Tribuna Expresso

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A casa às costas

“O Eriksson regressou ao Benfica rico e sem personalidade. Já não era pobre, sabe como é o dinheiro: doutores há muitos, médicos poucos”

Na primeira parte da entrevista, Álvaro Magalhães conta como foi entrar no balneário dos 'minhocas', na Luz, que ficava mesmo em frente ao dos 'cobras' - e o que isso significava para quem lá andava. E também percorre uma galeria de treinadores que foi apanhando no Benfica e noutros clubes, revela atos eleitorais questionáveis em tempos idos - e critica alguns colegas no caso Saltillo

Alexandra Simões de Abreu

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Nasceu em Cambres, concelho de Lamego há 59 anos. Fale-nos um pouco da sua família e das suas raízes.
Tenho mais três irmãos, um já não está entre nós, o mais velho, os outros são mais novos do que eu, uma irmã e um irmão. O meu pai foi militar, ligado aos Rangers e aos Comandos, operações especiais. A minha mãe era doméstica, ajudava os pais, os meus avós que tinham uma mercearia e padaria e trabalhava lá com eles.

O futebol foi uma paixão de menino ou apareceu mais tarde?
O futebol começa na rua, era o desporto que gostávamos de praticar. Em primeiro lugar eram os estudos, os nosso pais diziam-nos que primeiro tínhamos de estudar.

E gostava da escola?
No início, não. Mas todos tínhamos de ir à escola senão a guarda ia às nossas casas falar com os nossos pais. Era um regime diferente, um regime difícil e nós tínhamos mesmo de ir às aulas. Eu gostava de estudar e dos professores que eram muito exigentes naquela altura, não tem nada a ver com os professores de agora. Eram muito rigorosos. Nos intervalos procurávamos sempre jogar à bola.

Quando era pequenino torcia por algum clube?
Naquele tempo, éramos miúdos e ouvíamos os relatos dos jogos do Benfica e do Sporting e naquela aldeia e em Lamego éramos mais sportinguistas. Mas é evidente éramos crianças não sabíamos bem, o que queríamos era ver futebol, gostávamos de ver os jogadores. Naquela altura nem todos tinham televisão, nem havia jogos na televisão, só ouvíamos o relato na rádio.

Lá em casa o seu pai torcia por algum clube, era adepto de futebol?
O meu pai era portista, porque a maioria da família dele é do Porto, alguns eram feirantes na sua profissão. O meu irmão mais velho era benfiquista.

O Álvaro para contrariar quando era pequenino ia atrás do Sporting?
Sim, mas éramos crianças.

Tinha ídolos?
Sim, já ouvíamos falar do Eusébio e do Coluna. O Eusébio a correr daquela maneira, era sempre o mais falado e foi sempre o nosso ídolo.

Faltava às aulas para ir jogar futebol?
[risos] Faltava. Os nossos pais andavam sempre à nossa procura e quando rompíamos as sapatilhas ou os sapatos, por castigo diziam: "Agora vão andar com os sapatos rotos". Nós jogávamos à bola até na estrada e quando sentíamos que o guarda estava a aparecer, fugíamos senão ele levava a bola e ainda íamos presos [risos].

Álvaro Magalhães com 14 anos

Álvaro Magalhães com 14 anos

D.R.

Quando vai pela primeira vez para um clube?
Eu estava em Cambres, depois o meu pai foi para Lamego e eu fui estudar para lá. Em Lamego havia aqueles torneios de futebol de salão e convidaram-me para participar num torneio. Era novinho, tinha uns 14 anos, e foi aí que comecei a dar nas vistas; joguei bem e como o Cracks Clube de Lamego era um clube de formação que apostava nas camadas jovens, eram só iniciados e juvenis, e ainda é assim, convidaram-me para jogar futebol. Mas eu estava focado nos estudos, era bom aluno, os meus pais não queriam que eu jogasse futebol, queriam que eu estudasse e tinham medo que eu partisse uma perna. Mas lá fui em 1975/76 para os iniciados.

Tem alguma memória do 25 de abril?
Tenho memória dessa noite, daquilo que vimos na televisão, do que se passava em Lisboa, aquela tropa toda, do Jaime Neves, que por acaso foi comandante da companhia do meu pai. Lembro-me dessa gente que depois mais tarde vim a conhecer. Mas em 74 éramos crianças não ligávamos muito, víamos na televisão que havia uma certa confusão, mas nós queríamos era jogar futebol, só mais tarde viemos a saber. E é engraçado que mais tarde vim a conhecer pessoas que estavam envolvidas no 25 de abril, principalmente o Jaime Neves que foi um dos grandes generais dos Comandos, o meu pai esteve na tropa com ele e no Ultramar. O meu pai esteve na Guiné, em Moçambique duas vezes, andou por África a defender as cores de Portugal.

Estava a contar que começou com 14 anos nos Cracks de Lamego. E torna-se campeão de juniores, certo?
Sim, no primeiro ano fomos campeões distritais e fomos à final do campeonato nacional de iniciados. Perdemos essa final contra o Belenenses, a seis minutos do fim. No ano seguinte, já nos juvenis, voltamos a ser campeões distritais, no campeonato nacional não passamos a fase de grupos, mas no terceiro ano de juvenis acabamos por ser campeões nacionais. E foi o primeiro título nacional da cidade de Lamego.

E os estudos ficaram para trás?
Não. Os estudos estavam sempre em 1.º lugar, mas nessa fase final em que fomos campeões nacionais já outras equipas andavam a observar-me. E é engraçado porque fomos jogar na fase final contra o União de Coimbra - estavam lá o meu pai e o meu falecido irmão - e foi aí que um grande amigo meu, um grande jogador da Académica, o senhor Crespim, que era observador da Académica, acaba por ficar ao lado do meu e pergunta-lhe: "Quem é o número 8?". E o meu pai "É o Álvaro" [risos]. O meu pai não lhe disse que eu era seu filho, nada, não gostava de se meter. A Académica entra em contacto comigo, com o clube e com os meus pais, claro. Já tinha sido difícil convencê-los a deixarem-me jogar nos Cracks de Lamego porque tinham medo que partisse uma perna, sair de Lamego para Coimbra...meu Deus.

Tinha quantos anos?
17. Mas, pronto... os diretores da Académica foram simpáticos, foram lá e convenceram os meus velhotes a deixarem-me ir para Coimbra.

Álvaro Magalhaes entrou para os Cracks de Lamego com 14 anos

Álvaro Magalhaes entrou para os Cracks de Lamego com 14 anos

D.R.

Foi a primeira vez que saiu de casa.
Foi, fui sozinho, foi difícil.

Ficou a viver onde?
Mesmo em frente à sede da Académica, que era na Praça da República. Fui eu e mais dois jogadores de Lamego, dessa mesma equipa, o Henrique e o Martinho, e mais outros jogadores que vieram de outras cidades e dos Açores e da Madeira. Ficámos todos numa cave. Distribuíram os oito jogadores por quatro quartos e ficámos mesmo em frente à antiga sede da Académica.

Custou-lhe muito essa adaptação?
Muito, porque era uma pessoa muito cuidadosa, não gostava de sair à noite, tinha os meus princípios, a minha educação e custou muito porque estava um pouco isolado, faltava o amor dos meus pais e dos meus irmãos, dos meus amigos.

Era desafiado pelos colegas para sair?
Sim, mas eu não ia.

Porquê?
Porque para além de estar a estudar, depois apercebi-me que realmente tinha condições de seguir a minha carreira de jogador e a Académica deu-me as condições todas para estudar. Mas no início foi difícil porque ainda por cima da primeira vez, andava a treinar e a jogar lesionado, com muito sacrifício.

Explique lá isso.
Senti uma dor na perna, mas disse que não era nada e o treinador, o Francisco Andrade, exigiu muito de mim. A ausência dos pais, o estar lesionado, a exigência do treinador, o treinar lesionado... eu arrastava a perna e chegou um momento em que estava desesperado, não podia dar o meu rendimento, não era o Álvaro que tinham ido buscar aos Cracks de Lamego. Entretanto, jogadores como o Gervásio, Abílio, Vítor Campos, jogadores de grande carreira e bem conhecidos de todos nós, disseram-me para ir falar com o médico, o doutor Manuel António, que foi um grande jogador da Académica, e obrigaram-me a parar e recuperar da lesão para poder dar o meu rendimento. Eu sabia que era dos melhores e não estava a ter rendimento.

Ficou parado quanto tempo?
Quase um mês e meio e fiz a recuperação nos seniores da Académica, onde estava com o conceituado treinador Juca. Houve um jogo que não joguei, e os jogadores seniores também assistiam aos nossos jogos de manhã e lembro-me que o Brasfemes, que ainda é vivo, e o Camilo foram ver um jogo e eu estava ao lado deles, mas eles não me conheciam, e eles em conversa: "Eh pá, agora é que se vê quem é que faz falta naquela equipa, falta ali o número 8". E eu estava mesmo ali ao lado [risos]. Tive a felicidade de trabalhar com eles. Aliás, ir treinar com os seniores da Académica foi uma exigência do dr. Manuel António, e eu só voltava a jogar com os juniores quando estivesse não era a 100 era a 150%. E comecei a treinar com os seniores, a ter o apoio desses jogadores seniores, e quando chego aos juniores, rebentei com tudo: o Álvaro com saúde. Um jogador não pode estar a jogar lesionado, não é? Mas foram momentos difíceis.

Álvaro chegou à Académica de Coimbra com 17 anos

Álvaro chegou à Académica de Coimbra com 17 anos

D.R.

Esteve quanto tempo nos juniores então?
Estive um ano. Em fevereiro fui logo chamado para a equipa sénior da Académica, e foi uma aprendizagem fantástica porque estive de fevereiro até maio, junho, a treinar com eles na recuperação e depois comecei a treinar com eles já como jogador. E é nessa altura, em que ainda estudava, que comecei a atirar com os livros para cima da mesa: vou ser jogador, jogador, jogador. Os diretores ainda me tentaram convencer: "Podes estudar e podes jogar à bola, aqui em Coimbra é assim estuda-se e joga-se à bola”. E é verdade tive colegas meus dos seniores, um deles faleceu há pouco, o Camilo, que dizia: "Eu só vou acabar o curso quando acabar a minha carreira de jogador". Ele acabou a carreira aos 32 anos e foi ai que ele acabou o curso [risos]. Outros já tinham o seu curso. O Brasfemes era engenheiro, o Vítor Campo era médico.

E o Álvaro estava a estudar o quê nessa altura?
Estava no 10.º ano. Eles obrigavam-me a estudar e a minha namorada, que hoje é a minha esposa, dizia-me para estudar também.

Como se chama a sua mulher, onde, como e quando a conheceu?
Chama-se Ana Paula. Conhecia-a no meu segundo ano em Coimbra. Como eu andava sempre sossegadinho, um dia em que não havia jogo fui a um baile de São João. Sentei-me numa mesinha sozinho e estava lá um amigo com quem estava praticamente todos os dias na Académica. Ele estava lá com um grupo de pessoas onde ela estava também... e foi assim que a conheci, naturalmente. Começámos a falar, ela e os irmãos tinham vindo de Angola, estudavam todos em Coimbra. Ela tirou o curso de Economia, hoje é solicitadora. E ela também me dizia que eu tinha de estudar, só que eu focalizei-me totalmente no futebol. Sabia que queria ser profissional de futebol.

Então acaba por deixar os estudos nesse ano?
Sim, no 10.º, ainda fiz algumas cadeiras, mas ficaram a faltar duas. Acabava de treinar à tarde, ia jantar e depois ia para a escola. Durante o dia não me apetecia muito [risos]. Ainda tentei recuperar estudando à noite. Não tinha carro e íamos a pé para o liceu Santa Maria.

Quando recebe o seu primeiro ordenado? É na Académica?
Nos juniores tínhamos tudo pago, a alimentação, o alojamento, mas davam-nos um subsídio para podermos também ir lanchar, por exemplo. Quando passo a sénior assino contrato e começo a receber 15 contos [75€].

Recorda-se do que fez com esse dinheiro?
Fiz uma jantarada com os meus irmãos. Mas era muito cuidadoso, não se podia gastar muito, tínhamos de ter um certo cuidado. Já dava para ir mais vezes a Lamego, já tínhamos mais algum dinheiro para poder apanhar o comboio ou o autocarro.

Na Académica. Atrás, à esquerda, ao lado do guarda-redes

Na Académica. Atrás, à esquerda, ao lado do guarda-redes

D.R.

Lembra-se do jogo de estreia pela Académica?
Lembro-me que foi em Coimbra, mas não me lembro contra quem.

Estava muito nervoso?
Não. E sabe porquê? Porque estava mentalizado para vencer. Quando deixei de estudar, era para me dedicar a 100% e sabia que ia vencer. Claro que há aquele nervoso miudinho. Veja bem, uma vez ainda era júnior e a Académica ia jogar contra o Portimonense, entretanto como não tinha sido convocado fui almoçar e depois ia a pé ver o jogo e aparece-me o doutor Avidago, que fui um dos grandes diretores que conseguiu dar a volta aos meus velhotes para eu ir para Coimbra. Eu ia a pé para o estádio para ver o jogo e aparece-me ele de repente: "Bora, entra no carro que te vais equipar e vais para o banco, vais jogar".

O que aconteceu?
No aquecimento houve um que se lesionou e eles tinham de meter alguém. Antigamente, meia hora antes do jogo ainda se podia inscrever mais um jogador. Inscreveram-me, fui-me equipar e foi um privilégio estar no banco da equipa sénior, da equipa profissional. Foi um prémio fantástico. Eu como já tinha treinado com os seniores, o mister Juca lembrou-se de mim: "Vai buscar o Álvaro". E então o diretor andou à minha procura, sabia que eu estava ali pela Praça da República ou em casa, e eu tranquilamente a subir a rampinha a pé para ir ver o jogo.

Passa a sénior em 1978/79?
Sim, foi o meu primeiro ano de sénior na Académica. A Académica desceu em 77/78 para a II divisão. O meu primeiro ano de sénior, em 78/79, é liderado por outro treinador também ligado ao Sporting, o senhor Pedro Gomes, é ele quem me lança no futebol.

E sobem de divisão.
Exatamente. Depois, no ano a seguir, na primeira divisão, o treinador começou por ser o Francisco de Andrade mas depois veio o mestre Mário Wilson. Foi ele que me incentivou e até liderou, porque ele tinha uma costela benfiquista, já tinha sido treinador do Benfica e sabia do interesse de várias equipas, do FC Porto e do Sporting. Aliás, o Sporting foi o primeiro clube a falar comigo nesse ano, porque estava a fazer uma época fantástica.

Tornou-se sócio do Sindicato dos Jogadores ainda quando jogava na Académica

Tornou-se sócio do Sindicato dos Jogadores ainda quando jogava na Académica

D.R.

Porque é que não foi para o Sporting?
Eles falaram comigo, mas o Benfica entrou em contacto com a Académica. O capitão Mário Wilson, no dia seguinte à nossa folga, veio ter comigo, chamou-me :"Ó jovem (ele tinha a mania de nos tratar assim) quero falar contigo". E levou-me para a sala onde estava a foto dele e de outros grandes jogadores da Académica. Porque, num jogo contra o Sporting, em casa, nós empatámos a zero, mas faço um grande jogo e o Toni foi observar o jogo. O Toni na altura já era o conselheiro e observador do Benfica e, como tinha jogado na Académica, tinha facilidade e entrava no balneário. No final do jogo foi ter com o Mário Wilson, ao nosso balneário, e o filho dele, o Marito veio ter comigo e disse-me: "Olha o Toni está a falar de ti com o meu pai". Mas no final desse mesmo jogo tinha o Armando Biscoito do Sporting e um senhor de Coimbra também ligado ao Sporting, que queriam falar comigo. Saio do balneário, despeço-me, pego no carrinho e vou embora para a Praça da República, estacionei o carrinho, que na altura era do meu querido irmão, e quando saio do carro vejo um BMW com um senhor lá dentro a chamar-me. Era o Toni. Ele não saiu do carro para ninguém ver. Eu conhecia-o, conhecia o senhor Toni, colecionei cromos dele [risos]. "Olá como está, senhor Toni?!" E ele só me disse assim: "Miúdo, eu sei que o Sporting e o FC Porto estão interessados em ti. Só que o Benfica também está interessado. Agora tu é que vais decidir".

O que aconteceu depois?
Claro, no dia seguinte o Mário Wilson, que tinha estado a falar com ele, apanha-me e manda-me para o gabinete, liga para o Gaspar Ramos, que estava à espera de uma chamada dele. Falaram e uma das coisas que era importante fazer era o Benfica falar primeiro com a Académica, porque eu tinha mais um ano de contrato com eles. O Sporting, quando falou comigo, o doutor Armando Biscoito queria fazer o contrário. Como não queriam pagar nada à Académica, queriam que eu ficasse mais um ano na Académica e depois eu ficava livre. Mas eu disse logo: "Não, isso não faço porque tenho muito respeito pela Académica e ou vocês chegam a acordo com a Académica ou não vou".

Qual era a sua vontade lá no fundo?
Eu queria um clube grande. Podia ir para o FC Porto também, porque o José Maria Pedroto é de Lamego.

Chegou ao Benfica em 1981/82

Chegou ao Benfica em 1981/82

D.R.

Mas nessa altura o seu coração ainda balançava para o Sporting?
Não. Eu nunca fui adepto do Sporting, do Benfica, ou do Porto. Nós gostávamos dos clubes grandes e quando o Benfica jogava e ganhava, ficávamos contentes; quando o Sporting jogava contra clubes estrangeiros e ganhava, ficávamos contentes. Quando éramos crianças, quem jogasse melhor, era quem aplaudíamos.

Então não tinha nenhuma preferência nessa altura...
Não, não tínhamos grande preferência, éramos do Benfica hoje, amanhã éramos do Sporting, depois éramos do Porto. E eu poderia ter ido para Porto se o Porto fosse mais rápido. O Benfica foi mais rápido, falou primeiro com os diretores da Académica, chegaram a acordo e para mim até foi bom porque automaticamente os da Académica sabiam que havia interessados e aumentaram-me o ordenado: passei a ser o jogador que ganhava mais na equipa, aumentaram-me o ordenado para 50 contos. De 15 passei de para 50.

Voltou a pagar uma jantarada aos seus irmãos?
[risos] Mas o problema é que a Académica não pagava [risos]. Tinha dificuldade em pagar os ordenados e naquela altura mesmo 50 contos era dinheiro. O Sporting devia ter feito uma coisa como fez o Benfica, que foi falar com a Académica, negociou, chegou a acordo. O diretor de futebol da Académica, o Manuel Oliveira, veio falar comigo, convidou-me para jantar, fomos jantar e disse-me: "Olha, temos tudo acordado com o Benfica. Agora depende só de ti". E eu automaticamente cheguei a acordo com o Benfica, com muito gosto e assim foi. Ir jogar para uma equipa grande era o objetivo de qualquer jogador.

Vai para Lisboa sozinho?
Sozinho. A primeira vez que fui a Lisboa, fui para ir buscar o meu pai que veio de África. Fui com a minha querida mãe e os meus familiares; fomos buscá-lo, passámos por Fátima, nunca mais me esqueço. Fui depois com a Académica a Lisboa e, quando fui às Esperanças, também fui um dia todo aos treinos da seleção. Quando vou para Lisboa para o Benfica, vou sozinho. Já tinha ido uma vez de carro com um amigo quando fui à seleção. Foi a primeira vez, mas era fácil chegar ao estádio da Luz, era sempre em frente e lá fui sozinho para Lisboa.

Álvaro (2º atrás à esquerda ao lado de Toni) num jogo amigável em 1981. Apesar de Toni já ter terminado a carreira de jogador, também participou

Álvaro (2º atrás à esquerda ao lado de Toni) num jogo amigável em 1981. Apesar de Toni já ter terminado a carreira de jogador, também participou

D.R.

Como é que foi entrar no balneário do Benfica onde estavam na altura grandes craques. Tremeram-lhe as pernas?
Tremeram um bocadinho, não há dúvida. Era a passagem para uma casa de grandes jogadores, uma instituição do melhor que há no mundo. Já na altura o Benfica era conceituado.

Na receção houve algum jogador mais afável, mais simpático?
O Bento, o Humberto Coelho, o Shéu, o Nené, o João Alves, o Chalana, que era uma pessoa humilde, praticamente todos foram simpáticos, mas o líder daquele grupo era o Humberto Coelho. Mas eu já vinha bem preparado. O capitão Mário Wilson tinha-me explicado tudo sobre aquele clube. O que era o balneário, quem eram os jogadores de quem eu poderia me aproximar...

Quem eram esses jogadores?
O Humberto Coelho, principalmente, o Bento, o Shéu que me tratou com tranquilidade, o Nené. Aliás naquela altura havia dois balneários. Quando lá cheguei disseram-me: "Ali é o balneário dos cobras, aquele é dos minhocas". E quem eram os cobras? Eram os jogadores da seleção, Mas o Nené, que era da seleção, estava no balneário dos mais novos. E havia os titulares de um lado, aqueles titulares mais conceituados, os jogadores já com um peso. Eu quando lá cheguei tinha o meu lugar.

Foi para o balneário dos minhocas?
Dos minhoquinhas [risos].

Quem é que estava nesse balneário?
Era dos minhocas, mas não tinha só minhocas. Estavam lá Chalana, Nené, o Carlos Manuel também, estavam também jogadores titulares. Estava aquela malta da zona do Barreiro e era giro porque às vezes atirávamos com chinelos de um lado para o outro [risos]. Havia uma amizade entre todos, havia tranquilidade, apesar de haver pesos pesados. O João Alves com o Humberto Coelho... aquilo ali na altura, todos queriam ser líderes, mas digo-lhe sinceramente, o verdadeiro capitão que conheci no Benfica foi o Humberto Coelho, como homem e como líder. O primeiro treino foi difícil.

Era Baróti o treinador.
Era, era o Baróti e no primeiro treino parecia que estava preso. Queria correr e não podia, tive de baixar a cabeça, falei sozinho e disse: “Eh pá calma que se jogaste na Académica, também jogas aqui. Se queres vencer tens de estar tranquilo, tens de lutar por uma coisa em que apostaste forte”. Eu próprio me mentalizei e no segundo treino já foi diferente. E o Nené e o Shéu, espetacular, vieram ter comigo e disseram: "Miúdo, é normal tu quereres correr e coisa não sai. Quando cheguei aqui foi a mesma coisa, também me aconteceu, queria correr e as pernas não andavam, parecia que estava preso". É natural porque, olhando para aquele estádio, 130 mil pessoas e treinar com aqueles rapazes todos. Depois ao fim de algum tempo já foi diferente.

No dia do seu casamento

No dia do seu casamento

D.R.

O que mais o marcou na primeira época no Benfica?
Ser titular do Benfica pela primeira vez.

Em que jogo?
Foi contra o Viseu e joguei a central. Naquela altura a concorrência era grande, o 11 titular era de jogadores de seleção, tínhamos que ter paciência, o importante era ser convocado e estar no grupo dos 16. A partir daí estamos mais perto da titularidade. Andei com paciência, fui chamado porque o Laranjeira estava lesionado e o Humberto Coelho tinha que ter alguém ao lado dele com um estilo diferente, com características diferentes. O Baróti chamou-me e perguntou-me se eu estava pronto para jogar a central. "Eu quero é jogar" e joguei a central. O jogo seguinte jogámos contra o FC Porto, ganhámos e fiz um jogo fantástico.

Também como central?
Como central, mas depois claro como, é normal, vieram os titulares e eu fui para o banco. Depois tive outra oportunidade a defesa esquerdo contra o Sporting, em que faço um jogo muito bom e agarro os adeptos do Benfica. Diziam que eu era o segundo Artur ‘Ruço’. O Artur era parecido comigo, também tinha jogado na Académica e em Coimbra, diziam que tinham ali um segundo ‘Ruço’. Porque eu era para substituir o Artur quando ele teve aquela infelicidade [acidente cardiovascular], era para ir para o Sporting, mas depois vim para o Benfica e já tinha essa imagem criada. E quando fiz esse jogo contra o Sporting comecei a adaptar-me a essa posição. Depois o outro titular que jogava, o Pietra, na altura lesiona-se e a partir desse momento, em que tenho a segunda oportunidade, já não vou dar hipótese a ninguém. A partir daí, quando o Eriksson veio, agarro-me a defesa-esquerdo e nunca mais.

Muito diferente o Eriksson do Baroti.
O Eriksson revolucionou o futebol português. Revolucionou na metodologia de treino, na mentalidade, em todos os aspectos. Foi ele. O Benfica também tinha grandes jogadores com capacidade técnica e tática. O Eriksson revolucionou tudo o que é o futebol actual. E acho que era melhor no nosso tempo do que agora, porque o que muitos fazem agora, já nós fazíamos na altura. Antes do Eriksson, os treinadores em Portugal normalmente diziam para começarmos os primeiros treinos da época com sapatilhas. Nós íamos de sapatilhas com as botas na mão quando entrámos para o estádio e o Eriksson perguntou ao Humberto Coelho porque é que trazíamos as sapatilhas na mão. "Mister normalmente aqui no início da época, nos primeiros dias, nas primeiras semanas, treinamos sempre de sapatilhas". "Mas o futebol joga-se com botas com pitons. Então se nós jogamos com botas com pitons, porque é que não vamos treinar com botas?! Faz favor, é com botas que vamos começar". E lá fomos nós correr com botas e a bola a saltar. A tal metodologia que fazem agora, mas na altura já fazíamos. Depois a qualidade dos jogadores do Benfica era tão vasta que com aquela qualidade de treino, rebentámos com tudo.

Foram campeões e ganharam a Taça e foram à final da Taça UEFA. Pessoalmente, qual foi o momento mais marcante dessa época?
Foi não ter jogado a 2ª mão da final da Taça UEFA. Depois de me ter dado a oportunidade de ser titular no primeiro jogo contra o Anderlecht na final da Taça UEFA, no segundo jogo na Luz, ele pôs o Veloso. Ele próprio reconheceu que foi um erro. A final tinha sido numa quarta-feira e no domingo seguinte voltei outra vez a ser titular. Portanto, foi um erro, uma opção tática errada. O próprio Chalana ressentiu-se também e disse-me antes do jogo, isto é a verdade dos factos: "Eu daqui a 20 minutos estou cá fora". Os treinadores também têm as suas histórias, não é? Tanto eu como o João Alves ficámos no banco e porquê? Porque razão? Foi um momento que me marcou um pouco. O Chalana ao fim de 20 minutos estava cá fora, não sei se foi a parte psicológica, mas foi por lesão. E a seguir ao Eusébio, há Chalana e Ronaldo, são os três magníficos de Portugal.

Mário Wilson foi um dos convidados no casamento de Álvaro

Mário Wilson foi um dos convidados no casamento de Álvaro

D.R.

Entretanto casou-se?
Eu casei-me em 1983.. A Paula acabou o seu curso, os cursos, tem dois, de economia e de solicitadoria. Depois, essa época foi das melhores épocas. Todas foram importantes, mas essa foi fantástica por dois motivos.

Refere-se a 1983/84?
Sim, fiz os jogos todos, até acabei por receber o prémio Somelos Helanca do jornal "A Bola". Foram 40 continhos [200€] e vamos à final da Taça UEFA em 84. Fazemos um bom campeonato e eu e o Chalana fomos considerados a melhor ala esquerda do Campeonato da Europa, foi fantástico. Foi realmente um ano inesquecível para mim, para todos nós e para Portugal também.

Eriksson sai e chega Csernai. Uma grande mudança.
Muito. Não que o treinador não tivesse conhecimento, só que veio numa altura em que começam a fazer obras no Estádio da Luz, no terceiro anel. Mas pela sua metodologia de treino também, ele era um baldas. Treinar com ele era devagar, devagarinho, parado e paradinho [risos] não tinha vontade nenhuma, ele tinha vontade era de andar à noite, jantar bem... agora treinar, está quieto. E foi um ano difícil. Acabámos por ganhar a Taça de Portugal, mas criou ali anticorpos. Ele não gostava nada de jogadores que vinham da seleção, do Campeonato da Europa, eu, o Bento, estava completamente maluco.

É pai quando?
Em 1985, de um filhote fantástico, o Tiago, que podia ter sido um grande jogador, mas ele optou por estudar e é um ilustre médico dentista neste momento.

A seguir ao Csernai vem o John Mortimore e também foram duas épocas óptimas.
Foram óptimas sim, ele era um treinador de grande nível.

Mas parecido com o Eriksson?
O inglês é diferente do sueco. A mentalidade é diferente, o estilo de jogo também era diferente, mas digo-lhe sinceramente que o Mortimore foi um dos melhores treinadores que tive na carreira. Um grande treinador que, para além da parte técnica, tática e física, tinha também a parte psicológica. Era completo, era um treinador com personalidade e com muita exigência, que é fundamental no futebol. No futebol tem de haver rigor, disciplina, sem isso não há campeões, não há sucesso. Era um treinador muito exigente, porque se não fosse, se calhar eu ou outro jogador... Na altura, já havia realmente muita padrinhagem, mas ele não ligava a isso. Se jogam sempre os melhores, são os melhores que têm de jogar sempre. Não havia ali ninguém que pudesse contrariá-lo ou que o fizesse mudar de ideias. "Só jogam os que eu quero". E um treinador tem de ser assim, tem de pensar pela sua própria cabeça e não pela cabeça dos dirigentes, que na altura já havia um ou outro… Mas adiante.

Plantel do Benfica - Época 1981/82

Plantel do Benfica - Época 1981/82

D.R.

Pelo meio dessas duas épocas vai ao Mundial do México 86. Como viveu o famoso caso Saltillo?
Eu estava focado para ajudar sempre Portugal a ganhar jogos e nunca me preocupei com as guerras individuais que existem não só nos clubes, como na seleção. O que eu queria era jogar, estando sempre atento ao que se passava.

Pôs-se à margem daquele movimento?
Não, não. Houve ali um movimento, com reuniões que não sei se eram para se discutir algum assunto, se eram reuniões só para a brincadeira. Havia lá um, não interessa o nome do indivíduo, que andava a bater nos quartos a dizer: "reunião às tantas horas". E nós íamos à reunião e ouvíamos as pessoas, íamos para os nossos quartos, dormíamos, treinávamos e depois jogávamos. Portanto, houve reuniões mas cada um pensava pela sua cabeça. Eu queria treinar, queria jogar.

Chegou a vestir a camisola do avesso como fizeram colegas seus?
Não. Nunca faltei ao respeito ao meu país. Os nossos velhotes até diziam que vestir a camisola ao contrário dava azar, portanto [risos]... Tinha de usar a camisola como deve ser. Não tinha nada que vestir a camisola ao contrário porque havia um respeito por Portugal.

Não se colocou ao lado daqueles que encabeçaram o movimento contra a Federação.
Exatamente. Eu estava solidário com todos, se havia coisas que eram importantes discutir, estava sempre solidário. Com os prémios de jogos, houve realmente falha do diretor, Amândio de Carvalho, que estava mais dentro desse assunto. Devia ter falado mais com o grupo. Como sabemos, há gente que tem contratos publicitários também, e nós não sabemos quem é que ganha mais, quem é que ganha menos, cada um faz os seus contratos. Agora que houve coisas que se fossem faladas antes de irmos para o México... se calhar as coisas compunham-se. No México houve reuniões que não deram em nada.

Não fez greve?
Não, depois aqui em Portugal é que fizemos greve. Depois de termos chegado a Portugal, passado um mês é que o sindicato veio ter com os jogadores que tinham estado no México para não irem à seleção e houve solidariedade total durante quatro meses. A seleção começou a jogar para o apuramento do Campeonato da Europa e, dos jogadores que tinham estado no México, ninguém ia. O presidente do sindicato ficou de resolver a situação, só que o sindicato da altura não é o mesmo de agora. Agora há mais cuidado. Tivemos várias reuniões com o sindicato, os de Lisboa e os do norte, discutimos, eu não falava nada, que não gostava muito de falar, só ouvia e queria era trabalhar. Discutiam em Lisboa, discutiam no norte, ok fica para a próxima, fica para a próxima, fica para a próxima... andaram muito tempo e houve uma última reunião, em que era o José Eduardo o presidente do sindicato, começaram a perguntar: "Então como é que é? Isto não se resolve, há problema graves". E o próprio presidente do sindicato sabia de coisas graves que se tinham passado, não interessa, por isso é que é um assunto encerrado, já está mais do que encerrado, há pessoas que deviam era estar caladas sobre Saltillo. O presidente do sindicato em Lisboa disse que não conseguia fazer nada, isto depois de quatro meses.

Regressou à seleção?
A seleção já estava com o Juca a trabalhar, mais o António Oliveira. Como o presidente do sindicato disse na última reunião que cada um pensa pela sua cabeça... “Quem quiser ir à seleção vai, quem não quiser não vai”. Isto foi discutido assim, eu então pensei, tenho 26 anos, não fiz nada, só treinei, dormi, joguei, tenho a minha consciência tranquila e não vou à seleção por causa desta porcaria? Não, já é tempo a mais. Eu sabia que os jogadores do Porto também estavam a pensar regressar à seleção e assim aconteceu. No dia seguinte, falei com o Dr. Castanheira Neves no hotel Altis e disse-lhe: "Olhe doutor passou-se isto na reunião, estamos aqui parados há três, quatro meses, ninguém decide nada. O presidente do sindicato não diz nada, não resolve nada e na última reunião disse que cada um pensava pela sua cabeça". Então enviei uma carta a disponibilizar-me para representar Portugal, só isto. Entretanto os jogadores do Porto recuaram, mas, passados 15 dias, o Pinto da Costa deve ter falado com os eles e foram todos à seleção. Quem quis foi à seleção, quem não quis e preferiu ficar em casa, ficou em casa. Quem tem a consciência tranquila, quem não deve nada, quem trabalhou para ser titular no Campeonato do Mundo e veio de lá com a consciência tranquila e esteve quatro meses sem ir à seleção... isso é que é injusto. Agora quem tiver a consciência pesada, só há uma coisa a fazer é bater com a cabeça na parede e partir a cabeça [risos].

A que se refere quando fala em consciência pesada?
Eu pensei pela minha cabeça e sabe porquê? Porque tinha a consciência tranquila, não cometi nenhum crime. Agora nós sabemos que os mentirosos tentam criar ou mentir. Há muitos mentirosos no futebol e uma mentira aqui, uma mentira ali, às vezes acaba por ser verdade, não têm coragem para falar cara a cara, e você sabe bem que a imprensa é terrível. Às vezes gosta mais de uns, do que de outros. Mas não pode ser assim, tem que ser tudo igual.

Álvaro num duelo com João Pinto do FC Porto

Álvaro num duelo com João Pinto do FC Porto

Rui Duarte Silva

Voltemos ao Benfica e agora a Skovdahl.
Skovdahl, exatamente. Fizeram uma injustiça com o John Mortimore. O Mortimore não merecia nada daquilo que lhe fizeram. Despediram o Mortimore nesse ano, numa altura em que ganhamos o campeonato e ganhamos a taça.

Porque é que o despediram?
Porque era um treinador muito exigente, muito disciplinado, muito autoritário e há pessoas que não gostam, há jogadores que não gostam disso, porque não gostam de trabalhar... e nós sabíamos quem eram os jogadores que não gostavam de trabalhar. Eram bons jogadores, mas não gostavam de trabalhar e então fizeram realmente a cama, como se costuma dizer, ao John Mortimore. O que fizeram ao John Mortimore no final da Taça de Portugal, despedirem-no, foi uma injustiça tremenda. Ganhou o Campeonato e a Taça e despediram-no, foi injusto. Mas no futebol é isto e actualmente ainda é assim. A competência e a exigência faz mal a muita gente, gostam é dos mansinhos, dos cordeirinhos. E isso, para algumas cabeças, para alguns dirigentes que são influenciados, lá está, são influenciados por alguns jogadores. E mais tarde, aqueles que conseguem destruir a imagem de um treinador, vão dar razão a esse treinador porque já estão deste lado. Quando se passa de jogador para treinador é que veem as dificuldades que aparecem pelo caminho. Depois deram razão ao John Mortimore que era um grande treinador. Vem o Skovdahl, um dinamarquês muito bom rapazinho, muita liberdade e para ter liberdade tem que se ter responsabilidade. Mas a liberdade daquele treinador era irresponsabilidade, não havia disciplina, era uma brincadeira. Ele era um jovem treinador que não sabia o que era lidar com um clube como o Benfica.

Ele acaba por sair e fica o Toni?
Depois, o Toni aparece como adjunto e agarra nessa equipa. Nesse ano em que o John Mortimore saiu, o presidente Fernando Martins também saiu em março numas eleições e entra uma nova direção, do João Santos, que tem como diretor de futebol Gaspar Ramos. E essa direção que entra foi uma direção que achava que a equipa do Mortimore era uma equipa que não tinha condições e ter sucesso na Europa. É engraçado que quando o Skovdahl vai embora, o Toni pega na equipa e esses mesmos jogadores conseguem ganhar o campeonato e conseguem ir à final da Liga dos Campeões. É engraçado não é? Já era uma equipa da Europa. Primeiro afastam o Fernando Martins, que foi uma surpresa para todos. Naquela altura os votos já eram bem escolhidos, à última hora quando iam fechar a porta para não votarem mais apareceu uma camioneta, a cinco minutos de fecharem as urnas, a dizer estão aqui mais 50 pessoas ou 100 ou 200 para votarem. E esses votos é que dão a vitória à direção do João Santos. E o Fernando Martins, o Júlio Borges e toda a sua direção que era fantástica, acaba por sair.

Com Toni joga menos.
Porque me lesionei. Estava a fazer uma época de muita qualidade e lesionei-me num músculo da perna esquerda. Para os médicos é o quadriciclo do recto anterior, para os jogadores de futebol dizemos sempre que é o músculo do pontapé, é o músculo mais forte. Lembro que tive essa lesão e tive de ser operado. Não consegui recuperar nesse ano porque, infelizmente, o departamento médico do Benfica tinha pouca qualidade, não tínhamos ninguém para nos recuperar.

Recuperou onde e como então?
No final do campeonato, eu acabei por não jogar nesse ano, o Benfica ganhou o Campeonato e perdeu a final da Taça de Portugal e pego nas minhas malas e vou recuperar com o professor José Neto. Um grande homem, um grande profissional que estava ligado ao Futebol Clube do Porto. Fui para Paços de Ferreira. Peguei no carro, com umas malas com equipamento e umas bolas fui treinar para o campo do Paços de Ferreira, treinar no Porto, no hotel Sheraton, na piscina e no ginásio, fiz uma recuperação fantástica e depois fui com ele para o Algarve. Fiquei recuperado para o ano seguinte. Aí é que depois começam os problemas dentro do Benfica.

Álvaro teve 20 internacionalizações

Álvaro teve 20 internacionalizações

D.R.

Entretanto regressa Eriksson de quem tinha gostado.
Sim, mas o Eriksson, como dizia o meu grande amigo e companheiro de quarto também, o falecido Bento, o Eriksson já não era a mesma pessoa de quando chegou pela primeira vez. Porque da primeira vez ainda era pobre, da segunda já era rico e como era rico já não era a mesma coisa e deixou-se influenciar por algumas pessoas. No primeiro dia de apresentação eu como andei a recuperar com um homem do Futebol Clube do Porto, um ser humano de excelência, houve gente dentro do Benfica que ficou ofendida. E então, no primeiro dia de apresentação da equipa, o Gaspar Ramos e o médico chamaram-me à parte para me perguntarem porque é que tinha andado com o professor José Neto. E eu disse-lhes na cara: "Andei a recuperar com um homem competente, porque não há competência no departamento do Benfica". Como queria estar a 100% ou a 101% nas minhas férias, pagas por mim, vim para o Algarve, aonde nunca tinha ido passar férias, para estar com o professor José Neto. Até andei com o Fernando Gomes e com o Lima Pereira, que aproveitaram estar lá o professor José Neto e trabalharam comigo. Eles ficaram aborrecidos. A partir daí, já sabe como é isto do futebol, fizeram tudo para que eu não jogasse. Deram uma informação errada ao Eriksson.

Que informação foi essa?
Que eu tinha sido operado e ainda não estava recuperado. Porquê? Havia uma lógica, era para demonstrarem aos adeptos do Benfica que o Álvaro ainda não estava recuperado. Porque era um desprestígio para o departamento médico do Benfica andar a recuperar com um homem que é do Porto. Mas o professor José Neto quis-me ajudar, como ajudou o Chalana também, e eles deviam ter ficado era felizes. A partir desse momento, vamos para a Holanda em estágio e eu estava mais do que preparado, nem era preciso estar a fazer musculação porque tinha feito tudo, queria era jogar à bola e tentaram-me colocar noutras posições ou não me punham a jogar. Na Holanda, chamei o Shéu, já ele era o secretário técnico, e disse-lhe: "Vou-me abrir contigo, liga ao Gaspar Ramos que quero ir já embora, quero a rescisão do contrato". E ele: "Eh pá não faças isso, não faças isso".

Não voltou atrás?
Não, eu insisti :"Quero já a rescisão do contrato porque não admito faltas de respeito. Sou o melhor atleta neste momento, estou recuperado, estou em melhor forma porque trabalhei dois meses nas férias antes de chegar aqui, estou bem e andam-me a colocar numa posição que nem é a minha, não me põem a jogar, por isso quero ir embora". "Tem calma, tem calma". Eu tive calma até ao final do estágio, quando cheguei a Portugal, no dia seguinte houve apresentação da equipa e o único que não jogou fui eu. Havia ali um complô para demonstrar às pessoas que o departamento técnico do Benfica era bom e que o Álvaro ainda não estava recuperado, quando eu estava numa forma fantástica.

O que aconteceu a seguir?
No final do jogo pedi para sair. Pedi a rescisão do contrato. No dia seguinte toda a imprensa falou que o Álvaro esteve reunido até às duas e tal da manhã com o Eriksson, a pedir para sair. Eu ainda tinha de treinar e colocaram-me à parte a treinar. Cheguei a um momento em que o falecido Manuel Barbosa tinha contratos para me levar para o estrangeiro e não me deixaram sair.

Para onde?
Tinha vários contactos. Saint-Etiènne, Montpellier... Ele tentou por todos os meios libertar-me, não conseguiu e eu acabei por chegar a uma conclusão. O Eriksson veio ter comigo “fique cá, fique cá”.

Mas não perguntou ao Eriksson porque é que não o punha a jogar?
Ele disse-me que o informaram que eu não estava a recuperar. Mas então ele não vê? Ele não vê o treino, o Álvaro lá na frente do pelotão? Porque lá está, era o que Bento dizia, o Eriksson já não era a mesma pessoa que chegou da primeira vez, perdeu aquela personalidade, porque o Eriksson era um gajo com personalidade. Mas quando regressou já estava cheio de dinheiro, já era um senhor, já vinha com outra personalidade. Sabe como é o dinheiro. Em Coimbra ensinaram-me que doutores há muitos médicos há poucos. Mas pronto, ao fim de três meses acabei por dizer ao sueco que tenho de ficar porque não me deixam sair. Comecei a ser integrado e merecia jogar porque os colegas todos, o Valdo, o Ricardo Gomes, o Aldair, todos eles perguntavam: “Porque é que tu não jogas? Tu és o melhor lateral esquerdo em Portugal porque é que tu não jogas?”. E eu respondia na brincadeira “Vai perguntar ao teu pai” [risos]. E nesse mesmo ano vamos à final da Liga dos Campeões e o único lateral esquerdo que estava em condições de jogar era eu. Fui preparado para jogar e, em cima da hora colocam o meu grande amigo e central Samuel, a defesa esquerdo. Fiquei eu e o Chalana na bancada e acabei por não jogar a última final. A partir daí pedi para sair. Foi um erro. Hoje posso afirmar que foi um erro eu ter abandonado o Benfica, porque tinha mais um ano de contrato e podia ter continuado. Mas eu tinha convites do Sporting, do FC Porto, de várias equipas, eu queria ir para um Porto ou para um Sporting, mas para mim era uma tristeza, porque eu respeito muitos os adeptos e sócios do Benfica.

Álvaro num jogo pela seleção contra Malta

Álvaro num jogo pela seleção contra Malta

D.R.

Não foi para o Sporting e FC Porto porquê?
Porque não me deixaram sair, eu tinha mais um ano e contrato. Já no ano em que pedi para sair o Sousa Cintra teve uma conversa comigo e na altura ofereceu muito dinheiro ao Benfica para me deixar sair, mas o Jorge de Brito, que era o presidente, disse: “Não, não, este é um jogador à Benfica, isto vai-se resolver e ele fica aqui”. Só que houve ali uma pessoa, que nem sequer quero falar dela, que fez tudo para que o Eriksson não me colocasse a jogar. Foi uma pena porque eu gosto muito do Benfica e dos adeptos do Benfica. Aliás, eu assinei o contrato em 1989, pelo amor e carinho que tenho pelo clube e pelos sócios e adeptos porque era um jogador querido deles.

E no final dessa época em que praticamente não jogou com o Eriksson vai então para o Estrela da Amadora.
Sim, a Paula estava a acabar o seu curso, tínhamos um filho também pequeno, eu estava habituado a estar em Lisboa, não havia hipótese de ir para o Sporting, havia a hipótese do Boavista que tentou por todos o meios contratar-me; o Valentim Loureiro perdeu até a cabeça em termos de ordenado, ele dava-me tudo e mais alguma coisa para eu ir. O João Alves era o treinador do Boavista e queria-me. O Boavista queria fazer uma equipa fantástica, e fez, o João Alves tudo o que pudesse levar, levava. E eu fiquei naquela... Entretanto, no Estrela, entra um novo presidente e quer fazer uma grande equipa.

Quem era o treinador?
Era o Manuel Fernandes e o Zé Mourinho. Vão os dois para lá. Eu morava na Amadora, o ordenado que me ofereciam também era bom, era uma grande equipa e eu preferi ir para o Estrela. São opções que agora, se pensássemos bem, dizia assim: para que é que o sai do Benfica? Porque é que não fui para o Boavista? Mas também tive azar depois no Estrela.

Que azar foi esse?
Estávamos a fazer uma boa época, a competir com os melhores e a jogar um futebol fantástico. Estava convocado já para a seleção, se não me engano contra a Bélgica ou Polónia, no Porto. Estava a atravessar um momento fantástico; aliás, no primeiro jogo que fizemos para a Supertaça, ganhamos contra o FCP e o Eriksson foi ver o jogo e disse no camarote: "como é que é possível o Alvaro ter saído do Benfica". Eu estava muito bem preparado. Mas depois fraturei o braço. Quando parti o braço no Estrela Amadora, nós tínhamos de jogar para as competições europeias nessa semana, o Mourinho, que era o adjunto do Manuel Fernandes, ficou no hotel e quem me foi visitar ao hospital foi o Antonio Bernardo, o diretor do futebol e o Manuel Fernandes. Mas o Mourinho enviou-me uma carta que ainda a tenho, a dizer só isto: "és um campeão e és o melhor lateral esquerdo do futebol português. Vais recuperar rapidamente". Só que infelizmente estive cinco meses parado, tive muitas dificuldades na recuperação e ainda não havia as técnicas que há hoje. Depois, o Manuel Fernandes e o Zé Mourinho saíram do Estrela, foi muito mau, porque eles estavam a fazer um trabalho fantástico. Só que os interesses de dirigentes para colocarem outro treinador... aquelas coisas, o clubismo, o Manuel Fernandes era do Sporting, mas quando somos profissionais não há Benfica, não há Sporting, não há clubismo, porque eu gosto muito do Benfica mas quando jogo contra o Benfica, eu quero ganhar ao Benfica. Mas acabaram por afastá-los e depois foi para lá o Jesualdo Ferreira. Na direção eram muito benfiquistas e olhavam muito para a cor. Isso no futebol não pode ser.

Álvaro (2º atrás à direita ao lado do guarda redes) no Mundial do Mexico em 1986

Álvaro (2º atrás à direita ao lado do guarda redes) no Mundial do Mexico em 1986

D.R.

Chegou a treinar e jogar com o Jesualdo?
Sim, sim. Eu recuperei, ainda treinei, ainda joguei, mas lá está...Se uma pessoa está num clube bom, só se estiver mesmo já de rastos. Deve continuar, devia ter continuado no Benfica. Depois, o Estrela da Amadora no final da época desce de divisão. Aquelas lesões todas, fui eu mais quatro ou cinco imprescindíveis da equipa, mesmo a saída do Manuel Fernandes, que foi muito má.

Mas gostou do Jesualdo como treinador?
Sim, ele tinha sido adjunto do Toni no Benfica, já o conhecia. O problema foram também as lesões que apareceram. O Estrela da Amadora desce no último jogo, desceram os dois aliás, o Estrela e o Vitória de Setúbal. Se empatassem as duas desciam as duas e assim foi.

Tinha assinado por quanto tempo com o Estrela?
Por dois anos. eu tive nessa fase da minha carreira uma... Um gajo não acredita em bruxas, mas que as há, há. Como a equipa desceu de divisão, apareceu-me a Académica a chatear-me a cabeça para regressar. Eu disse-lhes: vocês não têm dinheiro para me pagar. Mas todos os dias o presidente da Académica ligava-me e lá me convenceu. Falei com o Estrela da Amadora e disse, mal por mal, já estou aqui, portanto agora vou regressar à Académica. Era um sonho meu regressar à Académica e acabar a carreira lá. Ou acabava no Benfica ou acabava lá. Como saí do Benfica... Cheguei a acordo com o Estrela da Amadora, para a Académica também ter condições de me pagar. Cheguei a Coimbra com a rescisão de contrato na mão, vou almoçar, estou lá com os diretores da Académica, estive ali umas horas à espera porque havia reuniões com outros jogadores e empresários e quando vou para a reunião e o presidente diz: "Oh Álvaro, agora o treinador diz que já tem laterais a mais". "Laterais a mais? Mas que é isto? Então faço uma rescisão de contrato..."

Quem era o treinador da Académica nessa altura?
Um chamado José Rachão. A realidade é esta: ele tinha medo do nome, pensava que sendo um jogador internacional iria para a Académica tirar o lugar no futuro. Isto não passa pela cabeça de ninguém. Como boa pessoa que sou, e como acredito sempre nas pessoas, acabei por pegar no carro e vim para Lisboa. Mas eu devia ter ficado em Coimbra e punha aquilo tudo em pânico, porque os adeptos da Académica não iam aceitar uma coisa daquelas. Só que vim embora para Lisboa. E eles pensavam: "Não há problema nenhum o Álvaro vai arranjar clube com o nome dele". O problema é que a época já estava a decorrer. Os clubes já tinham contratado os seus jogadores. Acabei por não cometer nenhuma loucura, mas podia ter-me chateado, podia ter feito uma guerra lá em Coimbra com as pessoas e acabava por assinar e o treinador era capaz até de sair, com muito respeito que tenho pela pessoa. Mas ele cometeu um grande erro, não se faz a nenhum profissional isto. E, como dirigente, se contratam um jogador, se obrigam um jogador a rescindir contrato, depois ele chega lá diz que não porque o treinador diz que já tem jogadores a mais. Isso não se faz.

O que se seguiu?
Acabei por ficar parado. Depois o João Alves telefonou-me: "Tens de treinar, tens de jogar". E fui para o Leixões. O treinador era o Manuel Barbosa. A minha carreira lá, ao fim de um ano e meio porque quem joga num clube grande, na seleção e tem momentos áureos no futebol, não tem paciência para determinadas coisas depois. Pendurei as botas em 1993 por decisão própria.

Custou-lhe muito tomar essa decisão?
Muito, muito.

Nessa altura já tinha algum nível do curso de treinador?
Já. Comecei a tirar em 1992. Em 1996 eu o Jorge Jesus e outros fizemos o IV nível. Eu nem queira fazer o IV nível mas o Rui Caçador insistiu comigo disse-me: "Tira que mais tarde vais-te arrepender se não o fizeres, mais tarde vai ser mais caro e mais difícil".