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A casa às costas

"O Cândido Costa para o Gaspar: ‘Ai o casaco é de pele de crocodilo? Então tem de estar na água’. E enfiou-o no aquário da marisqueira"

Desde um presidente que entra no balneário com uma mala e dois seguranças, aos berros de Jorge Jesus para 50 Cent, passando pela importância da avó paterna na ida para o estrangeiro, Gonçalo Brandão revela vários pormenores da sua carreira, que começou no clube do coração, o Belenenses, e passou por Inglaterra, Itália e Suíça, antes de regressar a casa. A uma semana de completar 34 anos, Gonçalo Brandão diz-se feliz na equipa B do FC Porto, onde é o jogador mais velho, e sonha com um futuro como treinador

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Lisboa. Fale-nos um pouco da sua família, o que faziam os seus pais, quantos irmãos tem, onde cresceu...
Tenho uma irmã dois anos mais nova do que eu. O meu pai é escriturário e a minha mãe empregada doméstica. Cresci entre Belém e os Olivais, onde tinha os meus primos, no fim de semana ia sempre para lá. Durante a semana estava em Belém.

O futebol começa na rua com os primos?
Sim. Nunca pratiquei outro desporto mais a sério sem ser futebol, mas ocasionalmente jogava basquetebol com os amigos e mais tarde ténis.

Quando era pequenino torcia por que clube?
Sempre pelo Belenenses. Na minha família tenho pessoas de vários clubes, mas eu fui sempre do Belenenses.

Como era em criança?
Acho que nunca dei problemas aos meus pais, era um miúdo tranquilo. Às vezes faltava às aulas, mas eles só vinham a saber depois, tudo por causa do futebol. Às vezes ia a torneios fora da escola. Eu tinha faltas e eles não sabiam porquê [risos]. Mas nunca tive faltas por mau comportamento, era sempre para ir jogar futebol.

Fez a escola até que ano?
No 11.º fui para Inglaterra um ano e meio. Depois voltei e continuei o 11.º ano, mas entretanto voltei a ir para fora outra vez, para Itália e, quando voltei, terminei o 11º e iniciei o 12º ano; mas voltei a ir para Itália. Estive sete anos no estrangeiro e não terminei o 12.º ano.

Gonçalo iniciou o seu percurso de futebolista no Belenenses

Gonçalo iniciou o seu percurso de futebolista no Belenenses

D.R.

Quando vai para o Belenenses tinha seis anos. É o Gonçalo que pede ou são os seus pais que resolvem levá-lo?
Eu não pedi, mas a minha mãe sabia da minha paixão pelo futebol, até porque eu jogava muito na rua, foi uma infância completamente diferente desta que, por exemplo, os meus filhos estão a ter. Desde os meus sete anos que eu saía da escola, ia a casa, comia qualquer coisa e ia para a rua para jogar à bola, nem pedia, só dizia aos meus pais que ia para a rua e não era preciso preocuparmo-nos com outras coisas. Joguei um bocadinho de futsal, não a nível federado, mas numa equipa de bairro da Ajuda, até que aos seis anos aceitaram-me no Belenenses; isto por uma questão de conveniência, era o clube mais perto. Fui treinar ao Belenenses, na altura não havia escolinhas, era por captações. Quem ficava, ficava, quem não ficava tinha de ir a outro clube. Eu fiz as captações, gostaram de mim e só saí com 19 anos, quando fui para Inglaterra.

Desses tempos de formação houve algum treinador ou jogador que o tenha marcado mais?
Marcaram-me quase todos os treinadores que apanhei na formação. Marcou-me muito uma geração mais velha que a minha, a geração do Rolando, do Rúben Amorim, do Bruno Simão, era uma geração muito forte, que fornecia muitos jogadores à seleção nacional. Tínhamos um bom grupo e uma boa equipa que me marcou na formação.

Como é que se define a sua posição em campo? Na rua e na escola já jogava atrás?
[risos] Na rua às vezes éramos só três amigos, um ia à baliza e jogávamos ao vira-costas, um lançava a bola e os outros dois faziam um contra um. Nunca fui defesa, aliás deixava-me ficar muito no ataque. No Belenenses, no início comecei a jogar na frente. Mas houve uma altura da minha infância em que dei um pulo muito grande a nível físico, fiquei alto e houve um jogo contra o Estrela da Amadora em que o Vítor Silva me chama. Ainda me lembro, eles tinham um avançado que também era muito alto e o mister disse: "Gonçalo, hoje vais jogar lá atrás porque eles têm um avançado da tua altura, vocês são os dois muito altos se meto lá um pequenino a marcar, não vamos ter hipótese". Correu-me bem, a partir daí o mister viu qualidades em mim para jogar atrás. Devia ter uns dez anos.

Não ficou chateado?
Não, nessa idade queres é jogar à bola.

Sempre quis ser jogador de futebol ou chegou a sonhar ser outra coisa?
Ser jogador sempre foi ideia fixa, até porque na família tinha, e tenho - só que já não joga, um primo mais velho três ou quatro anos, o Marco Santos, que era um craque. Eu como ia todos os fins de semana para casa dele, só queria jogar como ele. Ele teve inúmeros convites para ir para clubes grandes, Benfica, Sporting e tudo mais, mas nunca quis, sempre preferiu jogar no bairro, no futsal. A nível de futsal também teve convites de boas equipas da divisão mais alta e nunca quis porque, lá está, ou não era o sonho dele ou tinha outras prioridades, estar com os amigos, com a namorada. Ele também era mais velho, mas eu lembro-me que cresci muito a nível futebolístico sem perceber, com ele. Deu-me muitas valências o ter estado com ele e com um outro primo, João Pedro, que também era um excelente jogador, esse ainda jogou federado no Olivais e Moscavide. Eram os dois fantásticos jogadores. Aliás, estou sempre a dizer que o meu primo Marco teria tido o dobro da carreira que eu tive se tivesse tido a mesma convicção que eu tive.

O primeiro cartão de atleta do Belenenses

O primeiro cartão de atleta do Belenenses

D.R.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Na seleção de Lisboa fiz os escalões todos. Lembro-me do torneio Lopes da Silva, onde se juntam todas as seleções dos melhores distritos do país. A minha seleção, de Lisboa, era a seleção do Miguel Veloso, Mário Felgueiras, Tiago Torres, João Coimbra… Era uma geração muito forte e ganhámos o Torneio Lopes da Silva. A partir desse torneio faziam-se as bases para a seleção de Sub-15, por isso a minha primeira chamada foi à seleção nacional de Sub-15. Fiz os escalões todos de Sub-15 até à seleção A.

Os primeiros namoros e as primeiras saídas à noite começam nessa altura?
Nunca fui muito de sair à noite. Não me lembro quando foi a primeira vez, devia ter uns 16, 17 anos, mas era muito esporádico. Só saí um bocadinho mais quando fui para Itália porque estava sozinho, mas aqui não. Desde muito cedo também comecei a treinar com a equipa sénior, onde as responsabilidades eram a quadruplicar das que tinha na equipa de juniores, portanto nunca fui de sair à noite.

O primeiro dinheiro que ganhou no futebol, quando foi?
Foi com 16 anos. Com 15 assinei o meu primeiro contrato de formação, mas nunca cheguei a receber esse salário porque depois na transição para os 16 anos, o mister Manuel José chamou-me aos seniores para fazer a pré-época. Eu fiquei e depois fui inscrito na Liga, e para ser inscrito na Liga tinha que ter contrato profissional.

Recorda-se do valor do primeiro ordenado?
Era o mínimo que se podia receber, acho que eram mil ou novecentos e poucos euros, era o mínimo na altura, agora sei que subiu um bocadinho.

O que fez com esse dinheiro?
Se não estou em erro comprei um telemóvel. Embora o dinheiro fosse gerido pelo meu pai e ainda hoje é ele que gere um pouco as minhas finanças. Mas ele disse que o dinheiro era meu e que se eu queria comprar um telemóvel, que comprasse. Como vivia com os meus pais, também ajudava em casa e nunca fui muito gastador.

Gonçalo com um trofeu conquistado pelo Belenenses

Gonçalo com um trofeu conquistado pelo Belenenses

D.R.

Estava a contar que foi chamado pelo Manuel José à equipa principal, com 16 anos. Gostou do Manuel José como treinador?
Gostei, gostei. Aliás foi um treinador que me marcou e que me irá marcar sempre porque agora é um pouco mais normal ter-se miúdos a estrear na I Liga, mas naquela época não, estamos a falar de há quase 20 anos, em 2003/04. O meu primeiro jogo foi contra o Sporting em Alvalade, entrei na primeira parte.

Tremeram-lhe as pernas?
Tremeram. Até há um episódio muito engraçado. Eu entrei e a primeira bola que vou receber, recebi a bola e depois caí e foi uma risota entre os meus colegas, começaram logo a dizer que me tremiam as pernas. E a verdade é que tremiam, não escondo. Esse jogo foi domingo e na segunda-feira fui para a escola, continuei a fazer a minha vida normal.

Na escola notou um comportamento diferente dos seus colegas e professores a partir do momento em que começa a ser chamado à equipa principal?
Dos professores não tanto, até porque eu estava numa situação especial. Tinha um tutor, porque ao começar a treinar com os seniores, comecei a fazer a vida de jogador sénior. Na altura não havia essas preocupações com a escola da parte dos clubes, e então faltava a muitas aulas. Primeiro porque os estágios da seleção eram a meio dos anos letivos e depois por estar inserido numa equipa sénior na minha idade. Só no ano a seguir, com 18 anos, é que o Manuel Fernandes se estreou no Benfica, ou seja, até àquela altura ninguém se tinha estreado, nem tão pouco perto dessa idade num plantel de I Liga. Eu treinava de manhã, faltava às aulas todas da manhã e só podia ir à tarde. E às vezes eram só duas horas à tarde. Por ser atleta de alta competição a escola então arranjou-me um tutor que era a mãe do Miguel Veloso, Teresa Veloso. Eu e o Miguel tínhamos a facilidade de acompanhar a matéria com ela à tarde.

Lembra-se da primeira vez que entrou no balneário sénior?
Tive a sorte de apanhar jogadores como o Tuck, o Wilson, Filgueira, o Neca, Marco Aurélio, tudo jogadores para quem se olhava e tinha que se ter respeito. A minha geração jovem tinha um respeito pelos mais velhos incrível, muito diferente do que se passa hoje. Eles viam esse respeito e respeitavam-nos também, ajudavam-nos. Acho que cresci e entrei na equipa sénior na melhor altura porque aprendi muito. Ou seja, eu não errei a nível de carreira e a nível de comportamentos porque sempre tive muitos bons exemplos nos balneários que apanhei. Mais tarde apanhei o Silas, o Zé Pedro, Pedro Alves, Cândido Costa, Hugo Leal, tudo pessoas espectaculares. A nível de responsabilidade e de te ensinarem o que é ser jogador profissional de futebol, dou graças a Deus de ter apanhado esses balneários.

Nunca foi praxado?
Tive as praxes normais. Cantei, nada de grandes coisas. Agora no meu primeiro ano de sénior não me equipei logo no balneário com a equipa principal, já treinava com eles e tudo mas não me equipava lá. À mesa era sempre dos últimos a comer, tinha que ir buscar os cafés para eles, uma coisa que eu fazia com gosto. Um ano antes de me ter estreado era apanha bolas deles, portanto eu via-os como ídolos.

Quem era o seu ídolo maior?
Um jogador que admirava muito era o Ronaldo, o Fenómeno. Na altura em que era adolescente e em que já percebia o futebol ele era mágico, aquilo que ele fazia, nunca houve ninguém e dificilmente haverá alguém a fazer o que ele fazia.

Faz essa época com Manuel José e depois volta aos juniores?
Não, fiquei sempre lá, mas jogos mais importantes baixava e vinha jogar aos juniores. Eu, o Rúben Amorim, o Rolando. O Rolando na altura ainda tinha a nacionalidade cabo-verdiana, tinha um problema de visto e de inscrição, portanto só treinava, não podia jogar, mas eu e o Amorim andávamos nos dois lados. Nos jogos mais importantes vínhamos aos juniores mas também fizemos alguns jogos nos seniores.

A primeira chamada à seleção foi para os sub-15

A primeira chamada à seleção foi para os sub-15

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Antes de ir para Inglaterra ainda apanha como treinadores o Inácio e o Bojicevick. Que tal, muito diferentes de Manuel José?
O Bojicevick sim, muito diferente, joguei uns dois ou três jogos. Do mister Inácio também gostei muito. Era muito exigente, pedia muito, mas muito paciente com os jovens. Trabalhou bem comigo e com o Amorim, lembro-me que na final da Taça de Portugal com o Benfica, jogámos a titulares. Deu-nos a oportunidade que um jovem poderia ter na altura sem ser queimado. Porque eram tempos diferentes, não era como agora e acho que o mister fez um bom trabalho.

Como é que vai emprestado para Inglaterra e porquê?
Vou emprestado para Inglaterra com uma promessa de compra, nada escrito, mas apalavrado, para jogar no campeonato de Sub-23 pelo Charlton e treinar com a equipa principal. E foi o que aconteceu, treinei só com a equipa principal. Foi através de um empresário, o Amadeu Paixão.

Ir jogar fora era algo que ambicionava?
Sim. Foi bom ter ido para Inglaterra, fiz os jogos quase todos nos Sub-23 e fiz um jogo na equipa principal.

Não lhe custou sair da casa dos pais?
Custou muito, até levei a minha avó paterna comigo. Ela ficou lá a viver comigo para ser mais fácil a adaptação. Estive lá um ano, gostei muito, eles queriam comprar-me mas depois houve uma confusão a nível de verbas porque foi tudo apalavrado, nada escrito e é no ano em que o Belenenses desce de divisão e o presidente pede mais dinheiro porque ia ficar sem verbas televisivas e sem patrocínios. Pediu mais dinheiro e os ingleses acharam que não, não tanto pelo valor do jogador, mas porque tinha sido apalavrado com outro presidente outra verba. Regresso ao Belenenses, no ano em que ia descer, mas que acabou por não descer, foi o ano do célebre caso Mateus. O Belenenses contratou o mister Jorge Jesus.

Já lá vamos. Notou muita diferença quando chegou a Inglaterra a nível de futebol e de treino?
Notei. Os treinos eram um bocadinho mais físicos, com ginásio duas vezes por semana, coisa que em Portugal nunca tinha feito no Belenenses, nem mesmo na equipa sénior. E uma folga a meio da semana, que me fazia um bocadinho de confusão.

Do que gostou mais e menos desse período em Inglaterra?
O que gostei mais foi sem dúvida das condições de trabalho. O Charlton na altura estava na Premier League, tínhamos tudo o que um jogador pode ter para passar o dia inteiro no clube, com gosto. Íamos ao ginásio com gosto porque era um ginásio grande onde dava vontade de treinar, os campos eram de perder de vista, eram uns sete ou oito campos todos de seguida, tínhamos indoor, tínhamos cozinheiro, tínhamos tudo, era um clube que não deixava faltar nada. O que gostei menos foi o estar longe da família e dos amigos porque também era muito jovem. E do tempo. O tempo lá ainda nos deixa mais tristes porque está sempre a chover ou não se vê muito o sol.

Teve pena de não continuar em Inglaterra ou voltou de boa vontade?
Para nossa casa voltamos sempre de boa vontade, mas tive pena porque sei que era uma grande oportunidade para mim. Iria assinar um contrato de quatro anos, era um contrato bom, ficava ligado a um bom clube mas pronto a vida continua e voltei para o Belenenses.

Gonçalo fez toda a formação no Belenenses onde se tornou profissional em 2003/04

Gonçalo fez toda a formação no Belenenses onde se tornou profissional em 2003/04

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E que tal o Jorge de Jesus? Deu-se bem com ele?
Foi fantástico, o mister é fantástico. É muito exigente, especialmente com os mais velhos, é muito exigente mas depois com os jovens...

Vários jogadores disseram-me o contrário, que ele é muito exigente sobretudo com os mais novos e que chega a intimidar pela maneira como fala.
Chega a intimidar porque um jovem recebe o que ele diz de maneira diferente de um jogador já com alguma experiência. Se um treinador a mim, que tenho 33 anos, me gritar, não é por isso que eu vou tremer ou fazer mal o exercício a seguir; a um jovem de 18 anos, se calhar ele já fica mais amedrontado para fazer bem o exercício, fica pressionado digamos assim. Mas sim, o mister é muito exigente, sempre a gritar nos treinos, a exigir muito de cada jogador, mas foi o treinador com quem até hoje, juntamente com o António Conte e o Giampaolo, aprendi mais. A nível de treino, de conhecimento de jogo ele é fantástico.

Teve algum episódio caricato com ele?
O meu primeiro episódio com ele é muito curioso, e deixou-me chateado na altura, mas depois percebi que ele tinha razão. Quando chego de Inglaterra, ele vem ainda a contar que estamos na II Liga, e quando percebemos que vamos para a I Liga, o Belenenses começa a investir e vão buscar dois centrais. Eu percebi que ia sobrar pouco espaço para mim que era miúdo, e o mister Jesus tinha sempre o hábito de, na primeira semana, ir chamando ao gabinete dele os jogadores, um a um, para falar um bocadinho, saber da posição em que mais gostam de jogar, o que é que esperam dele, etc., etc.. Ele chamou-me e perguntou: "O que é que tu esperas para esta época?". O Olivais e Moscavide na altura estava na II divisão, tinha ido contratar emprestado o Miguel Veloso ao Sporting, estava a fazer uma boa equipa e eu: "Olhe, mister, vou ser sincero, o director desportivo do Olivais e Moscavide ligou-me, acho que ligou para si também - ele disse que sim - a propor ir para lá emprestado esta época porque eles querem subir à I". E ele disse-me: "Não, não, tu vais ficar aqui comigo. Aviso-te já que vais jogar pouco, mas vais aprender mais comigo num ano do num ano da II Liga em que a bola anda 90% no ar e 10% no chão. Tu ali só vais ganhar minutos de jogo, não vais aprender nada". E a verdade é que na primeira época com o Jesus joguei muito pouco mas o que aprendi ainda hoje me serve quando estou em campo ou quando falo de futebol. Muitas vezes referencio coisas que ele fazia.

Pode dar um exemplo?
De tudo, são exemplos táticos que assim são difíceis de explicar. Exemplos de posicionamento. No meu caso posso dar um exemplo muito simples que hoje em dia já se fala mais, mas que na altura ninguém falava, que é a posição dos apoios, de um defesa não ter os apoios virados de frente para o jogo e estar sempre com os apoios alinhados com a bola, isto foi das primeiras coisas que aprendi dele mas depois a nível tático aprendi muito com ele e já se viu. O Silas, por exemplo, a nível de treino faz sempre referência ao que aprendeu com o mister Jorge Jesus. E não acredito que haja um jogador que possa dizer, jogando mais ou jogando menos, que não aprendeu com o mister Jesus porque se não aprendeu era porque não estava atento nos treinos. Porque, repito, eu não joguei quase nada nessa época e foi um ano em que absorvi tudo e aprendi muito.

Depois do Belenenses Gonçalo jogou em três clubes italianos, entre eles o Parma

Depois do Belenenses Gonçalo jogou em três clubes italianos, entre eles o Parma

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Está nessas duas épocas no Belenenses com o Jorge Jesus, teve em equipas em que apanhou o Cândido Costa, o Marco Ferreira, o Silas, havia muita palhaçada. Lembra-se de alguma história engraçada?
Histórias engraçadas... Do Cândido tenho uma [risos]. Uma vez fizemos um jantar de equipa na marisqueira que era do pai de um guarda-redes dos juniores. O Cândido estava sempre a meter-se com o Gaspar, ex-jogador do Rio Ave. Eles estavam sempre como o gato e o rato, sempre a fazer partidas um ao outro. E o Gaspar estava a dizer: "Eh pá, ó Cândido, para quieto que este casaco é de pele"; e o Cândido sempre a brincar com o casaco dele e ele dizia: "Não, olha que este casaco é de pele de crocodilo". E o Cândido: "Ai é de pele de crocodilo, então olha o casaco aqui está mal, tem é de estar na água". E enfiou o casaco dentro do aquário da marisqueira com os peixes todos lá dentro [risos].

Qual foi a reação do Gaspar?
Ficou de boca aberta a rir-se, mas o Gaspar era espetacular nisso porque o Cândido fazia-lhe das boas, fazia-lhe partidas a sério, mas o Gaspar não se enervava, nada. Ele vinha por cima e fazia-lhe outra a seguir. Lembro-me que num jantar de equipa, na altura havia aquelas aplicações no telemóvel que dava para controlar as televisões dependendo do modelo e lembro-me do Cândido brincar com as televisões dos restaurantes. Os restaurantes cheios e ele levantava o som, baixava o som, metia em canais de Fórmula 1, canais de tudo e mais alguma coisa, com o som aos altos berros e as pessoas a jantar e a ficarem incomodadas e ninguém sabia quem era [risos]. O Cândido foi das melhores pessoas, eu estou sempre a dizer isto, se pudesse, se me dessem um jogador para escolher para me acompanhar na carreira toda num balneário, eu escolhia o Cândido. Porque o Cândido conseguia ser profissional, conseguia ser trabalhador, porque ele trabalhava muito, e com um currículo que ele tinha, já tinha o FC Porto, o SC Braga no currículo quando chegou ao Belenenses, e não era nada maniento, conseguia ser amigo, brincalhão mas ao mesmo tempo dar os conselhos certos às pessoas; conseguia ter conversas de tudo e mais alguma coisa. Ele é muito inteligente e é cinco estrelas.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

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A seguir vai vai para o Siena de Itália. Como, porquê, como é que surge?
Eu vou para o Siena porque foi uma altura difícil no Belenenses. Nós tínhamos ido à final da Taça, conseguimos ir ao playoff da Liga Europa, era Taça UEFA na altura, apanhamos o Bayern de Munique e fomos eliminados. Mas uma equipa que ia para a II divisão conseguir um 5º lugar no campeonato... Depois no final da segunda época do mister Jesus, eu, o Eliseu, o Rúben Amorim e o Rolando entrámos em final de contrato, o presidente Armando Cabral Ferreira tinha falecido, entrou uma nova direção que nos disse: "Vamos apostar no mercado brasileiro, para vocês temos esta renovação"; lembro-me que anualmente aumentaram-me uns 200 euros. Eu nem tinha empresário na altura, o meu pai é que foi à reunião comigo e disse ao presidente: "O Gonçalo está aqui desde os seis anos, você quer aumentar 200 euros anuais, isso por mês dá uns vinte euros e para lhe dar 20 euros mensais, posso dar eu, portanto o Gonçalo vai embora, não pelo dinheiro, mas porque vê que a aposta não vai ser nos portugueses nem na prata da casa". Nesse ano vieram 13 ou 14 brasileiros, que no ano a seguir ficaram seis ou sete meses sem receber. Foi nessa altura que o Rúben saiu para o Benfica, o mister Jesus saiu para o SC Braga, o Eliseu para o Málaga, o Rolando para o FC Porto e eu acabei por ir para Itália, através do Carlos Gonçalves.

Agradou-lhe quando soube do interesse do Siena?
Agradou. O Carlos na altura tinha dois clubes para mim. Um era o Málaga, para onde acabou por ir o Eliseu, e o outro era o Siena. Eu como defesa e como apaixonado pelo melhor defesa do mundo na altura, o Cannavaro, e por Alessandro Nesta, Maldini, sempre gostei muito do futebol italiano que na altura era um futebol que levava as estrelas a sério, fui um felizardo porque ainda apanhei em Itália equipas de topo mundial, com jogadores de topo mesmo. Agora é incomparável, o Milan de agora comparado com o Milan da altura a nível de nomes não tem nada a ver. Portanto foi uma escolha mais por isso.

Vai para Itália sozinho?
Não, mais uma vez a minha avó foi comigo, esteve lá comigo um ano e meio, depois a minha namorada da altura acabou a faculdade e foi ela viver comigo.

O que gostou mais e menos do futebol italiano?
Adorei tudo do futebol italiano, a única coisa que se calhar não gostei, foi que os ordenados lá não são pagos, pelo menos no Siena, no dia. Eram pagos mas atrasavam um mês, dois meses, atrasou sempre. De resto adorei tudo em Itália. Uma coisa que no início me fez confusão, foi o treinar à tarde. Eles lá só treinavam à tarde e eu estava habituado sempre e treinar de manhã. Mas de resto adorei tudo. Privei com grandes jogadores, com grandes pessoas, joguei contra os melhores jogadores do mundo na altura, portanto não tenho nada a dizer do campeonato italiano.

Quais foram as maiores amizades que fez nesses anos?
Tenho um que é dos meus melhores amigos, embora os nossos destinos nos tivessem separado futebolisticamente, o Rúben Amorim. Privámos muito, as nossas famílias, as nossas mulheres, os nossos filhos. Depois do nosso grupo guardo também o Luís Bandeira que foi nosso colega nos juvenis e juniores do Belenenses, mas ficou sempre ligado até aos dias de hoje. De resto que conviva diariamente tenho poucos porque estamos sempre a mudar de cidade.

Porque que é que passa do Siena para o Parma e como?
Fiz grandes épocas no Siena, depois lesionei-me no tendão de Aquiles quando estava para ser contratado pela Juventus. Tinha ido fazer a tournée com a Juventus aos Estados Unidos, fiz os jogos todos e no final da época acabei por lesionar-me num jogo contra a Fiorentina, em Toronto. O tendão de Aquiles já não estava muito bom e num sprint lesionei-me. Acabei por não ir para a Juventus. Fiquei a recuperar no Siena, o mister era o António Conte, ainda consegui jogar no final da época, subimos de divisão e foi aí que o Parma me foi buscar. Eles já me tinham referenciado antes.

Gonçalo regressou ao Belenenses na época 2013/14

Gonçalo regressou ao Belenenses na época 2013/14

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Foi uma grande desilusão quando percebeu que não ia para a Juventus?
Claro, foi uma grande desilusão. É o sonho de qualquer jogador representar um clube como a Juventus, eu tive a sorte de estar referenciado, de ir de tournée de final de ano com eles, com jogadores como o Cannavaro, o Del Piero, Buffon, o Giovinco, que era miúdo na altura, fui com eles todos. Estive muito perto de assinar mas depois as circunstâncias do futebol e se calhar, eu não gosto de falar em azar, mas o meu tendão já não estava muito bom e eu tinha andado a forçar até ao final da época para acabar os jogos pelo Siena. Mas pronto a vida segue para a frente.

O Parma muito diferente do Siena?
Sim, claro. Desde o momento em que fui fazer os exames médicos e que entrei no centro de estágios do Parma, percebi logo que estava num clube de uma dimensão superior. De uma dimensão na altura ao nível de Roma, Lázio. O Parma era fantástico.

Na época seguinte não fica no Parma e vai para o Cesena. Porquê?
Não fiquei no Parma porque o clube tinha dois centrais, um deles era o capitão, o Alessandro Lucarelli que hoje é o diretor desportivo, e que estava a fazer uma época fantástica; e o Paletta que depois dessa época foi para o Milan. Sempre fui muito frio a analisar as situações, eu sabia que o meu espaço ali estava fechado e queria jogar, precisava de jogar, estava numa altura da minha carreira que queria jogar e não tive problemas em pedir ao mister Donadoni para me emprestar ao Cesena que na altura estava na série B, a lutar pela série A. Foi uma boa época, fomos aos playoffs da série B, mas acabámos por perder e acabei por voltar ao Parma, mas não voltei mesmo porque foi o ano da falência do Parma.

O que acontece então?
Fui emprestado ao Cluj da Roménia já numa situação de carência financeira do Parma, ou seja, eles já estavam a tentar despachar quem podiam, tínhamos muitos jogadores sob contratos. Eu fui para o Cluj, uma equipa que um ano antes tinha feito Liga dos Campeões.

Gonçalo Brandão trocou o Belenenses pelo Estoril Praia em 2016/17

Gonçalo Brandão trocou o Belenenses pelo Estoril Praia em 2016/17

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Como é que foi o impacto quando chegou à Roménia?
Gostei muito de viver em Cluj, era uma cidade muito tranquila, com tudo o que se precisa para viver bem, com centro histórico, com centros comerciais, uma cidade muito diferente das outras da Roménia, só Cluj, Bucareste e se calhar Timishuara é que são as cidades ditas, mais normais, o resto é tudo parecido a aldeias. Gostei muito mas mais uma vez tive o azar, e aí sim tive o azar de calhar num clube com um presidente que teve problemas com a justiça, em que lhe apreenderam contas bancárias e bens e ele acabou por não pagar os salários. Estive lá seis meses, recebi 15 dias. Em novembro lembro-me de ter ligado ao Parma e disse-lhes: "Eu preciso de acalmar a cabeça - o meu filho tinha um mês na altura - preciso de voltar para Portugal, tenho duas ou três propostas, preciso de voltar a Portugal". O diretor do Parma foi espetacular comigo e disse: "Ok, vai para Portugal, manda-me só a proposta de empréstimo e nós deixamos-te ir". Na altura tinha o Paços de Ferreira, tinha a Académica, tinha quatro ou cinco clubes, mas o Belenenses quis que eu fosse e nem sequer pensei duas vezes.

Falou no seu filho, como e quando conheceu a sua mulher?
Chama-se Sandra, conheci-a através da minha irmã, ela era amiga da minha irmã. Um ano em que vim de Itália passar o Natal a casa, fazia sempre questão de juntar os amigos mais próximos para jantarmos, bebermos um copo e sair à noite. E nesse ano a minha irmã perguntou se podia levar duas amigas, eu não as conhecia, apesar de já ter ouvido falar delas, e foi aí que a conheci. Conheci-a nessa noite, mas não trocamos números, nem voltámos a falar. Passados dois ou três meses através da internet voltamos a falar por causa de um post de uma foto, até que começámos a falar regularmente por telefone. No verão começámos a namorar e na minha época de Cesena já estava a viver comigo em Itália.

O que é que a Sandra fazia profissionalmente?
Era hospedeira de bordo da TAP. Entretanto, o nosso filho nasce em 2013, em julho.

Assistiu ao parto?
Não assisti porque foi cesariana mas estive lá, vi até onde me deixaram ver, estava junto à cabeça da minha mulher, estava a dar-lhe a mão. Depois estive dois dias com eles e tive de ir para a Roménia.

Como é que ele se chama?
Yago.

Porquê esse nome?
Quando ela ficou grávida combinamos que se fosse menino escolhia ela, se fosse menina escolhia eu. Era um nome que ela gostava, era um nome diferente. A Sandra é portuguesa de origem angolana, se fosse só portuguesa, se não tivesse também passaporte angolano não podíamos ter metido esse nome, mas com o passaporte angolano não foi problema, portanto ficou Yago.

Gonçalo esteve duas épocas no Estoril Praia

Gonçalo esteve duas épocas no Estoril Praia

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Estava a contar que esteve seis meses no Cluj e depois volta para o Belenenses. Como é que foi voltar ao clube onde cresceu, ao clube de coração?
Foi espetacular, os adeptos receberam-me muito bem, de forma fantástica. Todos, desde sócios normais à Fúria Azul, receberam-me de forma fantástica. Na altura um fisioterapeuta e os roupeiros ainda eram os mesmos que encontrei quando entrei aos seis anos. Tinha o Marco Paulo como diretor técnico, o Van der Gaag era o treinador e também me recebeu muito bem. Da minha geração estava lá o Fredy, que tinha sido meu colega do tempo do mister Jesus. Não tenho nada a dizer e foi o melhor que fiz para a minha carreira, ter voltado ao Belenenses.

Antes de voltarmos a falar do Belenenses, não tem nenhuma história engraçada que tenha vivido na Roménia?
Tenho uma historia surreal da Roménia. Estávamos quase a entrar em dezembro, tínhamos uns cinco meses de salários em atraso, desde o início de época, e o presidente do clube num dia de jogo contra o Dinamo de Bucareste salvo erro, entra no balneário com os dois seguranças e com uma mala. Mete a mala em cima da mesa, põe as mãos em cima da mala e diz: “Pessoal, peço desculpa tenho falhado com os salários, mas hoje vamos ter um jogo importante, precisamos mesmo de ganhar para continuar a lutar pelo titulo e tenho aqui um pequeno incentivo para vocês, um pequeno prémio. Eu sei que não apaga os salários que estou em atraso com vocês, mas principalmente aos mais jovens isto já vai ajudar nesta altura do Natal, blá, blá". Fizemos um jogaço, ganhámos 4 ou 5-1, ele no final entra no balneário, nós todos em festa, pediu para toda a gente se calar. Abre a mala, com os dois seguranças sempre ao lado, e a mala estava vazia. Ficamos a olhar uns para os outros e ele vira-se e diz assim: 'É muito complicado o psicológico dos jogadores'. E com palavras dele, com asneiras pelo meio, disse que o nosso psicológico só andava se houvesse dinheiro. Fecha a mala e vai-se embora. Nessa noite cheguei a casa e disse à minha mulher: "Em dezembro não sei onde é que estamos mas aqui não vamos estar". Liguei ao diretor do Parma e disse que ia começar a procurar clube, é na altura em que vou para o Belenenses.

Com a família

Com a família

D.R.

Ficou no Belenenses mais três época e meia. Qual foi a que mais o marcou?
Sinceramente marcaram-me todas porque foram ímpares. Quando cheguei o Belenenses estava em penúltimo e conseguimos na última jornada salvar e ficar I Liga, contra o Arouca, com o mister Lito Vidigal. Na época a seguir volto para o Parma porque vinha emprestado do Parma e disse ao presidente Rui Soares: "Presidente, guarde lugar para mim, porque embora com salários completamente diferentes dos que eu tinha em Itália, dou-lhe a palavra que vou voltar porque o Parma está numa situação financeira muito má e pela indicação que tenho aquilo vai acabar e eu vou ficar um jogador livre". E assim foi, fiquei jogador livre, voltei para o Belenenses, era o mister Lito Vidigal que tinha transitado da época anterior. Fizemos com ele metade da época, depois o mister saiu, desentendeu-se com o presidente e vem o mister Jorge Simão que me marcou muito. Um treinador que veio do Mafra e que teve um impacto fenomenal em nós.

Porquê?
É muito competente, aliás a carreira dele diz isso, foi para Chaves fazer um excelente trabalho, no Paços também, no SC Braga não fez um trabalho tão bom como as pessoas estavam à espera mas chegou ao SC Braga. Ele teve um impacto muito grande e a verdade é que conseguimos ir à Liga Europa. Passado um ano de estarmos a lutar para não descer, conseguimos ir à Liga Europa. O ano a seguir também me marcou porque é o ano da Liga Europa, fiquei na história do Belenenses como um dos dois jogadores com mais jogos na Liga Europa pelo Belenenses. Marcou-me muito também o treinador, o mister Sá Pinto. Tenho pena que ele tivesse saído devido a maus resultados, em que a culpa também foi nossa, foi dos jogadores, não conseguimos.

Porque é que diz que a culpa foi dos jogadores?
Porque não nos faltava nada, era um treinador muito bom no campo e humanamente também. Percebe bem os jogadores, dá aquilo que os jogadores precisam, dá folgas quando é preciso, exige muito quando é preciso. Tenho pena que não tenha corrido bem para ele no Belenenses depois da Liga Europa. Fizemos uma Liga Europa excelente, lembro-me que por pouco não nos apurámos para os oitavos de final por causa do Fiorentina que era uma potência com o mister Paulo Sousa. Perdemos dois jogos com eles que nos deixou fora, mas lembro-me que fomos ganhar à Basileia, fizemos uma campanha muito boa na Liga Europa.

Mas quando diz que acha que a culpa foi mais dos jogadores do que do treinador quer dizer o quê em concreto?
É assim, há treinadores que tomam más opções quer técnicas, como táticas e disso não há nada a dizer. Mas quando há treinadores, como foi o exemplo do mister Sá Pinto que nos dava tudo, cometeu os erros dele como é óbvio, acho que o jogador em si tem que se responsabilizar mais. Mesmo hoje em dia o jogador responsabiliza-se pouco. O que vejo é que os que se responsabilizam mais sãos os que mais títulos têm, são aqueles que mais dinheiro ganham, são aqueles que em clubes grandes jogam e às vezes o jogador ou não dá o 100%, ou vai para o treino e dá só 70 ou 80% e a culpa acaba sempre por ser do treinador, quando a verdade nua e crua, nós é que vamos para o campo. Se nós corrermos mais que os outros e trabalharmos mais do que os outros, no máximo não ganhamos mas fica 0-0. Como jogador penso que na altura podíamos ter dado um bocadinho mais, podíamos ter feito um bocadinho mais para que os resultados acontecessem. É óbvio que por vezes a bola bate na trave e isso não há nada a fazer, mas o jogador tem também de assumir as responsabilidades, não pode ser só o treinador. Embora o treinador tenha, como líder, o discurso de puxar a responsabilidade e a culpa das derrotas só para ele, mas acho que a nível interno, também de crescimento pessoal, temos de ter a noção de quando não estamos bem ou quando não fazemos as coisas bem.

Na época 2018/19 Gonçalo jogou pelo Lausanne-Sport da Suíça

Na época 2018/19 Gonçalo jogou pelo Lausanne-Sport da Suíça

D.R.

Na época seguinte inicia no Belenenses mas depois passa para o Estoril. Como é que isso acontece e porquê?
Foi das decisões mais difíceis que tomei na vida, porque eu estava bem, tinha e tenho uma boa relação com o presidente do Belenenses, tive só um desaguisado com ele na altura em que sai para o Estoril, mas foi devido a um comunicado de redes sociais que tive que fazer, ou que quase fui obrigado a fazer da maneira que eles queriam e não da maneira que eu queria. Eu queria-me despedir dos adeptos que me viram crescer, de uma maneira diferente.

Mas o que é que aconteceu?
Eu já tinha acertado tudo com o Estoril e depois os do Estoril começaram a dizer: "Gonçalo, tens de fazer o comunicado que o Belenenses quer, tens que fazer copy/paste do que eles disserem no teu comunicado para fazerem os dois um comunicado igual". E eu recusei-me quase até à última, mas depois percebi que se não o fizesse corria o risco de não ser inscrito. Fiquei triste porque queria despedir-me dos adeptos de outra maneira.

Recusou-se porquê?
Eu tinha 30 ou 31 anos e não queria dizer aquilo que outros queriam que eu dissesse. Eu queria despedir-me dos adeptos do Belenenses usando as minhas palavras. Eu nunca neguei que saí porque quis, aliás, o presidente até à última da hora tentou convencer-me a ficar, só que eu estava num clube que eu amo tanto, o Belenenses e não me estava a sentir útil e não era por não jogar, até porque hoje em dia, dos jogadores com quem tenho melhor relação é com os meus concorrentes da altura, o Domingos Duarte e o Gonçalo Silva. A minha grande guerra ali foi com o treinador, não foi só minha, depois acabou por arranjar confusão com outros...

Quem, o Velázquez?
Não, não o Velázquez é um excelente treinador com quem hoje ainda tenho uma relação pessoal, falo com ele muitas vezes ao telefone. Era o Quim Machado.

Que problema é que teve com ele?
Eu já tinha sido avisado por outros jogadores que trabalharam com ele, mas nunca acreditei. Ele não gostava que no clube tivessem mais moral do que ele, nunca percebi bem porquê, porque ele como treinador nunca ganhou nada em lado nenhum, só subiu o Tondela acho que uma vez. Eu no Belenenses tinha muita moral, era o capitão da casa e já tinha sido avisado por jogadores do Setúbal, porque ele no Setúbal tinha feito o mesmo e ali ia tentar fazer o mesmo. E a verdade é que ele de uma hora para a outra encostou-me, não falava, não dizia nada. Primeiro que tudo acho que temos de ser sérios e temos de ser homens, temos de falar na cara uns dos outros.

Pediu-lhe satisfações?
Não fui pedir satisfações porque nunca pedi satisfações a nenhum treinador por não jogar, agora não gosto de faltas de respeito e nunca lhe faltei ao respeito enquanto fui jogador do Belenenses, sempre treinei a 200% e os meus colegas e os adjuntos, os diretores e o presidente, são todos testemunhas de como nunca arranjei uma confusão no balneário por não jogar. O que é que eu fiz? Disse: "Presidente, ele não vai sair, eu não lhe vou dizer para escolher entre mim e ele como é óbvio, quero ir embora. Tenho o Estoril, é aqui ao lado de casa, está numa situação difícil, quero ajudá-los a ficar na I Liga, vou embora". Não arranjei confusão, não arranjei problemas com ninguém, nem com colegas, nem com funcionários, nem mesmo com o treinador. Pensei, ok, é essa a posição que ele quer tomar, não quer falar comigo, não quer fazer nada, também não me vou dar ao trabalho de falar com ele, vou simplesmente sair. Ironia do destino, vou com o Estoril ao Restelo jogar com o Belenenses, ganhámos 3-1 e ele é despedido. Se calhar foi uma “vingançazinha”, mas deixou-me mais magoado, porque com ele deixei de jogar assim do nada. É a forma humana com que se lida com as coisas e as pessoas. Nós jogadores somos pessoas, temos uma história e não se pode chegar e... Tem que se ser homenzinho para falar e para explicar as coisas. Era muita indiferença e eu como também nunca fui de arranjar confusão, nunca fui de chutar bolas, chutar baldes, chutar portas, ou de ir bater à porta do presidente, nunca fiz isso. A única vez que bati à porta do presidente, foi para lhe dizer: "Presidente, quero ir embora".

Gonçalo Brandão tornou-se jogador da equipa B do FC Porto, em 2019

Gonçalo Brandão tornou-se jogador da equipa B do FC Porto, em 2019

D.R.

Na época e meia em que esteve no Estoril também não jogou muito.
Não, a primeira meia época joguei quase toda até ao fim. Tive um problemazinho muscular que me fez faltar dois ou três jogos, mas joguei. Na época a seguir comecei a a titular com o mister Pedro Emanuel. Na seguinte continuamos quase a mesma equipa, o mister Pedro Emanuel continua também connosco, mas eu tinha um problema grave no tendão de Aquiles, estava a arrastá-lo já há alguns meses e estava a fazê-lo também pelo mister que merecia que se fizesse um esforço por ele porque para além de excelente treinador, é uma excelente pessoa. Ele sabia gerir muito bem o grupo. Joguei até ao dia em que empatamos em casa com o Boavista, ou perdemos 2-1, já não me lembro, e o mister é despedido. Nessa semana falei com o doutor e disse-lhe: "Doutor, já não aguento mais com dores, preciso que vejam isto". Foi quando decidimos que eu tinha de ser operado, para limpar o problema que tinha. Fui operado em outubro, o mister deve ter sido despedido no início de outubro e eu desde essa altura até a final da época não joguei mais.

Demorou muito tempo a recuperação?
Foi uma operação que me levou cinco meses a recuperar. Tive pena porque vivi aquele balneário e era uma excelente equipa. Na altura veio o mister Hugo Vieira, um excelente treinador e pessoa também, muito trabalhador, muito competente, mas a verdade é que não se reuniam todas as condições e nós não conseguimos ficar na I Liga. Fiquei triste mais por não poder ajudar em campo.

Como surge o Lausanne-Sport da Suíça?
O Lausanne-Sport surgiu na sequência do Estoril ter descido de divisão, perdeu muito a nível de direitos televisivos e a nível monetário. Os clubes dependiam muito disso e o Estoril tinha muitos salários altos. O Pedro Alves, que já era um amigo fora do campo, foi sincero e disse-me que tinha um salário muito alto para a II Liga. Eu, o Kleber, o Mano, o André Claro, e disse-nos: "Vocês tentem arranjar um clube, se não conseguirem a gente integra-vos. Se conseguirem, melhor porque aqui não está a qualidade em discussão, mas sim o vosso nível salarial". Eles começaram a pré-época no início de julho, eu tinha uma carta do Estoril registada para me apresentar só dia 15 de julho, mas o Pedro Alves foi espectacular e numa conversa com um empresário português que tinha vindo ao Estoril negociar um jovem, este empresário viu que o meu nome estava lá para ser colocado, perguntou qual o meu salário, o Pedro disse-lhe e essa equipa da Suíça estava a precisar de um central de pé esquerdo e foi assim que fui.

Foi para a Suíça sozinho ou com a família?
Fui com a família. A Suíça foi o melhor país onde vivi para estar com a família. O Lausanne é um clube espectacular, que vai ter um crescimento muito grande porque tem um presidente que é o primeiro ou o segundo homem mais rico de Inglaterra. Ele investiu muito no clube, fez um estádio novo e tudo mais. Na altura não conseguimos subir de divisão por dois pontos, este ano já estão na I Liga.

Do futebol suíço gostou ou achou mais fraco?
Gostei. Admito que o nível de qualidade futebolístico é muito abaixo da nossa II Liga.

Voltou a ser pai?
Sim, tenho uma filha pequenina de três anos, nasceu na minha segunda época no Belenenses. Chama-se Camila. Eles adoraram viver na Suíça, o meu filho teve uma dificuldadezinha a nível de integração no início porque foi integrado numa escola Suíça normal, não foi para nenhuma escola portuguesa, e ele não sabia uma palavra de francês, mas depois adorou e quando recebi a proposta do FC Porto, se não tivesse sido o FC Porto… Aliás, eu recebi proposta de dois clubes da I Liga, que rejeitei, mas esta proposta, mesmo sendo na equipa B, só por poder usar o símbolo do Futebol Clube do Porto, de uma equipa grande… Acho que por todos os azares que tive na carreira merecia representar uma instituição como o FC Porto, embora não seja na equipa A. E foi também o voltar a Portugal porque o meu filho com seis anos ia entrar na escola. Isso também pesou, mas foi muito difícil escolher porque nós estávamos realmente muito bem na Suíça. O treinador queria que eu ficasse, o diretor e o presidente também, só que eles compreenderam a minha escolha mais a pensar no futuro a nível familiar.

Quais eram as outras equipas da I Liga que o queriam?
Não posso dizer.

Gonçalo (no meio continua ao serviço do FC Porto B e é o jogador mais velho da equipa

Gonçalo (no meio continua ao serviço do FC Porto B e é o jogador mais velho da equipa

D.R.

Está satisfeito no FC Porto? Encontrou a tal mística de que se fala?
Estou muito satisfeito, os meus amigos perguntam-me o mesmo e eu não consigo explicar por palavras porque realmente só entrando na porta do Olival, entrando nos corredores do FC Porto e privando com as pessoas que lá trabalham é que se percebe. Costumo dizer que o ar que se respira ali é diferente, é uma responsabilidade diferente, só o vestir aquele equipamento de treino aumenta logo a responsabilidade e isso eu tento passar aos miúdos que crescem ali, que sabem, mas que não viveram outras realidades. Estou-lhes sempre a dizer para darem o máximo dos máximos para ficarem ali e chegarem à equipa A, porque as condições que o FC Porto dá e representar um clube como o FC Porto não tem preço.

O Gonçalo é o jogador mais velho da equipa B. Isso não lhe causa nenhuma confusão?
Não. Às vezes as conversas que eles têm, são conversas ainda de miúdos, eu começo-me a rir mas eles receberam-me muito bem, eles ouvem muito o que eu tenho para dizer. E não aproveito a idade para nada, faço tudo o que eles fazem, pago as multas que eles pagam.

Multas de quê?
As multas normais que há no futebol, de atrasos, as multas que há no futebol. Mas eu faço tudo como eles e espero e acho que estou a contribuir para o crescimento deles. Tento sempre liderar pelo exemplo e não pelo grito. Tento fazer eu para eles pensarem: “poça, se o velhote está a fazer, nós também vamos fazer”.

O Rui Barros, que tal, como treinador?
É um mister cinco estrelas. Também está muito bem assessorado, está muito bem apoiado, o Paulinho Santos, o mister Vítor Martins, o mister Tiago, o mister Pedro, formam a equipa técnica quase perfeita porque são todos personalidades diferentes.

A família está a gostar de viver no Porto?
Estão a adorar o Porto. As pessoas aqui são muito afáveis, mesmo na escola.

Tem contrato por quanto tempo?
Por mais um ano.

Já pensou no que quer fazer ou quando é que quer pendurar as botas?
Não, acho que enquanto me sentir com capacidades para jogar, vou jogar. Agora o que fazer depois já tenho ideia clara, há pelo menos três, quatro anos que já tenho ideia clara de que quero ser treinador.

Tem algum nível do curso de treinador?
Já comecei, mas se conhece a realidade dos níveis em Portugal, é muito difícil.

Mas tem a certeza de que é isso que quer fazer?
A 100%. Não tenho feitio, nem perfil para ser empresário, nem para ser diretor ou para outra coisa que seja. A minha paixão sempre foi o campo, sempre foi o treino.

Chegou a ser convocado para a seleção A?
Sim. Fui em 2010, antes do Mundial. Fui convocado quatro vezes, mas jogar só joguei dois jogos. Contra a Finlândia num amigável e contra a África do Sul também. Fui na comitiva dos jogos contra a Suécia e contra a Albânia para apuramento do Europeu, mas não joguei. Foi na altura do Ricardo Carvalho, do Deco, do Quaresma, Ronaldo, Bruno Alves... O Eliseu também foi comigo, foi a minha estreia e a dele.

Com dos dois filhos Yago e Camila

Com dos dois filhos Yago e Camila

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No Parma.

Investiu em quê?
Em imobiliário só.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida porque sim, porque podia?
O meu primeiro carro, um BMW X6.

Tem tatuagens?
Tenho seis tatuagens e a primeira foi o nome da minha irmã.

Tenciona fazer mais?
Tenciono. Tenho uma em dívida, que vou ter de fazer, embora já me tenha passado um bocadinho essa onda das tatuagens. Mas tenho de fazer o nome da minha filha, porque tenho a do meu filho. Ou o nome ou alguma coisa relacionada com a minha filha.

Acredita em Deus?
Acredito. Houve um ano em Itália que vivi com um colega brasileiro, íamos todos os domingos à igreja. Mas nunca fui muito de praticar.

E superstições?
Só tenho uma, que é entrar com o pé direito em campo.

Se não tivesse sido jogador de futebol, o que teria sido?
Isso é uma pergunta difícil, não faço a mínima ideia. Teria sido alguma coisa ligada ao desporto de certeza, se calhar professor de educação física, mas não faço ideia.

Coleciona alguma coisa ou tem algum hobby?
Tenho um que adoro, jogar Playstation e só jogo um jogo que é o FIFA, não jogo mais nada. Também continuo fazer os meus jogos de futebol com os meus amigos de infância durante as férias.

Segue outros desportos?
Sigo o futsal, tenho um amigo que cresceu comigo, o João Matos, que é o capitão do Sporting de futsal e sigo muito por causa dele. Gosto muito de ver atletismo e fiquei a gostar a mais ainda quando estiver em Lausanne porque há lá uma prova que é um espécie de minis jogos olímpicos e adorei ver ao vivo.

Dos países por onde passou, ficou com algum hábito local?
Não. Depois de vir de Itália ainda andei uns anos a falar como eles, a falar muito com as mãos. Mas não fiquei com nenhum hábito.

A maior alegria e a maior frustração?
Frustrações tenho duas. Uma, a lesão no tendão de Aquiles e a outra foi ter perdido a final da Taça pelo Belenenses contra o Sporting. A maior alegria foi ter representado a seleção A, sem dúvida.

Para terminar, não quer contar mais nenhuma história caricata que tenha vivido?
Tenho a célebre história, do mister Jorge Jesus com o 50 Cent. Estávamos num treino e um grupo de empresários angolano resolve promover um concerto muito grande, com vários artistas, para a comunidade africana e não só. Ia ser no estádio do Restelo, estávamos perto da data do concerto o palco estava montado e houve ali uma falha de comunicação entre o futebol e a organização e a verdade é que o mister Jesus estava a preparar um jogo, nós começamos a treinar e a meio do treino começam a chegar carrinhas pretas, de vidros fumados com os artistas, pela pista de tartan. Vão para o palco e começam a ensaiar connosco a treinar. E o mister Jesus a querer falar connosco e não se ouvia nada. Aquilo era um barulhão. Até que o mister Jesus passou-se e foi junto do palco virou-se para o 50 Cent: "Eh pá vai-te embora, quero dar treino. Vai-te embora, mas o que é isto? Vai-te embora". O 50 Cent veio à boca do palco ficou a olhar cá para baixo a pensar "mas o que é que este gajo está para aqui a dizer? Este gajo é maluco". Vieram os seguranças e tudo mais. O mister sempre a gritar e ninguém o ouvia porque as baterias e o resto continuavam a tocar [risos].