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A casa às costas

Pacheco, parte II: "Ó mister Queiroz, desculpe lá, diga-me, você não tem vergonha de gravar as conversas que tem com os jogadores?"

Da controversa saída para o Sporting à má relação com Carlos Queiroz, que lhe colocou um processo disciplinar, passando pela ida para o Reggiana, o casamento, filhos e os negócios que o levaram a comprar uma embarcação de pesca e a meter-se num bar em Lagos que ainda hoje tem, Pacheco continua a desfiar o fio da sua vida e revela por que razão decidiu voltar ao Benfica 25 anos depois, para reencontrar antigos companheiros e entrar num anúncio televisivo

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Como e por que razão vai parar ao Sporting?
A minha ida para o Sporting não tem nada a ver com a fase do querer sair do Benfica. O Sporting só aparece mais tarde. Eu sou muito orgulhoso em algumas coisas e pago muito por isso. A partir do momento em que disse que saía do Benfica, na minha personalidade já não fazia sentido voltar atrás. Mesmo havendo momentos em que eu sabia que não era a melhor decisão. Por uma questão de orgulho era incapaz de voltar atrás. E apesar de não ter empresário sabia quais eram os canais para fazer chegar a outros lados que estava um jogador livre. A partir daí começo a ser contactado por clubes.

Que clubes?
Sou contactado pelo Sporting, pelo FC Porto, apesar de eu não poder dizer isso.

Não pode dizer?
Não, porque se eu disser que fui ao Porto e que reuni com toda a gente eles dizem que é mentira, que não se lembram nada disso, que isso nunca aconteceu. Foi isso que me foi transmitido. "Se esta reunião for alguma vez tornada pública, é mau para ti, porque ninguém vai confirmar isso". Aliás devo dizer que o primeiro clube que me contactou no sentido de formalizarmos uma reunião foi o FC Porto. Reuni com todos do FC Porto e a proposta era muito boa.

Não aceitou porquê?
O FC Porto foi o primeiro, entretanto o Sporting entra em contacto também, mas eu nem quis ouvir a proposta do Sporting. Não ia ouvir ninguém até falar com o FC Porto. O Sporting é que me pediu para não assinar sem ouvi-los também. E foi isso que fiz. Reuni com o FC Porto, reuni com o Sporting e depois tomei a decisão.

O que o fez optar pelo Sporting?
O facto de ser em Lisboa, por exemplo. O facto do Sporting não ganhar nada há muitos anos. Quando ganhei a Taça de Portugal pelo Sporting foi o primeiro título em 13 anos.

Terá influenciado também o facto de em pequeno ter simpatia pelo Sporting?
Não sei. Acho que não. Tem mais a ver com o facto de ser em Lisboa porque adorava e adoro Lisboa.

Já tinha o coração preso em Lisboa?
Também por aí [risos].

Ou foi pelo facto de o FC Porto ser considerado por muitos o inimigo número um do Benfica e até do Sporting?
[Risos] Talvez, talvez. Eu vivi muito aquela guerra do Benfica-FC Porto durante muitos anos. Aquele jogo em que nos equipamos nos corredores porque o balneário estava cheio de um produto em que começamos logo a chorar e a ficar com os olhos vermelhos, intoxicante; o ser cuspido por centenas de pessoas cada vez que íamos fazer o aquecimento antes dos jogos no campo de treinos; lembro-me de uma série de coisas no túnel, fitas pretas e vermelhas, com uns líquidos e velas e coisas espalhadas ao longo do corredor; de ser maltratado a toda a hora por toda a gente em todo o lado lá em cima. Era uma coisa impressionante. Lembro-me de estarmos deitados e das motas sem escape não pararem à volta do hotel onde ficávamos no Porto. Havia uma guerra terrível. Lembro-me muito bem do guarda Abel no estádio, de pessoas a agredirem literalmente o Carlos Valente ao intervalo desse jogo. Lembro-me de às vezes questionar os polícias de serviço no estádio das Antas: ”Vocês não vêem nada, não fazem nada?" E eles olhavam para nós, começavam a rir e mandavam-nos embora. Talvez tudo isso tenha pesado um pouco. Mas eu diria que o facto do Sporting não ganhar há muitos anos e com a minha ida para lá poder alcançar algum título era um sabor muito bom que me aliciava.

Pacheco com a Taça de Campeão Nacional pelo Benfica

Pacheco com a Taça de Campeão Nacional pelo Benfica

D.R.

E Bobby Robson que tal?
Ser o treinador do Sporting teve também uma grande influência na minha decisão porque era uma pessoa com quem simpatizava e ele até já me tinha feito ver, de uma forma descomprometida, que tinha uma grande admiração por mim. Nunca no sentido de fazer algum convite ou de esperar que um dia mais tarde fosse jogador dele. Aliás foi uma surpresa para ele quando soube que eu tinha assinado pelo Sporting. Ele não sabia.

Assinou primeiro do que o Paulo Sousa.
Sim, sou o primeiro. Assinei no final de junho. No dia 10 de junho é o dia da final da Taça com o Boavista, no dia 9 disse ao saudoso Dr. Alberto Silveira e ao treinador do Benfica que era o meu último jogo, e só assinei como Sporting no final desse mês. Recordo-me até de um episódio curioso.

Força.
Eu estava em Elvas, ia de férias para Espanha, e o Dr. Alberto Silveira estava com um amigo meu - que faleceu há um mês -, o Henrique Freitas. Este meu amigo Henrique ajudou imenso o Benfica nessa altura, disponibilizou dinheiro para pagar ordenados para ver se os jogadores não saíam, e não sairam nessa altura. Porque eles estavam com medo que houvesse mais jogadores a sair. E, como estava a dizer, estava parado em Elvas e, nessa altura só havia telemóveis no carro e eu tinha um, foi a última tentativa de me dizer “por favor volta para trás”. Ainda não tinha sido a apresentação mas eu disse-lhe “já assinei, já não consigo voltar atrás, é impossível”.

Falava-se que o João Pinto também queria sair. É verdade?
Havia muitos mais. Fui o mau da festa porque fui o primeiro. Mas o Sousa saiu, o João Pinto foi o que foi, e pelo menos mais cinco ou seis jogadores quiseram sair. Eles hoje são todos considerados grandes benquistas de alma e coração e, apesar de eu ser do Benfica, eles não me consideram se calhar como tal. Tem muito a ver com a personalidade das pessoas. Eu respeitei as decisões de cada um. Mas que houve muitos mais a querer sair, houve. Havia jogadores que telefonavam do Brasil para Portimão onde eu estava com o advogado, a pedir para falar com o advogado para sair.

Nunca se arrependeu?
No fundo sentia que queria voltar atrás, mas o meu orgulho não me permitiu. E foi assim que chegou ao fim o meu vínculo enquanto jogador do Benfica. Continuo um adepto fervoroso do Benfica, à minha maneira, sou sócio do Benfica há 30 e tal anos, sempre que posso vou ver os jogos do meu clube. Mas esse foi um episódio que me amargura um pouco. Se as coisas têm sido diferentes no Sporting eu talvez minimizasse esta amargura.

Mas as coisas não correram nada bem no Sporting.
Nada bem. Estivemos sempre em 1º lugar no campeonato, eu estava a fazer um início de época absolutamente extraordinário, golos decisivos, assistências, estava realmente num excelente momento e infelizmente o presidente do Sporting, Sousa Cintra, despediu o Bobby Robson no avião, a seguir a um jogo internacional. Uma ideia da qual ele já se penitenciou várias vezes e reconheceu que foi um erro. Ele fez porque era muito influenciado por uma série de pessoas que o acompanhavam. Como tinham cinco ou seis miúdos que foram campeões do mundo e o Carlos Queiroz conhecia-os bem, conseguiram influenciar o Sousa Cintra a despedir o Robson e a ir buscar o Queiroz.

Rui Costa, Paulo Madeira, Pacheco, Rui Águas e Veloso num jantar do Benfica

Rui Costa, Paulo Madeira, Pacheco, Rui Águas e Veloso num jantar do Benfica

D.R.

Quando muda de clube, como foi o embate a nível social na sua vida fora dos relvados?
Muito difícil.

Viveu algum episódio mais marcante?
Os primeiros episódios foram a pressão dos jornalistas, porque fui o primeiro jogador a rescindir unilateralmente com o Benfica. E nós sabemos o peso que o Benfica tem não só do ponto de vista desportivo, como social. Um país pequeno e dominado na sua maioria por adeptos benquistas... Terá inevitavelmente repercussões a nível social que não são fáceis de lidar no dia-a-dia. Portanto, a pressão começa com os jornalistas que não largavam a porta da minha mãe, cá em baixo no Algarve. Eu tinha ido para Espanha, sei que cheguei a um hotel em Espanha, à noite, e não fiquei nada contente porque vi um carro estacionado à porta com matrícula portuguesa. No outro dia de manhã levantei-me muito cedo e mudei de hotel. Em 12 horas já deviam estar uns cinco ou seis jornalistas no primeiro hotel onde estive [risos]. No segundo hotel, em Benidorme, convenci a diretora do hotel a colocar um fax diretamente ligado ao número do meu quarto para receber informação de Portugal. O que saísse nos jornais um amigo enviava logo cópia por fax. Mas, indo ao que interessa, fala-se muito de que eu saí e levei jogadores comigo, tenho dois episódios que posso contar.

Conte.
Na noite em que comuniquei ao Toni e ao Dr. Alberto Silveira que ia sair, estava a dar ao mesmo tempo um programa desportivo na TV chamado "O Remate", e há uma entrevista de um jogador do Benfica, Lembro-me da expressão do Toni quando ouve o jogador a deixar no ar a possibilidade de sair, porque era o estado de espírito que havia na altura: “Ó pá, já vi isto tudo, isto vai sobrar para mim. Isto está tudo maluco". Este tipo de expressões assim. Quando saí dessa conversa com os dois fui direto ao quarto desse jogador e disse-lhe: "Como é que é possível? O ano passado não ganhámos nada, este ano o único título que temos para ganhar é amanhã e tu dás uma entrevista antes do jogo a dizer que queres sair? Isso é alguma coisa? Se é para sair, sais. Olha, eu vou sair e já fui comunicar às pessoas a quem devia comunicar, não fui para a televisão dizer que vou sair. Tu no fundo não queres sair, queres é arranjar aqui uma situação estável". Tive de dizer-lhe. Porque no fundo eu sou benfiquista, queria e quero o sucesso do clube.

Qual é o outro episódio de que falou?
Eu já tinha chegado a acordo com o Sporting e quando estou a sair para ir para Espanha tive de passar no escritório de um amigo, onde tinha deixado a minha carteira. Esse amigo era gerente de uma casa de pneus em Sacavém, a Hiperpneus, e era amigo comum do Paulo Sousa. O dono da Hiperpneus era o Luís Filipe Vieira, mas eu não sabia nem quem era o dono, nem quem era o Luís Filipe Vieira, isto para ver a ironia do destino. Fui ao escritório para ir buscar a minha carteira e estava lá o Paulo Sousa. Cumprimentámo-nos, disse-lhe que ia de férias mas não comentei que já tinha chegado a acordo com o Sporting. As pessoas acusavam-me de levar o Paulo Sousa comigo, mas não. Isto foi uma decisão pessoal, não houve nenhum colega que soubesse disto, a comunicação social não soube, dos meus amigos talvez soubesse um ou outro. Mas fiz as coisas sempre pela minha cabeça, pela minha personalidade, não envolvi ninguém.

E o Paulo Sousa também não lhe disse nada?
Não, o Paulo naquela atura nem sequer tinha sido contactado ainda. Porque o Paulo tinha estado num estágio e num jogo pela seleção no dia em que cheguei a acordo na casa de um vice-presidente do Sporting. É o dia em que Portugal joga no estádio do Bessa contra a seleção de Malta, em junho de 1993. O Paulo não sabia disto. Como o Paulo é contactado já não faço ideia porque nem sequer estava cá. Depois sim, fomos apresentados no mesmo dia.

Pacheco chegou ao Sporting na época 1993/94

Pacheco chegou ao Sporting na época 1993/94

D.R.

Mas estava a falar do dia-a-dia, quando se muda para o outro lado da 2ª circular. Nunca foi confrontado na rua?
Partiram-me o carro todo à porta de casa. Foi para a sucata. E comecei a ver o meu nome escrito em algumas ruas em Lisboa, adjetivado de uma forma não muito simpática [risos]. Tive algum cuidado. Pedi ao Sporting para me arranjar um apartamento junto ao estádio. Deixei de sair à noite, acho que a primeira vez que saí à noite foi três meses depois. Cada vez que andava na rua, era insultado. Foi complicado.

Como foi chegar ao balneário de Alvalade?
Normal. Um pouco nervoso por toda a situação. Na altura foi impressionante a exposição que houve, era aberturas de telejornais, os jornais só falavam em guerra entre Benfica e Sporting. E aquilo no fundo repercutia-se em nós, jogadores. Mas foram simpáticos de uma maneira geral. Notava alguma curiosidade daquele pessoal mais jovem, o Peixe, o Figo, Poejo, Porfírio, Capucho, já muito conhecidos na altura mas que tinham 19/20 anos. O Marinho foi provavelmente o que me recebeu melhor porque já éramos amigos antes.

O Bobby Robson era o que esperava ou superou as suas expetativas?
Superou. Super simples, super comprometido. A ideia era fazer-nos melhorar em todos os aspetos. Independentemente das idades e das capacidades de cada um ele gostava muito de falar com toda a gente. Era um treinador muito empenhado, muito bom. Mas nem sempre esteve bem rodeado. No Sporting toda a gente mete-se no trabalho de toda a gente, toda a gente quer influenciar toda a gente. É uma loucura, sempre foi assim. Por isso tanto se diz que o Sporting para poder endireitar-se tem de resolver os seus problemas internos. Não sei se alguma vez conseguirá fazê-lo. Mas notava-se muita interferência do exterior. Outra coisas que também notei, e lembro-me de comentar pessoalmente com o Paulo Sousa quando fomos de estágio para a Holanda, é que do ponto de vista da organização do clube… Ficámos de boca a aberta pela diferença que existia do Benfica para o Sporting. Apesar do Benfica ter aquele problemas todos era muito mais organizado. Aliás, devo dizer que a diferença do Benfica para o Sporting em termos de sensação que tive, foi: "Eh pá, saí de um clube grande para um que era suposto ser grande mas não é".

Pode dar um exemplo dessa falta de organização?
Fomos para a Holanda e o treinador do Sporting chegava um dia depois. Quando chegámos ao hotel não havia uma pessoa que soubesse falar inglês, para tratar dos quartos. Lembro-me de ser eu a ter muita interferência, porque sabia falar inglês. O Valckx, holandês, só chegou no final dessa tarde, não estava e não havia um único diretor, ou uma única personalidade com capacidade para tratar da distribuição dos quartos, que foi um pandemónio. Estava tudo muito sustentado na experiência e capacidade do treinador que não estava ali naquele momento.

Cadete e Pacheco

Cadete e Pacheco

D.R.

Bobby Robson sai, entra Queiroz. Deitou as mãos à cabeça?
Quando vem o Queiroz eu pensei: “Isto é o princípio do fim do resto da minha carreira desportiva”.

Sentiu logo alguma animosidade consigo?
Senti. Fiz o primeiro jogo com ele a titular e saí logo no início da 2ª parte. Depois fiz o início de um jogo e saí na 2ª parte, fiz um 3º jogo em que aconteceu o mesmo. No 4º, estava a fazer em excelente jogo em casa com o Marítimo, ele substituiu-me também no início da 2ª parte, os sócios não gostaram e assobiaram. Eu até passei por detrás do banco para o não encarar. Fui para o balneário e ele mais tarde disse-me que quando passei por detrás do banco fiz alguns gestos para incentivar os sócios a assobiá-lo. A partir daí nunca mais joguei. Isto um mês e meio depois de ter chegado ao Sporting. Nessa época só joguei a final da Taça de Portugal, contra o FC Porto do Bobby Robson [risos]; final essa em que houve final e finalíssima. Mas aí só joguei porque tínhamos perdido o Iordanov e o Balakov que tinham ido para a seleção da Bulgária no Mundial dos EUA. Porque senão não jogava.

Quando é que Queiroz lhe põe o processo disciplinar, é nessa época ou na seguinte?
É na seguinte. Quando deixou de me pôr a jogar fui falar com ele abertamente, na boa, e disse: ”Não consigo perceber. Você viu o que eu passei por causa da minha decisão de vir para aqui. Arrisquei tanto para agora ser tratado desta maneira? Podemos até ter alguma divergência mas vamos os dois fazer o melhor para que isto corra bem para si e para mim". Não sei em que sentido é que ele interpretou isto, sei que nunca mais houve sossego. E eu nunca mais consegui ser o mesmo. Depois de terminarmos essa época, 1993/94… Lembra-se de ter dito que quando cheguei ao Benfica tinha grandes problemas de pubalgia?

Sim.
Passei a minha carreira praticamente toda com esse problema. Nos inícios de época ou nas alturas de inverno rigoroso em que os campos eram muito pesados, ressentia-me muito das dores da pubalgia, passei a minha vida agarrado ao anti-inflamatório, praticamente tinha de levar Voltaren todos os dias. Era um problema que já tinha desde a minha última época de Torralta, vejam os anos. Na altura não era frequente operar, o tempo de recuperação era muito grande e por isso nunca optámos pela operação. Isto tem a ver com a finalíssima com o FC Porto, há um episódio em que um jogador do FC Porto cospe para cima de mim e como ele me cuspiu dei-lhe duas "bolachas" na boca. Ninguém viu exceto o bandeirinha, o fiscal de linha. O jogador começou a sangrar da boca e a fazer queixinhas ao árbitro, criou-se um tumulto e o árbitro, José Pratas, foi chamado pelo fiscal de linha e expulsou-me. Apanhei três jogos de castigo. Entretanto, acabou a época, vamos de férias e quando recomeça a outra época, fomos para a Holanda outra vez de estágio, eu estava a ter dificuldades nos primeiros treinos e o Queiroz não permitia que isso acontecesse. O relacionamento já não era o melhor, e como não conseguia treinar a 100% ele excluía-me. Às tantas falei com o médico do Sporting, Dr. Fernando Ferreira, mais a sério em relação ao meu problema. Questionei-o se devia ser operado, quanto tempo era a recuperação, o que podia perder, ganhar, para ponderar. Ele explicou-me que era um período de inatividade de mês e meio a dois meses, mas achava que eu devia ser operado para de uma vez por todas resolver o problema. Quando o Dr. comunicou ao treinador que era melhor eu ser operado ele não concordou e disse claramente: "Ele se tinha de ser operado que fosse nas férias, não é agora que vai ser operado". Aquilo se calhar para a estratégia dele até lhe dava jeito eu estar naquelas condições caso tivesse de justificar a alguém o não me pôr a jogar. Ele não queria que fosse operado mas também não queria que treinasse condicionado, o que era impossível no momento.

O que aconteceu depois?
Quando chegámos a Lisboa fui operado. Iniciei os meus treinos muito condicionado, três ou quatro semanas depois. O Dr. até comentou na altura que nunca ninguém tinha tido uma recuperação assim tão rápida. Infelizmente acho que é a partir daí que começam alguns problemas entre o Queiroz e o Dr. Fernando Ferreira, que mais tarde acaba por sair porque o Queiroz apresentou um médico amigo dele, Dr. Gomes Pereira. Entretanto, quando o Dr. Fernando Ferreira disse que eu já podia integrar o grupo, ele chamou-o e perguntou: "Você assina um documento a dizer que ele já está bom clinicamente?". O Dr. disse: "Eu não posso assinar uma coisa dessas porque ele pode começar a treinar e ter alguma recaída". Lembro-me também de uma vez em que o Dr. Fernando Ferreira saiu uns dias do país para um colóquio e o Queiroz chamou-me porque tinha traçado um plano para a minha recuperação, como quem diz, não fizeste a pré-época vais fazer agora. Delineou um plano intensivo de treinos e quem coordenava esse treinos era o preparador fisico, o Roger Spry. Sei que quando o médico chega ao treino depois desse colóquio, vê um jogador a subir e a descer a bancada. Como estava longe perguntou quem era e quando lhe dizem que sou eu, foi ter comigo: "O que é que estás aí a fazer?"; "Estou a treinar, o treinador elaborou um plano de treinos para mim para fazer a minha pré-época"; "Sai já daí"; "Porquê?"; "Ele deve querer que tu sejas operado outra vez". Esta foi a expressão. Isto tudo tem a ver com o processo disciplinar. Acho que aquela coisa dele querer retardar a minha entrada no grupo tem a ver com o facto do Sporting estar a negociar o Amunike, que já chega na data limite de inscrição. Creio que estrategicamente como a negociação não estava totalmente feita ele tentava atrasar para ganhar tempo para trazer o Amunike. E quando ele chega eu nunca fui convocado rigorosamente para nada.

Pacheco com Cherbakov, Filipe Ramos e Marinho (atrás)

Pacheco com Cherbakov, Filipe Ramos e Marinho (atrás)

D.R.

Até um dia. O dia do seu aniversário.
Sim, até 1 de dezembro de 1994. Vou contar a historia que é gira. Como estava a dizer, nunca mais fui convocado para nada. Uma vez tivemos um almoço não sei onde e foi a única vez que vesti o fato de treino para ir com o grupo. Nunca fui convocado para jogos, nem particulares, nem oficiais, zero. Nesse dia também não fui convocado. Jogava-se um Sporting-Benfica. Ganhámos 1-0 e se a memória não me falha até foi o Amunike que fez o golo. Passados três dias íamos ter um jogo com o SC Espinho para a Taça de Portugal. Eu tinha marcado um jantar num restaurante a seguir ao dérbi, com alguns amigos do Sporting e do Benfica. Até aí o Sporting nunca tinha feito estágio nenhum a seguir a um jogo, nunca. Quando acabou o jogo, ele disse: "Vocês agora vão a casa, preparam o que tiverem a preparar que nós vamos dormir aqui ao hotel". Era um hotel perto do estádio.

Ele sabia do seu jantar de aniversário?
Não sabia e nem tinha de alterar nada, como é óbvio. Mas fui falar com ele: ”Mister, faço anos hoje, tinha um jantar marcado num restaurante e ia levar alguns colegas, dá para alterar um pouquinho a hora e em vez de ser à meia-noite no hotel pode ser à uma da manhã?". Ele vira-se para o Costa: "Ó Costa, ele faz anos hoje?" Como se não acreditasse no que estava dizer. O Costa disse que sim. E ele: "Pronto, está bem, à uma hora todos no hotel". Ainda me mantive no estádio, porque queria confirmar a pequena alteração do horário com o pessoal do Benfica, para lhes pedir para irem logo para o jantar. Fui um dos últimos a sair do estádio e até sair não foi posto no quadro nenhuma convocatória oficial, em papel. Saí do estádio, fui para o jantar e no outro dia apresentei-me no treino de manhã.

Não dormiu no hotel?
Não. Pá, eu nunca tinha sido convocado para nada, só falei com ele por causa dos meus colegas, não pensei que tivesse de ir para o hotel também. E como era normal nestas coisas colocar-se num papel os nomes dos jogadores e afixar no balneário… No outro dia obtive informação através do roupeiro que depois de eu sair, eles foram lá escrever: "Estão todos convocados exceto..." e meteu lá três nomes, lembro-me de dois, Oceano e Peixe. Entenderam que eu tinha faltado à convocatória. Ou seja, a minha primeira convocatória seria para ter ido dormir ao hotel, no dia dos meus anos [risos].

E depois?
Na sequência disso instaurou-me um processo disciplinar com o argumento de que tinha faltado. Argumentei que não tinha sabido de nenhuma convocatória oficial e que tinham escrito no quadro após a minha saída, que estive a jantar com o meus colegas, eles voltaram todos e todos eles sabiam que ninguém me tinha avisado para dormir no hotel. E disse ao presidente, se me tocar alguma coisa isto vai ficar feio. Depois confrontei-o: "Porque é que você não me disse que eu estava convocado?"; "Eu não tenho de dizer porque foi anunciado"; "Não. Escreveram ali depois de eu sair do estádio. Enquanto aqui estive ninguém escreveu nada. Se eu visse ali escrito perguntava se também estava incluído". O processo disciplinar não deu em nada para além de acentuar e piorar uma relação que já era má.

Não foi castigado?
Não. Comecei a treinar dois dias depois.

Pacheco num dérbi com o seu antigo clube, o Benfica

Pacheco num dérbi com o seu antigo clube, o Benfica

D.R.

Nessa altura já pensava em sair do Sporting?
Não. Foi-me proposto sair pelo presidente do Sporting no início de 1994/95 e não quis.

Porquê?
Porque aquilo tinha sido uma aposta minha. Por tudo o que eu tinha passado e pela decisão em si. Se eu vim para aqui é aqui que vou ficar.

Mas numa época fez três jogos apenas.
Depois do processo disciplinar houve um período em que eu era convocado porque ele dizia que eu ganhava muito para ter fins de semana livre. Quando não era convocado ele marcava treinos, eu com uma pessoa que estivesse disponível, o adjunto Hilário ou o professor Mariano. Treinos ao domingo de manhã, às nove da manhã, sozinho a treinar no campo com uma pessoa [risos]. Depois quando me convocava, ia os jogos todos para a bancada. Fiz 20 minutos em Chaves e 20 minutos em Aveiro, um campeonato inteiro. Eu vinha habituado a jogar 30 jogos por ano. Isso desgasta. Fiz um jogo para a Taça de Portugal, daí eu ter ganho essa Taça, em que jogou uma segunda equipa numa eliminatória com o Olivais e Moscavide.

Ainda tinha contrato por mais quanto tempo?
Por mais um ano. O ambiente era terrível, ele teve imensos problemas com muitos outros jogadores. O professor Carlos Queiroz do ponto de vista da relações humanas, na minha opinião, tem um défice muito grande, e não só com os jogadores. Se analisarmos a carreira dele, teve problemas pessoais com muita gente. Desde jogadores, diretores nas seleções, jornalistas, uma coisa impressionante. Posso até contar outro episódio.

Vamos lá.
Começou a constar que ele gravava as conversas com alguns jogadores. Isto tudo porque ele achava, pelo menos em relação a mim, que eu dizia umas coisas e na direção ia dizer outras. Não me lembro de alguma vez ter reunido com algum diretor do Sporting a fazer queixinhas fosse do que fosse. Às vezes era confrontado pelo facto do relacionamento não ser o melhor, dizia as minhas razões, mas nunca em forma de queixa. E uma vez ele chamou-me ao gabinete dele e começou a questionar-me e a dar a entender para resolvermos o nosso diferendo. Ele fazia-me perguntas que me levava muito para o sim e para o não. Pouca coisa para argumentar, só para dizer se achava que sim ou não. Achei estranho aquele tipo de comportamento e de questões. E como às vezes falava-se que ele gravava as conversas...

Ficou desconfiado.
Fiquei, comecei a sentir que algo não estava bem. Até que enquanto estava a ouvi-lo os meus olhos passaram tipo radar pela secretária dele. Eu a tentar descobrir alguma coisa: "Será que está aqui alguma câmara, algum microfone escondido?". Às tantas vejo um gravador atrás de umas cassetes de vídeo que ele tinha em cima da secretária. Pensei: "Impressionante, o gajo está a gravar-me".

E estava mesmo?
Estava, que eu depois verifiquei que aquilo estava com os botões para baixo a gravar. Mas eu não tive coragem de o confrontar diretamente ali, até porque estava a ser gravado, podia ele querer que eu reagisse de alguma determinada forma, não sei. Nunca percebi qual era a estratégia dele para pedir aquela reunião comigo. Só vi que ele estava gravar.

O que fez?
Continue dentro da minha linha. Acabou-se a conversa e eu regressei ao balneário. A pensar: "Digo ao pessoal? Não digo?". Mas não aguentei. Cheguei lá: ”É para vos dizer que ali o nosso visionário, quando chama o pessoal, consoante os interesses dele, grava as conversas que tem connosco. Não sei se com todos ou não, mas pelo menos comigo ele gravou a conversa". Eles não queriam acreditar. Sabiam que havia uma chatice entre mim e ele e podiam achar que eu estava a lançar um falso testemunho. Entretanto saímos do balneário e vamos treinar. Eu sabia que ele vinha lá atrás, não me estava a conseguir conter, comecei a ficar para trás, a ficar para trás, chegamos lá acima ao campo e disse-lhe: "Ó mister, desculpe lá, diga-me uma coisa, você não tem vergonha de gravar as conversas que tem com os jogadores? Você não pode fazer isso"; "Eu faço porque vocês comigo dizem uma coisa e depois quando vão falar com a direção dizem outra". Ele assumiu. Pelo menos quem estava ali próximo ouviu.

Alguma vez utilizou essa suposta gravação ou gravações?
Não faço a mínima ideia.

Pacheco, Figo e Paulo Sousa na piscina

Pacheco, Figo e Paulo Sousa na piscina

D.R.

Chega o final da época e o que aconteceu?
No início da seguinte já não era o presidente Sousa Cintra mas Santana Lopes, que lamentou este meu relacionamento com o treinador, disse que por ele eu não saía, mas o Norton de Matos veio comunicar-me que o treinador não contava comigo. Ok, pronto. Há uma reunião para ver se chegamos a acordo e eu disse: "Vocês pagam-me tudo e eu vou-me embora. Esse é o acordo". Eles aceitavam, pagando em várias tranches a totalidade do contrato, mas para isso eu tinha de assinar um documento em como não podia jogar nos primeiros oito classificados da época anterior.

Aceitou?
Recusei. A lista dos oito acabou, acabei por rescindir assinando o compromisso de que não poderia jogar num clube grande nesse ano seguinte. Eu sabia que não voltava ao Benfica por causa da minha saída. Dois anos antes tinha havido possibilidade de ir para o FC Porto mas não se concretizou. Portanto assinei esse acordo.

O que fez a seguir?
Tinha 27, 28 anos, continuava solteiro, pensei: "Não tenho condições para jogar aqui em Portugal, tenho de sair". Ao longo da minha carreira eu conheci um inglês que gostava de ver-me jogar. Ele era conhecido do Bobby Robson, esteve cá uns dias e desenvolvi contacto com ele. E ele propôs levar-me para Inglaterra. Só que naquela altura nem sequer havia a lei Bosman.

Chegou a ir a Inglaterra?
Fiz uns treinos no Aston Villa, depois fui para o Nottingham e houve interesse deles para que ficasse. Ainda disputei uns 10, 12 jogos no campeonato de reservas da liga inglesa, só que para entrar na Premier League qualquer jogador estrangeiro tinha que ter no mínimo 20 internacionalizações pela seleção do seu país ou então ir através de transferência. Como eu tinha rescindido com o Sporting a transferência não podia ser feita, como não tinha as 20 internacionalizações, não pude ser inscrito.

Ficou muito desiludido?
Muito, muito. Pensei que tinha acabado ali a minha carreira. Vim para Portugal mais ou menos na altura do Natal e fiquei sem treinar, sem clube. Estava completamente perdido.

Plantel do Sporting. Pacheco é o 2º à direita em baixo

Plantel do Sporting. Pacheco é o 2º à direita em baixo

D.R.

Como surge então o Belenenses?
Através do João Alves. Quem veio falar comigo foi um antigo colega meu, o Fernando Mendes.

Mas as coisas não correm bem no Belenenses. Porquê?
Basicamente tinha ficado um ano e meio no Sporting sem jogar. Estava sem ritmo competitivo nenhum. No Belenenses disse ao treinador que precisava mais de um amigo, de uma pessoa que me ajudasse a recuperar e a pôr a cabeça no sítio porque vinha praticamente de dois anos sem competição e estava completamente perdido. Quando eles me perguntaram quais eram as minhas condições eu respondi: "É o tempo que vocês quiserem e o ordenado é o que vocês acharem que se adequa a mim e às vossas possibilidades". Foi precisamente isto. Lembro-me do treinador ter dito: "Isto é o clube certo para fazer essa recuperação. Até tens imensos casos, tens o César Brito, o Fernando Mendes, o Paulo Madeira". Só que havia determinadas condicionantes por parte do departamento médico para se poder jogar e eu não gostei do panorama. Não alinhei, e mais não digo.

E depois?
Como não fazia parte do grupo certo, cheguei lá um dia para treinar e disseram-me que não podia porque tinha sido visto na noite, numa discoteca de Lisboa. Telefonei ao meu advogado. Ele pediu uma reunião com todos os diretores do Belenenses, tudo o que era orgão social. Tinha de saber quem é que me tinha visto. Queria confrontá-los porque eu tinha a certeza que ninguém me tinha visto, eu não tinha saído. Toda a gente foi a essa reunião menos o treinador, que teve um problema pessoal qualquer e não podia participar. Perguntei a todos se tinham alguma coisa contra mim como homem ou como profissional e quem é que me tinha visto. Nenhum confirmou que me tinha visto. O Nicolau Vaqueiro, que era o chefe do departamento de futebol, quis falar em nome do treinador e eu disse que não aceitava. Se o treinador quisesse dizer alguma coisa que estivesse presente. Disse que achava aquilo uma enorme traição, foram eles que vieram falar comigo, eu não me fui oferecer ao Belenenses. Pedi ao advogado para chegar a acordo para rescindir. O Belém sofria uma grave crise financeira na altura. O meu primeiro treino coincidiu com uma manifestação dos trabalhadores do bingo. Porque com a minha ida para lá eles devem ter pensado, então não há ordenados para nós e há para estes gajos? Posso dizer que os cheques que me passaram nenhum tinha cobertura e nunca recebi um tostão do Belém.

Não foi para tribunal?
Os cheques nem eram do clube, eram do presidente. Quis resolver tudo a bem e quando pensei ir para tribunal já tinha passado do tempo.

Pacheco no Reggiana de Itália

Pacheco no Reggiana de Itália

D.R.

Depois disso tudo como ainda aparece o Regianna?
Não sei [risos]. Ele surgiu, mas não faço ideia porque naquela altura pensava em tudo, menos que me aparecesse um clube da série A italiana.

Era uma coisa que queria muito, sair do país?
Eu tive várias possibilidades. Ainda há pouco quando falávamos daquela época a seguir à final da Liga dos Campeões com o Milan, em 1990, em que tive uma chatice com o Eriksson, não gostei de ser substituído e o ambiente ficou pesado, e da interferência do Jorge de Brito na minha não ida para Guimarães… Nessa altura apareceu a Lazio e o PSG com interesse em mim e o Jorge de Brito não me deixou ir. Dizia que o Benfica não era vendedor, queria uma boa equipa para a Europa e que eu fazia parte dos planos.

Mas ir para o estrangeiro era uma coisa que lhe agradava.
Nem por isso. Eu era muito feliz e estava muito bem no Benfica. Talvez houvesse também algum comodismo da minha parte. E eu sentia-me num clube grande, estava há três anos no Benfica e já tinha ganho os títulos todos em Portugal e disputado duas finais da Taça dos Campeões Europeus.

Então e o Reggiana?
Estava a dizer, assinei em fevereiro com o Belenenses, estive lá três meses, fiz quatro ou cinco jogos com uma grande dificuldade. Saio em maio e nessa altura tinha acabado de fazer dois negócios no Algarve. Tinha comprado uma embarcação de pesca e tinha um bar na marina de Lagos, o Amuras, que ainda o tenho.

Meteu-se nesses negócios aliciado por alguém?
Na pesca era uma questão pessoal, porque o meu pai tinha sido pescador durante mais de 30 anos. O meu padrinho veio falar comigo, que estava a passar por uma situação difícil, porque tinha abatido o barco dele naquela altura em que o Cavaco Silva pediu para abater os barcos por causa da CEE. Ele viu que aquilo tinha sido uma má decisão, estava aflito e veio pedir-me ajuda. Eu tinha uma boa situação financeira e disse OK. Foi mais para ajudar o meu padrinho. O bar-restaurante aconteceu por acaso, um amigo meu veio propor-me o espaço, mas como estava a jogar e não tinha tempo para me meter numa coisa destas falei com outro amigo que era como um irmão para mim, ele aceitou ficar a representar-me no bar-restaurante e pronto. Quando saio do Belém em maio de 1996, vim para o Algarve e fiquei cá. Pensei interiormente que tinha acabado a carreira. Passei aqui o verão. O futebol português nessa altura também vivia uma situação terrível, ninguém pagava a ninguém... Em setembro recebo um telefonema por volta das oito da noite, daquele amigo inglês que me tinha tentado levar para o Nottingham Forest.

Que lhe disse?
Disse-me assim literalmente: "Estive aqui a falar com umas pessoas e se tu me disseres que sim eu telefono agora para lá e eles fazem a marcação de um voo Lisboa-Milão, amanhã às 11 da manhã, para ires treinar à experiência ao Reggiana. Ninguém tem de saber. Estás na disposição? Se eles gostarem podes assinar e ficar". As saudades de jogar eram imensas. Pensei: “Olha que se lixe, eu acho que tenho qualidade, pelo menos vou tentar”. E fui.

E que tal?
Chego, tenho uma reunião com o presidente do Reggiana, que era o vice-presidente da liga italiana, e disse-me claramente que se me fosse apresentar à experiência não era bom nem para ele nem para mim. Porque eu afinal até tinha mais nome do que pensava lá. Disse: "Vamos criar aqui um acordo os dois. Tu assinas por um ano, vamos ali dizer que ficas por um ano, mas entre nós temos um compromisso em que vais ficar cá pelo menos três meses. Depois, se gostarmos não se mexe no contrato e segue. Se qualquer uma das partes não se sentir confortável este acordo faz com que se interrompa o contrato". E assim foi. Mais uma vez tive de começar a partir pedra desde o início.

No Estoril Praia

No Estoril Praia

D.R.

Foi sozinho? Adaptou-se bem?
Fui sozinho, adaptei-me muito bem. Ainda percebo tudo de italiano e falo alguma coisa também porque mantenho contacto com alguns italianos.

E o futebol?
Mais fechado e tático do que o nosso mas adaptei-me bem.

Tem alguma história caricata que tenha vivido em Itália?
Tenho alguns episódios mais ou menos interessantes. Lembro-me que o Rui Costa estava na Fiorentina e antes de um jogo eu e ele saímos e estivemos num cantinho a fumar um cigarrinho, sem ninguém ver, e o Rui estava todo contente por mim porque na palestra antes do jogo o Ranieri dizia que nos éramos uma equipa muito equilibrada, mas tinham que ter muita atenção ao fulano tal, que era eu. O homem conhecia-me bem e ele ficou contente, e eu também [risos].

E jogou?
Não fui titular mas entrei nesse jogo. Porque entretanto houve uma mudança de treinador. Eu fui para o Reggiana com o Lucescu, um treinador tipo Ivic, que gostava de mim, sabia o sacrifício dantesco que eu fiz para agarrar aquela oportunidade depois de estar tanto tempo sem treinar e competir. Curiosamente não jogava na linha, eles achavam que eu era muito bom tecnicamente para jogar na linha e comecei a jogar em terrenos mais interiores. Mas quando começo a jogar como titular já não é com ele. Ele quando sai dá uma entrevista a dizer que um dos erros que reconhecia era que devia ter apostado em mim mais cedo.

Vem embora porquê?
O Reggiana era um clube muito criticado por causa do excesso de estrangeiros. Como foi o primeiro ano da Lei Bosman aquilo não foi uma coisa muito bem aceite no mundo do futebol e eles falavam muito, que não fazia sentido, porque eram jogadores já com uma certa idade. Entretanto, acabamos por descer de divisão. Acontece que a partir do momento em que um clube desce de divisão a política de contratações já não é a mesma. Mas eu consegui impressionar o presidente e ele queria que eu ficasse ligado ao clube; a ideia dele era renovar mas emprestar-me a um clube. Arranjou-me o Vera Cruz, do México. Mas ir para o México sozinho, não.

E volta a Portugal.
Sim e fico um ano sem jogar.

No seu bar em Lagos

No seu bar em Lagos

D.R.

Até que vai para os Açores.
O Santa Clara tinha acabado de subir à II Liga, o treinador era o Manuel Fernandes e o adjunto o António Oliveira, pessoas que eu conhecia. Faziam sempre férias aqui em Portimão. O Manuel veio falar comigo mas eu disse que não, que já não treinava nem jogava há um ano. Ele falou com algumas pessoas minhas amigas e o meu cunhado para me tentarem convencer. E apesar de eu parecer ser um rapaz sabedor daquilo que quero, sou ao mesmo tempo demasiado naif. Acabei por dizer-lhe que ia. Fiquei numa casa térrea em Ponta Delgada e um dia depois tinha umas 50 pessoas à porta a pedir autógrafos. Mudei logo de casa, fui para um prédio alto que fica à saída da cidade [risos].

Mas não ficou muito tempo nos Açores.
A época começou, mais um esforço imenso. Cheguei a vomitar nos treinos mais físicos, para poder fazer tudo o que outros faziam. Começámos a época bem, a ganhar, a crítica era boa. Mas não me recordo de ter feito um jogo empolgante. Tinha um nome que tinha algum peso, principalmente na II Liga, o que jogava meu favor, mas as dificuldades já eram muitas. Não fiz diferença nenhuma a jogar, não era já o jogador que tinha sido em tempos. Entretanto, depois do período de exaltação, há ali uma quebra e nessa quebra, que considero normal - tanto que é normal que o clube acaba por subir nesse ano -, ao fim de cinco ou seis meses, vejo uma entrevista do treinador no jornal "Açoriano Oriental" a dizer que estava um pouco dececionado com a época e que uma das grandes deceções dele era o meu rendimento. Aquilo caiu-me muito, muito mal.

Porquê?
Porque fiquei a saber que no fundo ele não precisava de mim para nada e não me queria para nada. Ele estava era com imensas dificuldades em fazer um plantel e a partir do momento em que faz a minha contratação ele vai buscar sete, oito ou nove jogadores e fecha o plantel. Porque alguns jogadores de qualidade pensaram: "Eh pá, se o Pacheco está lá é porque aquilo é bom”. Foi ele que me chateou para ir, depois de eu lhe dizer tantas vezes que não queria ir. A última coisa que esperava é que não me defendesse. Tinha um relacionamento bom com ele e deixei de o ter a partir daí.

Veio embora sem mais?
Chamei o diretor e disse que queria rescindir porque me recusava a trabalhar naquelas circunstâncias. Levei aquilo muito a mal. Não percebi o que ele quis fazer comigo. Parabéns para ele. Vim embora, fiquei em Lisboa e fui para o Atlético, para a II B.

Porquê?
Era o bichinho do futebol por um lado e por outro, o treinador do Atlético tinha sido um colega meu, o Veloso. Não quis acabar a carreira e como estava perto de casa...

Pacheco com os filhos

Pacheco com os filhos

D.R.

A ida para o Estoril Praia e o regresso ao Atlético dão-se pelos mesmos motivos?
No Estoril Praia é o Rui Águas que me vem buscar. Fui e gostei de lá estar. Entretanto o Rui saiu e voltei ao Atlético porque queriam que eu terminasse lá para depois iniciar uma carreira de treinador.

Nessa altura já tinha algum nível do curso de treinadores feito?
Já tinha o segundo nível.

Era o que queria ser, treinador?
Não como objetivo. Mas entendia que não me fazia mal nenhum eu municiar-me dessa informação e carteira.

Ainda estava solteiro?
Terminei a minha carreira de jogador em 2000/01, iniciei depois a de treinador e casei-me nesse ano.

Como é que conhece a sua mulher?
Conheci-a em 1993 ou 1994, em Lisboa. Ela formou-se em Relações Públicas, Publicidade e Marketing e depois foi fazer um estágio ao Brasil. Casámos em 2001, mas já estamos separados.

Não ficou muito tempo com o Atlético como treinador porquê?
O Atlético é um clube muito difícil. Mas iniciei outra história, o ser casado, entretanto fomos pais, o meu filho Henrique nasceu em 2002. Assisti ao parto e não desmaiei [risos].

Com o amigo Rui Águas

Com o amigo Rui Águas

D.R.

Volta para Portimão porque entretanto vai treinar o Portimonense.
Eu gostava imenso de ser treinador, mas ser treinador em Portugal é uma coisa muito difícil. Os clubes, principalmente os dirigentes são muito complicados. Os dirigentes querem fazer as equipas, querem contratar os jogadores, gostam de treinadores que sejam quase marionetas na politica deles ou nas mãos deles e eu não tenho essa personalidade. Em vez de estar a criar ondas prefiro sair. Em 2002 nasce o meu filho, em 2003 aumentei a minha área no bar em Lagos para fazer refeições e por isso decidimos vir para o Algarve. Na época 2003/04 vou para adjunto do Dito que chegou a acordo com o Portimonense. Não fazia a menor intenção de se treinador. Ele saiu e eu queria sair também. Ele achou que eu tinha condições para dar seguimento às coisas e disse para eu ficar. É numa altura em que o Portimonense tem imensos problemas financeiros e não só. Acabei por terminar eu o ano. Gostei do que fiz, acho que tinha algum jeito. Descemos de divisão na última jornada em luta direta com o Felgueiras e o Marco de Canaveses.

E ainda faz a época seguinte?
Iniciei a época, contratei 20 jogadores para a II B, e é quando se dá o problema com o Salgueiros, que acaba. Estavam na II Liga, há um ranking e o clube que estivesse melhor posicionado é convidado a subir de divisão. Eles fizeram o convite ao Portimonense, o presidente aceitou, eu fui buscar quatro ou cinco jogadores à pressa já com uma qualidade melhor para nos tentarmos aguentar na II Liga e fiz esse ano todo. Nunca estive uma vez abaixo da linha de água. A seis jornadas do fim, depois de uma sequência de jogos sem ganhar, deu-se o fim do ciclo e fui substituído pelo meu grande amigo Diamantino.

Desde aí não voltou a ser treinador porque não quis ou porque não recebeu convites?
Fui convidado por muitos clubes, principalmente aqui da região do Algarve, só que a minha prioridade era a família. Voltei a ser pai em 2004, da Matilde, ainda era treinador do Portimonense. Acabei por ficar por aqui e dedicar-me aos negócios. Entretanto vendi a embarcação, depois de um grande insucesso onde perdi bastante dinheiro.

Tem saudades do futebol?
Muitas. A minha imagem parece de uma pessoa muito desligada do futebol, mas eu tenho tantas saudades do futebol que não vejo jogos antigos sequer, só raramente, porque sofro imenso com isso, dá-me imensas saudades.

Há dois anos regressou ao Benfica e até fez parte de um anúncio publicitário.
Ao início disse que não era uma boa ideia porque ao fim de 20 anos as pessoas ainda me chateavam por ter saído do Benfica para o Sporting e há quem continue a dizer que sou do Sporting... Mas resolvi fazer porque achei piada ao anúncio e porque achei também que de alguma forma tinha esse dever por causa de toda aquela amargura de que falei, porque não saí muito convicto interiormente. Nas redes sociais, claro, foi uma coisa impressionante, muita gente contra. Mas entretanto a tendência começa a mudar e até houve pessoas que me vinham dizer "obrigado por ter voltado". Eu não voltei, apenas fiz um anúncio [risos].

Onde ganhou mais dinheiro?
No Benfica.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Talvez os negócios.

Tem algum passatempo?
Snooker e jogo numa equipa, num campeonato, com sapatinho e calcinha preta.

Superstições?
Entrava sempre com o pé esquerdo e a benzer-me. Quando estava à rasca, pedia a ajuda externa aos poderes divinos e quando não estava à rasca esquecia-me [risos].

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Não faço a menor ideia. Nunca equacionei outra possibilidade que não fosse jogador de futebol.