Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“No Braga, o Cajuda punha-nos nas escadinhas do coreto, fingia ser maestro e tínhamos de imitar o som dos instrumentos que ele inventava"

Luís Filipe é dos poucos futebolistas que passou pelos três grandes (no FC Porto, só na formação) e o último a sagrar-se campeão por Sporting e Benfica. Tudo começou nos Marialvas, pelo meio, passou por Académica de Coimbra, SC Braga, U. Leiria, Marítimo, V. Guimarães e até Atlético de Madrid, antes de pendurar as botas após três anos no Olhanense. Com uma filha chamada Lua e um filho a jogar no Quarteirense, está há seis anos dedicado ao negócio das framboesas, no Algarve, mas pensa agora regressar ao futebol

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Cantanhede. Apresente-nos a sua familia de origem.
A minha mãe trabalhava na câmara municipal de Cantanhede e o meu pai era funcionário público nas escolas secundárias do concelho, passou por várias. Tenho um irmão mais velho quatro anos. O nome do meu pai é Artur, da minha mãe é Isabel e do meu irmão é Miguel. Vivíamos num pequeno bairro em Cantanhede e tive uma infância feliz porque estava sempre a jogar à bola da rua.

Quando era pequeno torcia por algum clube?
Sim, era benfiquista.

Lá em casa era tudo do Benfica também?
Até uma determinada altura, sim, depois o meu irmão acabou por mudar para o Sporting [risos]. Foi um bocado influenciado pelo padrinho dele. Não me recordo em que idade é que ele mudou, não tenho isso em memória.

Tinha ídolos?
Não, nunca fui de ter um ídolo ou de querer ser como alguém, ou de seguir os passos de alguém.

Queria ser jogador de futebol ou sonhava ser outra coisa?
Dizia que queria ser jogador de futebol. Dizia eu e se calhar a maior parte dos miúdos.

Gostava da escola?
Digamos que sim. Não era um apaixonado pela escola, mas gostava. A escola é importante não só para a nossa formação, é uma forma de convivermos com outras pessoas, conhecermos outras realidades e portanto acabava por gostar da escola, mas se calhar mais nesse sentido, mais do que agarrado aos livros e a estudar.

Qual o primeiro clube onde jogou?
No clube da minha terra, Clube Futebol dos Marialvas. O campo era atrás da minha casa, ficava pertíssimo e portanto assim que tive oportunidade de poder ir jogar, fui. Recordo que comecei a jogar mais novo do que aquilo que era permitido. Antigamente só a partir dos oito anos, se não estou em erro, é que havia um escalão para praticar futebol, mas lembro-me que aos sete anos fui jogar. O meu irmão já jogava, era ali ao lado, portanto acabou por ser uma coisa natural.

Ficou nos Marialvas até quando?
Até aos 13 anos. Mas houve interesse do Futebol Clube do Porto. Num jogo, o FC Porto veio jogar contra nós, era um jogo amigável. Tinha uns 10, 11 anos.

Falaram consigo diretamente ou com o seu pai?
Com o meu pai. A ideia deles era que eu fosse jogar para lá na época seguinte, mas como eu ia para o 5º ano, ou seja, para o segundo ciclo, como lhe chamam agora, ainda se falou na eventualidade de ir só aos fins de semana, fazer lá os jogos. Treinava no clube da minha terra e ia jogar lá ao fim de semana, só que nessa altura ainda havia aulas ao sábado de manhã e então as coisas acabaram por não acontecer. Não fazia sentido estar a faltar às aulas ao sábado de manhã para ir jogar ao Porto.

Ficou com pena?
Acho que sim, como qualquer miúdo, ir jogar para um clube e ser pretendido por um clube da dimensão do Futebol Clube do Porto era… Mas tive de aceitar.

Não fez birra.
Não, até porque era ponto assente, a escola estava em primeiro lugar. Acabei por não ir, eles entenderam e disseram que iriam continuar a seguir o meu trajecto. E quando se proporcionou mais tarde, já como iniciado, com os tais 13 anos, fui mesmo para o FC Porto e fui mesmo viver para o Porto.

Foi viver para onde?
Para o lar dos jogadores como lhe chamavam. Era uma casa onde estavam alguns jogadores que não eram da zona do Porto. Eu era mais novo na altura.

Ao colo do pai a festejar um ano de vida

Ao colo do pai a festejar um ano de vida

D.R.

Custou-lhe muito deixar a sua casa, os seus pais e irmão?
Custou, custou. Fui com todo o gosto, mas custou porque felizmente tive sempre uma família muito próxima e de repente um miúdo de 13 anos ir viver para uma cidade daquela grandeza, sozinho, foi complicado. O acompanhamento que tinham os jogadores que vinham de fora não era tão grande como hoje existe. Hoje existem as academias e um acompanhamento muito grande, na altura nós éramos praticamente "abandonados". Nesse lar tínhamos duas funcionárias que nos faziam as refeições, almoço e jantar, e tínhamos uma pessoa que ficava no lar durante a noite.

Estava num quarto com mais jogadores ou sozinho?
Quando fui para lá, como era o mais novo e já lá estava o Sérgio Conceição que era de Coimbra e tinha jogado na equipa do meu irmão, na Académica, ele predispôs-se logo a dizer que eu ficava no quarto dele. Felizmente, porque era o melhor quarto, tinha casa de banho privativa, os outros não. Acabei por ficar bem instalado. Mas, como dizia, o acompanhamento era quase nenhum. A nível escolar é óbvio que eu ia para a escola, mas não havia ninguém a levar-nos. Éramos nós que metiamos os nossos despertadores.

Isso é uma mudança muito repentina. Não pensou em desistir, não chorou muitas vezes à noite?
Não me recordo de ter chorado mas também porque os meus pais faziam questão de irem passar todos os fim de semana ao Porto e quando lá iam, em vez de ficar no lar, ficava com eles.

Que tal o Sérgio Conceição como amigo e como companheiro de quarto, ajudou-o muito?
O Sérgio nessa altura já era júnior, já tinha contrato profissional, ou seja, as vezes que ele lá ficava eram muito poucas. Mas sempre foi uma ajuda porque era mais velho.

Protegeu-o de alguma praxe ou de algumas partidas dos outros?
Por acaso nessa altura não havia muita praxe, acho que todos me viam como o mais novinho e havia sempre aquela tendência de proteger o mais novo e dávamo-nos todos muitos bem. Havia jogadores dois anos mais velhos do que eu que também eram de Coimbra, com quem já tinha jogado nas seleções regionais, portanto já havia ali algum conhecimento. Depois também encontrei um grupo muito interessante na equipa e acabou por ser fácil. Difícil foi realmente eu estar habituado a ter o conforto de casa, a ter tudo feitinho e ali obrigou-me a crescer mais rápido, a tornar-me independente mais cedo. De manhã ninguém me acordava para ir para a escola, tinha que ter essa responsabilidade. Naquela hora as funcionárias ainda não tinham entrado ao serviço por isso não havia pequeno-almoço, ou seja, eu levava o leite num termo do dia anterior e o pão para poder comer de manhã quando acordasse.

Esteve no lar quando tempo?
Um ano. Era um miúdo habituado a comer a comidinha da mãe e tive alguma dificuldade na alimentação. A determinada altura até, de acordo com os responsáveis do lar, ficou decidido que em vez de eu comer no lar - porque a comida não me agradava muito, eu não comia e ninguém me obrigava a comer, e eu era um miúdo de estatura pequenina, magrinho -, passei a ir comer a um restaurante em frente ao lar, que os meus pais arranjaram; era uma coisa muito familiar e muitas das vezes ia lá comer para tentar manter-me um pouco mais nutrido. Eu era muito esquisito na alimentação. Agora menos, ou acho que quase nada agora. Tudo o que seja carne que tenha um bocadinho de gordura para mim ainda é uma dificuldade tremenda [risos]. Eu gosto mesmo daquela parte seca da carne.

A nível de futebol, sentiu muita diferença dos treinos e dos jogos?
Sim, muita. A exigência era muita, a qualidade também, portanto tínhamos de trabalhar muito. Havia aquela identidade do Futebol Clube do Porto, de muito trabalho e de muita entrega, portanto os treinos eram duros.

Quem era o seu treinador?
O treinador era o professor Telmo. Era um treinador bastante rígido connosco, ele tinha formação também no râguebi, se não me engano, e portanto os treinos eram mesmo muito duros. Não havia cá choraminguices, não havia “ai, caí no chão, dói-me aqui”, não havia nada disso. Aquilo era sempre a andar.

Luís Filipe começou a jogar futebol aos sete anos

Luís Filipe começou a jogar futebol aos sete anos

D.R.

Nesse ano no FC Porto o que mais o marcou?
Muitas coisas. Essa faceta de nunca desistir, de dar tudo, mesmo que às vezes estejamos mais em baixo. Trabalhar sempre no máximo, acho que foi das coisas que mais aprendi, foi trabalhar sempre nos limites. Só para ver, tenho uma história curiosa. Nesse ano, já na fase de apuramento para campeão, tive um jogo no campo da Constituição contra o União de Coimbra e a determinada altura tenho um choque com um dos jogadores adversários; quase todos eles eram bem maiores do que eu. Ele acertou-me com o cotovelo numa clavícula e fiquei logo KO, de braço estendido. Recordo-me de ir queixar-me ao banco e o treinador não quis saber: "Vai lá para dentro que isto não é para maricas, vai mas é lá para dentro jogar". Eu andava lá dentro a jogar de braço pendurado, quer dizer, não andava a jogar, andava lá dentro. Até que chegou o intervalo, eu chorava de dores e o treinador foi muito rígido comigo, disse-me tudo e mais alguma coisa, porque achava que eu não tinha nada, que era uma mariquice. Quando fui levado para o hospital e vim de braço ao peito, ele acabou por pedir desculpa.

Tinha a clavícula partida?
Exatamente. Ele acabou por pedir desculpa e tudo mais, mas são esses momentos que nos marcam. Sinceramente, gosto muito do professor Telmo, apesar disso, podia ter ficado melindrado com a situação, mas não, isso fez-me crescer, porque nós temos que ultrapassar as adversidades. Hoje em dia a gente vê, à mínima coisa: “Ah, dói-me aqui, já não dá”; e às vezes nós temos que nos superar. É óbvio que naquela situação não dava, era impossível. Mas ele via daquela forma e incutiu muito isso em nós.

Estava a contar que só ficou um ano. Porquê?
A nível escolar não sei como é que passei de ano, não consigo entender como é que cheguei ao fim do ano e tenho na pauta "aprovado". Não sei se pelas circunstâncias em que sabiam que eu estava. O meu pai sabia que eu provavelmente iria chumbar e surpreendeu-se também quando passei de ano, mas decidimos em conjunto que o importante era a escola e que ali teria muito mais dificuldades. Ainda para mais eu ia subir de escalão, de iniciados para juvenis, e normalmente os juvenis de primeiro ano jogam o campeonato regional. Só os de segundo ano é que jogam o nacional e, atendendo a isso, para estar no Porto para jogar um campeonato regional, era preferível estar em casa e eventualmente jogar um campeonato nacional muito mais competitivo. Portanto juntou-se essas duas coisas, tomámos a decisão de regressar a casa e fui para a Académica de Coimbra.

Sentiu que desceu um bocadinho de patamar a nível de exigência?
De maneira nenhuma, a Académica já era um clube habituado a estar nos campeonatos nacionais e a ter sempre boas equipas, já se trabalhava muito bem. De qualquer das formas continuei a ter dificuldades porque mantinha um físico de menino de 10 ou 11 anos e nessas idades a diferença de físico faz muita diferença; por muito que tu sejas muito bom tecnicamente, fisicamente era completamente ultrapassado pelos outros. Acabei por ter ali dois anos de juvenil muito difíceis.

Pensou em desistir do futebol?
Nessa altura pensei. Ainda para mais eu vivia em Cantanhede, que fica a 25, 30 quilómetros de Coimbra, tinha que ir todos os dias nas carrinhas de transporte que a Académica tinha para apanhar os jogadores das redondezas. Todos os dias aquilo, chegar tarde a casa e a frustração de não conseguir fazer as coisas, ponderei mesmo desistir. Até em conversa com os meus pais disse-lhes que se calhar não queria mais, mas eles sempre me incentivaram a não desistir. Não desisti e vim para o clube da minha terra novamente. Acabei por dizer que não valia a pena a andar a fazer aqueles quilómetros. Voltei aos Marialvas como júnior de 1º ano. O Marialvas tinha conseguido subir ao nacional de juniores, ia-me mostrar, estava perto de casa e tinha tempo para estudar.

Luís Filipe com a bola nos Marialvas

Luís Filipe com a bola nos Marialvas

D.R.

Já ganhava dinheiro com o futebol?
Não. Na formação nunca ganhei dinheiro.

Tinha quantos anos?
Devia ter uns 16, 17 anos. E nesse ano acabei por dar o salto físico, cresci cerca de 10, 12 centímetros, foi mais tarde do que todos os outros mas fiz uma época espectacular, acabei ainda a jogar como sénior, depois do campeonato de juniores terminar. Ainda fiz bastantes jogos no campeonato sénior, ou seja, já jogava com homens na III divisão.

Então estreia-se como sénior no Marialvas?
Exactamente. Estreei-me como sénior muito novo, mas nunca tinha pensado nessa perspectiva. Depois acabei por voltar para a Académica e entretanto as regras de formação alteraram um bocadinho em termos de idade. Antes quem fizesse anos depois de agosto, jogava como se fossem de minha idade. Como eu faço anos em junho, jogava sempre com os mais velhos. Ao fim desse primeiro ano na Académica, que já era o meu segundo ano de júnior, eu iria subir a sénior, mas como houve essa alteração beneficiei e acabei por ficar mais um ano nos juniores. Ou seja, acabei por fazer três anos de júnior.

Então sobe ao plantel principal da Académica em que época, 1998/99?
Sim. O António Freixo era meu treinador dos juniores e também adjunto dos seniores e portanto quando termino a minha formação, os jogos de fim de época, aqueles amigáveis, fui fazê-los com os seniores da Académica. Já havia ali uma grande perspectiva de eventualmente integrar o plantel sénior do ano a seguir, o que veio a acontecer.

Era Raul Águas o treinador.
Sim.

É aí que assina o seu primeiro contrato?
É nessa altura que assino o meu primeiro contrato a ganhar dinheiro. Tinha que se ganhar três vezes o ordenado mínimo. Se não estou em erro seriam duzentos contos. Mas na verdade só recebia metade porque era um miúdo. Nos primeiros tempos acabei por só receber aquilo, mas depois lá me reconheceram e acabaram por me pagar o que estava no contrato.

Luís Filipe foi para o FC Porto com 13 anos

Luís Filipe foi para o FC Porto com 13 anos

D.R.

Lembra-se do que fez ao primeiro dinheiro que recebeu do futebol?
Não foi nada de especial, sempre fui muito poupado. Mesmo quando era miúdo, aqueles dinheiros que a gente recebia no Natal, lembro-me que guardava aquilo religiosamente, enquanto o meu irmão, por exemplo, já o gastava, eu não, guardava e dava-me prazer dizer eu já tenho não sei quanto. Por isso não fiz grande coisa, julgo que nessa altura pensei em comprar um carro. Comprei um carro às prestações, um carro já usado. Mas já tinha carro antes porque o meu pai arranjou-me um carrito para eu poder deslocar-me. Assim que comecei a ganhar dinheiro disse-lhe: "Vou comprar um carro e quero ser eu a pagá-lo".

Já havia namoros e saídas à noite?
[Risos] Saídas à noite há sempre.

Desde quando?
Em Cantanhede o centro é pequeno e às vezes ficava a jogar à bola até à hora de jantar ou depois. Não eram bem "saídas à noite". As saídas surgem quando vou para Coimbra e integro os juniores. Jogávamos ao sábado à tarde e muitas vezes no final dos jogos íamos todos jantar fora e a seguir saíamos um bocadinho, portanto na idade propícia para isso. É óbvio que depois como profissional já é mais difícil fazer isso, mas sempre que podia, ia.

Nunca teve nenhuma chatice por causa de uma noitada?
Não, era muito responsável. Levava as coisas muito a sério porque queria seguir aquilo e agarrei-me com unhas e dentes. Abdiquei de muita coisa, via os meus amigos a irem para ali e para acolá, a irem de férias todos juntos e eu nunca podia e não ia, tinha esse compromisso. Os meus pais sabendo que eu tinha esse compromisso também não deixavam que eu fizesse aquilo que bem entendesse.

Ainda não tinha conhecido a sua mulher?
Acabei por conhecer a minha mulher, Inês Diogo, nessa altura. A Académica não tinha, como tem agora, uma academia, e nós treinávamos em vários campos mas equipávamo-nos sempre no pavilhão da Académica, onde jogavam as modalidades, e a Inês na altura jogava basquete. A gente via-se muitas vezes, mas as coisas nunca foram para esse lado, até que umas amigas dela, por algum comentário que ela teve em relação a mim, decidiram arranjar uma forma de nos conhecermos melhor. Foi assim, através delas, que arranjaram ali um esquema qualquer.

Luís Filipe só esteve um ano no FC Porto

Luís Filipe só esteve um ano no FC Porto

D.R.

Só teve o Raul Águas como treinador nessa primeira época de sénior na Académica?
Também tivemos o Vítor Emanuel.

Muito diferentes um do outro?
Sim. O Raul Águas uma pessoa muito mais serena, muito mais calma, o Vítor Emanuel uma pessoa com o coração na boca, aquela emoção à flor da pele, mostrava muito mais paixão. O Raul Águas era muito mais contido. Acabou por não ser um ano muito feliz porque a Académica desceu de divisão.

Quando acaba a época o que é que acontece?
Entretanto eu já era chamado à seleção nacional de sub-20, fiz alguns torneios, fiz um nas Canárias, que foi visto por um olheiro do Atlético de Madrid que ficou muito agradado, mas não houve grandes avanços. Entretanto faço o campeonato do Mundo na Nigéria de sub-20.

Que recordações é que tem desse campeonato do mundo?
O que me marcou mais foram as condições em que se fez um campeonato daquela dimensão num país muito difícil. Eram muitos os cuidados que tínhamos de ter, desde a água, aos mosquitos, a humidade era imensa, o calor era insuportável, havia uma série de fatores que tornou tudo difícil.

Não ficaram bem instalados?
Depois da fase de grupos instalámo-nos num hotel que, enfim, tinha níveis aceitáveis de conforto. Ao ficarmos no 2º lugar do grupo tivemos de mudar de cidade. Só mudámos essa vez, nos oitavos-de-final, porque fomos eliminados. Mas ao mudar meteram-nos num hotel com osgas no quarto, baratas, sem ar condicionado ou com um ar condicionado muito mau, horrível, horrível. A comida muito má. Era um hotel em que não estávamos só nós e não tínhamos o nosso cozinheiro a fazer a comida como deve ser só para nós. Fazia, mas não tinhas as coisas que nós tínhamos trazido de Portugal, tinha de fazer refeições em cima do joelho. Acabámos por ser eliminados pelo Japão, nos penáltis, não é desculpa, podíamos ter feito mais e melhor, mas as condições não eram fáceis. Tenho pena que aquele campeonato do mundo no qual participei tenha sido realizado num país que se calhar na altura não estava preparado para receber uma competição daquela grandeza.

Luís Filipe jogou pela seleção de Coimbra

Luís Filipe jogou pela seleção de Coimbra

D.R.

Estava a contar que os olheiros do Atlético de Madrid estavam a acompanhá-lo…
Sim e as coisas acabaram por acontecer.

Tinha empresário?
Era o Jorge Manuel Mendes, mais conhecido por Xuxa. Surgiu o interesse do Atlético de Madrid e a ideia era eu ser transferido para o Atlético mas continuar na Académica. Só que o facto de termos descido de divisão acabou por deitar por terra essa ideia e acabei por ir para Madrid mesmo.

Foi sozinho?
Fui. Também foi difícil. Habituado a estar perto de casa, perto da família, vou para Espanha integrado na equipa B do Atlético e não foi fácil porque os espanhóis não são como nós a receber os estrangeiros. Muitas vezes procurava interagir com os meus colegas de equipa para tentar entrar no grupo e nunca me deixaram. Eu recordo-me que vivia num condomínio em que viviam mais jogadores dessa equipa B. Eu vivia sozinho, eles estavam sempre a jantar em casa uns dos outros e nunca me convidaram, nem nunca tiveram o cuidado de me integrar, coisa que nós em Portugal fazemos. Um estrangeiro chega aqui, vem sozinho e nós ao fim do primeiro treino já estamos a levá-lo a jantar ou almoçar. Temos esse cuidado. Ali não. E passei um bocado mal.

Isso foi em 1999/2000.
Exatamente, ou seja, não tínhamos as facilidades que hoje temos. Hoje vamos para o estrangeiro, temos televisão portuguesa, temos internet, telemóveis. Há uma série de coisas que nos aproxima de quem está longe. Na altura não. Por isso foi muito difícil e quando eu tinha uma nesgazinha, uma folga às vezes de apenas um dia e meio, arrancava diretamente para o aeroporto e vinha para Portugal. Não aguentava, já estava a dar com a cabeça nas paredes sozinho em casa sem ninguém para falar.

É por isso que não fica a época toda?
É. Quando chega a outubro/novembro digo ao meu empresário que quero ir embora. Quero jogar. Ainda para mais atendendo ao facto de estar sozinho com estas dificuldades todas, não estava a jogar, o que ainda torna as coisas mais difíceis. Eram as duas coisas a meter-me para baixo. Disse-lhe, eu quero é jogar, não tenho idade para ficar parado, o dinheiro não é importante nesta altura, o importante é jogar. Tentou-se arranjar uma solução e conseguiu-se felizmente arranjar uma excelente solução, o SC Braga. Assim que pude vim para Braga. Normalmente só deveria chegar em janeiro e eu em dezembro já estava a treinar com o grupo.

E que tal o Manuel Cajuda?
Foi como um pai para mim. Ele conseguiu de mim um rendimento excecional nessa altura, com a ajuda também de um grupo de companheiros de equipa fantástico, muitos deles já homens feitos, homens de família. Apanhei uma equipa muito batida e experiente. Estamos falar do Artur Jorge já com 20 e muito anos, do Barroso, Jordão, Cabral, Idalécio...

Jogava em que posição?
A extremo direito, desde sempre. Só nos anos de juniores é que joguei muitas vezes como ponta de lança.

O que preferia?
Na altura adorei jogar a ponta de lança e fiz imensos golos. Acho que se tivesse continuado como ponta de lança também teria tido uma boa carreira. Mas se calhar viam-me mais como extremo e fiquei extremo.

Dessa época e meia em Braga o que ficou gravado mais profundamente na memória?
Marcaram-me algumas coisas pela positiva porque conseguimos atingir uma classificação muito boa, um 4º lugar, esse foi o maior feito que tivemos. Marcou-me a aprendizagem e os ensinamentos que tive nessa altura. Mas o que me marcou mais foi perder um colega de equipa num acidente de viação, o Pedro Lavoura, com quem já tinha jogado na Académica. Foi um choque muito grande. Isso infelizmente foi o que me marcou mais.

Estava a viver sozinho em Braga?
Sim. Já namorava a minha mulher, que na altura estava na faculdade de Economia, em Coimbra, a tirar gestão de empresas.

Luís Filipe com o trofeu de melhor jogador de um torneio que fez pela Académica de Coimbra

Luís Filipe com o trofeu de melhor jogador de um torneio que fez pela Académica de Coimbra

D.R.

Como se dá a ida para o Sporting?
As notícias vão aparecendo às vezes até antes, nos jornais, do que primeiro a nós. Começa a haver muito falatório de interesse deste e daquele. E ficamos ansiosos naturalmente. O Sporting acabou por apresentar uma proposta, as coisas aconteceram naturalmente. Depois havia ali uma situação porque o SC Braga tinha opção de compra ao Atlético de Madrid e o negócio seria adquirir o passe e vender ao Sporting com o lucro que quisesse e as coisas estavam quase para acontecer quando de repente aparece o FC Porto na jogada. E o FC Porto como tinha algumas ligações diretas com o Atlético tentou que o negócio fosse feito diretamente com o Atlético.

Mas vai para Alvalade. Porquê?
Porque o FC Porto surge também numa fase em que eu já tinha praticamente tudo acordado com o Sporting.

Tinha preferido ir para o FC Porto?
Não. Na altura eram dois excelentes clubes. O Sporting tinha sido campeão na época anterior, tinha uma excelente equipa e eu já tinha tudo apalavrado. Entre os dois, na altura, era-me indiferente. Pesou o facto de já ter as coisas muito mais avançadas e como para mim a palavra é suficiente acabei por decidir ir para o Sporting. Assinei por quatro anos.

Quando chega é László Bölöni quem está no comando da equipa.
Sim. Não fui uma contratação do treinador mas das pessoas que estavam à frente do Sporting. Estar ali era um sonho tornado realidade, estar inserido num grupo como aquele.

Houve algum jogador com quem sentisse maior empatia ou que o tivesse ajudado mais na integração?
Tendencialmente acabamos por nos dar com aqueles que têm uma vida muito parecida connosco ou que não têm filhos. Mas aos poucos acabei por me juntar também aos mais velhos e fazer amizade com muitos deles, que ainda hoje são amigos de casa. Um deles, aquele com quem fiquei com uma amizade maior, para a vida, é o Pedro Barbosa. É padrinho do meu filho. Também me dava com o Rui Bento, com quem fiquei com amizade próxima, de casa. Nessa altura a minha esposa já vai viver para Lisboa e acabamos por nos relacionar nesse primeiro ano mais com o Rui Bento do que com o Pedro Barbosa, porque o Rui Bento também tinha vindo do Boavista e o empresário era o mesmo. Ajudámo-nos mutuamente. Jantávamos muitas vezes com ele e com a mulher, Ana Bento, e eles foram os nossos padrinhos de casamento porque viveram o início da relação com a minha mulher.

Lembra-se do jogo de estreia pelo Sporting?
Nos primeiros jogos não era opção até que surge a hipótese de jogar em Leiria, porque o Sá Pinto tinha uma lesão. Acabo por ocupar o lugar dele nesse jogo, que por acaso correu muito bem. Não estava muito nervoso porque estava bem inserido e como já tinha vindo de um SC Braga... Se não estou em erro foi nesse jogo em Leiria que me estreei como titular.

Na altura em que integrou o plantel sénior da Académica de Coimbra

Na altura em que integrou o plantel sénior da Académica de Coimbra

D.R.

O Bölöni muito diferente do Cajuda?
Completamente diferente. O Cajuda era uma pessoa exigente, trabalhávamos muito forte, muito amigo dos jogadores, muito próximo, muito brincalhão, mas também muito "mau" quando tinha de ser. O Bölöni, apesar de também ser muito exigente e muito duro, porque as pré-épocas e os treinos dele eram muito intensos e fortes, já era um treinador mais tático. O Cajuda não ligava tanto à tática, uma das frases que ele dizia era: "Vão lá para dentro e divirtam-se". O Bölöni incluía muito treino tático, e como pessoa de leste que é, era mais frio, mais fechado, mas também tinha os seus momentos de interação com os jogadores. A língua acabou por criar uma distância porque ele na altura falava francês e o adjunto é que era o tradutor, a mensagem nunca passa da mesma forma.

Chega a jogar na equipa B.
Sim, com a pouca utilização que ia tendo e com a idade que tinha, eu tinha era que ter minutos nas pernas. Muitas vezes quando não era utilizado na equipa principal ia jogar à equipa B.

Isso não o chateava?
Ia mentir se não dissesse que não me deixava frustrado. Deixava, porque eu ambicionava jogar na equipa principal.

Quem eram os seus grandes concorrentes na equipa?
O Sá Pinto, o Ricardo Quaresma, que aparece nessa época com um fulgor enorme.... Eu acabo por ficar um pouco à sombra desses dois jogadores. Eles eram excelentes jogadores e tive mais dificuldade. Apesar de ter começado bem nesse jogo em Leiria, como disse, só com os jogos e o ritmo competitivo é que vamos ganhando a nossa confiança e o nosso estatuto. Curiosamente a seguir temos um jogo para Taça UEFA, na Dinamarca, se não estou em erro, uma 1ª mão, em setembro, e eu ia jogar porque tinha feito realmente um bom jogo em Leiria e senti que fazia parte do 11, só que entretanto acontece o 11 de setembro nos EUA e todos os jogos foram cancelados e adiados. Nesse entretanto o Sá Pinto acaba por recuperar da lesão e aquele élan que tive naquele jogo e que eventualmente poderia ter continuado nesse jogo na Taça UEFA, se as coisas me corressem bem, desvaneceu-se. O Sá Pinto recupera, volta a ser opção e eu volto a entrar outra vez naquele ciclo de não utilização. Entretanto há também o aparecimento do Quaresma. E as coisas não aconteceram.

De qualquer forma festejou o seu primeiro título ao serviço do Sporting.
E foi sem dúvida o mais especial por ser o primeiro. Gostaria de ter festejado com participação em muitos mais jogos porque tem outro sabor, mas festejei também com muita alegria, até porque não é para todos ser campeão nacional.

Na época seguinte continua a jogar na equipa B.
No fim da época por causa da pouca utilização tive algumas conversas com os dirigentes com o objectivo de sair. Surge o FC Porto numa eventual troca de jogadores que acabou por acontecer. Eu era um dos jogadores que o FC Porto pretendia. Acabou por ir o Ricardo Fernandes para o FC Porto e veio o Clayton. Eu fiz um pouco de força com os dirigentes para que as coisas acontecessem porque não estava a ser utilizado, queria jogar e era uma oportunidade boa, mas os dirigentes disseram-me que nem pensar que eu ia ficar ali, que iria ser aposta no próximo ano e que as coisas seriam diferentes. Eles estavam intransigentes e depois de ouvir esse voto de confiança da parte do Sporting também decidi ficar.

Nessa altura o diretor desportivo era o Carlos Freitas, certo?
Sim, os dirigentes eram o Carlos Freitas, o Ribeiro Telles e o Bettencourt. Supostamente eu era uma aposta clara para eles.

Quando verificou que isso não aconteceu sentiu-se enganado?
De certa forma, sim. Como é óbvio, não são os dirigentes que nos põem a jogar. Eu tenho de fazer o meu trabalho. O treinador continuou a ser o mesmo e eu acreditei que as coisas pudessem mudar e acreditava no meu valor e no meu trabalho. Mas nada mudou. Senti-me enganado, entre aspas, não os culpo, porque acredito que eles acreditassem em mim e no meu valor. Eles não são os responsáveis por me meter a jogar.

Depois da Académica Luís filipe foi para o SC Braga, em 1999/2000

Depois da Académica Luís filipe foi para o SC Braga, em 1999/2000

D.R.

Entretanto casou.
Sim, em 2003. Depois há uma mudança de treinador, vem o Fernando Santos e começo a época com ele.

Como foi o primeiro impacto com o ar carrancudo dele?
[Risos] O primeiro impacto é esse, de uma pessoa que parece estar sempre mal disposta e que está sempre a refilar com tudo e com todos, mas no fundo é um grande senhor, é um grande homem. Transparece essa imagem, e têm-na, mas também tem o outro lado, é um ser humano fantástico.

É nesse início de época que há o jogo de inauguração do estádio Alvalade XXI, em que o Luís faz o primeiro golo daquele estádio.
Exato. Eu começo a ser aposta dele, faço os primeiros jogos da época, mas infelizmente os resultados não foram os mais positivos, ele acabou por mexer na equipa e começou a optar por outros jogadores. Agarrou-se se calhar a jogadores mais experientes para ver se as coisas davam a volta e acabei por sair em janeiro.

Pediu para sair?
Sim.

Chegou a falar com o Fernando Santos e a perguntar-lhe porque deixou de ser opção?
Não tenho em mente uma conversa desse género, mas provavelmente devo ter tido uma conversa com ele em que foi dito que o melhor era procurar uma solução porque era novo, tinha qualidade e tinha de procurar o meu espaço. E eu queria era jogar.

Quando aparece o U. Leiria era o que estava à espera ou foi uma desilusão?
Para mim o interessante era um clube que me permitisse jogar, fosse ele qual fosse.

Gostou do Vitor Pontes?
Quando cheguei a Leiria comecei logo a jogar e a mostrar o meu valor e acabei por fazer uma segunda parte da época muito boa. O primeiro jogo que faço é contra o Benfica e acabo por fazer um golo. Quando se começa assim é tudo muito mais fácil. Acabei por ter uma preponderância enorme, a confiança vem ao de cima e tive um final de época bom.

Regressa a Alvalade?
Regresso a Alvalade na pré-época, com o [José] Peseiro, mas mais uma vez volto a não ser opção. São gostos.

Peseiro disse-lhe diretamente que não contava consigo?
Sim. Disse que era melhor eu procurar outra solução porque provavelmente ali não iria ter muitas oportunidades e eu fiz-me à vida. Acabei por ter o interesse do Marítimo, que aceitei de pronto, porque era um clube bom, que lutava sempre pelos lugares cimeiros e acabei por ir emprestado mais um ano.

Foi sozinho ou com a sua mulher?
Nessa altura a distância já era considerável e a minha mulher acabou por deixar o emprego que tinha para me acompanhar.

Gostou de viver na Madeira?
Adorei. Não sei se foi por estar só lá um ano ou não, mas adorei. Têm umas condições de vida espetaculares, o clube tem uma estrutura muito boa, na altura já ia às competições europeias. Fiz uma época também muito boa.

Quando chega quem é o treinador?
O Manuel Cajuda. Eu vou porque ele lá está, ele conhece-me como ninguém e sabia daquilo que eu era capaz. Infelizmente na 1ª jornada o Cajuda é despedido. Acaba por vir o Mariano Barreto, que me mete a jogar a lateral direito. Ele teve uma conversa comigo e disse-me que não estava muito satisfeito com o lateral que tinha e como para extremo tinha o Alan e tinha-me a mim, ele via-me como lateral direito. E fizemos uma ala direita fortíssima porque o Alan também era um jogador que ajudava muito defensivamente.

Mas o Mariano Barreto não fica até final da época.
Não, acaba por sair porque o nome dele surge envolvido no processo Casa Pia e ele achou por bem demitir-se porque tinha de defender a sua honra. Depois há um treinador da formação, o Juca, que fica até final da época.

No dia do casamento

No dia do casamento

D.R.

Não fica no Marítimo porquê e como surge novamente o SC Braga?
Eu só vou emprestado um ano pelo Sporting. Não continuo porque tenho interesse de outros clubes. Na altura o Marítimo queria que eu continuasse. A minha mulher entretanto engravidou e como iríamos ter um filho no ano seguinte, essa foi também uma das razões que me levou a não ficar na Madeira. As condições que me davam eram ótimas, mas ter um filho na Madeira, os dois sozinhos, preferimos vir para o continente de forma a podermos estar mais perto da família e termos outro apoio.

Além do Marítimo e do SC Braga que outros clubes estavam interessados?
Tive proposta do Boavista, não muito a sério, mas algumas abordagens. E do V. Guimarães.

No SC Braga estava o professor Jesualdo Ferreira. Isso ajudou a optar pelo SC Braga?
O que ajudou foi o facto de já ter sido feliz em Braga e de acreditar que podia ser novamente feliz e dar outra vez dar o salto. O Jesualdo também ajudou, porque já me conhecia e eu já o conhecia das seleções. E também porque as conversações com o V. Guimarães na altura foram um bocado estranhas.

Como assim, pode explicar?
Eu e o meu empresário fomos ter com o presidente Magalhães ao escritório, numa das fábricas que ele tem, para saber que condições financeiras me ofereciam, e em duas horas em que lá estive nunca me apresentou uma proposta. Eu dizia: "Mas faça uma proposta para eu ver se estou interessado ou não". E ele vinha sempre com a conversa: "Não, não. Eu tenho de ter a certeza de que tu queres mesmo vir jogar para o Guimarães". E eu dizia-lhe: "Eu quero, por isso é que estou aqui, mas preciso que você me diga o que me oferecem"; "Não, porque eu só quero jogadores para o Vitória que queiram estar no Vitória e portanto não vou dar proposta nenhuma, tu tens de me dizer que queres vir para o Vitória"; "Mas eu quero ir para o Vitória, só que você tem de me dizer o que me oferece..." E não saíamos daquilo. Como já tinha uma proposta do SC Braga e vi que dali não ia ter grande resposta, decidi não esperar mais.

Entretanto nasce o seu primeiro filho.
Sim, nasce a minha filha, a Lua.

É um nome original.
[Risos] O nome que nós queríamos era Lua. Ainda estava dentro da barriga da mãe e já era chamada de Lua. Só que no registo não deixaram colocar esse nome. E na altura tivemos de escolher outro, Beatriz. Mas sempre a tratamos por Lua, toda a família e na escola também. Portanto é Lua, para nós será sempre Lua. Tanto é que estamos agora num processo de alteração de nome, porque ela não se identifica como Beatriz. Na escola se chamam Beatriz ela nem olha. Como Lua já entrou nos nomes permitidos, estamos a tratar da alteração.

Luís Filipe foi para o Sporting em 2001/02

Luís Filipe foi para o Sporting em 2001/02

Nigel French - EMPICS

Voltando ao SC Braga e ao professor Jesualdo: o estilo era o mesmo que tinha conhecido na seleção?
Sim. Os métodos eram os mesmos, as diferenças estavam no facto de lidarmos com o Jesualdo diariamente, enquanto na seleção era esporádico. Mas continuava a ser um treinador de formação, continuava a formar jogadores, a ensinar posicionamentos, apoios dos pés, apoios defensivos, coisas que normalmente em futebol sénior já se devia saber. Mas como ele via que aquilo não estava ainda muito bem, tinha essa veia de treinador de formação. Foi uma época boa, fiz imensos jogos, em muitas posições.

Na época seguinte tem três treinadores: Carlos Carvalhal, Rogério Gonçalves e Jorge Costa. Dos três com qual se identificou mais?
Com o Jorge Costa. Além do mais foi um jogador extraordinário e a forma como lidava com os jogadores, a forma próxima com que trabalhava, eu gostei. O Carvalhal na altura aparece até como uma grande aposta, as coisas não estavam a correr da melhor forma, mas é um excelente treinador, como está à vista. Do Rogério não tenho assim uma grande opinião.

Quando acaba essa época já sabia que ia para o Benfica?
Não. Entretanto, a meio da época anterior, já tinha tido convite de um clube estrangeiro para sair.

Qual?
Do Anderlecht.

E não foi porquê?
[Risos] Porque o presidente António Salvador pediu muito dinheiro por mim e as coisas não se concretizaram. Havia um interesse forte da parte deles, mas eles tinham um determinado valor para investir em mim e o valor pedido pelo Salvador era incomportável. Insisti muito com ele para que o negócio acontecesse, mas ele foi intransigente. O Benfica surge já numa fase mais adiantada da pré-época em que é o Fernando Santos o treinador do Benfica.

Agradou-lhe logo a ideia de jogar na Luz?
Como é óbvio. Já só tinha mais um ano de contrato portanto o presidente do Braga não pôde abrir a boca, como se costuma dizer, porque eu passado seis meses era um jogador livre. Ou ele fazia ali algum encaixe financeiro ou dificilmente iria fazer. Depois de algumas insistências vou para o Benfica no limite dos limites, no final de agosto. Sei que faltavam poucos dias para eu poder ser inscrito na Liga dos Campeões. Vou a contrarrelógio para ainda poder entrar nessa lista.

Luis Filipe jogou no Marítimo em 2004/05

Luis Filipe jogou no Marítimo em 2004/05

D.R.

Como foi entrar no balneário do Benfica?
Sinceramente, na altura foi uma desilusão grande. Não pelos colegas, mas por causa de um clube que estava um bocado perdido. Na altura saí de um Braga com uma estrutura bem melhor, com tudo muito mais fácil do que no Benfica. E eu pensava que seria ao contrário, que seria mais fácil jogar no Benfica. A equipa estava sob uma grande pressão, o clube também, os resultados não eram bons. Tanto é que o treinador é despedido logo na 1ª jornada.

E vem o Camacho.
Sim. Mas era um clube completamente desorganizado e a própria época foi terrível para todos nós. A estrutura à volta do futebol profissional, ninguém sabia quem é que fazia o quê... Do Camacho, gostei dele, porque ele não olhava a nomes. Quem trabalhasse e quem corresse e quem treinasse melhor era quem jogava. E por isso eu joguei muitos jogos. Se joguei bem ou mal, se correram bem ou mal, já é outra conversa. O que é certo é que eu era aposta dele em muitos jogos porque eu trabalhava forte. Sei que depois, a partir desse ano, o Benfica muda completamente a sua forma de estar.

Deve-se a quem? Ao Camacho?
Não, até porque ele sai antes da época terminar devido também aos maus resultados e a toda esta instabilidade que o clube atravessa. Pelo menos, eu, de dentro, é isto que sinto, uma instabilidade muito grande. Acaba por vir depois o Chalana e o Rui Águas. A época foi muito penosa. No ano a seguir veio o Quique Flores, o Rui Costa acaba por assumir o papel de diretor desportivo e eu acho que a partir desse ano as coisas começam a encarrilar e a haver uma estrutura mais vertical, não tão abrangente e com tanta gente a fazer não sei o quê, em que toda a gente manda e ninguém manda.

Mas para si não foi muito bom, uma vez que acaba emprestado ao V. Guimarães.
Eu e muitos dos que terminaram essa época. Essa época foi muito penalizadora para muitos jogadores. Muitos mesmo. Os resultados não foram bons e os jogadores acabaram por sofrer as consequências.

Foi o Quique Flores que lhe disse que não contava consigo?
Nunca ninguém me disse que contava ou deixava de contar comigo, pura e simplesmente estava a fazer pré-época e disseram-me que havia uma possibilidade forte de poder ir para o Guimarães, era Manuel Cajuda o treinador. Eu já estava a sentir o que é que daí vinha, porque os jogadores sentem e vêem na pré-época o que se vai passar. Mais uma vez o importante para mim era jogar. E mudo-me de armas e bagagens para Guimarães durante um ano.

E nesse ano nasce o segundo filho.
Sim, o Martim. Nasce em fevereiro de 2009. Nessa época em Guimarães comecei a ter algumas lesões musculares que me impediam uma assiduidade maior nos jogos.

Qual foi a maior lesão que teve na carreira?
Tive muitas lesões musculares. Não lesões graves, mas muitas musculares. Só fiz uma cirurgia e até foi simples, ao menisco interno, e recuperei mais rápido do que a uma lesão muscular. Tive uma com um tempo de paragem muito grande, que já foi no meu primeiro ano de Olhanense, em que estive seis meses praticamente parado.

Após essa temporada em Guimarães, regressa à Luz?
Regresso ao Benfica numa situação indefinida. Sem me apresentar no início dos trabalhos. Foi-me dito para não me apresentar porque não contavam comigo. Estava à espera de resolução até que de repente me chamam a dizer que vou integrar o plantel.

A que se deveu a mudança?
Julgo que pelo facto do Jorge Jesus não estar muito satisfeito com o lateral direito que lá estava, que se não estou em erro era um brasileiro também chamado Luís Filipe, que tinha sido contratado antes dele chegar. O que me contaram é que ele queria outra solução e que lhe falaram no meu nome e ele reagiu: "Se temos jogadores aqui da casa, ele que venha". E foi um bocado assim.

Luís (à direita) com os pais, Artur e Isabel, e o irmão Miguel

Luís (à direita) com os pais, Artur e Isabel, e o irmão Miguel

D.R.

Que tal foi o embate com JJ?
Foi forte devido à dinâmica que ele tem nos treinos.

Não é propriamente o treinador mais simpático nos treinos.
Não. Mas nunca tive, pelo menos em treino, grandes problemas. Sempre fui um jogador que tenta trabalhar no máximo, mas erro, como qualquer um erra.

Nunca levou nenhum dura dele?
Que me lembre não. E um dia até o confrontei um pouco com isso, porque não era opção e às vezes não era opção em detrimento de jogadores adaptados à posição e como é óbvio não me sentia feliz. Uma coisa é o treinador que tem dois jogadores para aquela posição e opta por um e está tudo bem. Outra coisa é quando esse jogador não está apto, por alguma razão, e adapta-se jogadores que nunca jogaram naquela posição.

Quando o confrontou qual foi a reação?
Confrontei-o uma vez por isso. Disse-lhe que ele nunca ou raramente me corrigia nos treinos. Se raramente me corrigia era porque estava a fazer as coisas bem, e se assim era, não fazia muito sentido não ser a opção quando a opção principal dele não estava disponível; e o porquê de adaptar outros jogadores que não conheciam a posição. Ele não me conseguiu responder ou pelo menos não me deu uma resposta que eu aceitasse como válida. Deu uma resposta de que "para aquele jogo achei que a melhor opção era aquele jogador". É uma resposta vaga. Acabei por jogar muito pouco com ele nos dois anos. Muito por mérito do Maxi Pereira, era o meu concorrente direto. Quando tu tens um jogador com aquela capacidade competitiva e regularidade, só tinha era que bater palmas e estar orgulhoso de poder trabalhar com um jogador daquela dimensão e esperar pela minha oportunidade, que quando acontecia era muito esporadicamente, e às vezes em condições um bocado difíceis e às vezes nem opção era, como disse.

Mas foi campeão no Benfica. Teve um sabor diferente do título pelo Sporting?
Teve, porque o primeiro é sempre o primeiro. Quer num, quer noutro, joguei praticamente a mesma coisa. Por isso, por ser o primeiro, foi mais especial.

Uma vez que viveu os dois rivais por dentro, acha que o Benfica é um clube maior do que o Sporting?
Eu não sei se diria isso. Ambos são de uma grandeza enorme. Têm milhares de adeptos, ganharam e ganham títulos em todas as modalidades. O que senti é que és mais reconhecido publicamente sendo jogador do Benfica do que do Sporting. Digo isto porque em circunstância iguais, ou seja, jogador que jogou ao mesmo nível quer num clube que noutro, com pouca utilização, era muito mais reconhecido na rua quando jogava no Benfica do que no Sporting. Jogando no Sporting pura e simplesmente não sentia o olhar das pessoas a dizer: "Olha, vai ali o 'não sei quem' do Sporting".

Apesar de não ter sido muito utilizado por Jorge Jesus, reconhece-lhe o valor?
É um excelente treinador, quer a nível técnico e táctico, quer pela sua exigência, quer pela forma como ele vê o futebol, como cria determinadas coisas. Eu já o dizia há algum tempo em conversas entre amigos e foi curioso que há pouco tempo vi um jogador a dizer a mesma coisa, o Filipe Luís do Flamengo. Isto é, eu quando apanho o JJ no Benfica tenho já 29 anos, por aí, sou um jogador mais do que feito, e o que se nota na realidade é que nós pensamos que já sabemos tudo com aquela idade, porque já passamos por tantos anos de futebol, mas o que é certo é que nós aprendemos ainda com ele muita coisa. O Filipe Luís disse-o há pouco tempo, e era uma coisa que eu também dizia. Isto só para dar a perceber às pessoas o tipo de treinador que ele é. Nós aprendemos coisas porque ele está sempre a inovar na forma de olhar para o jogo. Tem depois a parte humana, em que acho que deixa muito a desejar. Para mim, nessa altura, não sei se entretanto mudou ou não, é uma pedra que ele tem no sapato.

Ele não se liga muito aos jogadores?
Eu acho que ele às vezes não é correto com os jogadores. O ser bruto faz parte, mas às vezes não era correto, e isso marca os jogadores. Quando tu sentes que um treinador não é correto contigo ou com os teus companheiros isso toca-te. Por muito bom treinador que tu sejas, isso mexe com os jogadores e às vezes pode refletir-se no campo. Acho que os jogadores acabam por ficar um bocado saturados daquela forma de ser. Se formos olhar um pouco para as equipas do JJ, ele praticamente tem sempre muito jogadores novos, sangue fresco na sua equipa, porque a saturação é tanta nos jogadores que dificilmente conseguem aguentar muitos anos juntos. A não ser a espinha dorsal, que tem de ser mantida, mas ali à volta ele precisa de sangue fresco. Ele tem essa necessidade. Pelos menos é a sensação que me dá e aquilo que vejo de fora. Por isso se calhar as equipas dele, sobretudo aqui, no último terço do campeonato, caíam muito fisicamente, por causa desse desgaste, não só físico, mas principalmente mental. Mas, como treinador, se olharmos só para as vertentes técnicas, tácticas e de campo - mas para mim um treinador não é só isso -, ele é um treinador de top mundial.

Luís Filipe com os dois filhos ao colo nos festejos do campeonato conquistado pelo Benfica em 2009/10

Luís Filipe com os dois filhos ao colo nos festejos do campeonato conquistado pelo Benfica em 2009/10

D.R.

Quando chega ao final da segunda época no Benfica, já sabia que era a última época lá?
Sim. Nós temos um palmo de testa. Percebemos que dificilmente continuaria no Benfica com o número de jogos que tinha. Terminando o contrato a minha ligação era mais do que certo que terminaria. Ainda para mais com a idade que já tinha, senti que era o fim da linha ali. As coisas desenrolaram-se normalmente e procurei outras soluções.

Pensava continuar em Portugal, preferia ir para fora ou não tinha nada decidido?
Não tinha nada decidido. Sabia que havia de ser muito difícil e além do Olhanense foram poucos os clubes que se mostraram interessados. Um jogador com 30 anos, com meia dúzia de jogos nos últimos dois anos, os clubes ficam um bocado na espera e é mais difícil apostarem, mesmo sendo um jogador saído do Benfica.

Quem está no comando no Olhanense?
Daúto Faquirá, que sai durante a época, e entra o Sérgio Conceição.

Foi estranho ser treinado por Sérgio Conceição, com quem partilhou quarto em pequeno?
Foi. Mas pronto, já não nos víamos há imenso tempo e nunca mais tivemos ligação. Mas acabou por ser natural, de jogador para treinador, e gostei dele como treinador, pela forma dele ser, pela intensidade que põe, pelo carácter que tem.

Melhor do que o Faquirá?
De certa forma, sim. Acho que o Faquirá se calhar estava mais acomodado. O Sérgio não. Vem com a vontade toda, até porque é a primeira equipa que treina como treinador principal.

Não joga muito por causa da tal lesão que o obriga a estar seis meses parado?
Sim, foi uma fratura de stress que tenho na sacroilíaca, que é uma coisa rara de acontecer em futebolistas. Normalmente acontece em corredores de fundo. Até por isso houve muitas dificuldades em descobrir o que é que se passava comigo, porque eu tinha imensas dores cada vez que corria ou que fazia carga na perna do lado da fratura e ninguém percebia. Fiz vários exames. Como é uma zona que não dá para fazer cirurgia, só o tempo é que cura, é esperar o osso calcificar.

A época seguinte começa com Sérgio Conceição mas há muitas mudanças de treinadores. O que aconteceu?
O clube começa a ter algumas dificuldades financeiras, a exigência do Sérgio é muita, em termos de condições para os seus jogadores e para ele, para trabalhar. As coisas começam a não surgir, e acaba por se dar a rutura com o treinador. A época continua, mas a muito custo, com muitos ordenados em atraso. Muitos jogadores a não quererem fazer jogos enquanto não recebessem.

Esteve quanto tempo sem receber?
Quatro meses. Eu, juntamente com os mais velhos, tentávamos junto dos mais novos, que não recebiam e que infelizmente não tinham tido a carreira que nós tivemos e não tinham uma almofada que os pudesse ajudar naquela altura, que eles percebessem que as greves e o não jogar não valia de nada, porque não era por isso que iríamos receber. Só havia uma solução, era ir jogar e demonstrar o valor que tinham para tentarem ir para outros clubes. Porque não jogando dificilmente os outros clubes iriam buscá-los. Não estando a jogar não só não demonstras o teu valor como passas a imagem de ser um sindicalista, e os clubes começam a pensar: "Eh pá, aquele depois fica aí um ou dois meses sem receber e já não quer jogar..." Sabemos que isto funciona assim.

Com a mulher, Inês Diogo, e os filhos Lua e Martim

Com a mulher, Inês Diogo, e os filhos Lua e Martim

D.R.

Quando sai o Sérgio Conceição entra Cajuda.
Mas não termina. A três jornadas do fim ele sai e vem um treinador de Olhão, Bruno Saraiva, que faz os últimos três jogos. Conseguimos o milagre de nos mantermos na I Divisão. Eu acabo contrato, entretanto o Olhanense é comprado por uns italianos, que saldam todas as dívidas com os jogadores. Os italianos, através do Miguel Pinho, que hoje é empresário do Bruno Fernandes, nas conversações para acertarmos as contas do ano transato, falam na eventualidade de eu continuar no clube mas nunca mais fui abordado. Acabei por ficar um pouco sem clube, entre aspas. A equipa da época anterior praticamente foi toda embora, eu não tinha muito mais ambições, até porque a minha família já estava estável no Algarve, tínhamos mudado de casa bastantes vezes e por isso queria manter-me aqui, no Algarve. E acabei por assinar por mais um ano com o Olhanense, mas antes disso passei por um processo que me faz rir e que demonstra aquilo que sou como pessoa.

Conte lá.
Eu acabo contrato, como disse. Entretanto, como tenho interesse em aqui ficar, tento chegar novamente à conversa, se há interesse, se não há. Não sei se por ter tido algumas lesões no passado, se calhar havia dúvidas em relação à minha condição fisica e propõem-me ir à experiência. Achei estranho e disse-o, não acho muito normal um jogador que acaba contrato que vá fazer uma pré-época nesse mesmo clube à experiência. Mas tudo bem. Não tenho qualquer tipo de problemas com isso, não tenho vergonha de nada, vamos embora. E lá fui uma semana à experiência. E como eu estávamos muitos, porque nessa altura vieram muitos jogadores de fora à experiência, sobretudo muitos não italianos mas vindos de Itália. Eu era mais um. Apesar de ter já a carreira que tinha e de ter acabado de jogar naquele mesmo clube, fui humildemente à experiência. Ainda tentei demover ou tentar perceber junto do Abel Xavier, o treinador escolhido pelos italianos nessa altura, mas ele próprio achou que seria bom eu fazer aquela semana.

Como correu?
Acabaram por apertar comigo fisicamente para ver se eu não aguentava. Já estavam a treinar há 15 dias quando iniciei a pré-época e os treinos. E passado um ou dois dias tivemos um jogo treino e eu fui o único que joguei o jogo inteiro. As coisas felizmente correram bem.

Abel Xavier ficou pouco tempo, não foi?
Ficou umas oito jornadas.

O que achou dele enquanto treinador?
Curiosamente até estávamos a fazer um bom trabalho, atendendo às circunstâncias do início de pré-época, com muitos jogadores, com muita gente à experiência, foi difícil montar uma equipa. Até estávamos a ter um início de época interessante mas os responsáveis pela SAD entenderam que provavelmente tínhamos capacidade para mais e acabaram por mandar embora o Abel.

Mas gostou dele enquanto treinador?
Sim, sim. Com as suas diferenças, que toda a gente conhece e é público, com a sua forma de estar.

Diferenças em que aspecto?
Com a aquela forma de falar, mesmo para os jornalistas, aquelas filosofias que ele muitas vezes contava... A história do treinador que vem da palavra “o que treina a dor” [risos]. Um treinador muito nessa vertente, mas sempre muito próximo dos jogadores, muito à imagem de quem já foi jogador e sabe o que é que tem de fazer para ter uma equipa saudável. Como treinador de campo também era bom treinador e eu gostei de trabalhar com ele, tanto é que com ele fiz bons jogos.

Depois vem o Paulo Alves. Outro estilo.
Sim, diferente. E de certa forma acabou por me desiludir. Eu tinha uma perspetiva diferente do que aquilo que depois senti. Um treinador que já tinha estado em vários clubes da I Liga, como o Gil Vicente, a fazer bons trabalhos e boas classificações. Vejo um treinador, pelo menos para mim, com muito pouco conteúdo a nível de treino, com um discurso muito mau, não no sentido de ser mau, mas no sentido de não conseguir passar a mensagem, tinha muita dificuldade em passar a mensagem e depois a nível de treino... Trabalhava-se o ‘qb’ e depois era um bocado a anarquia total.

Ele também não esteve muito tempo.
Não, porque curiosamente ou não, ele entra e nós passámos por uma série negativa de resultados. Até então com o Abel Xavier, quando ele sai, nós estamos a meio da tabela, depois entra o Paulo Alves e, se não estou em erro, estivemos praticamente nove ou dez jogos sem ganhar, com um empate ou outro pelo meio. Fomos por ali abaixo e a equipa ressentiu-se muito com isso.

Luís Filipe criou um negócio de produção de framboesas em 2014

Luís Filipe criou um negócio de produção de framboesas em 2014

D.R.

Sentia também que seria a sua última época enquanto jogador?
Provavelmente, sim. Não disse “este é o meu último ano”, deixei que as coisas acontecessem naturalmente. As coisas não correram bem, o clube acaba por descer..

E não surgem outras propostas interessantes?
Não, e para estar a mudar a família numa altura destas, já com três anos de estabilidade aqui, acho que os meus filhos nunca tinham estado tanto tempo num só sítio, acabei por meter os pratos na balança. Se fosse eu sozinho teria continuado a jogar, nem que fosse noutro lado qualquer.

Nessa altura já tinha pensado no futuro?
Esse foi um dos pontos que me fez terminar e também o facto de já estar saturado das minhas lesões musculares. Quer queiramos, quer não, tira-nos alguma rentabilidade e vai-nos tirando algum prazer, porque estamos dois, três jogos a jogar e de repente vem uma lesão e ficas quatro ou cinco de fora. O outro factor foi que no último ano de contrato iniciei um projecto aqui no Algarve, um negócio. Portanto junto o útil ao agradável. Tenho o negócio a correr, que me vai ocupar tempo, tenho a família que gosta de estar aqui, juntou-se tudo a favor de terminar de vez.

Como surge e que negócio é?
O negócio surge porque conheço os pais de uma colega da minha filha na escola, que trabalham na área da comercialização de pequenos frutos, ou de frutos vermelhos como queiram chamar. E queria continuar no Algarve, mas tinha de fazer alguma coisa. Isto aqui é muito virado para o turismo, restauração, muito sazonal e então esses amigos disseram-me: "O Algarve tem umas condições óptimas para a produção destes frutos, porque é que não montas uma quinta de produção disto? Já tens o canal de distribuição". Como estava muitas vezes com eles, a ver muito aquele tipo de negócio, achei interessante. Resolvi avançar.

Comprou um terreno...
Não, aluguei um terreno e montei uma quinta para produzir framboesas, que na altura era o que estava mais em voga, e como tinha o escoamento todo feito... Fiz uma quinta com três hectares e meio de estufas, de área de produção coberto, a Berry Land.

É o que ainda tem ou já aumentou?
É o que ainda tenho. No primeiro ano fiz só um hectare e no ano a seguir fiz o resto. Sempre no mesmo sítio. Na altura aluguei um terreno de dez hectares porque era para fazer com mais dimensão, mas tivemos alguns problemas porque numa parte do terreno não nos deixavam fazer construção de estufas por causa do PDM, coisas mais burocráticas, e acabámos por só conseguir fazer os tais três hectares e meio. Acabei por cancelar o aluguer de metade do terreno, fiquei só com uma metade, que é o que tenho ainda.

Quem são os seus clientes? São portugueses ou vai tudo para exportação?
Basicamente nós vendemos a empresas que são comercializadoras aqui em Portugal e eles é que têm os clientes, mas 99% da fruta é para o exterior. Eu não tenho clientes diretos no estrangeiro, vendo a um comercializador e esse é que faz as vendas aos clientes finais.

Luís Filipe na sua estufa de framboesas, no Algarve

Luís Filipe na sua estufa de framboesas, no Algarve

D.R.

Já lá vão seis anos de negócio. Percebia alguma coisa de agricultura e de framboesas?
Não, nada. Esses meus amigos que tinham essa empresa de comercialização de pequenos frutos, ela também tem formação em engenharia agrónoma, também acabou por nos ajudar, mas acabei por contratar uma engenheira agrónoma que montou todo o projecto, ou seja, tudo o que era necessário para o negócio, porque que não percebia nada de agricultura e ainda para mais isto é uma agricultura um bocado de ponta, não é uma agricultura tradicional.

Quantos quilos de framboesa é que produz por ano?
Depende muito das variedades que se têm, há umas que são mais produtivas outras menos, mas em média nos três hectares por ano sei lá, à volta de 90 toneladas.

Quando percebeu que não havia clubes que lhe interessasse e que ia pendurar as botas, não lhe custaram os primeiros anos sem futebol?
Como disse, eu começo isto em fevereiro/março de 2014, com a procura de terreno, orçamentos para aqui, orçamentos para ali, já a trabalhar um bocado nisso e depois quando termino a época em junho, tenho o negócio a ser montado no terreno, mergulhei completamente naquilo e esqueci-me completamente que tinha sido jogador de futebol. Absorveu-me tanto montar o negócio e ainda para mais estávamos um pouco em contrarrelógio porque tínhamos de plantar em setembro, era o limite. Por isso não tive aquele impacto de pensar: "E agora o que é que eu vou fazer?

Já lhe bateu a saudade do futebol?
Começou a bater se calhar quando as coisas já corriam de forma mais sustentada. Talvez ao fim dois anos e qualquer coisa é que começou outra vez a vir aquele bichinho do futebol, depois o meu filho também joga aqui no Quarteirense. Comecei a ter mais tempo livre porque o negócio em si vai andando por ele. Embora, se olhar para trás, se calhar faria as coisas de maneira diferente porque pensou-se o negócio de uma forma na altura e as coisas acabaram por não acontecer dessa forma. Não estou arrependido mas tinha umas perspectivas muito melhores. O mercado da framboesa ficou muito saturado e como é um mercado onde os preços são ditados semanalmente, quase tipo bolsa, os preços médios caíram muito. Dá mais trabalho, mas temos de continuar.

Gostava de voltar a estar ligado ao futebol?
Gostava. Agora que passou aquele turbilhão inicial do negócio, estou cada vez mais a sentir que realmente aquilo que eu sei fazer é o futebol, é onde eu estive a vida toda.

Vê-se a fazer o quê?
Não sei, já me vi menos como treinador. Na altura não me via como treinador, acho que não tenho perfil para treinador, pelo menos por aquilo que eu acho que um treinador tem que ter. Um treinador tem que ser líder e eu não o sou. Não significa que não o possa ser e isto às vezes… Tive uma oportunidade numa altura de entrar na Associação de Futebol do Algarve, até estava numa lista.

Do guarda-redes Ricardo?
Exatamente, mas acabámos por não ganhar e foi a única coisa que tive mais próxima de estar no futebol.

Estaria mais confortável como dirigente?
Acho que sim porque é como lhe disse, acho que não tenho perfil para ser treinador, ou pelo menos não me via como treinador. Agora já me vejo mais.

Está a pensar em tirar algum nível do curso?
Neste momento estou. Não significa que ao tirar os cursos de treinador vá ser treinador. Vou tirar porque acho que é uma mais-valia e a gente não sabe o dia de amanhã.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

D.R.

Qual foi a maior alegria e a maior tristeza na carreira?
A maior alegria sem dúvida a conquista dos títulos e a inauguração do estádio de Alvalade. Esses foram desportivamente os momentos mais felizes pelo significado que têm. A maior frustração foi não ter atingido um nível mais alto, quer no Sporting, quer no Benfica.

Nunca foi convocado para a seleção A?
Não. Esse não posso dizer que é um momento mau porque não o vivi. Calculo que se tivesse atingido um patamar mais alto no Sporting e no Benfica as coisas teriam acontecido. Acredito que poderia ter acontecido na altura em Braga porque fiz excelentes épocas mas pronto, se olharmos para trás e se olhar para os meus concorrentes diretos na altura...

Quem eram?
O Miguel, que jogava no Belenenses e que jogou no Benfica, o Paulo Ferreira, que estava no Chelsea... Só esses dois, que são da minha idade, não havia muito que eu pudesse reclamar. Numa altura em que às vezes fazem aquelas convocatórias para ver como é que os jogadores se sentem naquee ambiente e tudo mais, acho que podia ter acontecido, mas não fico de forma alguma frustrado, acho que a minha carreira não fica beliscada por isso.

Tem ou tinha superstições?
Superstições acho que temos todos. Se calhar era mais uma coisa do género, eu naquele jogo correu-me muito bem e fiz isto assim, assim e assim, vou fazer tudo igual outra vez. Mas depois o jogo já corria mal e já não ligava aquilo. Portanto não tinha nada que fosse permanente, era mais ir ao sabor.

É um homem de fé?
Sou, desde miúdo, fiz a catequese, fiz a primeira comunhão, fiz a profissão de fé, casei-me pela igreja, os meus filhos são batizados... Agora, não vou à missa todos os dias. Não sou praticante, mas sou católico.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Acho que não fiz assim nada por aí além. Se calhar foi ter comprado na altura um Porsche Cayenne.

Tem tatuagens?
Não.

Tem algum hobby?
Jogar padel.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
[Risos] Por acaso nunca pensei muito nisso, mas acho que provavelmente o sonho de qualquer jogador é jogar nos clubes top da Europa, como Real Madrid, Barcelona e por ai fora. Mas acho que tinha os pés bem assentes na terra e percebia que era um sonho impossível.

Tem noção de que é o último jogador a ser campeão pelo Sporting e pelo Benfica?
Não. Sabia que poucos o foram, mas não sabia que fui o último.

E histórias para contar? Não tem nenhuma?
Tenho. Em Braga, com o Cajuda. Muitas vezes íamos para o Bom Jesus correr na mata. E no final do treino, depois de levarmos uma tareia física, ele punha-nos todos nas escadinhas de um coreto que lá havia. Uns em cima, outros no meio e outros em baixo. E ele dizia: "Eu vou ser o maestro e vocês aí da fila de trás tocam os ferrinhos e têm que fazer pim, pim, pim. Vocês a seguir são o bombo, têm que fazer pum, pum, pum. Os de baixo são a corneta..." Ele inventava instrumentos, depois fazia o som e nós tínhamos de fazer o som. Ele pegava num pauzinho e punha-se a fazer de maestro e nós começávamos "pim, pim, pim" todos em coro "agora os do meio, agora todos juntos", ele ia inventando assim. Era um momento de descontração, ficávamos a rir das nossas próprias figuras. Acabava por ser engraçado porque depois de um treino daqueles, em que só nos apetecia bater no treinador, ele atenuava essa sensação com aquilo. Mas às vezes também era mauzinho e tinha coisas que não percebia.

Conte lá.
Uma determinada altura estava lesionado com uma entorse no pé e o mister Cajuda num daqueles dias em que vinha mais zangado, chega lá, vai ter comigo e pergunta-me se estou em condições de treinar, ao que respondo que não, porque ainda me dói. Ele pergunta-me se eu consigo andar, eu digo que sim, andar já consigo. Ele vira-se: “Então vais para o campo com os teus colegas”. Eu lá fui, sem saber muito bem o que iria fazer. O que é certo é que durante todo o treino, enquanto os meus colegas faziam o treino normal, eu estive o treino inteiro a andar à volta do campo e estava um daqueles dias de inverno, de chuva muito intensa. Estive praticamente uma hora e meia a andar à volta do campo, a olhar para os meus colegas a treinarem [risos].