Tribuna Expresso

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A casa às costas

“O Leonardo Jardim dizia-me: 'Hoje sonhei que vais marcar'. E eu fazia golo. Fez isto três ou quatro vezes, eu marcava sempre. Era estranho”

André Martins iniciou a terceira época no Legia de Varsóvia, na Polónia, onde foi campeão, depois de dois anos na Grécia com muitas mudanças de treinador. O médio que fez toda a formação e ganhou nome no Sporting assume que foi com Jorge Jesus que aprendeu mais, embora tenha sido com quem menos jogou; conta a história do dia em que voou com o passaporte de um amigo e como foi descoberto; confessa-se um viciado na PlayStation e revela ser um amante da cozinha, que não se importa de pagar muito para comer bem

Alexandra Simões de Abreu

Carlos Rodrigues

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Nasceu em Santa Maria da Feira. Fale-nos um pouco das suas origens.
Sou natural da vila de Argoncilhe, onde vivem ainda os meus pais e tenho um irmão mais novo 11 anos. O meu pai trabalhava na corticeira Amorim e a minha mãe numa empresa de montagem de móveis. Cresci numa casa com quinta, no início vivíamos num anexo colado à casa de uma tia e mais tarde os meus pais construíram uma vivenda, onde vivemos até agora.

O que dizia que queria ser quando crescesse?
Segundo os meus pais a única que queria de presente no aniversário e no Natal eram bolas. Sempre quis ser jogador de futebol.

Torcia por que clube?
Sempre torci pelo Sporting.

Lá em casa é tudo do Sporting?
Não. É engraçado porque estamos um pouco divididos. A minha mãe nunca ligou muito ao futebol mas é mais adepta do FC Porto e o meu pai sempre torceu um bocadinho pelo Benfica.

Lembra-se porque é que começou a gostar do Sporting?
[Risos] Eles dizem que achavam estranho porque normalmente os miúdos vão sempre pelos pais e não sabiam o porquê de eu gostar do Sporting. Sinceramente também não sei, mas recordo-me que naquela altura em que comecei a perceber um bocadinho mais de futebol gostava do João Pinto, do Mário Jardel, foram jogadores que me ficaram na cabeça, talvez por isso.

Foram os seus primeiros ídolos?
Sim.

Gostava da escola?
Gostava porque tinha bons amigos, éramos um grupo unido e giro e eu gostava de ir para a escola. Agora se me perguntar se gostava muito de estudar... não muito, mas felizmente sempre cumpri porque era uma coisa a que os meus pais davam muita importância. Queriam que eu metesse muita dedicação nos estudos e eu, também por eles, sempre cumpri com os meus deveres. Mas gostava de ir para a escola porque nas horas livres podia jogar com os meus amigos, podia divertir-me.

André Martins foi para a Academia do Sporting com 12 anos

André Martins foi para a Academia do Sporting com 12 anos

D.R.

Quando vai jogar pela primeira vez para um clube?
O primeiro clube onde joguei foi o Argoncilhe, o clube da minha vila. Se não estou em erro comecei com seis anos.

Foi o André que pediu aos seus pais para ir para lá?
O meu pai percebeu desde cedo a minha vontade e a paixão que eu tinha pelo futebol, e como também não tinham possibilidades de me levar a outro lado, porque trabalhavam os dois e tinham uma vida muito atarefada, levaram-me ao clube da terra. Os meus amigos da escola, grande parte deles, jogavam lá, uma coisa juntou-se à outra. Foram três anos de escolinha que tive lá.

Depois vai para o Feirense.
Exatamente. Joguei num torneio pelo Argoncilhe, em que o Feirense também estava incluído, eles abordaram o meu pai, o meu pai abordou-me a mim e eu disse que sim, era um passo em frente. Tinha nove, dez anos. Fiquei lá até aos 12.

Nessa altura a sua posição em campo já estava definida?
Não, porque na Associação de Futebol de Aveiro jogávamos futebol de sete em escolinhas e infantis. E eu jogava um bocadinho mais adiantado, mais à frente, marcava muitos golos, mas não tinha a minha posição muito bem definida. Só depois quando vou para o Sporting é que as coisas mudaram um bocadinho.

E como é que vai parar ao Sporting?
O meu pai conta-me que eles já andavam a ver-me há alguns jogos, tinham pessoas espalhadas pelo país. Depois o major Santos, que estava ligado à Associação de Futebol de Aveiro e que me vinha a acompanhar, abordou o meu pai. Perguntou se o meu pai estava disposto a levar-me a Alcochete para fazer uns testes, mas o meu pai nessa altura não me disse nada. Há um torneio mais tarde em Espinho em que participou o Sporting e o FC Porto e eu fui considerado o melhor jogador do torneio. É nessa altura que abordam o meu pai mais direta e seriamente. Dizem ao meu pai que já não é necessário eu fazer testes nenhuns e que querem muito que eu vá para a Academia do Sporting. Depois do torneio temos um almoço em família e o meu pai pergunta-me se eu estava interessado em ir para o Sporting. Nem pensei duas vezes, era o clube por quem torcia, era o clube de que toda a gente falava a nível de formação, disse logo que sim.

Enquanto sénior, a Taça de Portugal foi o único troféu que André conquistou pelo Sporting, em 2014/15

Enquanto sénior, a Taça de Portugal foi o único troféu que André conquistou pelo Sporting, em 2014/15

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Como é que foi sair do "ninho" e ir viver para a Academia com 12 anos?
Foi muito, muito difícil. Os primeiros quatro meses foram...

Pensou em desistir?
Pensei. Chorava praticamente todos os dias com saudades dos meus pais, do meu irmão que tinha acabado de nascer, tinha um ano e pouco, e foram sem dúvida tempos muito difíceis. Mas foi quando apareceu, eu digo que foi um anjo na minha vida, o senhor Aurélio Pereira, que nesses quatro anos foi como um pai para mim. Apoiou-me muito, já tinha a experiência provavelmente de ter vivido aquilo com outros jogadores.

O que lhe disse?
Ele pôs-me à vontade. Acho que foi uma conversa que tivemos que me fez ganhar um bocadinho mais de coragem e passar melhor o tempo. Recordo-me que ele me disse: "André, tu ficas cá até ao Natal, vais passar o Natal à tua família e depois se achares que não aguentas não precisas de vir mais, ficas com os teus pais e com o teu irmão, nós vamos continuar a seguir-te e tu vais ser nosso jogador na mesma. Continuas a jogar lá em cima e quando fores mais crescido voltas e nós vamos querer que sejas jogador do Sporting na mesma. Não te preocupes."

E o André?
Pronto, lá está, foi a experiência dele, porque ele sabia que com o passar do tempo eu iria acabar por me adaptar às pessoas com quem estava, à minha equipa, aos treinadores e foi isso que aconteceu.

Para além das saudades a que é que lhe custou mais a adaptar?
Eu era um miúdo que não saía muito da casa dos meus pais, era um miúdo muito caseiro, mesmo tendo muitos amigos na vila, nunca fui de dormir muitas vezes fora de casa dos meus pais e eu acho que foi isso que me custou mais a adaptar. A pessoas novas, a ter de dormir num sítio novo, não estava habituado a dormir fora de casa.

Dormia numa camarata com mais colegas?
Aquilo eram quartos de quatro mas divididos, ou seja tinha uma parede a dividir os quatros, cada dois tinham a sua casa de banho, tinham o seu chuveiro.

Ficou com quem quando lá chegou?
O meu primeiro parceiro de quarto foi o Luisinho, que agora joga no Académico de Viseu.

Fizeram-lhe muitas partidas?
Acho que é normal, também nos ajuda a adaptar e sim, como nós dizemos, fui praxado.

O que lhe fizeram?
Quando eu estava a dormir entravam no quarto sem fazer barulho e metiam-me pasta dos dentes na cabeça para eu ter que ir tomar banho ou acordavam-me e assustavam-me. Diziam que já estava na hora de ir para a escola, que tinha de me vestir e eu levantava-me a pensar que estava atrasado, vestia-me e depois quando ia ver as horas era de madrugada ainda. Partidas deste género, mas fiz bons amigos. A seguir ao Luisinho partilhei o quarto durante muito anos com o Diogo Viana, que está no SC Braga, e ainda hoje somos grandes amigos, criámos um bom laço de amizade.

Foram sete anos de formação. Houve algum treinador que o tivesse marcado mais nesse período?
Todos eles foram importantes, mas houve um treinador, o mister Luís Dias, e talvez não tenha sido só pelo treinador mas pelo grupo em si que foi dos que me marcou mais. Foi na minha época de juvenil, em que fomos campeões nacionais. Talvez tenha sido o que me marcou mais porque naquela altura batemos todos os recordes da fase final, éramos um grupo muito unido e tínhamos muita admiração pelo mister também, ele ajudou-nos muito como treinador, mas também era uma pessoa muito chegada a nós, sempre pronto para nos ajudar.

A adaptação à nova escola também correu bem?
Sim, isso correu bem porque na minha turma éramos uns sete ou oito jogadores do Sporting, com quem já estava habituado a lidar na Academia.

Quando começam os primeiros namoros e as primeiras saídas à noite?
Na escola não era bem namorar, mas engraçava sempre com alguém e também precisávamos de passar tempo com pessoas com quem não estivéssemos a toda a hora e todos os dias. Saídas à noite sempre foi uma coisa muito mais difícil porque vivíamos na Academia, tínhamos jogos todos os fins de semana e durante quase toda a minha formação jogava ao domingo, ou seja, nunca tinha nenhum dia da semana em que pudesse sair. Depois quando passo a júnior, ai já jogávamos ao sábado, e uma vez ou outra dormia em casa de algum amigo meu que não vivesse na Academia. A minha primeira saída à noite foi com 17, 18 anos.

Lembra-se onde foi?
Se não estou em erro, e nem sei se aquilo está aberto agora, mas acho que se chamava Lust, em Santos. Foi com malta que estava no Sporting mas que não dormia na Academia.

Carlos Rodrigues

Depois da sua última época de juniores é emprestado ao Real Massamá.
Exato. O Sporting faz um protocolo com o Real Massamá e eu vou para lá.

Não ficou desiludido por não ser chamado à equipa principal?
Sinceramente não e explico porquê: todos os que continuaram a ter contrato com o Sporting e que acabavam a época de júnior foram emprestados a essa equipa e eu olhei para isso como uma oportunidade para ter minutos a um nível superior ao que tinha vindo a jogar. Eram jogadores já mais experientes, mais velhos, que podiam ensinar outras coisas e a verdade é que aprendi muito e cresci muito nesse ano no Real Massamá porque vivi coisas e experienciei coisas a que não estava habituado.

Que género de coisas?
Dou um exemplo, nunca me vou esquecer do capitão desse grupo, o Miguel Gonçalves. Era uma equipa semi-profissional, digamos assim, nós treinávamos todos os dias às seis e meia da tarde e o Miguel Gonçalves chegava todos os dias do trabalho ao balneário às seis e vinte cinco. Ele trabalhava na altura na DHL, equipava-se em cinco minutos e treinava como ninguém, esforçava-se como ninguém, trabalhava como ninguém, muito profissional. Uma pessoa que trabalhava o dia todo e chegava ali a cinco minutos da hora do treino e era dos melhores... Eu olhava para aquilo como um exemplo e pensava para mim, se ele consegue trabalhar o dia todo e chegar aqui e ter este tipo de rendimento eu tenho de ter pelo menos o mesmo rendimento que ele, tentar ajudá-lo ao máximo porque ele está a fazer isto também por nós. Aprendi com esse tipo de pessoas e comportamento.

Jogou com o Fábio Paim?
Sim. O Fábio foi sem dúvida o melhor jogador que vi jogar na formação do Sporting. Mas naquela altura já era um Fábio diferente, que estava outra vez a tentar ser o Fábio Paim que todos conhecíamos. Mas é ele próprio a admitir que fora de campo talvez não tivesse a vida correta. Depois há ali uma fase em que na verdade ele estava a tentar entrar nos eixos e estava a ter oportunidade na equipa, o mister Filipe Ramos estava a dar-lhe oportunidades e é quando ele se lesiona. Tem uma lesão grande num músculo e, pronto, voltou outra vez a ir tudo por água abaixo, foi outra vez tudo muito complicado para ele.

Entretanto na época seguinte é chamado à equipa principal do Sporting?
Na época seguinte faço a pré-época com a equipa principal, é o mister Paulo Sérgio o treinador do Sporting, cheguei a ser apresentado em Alvalade na apresentação aos sócios mas antes do jogo ele já me tinha dito que eu ia ser apresentado mas o melhor era ser emprestado porque ia ter pouco espaço e depois de ter vindo de uma época em que tinha jogado muito precisava continuar a jogar para continuar a crescer. Ou seja, eu fui apresentado mas já sabia que ia ser emprestado.

André foi aos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016

André foi aos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016

Quinn Rooney

Como foi chegar pela primeira vez ao balneário da equipa principal do Sporting?
Eu não quero ser injusto para os miúdos que hoje em dia chegam às equipas principais, mas era totalmente diferente na minha altura, nós ficávamos petrificados, ninguém falava. Eu via-os na televisão, eles eram os meus ídolos e eu tinha a oportunidade de estar ali no meio deles, de treinar com eles e de aprender. É um bocadinho diferente de hoje em dia. Hoje em dia chegam ao balneário e já falam mais [risos].

Houve algum jogador que tenha sido mais simpático consigo, que tenha percebido que estava nervoso?
As primeiras vezes que fui chamado para treinar com o plantel principal ainda era júnior, o treinador era o mister Paulo Bento, e tive a sorte de apanhar Miguel Veloso, João Moutinho, Nani, Pereirinha, Carriço, Rui Patrício... Todos eles foram espetaculares para mim e acolheram-me muito bem porque também tinham passado por onde eu estava. Mas eram todos muito simpáticos.

Que tal o Paulo Sérgio, gostou dele?
Sim. Sempre me motivou muito. Lembro-me de termos algumas conversas e dele dizer que apreciava muito as minhas qualidades e de facto foi sincero e foi honesto comigo, porque talvez se eu ficasse no plantel principal do Sporting naquele ano não ia ter sequer minutos de jogo, ia só andar ali a treinar. Ele foi sincero, foi honesto e eu aprecio muito isso num treinador.

É o Sporting que lhe fala no Belenenses?
Sim.

Agradou-lhe a ideia?
Agradou. Ia continuar em Lisboa perto das pessoas com quem lidava diariamente.

Nessa altura ainda vivia na Academia?
Não. Assim que fui emprestado ao Real Massamá saí da Academia e fui viver sozinho para Belas. Depois no Belenenses vivia em Belém, sozinho também.

Como foi a adaptação à vida de solteiro?
Foi complicado mas não tanto como eu estava à espera. Acho que me habituei muito facilmente porque sempre gostei de ter o meu espaço, gosto de ter o meu tempo sozinho. Mas tinha muitos amigos a viver em Lisboa, nem sempre estava sozinho em casa.

Desenrasca-se na cozinha ou ia sempre comer fora?
Nos primeiros tempos ou comia fora ou comia no clube, depois comecei a ganhar gosto pela cozinha, não só pela cozinha, mas no fundo saber o que é que estou a comer e então comecei a aventurar-me. O meu pai é um cozinheiro muito bom, lembro-me de ele me dizer que antes de casar com a minha mãe não sabia nem fazer um bife. Só depois de casar é que começou a apanhar este gosto e hoje em dia é um cozinheiro espectacular e eu fui ganhando gosto pela cozinha. Hoje em dia gosto muito de cozinhar, prefiro mil vezes saber o que é que estou a comer do que comer fora e como estou sozinho grande parte do tempo prefiro até comer em casa.

Qual o prato que é a sua especialidade?
Não tenho assim nenhuma especialidade. Gosto de fazer salmão no forno e faço também um bom arroz de feijão. Coisas caseiras que a minha mãe me foi ensinando, é mais à base disso.

André foi para o Olympiacos da Grécia, com Paulo Bento a treinador

André foi para o Olympiacos da Grécia, com Paulo Bento a treinador

D.R.

Vai para o Belenenses mas fica pouco tempo. Porquê?
Porque o mister Rui Gregório esteve lá pouco tempo, é demitido e vem o José Mota. Quando chega chamou-me e disse que tinha outros jogadores em mente, que eu não iria ter muitos minutos e como ele sabia que eu queria e precisava jogar, talvez o melhor para mim fosse tentar encontrar uma solução para jogar mais. Foi quando o Paulo Fonseca, que estava no Pinhalnovense, me ligou e disse que sabia que era uma divisão inferior, mas para ir porque podia estar a dar um passo atrás para a seguir dar dois à frente. Disse que ia ter muitos minutos de jogo, que o Sporting iria estar atento e convenceu-me. Hoje olho para trás e foi a melhor escolha que podia ter feito.

Gostou do Paulo Fonseca?
Gostei, gostei muito de trabalhar com ele. Aliás, percebi logo, não só eu como os meus colegas do Pinhalnovense, que era um treinador para palcos muito maiores do que aquele, com as ideias que tem, a forma humana como trata os jogadores. Foi devido também a esses quatro, cinco meses que trabalhei com ele e em que joguei sempre que ingresso no Sporting e fico na equipa principal.

É chamado por quem, pelo Sá Pinto ou pelo Domingos Paciência?
Pelo Domingos Paciência.

E que tal?
Para mim era o concretizar de um sonho, tinha jogado bem no Pinhalnovense, sabia que estava a ser chamado para fazer pré-época, mas não tinha a certeza se era para ficar no plantel principal. Quando ele me chama, está sentado com o Carlos Freitas, o diretor desportivo na altura, e também foi honesto comigo: "Sabes que temos um plantel forte, temos jogadores para a tua posição muito fortes, mas queremos ficar contigo porque queremos que cresças aqui com eles, vais ter as tuas oportunidades, não te preocupes. Tens de continuar a trabalhar como tens feito até aqui porque foi isso que nos agradou. O que vimos em ti, queremos continuar a ver." Foi o concretizar de um sonho. Também tinha bons colegas, um dos melhores amigos que tenho é dessa altura, o João Pereira. Uma pessoa que me apoiou e ajudou muito. E tinha o Carriço e Rui Patrício lá comigo, o que foi bom para a minha adaptação ao plantel principal.

O Domingos Paciência ainda fica algum tempo…
Ele só é demitido depois de termos perdido um jogo na Madeira com o Marítimo, ou seja, nós somos apurados para a final da Taça contra o Nacional e passados três ou quatro dias perdemos o jogo contra o Marítimo e quando chegámos a Lisboa ele é demitido e é quando o Sá Pinto pega na equipa.

Como é que foi a mudança? Há uma diferença muito grande entre o Sá Pinto e o Domingos?
São treinadores diferentes, com ideias diferentes, mas até não foi uma mudança assim tão grande porque ambos queriam que jogássemos sempre para ganhar e lidaram com a equipa da maneira mais correta.

O Sá Pinto mais impetuoso na forma de falar com a equipa?
É mais apaixonante. A paixão que ele tem pelo jogo… Ele também era assim como jogador. O Sá Pinto como jogador tinha muita garra, deixava sempre tudo em campo e como treinador é exatamente igual. Fala sempre com muita paixão do jogo, quer que a equipa esteja com muita raça e dedicação. O Domingos Paciência tinha uma forma de mostrar diferente, mas com ele fizemos uma série de 11 jogos seguidos a ganhar, se não estou em erro, e foi um treinador que ajudou muito o Sporting.

Mas disse que tinham ideias diferentes, consegue explicar, dar um exemplo?
Por exemplo, com o Domingos Paciência éramos uma equipa que pressionava mais à frente, com o Sá Pinto já éramos uma equipa que jogava em bloco também, mas se eram jogos de Liga Europa contra equipas que tinham jogadores fortes na frente e na fase de construção, então mudava-se um bocadinho a forma de pressionar, jogávamos mais em bloco médio.

Foi uma desilusão muito grande não terem chegado à final da Liga Europa esse ano?
Foi, porque no conjunto das duas eliminatórias fomos melhores que o Atlético de Bilbau e eu acho que foi aquele golo em cima do intervalo, um golo que até vem de uma falta que o árbitro não marca, que que nos eliminou. Fica aquele sentimento de...

Agridoce?
Exatamente. De achar que foi uma caminhada muito boa e tenho grandes recordações dessa Liga Europa, mas lá está, acho que merecíamos e podíamos ter chegado à final.

Na segunda época no Olympiacos André teve quatro treinadores

Na segunda época no Olympiacos André teve quatro treinadores

NurPhoto

Na época seguinte volta à equipa B. O que é que aconteceu?
Na época seguinte faço só alguns jogos. Lesionei-me num adutor e foi quando o treinador, se não estou em erro já foi o Vercauteren, me disse que era melhor fazer uns jogos na equipa B, que me iria ajudar a ganhar ritmo competitivo. Faço uns jogos na equipa B e quando volto à equipa principal para jogar o Vercauteren é demitido, o Oceano faz dois ou três jogos como treinador principal e nesses jogos fico no banco e depois entra o professor Jesualdo Ferreira.

Como foi a sua experiência com o professor Jesualdo Ferreira?
Eu costumo dizer aos meus amigos que ele é isso mesmo, professor. Ele ensina tanto que nós tínhamos mesmo de chamar-lhe professor [risos]. Porque a forma como ele explica as coisas e faz entender tão facilmente o que quer… Foi sem dúvida o melhor treinador que nos poderia ter aparecido naquela altura. Estávamos numa fase muito má, muito mal classificados. É verdade que acabámos por ficar mal classificados, ficamos em 7º, se não me engano, mas ele ainda nos conseguiu ajudar porque conseguimos subir uns lugares. A equipa começou a jogar melhor.

O trato dele com os jogadores era simpático?
A mim tratou-me como um filho. Ele assim que chegou ao plantel principal apostou em mim. Comecei a jogar com ele, era uma pessoa muito próxima de mim, que me ajudou e ensinou muito a nível técnico e táctico.

Depois chega Leonardo Jardim.
Acho que com o Leonardo fiz a minha melhor época no Sporting, pelo menos ao nível de números. Foi a época em que joguei mais. Ele apostou muito na formação, criou uma equipa praticamente nova e fizemos o campeonato que fizemos. Vínhamos de uma época muito má, em que a base da equipa teve de ser a formação porque não havia muito dinheiro e conseguimos fazer um grande campeonato, ficámos em 2º lugar. É um treinador com ideias muito boas, sério, exigente porque como dá muita liberdade aos jogadores também pede muita responsabilidade.

Houve alguma coisa marcante, tanto a nível futebolístico como pessoal, nessa época?
Sim. Durante a pré-época íamos tendo conversas e ele [Leonardo Jardim] dizia-me muitas vezes: "André, tu não gostas muito de marcar golos, pois não?" e ria-se. Eu dizia-lhe: "Não, gosto, gosto"; "Vais ver que esta época vais marcar alguns". A verdade é que todas as semanas em que ele me dizia: "Olha, eu pressenti que este fim de semana vais marcar", eu chegava ao jogo e marcava. Ele fez isto três ou quatro vezes e eu marquei sempre no fim de semana em que ele me dizia isso. Dizia-me em tom de brincadeira: "Sonhei que ias marcar". Ou: "Pressinto que este fim de semana vais marcar um golo". E a verdade é que o fazia. Lembro-me bem disto porque me marcou. Eu chegava ao fim do jogo, olhava para ele e ele ria-se para mim como se adivinhasse.

Continuava a viver sozinho?
Sim.

Na época seguinte chega Marco Silva. Nessa altura o Sporting vivia momentos muito conturbados a nível de estrutura...
Sim, não eram tempo fáceis para os treinadores também. O Marco, e já não falo como treinador mas como homem, é um homem muito simples, muito honesto, sincero, muito calmo. Sabia qual era o papel dele no Sporting. Agora, vivia-se um clima de instabilidade e não era fácil, não só para o Marco mas para nós jogadores também. Se olharmos para as outras equipas grandes em Portugal vemos que têm algum tipo de estabilidade. Ou têm o mesmo presidente durante muitos anos, ou o mesmo treinador, ou a base da equipa é quase sempre a mesma durante alguns anos. Acho que é isso que também leva ao sucesso de uma equipa.

Nessa ano ganham a Taça de Portugal. Foi o seu primeiro grande título.
Sim, foi o meu primeiro título pelo plantel principal e o primeiro grande título que tive.

André chegou ao Legia de Varsóvia em 2018

André chegou ao Legia de Varsóvia em 2018

D.R.

A entrada de Jorge Jesus veio revolucionar o Sporting ou não?
É um treinador completamente diferente de todos os que já tive. É capaz de ter sido o treinador com quem joguei menos no Sporting mas foi o treinador com quem acho que aprendi mais.

E provavelmente o treinador que mais lhe gritou aos ouvidos.
Sim [risos]. Mas é uma questão de te habituares à forma como ele lida contigo. Aquela é a forma de ele lidar e isto eu tenho a certeza, e posso dizer, é das melhores pessoas, estou a dizer fora do futebol, é das melhores pessoas que já conheci, porque é uma pessoa muito cuidadosa, é uma pessoa que se preocupa muito com os outros. Agora daquele retângulo para dentro muda completamente, mas isso porque vive muito intensamente o jogo e vai muito ao detalhe. Ele procura muito a perfeição e é por isso também que te grita muito, porque quer atingir quase a perfeição, seja em movimentos tácticos ou técnicos, o que quer que seja.

Ele falou alguma vez consigo pelo facto de jogar menos, deu-lhe alguma explicação?
Sim, chegámos a falar. Ou melhor, ele ia falando comigo durante a temporada. Dizia-me, e eu compreendia perfeitamente, que tinha um William em grande forma, um Adrien em grande forma, o João Mário, jogadores que estavam em grande forma e a mim cabia-me esperar e, se não fosse no Sporting, arranjar outra solução. A conversa mais longa foi já no final da época, em que ele me disse que apreciava muito as minhas qualidades, que eu era um miúdo muito inteligente e muito humilde, que sempre trabalhei no máximo, mas teve outras opções, outra ideias. O meu contrato acabava nesse ano e ele disse-me que se eu quisesse e arranjasse alguma coisa boa para mim que achava bem, mas que se não arranjasse e quisesse ficar no plantel do Sporting, ele gostava de ficar comigo. Apareceram-me outras coisas e eu decidi que também era altura de sair de Portugal.

Antes de falarmos da Grécia, o ter ficado a um ponto do rival Benfica foi muito frustrante?
Sim, muito. Muito frustrante porque nós sentíamos e eu acho que merecíamos nesse ano ter sido campeões. Pela época que fizemos, fomos melhores do que todas as equipas em Portugal e foi só por um detalhe ou outro que acabámos por perder o campeonato e de facto fica esse sentimento frustrante.

Num salto acrobático, pelo Legia

Num salto acrobático, pelo Legia

PressFocus/MB Media

Como surge o Olympiacos, tinha empresário?
Estava com o Carlos Gonçalves da Proeleven. Antes de surgir o Olympiacos iam aparecendo outras coisas que não me agradavam, o Carlos também achava que não era a melhor opção e surge a possibilidade de eu ir aos Jogos Olímpicos [JO] do Rio, em 2016. O mister Rui Jorge liga-me a dizer que há muitos jogadores que não vão conseguir ir porque os clubes não iam deixar, e em conjunto com a Proeleven decidimos esperar mais umas semanas antes de responder aos contactos porque ia ter a oportunidade de jogar nos Jogos Olímpicos, iam estar muitos clubes a ver.

Gostou da experiência dos JO?
É uma experiência única. Eu digo isto a todos os meus colegas, acho que todos os jogadores deviam passar por essa experiência.

Porquê?
Porque nós jogadores de futebol vivemos muito numa bolha e ali temos oportunidade de ver atletas de elite ao mais alto nível, de conviver com eles e de perceber como é a vida deles. Como é que treinam, como é que descansam e percebemos que de facto há atletas que para estarem ali têm de passar por muitos mais sacrifícios do que nós alguma vez tivemos que passar e muitos deles, como percebi e ouvi histórias, tinham até que meter dinheiro do bolso deles para conseguirem estar ali. São coisas que a nós às vezes nos passam um bocadinho ao lado.

Antes disso já tinha sido chamado à seleção?
Sim. A minha primeira internacionalização foi contra a Croácia, se não estou em erro, num jogo amigável na Suíça, era Paulo Bento o selecionador.

O ambiente da seleção é muito diferente dos clubes?
Sim, é único. Lidar e conviver no balneário, no hotel, antes do jogo, depois do jogo com jogadores que são de top mundial, é uma coisa totalmente diferente. E tive a sorte de conviver com o Cristiano que para mim é o melhor jogador do mundo. É uma experiência totalmente diferente, às vezes até ouvir alguns conselhos e ver a forma como ele treina e como se cuida no dia-a-dia. Gostava que as pessoas vissem porque a maior parte delas só vêem como ele joga, mas se tivessem a oportunidade de ver como ele treina, iam ficar ainda mais admiradas.

Entretanto faz os Jogos Olímpicos e surge o Olympiacos.
Faço os Jogos Olímpicos, as coisas correm bem e surge o Olympiacos, naquela altura com o mister Paulo Bento. Assinei por três anos.

Como é que foi chegar à Grécia? Qual foi o primeiro impacto?
A equipa tinha condições muito boas. É uma equipa que está habituada a entrar em competições da UEFA, é a maior equipa da Grécia, a meu ver, e perceber as condições que ia ter para trabalhar deixou-me muito entusiasmado para o que tinha pela frente.

Foi sozinho?
Fui.

Gostou da Grécia e dos gregos?
Sim. Tive uma boa experiência, a zona onde vivia era espetacular, era verão o ano todo, praias lindas, restaurantes bons.

O que fazia nos tempos livres?
Ou ia até à praia ou fazia piscina. Têm muitas esplanadas, onde os gregos têm o hábito de beber café com gelo. Também me fui habituando, às vezes passava o tempo nas esplanadas com colegas, a conviver.

O Paulo Bento é despedido com 12 pontos de avanço sobre o segundo. Porque é que ele é despedido, tem ideia?
Tínhamos perdido em janeiro dois jogadores muito importantes para a equipa. Um era o capitão, o Milivojevic, que assina pelo Crystal Palace, e o nosso avançado, Ideye Brown, que era o melhor marcador do campeonato e que foi para a China, se não estou em erro. Perdemos estes dois jogadores e perdemos o dérbi contra o PAOK fora. O Paulo Bento quando vai à sala de imprensa para falar depois do jogo diz que perdemos dois jogadores muito importantes e que a qualidade da equipa tinha mudado um bocadinho. Depois começaram a sair notícias a dizer que um treinador do Olympiacos não pode ter este tipo de comportamento e que os melhores jogadores estão no Olympiacos e que a equipa não perdeu qualidade. Se me perguntar, sinceramente eu não sei o porquê de ter sido despedido. Acho que se quiseram agarrar a isto, mas no fundo não faz muito sentido, porque é como lhe disse, tínhamos 12 pontos de avanço sobre o segundo, estávamos nas meias-finais da Taça, estávamos nos quartos-de-final da Liga Europa, estávamos em todas as competições e ele é despedido assim.

Vem quem para o substituir?
O treinador que estava na segunda equipa. Faz alguns jogos e depois vem um grego que já tinha treinado o Olympiacos [Lemonis]. Apesar da mudança de treinadores acabámos por ser campeões.

Na segunda época não joga muito e há uma dança de treinadores ainda maior.
Depois vem um treinador albanês [Hasi] para o início da segunda época e traz 12 jogadores novos ou uma coisa assim do género. Percebi desde cedo que ia jogar pouco. A seguir se não estou em erro entra um grego [Kontis], depois o espanhol [Óscar Garcia e depois vem o grego [Lemonis] que tinha estado na época anterior e com esse grego já joguei mais.

André (à esquerda) festeja um golo com o colega Domagoj Antolic, do Legia

André (à esquerda) festeja um golo com o colega Domagoj Antolic, do Legia

SOPA Images

Mas entretanto não fica na Grécia. Porquê?
Após essa época em que não joguei muito, percebi que o clube tinha ideias diferentes das minhas, nem sabia na altura quem é que iria ser o treinador. Quando o Pedro Martins assume, quando assina pelo Olympiacos, liga-me e diz-me que o melhor era eu procurar outra solução porque o clube queria trazer outros jogadores, queria trazer jogadores novos e ficar ia ser uma situação difícil para mim, provavelmente não iria jogar tanto como estava à espera. Decidi também que o melhor para mim era sair da Grécia.

Custou-lhe ouvir isso e saber que tinha de ir embora?
No fundo, para ser sincero, estava à espera. Mas custou-me um bocadinho, era um treinador português, podia até, não sei, ter tido curiosidade em trabalhar comigo, mas sei lá, as coisas não aconteceram e sou da opinião que quando não acontecem é porque não têm de acontecer. E ainda bem que tomei essa opção, porque estou num sítio onde de facto as pessoas me dão muito valor, apoiam-me e gostam de mim.

Quando lhe falaram pela primeira vez na Polónia qual foi a sua reação?
Foi boa porque primeiro era um treinador que me conhecia bem, era o mister Sá Pinto. Depois era o maior clube da Polónia, o Legia, um clube que já tinha jogado competições europeias, que luta por ganhar o campeonato e a mim agradou-me a ideia basicamente por estes dois motivos, porque era um treinador que me conhecia bem e era um clube grande que lutava por títulos.

A Polónia era aquilo de que estava à espera?
É um país bonito, Varsóvia é uma cidade muito bonita. É verdade, e para mim talvez seja o único ponto menos positivo, é uma cidade e um país muito frio, ao início custou-me um bocadinho a habituar [risos].

A questão da língua, safa-se bem com o inglês?
Sim e a maior parte das pessoas aqui fala inglês, porque o polaco é de facto uma língua muito difícil. Na Grécia também falavam bem inglês portanto dava sempre para me safar.

Qual foi a coisa mais estranha que encontrou na Polónia?
A comida polaca não é, de todo, das minhas favoritas, eles gostam de coisas com molhos um bocadinho estranhos [risos], não é muito a minha praia. São pessoas um bocadinho frias, mas também sofreram muito no passado por causa da guerra, foi uma cidade que ficou praticamente toda destruída. E são pessoas que gostam muito de beber, mas estão habituados. Às vezes vejo pessoas logo de manhãzinha a beber álcool mais forte.

Vodka?
Sim. Eu comentava com alguns colegas como é que as pessoas conseguiam fazer isso e eles diziam que era porque as pessoas têm de aquecer para ir trabalhar.

Entretanto o Sá Pinto vai embora, não fica até final da época.
Ele ficou uns cinco, seis meses. Foram os resultados menos bons. Não estávamos mal classificados, é verdade, estávamos em 2º a quatro pontos do primeiro, mas nós jogadores nunca nos apercebemos muito bem o porquê de certas coisas acontecerem. Também acho que não é uma coisa que nos diga muito respeito, nós estamos aqui para jogar e para treinar e isso às vezes são coisas que nos passam um pouco ao lado. É uma pessoa por quem eu tenho muito carinho e muito respeito e claro que gostava muito que ele tivesse ficado, mas a vida é mesmo assim, o futebol é assim. Depois entrou este treinador que temos agora, o Vukovic, e fomos campeões.

E o André fez praticamente os jogos todos.
Foi. A verdade é que desde que este treinador assumiu que sou um dos jogadores, a par com o capitão, mais utilizados. As coisas estão a correr-me bem. Tenho mais dois anos de contrato, estou muito feliz aqui, tenho uma importância muito grande na equipa, os adeptos gostam muito de mim, as pessoas da estrutura também, mas estou a chegar a uma fase da minha vida que já penso em voltar ao meu país, porque já tenho 30 anos e quero começar a constituir família, quero estar perto dos meus amigos e da minha família também. Só que estou tão feliz aqui que não quero apressar nada, nem quero dar um passo em falso.

A nível de seleção, tirando os Jogos Olímpicos, só fez aquele jogo amigável?
Fiz esse e depois fiz outro no Algarve, contra a Holanda. Também com Paulo Bento.

Tinha, ou ainda tem, esperança de ser convocado para a seleção A?
Não sou obcecado, nunca fui, tive se calhar esperança na primeira época em que estava no Olympiacos, porque fiz uma época muito boa, fomos campeões, tínhamos ido aos quartos-de-final da Liga Europa, estávamos nas meias-finais da Taça e eu jogava sempre. Mas as coisas não surgiram e como não vivo obcecado também não fico desiludido. Portugal é um país pequeno mas a nível de talento futebolístico é incrível e todos os anos aparecem jogadores novos e muito bons e portanto é natural as coisas acontecerem assim.

André conquistou o titulo nacional pelo Legia na época 2019/20

André conquistou o titulo nacional pelo Legia na época 2019/20

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Onde é que ganhou mais dinheiro até hoje?
No Olympiacos.

Investiu onde?
Tenho algum em imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida só porque sim, porque podia?
A maior extravagância... Sei lá... Eu sou uma pessoa contida mas gosto de me vestir bem, e gosto muito de comer bem, e não olho a preço quando toca a restaurante ou a comer. Se sei que vou comer bem, pago sem problema.

Para si qual foi o melhor restaurante onde já comeu?
Ui, isso é difícil, não sei. Mas a maior extravagância a nível de restaurantes e onde paguei talvez uma conta maiorzinha, foi num sushi em Lisboa, do chefe Paulo Morais.

Nunca perdeu a cabeça com carros?
Para saber, eu tenho o primeiro carro que comprei, que é um série 1 dos antigos. Nunca mais gastei dinheiro em carros.

Tem algum hobby, alguma coisa que goste muito de fazer ou de colecionar?
Colecionar. Tenho em casa dos meus pais, no fundo foi o meu pai que montou como se fosse um museu, eu gosto muito de trocar camisolas com outras equipas e tenho um museu em casa com todas as camisolas que troquei. Foi o meu pai que o fez.

Qual é aquela que tem o valor mais especial para si?
Especiais são sempre de colegas com quem joguei, João Pereira, João Moutinho, Carriço, Rui Patrício, tenho essas camisolas que me marcaram. Mas tenho camisola do Del Piero, do Gerard Piqué, do Iker Muniain, do Atlético de Bilbau, tenho algumas de que gosto.

Tem tatuagens?
Tenho. A primeira fiz com 15, 16 anos e foi o nome do meu irmão. Tenho quatro só. Tenho uma que é um símbolo que representa a família, e depois as outras duas já não têm assim um significado, foi só desenhos que gostei e na altura fiz.

Superstições tem ou teve?
Entro sempre com o pé direito. Dou três saltinhos sempre que entro em campo, e os primeiros três passos gosto que sejam com o pé direito, mas tirando isso não tenho grandes superstições. Gosto e tenho de falar sempre com a minha família antes do jogo, nem que seja uma chamada de um minuto ou de 30 segundos.

Mas com alguém em especial?
Gosto de falar com os três. A minha mãe, o meu pai e o meu irmão.

É um homem de fé?
Sou. Também pela educação que tive, os meus pais são pessoas com muita fé e talvez por isso eu seja também assim.

André (ao centro) com a mãe e o irmão

André (ao centro) com a mãe e o irmão

D.R.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração que teve na carreira?
Graças a Deus já tive algumas porque ganhei uma taça pelo Sporting, fui campeão no Olympiacos, fui agora campeão pelo Legia, e cada título à sua maneira teve e tem um sentido especial na minha vida. As maiores tristezas que tenho: não ter ido à final da Liga Europa pelo Sporting e talvez nunca ter ganho um campeonato pela equipa do meu coração que é o Sporting.

Disse que gostava de constituir família. Tem namorada?
Tenho uma pessoa que é muito especial para mim, mas temos vidas um bocadinho diferentes. Eu tenho de estar aqui porque é o meu trabalho, ela tem de estar em Portugal porque também tem o trabalho dela. Tenho 30 anos e acho que está na altura de assentar e de começar a construir família.

Durante a altura mais crítica da pandemia esteve sempre na Polónia?
Sim, não nos deixaram sair daqui. No primeiro mês nem saímos de casa. Tudo o que precisávamos de compras, o quer que fosse, era o clube que nos fornecia, que nos levava a casa. Depois no segundo mês já começámos a sair um bocadinho, já podíamos ir correr para a rua, já começámos a treinar.

O que é que fazia em casa durante esse tempo?
Eu tenho um vício muito grande, jogar PlayStation.

O que é que joga?
Call of Duty online. Os meus amigos mais próximos, e às vezes os meus pais, diziam que eu qualquer dia era um gamer e deixava de ser jogador de futebol porque passava muitas horas a jogar, na quarentena. Tenho esse vício, gosto muito de jogar PlayStation.

Algum outro desporto que goste de seguir ou até de praticar?
Gosto muito de ver NBA, gosto de NFL, esses dois mais do que os outros. Agora praticar, se estiver entre amigos, jogo, claro, mas não há nenhum desporto assim que eu goste muito de praticar.

E histórias engraçadas que tenha vivido, não tem nenhuma para contar?
Uma vez, no Olympiacos, tínhamos um jogo para a Liga Europa contra o Besiktas, em Istambul. E eu tinha dois amigos comigo em Atenas a passar lá uns dias. Então, vou para o aeroporto com a equipa, mostro o passaporte em Atenas, deixam-me passar, viajo, quando chego a Istambul, precisávamos de mostrar o passaporte e o visto, mostro o visto e o passaporte e o segurança olha para mim e faz-me um sinal com a mão que não, não podia passar. A equipa toda já tinha passado, eu era o único que ainda não tinha passado pelo controle, perguntei-lhe porquê e ele diz que eu não sou a pessoa que está no passaporte. Eu pego no passaporte, abro e reparo que o passaporte que tinha levado era de um dos meus amigos que estava comigo em Atenas [risos]. Resumindo, levei o passaporte dele e por isso não me iam deixar entrar na Turquia e o meu amigo tinha voo para voltar para Lisboa e também não conseguiu voltar porque eu tinha o passaporte dele. Por sorte, porque estava com a equipa, consegui passar com o meu documento de identificação e pagando outro visto.

Já pensou no que quer fazer depois de deixar de ser futebolista?
Nunca pensei muito nisso, mas talvez gostasse de ter um negócio meu para gerir. Se fosse ligado ao desporto, melhor. Mas se não for também não me importo.