Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Os polícias mandaram parar mas lixaram-se, era a minha mulher ao volante. Insultei-os: ‘Quereis o meu dinheiro? Ide trabalhar e o carago’”

Mário Sérgio teve uma passagem fugaz pelo Sporting - mas ainda teve tempo de fazer partidas ao Paulinho -, depois da formação no Paços de Ferreira. A seguir à passagem por Alvalade diz que teve de dar um passo atrás para dar dois à frente e viver os momentos mais felizes da carreira. Primeiro na Ucrânia - onde viveu várias histórias com a polícia -, mas sobretudo no Chipre, onde foi pentacampeão. À beira dos 39 anos, o lateral direito ainda não pensa desistir de jogar futebol.

Alexandra Simões de Abreu

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Nasceu em Paredes.
Exactamente, em Castelões de Cepeda. Vivi toda a minha vida em Lordelo, com exceção dos momentos em que estive fora do país.

Quem são os seus pais, o que faziam profissionalmente quando nasceu? Tem irmãos?
Os meus pais trabalhavam nos móveis, como a maior parte das pessoas aqui na zona. Tenho um irmão mais novo seis anos. Eu vivia na casa dos meus avós. O meu avô chegou a ter uma casa de móveis e depois os meus tios tomaram conta daquilo.

Gostava da escola?
Não, só queria futebol [risos]. Ia para a escola e faltava às aulas para ir jogar à bola.

Na família tinha alguém ligado ao futebol?
O meu pai jogou durante muitos anos, nunca a alto nível, mas jogou durante muitos anos e tinha tios que jogaram sempre futebol também. O meu sonho sempre foi jogar futebol, daí não ligar a estudos. E eu sabia que, caso não desse para o futebol, se calhar ia ser como o meu pai, ia trabalhar como marceneiro.

Torcia por que clube?
Com três, quatro anos, quando a gente começa a escolher um clube: era pelo FC Porto.

Tinha ídolos?
Quando era miúdo era o Ronaldo, o fenómeno, achava-o um fora de série. Lembro-me dele no Barcelona, na altura para mim, ele era o número um.

Quando começa a jogar num clube pela primeira vez?
Tinha oito anos, fui para as escolinhas do Paços de Ferreira, o meu pai naquela altura era treinador dos miúdos lá em Paços de Ferreira.

Deixa os estudos em que altura?
Só fiz o 9.º ano, deixei muito cedo. Depois o que aconteceu é que, como ainda não sabia se ia ser jogador profissional, fui trabalhar, fiz várias coisas.

O quê?
Desde contabilista, polidor, marceneiro, estofador... andava por aqui, o meu pai não me podia ver em casa. Tinha aquele sonho do futebol, isso era o número um, mas uma vez que não queria estudar, não ia ficar em casa, os meus pais punham-me a trabalhar como é evidente.

Mário Sérgio (3ª em baixo à direita) iniciou a sua formação no Paços de Ferreira

Mário Sérgio (3ª em baixo à direita) iniciou a sua formação no Paços de Ferreira

D.R.

Quando assina o primeiro contrato e começa a ganhar dinheiro com o futebol?
No meu segundo ano de júnior.

Recorda-se do valor do seu primeiro ordenado?
Perfeitamente: 750 euros.

O que fez a esse dinheiro?
Era para a casa, eu vivia com os meus pais e era uma ajuda. Sempre dei valor aos meus pais que trabalhavam, davam-me as coisas e faziam tudo por mim, então quando comecei a ganhar tinha de os ajudar e tudo o que recebia era para nós, para termos mais isto ou mais aquilo. Depois acabei por comprar o meu carro, aquelas coisas. Tinha acabado de tirar a carta, ia fazer 19.

Quando se estreia na equipa principal, como sénior?
Na época de 2000/2001, salvo erro.. Na altura em que assinei o contrato profissional, eu ainda era júnior, treinava com os seniores e ao sábado ou ao domingo ia jogar pelos juniores. Foi no ano em que o Paços estava na segunda divisão e o Henrique Calisto era o treinador. Entretanto, ele saiu e assumiu o Zé Mota e o Paços de Ferreira subiu nesse ano. Acho que me estreei no ano a seguir.

E o José Mota: o que é que achou dele como treinador?
O José Mota foi uma pessoa muito importante para mim, uma vez que me deu a oportunidade de jogar. É evidente que também fiz por isso, tive sorte e fiz por ela, dá trabalho como se costuma dizer, mas ele foi a pessoa que me deu a oportunidade. Era muito exigente, mas ao mesmo tempo muito humano. Uma pessoa muito humana, muito correcta, agora no trabalho era exigente, mas uma exigência pura, os exemplos que nos dava ajudaram muito no meu crescimento.

Como é que se define a sua posição em campo como lateral direito?
Foi nos juvenis. Tinha um mister que se chamava Cassanga, e eu normalmente jogava a médio, médio direito ou a número "10", e houve um jogo em que houve muitas expulsões, estávamos um bocado limitados, e ficámos sem o nosso lateral direito e ele então adaptou-me. As coisas correram bem e a partir daí joguei sempre a lateral direito.

Está três anos na equipa principal do Paços de Ferreira e depois muda-se para o Sporting. Como é que isso acontece?
Era novo, comecei a jogar regularmente, a coisas a correrem bem, é normal que surjam clubes. O Sporting falou com o presidente do Paços de Ferreira diretamente. Na altura, eu até estava de férias. Os clubes chegam a acordo, faltava só falarem comigo para verem os valores.

Mário Sérgio (1º em baixo à direita) foi para o Sporting na época 2003/04

Mário Sérgio (1º em baixo à direita) foi para o Sporting na época 2003/04

D.R.

Quando lhe falaram na ida para o Sporting qual foi a sua reação?
Foi muito positiva. Na altura tinha ido de férias com um amigo meu, fomos fazer um cruzeiro nas Caraíbas, estava incontactável e, quando ligo para casa, a minha namorada, a Luísa, que é agora minha mulher, é que me disse que nas notícias estavam a falar e que já estava tudo acordado.

Como é que conheceu a sua mulher?
Nas festas da aldeia, na minha terra, num domingo à tarde. Ela apareceu por lá.

Quando foi para o Sporting ainda vivia com os seus pais?
Vivia com os meus pais e com os meus avós. Na altura já estava a fazer uma casa, mas ainda vivia com eles.

Como foi o primeiro impacto ao chegar ao balneário do Sporting?
Foi um bocadinho assim... não é estranho... assustador também não é, porque é uma palavra muito forte, mas de admiração porque tinha muitos jogadores que eu admirava, grandes jogadores e estar ali ao lado deles...

Quem eram essas grandes figuras que admirava e encontrou?
O João Vieira Pinto, o Pedro Barbosa, o Rui Jorge, Paulo Bento, Sá Pinto, o Custódio.

Houve algum que tenha sido mais simpático consigo ou fosse mais brincalhão?
O pessoal era porreiro. O Rui Jorge gostava muito de brincar. Mas todos eles eram tranquilos.

Fizeram-lhe alguma partida de boas vindas, alguma praxe?
Não, sinceramente que me lembre, não. Era mais ao Paulinho, o roupeiro. Ao Paulinho até eu depois fazia muitas maldades [risos]. Eu e o Custodio. Muitas vezes levava com baldes de água em cima. Mas ele gostava que brincássemos com ele.

É Fernando Santos o treinador quando lá chega. Tem fama de ser durão. É assim?
Eu costumo brincar com isso, porque ele agora parece que já se ri mais, mas na altura era muito fechado. Quando chegávamos lá de manhã para treinar parecia que estava sempre na azia, mas depois com o tempo começas a conhecê-lo, e faz parte dele. Ele é assim, no fundo é boa pessoa e é muito correcto, não é cá com truques, é muito verdadeiro. Mas ao princípio a gente brincava, parecia que andava sempre na azia [risos].

Como foi a sua adaptação a Lisboa?
Na altura a minha namorada foi comigo e os meus pais e o meu irmão também. Fomos viver para o Montijo, porque era ao lado de Alcochete, e levei a família comigo para ser mais tranquilo.

Os seus pais nessa altura já não trabalhavam?
A minha mãe já não estava a trabalhar, o meu pai deixou de trabalhar porque entretanto ,quando estava a fazer a minha casa, também fiz uma loja e o meu pai tinha aquele sonho de ter um cafézito para ele. E então montámos um café. Depois daqueles dois anos no Sporting, quando viemos para cima o meu pai ficou lá com o cafézito.

A seguir ao Sporting Mário Sérgio (à esquerda jogou uma época no V. Guimarães

A seguir ao Sporting Mário Sérgio (à esquerda jogou uma época no V. Guimarães

Denis Doyle

No Sporting não jogou muito. Quem eram os seus grandes concorrentes na altura?
Era o Miguel Garcia e o Rogério, que tanto jogava a lateral direito ou a médio. Eram eles. Com o Fernando Santos ainda fiz alguns jogos. Com o Peseiro na segunda época é que já não.

O Peseiro muito diferente do Fernando Santos?
Sim. Pessoalmente, e não é por ter jogado mais com ele, gostei mais da maneira de ser e da frontalidade do Fernando Santos, do que do Peseiro. Mas isto são opiniões.

Nessas duas épocas no Sporting o que mais o marcou?
A inauguração do novo estádio em que eu participei, e o estar num clube grande. Foi pena as coisas não terem corrido como eu esperava. Mas a vida é mesmo assim, como costumo dizer, a vida continua e não temos de nos lamentar. Foi o que foi e segui a minha vida.

Ao fim de dois anos é emprestado ao Vitória de Guimarães. É emprestado porque pede ou é o Sporting que decide?
Decidimos em conjunto. Eu não tinha jogado praticamente nada com o Peseiro, já nesse ano queria ter sido emprestado, mas depois por isto ou por aquilo acabei por não ser, acabei por ficar lá e depois, claro, tinha de sair. Precisava de jogar e só estar ali já não dava para mim. Depois apareceu o Vitória de Guimarães, um grande clube e eu nem hesitei.

Foi viver para Guimarães?
Não, fui viver para Lordelo. Entretanto já tínhamos feito a casa e já estava a viver com os meus pais e a minha namorada, já não vivíamos com os meus avós.

Não tinha casado ainda?
Não, casei mais tarde em 2008, mas entretanto tivemos um filho, o Sérgio Miguel, que agora já tem 14 anos. Nasceu a 10 de maio e 2006, no ano em que vou para Guimarães.

Quando chega ao Guimarães quem lá está é o Jaime Pacheco.
Sim, que depois é substituído pelo Vítor Pontes, em dezembro, salvo erro.

Muito diferentes um do outro?
Sim, sim. O Jaime Pacheco tem aquele estilo do Fernando Santos, e do Mota, muito frontal, muito humano. O Vítor Pontes já tinha outro estilo.

Essa época não correu muito bem, o Vitória de Guimarães desceu, não foi?
Sim. Tínhamos uma excelente equipa e foi pena porque um clube como aquele descer de divisão é muito mau, aquele povo não merecia, bem pelo contrário. Foi uma mágoa que me ficou ter descido pelo Vitória de Guimarães, porque nem nós jogadores, nem aquele povo mereciam.

Mário jogou na Naval duas épocas antes de partir para a Ucrânia

Mário jogou na Naval duas épocas antes de partir para a Ucrânia

CityFiles

Entretanto acaba o contrato com o Sporting?
Eu tinha mais um ano, mas entretanto rescindi com o Sporting.

Porquê?
Estava na hora, chegámos a acordo. Eu tinha que ir fazer a minha vida e estar ali mais um ano ligado ao Sporting... Assim não tinha que estar à espera que o clube decida isto ou aquilo. Quisemos rescindir, ambas as partes, chegámos a acordo e pronto, eu segui a minha vida.

E muda-se para a Figueira da Foz?
Exatamente.

Também com os seus pais ou só com a sua namorada?
Aí já só com a minha mulher e o meu filho. Mas todas as semanas vinha a casa.

Dessas duas épocas na Naval o que é que tem para realçar de mais importante?
A passagem pela Naval foi muito importante para mim. Foi dar um passo atrás para depois dar dois à frente. E foi muito importante porque eu precisava de ter aquela consistência de jogar sempre e de sentir-me bem. Fiz duas épocas muito boas. Foi uma decisão que, olhando para trás, foi muito positiva, muito correta.

Entretanto surge o Metalurg Donetsk da Ucrânia. Como é que isso acontece, tinha empresário?
Surgiu através do Ricardo Fernandes. Quando fui para o Sporting estive lá uma semana com ele, depois ele foi para o FC Porto. A gente nem tinha relação nem nada. E um dia encontrei-o e passado dois dias ele pediu o número de telefone a um rapaz jogava comigo e ligou-me. Ele na altura já estava na Ucrânia e ligou-me a dizer que o treinador precisava de um lateral-direito, que falou com ele para ver se conhecia alguém e ele lembrou-se de mim e ligou-me. Foi assim.

Quando ele lhe ligou qual foi o seu primeiro pensamento quando ele referiu a Ucrânia?
Não foi muito positivo.

Mas era uma coisa em que já tinha pensado, em sair do país?
Sim. Quando estava na Naval já tinha tido situações para a Suíça e Roménia, mas não quis ir. Na altura não era o que eu queria. Quando surge a hipótese da Ucrânia, eu tinha o Partizan de Belgrado, até chegou com a proposta e tudo, mas entretanto o Ricardo ligou-me e depois de estar dois, três dias a analisar decidi ir para Ucrânia.

Vai sozinho ou com a família?
Fui sozinho. A minha esposa ia lá ter comigo, com o meu filho de vez em quando. O meu filho estava aqui na escolinha, o Ricardo Fernandes também estava lá sozinho e decidimos assim.

Mário com o filho mais velho, Sérgio.

Mário com o filho mais velho, Sérgio.

D.R.

Foi um choque quando chegou à Ucrânia?
Foi um bocadinho, eles são um povo mais frio. Só não senti mais porque tinha o Ricardo lá e ele já sabia como é que aquilo funcionava, as pessoas gostavam dele, aceitaram bem a minha maneira de ser e começaram a gostar de mim. Por isso não foi muito difícil, para ser sincero. Mas é evidente que a cultura é diferente.

A que é que lhe custou mais habituar?
À língua. Tinha lá o tradutor, mas eu nem inglês falava. Era ouvi-los falar e tu sem perceber nada. O Ricardo ia-me traduzindo isto e aquilo até que comecei a aprender o inglês e algumas coisas em ucraniano também. Com a convivência vais aprendendo.

Esteve lá quatro épocas. Houve algum treinador que o tivesse marcado mais?
Sim, tive poucos treinadores lá, mas tive um que era búlgaro, o Kostov, que me marcou. Eu achava e continuo a achar que ele percebia muito de futebol. Tinha aquele feitio um bocadinho... aquele espírito de leste, mas depois a gente já sabia como lidar com ele. A nível táctico e nos treinos surpreendeu-me pela positiva, ele percebia muito de futebol.

Adaptou-se bem aquele tipo e futebol e a jogar na neve?
Sim. Quando fui tinha as minhas ambições, sabia para o que é que ia e fiz pela vida. E quando a gente está com vontade e as coisas a correrem bem, tudo se torna mais fácil. É evidente que jogar debaixo de neve, com frio, não é fácil, mas não tive grandes problemas com isso, adaptei-me bem.

Do que é que mais gostou na Ucrânia?
No geral gostei de lá estar. O clube tinha grandes condições. Eles tiveram o Europeu, começaram a arranjar as estradas, os prédios... Porque o impacto quando chegas lá é um bocadinho negativo. Quando cheguei ao aeroporto, ia buscar as malas... Se estivesse à espera no tapete rolante, se calhar hoje ainda lá estava [risos]

Então?
Não tinha. Nós passávamos a casa dos passaportes, virávamos à esquerda, lembro-me bem, e estavam as malas em cima de uma carrinha de caixa aberta, e nós tínhamos que andar à procura das nossas malas [risos]. Não estava habituado àquilo. Tanto que eles depois fizeram um aeroporto novo para o Europeu. Depois, com a guerra, destruíram aquilo tudo.

Com a filha, Núria

Com a filha, Núria

D.R.

E histórias da Ucrânia, deve ter muitas para contar.
Tenho várias, sobretudo com a polícia. Num aniversário do China o lateral esquerdo que jogava comigo, ele convidou-nos para jantar em casa dele. Na altura até estava a minha família lá. Fomos e bebes uma cervejinha o que é normal, estás ali à vontade, no outro dia até nem tínhamos treino. E quando saio aparece-me a policia. E na Ucrânia não há limite, ou seja, é zero de taxa de álcool, não permitem mesmo. Eu vinha a conduzir e disse à minha mulher: “Vão-nos mandar parar”. E assim foi, porque eles conheciam os carros dos jogadores, eram carros Skoda que o clube dava e eles sabiam bem. Eles andam sempre atrás de dinheiro, porque se és agarrado, dás um xis e eles deixam-te ir à tua vida. Mandaram-me parar e pensei: vão mandar-me soprar para a cara deles, porque era sempre o primeiro teste que faziam. Eles perguntam se eu tinha bebido, eu disse que não, fui ao bolso e paguei-lhes 200 grivnas que são uns 20€ . Eu estava com a família, eles viram, dei-lhes o dinheiro e deixaram-me seguir. Mas eu disse à minha mulher, passa tu aqui para o volante porque eles vão-nos mandar parar mais à frente.

E aconteceu?
Dito e feito. Nem uns 100m à frente já estava outro carro da polícia a mandar-nos parar [risos]. Nós já sabíamos as manhas deles. Aquilo era para irem levando dinheiro. Mas na segunda paragem, lixaram-se. Comecei a discutir com eles porque claro era a minha mulher que ia ao volante. Tratei-os mal na minha língua e dizia-lhes “Mas quereis dinheiro? Ides trabalhar que eu também trabalho” e o carago, e mandei-os dar uma volta [risos]. Eles, por exemplo... eu ia a um restaurante, e se eles passassem e vissem o meu carro estacionado ou de outros colegas eles punham-se mais a frente à nossa espera. Eu sabia que se fosse a um restaurante não podia beber, porque senão ia ter de lhes pagar para não ter problemas. Tenho outra história com a polícia.

Força.
Há uma altura em que três ou quatro de nós, estrangeiros, íamos muitas vezes jantar ao hotel e ficávamos lá no bar. Eles viam os nossos carros e punham-se à nossa espera. E um dia, saímos e embirrámos que não íamos dar-lhes dinheiro. Assim que nos mandam parar, saímos dos carros e começámos a mandar vir com eles, alto e grosso. Eles pegaram em nós e levaram-nos para um prédio todo sujo, de madrugada. E nós: “Vamos, vamos não há problema”. Estivemos para aí duas horas a discutir com eles, a dizer que não dávamos dinheiro. Até que há uma altura em que, eu usava um colar que tinha uns brilhantes, aquilo chamou a atenção de um dos “artistas” e ele vira-se e começa a apontar para o colar e a falar em ucraniano, só que na altura eu já percebia umas coisas. E ele “é bonito”; “é bonito?” comecei logo a tratá-lo mal, em português: “Queres, queres? Vai trabalhar meu?” e a mandá-lo para todo o lado [risos].

E como é que acabou?
Tivemos de chegar a acordo com ele. Eles pediam 300 e nos demos 200 [risos]. Isto depois de umas duas horas de conversa.

Depois de quatro época na Ucrânia, Mário foi para o Apoel do Chipre

Depois de quatro época na Ucrânia, Mário foi para o Apoel do Chipre

MARTIN BUREAU

Entretanto muda-se para um país completamente diferente, o Chipre.
Exatamente. Foi mais uma vez o empresário do Ricardo Fernandes: o Apoel precisava de um lateral direito. Ele falou com o Ricardo, eu acabava o contrato na Ucrânia, surgiu a proposta para ir para lá. Lembrei-me de outra história ainda na Ucrânia.

Conte.
Esta aconteceu uma vez que o Sporting ia lá jogar para as competições europeias. Eu tinha um amigo jornalista que foi lá fazer o jogo e ele combinou comigo fazer uma reportagem. Eles foram dois dias antes. Fui ter com eles depois de um treino à tarde para combinar fazer a entrevista no outro dia de manhã. Mas o que é certo é que estávamos ali todos no bar do hotel que estava aberto toda a noite. O pessoal empolgou, começámos ali a beber uma cerveja, quando demos fé já estava tudo bem disposto [risos]. Eu e o Ricardo Fernandes já saímos de lá de manhã, eram umas sete. Eles foram dormir e nós também. Mas fomos para casa dormir à pressa porque tínhamos combinado a entrevista às 10h com eles. Ou seja, chegámos a casa, fechámos os olhos dois minutos, tomámos um banho e voltámos ao hotel. Chegamos às 9 horas e não estava lá ninguém [risos]. Lá liguei para o meu amigo jornalista, que desceu pouco depois, mas faltava o cameraman. Ligamos, nada. Ligamos para o quarto, nada. Fomos bater à porta do quarto, batíamos, batíamos, nada. Até que às tantas ele vem abrir a porta e ele: “Oi, ainda agora estávamos todos aqui e já estamos outra vez todos juntos. Eles vieram”. [risos]

O primeiro impacto no Chipre foi diferente da Ucrânia?
Sim, foi muito positivo. Cheguei lá em junho, um calor brutal, mas depois aquilo é um paraíso.

A família ficou cá também?
Sim, porque já tinha os dois filhos, já tinha nascido a minha filha, a Núria, em 2010. E como estavam aqui na escola e eu tinha assinado por dois anos, não sabia como é que ia correr, aquelas coisas. Depois acabei por ficar lá cinco anos. Mas decidimos assim e andávamos lá e cá. Sempre que eles podiam iam lá, sempre que eu podia vinha cá.

Chegou e foi logo campeão, certo?
Exactamente. Foi uma alegria enorme. Eu também já fui para lá com esse objetivo porque era um clube que jogava a Liga dos Campeões, e Liga Europa. Daí estar lá cinco anos, quatro e meio no Apoel e depois meio ano no Apollon.

Quando chega há mais jogadores portugueses, Hélio Pinto, Nuno Morais e Hélder Sousa. Passavam muito tempo juntos?
Sim, na altura eu até passava mais tempo com o Hélder Sousa porque ele também lá estava sozinho.

O que faziam nos tempos livres?
Normalmente íamos à praia ou estávamos por casa, porque com aquele calor também não se pode andar muito na rua [risos].

E saídas à noite costumavam fazer?
Dificilmente. Uma ou outra vez a seguir a um jogo ou assim, íamos a um barzito, mas nada de especial.

Em Portugal costumava sair à noite ou era mais de ficar por casa?
De vez em quando saía, há tempo para tudo e às vezes dá para a gente dar uma fugida. Confesso que houve uma altura em que me estiquei um bocadinho. Nunca tive grandes problemas, mas não era bom como é evidente. A gente tem que ter consciência de aquilo não é o melhor e a fase não foi muito longa.

Mário esteve cinco anos no Chipre e foi pentacampeão

Mário esteve cinco anos no Chipre e foi pentacampeão

Mike Egerton - EMPICS

No Chipre e do Apoel o que é que o marcou mais?
Quando fui para lá tinha o sonho de não deixar o futebol sem jogar a Liga dos Campeões. Se deixasse de jogar futebol sem nunca ter jogado era uma mágoa com que ficava, daí eu também ter ido para lá, porque sabia que podia ter oportunidade de jogar na Liga dos Campeões. E aconteceu. O Apoel marcou-me muito porque eu ganhei tudo o que tinha a ganhar ali.

O Chipre acaba por ficar marcado por causa das apostas. Apercebeu-se disso?
Apercebi-me, havia portugueses a jogar noutros clubes que me contavam histórias. Eu nunca passei por isso.

Nunca foi aliciado?
Não. Num clube grande como o Apoel era difícil. Agora em clubes pequenos, às vezes ouvia o pessoal a falar disto e daquilo, mas nunca tive prova, porque eu também não ligava, não queria saber.

Não tem nenhuma história do Chipre que possa contar?
Uma vez, íamos fazer um jogo e o treinador chamou os quatro defesas. Era eu, dois brasileiros e um norueguês. O treinador falava inglês e eu tinha de traduzir para os dois brasileiros porque eles ainda entendiam e falavam pior do que eu. O treinador explicou lá umas coisas e chega a uma certa altura em que já tínhamos percebido tudo e o outro defesa esquerdo, o norueguês, começa a perguntar ao treinador uma coisa que ele tinha acabado de explicar. E insistiu em perguntar uma coisa que o treinador já tinha explicado 20 vezes e que já tínhamos percebido. Às tantas já estávamos “cegos” e eu a fazer a tradução para os brasileiros, às tantas já não estava a dizer nada do que o treinador dizia, já só comentava, “este gajo já me está a meter um nojo” [risos.] Está só a puxar o saco do homem. Só que ia dizendo aquilo e asneiras e o carago, mas com ar de quem estava a explicar, apontava para o quadro e tudo. E os brasileiros cheios de vontade de rir e eu só dizia: “Vocês não me lixem, não se riam senão o gajo percebe que eu não estou a traduzir, que estou na tanga e vai dar barraca” [risos]. Isto tudo a falar alto, eu só a rasgar o outro [risos]. Vá lá, eles aguentaram-se, mas foi uma comédia.

Porque é que depois de três épocas e meia se muda para o Apollon?
Porque entretanto o Apoel tinha outro lateral direito e eles queriam ir buscar um jogador. Tinham de abrir uma vaga de estrangeiros e, sobrou para mim. Mas eu nessa fase também já não estava a jogar como tinha vindo a jogar nos outros anos. Eles falaram comigo, chegamos a acordo e tudo bem, siga.

Foi para o Apollon mas esteve lá pouco tempo.
Meio ano.

Porquê só meio ano?
Porque em dezembro, quando tinha rescindido com o Apoel, já tinha dito à família que estava com ideias de vir para cá, que queria vir para Portugal. Ia fazer 36 anos, estava na hora. Mas surgiu o Apollon, eles queriam-me muito e eu disse que ficava meio ano e depois ia embora. Já tinha isso na cabeça e foi assim.

Mário regressou a Portugal em 2017 para jogar no Varzim

Mário regressou a Portugal em 2017 para jogar no Varzim

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Pensava que quando cá chegasse ainda havia clubes da I liga interessados em si?
Sim, pensava que pudesse acontecer. Tinha 36 anos, mas ainda me sentia bem.

E apareceu algum?
Eu estava decidido a vir para Portugal e já não me importava, tinha que me sujeitar àquilo que aparecesse, porque quando vim, não tinha nada em carteira, falou-se de uma ou outra situação, mas nada em concreto e apareceu o Varzim. Eu também queria ficar perto de casa.

Não ficou desiludido por ser II liga?
Não fiquei desiludido, embora a gente fica sempre a achar que se calhar ainda podia jogar na I liga. Mas sempre fui assim, não me lamento. Agora é evidente se me perguntar, mas acha que ainda podia jogar na I liga quando vim para cá? Eu digo claramente que sim, sem dúvida. Mas pronto não surgiu e fui para o Varzim e sinceramente não me arrependo.

No Varzim qual foi o treinador que mais o marcou?
Tenho dois, o Fernando Valente e o Capucho.

Assinou por dois anos com o Varzim. Depois rumou ao FC Felgueiras. Notou muita diferença da II liga para o Campeonato de Portugal?
Nota-se, como é evidente. Tenho que ter consciência que vou fazer 39 anos e jogo porque ainda tenho prazer, ainda me sinto bem. Quando não me sentir bem vou ser o primeiro a dizer: "já não posso mais, não vou andar aqui a enganar ninguém, muito menos a enganar-me a mim próprio". Mas a gente tem que ver que por muito que te sintas bem, o bilhete de identidade já começa a falar por ti.

E para a próxima época já tem clube?
Em princípio é para ficar em Felgueiras.

Portanto ainda não pensa em deixar de jogar.
Sinceramente, não [risos]. Até brinco com isso e digo, eh pá vem o vírus a querer acabar com a minha carreira, mas acho que não vai conseguir.

Já pensou no que vai fazer depois de pendurar as chuteiras?
A gente vai pensando, vai-se investindo numa ou outra situação.

Onde é que tem investindo?
Em casas, tenho casas alugadas, e a minha esposa mais a minha cunhada têm uma loja de roupa de criança até aos 16 anos.

Os seus pais ainda têm o café?
Não, os meus pais há uns anos, como o meu irmão foi para França, eles foram com ele e ainda lá estão. O meu irmão tem lá um negócio dele e os meus pais estão com ele. Portanto a loja está fechada, mas se calhar vamos fazer ali qualquer coisa.

Quer ficar ligado ao futebol ou vai fazer uma coisa completamente diferente?
Eu se calhar vou ter saudades, não é? Ia gostar de ficar ligado ao futebol, mas se não der também não vai morrer ninguém.

Com os pais, a mulher e filhos

Com os pais, a mulher e filhos

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Ucrânia.

Qual foi a maior extravagância que fez na sua vida?
Se calhar... talvez os carros.

Qual foi o carro mais caro ou melhor que comprou?
Talvez o Porsche Cayman. Ainda o tenho.

É crente?
Acredito em Deus, sim. Não sou muito de ir à igreja, mas sou crente e agradeço tudo o que tenho e por tudo que tenho vivido até agora. É evidente que fiz por isso, mas tenho de agradecer e agradeço.

Tem ou teve superstições?
Não tenho superstições, mas no dia do jogo, não fujo muito àquela rotina. No dia do jogo gosto de fazer sempre as mesmas coisas.

Que género de coisas?
Sei lá, antes de ir para o jogo, benzo-me três vezes, equipo-me, saio de casa e benzo-me, isso faço sempre. É uma rotina que criei, não digo que seja aquela superstição, é uma rotina.

Tem ou teve alguma alcunha?
Quando comecei no Paços, tinha 16 anos e fui treinar aos seniores, eram treinadores o Jesus que já faleceu e o Zé Gomes, que é treinador do Marítimo, e na altura chamavam-me Ribeirinho. Não sei porquê, mas chamavam-me Ribeirinho.

Achavam-no parecido com o ator Francisco Ribeiro, mais conhecido por Ribeirinho, que entrou em muitos filmes dos anos 40, como O Pai Tirano, por exemplo?
Não faço ideia. Eu era miudinho, com 16 aninhos [risos], nunca mais me esqueci do Ribeirinho.

Tem tatuagens?
Tenho.

Quando é que fez a primeira e o que é?
Foi no Chipre que fiz as minhas tatuagens, são os nomes dos meus filhos, tenho uma de homenagem ao meu avô que faleceu na altura. Tenho dos dois braços cheios.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração no futebol, na carreira?
A maior alegria é quando ganhas títulos, porque tu andas no futebol para ganhar títulos e fui pentacampeão no Chipre, ganhei três taças... E foi o representar a seleção em Jogos Olímpicos.

Quando foi chamado pela primeira vez à seleção?
Foi nos sub-20 e estava no Paços de Ferreira. Isso é uma alegria, representar o teu país, em Europeus, jogos olímpicos. Participei no Euro-2003, salvo erro, de sub-21 e depois nos Jogos Olímpicos de 2004 em Atenas. A outra alegria foi a participação na Liga dos Campeões. A maior frustração, se calhar nunca ter jogado uma final da Taça de Portugal.

Mário Sérgio guarda a revista onde aparece numa foto de seleção. Esteve presente nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004

Mário Sérgio guarda a revista onde aparece numa foto de seleção. Esteve presente nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004

D.R.

O facto de não ter conseguido vingar num clube grande não lhe deixa nenhuma mágoa?
Não, é como disse anteriormente, as coisas não correram bem num clube grande aqui em Portugal, mas eu depois representei o APOEL, um clube grande no Chipre, em que os adeptos fazem uma pressão muito grande. É evidente que tive pena por as coisas não terem corrido bem num clube como o Sporting, mas é a vida.

As coisas não correram bem porquê? Porque havia outros jogadores com mais qualidade na sua posição?
É futebol, é futebol...Se calhar quando fui para o Sporting talvez não estivesse preparado, talvez não estivesse preparado.

Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
Não tenho nada de especial. Normalmente fico com os miúdos em casa, temos matraquilhos, ping pong, mesa de bilhar e snooker, divirto-me ali um bocadinho com eles e depois gosto de jogar umas cartinhas.

O que é que gosta de jogar?
Às copas, mas qualquer jogo de cartas eu jogo. Desde que me passem umas cartas para a mão.

Há algum outro desporto que goste de seguir?
Gosto muito de ver ténis e se calhar um dia até vou aprender a jogar, porque acho que vou gostar de jogar.

Tem algum jogador preferido?
O Federer, é o melhor deles todos.

Para terminar, não se lembra de mais nenhum episódio que tenha vivido no futebol e que o tenha marcado?
Quando jogava num clube em Portugal, não estava a jogar muito e íamos jogar para as competições europeias na quinta-feira e o treinador chamou-me na terça para me perguntar como é que eu me sentia. Disse-lhe que me sentia bem e ele diz: “Então prepara-te que vais jogar domingo”. OK, tranquilo. Fui ao jogo de quinta-feira, fiquei no banco, o jogo até não correu bem. Chega-se a domingo, o jogo era à noite, e depois do treino ligeiro de manhã, antes de ir para o almoço, foi dizer a equipa que ia jogar. Mete lá na tela: “a equipa que vai jogar é esta, o lateral direito é este…” E aquilo continua e não disse o meu nome. E continuou a dizer os outros nomes, até que às tantas viro-me para o colega que estava ao meu lado e digo: “queres ver que vou jogar a avançado hoje?” [risos]. Mas não. Não joguei. Chamou-me para ter uma conversa comigo, mas já foi tarde, devia ter tido a conversa antes.