Tribuna Expresso

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A casa às costas

Hugo: “No autocarro, o Manuel Fernandes metia a cassette VHS dos 7-1 ao Benfica e punha-se: 'Isto é que era. Vê lá, ó João, olha'”

É o mais velho de três irmãos, tem quatro filhos e chegou a entrar na faculdade, no curso de Economia, mas a ida para Itália, para a Sampdoria, adiou-lhe eternamente os estudos e acentuou o sonho de menino de ser jogador profissional de futebol. Esteve seis anos no Sporting, onde foi campeão nacional, levou "tareias" de László Bölöni e fartou-se de pregar partidas a Paulinho; jogou no V. Setúbal e no Beira-Mar, mas acabou por regressar à casa de partida, o SC Braga, clube do coração, para ser coordenador da formação

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Braga.
Sim, a 11 do 8 de 1976, já estou carcaça [risos].

Fale um pouco sobre a sua família, quem eram os seus pais, o que faziam, se tem irmãos...
O meu pai era camionista numa empresa de materiais de construção. A minha mãe começou a trabalhar na cantina da Universidade do Minho, quando eu tinha quatro, cinco anos, e as coisas melhoraram em termos de contexto familiar. Nessa altura éramos dois, eu e o meu irmão Nuno. Nós somos três, eu, o Nuno e o Tiago.

É o mais velho?
Sim, sou o mais velho e o mais responsável também [risos]. Quando a minha mãe começou a trabalhar, ela tinha-me prometido que quando recebesse o primeiro salário dava-me uma bicicleta. Por isso tive a primeira bicicleta aos cinco anos e posso dizer que a derreti toda [risos]. Se calhar hoje, e falo pelo meus filhos, as crianças não gastam os brinquedos que têm, porque recebem muitos, eu gastava os que tinha. Tinha poucos, recebia um como prenda de anos e outro no Natal.

Cresceu onde?
Cresci entre o bairro e a aldeia. Era um bairro atrás do estádio, o Bairro da Imaculada Conceição, um bairro um bocadinho problemático, com coisas que os meus pais consideravam menos positivas e por isso sentiram a necessidade de me mandar para a aldeia, para os meus avós. Ou seja, fiz a primária toda numa aldeia que fica a cerca de seis quilómetros de Braga, Sequeira. Ia para lá à segunda-feira e vinha à sexta, passar o fim de semana a casa.

Custava-lhe quando tinha de ir para os seus avós ou não?
Custava sempre mas como tudo era o hábito e era uma necessidade... Eu concordava com os meus pais, a escola que ficava onde vivíamos não era a melhor para mim.

Teve alguma vez alguma chatice no bairro ou foi aliciado para alguma coisa menos lícita?
Fui sempre respeitado por todos, eu também respeitava toda a gente, andava no meu cantinho, fazia as minhas coisas, brincava com quem tinha de brincar. Embora tenha assistido a algumas coisas, nunca fui aliciado para nada, nem coisa que se parecesse.

Torcia por que clube?
Sempre torci pelo SC Braga. Eu vivi e cresci num bairro atrás do Estádio 1º de Maio, vi muitos jogos do SC Braga no monte, era o nosso segundo anel [risos].

Havia alguém na família ligada ao futebol?
O meu pai jogou, mas nas distritais, nada de especial.

Hugo em criança

Hugo em criança

D.R.

Quais são as suas primeiras memórias da bola e do futebol?
Sempre gostei de jogar futebol, na altura tinha a possibilidade de jogar na rua. As manhãs e as tardes eram quase todas para jogar futebol. Tínhamos muito espaço, inclusivamente um campo. Na zona onde eu vivia havia três bairros juntos e costumávamos jogar uns contra os outros. Era o bairro de cima contra o bairro de baixo, parece quase a publicidade do Fairy [risos], e aquilo durava tardes inteiras, muda aos cinco e acaba aos dez.

E da escola, gostava?
Sim. Nunca foi uma grande paixão, mas fui fazendo as minhas coisas, era bom aluno, tanto que acabei por entrar na universidade, não sendo um aluno brilhante, mas aproveitando também aquilo que o futebol me foi dando, nomeadamente o estatuto de alta competição.

Quando e como começa a jogar no SC Braga?
Vim parar ao Braga com 10 anos. Antigamente faziam-se muitos torneios de futebol de salão e um dia, no pavilhão Flávio Sá Leite, estava decorrer um torneio de seniores e sempre que se podia eu e os meus amigos, em cada pausa que havia, saltávamos para o ringue e começávamos a jogar. Na altura quem lá estava a ver esse torneio era um dirigente do Braga que ainda hoje cá está, o senhor Teixeira. Viu-me a mim e mais uns quantos a dar uns chutos na bola e convidou-nos para irmos a uns treinos de captação no Braga. E lá fui eu, mais um primo meu e mais um ou outro amigo. Acabei por ficar.

Como reagiram os seus pais?
Os meus pais chatearam-me na altura, quando lhes pedi dinheiro para tirar fotografias [risos]. Porque eles só souberam que eu andava a treinar no Braga quando lhes pedi o dinheiro para as fotografias e o bilhete de identidade para a inscrição. Mas sempre me apoiaram, com uma condição: portar-me em condições, sobretudo na escola, porque no resto eles sabiam que não se tinham que preocupar grande coisa.

Como e quando define a sua posição em campo?
É no clube. Eu gostava de jogar futebol, ponto [risos]. Fosse à frente, atrás, as pessoas diziam que eu também tinha muito jeito para guarda-redes e cheguei a ir para a baliza uma série de vezes. Quando fui treinar ao Braga não sabia muito bem para que posição é que ia. O meu pai tinha-me oferecido um equipamento do Braga com o número 6 nas costas e quem era o número 6 no Braga? O Zinho, um médio. Quando fui treinar, o treinador do Braga, o senhor Palmeira, perguntou-me: "Em que posição é que jogas?"; "Jogo a médio" [risos]. E pronto treinei a médio, depois assinei pelo Braga e jogava entre o meio-campo e a defesa central.

Hugo sentado na primeira bicicleta que teve e que foi oferecida pela mãe quando tinha 5 anos

Hugo sentado na primeira bicicleta que teve e que foi oferecida pela mãe quando tinha 5 anos

D.R.

Quando é que ganha o seu primeiro dinheiro no futebol?
Aos 15 anos. Eram 30 contos.

Lembra-se do que fez a esse dinheiro?
Guardei-o bem guardadinho [risos].

Queria juntar para comprar alguma coisa em especial?
Como disse, as minhas raízes são humildes, sem nunca nos ter faltado para a comida, não dava para grandes luxos. Os meus primeiros ténis de marca foram comprados com esse dinheiro. Poupava muito.

Quando é que faz a sua estreia como sénior?
Assinei um contrato profissional com 17 anos, era júnior de primeiro ano e na altura fomos fazer um jogo de desempate com o SC Espinho para ir à fase final de juniores e infelizmente perdemos. O jogo foi completamente dominado por nós e o Espinho, num ato de desespero, mesmo no final do jogo, numa bola à entrada do nosso meio-campo, aquilo foi mais um alívio do que outra coisa qualquer, estava a chover e havia algum vento e a bola acabou por entrar na nossa baliza. Não fomos apurados para a fase final. Um dia tristíssimo para mim e para todos, mas que abriu uma porta. Passados uns dias, eu e mais dois colegas fomos chamados para treinar com a equipa principal. Na altura era o professor Neca o treinador. Fomos treinar e acabámos por ficar.

Recorda-se se estava muito nervoso?
Sim, são aquelas coisas que ficam na memória. Lembro-me perfeitamente de entrar num dos portões do Estádio 1º de Maio e do diretor do Braga, o senhor Leiria, ao ver-me entrar: "Hugo, agarra nas chuteiras, vais treinar à equipa principal". Ali a perna tremeu um bocadinho e o coração acelerou, era uma alegria tremenda ir treinar com a equipa principal. Sempre tive o sonho de ser profissional de futebol e de jogar na equipa principal do SC Braga.

Nunca quis ser outra coisa?
Não, desde que me lembro sempre quis ser jogador de futebol ou professor de educação física. Depois acabei por entrar na universidade em Economia, mas isso já são outros quinhentos [risos].

Quem eram os seus ídolos quando era miúdo?
Gostava muito do Baresi, do Matthias Sammer, do Dortmund. No Braga havia um jogador brasileiro quando cheguei à equipa principal, o Moroni, um defesa central com muita categoria. Gostava muito de o ver jogar.

Hugo (o 1º atrás à direita) com 12 anos no SC Braga

Hugo (o 1º atrás à direita) com 12 anos no SC Braga

D.R.

Não tinha nenhuma simpatia por nenhum dos três grandes?
Nunca tive nenhum sentimento especial pelos outros clubes.

Nem por nenhum dos jogadores?
Gostava do Ricardo Gomes e do Mozer do Benfica.

Quando foi treinar pela primeira vez aos seniores com o professor Neca notou muitas diferenças?
Sinceramente não. Sempre tive uma capacidade física bastante interessante. Aquilo que mais senti foi a velocidade de execução e de pensamento. Nos juniores por vezes encontrávamos espaços e a bola entrava com relativa facilidade, nos seniores o espaço estava lá mas era uma armadilha, mete aqui a bola que nós vamos tirar-ta [risos]. Foi sobretudo isso, em termos daquilo que eram as velocidades de execução e de pensamento. Mas considero que depressa me adaptei a isso.

Está praticamente duas épocas a ser chamado à equipa principal mas não joga.
Sim, eu trabalhava com a equipa principal e ia jogando nos juniores. Depois estreei-me com o mister Cajuda.

Deve ter imensas histórias para contar dele.
Ele gostava muito de contar histórias dele, era muito engraçado. Tínhamos palestras que eram de chorar a rir, em que ele contava as histórias de quando pegava no autocarro do clube onde ele jogava [risos], fazia trinta por uma linha.

Não se lembra de nenhuma situação engraçada que tenha vivido com ele?
Ele tinha coisas engraçadas. Gostava muito de mim, o filho dele também se chama Hugo e a nossa idade não difere muito e ele brincava com isso. Eu às vezes gostava de fazer aquelas coisas de miúdo, como fazer uma cueca a um avançado por exemplo, e recordo-me de um dia fazer uma coisas dessas, num período em que já estava a jogar, e ele deu-me uma dura [risos]. Só faltou bater mesmo e disse-me: "Chegar lá acima é fácil, mas cair é um instantinho. Não voltas a fazer isto". E tem razão. Quando se tem sucesso é muito bonito, mas eu dei uns quantos golos aos adversários por coisas do género [risos].

Lembra-se do jogo de estreia como sénior?
O meu jogo de estreia se não me engano foi contra o Tirsense na Taça de Portugal. Há sempre aquela ansiedade e a verdade é que o jogo é diferente do treino. Se no treino a coisa é mais tranquila e as diferenças parecem não ser tão acentuadas, quando se vai para o jogo a diferença é um bocadinho maior porque há a questão do público: uma coisa é jogarmos com 100 pessoas, outra é jogarmos com cinco ou dez mil. Não foi o melhor jogo mas a coisa acabou por correr. Tinha 19 anos, época 1995/96.

Essa é a altura dos namoros, das saídas à noite?
Nunca fui amante da noite, por isso para mim nunca foi um problema. Os namoricos... ia tendo, à procura da donzela [risos]

A receber a medalha pela 1ª internacionalização, tinha 17 anos

A receber a medalha pela 1ª internacionalização, tinha 17 anos

D.R.

Porque entrou no curso de economia na universidade?
Porque na altura era um curso que dava muita saída. O meu sonho era realmente ser jogador de futebol, mas tinha que deixar a via académica aberta também. A verdade é que a carreira de futebol tem uma percentagem muito baixa de jogadores que no final de uma carreira têm uma independência financeira. Sempre pensei nisso e consegui entrar no curso de economia, que era quase emprego garantido. Mas não passei do 1º ano, não terminei.

Fica três épocas no SC Braga e vai diretamente para Itália. Não era muito comum.
Não, sobretudo a Itália daquela época, que era o campeonato mais competitivo.

Tinha empresário?
Não. Acabámos o campeonato em 4º lugar, uma classificação muito boa, fizemos o último jogo, o dérbi em Guimarães, e asseguramos a ida à Taça UEFA. Nessa semana fui contactado por um diretor da Sampdoria que disse que já tinham visto alguns jogos do SC Braga. Não vinham para me ver a mim, mas o Rodrigão, um colega brasileiro que jogava no meio-campo, só que gostaram de mim e demonstraram interesse para que eu fosse.

O que lhe passou pela cabeça? Queria ir, não queria?
A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: “Eh pá, isto deve ser brincadeira aqui de algum artista” [risos]. A malta da bola gosta muito de fazer estas partidas e eu não deixava de ser um miúdo. E disse-lhe: "OK, sim senhor, mas eu agora tenho de fazer umas coisas, pode ligar daqui a 'x' tempo". E a pessoa voltou a insistir, voltou a falar, falava um português do Brasil, e disse que vinha a Portugal, que gostava de se encontrar comigo. Começámos a reunião no Porto na tarde de 23 junho e acabámos a assinar o contrato no escritório de advogados aqui em Braga na noite de 24. Ainda deu para ir fazer uma perninha ao São João na altura [risos], já estava de férias.

Hugo (4º atrás a partir da direita) na equipa de juniores do SC Braga

Hugo (4º atrás a partir da direita) na equipa de juniores do SC Braga

D.R.

Nessa altura ainda vivia com os seus pais?
Sim. E é assim, eu assinei, mas foram muitas horas de discussão, até porque eu não queria ir para Itália, não queria sair daqui. Estava no seio familiar, nunca tinha saído de Braga e essas coisas faziam-me muita confusão. Mas na altura uma pessoa que estimava muito e ainda estimo, o mister Toni Conceição, que está agora como selecionador dos Camarões, e tinha sido meu treinador nas camadas jovens, disse-me: “Eh pá, aproveita, é uma oportunidade de ouro, é um campeonato super competitivo, onde estão os melhores jogadores do mundo”. Lá ajudou a convencer-me, aceitei e não me arrependo de nada.

Quando lá chegou como é que foi o primeiro impacto?
Brutal. Era uma realidade completamente diferente. Naquele ano chegou à Sampdoria o Klinsmann, que era uma figura do futebol mundial, super respeitado, e havia uma loucura tremenda na Sampdoria por ele. Naquele ano ele era o cabeça de cartaz e a apresentação da equipa foi no pavilhão com capacidade para umas 30 mil pessoas. Para um puto, eu na altura tinha uns 15 jogos no campeonato português, no Braga, tinha tido um joguito ou outro com 15 mil pessoas, chegar à apresentação de uma equipa e ter quase 30 mil pessoas foi... isto é grande!

Como é que foi com a língua e ter ficado a viver sozinho?
Foi muito fácil. Faltava-me a família, claro que sim, era o cortar um bocadinho do cordão umbilical, mas acabei por me adaptar muito bem.

Ia comer fora ou começou a aventurar-se na cozinha?
Eu sempre me safei bastante bem na cozinha porque quando era pequeno e os meus pais iam trabalhar eu muitas vezes tinha que acabar a comida que a minha mãe adiantava. Isso não me fez confusão. Mas almoçava e jantava mais vezes fora.

A equipa do SC Braga liderada por Manuel Cajuda. Hugo está junto ao ombro direito de Cajuda, atrás de Rui Correia

A equipa do SC Braga liderada por Manuel Cajuda. Hugo está junto ao ombro direito de Cajuda, atrás de Rui Correia

D.R.

Como foi entrar no balneário da Sampdoria? Foi bem recebido?
Fui muito bem recebido, na altura tínhamos grandes referências do futebol não só italiano mas mundial também, tinha Mihajlovic como colega, tinha o Karembeu, tinha o Montella, um grande avançado que é treinador neste momento; tinha mais dois internacionais franceses, o Boghossian e o Pierre Laigle, tinha o Verón, era um plantel muito bom, muito forte de gente já com muito quilómetro de futebol e com trabalho feito. Todos eles me acolheram muito bem, não tive problema absolutamente nenhum. Desde os mais velhos aos mais novos, dava-me bem com todos eles e todos eles me ajudavam naquilo que fosse sempre preciso.

E de Itália e dos italianos gostou?
Gostei, foi uma experiência de vida muito boa. Foi um país, uma gente e um futebol que me ajudaram a crescer a todos os níveis.

Notou muita diferença nos treinos e no futebol?
O meu primeiro treinador não tinha nada a ver com aquilo que era o futebol italiano. Era o César Menotti, mentalidade argentina, estava um bocadinho desfasado daquilo que era a realidade do futebol em Itália, daquilo que era a metodologia usada, mas ele também tinha o seu currículo. A diferença que notei nesse primeiro ano é que treinávamos pouco. Depois acaba por sair e vem o Boskov, outra grande figura do futebol.

Que tal Boskov?
O Boskov tinha sido campeão pela Sampdoria em 1991 e como tal era uma pessoa muito querida e muito respeitada no clube. Um bocadinho diferente daquilo que era o Menotti, mas ainda assim não sendo aquilo que as pessoas ouviam de que em Itália é um treino muito físico, muito tático, isso só senti mais na segunda época.

Com quem, com o Luciano Spalletti?
Com o Spalletti sim, aí já se viveu aquilo que as pessoas tanto falavam da questão física e tática.

Hugo com os pais antes de partir Itália

Hugo com os pais antes de partir Itália

D.R.

Dessas três épocas em Itália, o que mais o marcou?
O que eu cresci enquanto homem e enquanto jogador. Adaptei-me muito bem à cidade e ao país, falava com muita gente, aproveitava para ver televisão, sobretudo nos primeiros tempos, para melhorar a língua, a ver filmes e séries. Gostava de ler também, de passear para conhecer o que era a cidade e o país. Depois ia recebendo visitas também e quando tinha gente em casa, fosse família, fossem amigos, mostrava-lhes um bocadinho dos encantos de Génova e das terras que estavam perto.

Histórias de Itália, não tem nenhuma que possa contar?
Lembro-me que o Boskov quando chegou tinha uma idade já avançada e uma série de vezes estávamos no treino e ele punha as bolas ao lado dele e quando queria meter a bola dentro do campo, em vez de chutar a bola chutava os cones [risos], porque já via mal. Tive outro treinador lá que uma vez marcou uma palestra ao meio-dia menos um quarto, antes do almoço, e atrasou-se. O capitão às tantas disse: "Já chega. Vamos todos comer". O pessoal foi todo atrás dele para o refeitório. O treinador chega já passava do meio-dia. E o capitão disse-lhe: “Está na hora do almoço, agora é almoço não há palestra”. O treinador não gostou e: "Tudo para palestra". O capitão: “Ai é?” Apresentou-se com o prato da massa e ficou a palestra inteira com o prato na mão só para chatear. Também tive outro treinador que marcava treino às 10 e aparecia às 11h.

Hugo (à esquerda) no Sampdoria, num duelo com George Weah

Hugo (à esquerda) no Sampdoria, num duelo com George Weah

D.R.

E namoros mais a sério?
Eu conheci a minha mulher, a Isabel, na universidade. Entrámos os dois no curso de economia no mesmo ano, mas eu não ia muito às aulas por causa dos treinos. Íamos namorando, aquelas coisas, começa, acaba [risos]. Entretanto fui para Itália e acabei por não continuar o curso. Ela terminou.

Como é que sai de Itália e vem parar ao Sporting?
Já no meu segundo ano na Sampdoria fui abordado, no mercado de janeiro, pelo Sporting. Na altura entendi que não era o momento. E não era o momento porque nesse ano vivemos tempos conturbados na Sampdoria, houve uma crise. Na segunda época, como já disse, começámos a viver um bocadinho mais aquilo que era o futebol italiano com o Spalletti. Mas em termos de resultados as coisas não correram tão bem quanto isso e acabou por haver mexidas. Na altura o David Platt assume como treinador, ele que tinha jogado na Sampdoria também, e as coisas acabaram por não correr muito bem. Em termos de direção aquilo estava um bocadinho tremido também. A meio da época estávamos na luta pela permanência, embora tívessemos um bom plantel. E em janeiro, atendendo àquilo tudo disse, pensei: “Eh pá, não vou abandonar isto agora”. Eu estava a jogar com regularidade, sempre com algumas lesões que me foram chateando ao longo da minha carreira e em momentos que considero chave. Mas por achar que a equipa precisava de mim, e porque gostava de estar em Itália naquele campeonato, agradeci imenso mas acabei por não vir. Fiz mais um ano, convidaram-me novamente e acabei por vir para cá.

Ainda tinha contrato com o Sampdoria?
Tinha mais um ano, mas achei que o Sporting era um bom projeto para mim.

Hugo assina pelo Sporting em 2000/01

Hugo assina pelo Sporting em 2000/01

D.R.

Como foi chegar ao balneário do Sporting?
Foi tranquilo também. Malta que eu já conhecia, se calhar conhecia-os eu mais a eles do que eles a mim, porque na altura não havia a SportTV nem acesso a todos os jogos e eu não deixava de ser um miúdo. Entretanto já tinha sido convocado para a seleção, com o Humberto Coelho, mas infelizmente não pude marcar presença na convocatória porque tive uma lesão.

Qual foi a pior lesão que teve?
Foi no tendão de Aquiles. Foi a que acabou por marcar em termos de carreira. No tempo em que estive no Sporting, na altura com o Fernando Santos, considero que estava a ser um ano de afirmação, um ano que me estava a correr muito bem, e com esta lesão, em novembro, a época foi à vida e lá caí eu abaixo da montanha e tive que a voltar a subir.

Chega e é Inácio o treinador. Estranhou a mudança?
Não senti nada de especial em termos de mudanças. A exigência no Sporting, à imagem daquilo que era na Sampdoria, era tremenda também. A verdade é que se trabalha bem em Portugal e não notei grandes diferenças.

Depois de Inácio vem Fernando Mendes e Manuel Fernandes, certo?
Sim. O Manuel Fernandes era engraçado. Uma vez virou-se para o João Vieira Pinto e disse: “O rei dos penáltis? O rei dos penáltis? O rei dos penáltis era eu, pá” [risos]. Lembro-me também numa viagem que fizemos, não sei se Lisboa-Porto, no autocarro, ele meteu a cassette VHS dos 7-1 ao Benfica e punha-se: “Isto é que era. Vê lá, ó João, olha, olha, olha” [risos].

Sporting campeão em 2001/02

Sporting campeão em 2001/02

D.R.

Na segunda época de Sporting tem László Bölöni como treinador. Gostou dele?
Gostei muito de trabalhar com ele. Mas era um treinador que nos dava com cada tareia [risos]. Às quartas-feiras, nas chamadas semanas limpas, o homem dava cabo da gente com aquela corrida, nós chamávamos-lhe a oval, era de cair para o lado. Um bocadinho diferente daquilo a que estávamos habituados. Nem em Itália corri tanto como corri com o Bölöni no Sporting, e Itália na altura era muito conhecida pelas tareias físicas que se levavam. Mas eu nunca corri com nenhum treinador como corri com o Boloni [risos].

E é campeão com ele, pelo Sporting. Que tal a sensação de ser campeão nacional?
É brutal e depois com a massa adepta que o Sporting tem, foi muito bonito, muito bonito.

Nessa altura ainda vivia sozinho?
Não, já estava com a Isabel, a minha mulher. Em Itália ela ia e vinha. Assumimos aquilo que é a nossa relação hoje quando eu vim para o Sporting.

Quando é que nasce o primeiro filho?
O Hugo nasce em 2001. É tudo seguidinho. Venho em 2000 e ele nasce em 2001.

Assistiu ao parto?
Não, não, essas coisas.... Tenho quatro filhos e não assisti ao parto de nenhum [risos]. Sou muito sensível [risos].

O segundo ano com Bölöni foi talvez o seu melhor ano, foi o ano em que jogou mais.
Foi o ano em que tive menos lesões e acabei por jogar muito. Em termos coletivos as coisas não correram tão bem, não conseguimos aquilo que eram os nossos intentos mas a nível individual acabou por ser um ano bastante positivo. Tenho a convicção de que foi uma boa base para que na minha terceira época no Sporting tivesse aparecido bastante bem. Mas depois infelizmente tenho a lesão.

Isso é já com o Fernando Santos?
Exatamente.

Como é que foi com o Fernando Santos? Ele tem aquele ar durão...
E é [risos].

Foi um choque no balneário?
Para mim não foi choque absolutamente nenhum, mas sim, é claramente uma pessoa muito rigorosa. Eu gostei muito de trabalhar com ele e já o disse, não tenho problema nenhum, aprendi com todos os treinadores e sem desprimor para qualquer um, mas o Fernando Santos foi o treinador com quem mais me identifiquei e com quem mais gostei de trabalhar. Mas sim, claramente uma pessoa muito rigorosa em termos do que eram os horários, daquilo que era a execução dos exercícios, não facilitava nada.

Uma das muitas corridas que Boloni gostava de fazer. Hugo é o 2º à direita, na frente

Uma das muitas corridas que Boloni gostava de fazer. Hugo é o 2º à direita, na frente

D.R.

Na época seguinte vem José Peseiro, que é completamente diferente.
Sim, personalidades diferentes. O Peseiro é uma pessoa apaixonada pelo futebol, uma pessoa apaixonada pelo treino, à imagem de todos os treinadores, mas numa vertente um bocadinho diferente, de uma pessoa que se preocupava com tudo, desde a proveniência dos jogadores, de ter em conta aquilo que era a cultura do país de cada um. Ele preocupava-se com essas coisas todas, achava que tudo isso tinha interferência e tudo isso tinha que ser ponderado, mesmo para a compreensão do atleta. Muito interessante.

Pode revelar como foi vivida internamente essa época?
A época foi muito boa e foi muito má. Foi muito boa porque estivemos na luta por tudo e foi muito má porque em duas ou três semanas perdemos tudo. Foi muito duro, muito duro.

Começou a haver muito nervosismo nas últimas semanas, muita discussão?
Acaba sempre por haver conflito, não se passaram as linhas limites, digamos assim, mas o ambiente entre nós não era claramente o melhor.

Tinha a ver com os jogadores ou era com o treinador?
Tinha a ver com tudo. Isto é mesmo assim, quando se está bem, as pessoas... Até pode haver uma nuvenzinha ou outra mas não deixa de fazer sol. Quando as coisas correm menos bem, está sempre nublado e a caminho da tempestade. Mas todos nós com um quê de responsabilidade.

Não foi falta de pulso de Peseiro a determinada altura?
Cada treinador é uma pessoa e cada pessoa tem uma maneira de liderar e de estar. O Peseiro tinha a sua, como o Fernando Santos tinha a dele e o Cajuda tinha a dele. Se me pergunta se o Peseiro teve pulso enquanto andámos a lutar por tudo e deixou de ter quando as coisas não aconteceram? Não concordo com isso. Posso concordar mais ou menos, posso identificar-me mais ou menos com a maneira de liderar e com a maneira de ser dos treinadores, mas temos que respeitar todas essas maneiras de ser e de estar. Não concordo que o Peseiro não tenha tido pulso. Ele fez aquilo que achava que tinha de fazer.

E acha que foi o melhor?
Os resultados disseram que foi o melhor até determinado ponto, depois acabámos por colocar as coisas em causa quando os resultados não acontecem. Essa questão de que toda a gente fala, do Peseiro não ter pulso... Se me perguntarem, concordas com tudo o que o mister Peseiro fez? Eh pá, não, não concordo com tudo o que o mister Peseiro fez. Mas a verdade é que até determinada altura e quando se diz determinada altura, é quase até ao final da época, o mister Peseiro e o plantel do Sporting estiveram todos a lutar pelo título, pela Taça UEFA.

Mas como é que de repente tudo desmorona? Não é só uma questão de sorte ou azar, ou é?
Não é uma questão de sorte ou azar, mas lá está, no jogo da final da Taça UEFA também houve ali algumas mexidas e algumas opções na equipa titular que deixou alguns insatisfeitos... Mas isso acaba por fazer parte. Não correu foi da melhor maneira.

Há sempre uns pesos mais pesados no balneário?
Há sempre uns pesos mais pesados mas os pesos também só pesam aquilo que as pessoas querem.

Jogo de pré-época do Sporting com o Lyon

Jogo de pré-época do Sporting com o Lyon

D.R.

A seguir ainda inicia Peseiro mas depois vem Paulo Bento. Nessa época não joga muito. Porquê?
Na altura estive para sair do Sporting.

Porquê? Para onde?
Havia algumas possibilidades, inclusivamente para fora, tive abordagem do West Bromwich Albion, de Inglaterra. Mas não me interessou. Os clubes que em Portugal tinham demonstrado interesse também não considerava que seriam o melhor para mim e disse que queria ficar e lutar pelo meu espaço. Infelizmente passado pouco tempo fiz uma lesão no outro tendão de Aquiles e fiquei a primeira metade da época sem jogar. Na segunda parte joguei pouquíssimo. Foram seis, sete meses sem jogar. Eu sentia-me um verdadeiro alpinista porque estava sempre a subir e a descer montanhas, à conta das lesões. Infelizmente na minha carreira tive de subir umas quantas montanhas.

Como se aguentava psicologicamente?
Considero-me forte mentalmente, mas o apoio da família foi fundamental.

Em 2006 volta a ser pai.
Sim, nasce a minha segunda filha, a Constança. Curiosamente foi a única que nasceu em Lisboa, os outros nasceram no Porto porque a minha mulher é natural de Marco de Canaveses e viveu quase sempre no Porto, a médica era de lá, por isso o terceiro e quarto filhos acabam por nascer lá também. A Matilde em 2011 e o Mateus em 2013.

No Sporting qual foi a dupla de que fez parte em que se encaixou melhor?
Desde que eu seja um dos da dupla eu dou-me bem com todos [risos]. Eu gostava muito do André Cruz, pelas características que ele tem. Acho que nos complementámos melhor. Não terá sido o jogador com quem fiz mais vezes dupla, mas era aquele com quem me sentia bem.

Não tem mais histórias que possa contar dos tempos no Sporting?
As grandes histórias no Sporting eram com o Paulinho, o roupeiro. Lembro-me que uma vez ele foi a um almoço de equipa, bebeu uns copitos a mais e deitou-se em cima do sofá. Mas passado um bocado quando o vimos ele tinha virado o sofá ao contrário e estava deitado debaixo do sofá. E nós: "O que é que se passa?"; "Eu deitei-me no sofá e isto estava aqui às voltas, às voltas, às voltas e virei-o ao contrário para isto deixar de andar à roda" [risos]. Chegámos a prendê-lo nu aos postes da baliza. Mas eram brincadeiras sem maldade e ele gostava. Em pleno inverno atirei o porquinho que ele tinha, cheio de moedas, para a piscina e ele, apesar do frio, mergulhou e apanhou as moedas todas. É rijo.

No dia da inauguração do Estádio Alvalade XXI

No dia da inauguração do Estádio Alvalade XXI

D.R.

Como passa do Sporting para o V. Setúbal?
É fruto daquilo que tinha sido a minha última época. Eu sabia que não ia ser primeira e segunda opção, tendo em conta que estive um ano praticamente parado. Achei que seria bom para relançar a carreira, na altura pareceu-me uma boa solução.

Foi viver para Setúbal?
Não, fiquei a viver em Lisboa. A minha mulher sempre trabalhou, e trabalha, tinha o emprego dela em Lisboa, os miúdos também andavam na escola e mantivemos a nossa vida lá.

Notou uma grande diferença do Sporting para o V. Setúbal?
Como bom profissional que sempre me considerei tive de me adaptar. São realidades diferentes, em termos de dimensão de clube, daquilo que são as condições de trabalho, e a qualidade de um plantel não é a mesma do outro. Considero que foram três anos positivos. A sofrer até à última em algumas situações, nomeadamente pela permanência, mas acabou por correr bem.

De todos os treinadores que teve com qual se entendeu melhor?
No seu todo, enquanto treinador, o Carlos Carvalhal foi o melhor. Já na altura tinha coisas muito interessantes naquilo que era o treino. Todos foram competentes mas acho que ele estava um bocadinho à frente dos outros. Embora também tivesse tido atritos com o Carvalhal.

Que tipo de atritos?
Nem sempre concordei com algumas coisas que fez.

Nomeadamente?
Considero que um treinador quando faz as opções é sempre a pensar que está a fazer as melhores, mas algumas dessas situações com as quais eu não concordei fiz questão de lhe dizer, embora também lhe tenha dito que as opções são e serão sempre do treinador, concorde-se ou não. Nunca achei que um treinador tivesse de justificar o que quer que fosse e uma ou outra vez ele sentiu necessidade de me justificar e eu não gostei. Nunca perguntei a um treinador porque é que não me metia a jogar. Todos os jogadores querem ser titulares sempre. Passei por todas as condições, fui titularíssimo, fui suplente, fui não convocado, estive lesionado, passei por tudo. Mas o facto de não concordar com tudo o que ele fez não me impede de lhe reconhecer grandes valências.

Hugo no chão, na altura em que se lesiona no Tendão de Aquiles

Hugo no chão, na altura em que se lesiona no Tendão de Aquiles

D.R.

Quando vai embora para o Beira-Mar tinha acabado contrato com o V. Setúbal?
Eu acabava contrato com o Setúbal mas tinha tudo acordado para a renovação.

E não acontece porquê?
Até hoje não percebi ou não quis perceber muito bem aquilo que se passou. Nem quero saber. Fiquei muito desiludido. A palavra para mim vale tanto como uma assinatura e na altura tinha tudo acertado com o presidente, a minha continuidade estava garantida, faltava só mesmo assinar os papéis. O final daquela época foi atribulado, entretanto fui de férias, estava nas Maldivas com um fuso horário completamente diferente e eram cerca das 4h da manhã nas Maldivas quando recebo uma chamada do diretor, um bocadinho sem jeito, isto foi na altura em que entrou o Carlos Azenha, a dizer que afinal eu não ia continuar. Estava meio ensonado, faltavam poucos dias para acabar as férias e respondi-lhe: "Quando chegar aí falamos". Falámos e mostrei o meu desagrado, fiquei muito triste e desiludido com as pessoas. Essa desilusão levou-me muito seriamente a pensar em não jogar mais futebol. Com 32 anos, isto há 11 anos, um gajo estava acabado para o futebol, não é como hoje. Não havia grandes projetos em Portugal, tive alguns convites para ir para fora, mas não me apetecia por questões familiares. O que me ia aparecendo não era justificativo para abandonar a vida que tínhamos cá e pensei seriamente em acabar a carreira. Mas entretanto o Beira-Mar foi-me ligando. Aquilo fazia-me confusão, era II Divisão, não estava mentalizado. Demorei quase um mês a mentalizar-me e a perceber que o bichinho ainda cá continuava... Era incapaz de jogar futebol sem paixão, acho que isso não existe.

Como foi o relacionamento com o Leonardo Jardim quando chegou?
Quando cheguei o Leonardo Jardim fez logo questão de fazer perceber o seu feitio. Também é uma pessoa rigorosa no trabalho. Fez questão de me fazer sentir que ali éramos todos iguais; mas isso para mim não me causava espécie de maneira nenhuma, nunca pedi e nunca fui à procura de tratamentos privilegiados. Mas fez questão de me fazer perceber logo numa fase inicial como é que ele funcionava, o que é que ele queria.

De que forma é que o fez?
Em conversa. Eu cheguei uma semana antes do início oficial da época, com jogo da Taça da Liga, se não me engano. Passado pouco tempo ele elegeu-me capitão da equipa e foi uma situação que me deixou um bocadinho desconfortável na altura.

Porquê?
Porque eu tinha chegado há pouco tempo, tinha pessoas no clube muito queridas e mais antigas, nomeadamente o Fary, o Palatsi, o Fangueiro. E um dia antes de começarmos o treino ele reuniu-nos no campo e disse "vamos ver a eleição do capitão". Eu nem sabia que não estavam eleitos os capitães. O capitão para mim é só o facto de ter uma braçadeira e escolher o campo ou a bola no jogo e havia pessoas que estavam ali há mais tempo, alguns deles tinham feito história no clube. Mas ele às tantas diz "o capitão vai ser então o Hugo". Eu confesso que estava um bocadinho desligado daquela conversa porque não me tocava minimamente. Quando ouço o meu nome fiquei "capitão?!".

O que fez?
Quando ouvi o meu nome comecei logo a olhar para as caras dos outros. A mim não me dá nem tira absolutamente nada ser capitão porque o meu comportamento é sempre o mesmo. Mas senti que houve desagrado da parte daqueles três de que falei.

Falou com eles?
Fiz questão de falar com eles, porque fui apanhado completamente de surpresa. E tanto é que no final fui falar com o Jardim e ele só me disse, naquela sua maneira seca: "Eh pá, tu não pediste nada pois não?"; "Não, nem a si nem a ninguém"; "Então pronto, está decidido, está decidido".

Correu-lhe bem essa época?
Muito bem, o grupo era fantástico e foi uma época muito gira que termina com a subida à I Liga.

Depois do Sporting Hugo jogou três épocas no V. Setúbal

Depois do Sporting Hugo jogou três épocas no V. Setúbal

D.R.

Na época seguinte vem Rui Bento, que tinha sido seu colega. Foi uma situação estranha?
Eu já antes tinha tido o Paulo Bento, que tinha sido meu colega também.

E?
Tranquilo. Eu não misturo as coisas. Há uma coisa que considero fundamental em tudo na vida, o respeito. Eram meus colegas e dentro dos meus colegas eram daqueles com quem me dava melhor, tanto um como o outro, mas não misturavam as coisas, tanto eu como eles. A coisa que me causava mais confusão era o facto de eu nunca ter tratado um treinador por tu e com eles era difícil não o fazer e naturalmente tratava-os por tu.

Ficou a viver em Aveiro?
A família ficou em Braga e foi um esforço tremendo por parte da minha senhora, porque ela sempre trabalhou, foi uma super mulher. Ela estava em Braga com os três filhos na altura e eu em Aveiro, e quando podia ia a Braga. É uma mulher de armas.

Quando acaba a época 2012/13, está com 36 anos. Já sabia que era a sua última época?
Não. As coisas no Beira-Mar não estavam bem, mesmo relativamente ao que era o futuro do clube, não havia certezas de nada, e a verdade é que aquela chama, a tal paixão, o tal prazer em jogar foi-se apagando um bocadinho. Considerei que já não se justificava. Jogar para me entreter, jogo com os meus amigos. Quando parti para essa época não pensava nem pouco mais ou menos terminar a carreira, mas com o decorrer da época fui ficando cansado de algumas coisas.

Está a falar do quê em concreto?
Instabilidades em termos diretivos e algumas situações que vivi noutros clubes também mas que acabaram por cumprir escrupulosamente com tudo.

Refere-se a ordenados em atraso?
Ordenados em atraso, colegas em dificuldade. Mas nem quero adiantar nada sobre isso.

Quando chegou ao final da época tinha propostas de outros clubes ou já tinha decidido que era para acabar?
Fui sendo abordado por outros clubes, chegaram-me a falar em ir para fora, para mercados mais alternativos, mas não me interessava. E decidi parar.

Hugo com a mulher e os quatro filhos

Hugo com a mulher e os quatro filhos

D.R.

Custou-lhe muito pendurar as chuteiras?
Desabituar o corpo e a mente ao stress, à adrenalina e às rotinas diárias mexe um bocadinho com uma pessoa. Mas depois foi tudo tranquilo. Os primeiros meses é que foram mais complicados.

Nessa altura já tinha pensado no que queria fazer no futuro?
Queria continuar ligado ao futebol sem saber muito bem o que fazer. Cheguei a ser abordado ainda no Beira-Mar para a possibilidade de abraçar uma carreira de treinador. Nessa última época tinha pensado em fazer os cursos de treinador mas foi na altura em que houve uma mudança e os cursos fecharam por três ou quatro anos. O ano passado já terminei o 3º nível, mas estive quatro anos sem poder fazer.

Então acaba a época e o que vai fazer?
Decidi fazer um ano sabático, descansar a cabeça e o corpo, e pensar no que ia fazer. Estive um ano realmente sem fazer nada e no ano a seguir tive o convite de umas pessoas para trabalhar na observação de jogadores para uma empresa. Andei pelo país e pela Europa fora a ver alguns jogadores. Isto em 2014. Entretanto apareceu o convite do SC Braga e do presidente António Salvador para ficar à frente da formação do clube.

Aceitou de pronto o desafio?
Tive de pensar, claro. Queria muito estar ligado ao futebol, a formação foi sempre uma coisa de que gostei. É um desafio tremendo. Temos de perceber a sociedade em que estamos inseridos, que é bastante diferente dos tempos que vivi.

Qual a maior diferença e dificuldade que sentiu ou sente?
Os miúdos hoje são diferentes, vivem num contexto social bastante diferente da minha época. Basta lembrarmo-nos do espaço que tínhamos; tanto em tempo como espaço físico mesmo, para andarmos na rua e fazermos as nossas brincadeiras. Hoje eles não têm. Vivemos na era dos telemóveis, das redes sociais, das Playstations, é muito diferente. O trabalho das famílias hoje leva-nos muito tempo. Eles crescem, e por um lado ainda bem, num ambiente muito facilitista dos pais. Os meninos precisam disto e os pais dão. Obviamente que não são todos. Mas claramente crescem num ambiente facilitista, mas numa sociedade cada vez mais egoísta, mais eu. E depois temos a situação dos pais dentro da formação. É uma temática abordada constantemente pelas pessoas que estudam e que estão na formação.

Os pais acham que têm todos um Cristiano Ronaldo dentro de casa?
É um bocadinho, um bocadinho. Sobretudo nesta fase em que tomamos decisões para a próxima época e que implica uma situação que não deixa de ser dolorosa para nós também, porque também nos afeiçoamos. Mas alguns deles vão ter de deixar as nossas equipas e têm de ir para outros contextos e os pais às vezes não aceitam. Sofrem mais os pais, nomeadamente dos escalões mais baixos, do que os filhos. Porque os miúdos ficam tristes, mas passados dois, três dias partem para outra. Os pais tê uma frustração tremenda e acabam por passar essas coisas para os miúdos. Não é fácil.

Hugo chegou ao Beira Mar em 2009/10

Hugo chegou ao Beira Mar em 2009/10

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Sporting.

Investiu em quê?
Tive pastelarias durante a minha carreira, mas acabei por sair. Em imobiliário também e em algumas aplicações.

Teve ou tem alguma alcunha?
Na formação tinha alguns colegas que me chamam Sabonis, que era um jogador de basquetebol, um gajo muito alto. Se calhar era por eu saltar muito.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não sou pessoa de extravagâncias. Hei de cometê-la um dia. Se calhar pegar na minha senhora e ir à Polinésia francesa.

Já percebemos que gosta de viajar. Qual foi o sítio que lhe encheu mais as medidas?
Em termos de cenário, as Maldivas. Adoro Nova Iorque, é a minha cidade.

Algum outro desporto que goste de praticar ou seguir?
Vou ao ginásio, vou fazendo padel, que já não faço há bastante tempo com isto do coronavírus. Obviamente futebol e as peladinhas com amigos. Gosto de ginásio, de fazer aquelas aulas que o pessoal chama as aulas das gajas [risos].

E que são?
Steps, Cycle, GAP, Jumps, faço de tudo um pouco.

Tem tatuagens?
Não.

É crente?
Acredito que há uma força suprema e superior a isto tudo.

E superstições?
Não.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
O Custódio.

Hugo e a mulher Isabel, numa gala do SC Braga

Hugo e a mulher Isabel, numa gala do SC Braga

D.R.

O momento mais importante e a maior frustração na carreira?
A maior alegria foi ter sido campeão pelo Sporting. A maior frustração foi termos perdido a final da Taça UEFA, pelo Sporting também.

Algum dos seus filhos joga futebol?
O mais velho.

Revê-se nele?
Completamente diferente. Ele com muito mais qualidade técnica do que o pai, mas com muito menos atitude competitiva do que o pai.

Ele quer ser jogador profissional de futebol?
Ele diz que sim. Mas vai ter que lutar muito para isso. Ao contrário do que muita gente possa pensar, ser jogador de futebol não é fácil.

Qual foi o adversário que lhe deu mais luta?
O que mais me deu cabo da cabeça durante o jogo foi o Claudio Bellucci, um avançado muito móvel, baixinho, que não parava um segundo. Foi mesmo aquele que às tantas eu já dizia: "Já não suporto mais". Se pudesse dava-lhe uma fruta daquelas [risos].

E em Portugal?
O Falcão. Se me distraísse um bocadinho ele lixava-me.

Para finalizar, não tem nenhum episódio caricato, mais uma história para contar?
Eh pá, tenho uma situação com um treinador que não vou dizer quem é e que me ficou gravada até hoje. Um dia chega ao balneário, depois de um treino, vira-se para nós e diz: "Se me querem foder, fodam-me no buraco da pila, que é mais estreitinho" [risos].