Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Por isto é que aqui o Álvaro está muitas vezes sem trabalho: as pessoas podem ganhar o dinheiro que quiserem, mas a mim não me compram”

Álvaro Magalhães iniciou a carreira de treinador no Lusitânia de Lourosa em 1994/95 e desde então já passou por clubes como o Santa Clara, onde diz ter revolucionado o futebol açoriano, o Gil Vicente, E. Amadora, Naval, Olhanense, CD Tondela, entre outros, mas foi no Benfica, como adjunto de Camacho e Trapattoni, que conquistou os maiores títulos. Acusado de ter mau feitio, diz antes que é disciplinado e exigente e que não merece estar sem trabalhar

Alexandra Simões de Abreu

Gualter Fatia

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Já sabia que queria ser treinador depois de pendurar as chuteiras?
Sim. E tive miúdos que foram meus jogadores, o Ricardo Nascimento, Fangueiro, que estavam nos juniores do Leixões e fui eu que os puxei para os seniores. Eu já via os jogos deles e dizia-lhes "um dia vais ser meu jogador". Hoje não me importava de ter começado como adjunto de um treinador da minha confiança e de quem gostasse, mas na altura não quis. Quando acabei o curso, fiz um estágio no Tottenham de Inglaterra, em 1993/94. Era treinador o Ardiles, um sul americano fantástico. Foi bom esse estágio, porque conhecemos outras coisas, temos outras experiências, vi coisas incríveis. Dou um exemplo: eu vi os miúdos dos juvenis e iniciados a ficarem no final dos treinos a limpar as botas dos seniores. Qual era a razão? Muito simples, era para os entreter, para estarem ocupados e não se meterem noutros vícios.

Quando regressou desse estágio começou logo a trabalhar?
Quando vim, sou convidado pelo falecido e conceituado jornalista Neves de Sousa para fazer um comentário de um jogo para a televisão. E nesse jogo ele é que dá a noticia: "quero dar em 1.ª mão a notícia de que o Álvaro Magalhães vai seguir a carreira de treinador". Na altura não tinha clube. Já tinha tido a oportunidade de entrar como adjunto do José Romão, no Belenenses.

A primeira equipa que treina é o Lusitano da Lourosa. Como surge o convite?
É um fim de semana que passo na Figueira da Foz, onde tenho uma casa. Às duas da manhã recebo uma chamada de um grande amigo meu, o António Teixeira, que ainda não era empresário, e que me pergunta se quero ir para o Lourosa, faltavam sete jogos para acabar a época. Almocei com ele no dia seguinte, disse quanto queria ganhar. No dia seguinte mandaram-me ir lá. Já na altura havia empresários e treinadores a telefonar ao presidente e a oferecerem-se de borla ou mais barato. O António Teixeira dizia-me: "Ó Álvaro, olha que já anda aqui muito treinador a rondar, a velhada já anda a oferecer-se de borla". Conversamos e chegamos a acordo. Houve um diretor que disse bem alto na reunião: "Eu gosto de água limpa e como a água do Álvaro é limpa eu aceito as condições dele". E iniciei a minha carreira no Lourosa, em 1994/95.

Como foi a estreia?
O primeiro jogo de apresentação foi logo um dérbi. Lourosa-Lamas. Aquilo é de cortar à faca, uma rivalidade tremenda. O Lamas estava a lutar para subir e eu fui ganhar 4-1, a Lamas. Não me mataram porque não calhou [risos]. Foi um início de carreira fantástico. Ganhei os sete jogos que faltavam. No ano seguinte fizemos uma grande equipa também, com algumas dificuldades financeiras. Lutamos pela subida nesse ano 1995/96. Decido ficar lá mais um ano mas recebo um convite do Santa Clara. E revolucionei o futebol açoriano.

A primeira vez que Álvaro Magalhães treinou a Naval foi em 2002/03

A primeira vez que Álvaro Magalhães treinou a Naval foi em 2002/03

Rui Duarte Silva

Foi sozinho ou com a família para os Açores?
Sempre sozinho. Construí uma grande equipa, estávamos em 1.º lugar em fevereiro. Já havia convites da I divisão e do continente. Eu tinha levado para lá 16 jogadores. Aliás, a equipa acabou por subir. Quando saí deixei a equipa em 1.º lugar. Mas saí porque recebo um convite do GD Chaves. Agora é diferente, mas naquela altura nos Açores era mais difícil, não havia telemóveis não havia nada lá. Só líamos os jornais no dia seguinte, a informação demorava a chegar, não era como no continente. Eu ressenti-me um bocadinho. Mas como tinha levado jogadores, estavam lá por mim, não deixei o Santa Clara. Só que no jogo em que ganhamos 6-1 ao Beja, e estávamos em 1.º lugar, o diretor começou a dizer "você não quer ficar aqui para o ano então temos de chegar a acordo”. OK. No dia seguinte estava a apanhar o avião para Lisboa. Cheguei às quatro da manhã e às sete estava a ir para Chaves. Cheguei a Chaves não tinha dormido nada.

Gostou de Chaves?
Uma cidade fantástica. Acabamos por manter a equipa na I Liga.

Mas fez poucos jogos pelo Chaves…
Eu fui para lá em fevereiro quando saí do Santa Clara. É giro, porque estou a entrar no campo do Chaves e estou a receber uma chamada do Manuel Fernandes a perguntar-me como era, porque tinha recebido um convite do Santa Clara. Disse-lhe: "Vai. Aquela equipa está preparada para subir de divisão". Eu revolucionei o futebol nos Açores em termos de mentalidade, de profissionalismo, aquilo era regional, aquilo não era futebol profissional, foi profissional quando eu lá cheguei e profissionalizei aquilo tudo, os departamentos todos. Agora então está muito melhor, os anos passam e tudo evolui.

Acaba a época no GD Chaves que estava na I Liga e acaba por ir para o Gil Vicente que estava na II liga. O que aconteceu?
Faltavam três jogos para acabar a época, há uma direção nova que pensou noutro treinador. Eu estava a sair de Chaves a caminho de casa, quando recebo uma chamada do presidente do Gil Vicente, a querer uma reunião comigo em Vila da Feira. Havia vários contactos. Mas parei em Vila da Feira, almocei com os diretores do Gil Vicente e cheguei a acordo. Acabou o campeonato e saí logo no dia seguinte. E em boa hora fui para o Gil Vicente.

Sobe logo de divisão.
Subo de divisão a sete jornadas do fim e fui campeão nacional. O primeiro nacional do Gil Vicente foi comigo. Depois, construí uma equipa na I divisão e ficamos em 5.º, a um ponto da Europa. Impressionante.

Era uma equipa com Ricardo Nascimento e Fangueiro de quem falou há pouco.
Exatamente. E o Petit, Carlitos, o Auri, o Sérgio Lomba, o Paulo Jorge, um guarda-redes pequenino; era uma equipa fantástica.

Álvaro no museu do Benfica acompanhado pelo filho e Chalana (à esquerda)

Álvaro no museu do Benfica acompanhado pelo filho e Chalana (à esquerda)

D.R.

Mas na época seguinte as coisas não correm tão bem.
A maior parte foram todos transferidos, ficaram três ou quatro jogadores da equipa titular, de resto foi tudo embora. Equipa nova, difícil no início. Quando estava a subir de rendimento, até ganhámos ao Manuel José, em Leiria... e recebi uma chamada do Pimenta Machado a convidar-me para Guimarães.

Não hesitou.
Mas penso que tinha de ter alicerces bem definidos. O Vitória de Guimarães é um dos melhores clubes do nosso país. Um treinador para ir para Guimarães tem de ir de início e saber planear, programar, escolher os jogadores de forma a ter uma equipa à sua imagem. Porque a massa associativa do Vitória de Guimarães é do melhor que conheci no mundo do futebol. De alto nível. Só que, Paulo Autuori saiu e deixa uma equipa com muitos jogadores brasileiros. Eu não sou contra os brasileiros, mas muitos brasileiros numa equipa em Portugal, eh pá, um é bom, dois mais ou menos, três é uma escola de samba. Complica um bocadinho. Eu tive jogadores brasileiros fantásticos, atenção. Mas havia ali um grupo de jogadores já em final de carreira... Foi um erro. Aquele momento não foi ideal para ter ido para lá. Se tivesse ido para o Vitória Guimarães no início da época não tenho dúvidas de que tinha sucesso lá. É tão fácil ter sucesso quando se tem uma grande equipa, quando é um grande clube e se tem dirigentes de nível alto.

Não fica porquê?
Disse ao presidente que me vinha embora. Houve ali um jogador que me deixou com o pé atrás. Eu não posso permitir que um jogador... Estávamos a ganhar 2-0 ao Alverca, faltavam cinco minutos para acabar o jogo, empatámos o jogo. A seguir ao jogo eu e o meu adjunto fomos jantar e quando entrámos no restaurante estava esse jogador que não falo o nome, porque não merece respeito nenhum, com um outro treinador, espanhol, que tinha sido despedido do SC Braga. Ele sabia que esse treinador andava a oferecer-se ao Vitoria de Guimarães. Esse treinador foi jantar com esse jogador já veterano, já ratazana, com o intuito de me prejudicar. A partir daí quando vi aquilo disse ao Pimenta Machado: "Isto não dá. Agora já sei porque é que isto não vai para a frente. Vai lutar pela descida até a última jornada". E foi o que aconteceu. Foi para lá o Inácio, mas só se salvou no último jogo. Veja bem as dificuldades que o Inácio teve também. Foi o maior erro profissional que cometi como treinador, não devia ter saído do Gil Vicente quando está o campeonato a decorrer, onde sou bem tratado... Às vezes a ambição é traiçoeira. Felizmente, passados uns anos voltei ao Gil Vicente.

Tiago, filho único de Álvaro Magalhães é dentista

Tiago, filho único de Álvaro Magalhães é dentista

D.R.

Quando saiu de Guimarães teve logo ofertas?
Sim, vim para Lisboa e fui para o Estrela da Amadora. Um clube também muito problemático, chegou a haver seis meses de ordenados em atraso e eu com a minha maneira de ser... Houve promessas do presidente de pagar antes do Natal, pelo menos para comermos um bom bacalhau e termos uma consoada boa e feliz. E com ordenados em atraso, antes do jogo contra o Nacional da Madeira, em que ganhei 3-0, eu tenho uma reunião com o presidente em que ele me promete que no final desse jogo ia pagar os ordenados. Mas não houve dinheiro, não houve nada para ninguém. Exaltei-me com ele, disse que ele era uma aldrabão, que me tinha mentido à frente do Marques Pedrosa e que assim não íamos lá. Claro, mais uma jornada ou duas, aproveitou uma derrota e acabamos por sair. Acabou por ir para lá o Jorge Jesus.

No ano seguinte foi para a Naval.
Sim. Fui às meias-finais da Taça de Portugal, subimos de divisão. E apanhei o Jorge Jesus nesse ano e quem o manda para a rua fui eu [risos].

Como assim?
O Estrela foi jogar à Naval, eu ganho 1-0 e o Estrela despede o meu amigo Jorge Jesus. A Naval fez uma época do outro mundo, ganhámos ao Sporting em Alvalade, depois fomos jogar as meias-finais contra o FCP do Mourinho...

Disse que tinha subido mas não subiu.
Eu subi dentro de campo. No último jogo, aos 90 minutos, eu estou na I divisão. O árbitro não deu os descontos - e aí o presidente havia que protestar o jogo porque faltavam três minutos de descontos -, e os adeptos entraram dentro do campo a festejar a nossa subida. Porque o nosso empate já chegava. Mas o jogo do Portimonense com o E. Amadora, liderado pelo João Alves, não acabou no tempo regulamentar aquilo foi até aos 100 minutos está a perceber? Havia três equipas que podiam subir. Nós só precisávamos do empate se o Portimonense empatasse ou ganhasse ao Estrela da Amadora. Se empatássemos e o Estrela ganhasse era o Estrela que subia. Acontece que aos 90 minutos, o Portimonense estava a ganhar 2-1. O nosso jogo acaba e passado um minuto, 2-2, e passado mais sete, oito minutos, 2-3. É muito estranho isto, não é? O jogo nunca mais acabava. Mas pronto, são tempos antigos. Só que deixam marcas. Eu próprio disse no final do jogo que tinha sido uma vergonha o que se tinha passado em Portimão. Nós a festejar a nossa subida porque nos disseram que o Portimonense estava a ganhar 2-1...Os jogos têm de acabar ao mesmo tempo, não é? Aliás, o último golo do Estrela foi de penálti, veja bem. E deviam ver era o lance que deu a grande penalidade.

É despedido?
Eu ia renovar contrato com a Naval quando recebo um convite do Benfica.

Álvaro e Camacho festejam a conquista da Taça de Portugal pelo Benfica

Álvaro e Camacho festejam a conquista da Taça de Portugal pelo Benfica

Rui Ochôa

Quem o convida?
Foi o José Veiga que me ligou. O Vieira estava lá como diretor de futebol, era Vilarinho o presidente. Nesse ano o Vilarinho sai e o Vieira entra logo automaticamente como presidente, sem eleições. Convidaram-me para fazer parte da equipa do Camacho e fui trabalhar com um grande treinador, foi a primeira e única vez que fui adjunto. E de um homem que tive o privilégio de defrontar no Campeonato da Europa, em 1984.

Gostou de trabalhar com ele?
Um homem extraordinário, trabalhei muito bem com ele. Ele procurou conhecer-me. E um treinador principal tem de conhecer, observar, não só os jogadores, mas as pessoas que estão ao seu lado, até os diretores. Temos de saber quem está do nosso lado e quem não está. Porque temos de desconfiar até do gato.

Depois veio o Trapattoni. Muito diferente do Camacho?
Sim, dois treinadores muito bons, mas há uma grande diferença. O Trapattoni ganhou tudo, e é ainda o mais medalhado na Europa, com 80 anos. Os dois são bons, mas cada um tem a sua metodologia de treino.

Preferiu o Camacho?
Em termos de trabalho o Camacho era superior, mas se calhar na vertente psicológica o Trapattoni, não é que seja melhor, é diferente. Ele tinha uma maneira de ser especial. O Camacho era dos nossos, com exercícios e com outra dinâmica, mas também é mais novo. Foi fantástico trabalhar com os dois, aprendi com ambos. Um mais da minha geração e outro mais velho. Não tem que se afastar os mais velhos. O que se está a passar no futebol português é uma vergonha, porque a experiência é muito importante na vida. Uma pessoa aos 60 ou 65 anos não está velha. Há pessoas com menos idade e que estão mais velhos do que os que têm 60 e 70 anos.

Vou pedir-lhe para explicar o que aprendeu mais com um e com o outro.
Da experiência de um grande jogador que passou pelo Real Madrid [Camacho], com outra mentalidade. O Camacho tem a mesma "agressividade" que eu usava, quando é preciso dar um soco na mesa tem que se dar. O Trapattoni no campo treinava o razoável, o treino para ele era mais suave, ele dizia que o importante era ter bons jogadores. Não trabalhava tanto a parte tática no campo. Mas tinha uma maneira de falar para os jogadores muito simples. Na parte psicológica era muito bom e ele sabia disso. Era um indivíduo mais tranquilo, na altura de se chatear era agressivo também, mas soube levar a água ao seu moinho. O Camacho se lhe dessem condições era campeão em Portugal.

José Veiga, Álvaro Magalhães e Trapattoni, em 2004/05

José Veiga, Álvaro Magalhães e Trapattoni, em 2004/05

Ana Baião

Foi campeão com o Trapattoni, mas o Álvaro sai.
Foi tudo apanhado de surpresa. Ninguém estava à espera que eu saísse. Eu acabava o contrato. Foi uma injustiça.

Estava à espera que o Benfica renovasse consigo?
Toda a gente do mundo do futebol ficou surpreendida por não terem renovado. Os adeptos do Benfica ficaram surpreendidos também, toda a gente. Eles sabem o trabalho que fiz no ano do Camacho e no ano do Trapattoni. Não é puxar pelos galões, mas o Trapattoni, se não tivesse tido um adjunto como eu, dificilmente seria campeão nacional.

Porquê?
Pela experiência que tenho tanto como jogador do Benfica, como jogador da seleção, como treinador. O conhecimento que tinha de todos os jogadores do futebol português, e não só, foi importante para ajudar o Trapattoni a ter sucesso. Eu sabia o caminho que o Trapattoni tinha de seguir. É preciso ter gente com personalidade e com competência ao lado. Isto é como quando se diz ao lado de um grande homem está uma grande mulher, ao lado de um treinador principal tem de estar uma equipa técnica capaz de o ajudar.

Mas não inicia a época seguinte na Naval.
Não. A Naval surge em dezembro. Apanhei a equipa em maus lençóis. E quando estou a recuperar a equipa, e bem, tenho lá jogadores que podem confirmar isso, tive uma desavença com o presidente. Não admito faltas de disciplina. O homem era maluco. Normalmente os treinadores quando saem de um clube em desavenças, não voltam a ser chamados. Aqui foi ao contrário. Ele acreditava muito em bruxarias, era muito sonhador, ia lá fazer as mezinhas deles, e eu não sei se isso ajuda...Deve ter ido a uma senhora dessas que lhe disse "muda de treinador" [risos]. E ele vai para casa, dorme com aquilo na cabeça e... Fazia isso aos treinadores. Ele acabou até por ir a tribunal e pagou. Mas se ele tivesse dúvidas, que não tinha, não me convidava passados uns anos como convidou.

Álvaro com o neto Tiago

Álvaro com o neto Tiago

D.R.

Antes desse regresso, na época seguinte vai para o Olhanense.
Vou substituir o Manuel Balela, a equipa não estava bem mas fizemos uma época boa. Depois, lá está: ‘que las hay, hay’. Eu faço uma equipa forte no ano seguinte, até fui buscar o Daniel Carriço, fui eu que o lancei no futebol profissional. Estou a fazer um campeonato muito bom, sou convidado para ir para Angola para o 1.º de Agosto e estive ali, vai não vai, porque era muito dinheiro, mas disse, não, vou ficar aqui no Olhanense. Porque quando gosto de construir uma equipa, gosto de ser eu a levá-la até ao fim. Estou a fazer um campeonato fantástico e houve ali interesse e má-fé de um advogado que desapareceu deste mapa, que queria lá meter um treinador.

Conte lá isso.
Faço o jogo na Póvoa do Varzim, sabia que íamos subir de divisão, dou férias de Natal aos jogadores, venho para baixo, tenho um convite para ir para a Roménia, encontro-me com os dirigentes romenos em Lisboa e convido esse advogado para falar comigo e ele próprio vai dar conhecimento ao Olhanense que eu estava a negociar um contrato para a Roménia. O que é que acontece? Eu não chego a acordo com o gajo da Roménia, estou preparado para ir para o Algarve para iniciar novamente os treinos depois das férias de natal e estou no carro para arrancar quando esse advogado liga-me a dizer: "Há aqui um problema". Reuni-me com o presidente e com outros diretores. E começam "ah e tal..."; "o que é que se passa, não estou a trabalhar bem?"; "ah e tal..." Dão desculpas que tinha mau feitio. Mas que é isto, mau feito? Um treinador exigente, rigoroso, é mau feito? Eu prefiro ter um treinador exigente, rigoroso e com mau feitio do que ter um treinador mansinho. "Queremos mudar, queremos mudar". Veja bem isto, o que é o futebol. E eu OK, fechamos contrato já. Rescindi contrato e passado uns dias estava no Feirense. Fui recuperar o Feirense, fizemos uma campanha ótima.

Álvaro esteve no Benfica como adjunto de 2003 a 2005

Álvaro esteve no Benfica como adjunto de 2003 a 2005

Ana Baião

Depois do Feirense tem a sua primeira aventura fora, na Roménia.
Sim, fui eu e o meu preparador físico. Na altura só podíamos ir dois. Fomos enganados por um empresário que nos levou para um clube [Gloria Buzau] que nem imagina.

Qual foi o primeiro impacto quando lá chegou?
Bom, porque Budapeste é giro, a cidade é bonita. Mas quando entro no estádio e tenho 50 jogadores e qual deles o pior eu digo assim: "estou feito ao bife". Depois a mentalidade daquele clube. Nem imagina. Rapazinhos que nunca jogaram à bola. Falei com o meu preparador, o Jorge, e disse-lhe vamos ver se conseguimos dar a volta a isto, se não der, temos de ir embora. E foi o que aconteceu. Teve de ser. Ainda por cima apanhei logo os primeiros quatro classificados. Estou desgraçado. Não temos um 11 definido, não conhecemos ninguém, não jogam nada, aquilo era uma coisa impressionante, só visto. Os jogadores indisciplinados, era incrível. Era uma equipa que, se eu fosse empresário, até tinha vergonha de levar um treinador português para um clube daqueles, sem condições. Ao fim de dois, três meses vim logo embora. Esse clube nem faz parte da história da minha carreira.

A seguir vai para onde?
Para Angola.

Então não é para o SC Covilhã?
Ah, vou para o SC Covilhã, mas só fiz a pré-época. Só estive lá duas semanas. Ainda hoje estou à espera que o presidente me diga... Eu construí a equipa, estávamos a fazer a pré-época, duas semanas de trabalho bem feitas, fomos jogar contra a Académica e fizemos um bom jogo, vamos começar a terceira semana de trabalho numa segunda-feira e… O meu contrato ainda estava a ser discutido e depois não houve entendimento nas contratações. O presidente e eu fomos teimosos e como quem mandava era ele, saí.

Entretanto recebe o convite do Interclube de Angola?
Sim, em 2010. Vou para lá e fui campeão.

Álvaro regressou à Naval em 2012/3

Álvaro regressou à Naval em 2012/3

Rui Duarte Silva

Qual foi também o primeiro impacto quando aterrou em Luanda?
Eu adapto-me com facilidade. A minha mulher é angolana, a família dela é a família McMahon, que está lá. Claro que é diferente chegarmos e vermos aquela pobreza toda na rua. Há zonas muito bonitas, mas há outras que são muito pobres. Mas é um país de outro mundo, rico, só morre de fome quem quer. Tem tudo. E agora está muito melhor do que quando lá cheguei. Eu sabia o que ia ver. Eu via os ratinhos a passar na zona onde estávamos a comer... e as moscas... tudo isso faz parte do ambiente e nós temos de nos adaptar e nem ligar a isso. Mas há outros sítios fantásticos. Mas foi um ano de luxo. Tive um presidente que me deu todas as condições. Ele também pertencia ao Ministério do Interior, não faltava nada. Tive todas as condições para ter sucesso.

No ano seguinte foi embora. Porquê?
Há pessoas que nem estão no futebol e querem ganhar dinheiro a todo o custo. Houve uma pessoa que apareceu e queria lá meter jogadores de porcaria. Levar jogadores de Portugal para Angola têm de ser jogadores com nível, porque em África há jogadores de grande qualidade e de grande nível. Eu já estava lá há um ano e o presidente contratou dois jogadores cabo-verdianos muito bons e a pessoa que queria lá colocar jogadores tinha uns conhecimentos muito superiores, com ministros e deputados, etc.... E tentou prejudicar o treinador porque não meti jogadores dele. Ele nem é empresário, devia ter vergonha, porque seu fizesse uma queixa à FIFA tinha problemas porque ele nem empresário era. Só que como foi ele que me levou... E as pessoas podem ganhar o dinheiro que quiserem, agora a mim não me compram, não tem hipóteses. Por não me comprarem muitas das vezes o Álvaro está sem trabalho. Essa é a realidade. A mim não me compram.

Ainda vai para o Nacional de Benguela em 2012.
Sim, isso foi um convite muito em cima do campeonato começar. Eu e mais um adjunto dissemos: "vamos tentar.". Só que os jogadores, coitadinhos, mesmo coitadinhos. Estivemos a selecionar, selecionar, selecionar jogadores, mas acabei por dizer ao meu adjunto: "Zé, vamos embora, não temos hipóteses". Havia coisas que se passavam no clube que não tinham nada a ver com o Inter de Luanda. Por isso é que digo: nós treinadores, se não houver uma estrutura forte, uma boa organização, não temos sucesso, é difícil ter sucesso. Nós temos de ter gente boa ao nosso lado para aprendermos também, porque nós não somos os melhores do mundo; temos de ter conhecimento mas se eu tiver pessoas ao meu lado com outro conhecimento e outra mentalidade é importante, estamos sempre a aprender todos os dias.

Em 2016/17 Alvaro volta a treinar o Gil Vicente depois de ter lá estado a primeira vez em 1998/99

Em 2016/17 Alvaro volta a treinar o Gil Vicente depois de ter lá estado a primeira vez em 1998/99

Gualter Fatia

Entretanto é chamado outra vez pela Naval.
Que me deve um ano de trabalho. Fui salvar a Naval e podia ter subido de divisão. Tinha uma grande equipa e acabei por nem receber. Cheguei ao ponto de faltarem 10 jogos e tínhamos já uma situação privilegiada, ainda tínhamos aquela ambição de subir de divisão. Disse aos jogadores: "não recebemos mas como eu tenho um prémio de subida, se subirmos eu dou-vos o meu prémio, se eu receber o dinheiro, claro". Nesse ano, quando faltavam 10 jogos, a FIFA obrigou o clube a pagar a vários jogadores brasileiros e foram retirados 12 pontos. Quando acabou o campeonato retiraram mais 5 pontos e mesmo assim a equipa não desceu de divisão. Só que depois a SAD entrou em insolvência, o clube não se inscreveu. Depois fui para o Tondela.

Substituir o Vítor Paneira.
Sim, entrei em novembro. A seguir voltei ao Gil Vicente num ano difícil, com um orçamento baixíssimo, com miúdos. No fim do ano o presidente saiu e saímos todos. E o ano passado [refere-se à época 2018/19) fui salvar o Farense e revolucionar um pouco a mentalidade daquela gente. Fui organizar aquele clube e posso dizer-lhe que foi uma surpresa não ter continuado. Uma surpresa para toda a gente, depois de ter conseguido a manutenção. Porque quando lá cheguei, aquilo estava num momento crítico e consegui construir um grupo bom que criou alicerces para o ano seguinte. Por isso a minha surpresa. Eu próprio disse ao presidente para pensar pela sua cabeça e que não fosse influenciado. Julgo que ele foi influenciado por alguém que não pode andar no futebol português. E criou condições ao treinador que chegou no ano a seguir, para já porque o caminho estava limpo, e foi contratar jogadores para poder fazer uma equipa para subir de divisão.

A última equipa que Álvaro Magalhães treinou foi o Farense em 2018/19

A última equipa que Álvaro Magalhães treinou foi o Farense em 2018/19

Gualter Fatia

Depois disso não lhe apareceram mais convites?
Apareceram. Posso dizer que fui burlado por uma pessoa que não merece andar no futebol, não falo o nome, ele se ler a entrevista vai saber muito bem, anda muito nas redes sociais e devia ter respeito pelas pessoas, porque se tem de apontar alguma coisa se tem de falar é na cara. O ano passado estivemos em negociações na Ucrânia, para começarmos em janeiro no Cazaquistão num clube que nos dava condições fantásticas, e em dezembro, depois de termos tratado de toda a documentação, acabamos por ser enrolados, enganados.

Enganados de que forma?
Fomos enganados porque tínhamos tudo preparado para assinar os contratos e passados dois meses dizem que as pessoas do clube nunca mais falaram com os empresários. É mentira. A própria pessoa que nos queria levar para lá enganou-nos. É tudo estranho.

E depois disso?
Depois disso apareceram algumas coisas mas que não me dão garantias de ter sucesso. Uma pessoa como eu, que quer vencer, ganhar e ter sucesso, gosta de ter uma coisa com pernas, com estabilidade. Não posso agarrar um projeto para estar sempre com as calças na mão como se costuma dizer.

Pensa continuar a treinar?
Sem dúvida. Estou à espera, ansioso, e estou triste por não estar a treinar porque mereço estar a trabalhar. Tenho provas mais do que provadas de treinar bem, de liderança, tudo. E os jogadores todos que passam pelas minhas mãos saíram para grandes clubes. Agora, eu tenho uma maneira de ser e de estar de rigor e a disciplina, não é ter mau feitio.

A sobrinha, o filho e a mulher de Álvaro Magalhães

A sobrinha, o filho e a mulher de Álvaro Magalhães

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Gil Vicente.

Investiu-o em quê ao longo do anos?
Imobiliário e também tive negócios com o meu sogro na área da agricultura.

Tem ou teve superstições?
Benzo-me sempre antes de entrar num jogo. E tenho sempre de fazer o último chichi antes de entrar [risos]. Quando fui adjunto no Benfica, o Moreira, o guarda-redes, vinha sempre ter comigo para me dar um cachaço antes do jogo começar e então eu já sabia e provocava logo a situação de ir ter com ele porque ele tinha aquela superstição [risos].

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Acho que comprei carros demais. Na altura em que tinha um Renault 5 no início da minha carreira de jogador, como os outros já tinham grandes carros eu quis logo comprar um BMW [risos].

Tem algum outro desporto que goste de seguir, além do futebol?
Hóquei em patins. Adoro. E também gosto muito de futsal.

Hóbis, tem?
Sou muito caseiro. Gosto de estar em casa, gosto de estar com a família. E de vez em quando jantar com uns amigos.

Se não fosse jogador de futebol teria sido o quê?
Tinha tirado um curso em Coimbra, eu era bom aluno, podia ser Economia, Direito...

Na sua carreira qual foi a maior alegria e a maior desilusão?
A maior desilusão foi não ter jogado a segunda mão da final da Taça UEFA, nem a final da Liga dos Campeões em 1990. A maior alegria desportiva foi ter chegado a um clube grande, ser titular, ser campeão e depois representar o nosso país.

Qual a maior amizade que fez no futebol?
Tenho muitas e boas. A maior que tive foi o Camilo, da Académica, que já não está entre nós. Foi uma pessoa importante no início da minha carreira como jogador.

Enquanto treinador qual foi o jogador que mais o surpreendeu? De que não estava à espera de tanto?
O Petit.

Sobre o defeito de nascença que tinha numa mão...
Sobre isso não quero falar. Não vale a pena. Está resolvido.