Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

Costinha: “O Robson foi despedido e chorou quando nos viu a sair do autocarro, em Alvalade. Disse: 'Ali vão os meus meninos'”

A Paulo Costinha só lhe faltou representar o Benfica para fazer o pleno dos clubes mais emblemáticos de Lisboa e do Porto. Nunca se estreou pela seleção A, mas não se diz frustrado nem arrependido de nada. Hoje faz o que mais gosta na sua academia de futebol: passar aos mais novos o conhecimento e experiência de guarda-redes. E tem algumas histórias para contar, de calduços, de gente que o tratou mal no Sporting e do avançado mais temível que enfrentou

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

Nasceu em Braga, em São João do Souto. Fale-nos um pouco da sua família.
Os meus pais infelizmente faleceram no ano passado. A minha mãe em janeiro e o meu pai em maio. A minha mãe já fazia há muito tempo hemodiálise, mas não estávamos à espera, foi de repente. E o meu pai também. Depois da minha mãe falecer, o meu pai foi muito abaixo, era ele quem tratava da minha mãe nos últimos anos porque já estava reformado. Se calhar esqueceu-se um bocadinho dele. É a vida. Mas não foi fácil. Tenho uma irmã, cinco anos mais velha.

Quando nasceu, o que faziam os seus pais?
A minha mãe era doméstica e o meu pai trabalhava numa empresa de produtos alimentares, era vendedor e responsável da parte dele. Fazia as vendas e também ajudava as pessoas a descarregar os camiões.

Calculo que o futebol tenha começado na rua.
Nessa altura era à frente dos portões das casas, na rua. O portão ou umas pedras para fazer de baliza e foi assim até sair de Braga.

Sempre disse que queria ser guarda-redes ou jogador de futebol, ou sonhava ser outra coisa?
Sempre tive uma loucura pelo futebol, acho que já nasceu comigo. E eu jogava à frente, até aos oito anos era médio. Uma vez num torneio em Braga, na Rodovia, que era a zona onde havia os campos relvados, onde se faziam os torneios da Páscoa, o guarda-redes da minha equipa estava doente e fui para a baliza. Gostei e a partir daí nunca mais larguei a baliza.

Mostrou logo jeito?
Pronto, sim, e normalmente estavam lá os olheiros - o pessoal do Braga ia ver esses torneios - e fui para Braga com oito a fazer nove anos.

Foram ter com os seus pais?
Não, no final do jogo vieram ter comigo, perguntaram-me se eu gostaria de ir experimentar, de ir às captações ao SC Braga, que eram no campo da Ponte, pelado, e eu fui. Se não me engano foi numa quinta-feira; era infantil de primeiro ano, mas felizmente joguei sempre nos do segundo ano. Cheguei lá com mais amigos que também tinham sido convidados: estavam duas equipas, estava o pessoal que estava a ser observado e estava a equipa do SC Braga de infantis a treinar do outro lado. Curiosamente, eu vou para o lado das captações e vieram ter comigo e disseram: "Não, não, tu vais para aquele lado". "Mas eu vim para ser observado", disse eu. "Mas nós queremos que tu vás para aquele lado". Passadas duas semanas já estava a jogar. Foi tudo muito rápido.

Paulo Costinha em 1977

Paulo Costinha em 1977

D.R.

Os seus pais nunca se opuseram?
Opuseram, principalmente o meu pai. No primeiro ano do ciclo eu já estava no SC Braga e reprovei porque nos últimos dois meses tive sarampo e fui pouco às aulas - faltei a muitos testes e reprovei. O meu pai depois tirou-me do futebol. Tinha 10 anos. Nós treinávamos às terças e quintas a partir das sete da tarde e eu eu fazia um quilómetro e meio da escola para ir a casa trocar de mochila e de mochila às costas fazia mais cinco quilómetros pelo centro da cidade para ir para o estádio, sempre a correr.

E o seu pai?
O meu pai por acaso não sabia que eu estava a jogar, pensava que estava concentrado na escola, a minha mãe sempre guardou para nós, até o meu pai descobrir quando saiu no jornal, já eu tinha 13 anos. Andei dois anos e meio sem o meu pai saber que jogava futebol, à terça e quinta feira supostamente eu ia sempre estudar para casa de um vizinho e amigo [risos]. Ele só soube realmente que eu jogava quando saiu no jornal o "Diário do Minho" que o SC Braga, o Benfica, o FC Porto, o Sporting, o V. Guimarães e o Boavista estavam interessados em mim.

Qual foi a reação dele?
Foi má, porque sentiu-se enganado. E quando eu quis ir para o Boavista na altura as pessoas perguntavam-me: "Mas tens o Benfica, tens o Sporting...". "Não, mas eu quero ir para o Boavista" [risos.].

Porquê?
Não sei. Eu já conhecia alguns jogadores de lá e o Boavista no ano anterior tinha sido campeão nacional de iniciados, mas não sei dizer se foi por isso.

Torcia por que clube?
Quando era pequenino torcia por todos [risos]. Então nas competições europeias, lembro-me do jogo do FC Porto contra o Bayern de Munique, da final da Liga dos Campeões: eu nesse dia era portista. Andava com os meus amigos portistas e em Braga na altura não havia muitos portistas, agora já há muitos. Eu torcia por quem ganhasse.

Lá em casa os seus pais e irmã torciam por algum clube?
Era mais pelo SC Braga, que era a equipa da cidade. Só que nas competições europeias, na Liga dos Campeões, Taça UEFA e Taça das Taças, era pela equipa que estava lá em cima, era por eles que eu torcia. Ainda hoje gosto que os clubes portugueses façam boa figura na Europa.

Estava a falar da reação do seu pai.
Quando o meu pai soube perguntou-me: "É isto que tu queres?". Ele não quis deixar-me ir para o Porto, para o Boavista, só que era aquilo que queria, estava focado naquilo, eram os meus objetivos e gostaria de tentar. Depois também apareceu o Vitória de Guimarães, com o Pimenta Machado, e eu até estava mais perto de Guimarães, mas insisti em ir para o Boavista, não me pergunte porquê, foi a minha intuição. Não sei se era por causa do xadrez ou não, ainda andaram a tentar desviar-me uns para o FC Porto, outros para o Sporting, mas, pá, eu foquei-me e disse ao meu pai: "Quero ir para o Boavista". Tinha 14 anos e fui viver sozinho para o Porto.

Deve-lhe ter custado.
Nos dois primeiros meses chorei imenso, muito mesmo. Não tínhamos as condições que há agora. Estava habituado a ter as minhas coisas como deve ser: a minha mãe a acordar-me, a ter a roupa pronta, o pequeno almoço e ai tive que me virar. Custou-me muito nos dois primeiros meses e não tenho problema nenhum em dizer que chorei muito. Lembro-me de a minha irmã dizer aos meus pais: "ah, ele vai para lá, vai-se estragar". E isso vinha-me sempre à cabeça, e quando as coisas corriam menos bem, eu pensava sempre nisso. "Não, eu não posso dar -lhes razão". E sempre fui assim.

Com os pais, António e Conceição

Com os pais, António e Conceição

D.R.

Ficou a viver onde?
Durante um tempo fiquei por baixo da bancada com uns colegas meus, no estádio do Bessa; depois, passei para o lar. O Boavista tinha um prédio na Avenida Boavista, perto do bingo, muito antigo, onde estavam jogadores moçambicanos. Estive aí um mês e picos e depois fui para um apartamento, porque foram as condições que pus na altura. Fui viver para um T0, tinha 15 anos, foi quando comecei a viver sozinho.

Ia sempre comer fora, não?
Eu vinha aos fins de semana a casa. Do Porto para Braga, antigamente, era pela estrada nacional e demorava-se mais tempo do Porto a Braga do que do Porto a Leiria quase. Eram os camiões, eram os autocarros, todos os carros passavam por ali e demorava-se muito tempo. Também podia ir do Porto para a Braga de Expresso, mas era igual. A maior parte das vezes ia de comboio. Todas as vezes que ia a casa estava lá a minha avó materna que me ensinava como é que se fazia o arroz de tomate, etc., e aos poucos fui-me adaptando e hoje adoro cozinhar. É um hóbi que tenho, sinto-me bem e descontrai-me. Mas tenho uma coisa: quando estou na cozinha gosto de estar sozinho [risos]. Gosto de estar tranquilo a fazer as minhas coisas.

Tem algum prato em que se tenha tornado especialista a fazer, que toda a gente gosta?
Gosto muito de filetes de pescada com arroz de tomate.

Como é que foi com a escola? Largou os estudos?
Quando fui para o Porto, fui estudar. No primeiro ano andei no Fontes Pereira de Melo, que é mesmo em frente ao estádio. Só que no primeiro ano, com 15 anos, comecei a ir constantemente às seleções nacionais. Fui convocado foi à seleção de Sub16, mas eu ainda era Sub15.

Quem era o selecionador?
Era o Carlos Queirós, foi aquela seleção que ganhou na Dinamarca o campeonato da Europa, do Paulo Santos, do Álvaro Gregório, do Figo, do Peixe; eu era mais novo, tinha sido convocado mas não fui ao Europeu e depois começou a seleção da minha idade, com o Porfírio, o Costa, o Nuno Afonso, uma seleção fantástica que esteve nos Jogos Olímpicos, em 1996. A partir daí, faltava muitas vezes à escola e com 16 anos foi-me proposto assinar contrato semiprofissional. Ora bem, quando começo a treinar - se não me engano o treinador era o Pepe, o brasileiro -, eu tinha 16 anos; depois, o Pepe foi embora e veio o Raúl Águas - e quando ele veio comecei a treinar constantemente com os seniores. Ia fazer as fases finais dos juvenis, dos juniores.

Aí já não dava para conciliar com a escola.
Já não conseguia porque treinava de manhã e à tarde. Saí no 7.º ano, quando me é proposto assinar contrato semiprofissional. O meu pai não queria que eu assinasse, queria que continuasse a estudar. Tive de tomar uma decisão. O major Valentim Loureiro disse mesmo: "Ó Paulo vais ter de tomar uma decisão, já estás num patamar que não tem a ver só com a formação, tens de tomar uma decisão". Decidi assinar o contrato profissional. Nesse ano o Vitória SC ainda tenta que eu vá para lá, mas eu disse que não, sempre fui muito focado em ficar no Boavista. Não me perguntem porquê [risos].

Como é que fez em relação ao seu pai? Precisava da autorização, era menor.
Sim, mas o meu pai assinou. Ele perguntou: "É isto que tu queres?". "É, é isto que eu quero", disse eu. "Sabes que vais ter de trabalhar cada vez mais", avisou-me. "Mas esse nunca foi o meu problema e não irá ser". E comecei a fazer vida de profissional, treinava de manhã e à tarde, aos sábados entrava em estágio. Ganhei a primeira Taça de Portugal com 17 anos, pelo Boavista. Ganhámos 2-1 ao FC Porto, o treinador nessa altura era o Manuel José.

Paulo Costinha com o pai e a irmã Laura

Paulo Costinha com o pai e a irmã Laura

D.R.

Os primeiros namoros, as primeiras saídas à noite começam quando?
Eh pá, os primeiros namoros isso foi muito complicado, na altura eu estava mais focado em jogar e em treinar e não faltar aos treinos. Tive as minhas coisas de criança, mas nunca nada muito sério. As saídas à noite, sinceramente, noite, noite, noite, só saí com uns 18, 19 anos. Antigamente havia as matinés à tarde, no centro comercial Dallas, que já está fechado. Eu tinha treino ao sábado de manhã com os seniores e às vezes, quando era convocado, entrava em estágio. Com o Manuel José, não: íamos só almoçar ao domingo para ir para o jogo. Raramente saía porque se fosses à discoteca à tarde, toda a gente sabia onde é que eu tinha estado e não podia ser. Lembro-me de colegas meus chatearem-me: "Vá, anda lá, tens tempo". E eu, para não ter tentações, peguei e escondi a chave de casa. Meti-me dentro de casa escondi a chave e o mais engraçado é que adormeci, dormi a tarde e quando acordei não sabia da chave para abrir a porta [risos]. Nunca mais me lembrei onde é que tinha a chave. Liguei a um amigo meu para ver se ele conseguia ir lá abrir a porta e só passado umas horas valentes é que eu soube onde é que tinha posto a chave. Estava debaixo do tapete da sala.

Quando assina o primeiro contrato semi profissional é primeira vez que ganha dinheiro com o futebol?
Sim, na altura quando fui para o Boavista já ia com um contrato, já ganhava dinheiro. O meu primeiro ordenado, quando fui para o Boavista, com o apartamento, com refeições pagas, tudo pago menos os pequenos almoços e os lanches, era de 45 ou 50 contos (250€).

Lembra-se do que fez com o seu primeiro ordenado?
Não. O meu pai dava-me três contos (15€) por semana, ele é que geria o dinheiro. Só que eu adoro cinema e estava sempre à espera de segunda feira que era quando o meu pai me dava os três contos, para ir ao cinema. À segunda e terça-feira ao final da tarde ia sempre ver duas sessões e à quarta-feira muitas vezes já não tinha dinheiro para as outras coisas. Ainda hoje adoro cinema.

Tem algum filme que seja o filme da sua vida?
Gosto de muitos, muitos, muitos. Não posso escolher um. Em estágio, quando apareceram os DVD, muitas vezes era capaz de ver dois, três filmes antes de dormir. Gostava muito do Patrick Swayze que já faleceu, do Steven Seagal, mais nos filmes de porrada como se diz na gíria. O Patrick Swayze não, ele até fez aquele filme de dança [Dirty Dancing], o filme era fantástico.

Na escola primária, em 1981

Na escola primária, em 1981

D.R.

Quando faz o seu primeiro jogo na equipa principal do Boavista o treinador era o Manuel José. Gostou dele?
Muito. Praticamente foi ele que me lançou no futebol profissional. Se não me engano, o meu primeiro jogo foi nos quartos de final da Taça contra o Freamunde, em casa.

Estava muito nervoso?
Não, porque eu não sabia que ia jogar. Tinha sido convocado mas não sabia que ia jogar e o Raul, o adjunto do Manuel José, como não fazíamos estágio, íamos almoçar ao Holiday Inn no Campo Alegre, a seguir ao almoço vira-se para mim e diz-me: "Ó Paulo estás preparado?". "Preparado para quê, mister?". "Estás preparado?". "Eu estou sempre preparado para tudo". "Pronto, é isso que eu quero ouvir". Só soube que ia jogar quando foi para fazer o aquecimento.

E aí, ficou nervoso ou não?
Ele deu a equipa, eu fiquei assim a olhar para o quadro e acho que o mister Manuel José vira-se para mim: "És tu, é de ti que eu estou a falar". Eu parado a olhar, veio-me um calafrio pelo corpo todo, respirei e os meus colegas na altura, o Carlos Manuel que foi o capitão nesse jogo, o Jaime Cerqueira, o Jaime Alves, o Alfredo disseram todos: "É a oportunidade que tens agora". Respirei fundo e comecei a aquecer. Agora é normal que uma pessoa vá fazer o primeiro jogo com 17 anos e fique assim… Ver o estádio do Bessa, que era baixinho na altura, quase cheio, com aquele barulho pensei: “Eh pá, o que é isto? Isto é uma novidade para mim”. Mas passei bem, ganhámos 2-0 ao Freamunde. Levei um grande cachaço a seguir ao jogo do Major Valentim, era hábito dele, dar grandes cachaços nos jogadores. A minha cabeça andou a doer durante um dia e meio [risos]. Mas o Major era uma pessoa fantástica e continua a ser. No Boavista eu ainda era miúdo e ele era como se fosse meu pai. Deu-me os parabéns e senti-me feliz. Este foi o único jogo que fiz no Boavista, porque no ano a seguir fui para o Campeonato do Mundo, acho que da Austrália, e quando regresso fui vendido ao Sporting.

Já com 20 anos.
Sim.

Quem o aborda, tinha empresário na altura?
Eu não tinha nenhum contrato assinado com o José Veiga, mas ele era uma pessoa que, se nós precisássemos de alguma coisa, ajudava. Na altura ele era o empresário de quase todos os jogadores da seleção. Mas quando fui para o Sporting, foi sem empresário. Quem tratou de tudo foi o meu pai e o Major. Eu estava de férias e só sabia que ia sair do clube nesse último ano. Na Madeira vieram-me dizer, quando lá fomos jogar, que de certeza não ia ficar no Boavista porque havia a possibilidade do Atlético de Madrid, para onde foi o João Pinto da primeira vez. Que o Atlético B estaria interessado em mim.

Queria ir para o estrangeiro ou não era coisa que o aliciasse muito?
Não era e nunca foi. Tive várias oportunidades para ir e só fui uma vez. O que eu queria era jogar. Sempre fui uma pessoa que, estando a jogar, sentia-me bem, estava feliz. Mas voltando ao Sporting. Estou de férias com o meu primo, em Benidorm. Nós estávamos a jogar bilhar no hotel, o meu primo foi ao bar buscar qualquer coisa e começo a vê-lo a olhar muito para mim e eu pergunto-lhe :"O que é que foi?!". Como quem diz, estás chateado comigo? Ele pega no jornal “A Bola”, ainda me lembro que era grande na altura, traz-me o jornal. Eu já tinha reparado que no hotel havia mais pessoas a olharem para mim. "Será que eu fiz alguma coisa? [risos] Mas, espera lá, as pessoas conhecem-me aqui, em Espanha?”. Eu pensava que eram espanhóis, mas afinal de contas eram portugueses e já tinham visto a notícia no jornal, com a minha fotografia e a dizer “Costinha no Sporting” ou “Costinha vendido ao Sporting”, assim qualquer coisa.

No SC Braga onde iniciou o seu percurso

No SC Braga onde iniciou o seu percurso

D.R.

Qual foi a sua reação quando viu a notícia?
Fiquei contente, fiquei feliz porque o FC Porto também estava na corrida, segundo o que me tinham dito. O Sporting era um clube de que a partir dos meus 15, 16 anos passei a gostar muito. Mas há aqui uma coisa interessante. É que eu vou para o Sporting, mas tenho de ficar em Espanha mais algum tempo.

Porquê?
Não queriam que eu viesse para cá, ninguém sabia onde é que eu estava. A única pessoa que descobriu onde é que eu estava foi o Álvaro Braga Júnior. Ligou-me para o hotel a dizer o que é que se passava. Nem o meu pai me tinha dito nada ainda.

Então soube pelos jornais?
Praticamente. Eu sabia que nessa época não ia ficar, já me tinham dito que ia ser vendido, agora para onde é que eu ia não sabia porque havia a tal situação, falava-se no Atlético de Madrid B. Mas isso nunca foi consumado. Depois apareceu o Futebol Clube do Porto e depois o Sporting. Mas eu afastei-me, pus-me à parte disso, o meu pai é que tratou de tudo. E então eu chego de Benidorm ao Porto, de autocarro, vou para Lisboa, nem me deixaram ir a casa. Fui para Lisboa, assinei o contrato e depois vim para Braga outra vez. Voltei para baixo quando começou a época.

Vai sozinho também?
Sim. Fiquei a viver quase cinco meses no hotel Holiday Inn mesmo em frente ao Estádio de Alvalade, na 2ª circular.

Como foi a primeira vez que entrou no balneário, ainda se recorda?
Mais ou menos. Eu praticamente já conhecia a equipa toda, porque a maior parte deles eram da seleção. O Filipe, o Peixe, o Figo, o Capucho, o Nelson, era uma equipa muito jovem. Foi uma das melhores equipas que o Sporting teve. Tínhamos uma média de idade de 22 anos, eu tinha 19 a fazer 20. O Capucho, o Nelson, o Figo, o Peixe tinham 20, o Filipe tinha 22 ou 23.

Notou uma grande diferença do Sporting, para o Boavista?
Notei. O Boavista que já era um clube considerado grande, mas ir para um clube como o Sporting, com a grandeza que tem, é normal notar-se alguma diferença. Mesmo a abordagem das pessoas, o próprio dia a dia é completamente diferente. Foi um patamar mais acima mas fui bem recebido no Sporting.

A receber um troféu nas camadas jovens do Boavista

A receber um troféu nas camadas jovens do Boavista

D.R.

Gostou do Bobby Robson?
Adorei, adorei. Era um pai para nós. Quando ele estava para ir embora, nós íamos para Monsanto de autocarro (isto contado por uma pessoa que presenciou e que trabalhava na agência que o Sporting tinha no estádio) e ele estava a marcar as viagens para Inglaterra e começou a chorar quando nos viu no autocarro a sair do estádio, já era o Carlos Queiroz o treinador. Vendo o Bobby Robson assim, essa pessoa perguntou-lhe "Mister passa-se alguma coisa?". E ele só disse isto "Vão ali os meus meninos". Não fui só eu que soube, quase todos os jogadores souberam disso. Ele era uma pessoa fantástica, uma pessoa brincalhona, quando tinha de brincar, brincava, quando tinha de exigir, exigia, era inglês, pronto.

Notou muita diferença quando veio Queiroz?
Notei uma diferença no tipo de trabalho, mas a nível de pessoa não, porque o professor Carlos Queiroz já tinha sido meu treinador desde os 15 anos, nas seleções. Sempre estive habituado a estar com ele, a conviver com ele, com o Nelo Vingada, com o Agostinho Oliveira, o Rui Caçador, a equipa técnica da seleção na altura.

Quando chega ao Sporting fica logo como guarda-redes principal?
O primeiro jogo que faço é logo na 1ª jornada, contra o Salgueiros, a titular. Ganhámos 2-,1 se não me engano, jogavam o Pedrosa e o Sá Pinto, no Salgueiros. A partir daí joguei sempre; depois, lesionei-me num joelho e fui operado.

Como é que foi essa lesão?
A primeira lesão foi no joelho esquerdo. Retirei o menisco, e depois foi no direito, levei um ponto no ligamento e no menisco também, foram duas lesões diferentes.

No mesmo ano?
Não, mas foram em dois anos seguidos.

Paulo Costinha (atrás à direita) no Boavista

Paulo Costinha (atrás à direita) no Boavista

D.R.

Voltando ainda à sua primeira época no Sporting, há um marco: Salzburgo. Foi muito criticado. Conte como é que viveu isso.
Sim, eu tinha 20 anos, era o jogador mais jovem na equipa. Nós fomos jogar com o Casino de Salzburgo, na Áustria, e eu era muito novito, mas não era esse o problema, porque a qualidade estava lá... só que isto no futebol há coisas para as quais nós temos de estar preparados, porque no futebol não se joga só lá dentro, também se joga um bocado cá fora e eu fiquei triste. Chegámos a um estádio que estava cheio de neve. Uma hora antes andavam lá as máquinas a tirar a neve, um frio de rachar, e os lances... Eu não tenho responsabilidade, já vi lances piores em Portugal e sem ter neve, sem ter uma relva em que a bola batia e andava a 150 km/h por hora, e nunca ninguém criticou. O único problema ali era que eu era o mais novo e tinha de haver ali alguém responsável...

Sente que foi uma espécie de bode expiatório?
Pronto. E eu a partir daí percebi que ia ter ali uns anos complicados. Mas não mudei a minha mentalidade. As pessoas acham que tive culpa? OK, pronto tive culpa, mas agora não me posso ir abaixo, porque se me vou abaixo, então aí é que está tudo lixado. E comecei a pensar e a matutar naquilo. Antigamente havia um programa do David Borges na SIC onde me criticaram e eu pensei: eh pá, vou ter de assumir se quiser chegar a algum sítio e se quiser chegar ao topo, vou ter de aceitar as críticas da mesma maneira que aceito os elogios. Foquei-me nisso e disse, não, eu não vou abaixo por causa de uma situação destas quando eu sei que o futebol não se joga só lá dentro. Há muita coisa por fora. Depois, durante três meses, todos os meses vinha um guarda-redes novo para o Sporting. Mas quem é que jogava? Era sempre eu. Foquei-me nisso, eu para jogar tenho de mostrar o meu valor e o treinador tem de gostar do meu valor. E graças a Deus houve situações, tive lesões, mas praticamente durante esses anos até ir para os Jogos Olímpicos, até vir o Waseige, fui eu que joguei sempre, a tentar com o clube atingir os objetivos e a deixar de parte as coisas menos boas. Agora com a crítica nós sentimo-nos mal, ninguém gosta de ser criticado.

Qual foi a crítica que o magoou mais e que achou a mais injusta de todas?
Houve várias, mas houve mais elogios. As críticas eu esqueci-as, deixava as críticas de parte. Nunca me afetei pelas críticas, nunca. Lembro-me uma vez que o Bobby Robson se virou para mim no balneário, não sei se estava o Mourinho e o Manuel Fernandes lá dentro também, e disse-me: "Tu tens a idade que tens, mas foste dos jogadores com mais maturidade que eu vi até hoje". Aquilo que ele me disse, caramba, deixou-me cá em cima. O Bobby Robson a dizer-me aquilo, para mim foi uma bomba de ar que eu registei. No futebol estamos à vista de toda a gente. Há situações que as pessoas criticam e não há necessidade de criticar, só que o ser humano é assim, tem de criticar, faz parte da nossa vida.

Na assinatura do contrato com o Sporting, a cumprimentar Sousa Cintra

Na assinatura do contrato com o Sporting, a cumprimentar Sousa Cintra

D.R.

Teve duas épocas de Carlos Queiroz e depois vem Fernando Mendes e Octávio Machado. Gostou deles?
Gostei. O Fernando Mendes é uma das melhores pessoas que eu conheci no futebol. Não o conhecia muito bem quando ele assumiu a equipa, era o treinador interino da casa quando assumiu a equipa naquela altura e acho que toda a gente gostava dele. Foi uma pessoa fantástica para nós e, quando foi substituído, foi sempre uma pessoa que soube qual era o lugar dela.

E o Octávio?
O Octávio, que nós chamávamos o "Távinho", é uma excelente pessoa. Era muito exigente connosco, era, mas nós também merecíamos porque havia coisas que tínhamos de melhorar e melhorámos. Era um treinador muito exigente, mas era uma pessoa que também convivia connosco. Isso parece que não mas num treinador hoje em dia é muito importante. O importante para um treinador é ter os jogadores do lado dele. Se o treinador não tiver os jogadores do lado dele pode demorar, mas vai sempre dar erro. Mas o Octávio foi uma pessoa fantástica e quando aconteceu a minha situação lá no Sporting, a minha saída, ele sempre foi muito frontal comigo.

Fale-nos da sua saída do Sporting.
A minha saída do Sporting ainda hoje perguntou-me… Foi uma saída que eu nunca aceitei porque o meu objetivo foi sempre manter-me no Sporting. Eu estava de férias e vim mais cedo das férias para ter uma reunião com o Dr. Simões de Almeida. Queriam renovar, haviam um ou dois clubes ingleses interessados, e na altura não havia estas rescisões de contrato e estas cláusulas - era o passe, chamava-se passe. Havia um valor que era dado ao atleta e na altura eles queriam assinar um contrato de oito anos comigo, como assinaram com Afonso Martins. Eu tinha mais um ano de contrato com o Sporting e, se eu assinasse mais anos, automaticamente o meu passe iria valorizar ainda muito mais. Mas não chegámos a acordo. Eu disse: "Eu assino oito anos. Se quiser que eu fique aqui a vida toda, eu fico, não há problema". Sentia-me bem, era um clube que eu gosto, um clube de coração. Mas depois vêm com a proposta, aí já era José Veiga o meu empresário. Quando vi respondi: "Não, não pode ser, não vou aceitar por esses valores. Isto há a inflação, há tudo...e qualquer dia quando chegar ao fim dos oito anos de contrato, se calhar estou a ganhar tanto como o Paulinho". E eles disseram que tinha de ser assim. "Não, então não assino. Tenho mais um ano de contrato, vou cumprir o meu contrato, quando ele acabar aí voltamos a falar".

Não assinou?
Não, não assinei os oito anos e passadas uma semana ou duas volto lá outra vez para assinar por quatro anos. O Dr. Simões de Almeida queria que eu assinasse nem que fosse por dois, por causa da valorização do passe. Mas vem com uma proposta que eu disse: "Ó doutor olhe. sinceramente. não vamos estar mais a conversar. Eu tenho mais um ano de contrato, quero cumprir o contrato que tenho com o Sporting e depois logo se vê, a meio da época voltamos a falar". Ele ficou chateado e no dia da apresentação em Alvalade, e isto está tudo nos jornais, foi uma novela: eu e o Peixe na altura... No dia da apresentação eu e o Peixe estávamos na secretaria e o Octávio veio ter connosco para dizer-nos que estamos proibidos de ser apresentados. Eu perguntei: "Proibidos porquê? Mas eu tenho contrato". "São ordens de cima". O mais engraçado é que o Dr. Roquette não sabia de nada na altura. O Peixe queriam emprestar, se não me engano, ao Bari, em Itália, só que o Peixe já tinha tido uma experiência fora que não tinha corrido muito bem e ele não queria, queria ficar cá. E eu: "Sim, senhora, então passe-nos um papel assinado pelos responsáveis do clube a dizer que nos vão dar mais 15 dias de férias" . E ainda perguntei: "Mister é isto que você quer?”. "Eh pá, Paulo... não posso fazer nada, eles é que estão a exigir".

O que acontece depois?
O Sporting vai para Lamego fazer estágio e nós temos mais 15 dias de férias e no dia em que temos que nos apresentar em Alvalade, chegamos lá e está tudo fechado. Estão lá os jornalistas, a televisão, está tudo e eu, espera aí, então mas não está cá ninguém para nos receber? Ligámos para o Carlos Janela a dizer o que se passava e o Carlos Janela diz-nos que estavam em Lamego, que não estava lá ninguém que nos pudesse receber. Dissemos aos jornalistas e ligámos para o Veiga e é a partir daí que metemos a rescisão com justa causa. Nem nos deixaram entrar no estádio para irmos buscar as botas. Ficámos proibidos de entrar no estádio até que o Sporting regressasse de Lamego. Foi uma novela um bocado complicada, depois há uma rescisão através de fax, uma rescisão de justa causa tanto minha, como a do Peixe, que o doutor Velosa pôs. A seguir aquilo foi para os tribunais, vai para o tribunal arbitral, vai para o sindicato, há a história toda e depois há umas peripécias aí pelo meio.

Que peripécias?
Por exemplo, como a do juiz da minha ação ter dito que a minha situação ia ser resolvida, ia até ao fim e a do Peixe, disse que não era competente para decidir aquela situação. E nós começámos a achar aquilo tudo muito esquisito, mas não ligámos, tínhamos os nossos advogados e o meu continuou sempre a andar. Depois fomos treinar para o Estrela da Amadora - o treinador que lá estava era o Fernando Santos; ficámos lá até março, abril que é quando sai a decisão. O Sporting faz uma negociação com o FC Porto para nós os dois irmos para lá e o Bino e o Rui Jorge vão para o Sporting. É aí que há a abertura entre os clubes grandes de haver trocas de jogadores, porque até lá era impossível, nenhum jogador de um clube grande saía para outro. E vamos para o Porto.

Costinha (à direita) com Cadete e um adepto leonino no meio

Costinha (à direita) com Cadete e um adepto leonino no meio

D.R.

O que mais o magoou nesse processo todo?
Foi o estarmos dentro do processo e percebermos que havia muitas movimentações. Situações que estavam resolvidas e nós começamos a perceber que poderia haver ali uma ou outra jogada. Ficámos tristes porque logicamente estamos lá para jogar futebol e para fazer aquilo que mais gostamos; e começamos a perceber que havia pessoas a tentar prejudicar-nos em prol de situações para eles próprios. Mas eu falei e o dr. Hugo Velosa foi uma pessoa fantástica, mesmo o próprio Veiga que disse: "Não, não, isto vai para a frente". Nós tínhamos razão, tínhamos toda a razão, agora pelo meio todos sabemos que depois tenta-se arranjar soluções para dar a volta aos contextos. Mas mantivemos sempre a nossa palavra, mantivemos sempre aquilo que dissemos desde o princípio. Eu sempre quis levar aquilo até ao fim, não era pelo Sporting, isso Deus me livre, não era pelo Sporting, era por algumas pessoas em causa que estavam naquela situação e aquilo que me fizeram achei incorreto, porque fui muito honesto com as pessoas. Lembro-me até de outra situação.

Conte.
Estava nos Jogos Olímpicos, em 96, que é a altura que vem o Waseige para o Sporting, entra o Norton de Matos também, e eu lembro-me de ser considerado, antes da lesão com o Simeone, dos melhores jogadores dos JO. Eu estava bem. De repente percebo numa pergunta a umas pessoas do Sporting que não vou jogar. "O Costinha está a ser considerado um dos melhores jogadores dos Jogos Olímpicos e agora com a vinda do Waseige e do De Wilde...". "Não, o Costinha até pode ser um dos melhores jogadores dos JO, mas quando vier quem vai jogar é o De Wilde”. Eh pá aquilo magoou-me muito, magoou-me muito, eu depois tive a lesão, quem ocupa o meu lugar é o Nuno Espírito Santo. Às vezes, o azar de um é a sorte de outros. Desejei-lhe tudo de bom. A minha lesão foi complicada, levei uma joelhada na zona da bacia no jogo contra a Argentina e depois fiquei de muletas e só fiz o último jogo, porque eles também queriam que fosse eu a fazê-lo, o jogo contra o Brasil, para o 3.º e 4.º lugares. Ainda não estava em grandes condições mas consegui fazer o jogo.

Apesar do azar gostou da experiência dos JO?
Adorei. Mas há coisas que todos sentimos. Os JO foram criados para amadores e as equipas do futebol são todas profissionais e por isso passámos a vida em hotéis, com seguranças por todo o lado e não conseguimos viver por dentro aquilo que realmente nos trás de valor os JO e que é convívio na aldeia na olímpica. Estávamos separados disso, não convivemos com atletas de outros países, os únicos atletas com quem convivemos eram das equipas com quem jogávamos. Ficamos sempre em hotéis que era o que fazíamos quando jogávamos em campeonatos do Mundo ou da Europa. Foi das coisas que senti falta e os meus colegas também porque falávamos muito sobre isso. Gostávamos de ter vivido o ambiente da aldeia olímpica. Nem sequer fomos apresentados com a bandeira no dia da abertura, passou-nos tudo ao lado.

Paulo Costinha ao lado de Marco Aurélio (1ª à esquerda) no Sporting

Paulo Costinha ao lado de Marco Aurélio (1ª à esquerda) no Sporting

D.R.

Disse que esteve a treinar no E. Amadora. Gostou do Fernando Santos?
Estive eu e o Peixe. O Fernando Santos é uma excelente pessoa, só tive uma situação com ele no Porto, na altura em que quis sair, mas isso já é passado.

Recorde-nos esse episódio no FC Porto.
É na altura em que o Vítor Baía vem para o FC Porto. Eu fui para o FC Porto com o objetivo de jogar. Estava eu, o Rui Correia, o Hilário e o Eriksson na altura em que vou, em abril. Ainda fomos campeões nacionais nesse ano, fiz um jogo. Ia com uma ambição grande porque vinha de um clube grande também, mas naqueles tempos as coisas não eram assim tão fáceis como é hoje. Apanhei um treinador fantástico, aprendi muito com ele, o Mlynarczyk, uma joia de pessoa que sempre me apoiou. A situação que tenho com o Fernando Santos é, que quando ele chega, sabendo eu que o Vítor Baía vinha para o Porto, disse que queria sair, porque eu tinha mais dois anos e meio de contrato com o FC Porto e eu queria jogar. Depois há uma situação de empréstimo, em dezembro, para o Celtic de Glasgow até final de época com opção de compra, estava tudo acertado e voltou tudo atrás. Prometeram-me que ia começar a jogar e depois disso nem convocado fui. Fiquei magoado com o Fernando Santos. Mas o futebol é mesmo assim. Fiquei até ao final da época.

Mas falou com ele nessa altura?
Falei muito por alto, eu já não me lembro muito bem, o que sei é que fiquei muito magoado, muito magoado. Disseram-me para não ir para a Escócia porque ia começar a jogar. E eu pensei que ia ter uma oportunidade e depois não a tive. Prometeram-me uma coisa, não me deixaram ir para um sítio que eu queria, para jogar. Mas isto no futebol ninguém pode prometer que vai jogar ou deixar de jogar. Só consegui sair no final de época. Depois disso já nos encontramos e eu continuo a gostar do Fernando Santos, é uma pessoa fantástica.

A festejar a conquista da Taça de Portugal pelo Sporting em 1994/95

A festejar a conquista da Taça de Portugal pelo Sporting em 1994/95

D.R.

Nesta altura já tinha casado?
Eu casei a primeira vez estava no Sporting, deve ter sido em 1994 ou 1995. Eu nunca quis casar, mas sempre quis ter um filho. Só que na família, como sou de Braga, e é a cidade dos arcebispos e da igreja, tinha uma tia da minha mãe que começou a dizer: "Não casas e o bebé vai nascer e depois é filho de mãe solteira...", aquelas histórias todas. Casei. Mas passados uns anos divorciei-me.

O seu primeiro filho nasceu quando?
O Duarte nasceu em 1995. Eu tenho quatro filhos, mas não assisti ao parto de nenhum. Foi tudo por cesariana. Estive para assistir ao do meu filho Rodrigo, que tem agora 14 anos, e é fruto do segundo casamento com a minha atual esposa, a Tânia, mas à última hora, já estava todo equipado, parecia um médico e tudo, e obrigaram-me a sair porque aquilo complicou um pouco. E pronto nunca consegui assistir.

Quando vai para o Porto vai com a primeira mulher e filho?
Não. Quando fui já tinha dois filhos, o meu segundo filho, o Lourenço, tinha nascido pouco antes, e ficaram ambos com a mãe no Sobreiro, em Mafra. Quando vou para o Porto, vou sem eles mas eu tinha família no Porto e estava sempre com o meu primo, aquele que foi comigo para Benidorm quando eu tinha 17 anos. Era a minha companhia de almoços, assim como o irmão dele. E estava perto de Braga, de casa.

Acaba por viver no FC Porto aquilo que não viveu no Sporting. Foi campeão duas vezes.
Sim, ganhámos o tetra e o penta.

Qual foi a sensação de ser campeão?
É muito boa. É o dever cumprido.

Sentiu isso mesmo praticamente não jogando?
Temos de respeitar as opções dos treinadores, mas o importante é sermos campeões, é chegar ao final da época com o dever cumprido e poder dizer "Somos campeões, fomos melhor do que os outros". É um momento único. Ver aquela alegria das pessoas, o estádio a abarrotar...Tanto um como outro título foram duas festas fantásticas.

Quando chegou ao FC Porto foi praxado?
Levei com o balde de água gelada sim senhora [risos]. Eu e o Peixe. Mas a mim passou-me um bocadinho ao lado porque comecei a desconfiar de qualquer coisa. Todos os jogadores que chegavam eram praxados, não há hipótese.

Paulo Costinha (atrás à direita) numa das seleções jovens que representou

Paulo Costinha (atrás à direita) numa das seleções jovens que representou

D.R.

O que sente um guarda redes que vinha de um grande clube como o Sporting, habituado a jogar, e chega ao FC Porto e fica sempre no banco?
Esses momentos não são fáceis, mas nunca deixei de trabalhar, de querer crescer e aprender mais. Ainda hoje com 47 anos eu aprendo. A situação não era fácil ,mas eu tinha de pensar da maneira como sempre pensei: "no dia seguinte vai ser melhor". É assim que penso.

Mas há momentos de frustração em que a pessoa vai abaixo ou não?
Há. Há momentos em que a pessoa fica mais triste, vai abaixo, e perguntamo-nos se estamos a fazer alguma coisa de errado e às vezes não estamos. Na vida temos de saber ouvir, às vezes é melhor ouvir do que falar. Sempre fui uma pessoa que ouvi, até um ponto, e é esse ponto em que digo "eu quero sair". Eu não quis prejudicar ninguém. No Porto abdiquei de tudo para sair. Sentia tristeza mas ao mesmo tempo pensava "tenho de dar a volta por cima". E não havia dia em que não fosse para os treinos com a cabeça no lugar, pronto para treinar e para evoluir. Durante o jogo a pessoa não sente tristeza porque estamos lá para ajudar os companheiros, a equipa ganhando todos ganhamos, se e equipa perder todos perdemos. Um jogador que esteja no banco e que esteja a pensar que corra mal ao colega, está a pensar errado. Sempre fui uma pessoa de viver os momentos. Saía do jogo, chegava a casa, sentava-me no sofá a falar com amigos e se calhar já vinha aquela tristeza: "porque é que não estou a jogar?". Mas No dia seguinte estava pronto para treinar, para evoluir e ajudar os companheiros. Penso da mesma maneira hoje. As coisas não estão a correr bem? Então temos de dar a volta por cima. As coisas na vida não acontecem por acaso.

Estava dizer que força a saída do FC Porto no final da época.
Sim, vamos fazer uma digressão a Angola, durante 15 dias, e aí decidi, já tinha falado com o Sr. Reinaldo Teles, que queria ir embora. O Reinaldo Teles nunca foi a favor de eu sair mas sempre lhe disse "Quero ir jogar, quero ir jogar, quero ir jogar". E só fui em agosto para Tenerife, quando se resolveu a situação.

Costinha esteve presente nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996

Costinha esteve presente nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996

Luís Filipe Catarino

Como surge Tenerife? Queria ir para fora?
Passado uns tempos de andar a pedir a rescisão e de já não estar a treinar, eu ia todos os dias para o prédio onde eram as instalações do FC Porto às oito e meia da manhã, à hora que a secretária entrava, depois saia para ir almoçar e voltava outra vez, à espera que me recebessem para resolver a rescisão do contrato.

Esteve nisso quanto tempo?
Já não me lembro. Sei que fui para Tenerife no princípio de agosto, acho que foi no mês de julho. As pessoas diziam-me: "Tens uma paciência...". Eu só dizia, quero ir embora, não tenho nada contra o clube, é um clube de que gosto, mas eu quero jogar. Nunca fui, nem sou pessoa de me acomodar às situações. Nem que fosse jogar para um clube mais abaixo, eu ia. Não tinha problema nenhum.

Já tinha propostas de outro clubes?
Tinha propostas de outros clubes, mas eram todos em Portugal e eu ainda tinha mais dois anos e meio de contrato com o FC Porto. Eu tive uma proposta do Benfica, o FC Porto soube e no dia em que me deu a rescisão tive de assinar um documento em como ia para fora. Liguei ao Veiga, disse-lhe o que se passava. "Dá-me cinco minutos". "Pronto assina, não tens problemas nenhuns". Porque o Tenerife aparece na minha vida antes de eu ir para o Porto. Quando o Domingos vai para o Tenerife, um ano antes eu já tinha recebido uma proposta para ir para lá, só que o Sporting não deixou e aceitei as decisões do clube.

Como foi o primeiro impacto quando chegou a Tenerife, era o que estava à espera?
Era. O clube tinha descido à II Liga, mas tinha um plantel com jogadores de seleções estrangeiras, o Andre Luiz que jogou no Marselha e PSG, o Emerson que jogou no FCP e em Inglaterra, estavam lá por exemplo. Só que eu chego, eles vêm de um estágio de Las Palmas e quiserem pôr-me logo a jogar em duas semanas. Eu já há um mês e tal que não estava a treinar e fiz um estiramento no joelho. Fiquei um mês e meio em recuperação. Só voltei a jogar mais tarde. Joguei, ressenti-me, parei, voltei, foi uma época um bocado atípica e é quando decidi vir para Portugal, porque o Manuel José que estava no U.Leiria, começou a chatear-me, que gostava que eu voltasse. E pronto.

Foi sozinho para Espanha?
Sim, já estava aliás numa situação de separação. O meu filho mais velho foi estudar para lá, para Tenerife, no colégio hispano-inglês mesmo ao pé de casa. Mas como ficava muitas vezes em estágios e não podia estar sempre presente, levei uma rapariga da Guarda, se não me engano, para fazer de babysitting e acompanhar o miúdo quando eu estava fora em estágios e jogos. A coisa que eu mais gostava era quando chegava e ia buscá-lo à escola. Mas em janeiro ela quis-se ir embora, sentia saudades dos pais. A sorte é que entretanto conheci um português que já vive em Espanha há muitos anos, que era o responsável do bar do centro de estágio dos campos de treino do Tenerife e ele ajudou-me. A empregada dele de vez em quando ia ajudar-me com o miúdo. No final da época decidi voltar.

Tinha assinado por quanto tempo?
Eles quiseram que eu assinasse por quatro anos mais dois de opção, mas eu preferi assinar por um ano porque era uma experiência nova, fora do país, com quatro de opção. Mesmo assim as coisas não correram muito bem ao clube, não subimos nesse ano, foi muita confusão, muitas mudanças de treinador e eles queriam que tanto eu como o Tiago continuássemos, mas havia muita confusão e decidi vir para Portugal. Ainda estive para ir para o Córdoba, só que o Manuel José falou comigo. Estivemos em conversações e decido vir para o U. Leiria. Tanto eu como o Tiago.

Chegou ao FC Porto em 1997/98

Chegou ao FC Porto em 1997/98

D.R.

Correu-lhe bem essa primeira época com o Manuel José?
Nós praticamente nem férias tivemos, eu e o Tiago. Ficamos em 5.º lugar nesse ano, o que foi muito bom. Depois o Manuel José foi embora e vem o Mourinho.

Que tal? Era a revolução que se dizia?
Sim, sim. Eu já conhecia o Mourinho do Sporting, ele já tinha sido meu treinador como adjunto do Bobby Robson. Ele chega a Leiria com métodos de trabalho completamente diferentes daqueles a que estávamos habituados. Sempre foi uma pessoa que convivia muito com os jogadores, e continua a ser, e fazemos uma época fantástica com ele. Quando ele foi para o Porto nós estávamos em segundo lugar, atrás do Sporting, a dois pontos se não me engano. Quem vem para Leiria depois é o Mário Reis. As coisas não correram bem. Uma excelente pessoa, mas...

Com métodos mais antiquados?
Com métodos diferentes e as coisas começaram a descambar. Passado um mês ele sai e quem assume a equipa é o Vítor Pontes.

Que até aí era treinador de guarda redes do U.Leiria.
Exatamente. Ele pega na equipa e no primeiro jogo vamos ganhar 2-1 ao Beira Mar, em Aveiro. Estávamos cá em baixo e as coisas começam a melhorar, a melhorar, a melhorar e terminamos em 7º.

Gostou do Vítor Pontes como treinador principal?
O Vítor Pontes esteve com o Manuel José, com o Mourinho, era um treinador da casa, e parecendo que não vai absorvendo. Os jogadores aceitaram-no muito bem, começamos a recuperar e ele depois tornou-se mesmo treinador principal do U. Leiria. No final da época, em 2002/03 veio o Cajuda.

Deve ter vivido muitos episódios caricatos com ele.
[risos]. O Cajuda só dizia: "Eu sou o Cajuda (que ajuda) quem treina é o Nascimento". Ele brincava com essas coisas. É uma pessoa fantástica, muito brincalhão, mas resmungão às vezes.

Depois de duas épocas no FC Porto guarda redes foi para o Tenerife

Depois de duas épocas no FC Porto guarda redes foi para o Tenerife

D.R.

Na época seguinte, novamente com o Vítor Pontes, não jogou muito. O que aconteceu?
Em 2003/04 estou para ir para Inglaterra para o Wolverhampton.

E não vai porquê?
As negociações não correram bem. Já tinha contrato, estava quase tudo resolvido, mas estava cansado de viver num hotel e cheguei a uma altura em que disse: "Resolvam isto senão vou-me embora". As negociações não avançavam, primeiro era um valor, depois era outro. Depois o manager queria que eu fosse para o Coventry, que estava no Championship, até dezembro e que em janeiro já ia para lá, porque entretanto baixava o valor do passe e mais não sei o quê. Vim embora. E mal chego recebo uma chamada do U. Leiria para voltar para lá. Tinha um convite do SC Braga também, mas como eu já estava habituado a Leiria e conhecia a equipa e tudo, voltei. Só podia ser inscrito em Dezembro e tive de me aguentar, tive de esperar.

Só fez um jogo.
Sim, nós jogamos contra o Guimarães e o Helton é expulso em casa e depois vamos jogar com o Benfica e faço o meu primeiro jogo completo na Luz, empatámos 1-1. A partir daí, a decisão é do treinador, tive de me aguentar. Nunca me meti no trabalho dos treinadores.

Na época seguinte continuou sem jogar muito.
Exatamente. Na época 2005/06 é que já voltei a jogar mais, com o José Gomes, que depois vai embora e vem o Jorge Jesus. O José Gomes era um treinador de quem gostava, ele estava começar a sua carreira, passou um momento complicado em Leiria naquela primeira fase.

Costinha esteve seis épocas no U. Leiria, a primeira foi em 2001/02

Costinha esteve seis épocas no U. Leiria, a primeira foi em 2001/02

D.R.

Com que opinião ficou de Jorge Jesus?
O Jesus é um treinador que respira futebol. O futebol é a vida dele. É um excelente treinador, tem um feitio assim um bocado complicadinho. Dá duras a toda a gente, até ao roupeiro se for preciso. Mas é um treinador com muita qualidade que percebe muito de futebol. Há momentos em que ele podia ser um bocadinho mais tranquilo, mas não, ele vive aquilo a 100%, é muito intenso. Ele é capaz de levantar-se de noite para ir ver um jogo gravado.

É ele que o leva para o Belenenses na época seguinte?
Não. Ele falou comigo mas eu já em janeiro já tinha um pré-acordo com o Belenenses, era o presciente o Cabral Ferreira. Havia dois clubes onde gostaria de ter jogado, desde sempre, a Académica e o Belenenses. Por duas vezes estive para ir para a Académica.

Porquê a fixação nesses dois clubes?
Eh pá, acho que quase todos os jogadores em Portugal têm. Não me pergunte porquê, mas penso que é pela mística dos clubes. Eu cresci a perceber que a Académica era o clube dos jogadores-estudantes. Há uns anos valentes só ia para Académica quem fosse estudar para a universidade. A história do clube fascinava-me. E o Belenenses é o clube de que toda a gente gosta. Estive lá três anos fantásticos, antes de me aparecer a lesão e decidir deixar de jogar. É um clube que cativa. Ainda hoje guardo lá muitos amigos.

No primeiro ano de Belenenses, vão à final da Taça.
Sim, com o Sporting, é onde tenho a lesão no tornozelo, uma fratura de ligamentos, joguei 70 minutos com o pé imobilizado. Depois fui operado. Comecei a recuperação. Tinha de estar três meses parado, estive apenas mês e meio. Comecei a jogar o campeonato no ano seguinte com o Jesus também, antes dele ir para o SC Braga. As dores voltaram e depois é o que se sabe.

Na terceira época já não joga.
Foi quando piorou a lesão. Tenho uma rotura na coxa, voltei num jogo em casa e comecei a ser convocado, mas aí quem já estava a jogar era o Júlio César, que tinha vindo do Brasil. Com o Jaime Pacheco não joguei praticamente e no final de época tive uma proposta para ir para fora, para a Austrália.

Não foi porquê?
Duas semanas antes decidi que não aguentava. Fui correr e o meu pé inchou, porque praticamente não tem cartilagem. Eu já sofria muito e decidi pôr um ponto final.

Paulo Costinha (1ª atrás à esquerda) jogou sempre teve o sonho de jogar no Belenenses

Paulo Costinha (1ª atrás à esquerda) jogou sempre teve o sonho de jogar no Belenenses

D.R.

Quando sai de Leiria para o Belenenses, vai sozinho? Como estava a vida pessoal?
Já tinha casado de novo, em 2004 pelo civil, com a Tânia, que tinha conhecido em Leiria. Temos o nosso primeiro filho, o Rodrigo, em 2006 e foram os dois comigo para Belém. No segundo e terceiro ano já não foram. Eu queria estar com eles também o que ajudou à decisão de terminar a carreira.

Já sabia o que queria fazer a seguir?
Já nessa altura gostava de ficar ligado à formação, queria ter a minha própria academia, que é o que tenho hoje. Havia convites para ir treinar guarda redes, só que eu queria passar para os mais novos a minha experiência, queria formá-los com tudo a que têm direito.

O que é que isso quer dizer?
Formá-los com os princípios, as regras, as bases, que é aquilo que muitas vezes os clubes esquecem. Antes de se ser alguém tem que se ter bases, princípios e regras, cada vez mais. Ainda estava a jogar no Belenenses, no último ano, e já andava a pensar em abrir a academia. Em 2009 começamos o projeto CostiFoot em Figueiró dos Vinhos porque eu todos os anos ia lá dar sessões de autógrafo, no dia mundial da criança. E eles fizeram convite para abrir lá, porque o interior era sempre mais massacrado, não tinha nada. Proporcionaram-nos um espaço e abrimos. Só que como o meu objetivo foi sempre abrir em Leiria, acabei por fazê-lo em 2011, eu e a minha esposa. Somos uma academia certificada pela FPF, pelo segundo ano consecutivo. Queremos formar crianças, rapazes e raparigas, desde os quatro anos aos 13 anos.

É um academia de futebol ou só para formar guarda-redes?
Não, é de futebol.

Não teve também uma papelaria junto ao estádio de Leiria?
Tive, mas isso foi há uns anos. Já trespassei aquilo há três anos pelo menos, ocupava muito tempo. Entretanto criamos também uma empresa, em dezembro do ano passado, a Aktiv Sports Management, de agenciamento e gestão e marketing desportivo. Trabalhamos muito com a formação e temos muitas atletas do futebol feminino porque tem de se dar valor ao futebol feminino.

Voltou a ter filhos?
Tenho mais um, o Eduardo, o benjamim que tem cinco anos. Eu bem queria ainda tentar a menina, mas não há hipótese é tudo rapazes [risos]. Se me saísse um rapaz outra vez acho que fazia uma equipa de futsal [risos]. Mas agora não.

O que fazem os seus filhos mais velhos?
O mais velho jogou futebol no U. Leiria, no Mafra, mas não seguiu, agora é militar. O Lourenço está a trabalhar em Lisboa; o Rodrigo foi jogar para Académica em Coimbra e agora só tenho o pequenito em casa.

Com a atual mulher, Tânia

Com a atual mulher, Tânia

D.R.

O guarda-redes tanto é o herói como o vilão, por isso se diz que é uma posição ingrata. Sentiu isso desde início?
Sim. É um lugar muito específico e por isso mesmo é normal que tenha mais visibilidade nos erros que comete, como quando também faz grandes defesas. Agora, para se ser guarda redes têm de se gostar muito, ter prazer naquilo que faz.

Há características que são essenciais?
Não. O tipo de trabalho é que é mais específico, de técnica, de qualidade técnica de baliza, o saber andar na baliza, temos de ter noção do espaço onde nós estamos. É um trabalho muito específico que tem de ser feito logo quando são pequenos. No meu tempo não tive isso, mas se aprendi e sei, agora tento passar aos mais novos para tornar muito mais fácil a evolução deles. A técnica de baliza é das coisas mais importantes para alguém que quer ser guarda redes. Sem isso não há hipótese neste momento, porque os clubes e os treinadores são mais exigentes, os guarda redes hoje jogam muito mais com os pés, o nível de concentração tem de ser muito alto e o grande problema muitas vezes é falta de formação.

Olhando para o guarda redes que foi, qual era a sua mais valia e qual o ponto que sentia ser o mais fraco?
Eu gostava muito de sair dos postes. Gostava de sair aos pés dos jogadores e a cruzamentos. Era também aquilo que aprendíamos naquela altura, sair aos cruzamentos. Os treinos eram cruzamentos ou remates à baliza, não havia os treinos específicos que hoje há e que dou agora na formação. O meu lado menos bom talvez fosse o lado esquerdo a voar e era esse que eu trabalhava mais.

Qual era o avançado que mais temia?
Havia um avançado, de quem gosto muito, que quando estava em campo comigo, aquilo parecia sempre uma guerra. Era ele a querer marcar e eu a não deixar. Mas era saudável. É uma pessoa que admiro muito, como jogador principalmente, era um jogador fantástico. Mas andávamos sempre em picardias. É o Domingos. Houve uma situação em que fui expulso no Porto, até acho que vai o Oceano para a baliza depois, e não sou eu que dou o pontapé ao Domingos, é o Naybet, mas eu é que sou expulso. Levei três jogos. No jogo em que volto à baliza, em Faro, quem é que apanho? O mesmo árbitro, António Rola [risos]. De quem gosto muito, atenção. Ele próprio confessou-me que acha que se enganou ao expulsar-me.

E a melhor linha defensiva com quem trabalhou?
Adorei jogar ao lado do Stan Valckx e do Marco Aurélio, Naybet e do Peixe quando jogava a central, éramos todos novos e muito amigos. Não havia críticas entre nós, quando falhávamos o objetivo era dar moral.

Qual foi o seu maior rival?
As pessoas dizem que foi o Benfica, porque cada vez que jogava contra o Benfica defendia tudo. Mas não era.

E de posição? Qual o guarda redes rival?
No Porto o maior rival foi o Baía e o Rui Correia. Mas eu não chamo rival, porque não sinto que criássemos rivalidade, estávamos todos a trabalhar para o mesmo e a decisão é do treinador. Rivalidade com colegas nunca tive.

Qual o guarda redes com quem criou maior amizade?
O Ferreira, aqui no Leiria. Já faleceu. O Luís Vasco no Sporting, o próprio Tiago.

Para os penáltis preparava-se a ver como batiam ou era mais por instinto?
Estudava e tentava saber para que lado é que eles chutavam. Mas não quer dizer que vão fazer isso. Havia uma coisa que eu fazia. Esperava quase sempre até ao último momento. Não me atirava antes da bola partir, porque se fazemos isso vamos às escuras. É mais fácil vermos a bola partir e ser rápidos, trabalhar a rapidez. Mas sempre gostei mais dos penáltis batidos com força do que devagarinho, porque nestes parece que uma pessoa fica preso. E se sairmos antes da bola partir então ainda pior.

Os filhos Rodrigo e Eduardo

Os filhos Rodrigo e Eduardo

D.R.

Qual foi o melhor treinador de guarda redes que teve?
Gostei muito do trabalho que fiz com o Mlynarczyk no FCP. Mas não gosto de individualizar os treinadores, porque tive a sorte de trabalhar com treinadores de muita qualidade, como oDamas, o Mészáros, o Daniel Gaspar, por exemplo. Os dois que apanhei com treinos muito idênticos foi o Mészáros e o Mlynarczyk.

Quem foi até agora o melhor guarda redes português?
Para mim fui eu. Estou a brincar [risos]. O futebol tem a ver com visibilidade. Cada um no seu tempo tivemos o Bento, o Damas, o Vitor Baia… A nível de visibilidade foi o Vítor, as pessoas reviam-se muito nele. Portugal neste momento não tem muito bons guarda redes porque deixaram de dar a formação aos guarda redes como deve ser. O futebol não é para quem pode é para quem quer e eu quero ajudar miúdos que queiram ser alguém.

Onde ganhou mais dinheiro?
Talvez em Espanha.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Comprei um Porsche.

Tem tatuagens?
Tenho, dos meus filhos e da minha mulher, nos braços.

É um homem de fé?
Acredito em Deus sim, mas não sou praticante.

Superstições, tem?
A única que eu tinha era benzer-me sempre que entrava dentro de campo.

Tem o teve alguma alcunha?
Quando fui para o Sporting chamavam-me o Peter Pan. Mas não sei porquê. Era o Peter Pan de Alvalade.

D.R.

Qual foi o momento mais feliz que viveu no futebol e qual a maior frustração?
A minha primeira internacionalização, a minha primeira taça de Portugal com o Sporting, a Supertaça, o primeiro jogo que fiz com o Boavista, sei lá foram momentos tão bons.

Nunca chegou a ser chamado à seleção A.
Não.

Foi essa a maior frustração?
Não me sinto frustrado por nada. Gostei de tudo o que fiz. As decisões foram tomadas no momento certo. Tenho orgulho na carreira que fiz e no que estou a fazer agora. Nunca arranjei, nem arranjo, desculpas para as coisas menos boas. É porque não teve de acontecer.

Tem algum hóbi?
Além de cozinhar, gosto de bricolage também, de arranjar coisas.

Há algum clube onde gostava de ter jogado?
Se pudesse escolher...Talvez no Barcelona ou no Liverpool, por exemplo.

É mais difícil ser guarda redes hoje do que no seu tempo?
No meu tempo para chegares a profissional tinhas que ter muita qualidade e cabeça. Isso mantém-se mas antigamente era mais complicado no meu ponto de vista.

Qual foi o melhor capitão que teve?
O Oceano no Sporting e também gostei muito do Bilro no Leiria.

Se não tivesse sido guarda redes o que acha que tinha sido?
O meu sonho sempre foi marketing e publicidade. Ainda tirei um curso intensivo de gestão de empresas. Talvez algo relacionado na área de marketing e publicidade.