Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“O meu pai era alcoólico, chegava esmurrado, urinado, e eu trocava-o. Provei vinho quando o Jorge Costa disse: jogador não bebe Coca-Cola”

Aos 41 anos, Paulo Ferreira, o "sacaninha" que começou a jogar nas ruas de Cascais e terminou a carreira de futebolista com duas Ligas dos Campeões, uma Taça UEFA e uma Liga Europa no currículo, desvenda um pouco o que passou a nível pessoal e desportivo para chegar onde chegou. Fala de Mourinho, Jesus, da tropa e da morte do pai

Alexandra Simões de Abreu

Darren Walsh

Partilhar

Nasceu em Cascais. Fale-nos da sua família, quem eram os seus pais, o que faziam profissionalmente, quantos irmãos tem.
O meu pai chamava-se Renato Ferreira e foi pedreiro no hospital de Cascais. A minha mãe é Lurdes Ferreira e era empregada a dias. Tenho sete irmãos, mas cresci com cinco. Tenho dois irmãos mais velhos do primeiro casamento do meu pai, conheço-os, mas não passei muito tempo com eles. Cresci com os outros quatro. Três deles são mais velhos e também do primeiro casamento da minha mãe. Do meu pai e da minha mãe nasci eu e o meu irmão mais novo.

Cresceu em que zona de Cascais?
Cresci na localidade de Alvide que fica próximo de Cobre, Birre, num bairro humilde de gente boa, onde tinha muitos amigos.

A bola começa aí, no bairro, na rua?
Exato. Sobretudo numa rua sem saída, de pouco movimento, era ali que jogávamos à bola e que nos encontrávamos depois de jantar. Ficávamos lá até as nossas mães começarem a chamar por nós, para irmos para casa. Foi ali que tudo começou. Fazíamos aqueles joguinhos de bairro contra bairro, jogos de futsal de indoor e outdoor, e era assim, com duas pedrinhas a fazer de baliza.

Os irmãos mais velhos que viviam consigo também jogavam à bola na rua consigo?
Sim e foi muito por culpa deles que o bichinho do futebol apareceu. Aos seis anos comecei a jogar na rua e muitas vezes até descalço. Infelizmente não cresci num berço de ouro e a minha mãe comprava-me uns ténis que tinham de durar por muito tempo, às vezes andava com eles rotos e tudo, mas tentava não os estragar, sabia que a minha mãe não tinha possibilidade de comprar outros.

Quando e como vai pela primeira vez para um clube?
Aos dez anos. O meu irmão mais velho, o Luís, jogava no Alcabideche e foi através dele que fui para lá. Fui jogar nos infantis, na altura estava lá também o Hugo Leal, foi quando comecei a jogar federado.

Mas depois interrompeu, não foi?
Sim, quando reprovei no sexto ano fiquei chateado comigo próprio. Era só futebol, futebol, futebol e não ligava muito ao estudar, acabei por reprovar e não gostei. A minha mãe também não. Decidi então ficar um ano sem jogar. Passei no ano seguinte e apareceu o Cascais.

Através de outro irmão.
Sim, do segundo mais velho, o Delmar. Na altura a minha mãe trabalhava na casa do treinador de iniciados do Cascais. A minha mãe não sabia, não ligava ao futebol, o meu irmão como o conhecia é que falou com ele. Disse-lhe que tinha um irmão mais novo perguntou se podia ir lá treinar. Lembro-me que estava em casa e um dia ele chegou e disse-me "Falei com o treinador dos iniciados do Cascais para ires lá fazer uns treinos. Acho que devias ir". Eu não estava para aí muito virado por causa do que tinha acontecido na escola, mas acabei por ir e fiquei no Cascais.

Nessa altura em que interrompeu o futebol qual passou a ser o seu sonho?
O meu sonho era só passar de ano porque não tinha ficado mesmo nada satisfeito com o chumbo. Também senti que a minha mãe não tinha ficado satisfeita e por isso decidi parar com o futebol. Tinha colegas e amigos que já jogavam no Cascais e me diziam: "Paulo tens de ir, tens de ir". Mas não fui. Só fui no ano a seguir, mas também por causa do meu irmão Delmar.

Paulo começou a jogar futebol no Alcabideche

Paulo começou a jogar futebol no Alcabideche

D.R.

Quem eram os seus ídolos, as suas referências?
O Maradona. Marcou-me bastante vê-lo no Mundial do México’86, em que levou a Argentina às costas. E depois o que fez em 90 também.

Lá em casa torcia-se porque clubes?
Era engraçado porque havia ali um misto de Benfica e Sporting. O meu pai era sportinguista, a minha mãe e os meus irmãos, benfiquistas. Então havia ali às vezes umas guerrazitas.

O Paulo balançava para que lado nessa altura?
Não gosto muito de falar nisso. Continuo a não dizer e a guardar segredo [risos].

Vai para o Cascais, mas ainda estava longe de jogar na posição em que viria a afirmar-se. Começou por jogar em que posição?
Quando comecei no Alcabideche era muito pequenino mas era muito rápido, tinha velocidade e jogava mais ou menos como líbero. Como o jogo aéreo não era o meu forte, ficava ali atrás na dobra porque era rápido. Mas quando fui para o Cascais já jogava lá na frente, como 10, 11, 7.

Fazia muitos golos?
Fazia, fazia bastantes. Houve uma transformação muito grande porque evoluí muitíssimo nessa transição de infantil para iniciado. Tecnicamente evoluí bastante e daí fazer muitos golos e criar situações, fintar jogadores.

Como é que surge o Estoril Praia?
Faço iniciado, juvenil e júnior de primeiro ano no Cascais, jogando na distrital em pelado, não havia nada de sintético, ainda tenho muitas marcas dos pelados [risos]. Entretanto, o treinador dos iniciados do Cascais, o mister José Santos, acaba por sair para os juniores do Estoril Praia e nessa altura havia um protocolo entre o Estoril e o Cascais, em que todos os anos o Estoril podia levar três jogadores. Não havia ainda a parte monetária, de se pagar um jogador quando saía de um clube para o outro, principalmente nas camadas jovens, mas havia esse protocolo e, no meu segundo ano de júnior, ele levou-me para o Estoril. Tinha 17 anos.

Ainda estudava?
Sim, estudava. Mas foi nessa altura que as coisas acabaram por mudar e os estudos ficam para trás. Quando vou para o Estoril Praia há essa situação da escola. O Estoril estava no nacional de juniores, treinávamos praticamente todos os dias de manhã e as minhas disciplinas importantes eram também quase todas de manhã. Ainda fui à escola ver se era possível trocar mas por causa da área em que estava, tecnologia, acabei por não ter essa hipótese. A minha mãe nesse aspeto foi importantíssima. Foi ela que meu a deu oportunidade de seguir o meu sonho ao dizer-me: "Se é isso que queres, vais, mas se as coisas não correrem bem, voltas a estudar". Logicamente disse-lhe que sim.

O seu pai não se opôs, não disse nada?
Não, porque o meu pai já nessa altura era uma pessoa alcoólica. É complicado, passei uma fase da minha infância que não foi muito fácil, assisti a muita coisa. Ao meu pai chegar todos os dias a casa alcoolizado, às vezes esmurrado, urinado e eu ter que às vezes levá-lo para dentro de casa, trocá-lo, fazer os curativos... São coisas complicadas, por isso a bebida alcoólica apareceu mais tarde na minha vida, muito também por causa disso. O meu pai acabou por não ligar muito ao futebol por causa da situação, foi muito mais a minha mãe. Principalmente a partir do Cascais ela começou a ir aos jogos, era ela que às vezes ajudava nas rifas para angariarmos dinheiro para a viagem ou o jantar de equipa, no final do ano. Foi ela que começou a acompanhar-me mais. Na altura não tínhamos carro, mas havia alguns pais que eram impecáveis e muitas vezes nos jogos fora iam buscá-la a casa para ela poder assistir.

Decidiu parar de jogar futebol um ano porque chumbou na escola

Decidiu parar de jogar futebol um ano porque chumbou na escola

D.R.

Notou muita diferença do Cascais para o Estoril Praia, ao nível de treinos e de exigência?
Sim. Passei de três treinos por semana a cinco, mais o jogo.

Quando assina contrato?
No segundo ano de juniores, dos 18 para os 19 anos.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado
Eram 250 euros. Dei à minha mãe. Queria ajudar a minha mãe. Ainda sou do tempo em que a minha mãe ia ao supermercado comprar a comida fiada e depois pagava no final da semana. Às vezes eu ia a uma padaria que a minha mãe conhecia, ficava a caminho do liceu, e dizia à senhora: "Falei com a minha mãe e ela diz que não há problema, que posso levar um bolinho que ela depois paga". Era assim. Os meus irmãos mais velhos acabaram por deixar a escola também por isso, para começar a trabalhar e ajudar em casa. Depois quando tiveram oportunidade de arranjar casa saíram.

Não havia nada que quisesse muito comprar?
Nada. Aliás, foi ela que me incentivou: "Filho tens de começar a juntar dinheiro para tirares a carta de condução." Quando estava no Estoril Praia havia jogadores que moravam perto e que me davam boleia. Quando não tinha boleia tinha de apanhar dois autocarros, de Alvite para Cascais e de Cascais para o Estoril, ou então, se o dia estivesse muito bom, ia a pé mas demorava à vontade uns 40 minutos. Como dependia muito de boleias, a minha mãe chegou a um ponto em que começou a incentivar-me para tirar a carta: “Vais precisar e não te preocupes que a mãe orienta aqui as coisas". Impus-me passar à primeira para não ter de gastar mais dinheiro. Apliquei-me, muito pela minha mãe que me deu essa força para juntar dinheiro e para depois comprar o carro.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Fiat Uno, em segunda mão, por €1.500 e paguei em três vezes.

Entretanto já tinha sido chamado à equipa principal.
Sim vou à equipa principal no final da primeira época, ainda não tinha assinado contrato profissional, faço o último jogo. Sou convocado pelo mister Isidro Beato e acabei por assinar o meu contrato profissional. Agradeço-lhe porque foi a pessoa que confiou em mim e me deu essa oportunidade. Mas nessa altura quando faço esse jogo ainda não era profissional, era um miúdo que tinha acabado de chegar a um clube profissional, vindo da distrital, de um clube amador e fazer essa estreia no último jogo do campeonato na II divisão de honra, foi qualquer coisa, não estava à espera. O resultado estava 1-0 e quando fizemos o 2-0, ele chamou-me.

Tremeram-lhe as pernas?
Senti aquele nervoso normal, mas ao mesmo tempo também aquele entusiasmo porque era um sonho, um sonho de jogar ao nível profissional. Lembrava-me de ir ao Estoril Praia ver os jogos, sobretudo contra as equipas grandes, e depois estar ali dentro... O meu irmão mais velho uma vez foi fazer testes ao Estoril, à equipa principal, infelizmente acabou por não ficar, mas eu lembro-me de ir com ele todos os dias, e por isso senti aquele misto de emoções, o facto de eu estar ali naquele momento e o meu irmão não ter conseguido, houve um misto de emoções, mas foi espetacular.

Na época seguinte joga mais na segunda volta.
Com o Isidro não joguei muito na primeira volta do campeonato, e quando não jogava fazia alguns jogos pelos juniores. Em dezembro ou em janeiro, o mister Isidro sai do clube, entra o Pietra e foi a mudança.

Ainda jogava lá na frente?
Jogava como "10", "8" e acabei por fazer a segunda volta toda, fiz os jogos todos e ele nesse aspecto foi impecável porque me chamou algumas vezes ao gabinete para dizer: "Paulo continua a trabalhar, continua a trabalhar forte, não abrandes, é importante para ti". Foi-me sempre motivando e isso foi muito bom porque acabei por fazer um final de época bom a nível individual embora, infelizmente, acabámos por descer de divisão.

Depois do Cascais Paulo Ferreira vai para os juniores do Estoril Praia

Depois do Cascais Paulo Ferreira vai para os juniores do Estoril Praia

D.R.

A seguir há um revés chamado serviço militar. Teve de fazer a tropa.
É assim, fui fazer os testes, o normal, fiquei apto para qualquer uma das especialidades e quando tive de escolher não sabia se ia ou não, uma vez que jogava futebol até poderia passar à reserva por ser jogador profissional. Como tinha um irmão mais velho, o Luís, que esteve nos rangers e tive outro, o Delmar, que fez tropa normal, vi o que sofria um e o outro; era uma diferença muito grande e resolvi jogar pelo seguro, decidi ir para a tropa normal, o exército [risos]. Se tivesse de ir, era aquela. Foi no ano em que descemos de divisão, para a segunda B, em que o Pietra sai e entra o Rui Águas. Quando ele entra, fiz os três, quatro primeiros jogos do campeonato; o quarto jogo salvo erro foi no Barreirense e depois desse jogo pedi a um colega de equipa, o Baroti, para me rapar o cabelo porque no dia a seguir tinha de me apresentar no quartel. Fiz seis meses de tropa.

Custou-lhe muito?
Custou no sentido em que parei de jogar. Estava num momento bom, estava a começar bem, quatro jogos, 90 minutos em todos, e o serviço militar acabou por me "cortar as pernas" porque acabei por perder seis meses, numa altura em que pensei que as coisas podiam mudar.

Nunca treinou nesses seis meses?
No primeiro mês que é quando se faz o juramento de bandeira e aquelas coisas, eu só ia a casa ao fim de semana. Ia sexta-feira e treinava com a equipa ao sábado. Mas no quartel eu não disse que era jogador profissional nem nada. Há um dia em que recebo a carta com a primeira convocatória para a seleção de Sub 20 e estou no quartel.

Estando na tropa não achou estranho ser convocado?
É, eu às vezes também faço essa pergunta. Nunca falei com o mister Rui Águas, nunca perguntei ao mister Jesualdo Ferreira, sei que eles têm uma muito boa relação.

Acha que o Rui Águas deu uma palavra ao Jesualdo Ferreira, no sentido de o convocar?
Se calhar, não sei, se calhar pela qualidade, às vezes fico a pensar se não foi porque a única hipótese de eu poder sair da tropa para treinar e jogar era para representar o meu país. Mas lembro-me de estar no quartel e de receber a convocatória da federação e ficar completamente surpreso, não esperava. Como é possível, estou na tropa, só fiz os quatro primeiros jogos do campeonato... Depois, tive um capitão que quase me matou quando recebi a convocatória. Chamou-me e deu-me uma descasca enorme.

Porquê?
Disse que eu tinha de avisar que era jogador profissional. Porquê? Porque ao fim de semana quando vamos para casa, eu ia treinar e imaginem que eu num treino tenho uma lesão grave? Depois tinha que me apresentar no quartel e era um problema. Pedi imensa desculpa, mas não sabia, não fazia a mínima ideia que tinha de dizer. Entretanto, aquilo era um estágio de três dias, com um jogo amigável no Jamor contra o Benfica B, na altura em que havia as equipas B's. Eu não consegui ir no primeiro dia, mas fui no segundo e fiz o jogo. Acho que era um jogo de três períodos e eu fiz os dois primeiros, ou os dois últimos, já não me recordo bem. Fiquei completamente morto, não treinava, só treinava uma vez por semana [risos]. A coisa boa foi que fiz Polícia do Exército, na Ajuda, no regimento de Lanceiros e fiquei perto de casa. Apanhava o comboio e lá ia eu.

Durante quanto tempo só treinou uma vez por semana?
Já não me recordo bem mas houve uma altura em que começo a ir a casa todos os dias. Ia de manhã ao quartel, saía ao final do dia e tinha de me apresentar no dia seguinte de manhã. Então comecei a treinar à noite, no Estoril Praia, só com a luz da secretaria [risos].

Sozinho?
Tinha um preparador físico mas só ali num espacinho com a luz da secretaria, era ali que fazia o meu trabalhinho, mas como é lógico continuava a não jogar porque não treinava com a equipa, treinava sozinho.

Quando terminou a tropa foi um alívio.
Sim, mas a partir daquele jogo com a seleção comecei a ser convocado. Era um ano em que havia o Torneio de Toulon e começo a ir a todos os estágios.

Paulo Ferreira foi para o V. Setúbal na época 2000/01

Paulo Ferreira foi para o V. Setúbal na época 2000/01

D.R.

Gostou do Jesualdo como selecionador?
Espetacular. Aliás, houve uma altura em que ainda estava no exército e um dia ele acabou o treino chegou-se ao pé de mim e disse: "Estes gajos deviam ir todos para a tropa" [risos]. Para mim era uma oportunidade, era um sonho representar a seleção e cada vez que ia à seleção dava sempre tudo, como sempre dei.

Fizeram-lhe muitas partidas na tropa?
Fizeram-me uma vez uma cama à espanhola, quando regressei de um jogo da seleção. Cheguei à noite, fui para a camarata, eu dormia na parte de baixo do beliche, despi-me sem fazer barulho e quando vou entrar na cama, como o lençol estava dobrado, não conseguia enfiar os pés até ao fim [risos]. Depois comecei a uns risinhos, até que no escuro ouço um a dizer: “Então Paulo, está difícil entrar na cama?” [risos].

As saídas à noite começam nessa altura também?
Não era muito de sair, estava muito focado na carreira. Saía mais na altura das férias, no final da época. Mas não era de beber, só bebia Coca-Cola e na altura como ainda não tinha carro mas já tinha carta, havia um ou outro amigo com quem ia para Lisboa que no regresso me dizia para trazer o carro. Para eles até era porreiro se eu pudesse sair com eles porque assim podiam beber à vontade [risos].

E namoros mais sérios já havia?
Nem por isso... A coisa mais a sério é com a minha atual esposa, a Laura. Foi com ela que aconteceu uma coisa mais séria.

Conheceu-a quando?
Conheci com 10 anos, no liceu, no 5º ano. Sou um ano mais velho, eu já estava no 6º e a Lara no 5º, portanto eu tinha 11 e a Laura 10 anos. Trocamos o primeiro beijo na praia, nas férias de verão, na altura em que saio para o Estoril, tinha 16 anos. Depois ficámos ali, namoramos um bocadinho, separamo-nos, voltamos e separamo-nos outra vez [risos]. Quando vou para o V. Setúbal é que já levamos a coisa mais a sério.

Mas antes do Setúbal, estava a contar que quando sai da tropa volta à equipa do Estoril.
Entrei na tropa em setembro e saí em março. Depois como já ia todos os dias a casa e já treinava, mesmo que sozinho e como ia à seleção e fazia todos os jogos de seleção, quando saí da tropa comecei a jogar e acabei a época muito bem.

Paulo Ferreira (à frente Simão Sabrosa do Benfica) chega ao FC Porto em 2002 pela mão de José Mourinho

Paulo Ferreira (à frente Simão Sabrosa do Benfica) chega ao FC Porto em 2002 pela mão de José Mourinho

Ana Baião

É por isso que o Rui Águas o quer levar para Setúbal?
Estava em final de contrato também, houve ali um esforço do Estoril que tentou segurar-me, queria que eu renovasse, mas eu já tinha a ideia de que era altura de sair. O Rui Águas tinha saído em janeiro na altura em que o Setúbal estava na linha de água, ainda tentou até à última jornada. Na última jornada tinham de ganhar, acabaram por empatar. Mas antes de acabar o campeonato o Rui Águas ligou-me, fui ter com ele e disse-me: "Paulo estou a tentar tudo para manter o clube na I divisão, mas independentemente do que acontecer, quero que venhas e que faças parte do meu projeto, seja na I liga ou na liga de honra". Dei a minha palavra que ia. Acabou o campeonato, sou convocado para o Torneio de Toulon, faço o torneio, um jogador livre nessa altura, aparecerem algumas coisinhas de clubes...

O quê em concreto?
Estive na altura com o mister José Morais, que estava no Benfica B. Perguntou-me se não queria ir para o Benfica B, mas como estava a jogar na II B e queria algo mais, acabei por não aceitar.

Tinha empresário?
Não, só tive empresário no meu último ano no Setúbal.

Quem lhe apareceu mais nessa altura?
Clubes de segundas divisões, um clube em Itália, um clube da segunda liga espanhola, mas eu como já tinha dado a palavra ao Rui Águas.

Vai viver para Setúbal?
Na altura vou com o Nelson Veiga que estava comigo no Estoril e dividimos um apartamento. Mas até o termos, na pré-época íamos e vínhamos todos os dias. Eu levava uma semana o carro, na semana seguinte levava ele o carro dele.

A ouvir as instruções de Mourinho, durante um jogo pelo FC Porto

A ouvir as instruções de Mourinho, durante um jogo pelo FC Porto

Mike Egerton - EMPICS

Entretanto o Rui Águas não fica até ao fim, saí e entra o Jorge Jesus.
Sim. Eu vou para o Setúbal, penso que à sexta ou sétima jornada não estávamos muito bem, eu jogava a extremo esquerdo. Não estávamos a ganhar jogos. Entretanto salvo erro o campeonato pára para seleções, nessa altura já estava nos Sub 21, tínhamos dois jogos de qualificação e é nessa altura, em que estou no estágio, que vejo a notícia de que o mister Rui Águas sai e entra o Jesus. Jogamos contra a República da Irlanda e depois jogávamos fora, na Holanda, e nesse jogo eu faço de lateral direito. O Ricardo Esteves estava castigado para esse segundo jogo por acumulação de amarelos, o mister Agostinho chama-me e pergunta se eu posso jogar a lateral direito porque a nível tático podia ajudar naquela posição. Na seleção de Sub 21 eu já jogava como número "8". Disse-lhe que sim: "Estou aqui para ajudar, não tem problema nenhum". Empatámos 1-1 e quando regresso a Setúbal, o mister Jesus está a preparar o jogo para o fim de semana, começa a dar os coletes para a equipa, para os que iam jogar, deu-me o colete e... "Tu, miúdo, a lateral direito". E eu: "Mister eu não sou lateral direito" [risos]. O treino a começar e eu a querer explicar rapidamente que não era lateral direito e que na seleção tinha sido só para ajudar. "Não, mas tu ainda ontem jogaste a lateral direito, como é que não és lateral direito?". Eu ali a tentar explicar e ele "Não, ficas aí vá". E foi assim que fiquei a lateral direito e acho que foi a melhor coisa que aconteceu na minha carreira.

Jesus ajudou-o a melhorar na posição?
Ajudou. Sofri bastante no início, toda a gente conhece o Jesus, a sua personalidade...Cheguei a estar no topo da lista dos jogadores que levava sempre todos os dias [risos]. Aliás quando acordava de manhã para ir para o treino só pensava: “Ai minha Nossa Senhora lá vou eu outra vez…” [risos].

Gritava muito consigo?
Ele grita porque não quer que o jogador erre. É a maneira de ele ser e de viver o futebol, no fundo ele quer a perfeição, quer que o jogador não falhe. Lembro-me que uma vez ele gritou comigo e eu virei-me: "Ó mister está bem, eu falhei, mas os grandes jogadores também falham". "Sim, sim mas a diferença é que os grandes jogadores falham menos" [risos]. Demorei um bocado a perceber que ele realmente gostava de mim.

Porquê?
Às vezes por sermos miúdos começamos logo a pensar “O treinador não gosta de mim, só reclama comigo", mas ele reclamava com todos. Sinto que aprendi muito com ele por ser um treinador mais duro, mais rígido. Ajudou-me a crescer, ajudou-me bastante a nível psicológico porque tornou-me mais forte. Depois houve uma altura em que começou a chamar-me ao gabinete dele e a explicar-me muito a nível tático. Eu era extremo e depois passo a lateral e ao início tive algumas dificuldades, até mesmo a defender e ele no quadro táctico começou a explicar-me, punha as peçazinhas: "Quando a bola está neste lado, tu tens que vir para aqui. Quando a bola começa a vir, tens que ir para ali, quando o central salta a uma bola tens de fechar as costas dele, quando um extremo tem a bola, tens que lhe dar a linha mesmo que ele cruze, mais hipóteses têm os nossos centrais de se ajustarem e de cortarem a bola. Se deixares ir para dentro, já é mais perigoso...". Comecei a perceber que ele às vezes nos jogos-treino ficava mais no meu lado para me ajudar e dizia: "Paulo, mais perto, mais perto". Eu começava a ir cada vez mais perto do extremo e roubava a bola. E comecei a perceber que ele realmente tinha razão.

O próprio Paulo mudou de atitude.
... E comecei logo a apanhar as coisas muito rápido, como também tinha essa capacidade física de ir para a frente, na parte ofensiva não tinha qualquer dificuldade, mesmo até para criar desequilíbrios, um contra um, cruzar… Houve até uma altura em que ele me chamou depois do treino e disse: "Paulo quando acabares vai ali ao meu gabinete e vens falar comigo". Fiquei logo, mas o que é que eu fiz agora? O que é que eu estou a fazer mal? Ele manda-me sentar: "Hoje não vamos falar de tática, vai ser uma coisa muito rápida. Só para te dizer que se fosses extremo ias ser um extremo de segunda de honra, segunda B, agora como lateral direito tu tens tudo para ser dos melhores da Europa e mesmo do mundo. Tens todas as condições, escuta aquilo que te digo". "Obrigado mister, vou fazer por isso". Quando saio do gabinete pensei “O homem está maluco, pá” [risos]. Mas o que é verdade...

E sobem de divisão nesse ano.
Na altura acho que era o Maia que estava para subir, eles tinham acabado o jogo e se nós empatássemos subia o Maia. Jogamos contra a Naval, no 1º de Maio, e logo no começo do jogo começamos a perder 1-0, marcamos a seguir com um penálti, até foi o velhinho Fernando Mendes que bateu o penálti. Já mesmo no final, lembro-me do Jorge Jesus praticamente a chorar, gritar e chamar-me: "Paulinho temos de marcar, temos de ganhar". Naquela altura há aquelas coisas que passam pela cabeça, de que se calhar já não vamos conseguir, da maneira como estava o jogo. Mas depois há um lance em que o Hélio tem uma bola no meio campo, faz um passe espetacular para o Marco Ferreira, mete-o isolado pelo lado direito, o Marco entra na área, faz o cruzamento e o Meyong marca. Foi uma explosão, as pessoas logo a entrar no relvado, uma coisa impressionante, foi uma loucura. Depois lá conseguimos acabar o jogo, já com as pessoas na pista praticamente. Fiquei só de cuequinhas, levaram tudo [risos].

Paulo Ferreira entrou apenas no primeiro e no último jogo do Euro 2004

Paulo Ferreira entrou apenas no primeiro e no último jogo do Euro 2004

Ana Baião

Notou muita diferença da II para a I liga?
Notei, a nível da qualidade de jogadores, sem dúvida. E depois o facto de jogar com os grandes clubes é uma diferença... Mas estava a contar que nesse ano no Setúbal, faço os 34 jogos, 90 minutos em todos e zero amarelos. Recebi uma placa de fair play por ter feito um campeonato limpo.

Como é que explica isso?
Não sei. Mesmo na I liga levei poucos amarelos, uns dois ou três. Acho que é a minha maneira de ser, a minha maneira de tentar jogar limpo. Fazia faltas também, mas talvez a maneira como fazia as faltas e pedia desculpa logo a seguir, ao árbitro também… Os árbitros acabam por perceber o jogador que é mais agressivo ou mais duro e eu fui passando, fazia faltas algumas até mais rijinhas, mas era a maneira como eu pedia desculpa, lá me ia escapando dos cartões.

É nesse ano da subida que aparece a proposta do Sporting?
Sim, no verão há essa proposta que o Vitória de Setúbal não aceitou. Nesse aspeto o clube também foi espetacular, quando assinei o contrato o presidente foi impecável, porque disse que se subíssemos de divisão melhorava o nosso contrato e acabou por fazê-lo. Também me chamou nessa situação do Sporting e foi o próprio a dizer "Paulo, é verdade que recebemos uma proposta do Sporting, mas os valores que nos ofereceram achamos irrisórios atendendo à tua qualidade como jogador e por isso não aceitamos. Sei que era uma oportunidade para ti".

Teve pena de não ter ido para o Sporting?
É assim tive por um lado porque a gente sabe que muitas vezes o comboio não passa duas vezes e quando há uma oportunidade de um grande...Era um sonho meu poder jogar num grande, poder representar a seleção. Era uma oportunidade num ano em que o Sporting faz a dobradinha, ganha o campeonato e a taça, em que o Jardel faz quarenta e tal golos. Eu podia estar ali, não é? [risos]. Foi uma oportunidade mas ainda bem que não aconteceu, com todo o respeito, atendendo ao que se passou depois. Renovei por mais um ano.

Nessa altura, quando ia a Cascais ainda ficava em casa dos pais?
Quando ia a Cascais ficava sempre com a minha mãe. Eu e a minha mãe já estávamos num apartamento que comprei quando fui para Setúbal. Quando comecei a ganhar um bocadinho mais e tive oportunidade de tirar a minha mãe do anexo em que vivíamos, uma casinha pequenina com poucas condições, fi-lo.

Num jogo da seleção A

Num jogo da seleção A

Rui Duarte Silva

O Jesus não fica até ao fim na sua segunda época em Setúbal, pois não?
Não, o Jesus sai numa altura em estávamos aflitos, por cima da linha de água e entra o Luís Campos.

Muito diferente do Jesus?
Sim, mesmo até a nível de personalidade, uma pessoa mais tranquila. Impecável, dá moral aos jogadores. Ele chegava-se ao pé de mim e dizia: "Miúdo, tu jogas muito". Lembro-me que conseguimos manter-nos na I Liga a duas ou três jornadas do fim. Eu já tinha tido uma descida de divisão da II Liga para a II B e sei o quanto é difícil quando se está ali com outras três ou quatro equipas naquela linha de água. Um pouco antes de acabar essa época o Fernando Mendes começou a dizer-me: "Oh miúdo, atenção aí que o FCP anda a observar-te". Ou: "Atenção que eles hoje vêm aí para te ver". Eu só lhe dizia: "Nandinho não digas nada, prefiro não saber". É que uma pessoa depois fica nervosa e eu queria ficar concentrado no jogo.

Conhece Mourinho quando ainda está em Setúbal.
É verdade. Conheci o Mourinho nessa altura porque o pai dele trabalhava no V. Setúbal, gente muito boa. O Mourinho sai do Benfica, fica a segunda parte do campeonato sem treinar e estava quase sempre em Setúbal, via praticamente todos os nosso jogos em casa. Lembro-me de o conhecer, se bem me recordo, até foi no tempo do Jesus ainda. Quando regresso depois de almoço para a reunião que o Jesus tinha marcado, cheguei ao parque do estádio e o Mourinho estava a falar com o seu pai; estava eu e outros colegas, chegámos, eu miúdo fico mais para trás, aquela coisa, envergonhado, cumprimento o pai dele e a seguir quando o vou cumprimentar ele diz-me logo: "Tu tens de sair daqui, não podes ficar aqui". Agradeci, disse que estava a fazer por isso, aquelas coisas, e fui à minha vida. No jogo com o U. Leiria, no ano em que subimos de divisão, o Mourinho inicia a época no U. Leiria e lembro-me de um jogo em casa que empatámos 0-0. No final do jogo combinei encontrar-me com um jogador do Leiria que esteve comigo nos juniores do Estoril, para ficarmos um bocadinho na conversa. Assim que nos encontramos ele diz-me: "Oh Paulinho, fogo, o Mourinho adora-te, o homem deu-te uma moral na reunião antes do jogo, nem digas nada. Se fosse o nosso lateral até ficava um bocado...Ele só dizia 'temos de ter cuidado naquele lado porque o Paulo sobe muito, temos de ter muita atenção' ". No final dessa época, o Mourinho sai para o FCP.

Continuava sem empresário?
Não, por essa altura assino com o José Veiga, um pouco contra a vontade, mas o mister Jesus era representado por ele... Eu tinha muitos empresários a ligar-me, até cheguei a desligar o telefone uma altura porque já não sabia para onde havia de me virar. Depois, um pouco por influência do Jesus acabei por assinar com o Veiga, mas um pouco contra a minha vontade.

Porquê?
Porque sabia que era o empresário do momento, que tinha jogadores importantes e que como eu era miúdo se calhar não me ia dar muita atenção. Como até ali fiz sempre os contratos com os presidentes diretamente...

Paulo Ferreira (à direita) festeja com Nuno Espírito Santo a conquista da Taça UEFA pelo FC Porto

Paulo Ferreira (à direita) festeja com Nuno Espírito Santo a conquista da Taça UEFA pelo FC Porto

Icon Sport

Como surge então o FCP, através de quem?
Sei que estou um dia em casa, em Cascais, e recebo uma chamada do presidente Jorge Góis, a dizer para eu ir ao escritório dele em Lisboa porque precisava urgentemente de falar comigo. Fui ter com ele e diz-me: "Paulo, é só para te dizer que chegamos a acordo com o FCP. Temos é aqui um problema".

Chamado José Veiga.
Pois. Na altura o José Veiga estava de relações cortadas com o FCP. Mas era a segunda oportunidade de ir para um clube grande e naquele momento nem quis saber de empresário, nem nada. Não ia perder outra oportunidade só porque o empresário estava de relações cortadas com o FCP. Apareceu depois o Baidek no escritório, que tinha trabalhado com o Veiga. Acabei por assinar com ele, mais tarde.

Como é que o José Veiga reagiu quando quis rescindir com ele?
Mal, como é lógico. Falei com o Carlos Janela, que na altura trabalhava com o Veiga, e expliquei-lhe que não estava satisfeito e que queria ir à minha vida. Não gostaram, o que compreendo perfeitamente. Ele pôs-me em tribunal, queria uma indemnização muito grande. Estava ainda no Chelsea e esse processo ainda continuava. Depois as coisas terminaram e ninguém teve de pagar nada a ninguém.

Vai sozinho para o FCP?
Não, vou com a Laura. A Laura estava na universidade no curso de professora do 1º ciclo, já estava ano 3º ano, tinha mais um ano para acabar e há esta ida para o Porto. Sentámos, falámos, eu disse que para a relação poder continuar, até porque éramos ambos muito jovens, era mais fácil ela ir comigo para o Porto. Senão era difícil, porque eu jogava no fim de semana e portanto estava sempre de estágio, ela estudava durante a semana e só tinha os fins de semana livres, praticamente não estávamos juntos e ia ser muito difícil a distância. Fomos falar com os pais dela também, explicamos a situação, havia a possibilidade da Laura pedir transferência para o Porto, o que acabou por fazer. Para mim acabou por ser fácil levar a Laura porque o meu sogro é portista [risos].

Como foi o primeiro embate com a equipa do FCP, recheada de nomes fortes?
Quando fui para o Porto fiquei num hotel em Gaia com o Maniche, com quem fui de carro para as Antas. Na noite antes do primeiro treino, estava um bocado receoso do que ia encontrar, pensava em como seriam jogadores importantes no clube, com aquela mística, como o Vítor Baía, o Jorge Costa, Capucho, Paulinho Santos, Secretário... . Mas o que é verdade que foram todos espetaculares desde o primeiro ao último dia.

Paulo Ferreira ao lado de Vitor Baí de 2003a que segura a Taça UEFA

Paulo Ferreira ao lado de Vitor Baí de 2003a que segura a Taça UEFA

Rui Duarte Silva

Recorde-nos o que aconteceu no dia da sua apresentação.
Chegamos para a apresentação, o foco estava mais no Pedro e no Maniche. O Maniche vinha de um clube rival como o Benfica, o Pedro também vem de um clube rival do Porto, o Boavista. E eu, mais miúdo, vinha do V. Setúbal, era diferente. Por isso fui o último a falar. Sempre fui uma pessoa de falar o menos possível, por ser muito tímido, nervoso, por isso tentava ser o mais curto possível até nas entrevistas, para não complicar muito. Estava nervoso, a sala completamente cheia, o presidente e o Mourinho ali também, e enquanto eles falavam eu pensava "Paulo, o mais curto possível, não inventes, não compliques". Mas o que é verdade, à primeira pergunta, começo a falar, a falar, a falar, a falar, sei que estou a falar e a olhar para os jornalistas e de repente, paro. Não sei, bloqueio, parei, não conseguia avançar e às tantas o presidente sai-se com aquela: "Paulo, cruza, cruza". Foi uma risada total e eu envergonhado [risos]. Mas depois lá desbloqueei e continuei a falar.

Não foi praxado? Não levou com o balde de lixo em cima?
[risos] Consegui escapar da praxe por incrível que pareça, porque eles tinham de escolher, ou era eu, o Maniche ou o Pedro Emanuel e acabou por ser o Pedro.

E como foi a primeira experiência com o treinador José Mourinho?
Foi uma agradável surpresa. Os métodos de trabalho, sempre com bola, a organização, tudo ao pormenor. Para mim foi impressionante porque vinha de pré-épocas que eram muito à base de corridas, sem bola, muito físico e chegar ali e fazer uma pré-época inteira sempre com bola, não estava habituado e foi sem dúvida muito bom.

Lembra-se do jogo de estreia pelo FCP?
Sim, foi um jogo de pré-época. Acho que fomos para a Alemanha, faço o meu jogo de estreia com o Bordéus.

Estava nervoso?
Estava um pouco. Mas comecei logo a perceber, durante o estágio, os treinos, o peso daquele clube. Lembro-me que na primeira folga que nos foi dada saímos todos em grupo e fomos todos almoçar.

É nesse almoço que há famosa história da Coca-Cola?
Não, isso já foi no Porto, num restaurante perto do centro de treinos. Tivemos um almoço de equipa, eu peço a minha Coca-Cola, tranquilo da vida. Vem o empregado com a bandeja das bebidas, o vinho, as cervejas e uma Coca-Cola no meio. Estou a ver o empregado a vir e espreito pelo canto do olho para o Jorge Costa que ficava na cabeceira da mesa, e começo a vê-lo a olhar para o empregado para ver onde é que aquela Coca-Cola ia cair [risos]. Parece que ainda estou a ver a cara dele [risos]. Assim que o empregado pôs a garrafa à minha frente ele deu-me um arranque: "Oh miúdo, o que é isso, pá? Queres ser jogador a beber Coca-Cola? Tire lá essa Coca-Cola daí. Vais mas é beber vinho. Que é isto? É lá de baixo. Vem beber Coca-Cola? Nem pensar". É a partir daí que passei a apreciar um bocadinho de vinho. Mas sempre com moderação, porque eu não era grande apreciador.

No dia do casamento com Laura

No dia do casamento com Laura

D.R.

Chega ao FCP, quase sem levar cartões amarelos. Sabendo nós como a escola do FCP é, nunca levou nenhuma boca de um daqueles pesos pesados da equipa?
[risos] Não, até porque ali no FCP comecei a levar amarelos. Mas o Jorge sempre foi aquela pessoa de não deixar a equipa dormir. Jogava ali ao lado dele praticamente e às vezes dava-me na cabeça "Oh Paulinho, porra, já passou meia hora e ainda estás a dormir? Acorda, pá". E é importante ter esse tipo de jogadores, porque às vezes há jogos em que tu entras um bocadinho mais mole e é preciso alguém para dar aquele abanão, para acordarmos e reagir. Ali ao lado dele sabia que não podia falhar. Com ele é impossível o jogador jogar tranquilo, mesmo até nas entradas, quando era mais macio, ele dava-me na cabeça. Mas sempre naquela construtiva, para te ajudar. Porque é assim. Equipas à Porto é assim, quando o jogador chega e veste aquela camisola... Eu já sabia o que era o Porto e que quando chegasse, mesmo sendo um bocadinho mais tranquilo ou tentar jogar mais limpo, tinha de mudar, tinha de ser um pouco mais agressivo no jogo e tinha de deixar tudo em campo.

Entretanto agarrou logo o lugar na equipa do FCP, não deu hipótese nenhuma.
O Ibarra sai, está o Secretário e ele foi muito importante para mim porque ajudou-me muito. Jogando na mesma posição às vezes podia ficar chateado por eu ser miúdo, até podia ter sido mais seco ou mais agressivo comigo, mas pelo contrário, foi impecável, falava muito comigo, deixou-me à vontade. O Mourinho na pré-época foi vendo e fazendo experiências com os jogadores e quando chegou ao campeonato já tinha uma ideia do que queria e deu-me essa oportunidade, só tinha de a agarrar. Tudo ajudou, um grupo espetacular e jogadores de muita qualidade. Éramos um grupo muito coeso, muito amigo e isso fez a diferença.

Quem eram os jogadores com quem se relacionava mais, mesmo extra futebol?
Com todos. Fora, não saia muito com os jogadores. A Laura também estava, era o primeiro ano em que vivíamos juntos e queria estar muito com ela. Treinava ia para casa. Lembro-me que quando dividimos quarto eu costumava ficar com o Vítor Baía. A Laura tinha uma pancada pelo Vítor desde miúda e lembro-me que há um dia em que o Vítor convida-nos para jantar fora e fazer um cinema; eu chego a casa e digo "Laura Maria, o Vítor convidou-nos para jantar logo". E ela parou, ficou meio: "Estás a brincar; estás a falar sério?" [risos].

Quando houve a zanga entre Mourinho e Baía, como foi para si estar no meio?
Foi complicado. Tinha de respeitar, fiquei no meu canto a ouvir. O Vítor é um jogador com muita experiência também, já tinham estado juntos no Barcelona, portanto já havia uma relação. Fiquei ali sossegadinho, não me meti logicamente. Foi um momento complicado para o Vítor e para o Mourinho, mas felizmente as coisas lá se resolveram. O futebol é isto, às vezes há reações entre treinadores e jogadores, mas depois as coisas resolvem-se. Eu estava muito focado naquilo que tinha de fazer. Quando o Vítor saiu e entrou o Nuno Espírito Santo, ele também nos deu muita confiança e ajudou-nos, estávamos tranquilos. Sabíamos que o Vítor ia voltar.

Paulo Ferreira (à esquerda) chega ao Chelsea em 2004/05

Paulo Ferreira (à esquerda) chega ao Chelsea em 2004/05

Reuters

Nessa primeira época em que foram campeões, ganharam a Taça de Portugal e a Taça UEFA, pessoalmente, quais foram os momentos que o marcaram mais?
Pessoalmente acho que foi a minha melhor época no FCP. Foi a época em que também sou considerado o melhor lateral da Europa. A nível colectivo tínhamos uma equipa fantástica, jogávamos muito, havia uma confiança muito grande, íamos para os jogos e já dizíamos "Quanto é que vai ser hoje? Três, quatro golos?". Mesmo quando começávamos um jogo a perder 1-0 sabíamos que íamos dar a volta ao resultado e acabávamos por ganhar por três, quatro.

Nunca teve receio desse excesso de confiança?
Não porque há confiança e confiança. Ali sabíamos que éramos muito fortes, a maneira como jogávamos e a confiança que tínhamos internamente, a maneira como íamos para os jogos, sabíamos que éramos superiores. Falo com muita gente de outros clubes, do Benfica, do Sporting, e são os próprios a admitir isso. Para mim foi um ano perfeito. É preciso ter sorte para chegar no ano certo, na altura certa, com os jogadores certos, com o treinador certo.

Quais são os momentos que ainda hoje vêm à memória mais facilmente?
Foi vencer o meu primeiro campeonato, coisa que via na televisão em miúdo. Ser campeão nacional e logo no meu ano de estreia foi uma coisa... . O ganhar a Taça de Portugal, é outra coisa também marcante, porque o Jamor é também um estádio de tradição. E depois a Taça UEFA. Aquilo que se passou em Sevilha é uma coisa indescritível; chegar de madrugada ao Porto e ter 40 mil pessoas no estádio à nossa espera é uma coisa que não se explica. Essa final da Taça UEFA acho que diz tudo. Para todos foi o que marcou mais. Foi uma final cheia de emoções. Se compararmos as várias finais que tivemos essa foi a que nos deu maior emoção de jogar. Lembro-me que no ano anterior estava em Setúbal com o Nelson Veiga e o Brassard num restaurante a ver a final daquele ano e mal sabia eu que um ano depois, na minha primeira competição europeia, estava a ganhar daquela maneira. Estava longe de imaginar. Impensável.

Quando a época acaba, em euforia, houve alguma coisa que quisesse muito fazer naquela altura?
Sim e acabei por fazer. Casei e fui de lua de mel para as Maurícias.

Como foi o reencontro no início da época seguinte, o ambiente era o mesmo?
Igual, igual. Saiu na altura o Postiga e o Capucho, entrou o Benny McCarthy, o Tiago, portanto houve algumas mudanças.

Teve pena da saída do Capucho? Vocês entendiam-se muito bem.
É verdade, ter um jogador com a qualidade do Capucho não só a nível técnico, mas o próprio segurar a bola, eu sabia que podia dar a bola ao Capucho sem medo e podia arrancar por ali acima. É que às vezes há aquela situação do lateral passar a bola ao extremo e de arrancar mais cedo e o extremo perder a bola, depois há um contra-ataque e já estou fora da minha posição, mas como Capucho eu sabia que isso não ia acontecer, por isso eu já jogava e ia tranquilo. Mesmo nos treinos para lhe tirar a bola era muito complicado porque ele segurava muito bem a bola. Era um jogador de referência que tinha ali à minha frente, com qualidade. Mas temos de nos adaptar e continuar a trabalhar forte e manter os mesmo níveis de concentração. Sabíamos que era um ano em que havia uma grande expectativa.

O discurso do Mourinho era o mesmo?
Era igual. Os níveis de exigência são iguais, com o Mourinho é para ganhar. Iniciamos o segundo ano com os mesmo objetivos, não só de querer ganhar troféus, mas de manter a qualidade de jogo.

Com o ídolo Maradona, em 2008.

Com o ídolo Maradona, em 2008.

Darren Walsh

Na segunda época no FCP tem um acontecimento triste, a morte do seu pai.
Sim, na véspera do jogo com o Barcelona, na estreia do Dragão. Estávamos no Olival a treinar e no final do treino o Mourinho chama-me e diz-me para eu ligar à Laura. Ela na altura até estava em Paris, na casa do meu irmão Delmar, porque a minha cunhada estava grávida das gémeas. Ligo e ela dá-me a noticia. Arranquei para baixo para Cascais, ir ao funeral e vim embora logo. Apesar do Mourinho ter dito para regressar só quando estivesse em condições e me sentisse preparado. Mas eu voltei logo no dia a seguir ao funeral. Falei com a minha mãe e achei que era o melhor para mim, votar e começar a treinar. Também porque sabia que ela estava bem acompanhada, os meus irmãos estavam com ela. Acho que no fim de semana a seguir já estava a jogar.

Foi repentina a morte do seu pai?
Por causa do álcool acabamos por ter uma conversa com o meu pai e aos 63, 64 anos, achamos que o melhor era pô-lo num lar porque senão ia ser muito complicado, ele não parava, bebia todos os dias. Chegamos a essa decisão, não queria, mas achamos que era o melhor para ele. E foi. Era a pessoa mais nova no lar. Ele era sempre o primeiro a vir para baixo e a tratar do jardim, estava porreirinho, sempre que ia a Cascais ia visitá-lo e estava com ele, passava o dia com ele. Já tinha ganho peso, já estava com uma cara melhor, com um aspeto melhor, notava-se que estava a recuperar, mas, numa manhã, ele não foi para baixo, aos empregadas estranharam e quando chegaram ao quarto ele já estava morto. Foi um ataque cardíaco fulminante. E no ano seguinte foi a Laura que perdeu a mãe, com um cancro, no nosso primeiro ano de Chelsea. É a vida.

Vamos falar nas coisas boas. O segundo ano do FCP foi fantástico também.
Sim, estrear-me, eu e outros jogadores, na Liga dos Campeões, ganhar, e ganhar com o FCP, é qualquer coisa. Jamais irei esquecer. Mesmo tendo ganho depois com o Chelsea, não se compara. Foi especial para todos nós, para o clube, para o futebol português.

Quando a época acaba já sabia que ia com o Mourinho para o Chelsea?
Sabia que ia com ele, não sabia era para onde.

Ele já lhe tinha dito que queria que fosse com ele?
Sim, tinha-me dito. Só que o treinador quer levar um jogador mas às vezes as coisas podem não se proporcionar. Mas mantive-me tranquilo e também concentrado na seleção.

Droga, Paulo Ferreira e Sturridge com o troféu da Premier League conquistada em 2010

Droga, Paulo Ferreira e Sturridge com o troféu da Premier League conquistada em 2010

Darren Walsh

É o ano do Euro 2004, onde acaba por ser utilizado apenas no primeiro e no último jogo, ambos contra a Grécia.
No primeiro jogo as coisas não correram bem, não só para mim mas para a equipa também. Mas mais para mim porque continuo marcado por causa de um passe errado que dá origem ao primeiro golo. A partir dali, com essa derrota, havia a necessidade de ganhar o segundo jogo, até porque o terceiro era com a Espanha.

Sentiu que foi uma injustiça que lhe fizeram, não o pôr a jogar mais e “culpá-lo” de alguma forma por aquele resultado?
Futebol é mesmo isto. Posso achar uma injustiça porque toda a gente comete erros. Se calhar podia achar isso se fosse o único a sair, mas houve ali imensas trocas. Se calhar até eu próprio posso sentir-me culpado daquele erro ter afetado os outros jogadores que acabaram por sair também para o segundo jogo.

Isso mudou muito o ambiente na seleção?
Logicamente que não foi fácil porque estamos a falar de jogadores com muitos anos de seleção, de nome europeu e mundial, que estavam habituados a jogar sempre na seleção, ainda mais numa competição no nosso país, não foi fácil. Como também não deve ter sido fácil para o Scolari tirar um Fernando Couto ou um Rui Costa. Não vou mentir e dizer que foi fácil, houve tensão, lógico que houve jogadores que não ficaram satisfeitos o que é normal, eu também não fiquei satisfeito, também achei um pouco injusto. OK, cometi um erro, mas qualquer jogador pode cometer um erro. Mas o mister Scolari sentiu que havia necessidade de mudar, de fazer alguma coisa porque era importante ganhar o segundo jogo para nos dar confiança para o terceiro. Esse jogo ainda continua um pouco marcado porque quando se fala nele, fala-se sempre do erro...São coisas que acontecem. Tive de aceitar, tive de apoiar como sempre apoiei, aliás tenho uma relação espetacular com o Miguel, que foi o escolhido para o segundo jogo. Desejei-lhe a maior sorte e dei-lhe uma força muito grande porque acabámos por estar todos no mesmo barco e ali ganhamos e perdemos todos. E o que é verdade é que a equipa deu a volta, o país empolgou-se também e os níveis de confiança cresceram.

Ficou com a noção de que provavelmente não ia jogar mais?
Fiquei. Porque nesse tipo de competições sabemos que não é como no campeonato que são mais de 30 jogos e pode ficar-se dois, três jogos sem jogar e depois volta-se a jogar. Isto é uma competição curta e no momento em que se encontra um 11 que ganha não se vai trocar muito. Há sempre ali uma ou outra substituição que vai acontecer, mas as trocas não vão ser muitas, sabemos disso. No momento em que começamos a ganhar sabia que ia ser muito complicado. Mas temos de trabalhar e estar prontos.

Foi o que aconteceu.
Sim, o Miguel, infelizmente para ele, acaba por lesionar-se mesmo quase em cima do intervalo no último jogo e eu entro. Já estava com um período de jogos sem jogar e não é fácil entrar numa final com o jogo a decorrer e em cima do intervalo.

Uma enorme frustração.
Foi sem dúvida. Queríamos ganhar no nosso país, ia ser uma loucura, e para nós jogadores do FCP que tínhamos vindo de ganhar uma Liga dos Campeões, vencer o Europeu era a cereja em cima do bolo.

Paulo Ferreira com a Taça da Liga dos Campeões na cabeça, conquistada pelo Chelsea em 2012

Paulo Ferreira com a Taça da Liga dos Campeões na cabeça, conquistada pelo Chelsea em 2012

Darren Walsh

Quando sabe que vai mesmo para o Chelsea?
Estou no estágio da seleção e recebo uma chamada do Jorge Mendes para ir ter com ele. Foi na altura em que os fotógrafos apanham-me no barco do Abramovich e foi lá que cheguei a acordo com o clube.

Com que impressão ficou do Abramovich?
Uma pessoa muito tranquila, até um pouco tímido, se calhar por causa da língua. Mas fiquei muito surpreendido pela positiva, pela maneira de ser, principalmente quando cheguei ao Chelsea. Ele assistia a todos os jogos, vinha sempre ao balneário depois dos jogos, sentava-se ao pé de nós, falava com os jogadores, ouvia as conversas dos jogadores, uma pessoa muito simples, mesmo a nível de vestuário. Uma pessoa fantástica.

Como foi a adaptação a Inglaterra? O seu inglês era bom já?
Não. Sabia o básico mas não muito. A nível de adaptação à cidade não foi muito difícil porque acabamos por conhecer alguns portugueses que também nos ajudaram. A Laura falava e percebia o inglês corretamente, foi uma das coisas boas. O que eu queria aprender logo eram as palavras ligadas ao futebol, mas não tive aulas, aprendi no campo no dia a dia.

E a receção no balneário?
Foi boa. Nós jogadores do FCP chegamos campeões da Europa e portanto eles também olharam-nos de uma maneira diferente. No início, depois dos treinos almoçávamos na cantina do centro de treinos e ainda passavam imagens na televisão da final da Liga dos Campeões e eles olhavam para nós de uma maneira...Eles perderam na meia final com o Mónaco. Chegamos ali com alguma moral, no Europeu também eliminamos a Inglaterra...Portanto olhavam para nós de uma maneira diferente, com respeito. Mas encontramos um grupo muito bom porque encontramos jogadores quase da mesma idade. Eu cheguei com 25 anos, o Ricardo Carvalho com 26, o Drogba com 26, o Lampard 26, o Gudjohnsen 26, o John Terry tinha 23, o Cole também, o Petr Cech 21, portanto nós até éramos quase dos mais velhos na equipa. Encontrámos um grupo muito bom, de países diferentes.

Mas uma convivência de balneário muito diferente da do FCP.
Sim, não se pode comparar. Até porque no FC Porto quantos jogadores estrangeiros havia? [risos]. Ali eram culturas muito diferentes, não havia aquelas almoçaradas, mas às vezes íamos até um Paintball ou a um pub comer e bebíamos uma cervejinha. Fazíamos as festas de natal... . Havia também um bom grupo e foi isso que nos ajudou a ganhar no Chelsea. Nós portugueses claro que tínhamos uma pressão extra porque vamos com o treinador e tínhamos de mostrar o porquê de ir com o treinador.

Os adeptos também muito diferentes?
Em Portugal há as claques que estão atrás das balizas e cantam e é o que eu gosto também. Em Inglaterra é um pouco mais o geral, há uma zona ou outra do estádio em que se canta ou em que se começa a cantar, mas é muito no geral. O ambiente é qualquer coisa, é espetacular, até porque a qualquer estádio que vamos está sempre cheio, enquanto em Portugal às vezes íamos a estádios onde havia muitos adeptos do FCP, mas o estádio não enchia. Em Inglaterra qualquer campo onde íamos jogar estava sempre cheio e o ambiente é outro porque é diferente jogar num estádio cheio do que num estádio meio cheio.

Com a Taça da Liga Europa conquistada pelo Chelsea

Com a Taça da Liga Europa conquistada pelo Chelsea

D.R.

É campeão pelo Chelsea na primeira época, mas a nível europeu não correu tão bem.
Ficou ali um bocado atravessado porque fizemos uma época espetacular, principalmente no primeiro ano acabamos o campeonato com 15 golos sofrido, coisa que no futebol inglês não é normal, tanto que continuamos até hoje com esse recorde da equipa com menos golos sofridos. Internamente dominamos e na Liga dos Campeões há aquele golo em Anfield que fica atravessado, o Gallas tira a bola em cima da linha e hoje se calhar se fosse com o VAR era diferente [risos]. Mas na altura é difícil, tem de ser uma decisão rápida. Custou-nos, era algo que queríamos muito. E à medida que os anos foram passando começamos a sentir "se calhar este é o último ano. Se calhar já não vamos ganhar mais, vai ser difícil" e eu sentia essa tristeza também por aqueles jogadores que andava ali há tantos anos a tentar, quase a conseguir, muito perto... . Felizmente em 2012 conseguimos ganhar.

Foi jogador de Mourinho durante cinco anos e meio. Assistiu ao crescimento dele e se calhar também a alguma transformação. O Mourinho que saiu do Chelsea era muito diferente do Mourinho que o levou para o FCP?
Há essa evolução, esse crescimento e amadurecimento também como treinador e notou-se, mesmo depois do Chelsea ele continuou a ganhar e a crescer e amadurecer ainda mais. Mas não se muda a mesma vontade de querer ganhar.

O Mourinho de Inglaterra não era diferente do Mourinho do FCP?
Não. Exatamente a mesma coisa, com as mesmas exigências, com a mesma vontade de querer ganhar, com a mesma azia quando perdia, rigoroso e duro com os jogadores quando tinha de ser, direto e com a mesma personalidade. É normal que a pessoa vá mudando aqui ou ali, mas na essência, a ambição e a vontade é sempre a mesma.

Quando ele sai e tendo em conta tudo o que já tinham ganho...
Foi complicado para todos. Não esperávamos e foi muito complicado. A maneira como saiu não esperávamos. Pessoalmente era um treinador importante na minha carreira e vê-lo sair custa sempre. Foi a pessoa que fez tudo para que eu viesse com ele para o Chelsea, a maioria dos troféus ganhamos juntos, cria-se uma relação forte e não é fácil, custou bastante.

Não vacilou? Não pensou em sair?
Passou-me pela cabeça, se eu pudesse ia com ele. Mas sabemos que não é assim que as coisas são. Somos profissionais, temos contratos com os clubes e temos de continuar. Na altura tinha mais dois anos de contrato, e depois dele sair renovo mais três anos.

O que o levou a renovar?
Estava feliz, estava bem no clube, Londres é uma cidade espetacular, estava bem com a família. Já tinha sido pai, o Diogo já tinha nascido, em 2006.

Em pleno mundial da Alemanha?
Sim, é verdade. Eu pedi ao mister Scolari para ir a Portugal assistir ao nascimento, fui num dia e vim no outro. E fiquei bastante tempo no mundial porque chegamos a jogar o 3º e 4º lugar com a Alemanha, custou bastante estar longe porque era o primeiro filho, muito desejado, já andamos a tentar há muito tempo e não conseguimos. Depois de alguns tratamentos felizmente a Laura conseguiu engravidar. Foi uma altura complicado para ela porque já não tinha a mãe, é filha única e eu também não estava. A Maria também nasceu no Porto, como o Diogo, no Europeu da Suíça, em 2008 [risos].

Também estava no Europeu?
Não porque a Maria nasceu em maio. Estávamos na concentração na Covilhã e eu pedi ao mister Scolari se podia ir assistir e só perdi também um dia.

Paulo com os dois filhos, Diogo e Maria, e as duas taças europeias ganhas no Chelsea

Paulo com os dois filhos, Diogo e Maria, e as duas taças europeias ganhas no Chelsea

Darren Walsh

Voltando ao Chelsea. Decidiu ficar em Inglaterra...
Sim, estávamos bem, estava a jogar e quando surgiu a oportunidade de renovar aproveitei. Depois tive hipóteses de sair para clubes bons.

Pode dizer quais?
Falou-se na altura de Juventus, Atletico de Madrid, o Zenit também.

Porque não quis sair?
Já tinha o Diogo e a Maria, estavam na escola, estávamos com a vida estabilizada e achamos que se calhar era aqui que íamos ficar até os miúdos chegarem à universidade e depois talvez voltar a Portugal. Poderia ter ido e não sabemos o que o futuro nos reservava, mas se calhar se fosse também não tinha ganho uma Liga Europa e uma Liga dos Campeões como ganhei pelo Chelsea. Não me arrependo. Foram decisões tomadas em conjunto com a família.

Dos oito treinadores que teve depois de Mourinho, com qual gostou mais de trabalhar?
Não tive problemas com nenhum. Gostei principalmente do Ancelotti, foi uma pessoa que mesmo numa altura complicada, em que vinha da recuperação da operação ao joelho, havia uma hipótese de eu ser emprestado para jogar um bocadinho e ver até que ponto o joelho estava em condições, e ele deu-me uma oportunidade no seu primeiro ano de Chelsea em que fizemos dobradinha, ganhamos campeonato e taça. Uma pessoa impecável, sempre bem disposto. O Gus Hiddink também uma pessoa muito tranquila, gente boa, mesmo o Benitez também um treinador muito de ajudar o jogador, de situações individuais, às vezes até a nível técnico, de ir ao detalhe, ao pormenor, de posição do corpo. Acho que fui um felizardo por ter sido treinado por pessoas com qualidade.

Também teve Scolari no Chelsea. Muito diferente do Scolari da seleção?
Sim. A comunicação foi um dos problemas porque toda a gente sabe que o Scolari é uma pessoa muito comunicativa e aqui, não dominando a língua fica um pouco mais difícil para um treinador que precisa dessa ferramenta. Depois, é um treinador que salvo erro esteve mais de 10 anos a treinar seleções e treinar um clube é diferente; o treinar todos os dias, preparar o jogo, um jogo a meio da semana, ao fim de semana...Não foi muito fácil. Mesmo alguns jogadores queixavam-se que não estavam bem fisicamente. Porque na seleção os jogadores vêm dos clubes e é preparar um ou dois jogos, depois vê os jogadores no mês a seguir, é diferente de um trabalho diário. Infelizmente as coisas não correram bem, mas é uma pessoa fantástica por quem tenho um carinho e respeito muito grande porque acreditou em mim nos momentos mais complicados da minha carreira em que não estava a jogar muito. Acho que para o Europeu de 2008 até fui o primeiro jogador a ser convocado, foi impecável comigo e tenho de agradecer-lhe.

Em 2012/13 tinha noção de que era o seu último ano como jogador?
Não. A ideia era continuar a jogar porque me sentia bem. Apesar de naqueles últimos anos não jogar muito, sentia-me bem, útil para a equipa, sempre que fui chamado acho que correspondi. Quando acabou a época a ideia era continuar a jogar, talvez num nível mais baixo ou numa liga diferente, com menor intensidade. O Jorge também tentou que eu continuasse a jogar, mas o tempo foi passando. Terminei contrato, estava com 34 anos e pela pouca quantidade de jogos que tinha feito sabia que ia sair. Por isso já me estava a preparar e a falar com o Jorge.

Depois de pendurar as chuteiras Paulo (2º a partir da direita) passou a acompanhar os jogadores emprestados pelo Chelsea

Depois de pendurar as chuteiras Paulo (2º a partir da direita) passou a acompanhar os jogadores emprestados pelo Chelsea

Catherine Ivill - AMA

Já tinha pensado no seu futuro depois de pendurar as chuteiras?
Nem por isso. Queria ficar ligado ao futebol, mas ainda não tinha uma ideia, porque ainda me sentia com capacidade. Um coisa é sentirmos que o corpo já não dá mais, mas esse não era o meu caso. Por isso custou ainda mais.

Passava-lhe pela cabeça ser treinador?
Treinador não, mas se calhar via-me como adjunto para começar a aprender e ganhar um pouco mais de experiência. Mas o tempo foi passando, cheguei ali a outubro e percebi que ia ser complicado.

Não recebeu propostas de outros clubes?
Apareceu uma coisa ou outra mas nada que me puxasse. Havia a hipótese de eu ir um ano e a Laura ficar com os miúdos aqui em Inglaterra, fazermos esse esforço, mas para isso tinha que ser uma coisa que financeiramente valesse realmente a pena para esse sacrifício familiar. Acabei também por decidir pôr um ponto final. Na altura já tinha pessoas como o Roberto Di Matteo, que durante o campeonato em 2012, me diziam "começa a tirar o curso de treinador, não esperes pela carreira terminar, tira agora".

E começou a tirar o curso?
Sim comecei a tirar o curso de treinador. Entrei logo no nível II, acabei, entrei no UEFA B, acabei e entretanto convidam-me para estas funções. Na altura havia só uma pessoa, o Eddie Newton que foi o adjunto do Di Matteo na altura da Liga dos Campeões, que começou neste departamento de fazer o acompanhamento dos jogadores emprestados. Estava sozinho com o analista a acompanhar mais de 20 jogadores, o que era complicado. Eu estava aqui na Academia a acabar o meu UEFA B e em conversa perguntou-me se não queria experimentar ajudá-lo, convidou-me para fazer uma viagem com ele e ver o que fazia. E fui com ele à Alemanha visitar um jogador. Achei interessante e pronto. Comecei com quatro ou cinco jogadores para ver como corria, em 2014. E aqui estou.

O curso de treinador ficou pelo caminho?
Tenho o UEFA A, falta o Pro-License, o último nível. Se fosse em condições normais já teria tudo, se não tivesse começado neste trabalho. Mas penso acabar.

A ideia é um dia ser treinador?
Acho que gostaria de numa primeira fase começar como adjunto, trabalhar com um treinador com quem pudesse aprender um pouco mais do outro lado.

Se pudesse escolher gostava de ser adjunto de quem?
É complicado. Logicamente que se pudesse trabalhar com o Mourinho era fantástico. Conseguir trabalhar com um treinador ganhador é sempre bom porque, veja-se o que aconteceu agora com o Arteta que trabalhou três anos com o Guardiola e agora é o treinador principal do Arsenal. Mas não quer dizer que eu ao começar como adjunto tenha de sair, se calhar até posso achar que ser treinador principal não é para mim e vou dar um bom adjunto. Não sei.

Isso ainda não aconteceu porque ainda não houve um convite?
Não, porque também não falo muito disto. Neste momento estou bem, não surgiu nada porque também não divulgo. E se for o caso também posso falar com alguém, posso perguntar, mas nunca divulguei nem nunca se falou porque estou bem.

Nas suas atuais funções o que é mais importante?
Criar a relação com os jogadores e ajudá-los na sua progressão, no seu desenvolvimento.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

D.R.

O que teria sido se não fosse jogador de futebol?
Não sei, sempre gostei muito de mecânica. Em miúdo gostava muito de desmontar e montar carros. Gostava muito de Lego e Playmobil, era muito criativo. Se calhar era mecânico [risos].

Qual foi a posição em que mais gostou de jogar?
A Nº10.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Chelsea.

Investiu?
Em Imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Um relógio de marca.

É um homem de fé?
Acredito no destino. Quando era jogador entrava sempre com o por direito e beijava três vezes um crucifixo benzido que a minha mãe me deu.

Tem algum hóbi?
Gosto de cinema. E gosto de montar puzzles. O último que montei, muito por culpa da pandemia, tinha 5000 peças. Era um mistura de várias personagens da Disney, foi um amigo meu que está no mundo do cinema e trabalha em Los Angeles que me mandou.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Nuno Rodrigues, padrinho da minha filha Maria. Estivemos na escola juntos, fomos para o Estoril juntos, assinamos contrato profissional juntos. Depois eu fui para V. Setúbal. Ele acabou por ir para o Chipre e terminou a carreira em Angola. Mas mantivemos sempre contacto.

Tem ou teve alguma alcunha?
No Porto chamavam-em 'sacana'. Não sei porquê. Começaram a chamar-me sacana e ficou. Era 'ai o sacaninha', se calhar começou por alguma brincadeira que fiz, não sei. De resto era sempre Paulinho.

Tem tatuagens?
Não. A Laura tem algumas, mas eu não.

Algum outro desporto que goste de seguir ou praticar?
Praticar não. Experimentei golfe, mas só joguei uma ou duas vezes. Mas gosto de ver desporto. Gosto muito da NBA. Acordava às duas, três da manhã para ver os Chicago Bulls do Michael Jordan. Vi agora o "Last Dance" com o meu filho e ele adorou, obrigou-me até a comprar um cesto de basquetebol [risos].

Em 2019 Paulo Ferreira

Em 2019 Paulo Ferreira

Eurasia Sport Images

Qual foi o adversário mais difícil que apanhou?
O Ronaldinho Gaúcho. Se formos a ver eu apanhei três bolas de ouro. O Ronaldo, o Cristiano Ronaldo e o Messi. Venha o diabo e escolha. Tive momentos complicados também com o Gareth Bale, na altura do Tottenham. Mas para mim, aquele que a nível de talento, qualidade, técnica, força e velocidade, foi o mais difícil foi o Ronaldinho Gaúcho, era espontâneo, tinha uma criatividade imensa e eu apanhei-o na sua fase das duas bolas de ouro. O Cristiano Ronaldo também é outro muito difícil.

O clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Eu gostava muito do Ac Milan. Acho que naquela altura dos holandeses, tinham uma série de grandes jogadores e foi um clube que tinha qualquer coisa que me atraia. E na América do Sul também gostava de ter jogado no Boca Juniors, se pudesse.

Surpreendeu-o o sucesso do Jesus no outro lado do Atlântico?
Não por conhecer e saber da qualidade e potencial dele. Aliás antes do Jesus ir para o Benfica eu já dizia que era um treinador que merecia uma oportunidade num clube grande. Sabia que numa equipa com jogadores de qualidade, com o seu trabalho e exigência ia ter sucesso.

Qual a maior qualidade/virtude e o pior defeito do Mourinho?
É um ser humano fantástico. Podem se calhar as pessoas achar o contrário mas é uma pessoa amiga. Um defeito? Não sei se é defeito, mas se calhar choca por ser muito frontal e direto. Mas não acho que seja defeito.

E a sua maior qualidade e maior defeito?
Defeito? Se calhar ser tranquilo demais. Pode ser um defeito [risos].

E histórias para contar, não tem mais nenhuma que possa partilhar?
Tenho uma história engraçada que me marcou. Foi num jogo da Taça em que fiz o meu primeiro golo pelo Chelsea. Nos cantos ou nos livres laterais ofensivos normalmente os laterais ficavam sempre atrás e nesse jogo o Mourinho diz-me: “Paulo, hoje quero que vás aos cantos, quero que vás ali para a zona do penálti não quero que vás dividir cabeça com ninguém, quero que fiques na zona do penálti e faças a rotação para o segundo poste porque hoje acho que vais fazer um golinho”. Começamos o jogo logo a perder por 1-0 e depois logo no primeiro canto vou para a zona que ele me tinha dito, faço o movimento de rotação para ir para o segundo poste, o canto é batido, há um primeiro desvio no primeiro poste, a bola sobra para mim e faço golo. Fiquei assim… Aconteceu mesmo [risos].