúcia dele. Tivemos uma sessão bidiária: a primeira era só físico, extenuante, e da parte da tarde era uma coisa mais de recriação, o tradicional meinho. E ele à tarde pediu ao professor Jorge Castelo para me filmar.

Só a si.
Sim. Depois de um treino físico, é óbvio que eu à tarde passei a peladinha toda a andar a passo, não só por falta de espaço, porque estavam 30 jogadores no meio-campo, mas até pela carga de trabalho feita de manhã. Tenho a perfeita noção de que o meu comportamento à tarde não foi diferente de nenhum outro colega meu, mas isso não era importante para a mensagem que ele me queria passar. O professor Jorge Castelo escondeu-se por baixo da bancada de madeira que havia no campo de treinos e apontou a câmara só para mim. Ora eu só corria quando tinha a bola no pé; quando não tinha andava sempre a passo. Lá gravou aquilo tudo e preparou a cassete. Um dia depois, o Eriksson chegou ao balneário e disse: "Senhor Pacheco quando puder passe no meu gabinete". Cheguei lá e ele: "Pacheco tenho aqui uma coisa que gostava que você visse. Está aqui esta cassete e o senhor vai para casa e vai ver”. "Mas isso é o quê, um filme? Está a recomendar-me um filme?”. "Não, não é um filme. Tem a ver com o futebol e gostava que o senhor visse”. "Mas eu tenho um clube de vídeo em Alfragide”. "Não, não, leve lá". Eu estava a tentar contrariá-lo para ver se ele me dizia, mas ele nunca foi direto ao assunto. Quando cheguei a casa, meti a cassete no leitor de vídeo e a cassete tinha uns 30 ou 40 minutos de filmagem e eu passava 30 ou 40 minutos a andar [risos].

Quando viu aquilo o que é que pensou?
Percebi a mensagem, mas ainda pensei: “Isto amanhã vai ser um festival dentro do balneário”.

E foi?
No dia seguinte era toda a gente a gozar comigo: "Então gostaste do filme?” [risos]. O Toni contou a dois ou três, o que é mesmo que contar ao plantel todo [riso]. Portanto aquilo no outro dia foi um festival, foi uma palhaçada.

Mudou a sua atitude no treino?
Creio que sim. Ele depois chamou-me: "Então, gostou do que viu?". E eu: "Não, não gostei do que vi, nem gostei da forma como você mandou fazer isto. Porque se você reparar neste treino toda a gente teve o mesmo comportamento do que eu”. "Mas isso não é importante. O importante aqui é você deixar os outros ver o seu comportamento". Que é como quem diz, agarre-se lá ao trabalhinho, porque se se agarrar ao trabalhinho tem mais chances, se trabalhar como deve ser joga mais, se joga mais, logo fala menos [risos].

Passou a falar menos?
Não [risos]. Quando fomos à final da Taça dos Campeões com o Milan, fui substituído, não gostei - porque nunca gostava - e fui outra vez falar com ele e ficámos um bocadinho chateados, apesar de eu gostar imenso dele. É quase aquele tipo de relação familiar: quando é preciso os pais dão nas orelhas e não deixamos de gostar dos pais por causa disso.

D.R.

Na temporada seguinte esteve para sair para Guimarães ou não?
A época seguinte tem a particularidade de, durante a pré época, o Aldair sai para a Roma e, como precisávamos de um central, é chegou o William para o Benfica, de Guimarães. Ora aquilo tinha começado como acabou, o relacionamento um bocado chato, e o Vitória de Guimarães queria que eu fosse para lá porque souberam de alguma coisa, que eu não estava numa posição muito confortável no Benfica. Propuseram a troca do William por mim. Nunca pensei sair do Benfica para ir para o Vitória de Guimarães, mas tentaram explorar esta fase menos boa que eu tinha com o treinador e então isso foi-me proposto. Felizmente, eu tinha um presidente que estimava muito, o senhor Jorge de Brito, que chegou ao pé de mim e disse-me: “O meu amigo não vai, você não sai daqui. Você é do Benfica e eu não o deixo sair daqui. Vamos lá falar com eles mas vai-lhes dizer que não". Ele estava com medo que eu pudesse dizer alguma coisa fora do combinado e participou na minha reunião com o Dr. Pimenta Machado, para garantir que isso não acontecia. "Ele vai-te fazer uma proposta. Tu fazes uma com valor alto, a roçar o ridículo. Ele vai dizer que não e, pronto, tu ficas, porque eu acredito em ti e quero que fiques aqui". O presidente e o Gaspar Ramos gostavam muito de mim. Já disse várias vezes que aquela fase em que o Benfica entra em declínio passa muito pelo facto do senhor Gaspar Ramos ter saído do Benfica: ele conhecia muito bem o clube e tinha muita preponderância no equilíbrio de tudo aquilo. Mas pronto estamos a falar aqui de momentos e de situações que às vezes podem modificar a carreira e a vida de cada um.

Quando fez a proposta qual foi a reação do Pimenta Machado?
Literalmente e passo a citar: "Tu deves pensar que isto é o Inter de Milão" [risos]. Lembro-me tão bem, tinha o senhor Jorge de Brito ao meu lado, foi no hotel Alfa, a fazer que via uns álbuns de fotografias que um admirador me tinha oferecido e ele pisava-me; eu até estava encavacado porque a mesa era de vidro e eu estava com medo que o dr. Pimenta Machado visse [risos]. Entretanto, os outros jogadores já tinham saído do hotel Alfa para ir para o treino da tarde e depois houve uma disputa com o Pimenta Machado a dizer que, como íamos todos para o estádio, me levava no carro dele - e o Jorge de Brito queria-me levar no dele [risos]. Fui com o senhor Jorge de Brito: "Pronto, a situação está resolvida, agora vamos para o estádio e vais falar com o treinador".

O que disse o Eriksson?
O Eriksson tinha me dito antes; "Você vai lá falar e depois, consoante o que for decidido, vem falar comigo". Daí eu destacar o nível e a categoria deste treinador, enquanto pessoa, pois tinha uma forma psicológica de abordar todas estas questões que faziam dele um treinador distinto de muitos outros. Se fosse um treinador português não teria nem metade da paciência, não por ser para mim, mas para os jogadores em geral. Vou ter com o mister e digo-lhe que vou ficar: "Vai ficar e fez muito bem agora vai começar a trabalhar e volta tudo ao normal”. Ele abriu mão de mim, mas como decidi ficar ele pôs um ponto final sobre aquele assunto.

Após a saída de Eriksson vem o Ivic. Que tal?
O Ivic era uma personalidade sui generis. O futebol para ele são 48 horas por dia, no mínimo. Muita tática, muita estratégia, muito pormenor, era uma pessoa intensa, intensa ao ponto de mudar as coisas de um momento para o outro. Vamos imaginar isto: ele tinha um jogador destinado para uma determinada posição, entretanto nesse noite ele viu um vídeo qualquer do adversário e se notasse ali alguma fragilidade - e achasse que a sua opção inicial não seria a melhor-, mudava. Nós íamos dormir achando que íamos jogar e acordávamos sem saber se íamos jogar ou se ele tinha mudado. Excelente treinador, como ser humano também nada a apontar, só que era demasiado intenso. Lembro-me de ele conseguir convencer as pessoas de que era preciso estreitar o campo.

E conseguiu.
Sim, tinha que ser oficializado. A largura do campo do estádio do Benfica ficou mais reduzida, porque ele achava que uma das formas de minimizar os contra-ataques adversários era ter a sua defesa mais junta; se o campo fosse mais estreito, os jogadores inevitavelmente estariam mais perto uns dos outros. E conseguiu fazer com que a sua teoria fosse avante.

A equipa do Benfica e as suas diferentes nacionalidades. Pacheco está ao lado do guarda redes Bento, em baixo à direita

A equipa do Benfica e as suas diferentes nacionalidades. Pacheco está ao lado do guarda redes Bento, em baixo à direita

D.R.

Entretanto tinham chegado os jogadores russos…
… É quando os elementos exteriores começam a ter mais preponderância, mais influência dentro do clube, os primeiros empresários.

Refere-se a quem?
O Manuel Barbosa era um deles e também o empresário dos russos. Com o Ivic isso eram peanuts, ele decidia o que queria e fazia o que queria, não perdia tempo com isso; com o Toni, pela natureza dele - e isto não é uma crítica-, não conseguia só olhar para a equipa, ele olhava para o clube também, portanto era muito mais fácil chegar ao Toni do que chegar a um outro treinador qualquer. Não é que o Toni se deixasse influenciar, mas evitava rupturas, era pessoa de consensos. Apesar de eu não concordar com algumas coisas, eu percebo perfeitamente o comportamento do Toni. Posso recriminá-lo numa situação ou noutra, mas isso não minimiza a admiração e o respeito que tenho por ele. E acaba por ser uma época muito controversa.

Os russos começam a criar mau ambiente?
Dos russos, vou tirar o Mostovoi disso. Depois começam a passar a ideia de que haviam subgrupos dentro do grupo e que havia setores que boicotavam o trabalho dos russos, quando era perfeitamente o contrário. Nós, sim, os mais velhos tínhamos a obrigação de tentar impôr alguma coisa ali dentro, estamos a falar da questão da mística. Há tradições, há coisas no Benfica que tinham e têm de continuar a prevalecer.

O que quer dizer?
O respeito e a forma de abordar os treinos e a competição por exemplo. Coisa que eles não faziam e criavam mau ambiente. Não quero especificar, porque não quero ser deselegante. Digamos que a união e o espírito que era normal naquele clube, deixou de o ser. E com a mudança de alguns diretores, os jogadores mais velhos, que sempre foram os mais apoiados e os mais protegidos por toda a gente no clube, passaram quase a ser os maus da fita naquele momento. É uma das razões que me leva depois a sair. Tem muito a ver com o que se passou.

Teve a ver só com o ambiente?
Sim, com esse ambiente, mas no meu caso também passa muito pela vinda do Futre. Não concordei. Tinha seis anos de clube, mais dois de contrato. A minha história na seleção fica alterada. Fui muitas vezes convocado e joguei muito pouco na selecção A, porque estava tapado pelo Futre, coisa que eu aceitaria tranquilamente se ele jogasse sempre na minha posição, mas raramente jogava na minha posição: jogava solto na frente ou pela direita.

Deixa de ser chamado à seleção?
Há uma determinada altura, ainda no tempo do Eriksson em que ele me chama e me diz: "Você quando sai do clube para ir para a seleção vai bom e volta sempre alterado, volta sempre estragado da seleção. Você tem de tomar uma atitude em relação a isso". E disse-me claramente: "Eu não estou aqui a perder tempo a pôr-te todo direitinho, para depois vires todo maluco e eu tenho de estar outra vez cheio de trabalho para te pôr no sitio". Foi quando abdiquei de ir à seleção. E depois de tomar esta atitude, para me concentrar no clube, o Benfica acaba por ir buscar o Futre e eu pensei: "Já não basta na seleção, agora vou ter de viver tudo isto no meu clube?". Não gostei nada e fiz ver que não queria uma situação daquelas para mim. Isto não tem rigorosamente nada a ver com o Futre enquanto pessoa. Conhece-o desde os meus 15 anos, até me considero amigo dele e sempre tive admiração por ele, é uma honra ter sido colega dele e era um excelente jogador. Aliás, jogamos diversos jogos juntos, lembro-me de dividir a frente de ataque com ele e com o João Vieira Pinto, o Rui Águas, o Yuran, jogamos vários jogos juntos. A questão é que eu tinha abdicado da seleção para me dedicar 100% ao clube.

Disse diretamente que não queria ir mais à seleção?
Naquela altura quem se recusasse jogar pela seleção não podia disputar os jogos do campeonato. Mas o Toni era adjunto do Queiroz na seleção, por isso não foi dificil deixarem de chamar-me.

Pacheco com o guarda redes Neno e Gaspar Ramos atrás

Pacheco com o guarda redes Neno e Gaspar Ramos atrás

D.R.

Também teve problemas com Carlos Queiroz, não foi? Porquê?
Eu não sei quando é que começou. Sei que esta tomada de atitudes da minha parte tem influencia certamente mais tarde, no Sporting. Mas o facto dele na seleção permanentemente me convocar e nunca me meter a jogar... isso já não sei porquê. Eu era chamado praticamente para todas as convocatórias e inevitavelmente ficava na bancada, nem para o banco ia. Isto desgostava-me e desgastava-me imenso. E teve influência negativamente no meu rendimento no clube. Naquela altura já estava umbilicalmente ligado ao Benfica, daí ter tomado aquela decisão. E depois, por todo o momento que se vivia em 1992/93, eu sentia que nunca mais ia ser igual, até porque na altura a direção do Benfica não era forte. Tínhamos um presidente que como pessoa era excelente, mas provavelmente não estaria rodeado das melhores pessoas, foi um clube muito difícil de viver nesse período, porque havia muitos interesses e com tantos interesses.... Colocar aquilo em prol de um grupo nem sempre é fácil.

Quando é que decide que o melhor era ir embora?
A ideia começa a ser afinada no momento em que o Futre vem. Mas ainda fiquei a ver. Entretanto, há um momento em que já era o Toni o treinador em que ele diz: "Há aqui um jogador que comigo nunca mais joga, pelo comportamento dele". E foi precisamente esse jogador que foi ocupar o meu lugar num jogo que eu considerava de grande importância para mim. Levei aquilo de forma muito pessoal. Fomos jogar ao Restelo com o Belenenses e nesse jogo eu não joguei para entrar precisamente o jogador que ele tinha dito que com ele nunca mais jogava.

Quem era?
O Kulkov. E eu fiquei completamente desorientado. Lembro-me que entrei nesse jogo, dei uma pancada num rapaz do Belenenses, que o árbitro até pensou que foi o Paulo Sousa e o Paulo foi para a rua. E passados dez minutos fui eu, porque estava completamente...

Chegou a confrontar o Toni?
Confrontava à minha maneira, através da minha maneira de ser e ele conhecia-me como poucos. Mas nunca lhe disse ou perguntei nada diretamente porque já não adiantava. Fazia as minhas queixas. E estava a ver que o Benfica ia abanar e ia deixar de ser um clube competitivo como foi. E quando chegou a final da Taça, e vi que não ia jogar, avisei o Toni que me ia embora: "Amanhã vai ser o meu ultimo jogo".

Qual foi a reação dele?
Marquei com o Toni, a seguir ao jantar do estágio, e com o Dr. Alberto Silveira e fiz ver aquilo que era o meu ponto de vista. Tinha mais dois anos de contrato e o Dr. Alberto Silveira já tinha falado comigo para renovar mais um ano. Mas eu tinha que olhar por mim e aquele não era o ambiente em que tinha sido formado no Benfica. Aquilo tornou-se quase insustentável para mim, enquanto pessoa, enquanto jogador, enquanto benquista. Lembro-me de dizer que a causa legal, o que me permitia sair era a questão dos ordenados em atraso, mas não tem nada a ver com dinheiro. Não era por não receber um mês ou dois que me ia embora.

Tentaram demovê-lo?
Muito. Mas no fundo nunca acreditaram que eu saísse.