Tribuna Expresso

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A casa às costas

“Chamavam-me cientista. Fui o primeiro jogador que Mourinho lançou na vida, desiludi-me e fui para a banca ganhar menos e trabalhar mais”

Diogo Luís era um miúdo quando pediu ao pai para ser jogador. Cumpriu o sonho de se tornar profissional pelo clube do coração, o Benfica e foi pela mão de José Mourinho que se estreou na equipa principal. Mas houve uma altura em que perdeu a paixão pelo futebol e concluiu o plano B, o curso de Economia na Universidade Nova. Hoje, de pazes feitas com o futebol, já deixou a banca onde fez carreira depois de pendurar as chuteiras, é financial advisor numa sociedade gestora de património e comentador na Bola TV

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Lisboa. O que faziam profissionalmente os seus pais? Tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho três anos. A minha mãe é de Vilar de Perdiz, lá de Trás-os-Montes, o meu pai é de Ancião. São de uma geração em que todos saíam do meio rural e vinham para a cidade, acabaram por se conhecer em Lisboa. O meu pai é funcionário público e a minha mãe trabalhava na Caixa Geral de Depósitos. Já estão os dois reformados.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não, fui o primeiro.

Quais são as suas primeiras memórias da bola e do futebol?
A minha mãe diz que eu nasci praticamente com uma bola debaixo do braço [risos]. É estranho, o meu irmão era mais velho e não tinha esta paixão pelo futebol. Basicamente, eu estava sempre a jogar, sempre com uma bola debaixo do braço, sempre a correr, sempre a chutar a bola contra a parede. As pessoas, quando me davam presentes, eram camisolas dos clubes, neste caso do Benfica, porque eu ficava todo contente. Portanto, acho que foi desde que nasci que tive esse gosto. Nem tive ninguém na família que me incutiu este gosto, nasceu por mim.

A paixão pelo Benfica nasce de onde e porquê? Lá em casa torcia-se pelo Benfica?
Não, o meu pai era da Académica, a minha mãe não ligava ao futebol. Depois tive conhecimento que o meu avô materno, que não cheguei a conhecer, era um portista ferrenho. O meu irmão era do Benfica e eu também, não tenho por onde esconder. Lembro-me perfeitamente quando era pequenino de ouvir os relatos na rádio, os relatos do Benfica, os jogos todos. E é interessante porque eu ouvia dizer que o Benfica ia jogar em casa, mas eu era pequeno e não tinha noção do que era jogar em casa. A minha dúvida era em casa de quem. Se era em casa do capitão [risos], era aquela ingenuidade, porque comecei a ouvir os relatos desde muito cedo, desde os três, quatro anos.

Não foi aquele miúdo habituado a ir ao estádio ver os jogos?
Não. Aliás eu vivi em Alcântara até aos oito anos e depois fui viver para perto do estádio da Luz e eu é que comecei a fazer pressão para o meu pai me levar a ver alguns jogos, para começar a jogar futebol e foi aí que comecei a ir ver; mais quando já estava no Benfica, porque tínhamos o cartão de sócio atleta e podíamos ver os jogos todos. O primeiro jogo que fui ver ao estádio, e foi a família toda, foi a meia-final do campeonato do mundo de sub20. Eu tinha uns 10 anos, foi em 1990 salvo erro. Portugal ganhou 1-0 à Austrália, com um grande golo do Rui Costa. Estava o estádio cheio. E sim, eu implorava ao meu pai para começar a jogar. Já jogava na escola, andava no externato e fazíamos alguns torneios e em alguns deles apanhamos as equipas do Sporting e do Benfica.

Foi aos treinos de captação?
Sim, fui aos treinos de captação do Benfica. Tinha 11 anos. Fiz o treino e não fiquei. Mas eles indicaram outros clubes perto que podiam ser bons para mim. Nomeadamente o Fofó e o Atlético que eu conhecia porque tinha vindo de Alcântara. Acabei por ir fazer provas aos dois. Os dois queriam ficar comigo e a minha escolha recaiu no Fofó porque era muito mais perto de casa. O meu primeiro ano de futebol foi lá, com 12 anos, e foi sem dúvida uma experiência muito enriquecedora e positiva.

Nessa altura já tinha uma posição em campo definida ou não?
Não, quando vamos aos treinos de captação jogamos em todo o lado, queremos todos fazer golos e eu basicamente era alto, tinha perna longa e os treinadores decidiram meter-me a médio. Joguei sempre a médio centro praticamente até chegar a sénior, só nos seniores é que desci para lateral esquerdo. Fiz o ano todo a médio centro, ao fim de seis meses já era o capitão de equipa, já batia os livres. Naquela altura ainda eram os pelados, eu fazia um montinho e batia a bola, marcava muitos golos de livres, porque os guarda-redes eram pequeninos, bastava a bola ir perto da barra que entrava quase sempre. Fazia quase tudo, batia os livres, os penáltis. Sempre fui um miúdo com muita responsabilidade e os treinadores reconheceram isso, normalmente querem alguém que dê o exemplo dentro do campo.

Quando é que vai mesmo para o Benfica, é no ano a seguir?
Sim. Faço uma boa época de infantis, fui o capitão da seleção de Lisboa de Sub12 e vários clubes ficaram interessados. No Fofó fizemos uma grande época, salvo erro perdemos na final, e na final não joguei porque parti o braço num treino: fui defender penáltis, parti o braço e não joguei a final de campeão de Lisboa. Eliminámos o Benfica e isso gerou ali algum interesse naturalmente. Havia o interesse do Estrela da Amadora que na altura tinha uma equipa forte nas camadas jovens, do Sporting e do Benfica. A minha escolha recaiu pelo Benfica naturalmente, porque era o meu sonho e também porque era perto de casa. Juntava-se o útil ao agradável.

Sempre sonhou em ser jogador de futebol, nunca quis ser outra coisa?
Queria ser jogador [risos]. Sempre. Na escola os meus intervalos eram sempre a jogar futebol. Eu já ia equipado de manhã para jogar não precisava de trocar na escola. As aulas começavam às oito e meia e eu chegava às dez para as oito para ir para o campo jogar um bocadinho antes de tocar. Jogávamos muitas vezes contra os mais velhos e isso também era importante para o nosso desenvolvimento e crescimento.

Nunca lhe passou pela cabeça desistir da escola?
Não, de todo, aliás essa foi uma das condições que o meu pai colocou para que eu continuasse a jogar. Sempre fui regrado e, quer queiramos quer não, nós seguimos os exemplos. Se eu tenho um irmão mais velho que vai fazendo a sua evolução natural, o meu exemplo era um exemplo positivo, o meu irmão vai fazendo a escola, eu também vou, este é o caminho que faz mais sentido. Lembro-me que na primeira conversa o meu pai chegou ao pé do mister Nené e disse: "O meu filho vem para aqui, mas primeiro está a escola". E o mister: "Atenção que é difícil porque isto são muitos treinos". "Não, primeiro está sempre a escola". E eu tive sempre esse objetivo e tive a sorte de ter muito apoio familiar. O meu pai andava comigo para todo o lado, o que me libertava tempo para poder fazer os trabalhos, estudar, ter essa disponibilidade mental para continuar a evoluir num contexto académico e sempre o consegui fazer com boas notas, tanto que consegui entrar na faculdade. Troquei várias vezes de escola por causa dos treinos, mas faz parte da vida.

Quando era miúdo quem eram os seus ídolos?
O meu ídolo era o Rui Costa, tinha posters dele no quarto. Claramente o Rui Costa porque jogava numa zona de terreno onde eu jogava, gostava imenso do estilo dele.

Recorda-se da primeira vez que o viu pessoalmente?
No estádio, quando fui ver o primeiro jogo, vi o golo dele, mas quando o conheci já foi aos 17 anos. Num torneio que tivemos na Itália em que ele foi o padrinho e foi lá ter connosco. Ele foi ter connosco ao balneário, tirámos todos uma fotografia com ele, acho que foi aí que eu o conheci pela primeira vez, pessoalmente. Depois até acabámos por ir ver um jogo a Florença, salvo erro um Fiorentina-Milan.

Diogo Luís com a bola na mão e o irmão

Diogo Luís com a bola na mão e o irmão

D.R.

Foi fazendo toda a sua formação no Benfica, houve algum treinador que o tenha marcado mais nesse percurso?
Não, gostei de todos a começar no Arnaldo Teixeira que ainda apanhei porque apesar de ter feito os infantis no Fofó fiz um torneio no final do ano com o Benfica, no Algarve, foi o meu primeiro contacto com o Benfica e marquei muitos golos, ganhámos o torneio. Depois apanhei o Bastos Lopes, o Rui Oliveira, o Jaime Graça que já não está entre nós, o Arnaldo Cunha, o Nené, o Chalana, e todos me acrescentaram muito. O Nené era muito rigoroso, muito detalhado, psicologicamente um treinador muito forte; olhando para trás, percebo o que ele nos quis dizer muitas vezes e a forma como ele foi singrando e como conseguiu jogar até aos 37 anos, que na altura não era natural e hoje em dia já começa a ser mais normal. Tive a sorte de apanhar treinadores que tinham paixão pelo clube, que nos passavam e incutiam os valores, que sabiam falar connosco.

Quais as maiores amizades que fez na formação?
Não tenho contacto regular com todos, mas o Ricardo Esteves, o Bruno Lucas, o Tiago Carvalho, o Pepa, o Baião, crescemos todos juntos durante oito anos e apesar de não termos contacto regular, porque as vidas acabam por nos separar, quando nos encontramos rimo-nos imenso. Eles têm é uma memória muito mais seletiva do que a minha, lembram-se de muito mais coisas do que eu [risos].

Quando acaba a sua formação, no seu último ano de júnior, já sabia o que ia acontecer a seguir? Como foi a passagem a sénior?
Era sempre uma incerteza porque na altura não havia as equipas B´s. Tinha havido o Sport Lisboa Olivais, que não era bem o Benfica B, era um projeto que depois acabou e foi nesse ano que surgiu a equipa B. Tivemos ali um período de indefinição, mas percebemos com o passar do tempo - e estávamos a três ou quatro meses antes do fim da temporada - que ia haver equipa B. Foi aí que se tomaram as decisões e praticamente ficámos com o plantel de juniores que tínhamos. Portanto, desse ponto de vista foi bom porque permitiu-nos continuar a crescer com a mesma mentalidade, a mesma cultura e não apanhámos um choque por ir para um clube que jogava por outros objetivos, que se calhar tinha outros jogadores, com outra maturidade e matreirice. Portanto, foi tudo muito natural, eu na altura já estava na universidade.

Entrou em que universidade e curso?
Entrei na faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Entrei com média, apesar de ter o estatuto de alta competição. Ao início, na equipa B, ainda consegui conciliar muito bem com a universidade, fiz metade do curso naqueles dois primeiros anos da equipa B. Depois, quando tive a minha oportunidade é que me concentrei mais no futebol e fui fazendo o possível na área académica.

E nessa altura não teve dúvidas?
Não, porque depois surgiu a oportunidade de dar o salto para a equipa A e quando dei esse salto as coisas mudam de figura. A partir do momento em que começo a jogar a titular na equipa A e a fazer parte do plantel, a decisão é quase natural.

Quem é que lhe deu essa oportunidade?
Foi o José Mourinho, fui o primeiro jogador que o José Mourinho lançou na sua vida como treinador [risos]. Foi ele que me deu essa oportunidade e como estava a dizer é um processo natural porque a partir daquele momento a decisão está tomada. A vida académica podemos ir continuando a fazer. Tentei sempre não desligar porque tinha a noção de que se desligasse seria muito mais complicado, portanto ia fazendo pelo menos uma ou duas cadeiras por semestre e jogando, tinha de me concentrar mais nos jogos.

Recorda-se da primeira vez que chegou ao balneário sénior do Benfica?
A primeira vez era mais novo, já tinha treinado com a equipa principal quando ainda estava na equipa B. Já tinha ido também a um torneiro com a equipa principal, a Espanha, mas sim, era aquela loucura de olharmos para tudo. Tínhamos condições que não tínhamos na formação naturalmente, desde bebidas, meios, massagens, para nós era tudo novo. Hoje em dia os miúdos na formação se calhar já têm mais condições e quando chegam lá a diferença não é tão abismal, mas naquela altura era e naturalmente eram os olhos que brilhavam.

Diogo Luís fez a formação no Benfica

Diogo Luís fez a formação no Benfica

D.R.

Lembra-se do jogo de estreia na equipa principal?
Lembro, foi no dia 2 de outubro de 2000, num Benfica-SC Braga.

Estava muito nervoso, tremiam-lhe as pernas?
Estava nervoso antes do jogo, mas o Mourinho transmitiu-nos uma confiança tal que nós não tínhamos receio do que íamos encontrar pela frente. Ele dava-nos liberdade e tranquilidade, eu se calhar estava nervoso no hotel, nessa altura os jogos eram mais ao final da tarde ou à noite, o que fazia com que a ansiedade aumentasse mas quando entro dentro de campo, tudo passou. Entrei e foi realizar o sonho. O estádio estava bem composto. Sei que fiz uma boa exibição, aquela ansiedade passou toda logo ao primeiro minuto, até tive uma oportunidade de golo aos dois minutos. Foi o Ricardo Rocha que cortou em carrinho. E pronto, as coisas correram bem, apesar do resultado não ter sido o melhor, o SC Braga conseguiu empatar no fim.

Notou muita diferença dos treinos que tinha na equipa B para os treinos do Mourinho?
Notei, claro. Acho que o Mourinho naquela altura em termos de treinos estava muito mais avançado do que todos os outros, a diferença era abismal. Sei que, por exemplo, nós treinávamos muitas vezes hora e meia, duas horas na equipa B, ou mesmo depois nos outros clubes que fui apanhando, e com o Mourinho os treinos eram com uma intensidade tal que tudo passava muito rápido. Era tudo muito organizado, passámos de um exercício para outro, só com 60 segundos para beber água. Era tudo muito pensado, bem executado, o que fazia com que também estivéssemos sempre entusiasmados. Ele esteve lá três meses e nunca repetiu um treino o que achei interessante porque o jogador precisa de estímulos. Ele também nos conquistou por isso. Por tudo, pela organização, pelo conhecimento que tinha do jogo e dos adversários e pela forma como conseguia criar treinos diferentes.

Quando assina o primeiro contrato com o Benfica?
Eu tinha o contrato de formação porque era internacional, mas o contrato profissional, o primeiro foi quando fui para a equipa B.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Acho que foram 120 contos (600€).

O que fez com esse dinheiro?
Não fiz nada de especial, acho que o guardei. Já tinha essa mentalidade, sempre fui muito regrado, a mentalidade com que os meus pais também me criaram. Percebia que tínhamos de estar com os pés no chão e fui pensando sempre um bocadinho no futuro, que tinha de poupar. Eu já estava a tirar a carta de condução. Os meus pais também me iam ajudando naquilo que eu necessitava e portanto não sentia necessidade de comprar nada de extraordinário.

Entretanto o Mourinho sai. Fica Toni. Uma outra escola, mais antiga.
Exatamente, não estou a dizer que é melhor ou pior, naquela altura como disse os treinos do Mourinho eram diferentes. Com o Toni era um bocadinho mais para o sentimento na forma de puxar pelos jogadores, mas sim, uma diferença grande de um para o outro. Fez parte também do meu crescimento.

Continuou a jogar?
Sim. Eu entrei na época 2000 /2001, já a época estava a desenrolar, foi quando o Mourinho entrou para o lugar do Heynckes. Depois, em 2001/2002, tive uma lesão, em outubro. Tinha jogado salvo erro três em cinco jogos do campeonato e tive uma rotura muscular.

Como fez a lesão?
Foi num treino. Ia para um treino relaxado, se calhar relaxado demais e num exercício acabei por esticar e tive uma rotura. A lesão demorou quatro ou cinco meses a ficar boa. Foi naquela altura em que havia guerras no departamento médico do Benfica e lembro-me que o fisioterapeuta António Gaspar não sabia bem o que é que eu tinha, o Bernardo Vasconcelos... Andavam às guerras uns com os outros. Foi na altura em que havia aquela questão do Mantorras, das infiltrações e não infiltrações. Eu andava no posto médico e senti alguma desorganização e sei que não devia ter demorado tanto tempo a curar-me. Mas a verdade é que foram quatro ou cinco meses que me prejudicaram e que foram essenciais para o resto da minha carreira, porque a partir daí tive de tomar uma decisão e essa decisão acabou por ter influência no resto da minha carreira.

Que decisão é que teve de tomar?
Chegou o mercado de inverno e no último dia eu estava lesionado já há três ou quatro meses, o professor Jesualdo chamou-me e disse-me: "Olha é assim, tens a opção de poder ir para o Alverca". Na altura estava mal posicionado, estava em último lugar do campeonato. "Ou vais para o Alverca ou não jogas aqui". Eu ainda não estava totalmente curado e quando me dizem, ou vais para o Alverca ou não jogas aqui, a decisão mais fácil de tomar é: "Vou para o Alverca. Prefiro ir para algum lado jogar do que estar aqui parado". Mas se calhar não foi a melhor decisão porque por um lado ainda não estava curado. Estive no Alverca, joguei os primeiros jogos, mas ainda sentia a lesão. Aquilo foi difícil porque o tratamento não foi o ideal, fiquei com uma fibrose e cada vez que corria sentia a fibrose a soltar. E depois, foi se calhar o fim de ciclo no Benfica, porque a partir dali já não entrei mais nas escolhas. Se calhar se tivesse ficado e aguentado mais um pouco, possivelmente podia ter sido uma história diferente.

Diogo com os pais e o irmão

Diogo com os pais e o irmão

D.R.

Quando chega ao Alverca quem é o treinador?
É o Vítor Manuel com quem agora falo recorrentemente, fazemos os dois comentários na Bola TV. Era também uma figuraça. Uma pessoa fantástica, um treinador muito engraçado, temos muitas histórias um com o outro [risos].

Conte-nos lá uma ou duas.
Era um bocadinho da velha guarda mas interessante, metia-se com os jogadores, com métodos bons de treino. Há algumas coisas... mas eu não posso contar [risos]...

De certeza que arranja alguma história que possa revelar.
Houve uma ocasião em que estávamos todos no relvado a alongar e começa ele para o ar: "Então tu andas a passear, não é?". E toda a gente a olhar. E encolhia os ombros. "Andas a passear. O que é que andas a fazer? Eu estou-te a ver, olha que eu vou-te controlando..." [risos]. Às tantas o Vargas explode "Como é que sabe? Mister está a falar para mim? Eu não estava a passear, fui levar a minha família...". E o Vítor Manuel: "Eh pá estava a brincar contigo" [risos]. Uma vez também com o Vargas, que era um dos que ele gostava mais de picar, houve uma palestra muito engraçada, acho que foi em Santo Tirso, ele estava a dizer a equipa e numa altura diz assim: "Ó Vargas pá, tu és um campeão, tu és um campeão. Entraste no último jogo, partiste aquilo tudo, foste fantástico. E hoje vais outra vez para o banco e vais entrar outra vez assim". E o Vargas ficou a olhar [risos], coitado. Tivemos ali momentos bons mas infelizmente descemos de divisão. Jogávamos bom futebol, tínhamos um belíssimo plantel, mas aqui e ali não tivemos a eficácia necessária e acabámos por ser penalizados por isso - e também por alguns erros de arbitragem. Porque a verdade é que os árbitros não erram de propósito, mas quem está lá em baixo, é a minha opinião, muitas vezes acaba por ser mais penalizado porque parece que quando as coisas não podem correr pior, acabam sempre por correr pior.

No final da época já sabia que não ia ficar? Como se dá a ida para Aveiro?
Eu já sabia. O Alverca desce de divisão, eu regresso ao Benfica, só tinha seis meses de empréstimo, ainda tinha mais dois anos de contrato. A minha esperança era ficar no Benfica, ver o que ia acontecendo, já sabia que não iam contar comigo, ainda fiz o torneio de final da época, acho que fomos aos Estados Unidos. Mas depois o Benfica ficou interessado no Cristiano do Beira Mar e ,como troca, eu e o Toni acabámos por ir para Aveiro.

Quando lhe disseram ficou chateado?
São opções e eu entendi aquilo como uma oportunidade para poder mostrar o meu valor noutro clube. Não sabia bem o que é que ia encontrar pela frente, ia estar fora de casa pela primeira vez e encarei aquilo de uma forma positiva. Não fiquei chateado, acho que temos de ser positivos quando as coisas acontecem.

Nessa altura não havia namoros mais sérios?
Não. Eu conheci a minha mulher muito novo, na altura acho que já namorava com ela mas mas ela não foi. Estava a estudar também, estava a fazer o seu percurso. Eu vinha muitas vezes a Lisboa, ainda não havia nada de demasiado sério.

Vai para o Beira-Mar e quem lá está é o António Sousa. Como é que se deu com ele?
Aveiro é uma cidade fantástica e na altura havia ali uma empatia muito interessante e muito agradável entre a cidade e o clube. As pessoas iam ao estádio, ainda o Mário Duarte, tínhamos quase sempre cinco, sete mil pessoas no estádio, praticamente sentavam-se nos mesmo lugares, já conheciam os vizinhos, portanto havia ali uma empatia interessante. Havia poucos jovens na equipa, eu se calhar fui o mais novo ao longos dos dois anos em que estive lá. Encontrei um grupo de gente já muito experiente, muito batida. Para aquilo que foi o meu crescimento, se calhar não era o melhor clube para mim.

Porquê?
Porque passei de um clube ou de uma mentalidade para lutar para ser campeão, para uma mentalidade de um clube para não descer de divisão. E portanto encontrei uma forma de jogar diferente e se calhar para um jovem que quer continuar o seu percurso, a partir daquele momento em que tem aquele impacto e fica ali dois anos, se calhar pesa um bocadinho no que é o seu fio condutor. Tive que readaptar algumas das minhas características. Gostavam de jogadores mais aguerridos, mais agressivos, eu se calhar não era tão agressivo na altura, tive que desenvolver essas características. Também percebi quando cheguei que não ia ser a aposta porque estava lá o Areias e na altura um dos objetivos era desenvolver o Areias e vendê-lo. Fazia parte da estratégia dos clubes, hoje em dia percebo melhor isso do que na altura. Apesar de ser tudo gente mais velha era um bom balneário, brincávamos muito uns com os outros. Acabei por nunca baixar os braços, sempre trabalhei no limite e o interessante é que passei de não ser solução para terminar a segunda volta toda a titular numa altura em que a equipa já estava abaixo da linha de água. Na última jornada, conseguimos o objetivo frente ao Marítimo, com o estádio cheio.

Mas na época seguinte também não joga muito.
No ano a seguir aconteceu precisamente o mesmo. Começamos a jogar bem, o objetivo claramente era vender o jogador da minha posição, e aí não há nada a fazer. Lembro-me perfeitamente que quando o Areias já estava vendido o mister Sousa veio ter comigo e disse: "Agora vais começar a jogar e seu eu ficar cá para o ano, quero que tu fiques cá". Eu terminava contrato com o Benfica, terminava o empréstimo e era um jogador livre. Aceitei o que ele disse, também não podia dizer nada, joguei até ao fim do campeonato, mas depois o Sousa não ficou, vieram os ingleses e acabou tudo por se precipitar de maneira diferente. Não sei se fui prejudicado ao não, mas a verdade é que senti que havia ali uma estratégia diferente e que eu não fazia parte dela.

O que acontece?
Saio e fico seis meses sem jogar porque não me apareceu nenhum projeto interessante. Volto para Lisboa.

Para casa dos seus pais?
Acho que ainda fui para casa dos meus pais. Já tinha comprado um andar, já estava construído e acho que foi quando me mudei, foi mais ou menos nessa altura. Tive uma proposta da Holanda que não era muito sedutora, ainda estive lá a treinar e eles queriam ficar comigo, mas depois entendi que não era a melhor opção e vim para Portugal. Aproveitei esses seis meses para tirar seis cadeiras do curso e avançar um pouco com isso, pensando já no plano B. Em janeiro surge a Naval.

Diogo (no meio de olhos fechados) na seleção de sub15

Diogo (no meio de olhos fechados) na seleção de sub15

D.R.

Já tinha percebido que tinha passado ao lado de uma grande carreira?
Se calhar era prematuro para o pensar mas comecei a ficar um bocadinho desiludido com o futebol, porque via coisas com as quais eu não contava. Tinha o sonho de jogar futebol e quando chegamos lá acima começamos a ver situações que não correspondem àquilo que é o nosso sonho e eu se calhar por culpa própria comecei a desmotivar-me. Se fosse hoje se calhar tinha uma atitude diferente, de maior perseverança, de crença, de me preocupar mais com aquilo que posso controlar e não com aquilo que não posso controlar. Desgastei-me um pouco e sim perdi um bocadinho aquela paixão que tinha pelo futebol, e ao perderes a paixão pensas que já não vais muito mais além, apesar de ter conseguido dar novamente a volta à situação.

Vai para a Naval que estava na II liga.
Exatamente. É a primeira vez que a Naval sobe de divisão, consegui fazer história na Naval juntamente com os meus colegas.

Com o Rogério Gonçalves a treinador.
Sim, foi com ele. Depois, voltei a encontrá-lo mais tarde, ele é uma pessoa muito engraçada, estava sempre a dizer que eu tinha de tomar um copo de vinho, se não tomasse um copo de vinho não podia jogar, [risos]. Eu não bebo, e ele estava sempre com essa conversa no balneário. "Tens de beber vinho, tens que ser mais agressivo". Acho que foi sempre uma das frases que mais ouvi “tens de ser mais agressivo”. Eu era um bocadinho a gasóleo. São as características de cada um. A minha escola também foi sempre a médio e só quando cheguei aos seniores é que passei a lateral esquerdo e portanto era uma posição que exigia mais agressividade da minha parte, embora eu jogasse sempre mais em souplesse. Na Naval consegui o objetivo, subimos, mas acabei por não ficar lá.

Porquê?
Por opção. Já não me recordo se me fizeram uma proposta baixa… Mas também não quiseram renovar comigo e então procurei outra solução. Apareceu o Estoril Praia que me ofereceu boas condições, que tinha acabado de descer de divisão e tinha um projeto para subir. Assinei dois anos. Também foi um projeto complicado porque não tinha bases sólidas, era um projeto mais Excell em que no limite as coisas não foram fáceis de gerir.

Teve vários treinadores.
Sim, aliás a primeira época foi uma época complicadíssima. Começamos com o Daúto Faquirá e chegamos a dezembro e não havia dinheiro para os ordenados. Por isso é que eu digo que não tinha bases sólidas, não estava bem preparado, foi preparado se calhar numa ótica de depois logo se vê se arranjamos dinheiro ou não, que é um bocadinho o que ainda se faz em Portugal infelizmente; agora se calhar mais controlado por causa dos casos que tivemos do Vitória de Setúbal e do Aves, mas é um bocadinho a lógica do dirigente: depois logo se vê se pago ou como é que pago. Acabámos por chegar a dezembro e o Estoril não tinha dinheiro para pagar os ordenados e houve ali um jogo, acho que contra o Barreirense, o Daúto já tinha saído e ido para o Barreirense, acho até que era o primeiro jogo dele, e nós dissemos que não jogávamos, que fazíamos greve se não nos pagassem. Reunimos no balneário, o dinheiro não apareceu e nós já estávamos a ir embora quando o senhor Júlio disse: "Atenção que há dinheiro, voltem". Havia uns que já estavam na auto estrada, tiveram de voltar para trás e acabámos por jogar, mas só tínhamos 12 jogadores. Salvo erro tivemos de jogar com um guarda-redes à frente que acho que até fez um golo nesse jogo.

Quem estava como treinador?
Era o Marco Paulo que era jogador/treinador. Ainda não havia treinador na altura. Estivemos uns três, quatro jogos sem treinador, com um guarda-redes a jogar à frente, num ano em que desciam seis equipas porque era a reestruturação da II liga. Entretanto veio o Litos já com um projeto diferente, conseguiram contratar três ou quatro jogadores, mas basicamente tínhamos 15 jogadores para fazer uma segunda volta num contexto em que desciam seis. Faltava-nos uma jornada para o final do campeonato e conseguimos a manutenção. Conseguimos fazer uma belíssima prova, com muitos jogadores a jogarem em posições que não eram as suas, inclusivamente eu que joguei a maior parte dos jogos a central.

É nessa altura que entra um investidor que faz questão que o filho jogue?
[risos] Exatamente. Mas ainda foi antes do Daúto ir embora. Um dia apareceu lá um tipo, não sei se se chamava Jack, que diziam ser filho do investidor. Isto para nós vermos como é que estava o futebol. E o rapaz nem sabia correr, parecia uma gazela, quase nem sabia dar um chuto na bola. Mas era o filho do investidor e inscreveram o rapaz. Ele é convocado para um jogo em Marco de Canaveses. Estava no banco de suplentes, tinham que pôr o miúdo a jogar, o jogo correu bem, nós ganhámos salvo erro 4-1 e nos últimos cinco minutos entra o miúdo. Ele entra, dá duas ou três passadas e começa a ficar sem ar, sem respirar [risos]. Quando chegamos ao balneário estava ele sem ar, teve de levar oxigénio e tudo. Jogou naquele dia e nunca mais apareceu no Estoril. Não sabíamos se era o filho se não mas não deixa de ser incrível.

E o investidor?
A verdade é que toda a gente dizia que ele era o filho do investidor e que o investidor iria entrar, mas o investidor nunca entrou [risos]. Como é que num clube profissional uma coisa destas acontece...

Entretanto quando acaba essa segunda época no Estoril Praia, acaba também o seu contrato.
Exatamente. Depois veio o Tulipa, que não chegou a falar comigo, não sei se ele me queria ou não, mas acabei por não ficar e apareceu o Beira Mar e o Rogério Gonçalves novamente, com um projeto de subida. Tínhamos uma belíssima equipa, numa boa cidade, já jogámos no estádio novo, aliás eu tinha estreado na primeira vez que tinha estado no Beira Mar o estádio novo.

Diogo foi chamado à equipa principal do Benfica por José Mourinho

Diogo foi chamado à equipa principal do Benfica por José Mourinho

João Carlos Santos

Voltou a ir sozinho para Aveiro?
Sim, voltei a ir sozinho. Deixe-me ver, o Diogo nasceu em outubro de 2007, a minha mulher estava a trabalhar em Lisboa, eu vinha cá aos fins de semana e ela ia lá quando podia. Mas depois dele nascer eles estiveram lá seis meses comigo e ficam quase até ao final da época. Depois regressei a Lisboa e fui para o Leixões. Mas estava a contar, o Beira Mar já não era o mesmo clube, ou seja, não havia a mesma relação cidade/clube, o estádio novo acabou por fazer com que relação ficasse mais fria e é uma pena. Depois também muitas dívidas, um clube completamente diferente, mais desorganizado, já não tanto familiar, pessoas que também não tinham muito conhecimento de futebol. Numa época que era para subir de divisão e tínhamos um belíssimo plantel acabámos por ficar em 6º lugar. Além do Rogério Gonçalves, encontrei o Paulo Sérgio com quem também gostei muito de trabalhar. Tinha bons treinos, uma boa liderança e também foi positivo e foi em função dessa época que acabei por ir para o Leixões que estava na I liga.

Com o José Mota.
Sim.

Mas as coisas não correm bem.
Fiz o primeiro jogo, perdemos, o treinador mexeu bastante na equipa, trocou três ou quatro pedras, mudou o sistema tático e a partir dali as coisas começaram a correr bem, não havia nada a fazer. Por um lado se calhar tive o demérito de no primeiro jogo não ter correspondido àquilo que o treinador pretendia e a pessoa que entrou, que foi o Laranjeiro, entrou bem e a equipa começou a ganhar e não havia nada a dizer. Tínhamos um bom ambiente, a cidade apoiava muito e foram seis meses muito bons em termos colectivos. Em termos individuais não, quando sai de lá, estávamos em 1º lugar no campeonato, tínhamos eliminado o Benfica na Taça de Portugal, nos penáltis, vencemos ao Sporting fora, vencemos o FC Porto fora.

Tinha assinado por quanto tempo?
Por um ano. Quando chegamos a janeiro, já tinham vindo falar comigo: "Olha, se calhar é melhor tu mudares de clube, aqui não estás a jogar muito". Eu tinha um bom salário na altura, mas o engraçado é que não foram os dirigentes que vieram falar comigo. Eram os jornalistas que nunca vinham falar comigo que me diziam: "Então, vais ficar?". Comecei a ver que havia alguma pressão por parte dos jornalistas, o que é interessante. Lá está, é mais uma das críticas que eu faço aos dirigentes, acho que eles muitas vezes não têm a capacidade de saber falar com os jogadores. Porque era muito mais fácil ser um dirigente a chegar ao pé de mim, se não fizesse sentido eu ficar, e dizer : "Vamos tentar chegar a um acordo" e nós tentávamos chegar a um acordo. Mas depois apareceu-me uma proposta boa do Chipre. Aquilo foi num espaço de dois ou três dias. Salvo erro viemos jogar a Alvalade, vencemos e no dia a seguir eu fui para o Chipre.

Como foi o impacto quando lá chegou?
Fui para um país que desconhecia, mas já tinha falado com alguns ex-colegas que lá estavam e que estavam bem. Limassol é uma cidade muito boa para se viver, fui para um clube grande, o Apollon, e portanto as condições eram boas, diferentes das de cá naturalmente.

Foi sozinho ou com a família?
Fui sozinho também. Só para lhe dar um exemplo, a cidade tinha sete equipas e jogavam todas no mesmo estádio. Cada uma tinha à volta do estádio um campo para treinar. O clima era completamente diferente, a alimentação é similar, o nível de vida era bom e portanto tive uma experiência interessante. Em termos futebolísticos achei o campeonato muito diferente do nosso, diria pior, apesar de ter uma equipa muito boa, o Apoel, mas de resto o jogo partia-se com muita facilidade, estavam cinco atrás, cinco à frente, taticamente não havia grande organização. Mas foi numa altura em que eu já estava a pensar em dar o passo seguinte, já estava há muitos anos longe da família, tinha o meu filho a crescer e causava-me algum transtorno não estar ao pé dele. Portanto chegou ali uma altura em que as coisas se precipitaram e acabei por regressar a Portugal, no final desse ano.

As coisas precipitaram-se como?
Chegou o final da época e o treinador não contava comigo, apesar de ter feito os jogos todos. Eu disse OK, vou chegar a um acordo. Depois estivemos ali negoceio, não negoceio, um bocadinho à cipriota, até ao último minuto para ver qual dos lados é que cedia. Acabei por chegar a um acordo, ficaram a pagar-me e eu vim para Portugal. Ainda tive alguns convites, salvo erro o que tive mais próximo foi o do Fátima da II liga, era Rui Vitória o treinador, acabámos por não chegar a acordo, aquilo que ofereciam não era o que pretendia. Estava naquela fase "deixo, não deixo" e ou me oferecem alguma coisa que faça sentido continuar, senão não ia estar a enganar-me. Tinha também a consciência que o mercado de trabalho aqui é diferente, é um mercado difícil, se não entramos até uma certa idade depois as portas ficam todas fechadas e para conseguirmos ter uma carreira é muito complicado. Tendo essa perceção tomei uma decisão difícil, mas como disse se calhar também já tinha perdido um bocadinho aquela paixão pelo futebol.

A disputar a bola com Sá Pinto do Sporting

A disputar a bola com Sá Pinto do Sporting

Getty Images

Já sabia o que ia fazer a seguir?
Não. Sabia que tinha o curso, mas é muito subjetivo, não nos diz nada. Um curso superior não nos prepara para a vida ativa, prepara-nos para sabermos raciocinar em determinados momentos. Fui um bocadinho às apalpadelas, não sabia bem para onde queria ir. Depois o Jorge Cordeiro, que tinha jogado comigo no Benfica, disse-me que a mulher trabalhava no BPI, conhecia algumas pessoas e para eu mandar o meu currículo. Acabei por entrar na banca, eu não tinha conhecimento nenhum, através do banco BIG. Posso dizer que a ganhar muito menos do que ganhava, com um horário de trabalho muito mais duro do que o que tinha [risos].

Foi uma mudança brusca e dura.
Foi um bocadinho, mas no futebol também temos essa capacidade de nos adaptarmos à realidade e eu sabia que tinha de fazer a minha recruta para mais tarde estar melhor. Foi com esse objetivo que sempre abracei os projetos onde estive.

Deixou completamente de jogar futebol?
Deixei, fazia um jogo ou outro com alguns amigos, mas nunca mais joguei futebol a sério. Faço exercício ao ar livre, tenho tempo para correr um pouco, faço os meus abdominais, mantive a linha, não me deixei engordar. E voltei a recuperar a paixão que tinha pelo futebol.

De que forma?
Fiz as pazes comigo mesmo. Acho que chega um momento que quem gosta de futebol não pode ficar magoado com o clube A ou o clube B por causa das pessoas. E foi essa a minha perceção. Temos de pensar nas coisas e eu sempre me habituei a pensar pela minha cabeça e a conclusão a que cheguei é que sempre gostei de futebol e gostei de analisar, então porque é que eu hei de estar chateado ou triste? Estou triste é com algumas atitudes de algumas pessoas dentro do futebol e foram essas que me tiraram a paixão. Hoje voltei a ser um apaixonado por futebol, gosto de analisar o futebol, gosto de olhar para o pormenor numa óptica diferente. Mas eu já dentro de campo pensava muito naquilo que era o colectivo, na minha função, como é que podia ajudar mais a minha equipa, muitas vezes se calhar prejudiquei-me em termos individuais.

Ainda trabalha na banca?
Estive na banca de 2010 a 2017. Hoje em dia estou numa sociedade gestora de património, na Golden Wealth Management. Tenho um papel diferente. Enquanto na banca nós temos de abordar os clientes para tentar encontrar soluções dentro do banco neste momento não. Neste momento estou numa sociedade em que tenho um cliente e vou procurar no mercado o que é melhor para o cliente. A minha oferta é muito mais abrangente, o meu foco é muito mais o cliente, trabalho exclusivamente para os clientes, é a minha função. Geralmente são pessoas com um património já mais considerado com quem decidimos um plano de investimentos.

Tem jogadores de futebol como clientes?
Tenho jogadores, tenho treinadores.

Num jogo com o Boavista

Num jogo com o Boavista

Jose Manuel Ribeiro

Procuraram-no precisamente por ser um ex-jogador?
Sim, não tanto como eu queria ainda porque tenho uma dificuldade. Não é bem uma dificuldade, é que a minha forma de ser e de estar é de apresentar e explicar tudo ao pormenor. Como explico tudo ao pormenor eles às vezes baralham-se um bocadinho com aquilo que estou a explicar. Sei que a concorrência não faz tanto isso, e eu em vez de ir pelo caminho mais fácil, de dizer que sou o melhor do mundo e que sei tudo, não, vou por outro caminho, vou-lhes apresentando soluções, explicando as coisas. A verdade é que posso dizer que aqueles que são meus clientes hoje em dia já sabem analisar as suas carteiras, sabem perfeitamente o que é que influencia ou não aquilo que têm investido, como é que podem ou não reagir, percebem tudo aquilo que lhes vou apresentar e explicar. Desse ponto de vista para mim é uma grande vitória e significa que estou no caminho certo.

Como surge o convite para ser comentador?
Foi através de um cliente que estava no Best, o Mário Rui Castro, o meu padrinho de televisão, que falava comigo várias vezes e um dia chegou ao pé de mim e disse: "Tu não gostavas de fazer comentários?". Foi assim que começou, em 2013. Salvo erro o primeiro comentário que fiz foi quando o Benfica foi à final na Liga Europa contra o Sevilha. A partir daí comecei a fazer comentários regularmente. É uma coisa de que gosto.

Começou a preparar-se para os comentários?
Posso dizer que na Bola TV nós não sabemos do que é que vamos falar. Quase sempre é sobre o Benfica, o FC Porto e o Sporting. O que eu tento fazer é estar a par da actualidade, levo sempre uma folha para tirar alguns apontamentos quando os outros estão a falar, para poder interagir porque acho que é assim que faz sentido, não podemos estar ali friamente um fala, outro fala e não haver interação e o à vontade nas câmaras também se vai ganhando. Neste momento sinto-me confortável, sei do que falo, são coisas que domino e quando assim é as coisas saem com natural fluidez, não estamos a ser artificiais.

Tem outros objetivos em relação ao futebol?
Aqui em Portugal é difícil porque eu acho que os projetos não têm futuro. Ou seja, os projetos são todos de muito curto prazo e portanto não dão a consistência necessária para nós os abraçarmos. Agora se me pergunta se eu gostava de estar mais ligado ao futebol, sim.

Via-se a fazer o quê?
Se calhar a desenhar o projeto de um clube com vários objetivos de curto, médio prazo que pudesse juntar a vertente financeira com a desportiva. As empresas no desporto não são uma empresa normal, é preciso ter conhecimento financeiro, mas ao mesmo tempo sensibilidade desportiva e neste caso tenho as duas coisas, o que podia ser uma mais valia. Mas também tinha que ter alguém que apoiasse e percebesse esse caminho, o que não é fácil. Quando os projetos têm profissionalismo e um caminho a seguir não é uma bola na barra ou na trave que vai fazer a diferença e pôr tudo em causa. Faz diferença no resultado mas no dia a seguir já estamos novamente a vencer. Eu acredito nisso. No futebol muita gente diz que existe sorte, eu acho que existe trabalho e quem trabalha melhor, com o máximo pormenor, ganha. Nós temos o exemplo disso. O José Mourinho ganhou muitos anos porque ele dominava mais 1% do que os demais e esse 1% era o suficiente para vencer os jogos. Era a atenção ao detalhe e é nisso que me vejo, se calhar a planear, a organizar, do que propriamente estar dentro do campo.

Com a mulher e dois dos três filhos

Com a mulher e dois dos três filhos

D.R.

Quando hoje olha para o futebol português nomeadamente para a I liga, acha que todos os clubes deviam lá estar, do ponto de vista financeiro?
É uma boa pergunta. Não conheço os balanços de todos os clubes, conheço dos três maiores. Os três maiores com maiores ou menores dificuldades têm que estar, o que acho é que têm de ter pessoas competentes para poderem ter melhores contas. Uma mensagem que tem de ser passada para a opinião pública, e que muitas vezes é desvalorizada, é que quanto melhor for a gestão financeira, maior probabilidade tens de ter sucesso no campo desportivo porque vais conseguir dar melhores condições àqueles que vão trabalhar contigo. Neste momento em Portugal não se olha muito para isso. O que se olha é: faz-se um orçamento em função das receitas: temos dois milhões de receita de TV, vamos fazer um orçamento de dois milhões e siga. Se não conseguirmos pagar depois logo resolvemos o problema e damos a volta por cima. Parece-me que é um planeamento muito básico e por isso é que a nossa liga também não tem valor em termos mediáticos, porque com a quantidade de jogadores de qualidade que temos e conseguimos exportar, com os milhões de euros que conseguimos vender, a nossa liga devia ser uma das mais vistas no mundo.

Não a conseguimos vender porquê?
Não conseguimos ter a capacidade de a vender porque temos pessoas dentro dos clubes que olham primeiro muito mais para o seu próprio umbigo do que propriamente para aquilo que pode ser o crescimento da liga como um todo. Se não tivermos esse projecto, cada vez mais a nossa competitividade vai diminuir face ao estrangeiro. Sendo uma economia dependente já temos muitas dificuldades, porque em termos financeiros não temos a mesma capacidade que os outros, não temos a mesma procura em termos de espetadores, somos um país muito mais pequeno, não temos os melhores patrocinadores porque temos empresas muito mais pequenas, portanto dependemos muito do exterior e nós para sermos fortes no exterior temos de apresentar uma liga diferente, com espectáculos mais atrativos, com os estádios mais cheios.

Com estádios mais cheios está cada vez mais difícil, sobretudo agora com a Covid-19. Acha que a pandemia prejudicou muito os clubes, tendo em conta que a maior fonte de receitas continua a vir das televisões?
Infelizmente ou felizmente não prejudicou muito os clubes, porque é como diz, em termos de receitas de bilhetes, tirando os grandes e se calhar o V. Guimarães e SC Braga que já começam a morder os calcanhares, nós não temos grandes receitas. E digo infelizmente porque é triste não termos espectadores nos estádios, um país que gosta tanto de futebol não conseguir atrair as pessoas. Mas repare, este contexto covid pode ser importante, faz-se um reset e dá tempo para se pensar numa estratégia e conseguir dar a volta a esta situação. Como é que vamos tornar o futebol num produto positivo? Como é que vamos conseguir trazer as pessoas aos estádios? O que temos de fazer, como é que um clube, que não está nas grandes cidades, consegue atrair pessoas ao estádio?

Como?
Tem que se calhar envolver-se mais na própria comunidade, tem que ter um papel mais social também, ir às escolas. Mas isto são questões que têm de ser pensadas pelas pessoas que estão nos clubes, elas é que têm de pensar nessas abordagens e não tanto em qual o jogador que vou contratar. Há responsáveis para procurar os jogadores e depois há pessoas que têm de olhar um bocadinho mais para a estratégia de como é que podem valorizar a marca clube.

Diogo (à esquerda) jogou no Beira Mar de 2002 a 2004 e na época 2007/08

Diogo (à esquerda) jogou no Beira Mar de 2002 a 2004 e na época 2007/08

D.R.

Quer partilhar alguma ideia do que os clubes devem começar a fazer já para mudar o paradigma atual?
Não consegue mudar uma competição com uma medida ou com um pensamento. Tinha que haver acordo entre todos, sentarem-se à mesa e tinha de haver um planeamento de quais são os pontos fundamentais, de forma a tornar a nossa liga mais atrativa. Uma marca mais valiosa é aquela que consegue atrair mais pessoas, que consegue atrair mais adeptos, que consegue atrair mais patrocinadores. Por exemplo, os treinadores, os intervenientes, os presidentes não podem falar dos árbitros, se falarem levam com multas de 50 ou 60 mil euros como acontece em Inglaterra. O Benítez, que era o treinador do Newcastle, foi a uma conferência de imprensa e perguntaram-lhe por um árbitro. Ele respondeu e até disse bem do árbitro, mas a verdade é que levou 65 mil euros de multa e nunca mais falou dos árbitros. Porquê, porque se nós estivermos constantemente a falar dos árbitros, estamos a sacudir aquilo que são as nossas responsabilidades, aquilo que é a nossa função e estamos constantemente a criar um clima negativo em torno da competição, porque já encontrámos o inimigo, porque só pode ganhar um sempre. E portanto desse ponto de vista, essas seriam algumas das medidas que tinham de ser tomadas. Tinha que se criar barreiras àquilo que torna a missão difícil em Portugal e assumir as responsabilidades, cada um falar só de si, não falar dos outros, dar mais espaço de antena aos intervenientes, fazer programas com os intervenientes, deixar falar os jogadores e os treinadores e não falarem os dirigentes. Eu em Inglaterra não vejo os presidentes dos clubes a falar nas conferências de imprensa, não vejo os presidentes dos clubes a falar nos jornais., vejo sim os treinadores, os jogadores. É isso que acontece também na Alemanha.

É uma questão cultural? Em Portugal os presidentes dos clubes sempre tiveram um protagonismo muito grande. Temos presidentes que são figuras míticas e que se perpetuam no poder.
Mas não é por isso que não podemos dar a volta à situação. E tem de partir dos próprios clubes essa mudança de forma a que as pessoas tenham uma cultura diferente. As pessoas podem vibrar mas não têm de andar à pancada porque o Sporting ganhou ao Benfica ou vice-versa. Só um é que pode ganhar, é natural.

Os presidentes terão receio de que se não aparecem a defender os seus clubes estes podem ser prejudicados dentro de campo?
Há duas questões. Por um lado se se transformar o futebol num produto diferente, muitas dessas pessoas vão deixar de ter o seu espaço, vai ser preciso uma renovação, pessoas com outras ideias e um dinamismo diferente e portanto eles perdem as suas referências; o segundo ponto é, existe essa cultura, de pensar que quanto mais eu refilo mais eu vou ser beneficiado. E se calhar até acontece e os próprios árbitros não deviam deixar que isso aconteça. Ou seja, se eu não chorar eu sei que vou continuar a ser penalizado, se eu chorar vou ser beneficiado. É algo que não faz muito sentido. Ainda agora dei o exemplo do Liverpool que teve um fora de jogo inacreditável contra o Everton, o treinador criticou mas não foi por causa disso que disse que empatou o jogo, nem sequer apareceu o presidente a chorar. Aliás, o Liverpool esteve 30 anos sem ganhar um campeonato. Não foi por andar a criticar árbitros que voltou a ganhar. Não, pensou em qual era o melhor projeto para dar a volta à situação. Organizou-se, já tinha uma marca forte, trouxe estabilidade para o clube, começou a criar melhores condições, uma melhor gestão financeira, um bom investidor e a partir daí os títulos começaram a aparecer. Isto tem sobretudo a ver com organização, com mentalidade e com a forma como também se incute nas pessoas qual é o melhor caminho a seguir. Parece-me é que em Portugal dá muito jeito a muitos dirigentes passar uma mensagem de ódio, fomentar a paixão pelo ódio. É a mensagem populista, porque isso faz com que essas pessoas mantenham a sua posição e um lugar de destaque no desporto que também lhes traz protagonismo para outras situações.

Diogo Luís hoje é comentador na Bola TV

Diogo Luís hoje é comentador na Bola TV

D.R.

Vamos regressar a si. Voltou a ter filhos?
Tenho três. Um menino e duas meninas. O menino já sabemos que é o Diogo e que nasceu em 2007, a Beatriz nasceu em 2011 e em 2018 nasceu a Mariana.

Se não tivesse sido jogador de futebol teria seguido logo o caminho de economista?
[risos] Não sei, possivelmente. Era algo que me via porque é uma coisa que sempre gostei, sempre gostei de números, sempre gostei de analisar, sempre gostei de pensar pela minha cabeça. Mesmo agora tenho outros projetos, tenho um projeto de literacia que acho fundamental não só para os jogadores, e que estou a tentar implementar, mas que é difícil porque encontro muitas barreiras nos clubes. Pergunto-me se faz sentido ir apresentar e eles acham que não faz sentido.

Qual é a sua ideia?
Fazer uma formação de literacia financeira, dar-lhes alguns exemplos, explicar-lhes em que é que consiste, alertá-los para a importância de tomarem decisões conscientes. Nós podemos tomar uma decisão de investimento para comprar uma casa porque uma casa é boa. Mas uma casa é boa aonde? Como? Com que características? É como um investimento mobiliário, vou comprar um fundo ou uma acção porque é boa. Porquê? O que é que faz sentido? Expliquem-me lá porque é que isto faz sentido. Todas as decisões que tomamos na nossa vida devem ser fundamentadas, sobretudo aquelas que estão ligadas às nossas poupanças. Mas estamos a falar do futebol, muitas vezes os jogadores e os intervenientes são aliciados para apoiarem este ou outro candidato. Se nós não sabemos o que é que os candidatos estão a apresentar, como é que nós vamos dar o apoio a essas pessoas? Nós temos que tentar perceber qual é a mensagem que nos passam. Acho que em Portugal era importante uma formação destas para quase toda a população. Se nós todos formos mais competentes e mais exigentes naturalmente aqueles que nos representam também têm de ter mais qualidade. E muitas das vezes isso não acontece porque as pessoas não têm capacidade para avaliar aquilo que os outros nos estão a dizer.

Hoje o jogador pensam mais no futuro do que no seu tempo?
Sim, os jogadores hoje também são mais cultos. Ouvimos hoje um jogador novo a falar e tem um discurso completamente diferente de há uns anos. Sabem o que dizem, sabem pensar. Isso também complica muito mais a forma de gerir de um treinador que tem de ser muito mais completo.

O jogador tendencialmente investe mais em imobiliário.
Certo. E eu percebo porquê. Porque aparentemente é uma coisa mais fácil de percepcionar. Quando investimos no mercado mobiliário, que são os fundos de investimento, as ações, temos ali uma coisa que não é palpável. Quando investem em imobiliário, se alguma coisa corre mal veem que têm ali um edifício com uma porta e uma chave que é dele. Não é necessariamente melhor, nem pior, é diferente. Normalmente quando falo com eles digo: o teu plano de investimento deve ser de 30% de imobiliário, 30% de mobiliário, fundos, ações, etc. e os outros 40% da tua empresa. Muitos não têm empresa. Então encara a tua empresa como se fosse a tua conta à ordem, é a tua função. Se tiveres o teu património dividido nestas três percentagens diferentes quando uma está mal, a outra está bem e compensa, portanto estás sempre equilibrado, estás sempre tranquilo.

Já lhe aconteceu ter jogadores que chegaram ao pé de si a dizer "Perdi tudo, já só tenho isto, ajuda-me" ?
Não, isso não acontece. Um dos problemas identificado, porque por exemplo há estudos que dizem que na liga inglesa ao fim de cinco anos, 60% dos jogadores estão falidos como na NFL, como na NBA, e estamos a falar de valores brutais que eles ganham. Um dos principais valores que faz com que os jogadores percam tudo é o medo de dizerem que falharam.

Porquê?
Porque o jogador de alta competição não está habituado a falhar, ou quando falha no dia a seguir já tem outro treino para dar a volta à situação. Então a vergonha de assumir o erro faz com que eles cada vez mais continuem a cavar o buraco e este fique cada vez mais fundo. Só quando já têm muita confiança é que nos vêm dizer "Olha pá tomei aquela decisão". Mas isso já tem de haver um patamar muito mais avançado, numa primeira fase nunca dizem. Nunca ninguém vai assumir um erro porque há a vergonha de ser o melhor dentro do campo ou um dos melhores, e é difícil para eles assumirem um erro. Agora, que viessem ter comigo por terem, perdido tudo, ainda não aconteceu. Depois há outra questão, no mundo do futebol as pessoas têm sempre receio de tudo, são muito desconfiadas porque aparecem tantas pessoas à sua volta e eles não sabem avaliar quem pode ser a ajuda ou não.

Com a mulher, grávida da terceira filha, e os filhos Diogo e Beatriz

Com a mulher, grávida da terceira filha, e os filhos Diogo e Beatriz

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro no futebol?
Acho que foi no Benfica.

Qual foi a maior extravagância que fez porque sim, porque podia?
Não me lembro de ter feito assim uma extravagância louca. Reconheço que sou um tipo chato, não me lembro de ter feito assim nada… talvez um relógio.

Tem ou tinha superstições?
Não.

É um homem de fé?
Não sou praticante, mas gosto da tranquilidade que a fé me dá. Quando vou à igreja, gosto da energia positiva que me passa, da tranquilidade que me passa. Se calhar a minha forma de relaxar é ir dar uma corrida, passar por sítios onde há relva e recordar o cheiro da relva quando jogava futebol.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não, chamava-me o doutor ou o cientista porque na altura era o único que estudava, que tinha boas notas e eram as alcunhas que me iam dando dentro das camadas jovens, mais do que nos seniores.

Tem algum hóbi?
Tenho muito pouco tempo livre, se calhar o meu hóbi é estar com os meus filhos, é andar de bicicleta quando posso, é correr um pouco.

Qual é o clube de sonho onde gostava de um dia ter jogado?
[risos] Eu acho que isso tem variado ao longos dos anos [risos]. Pelo ambiente que é criado, gostava de ter jogado no Liverpool.

O seu dinheiro onde é que foi investindo? Alguma vez se meteu em algum negócio?
Não, nunca me meti em nenhum negócio felizmente porque hoje em dia tenho muito mais consciência das coisas e tenho a noção de que para ter um negócio tenho que saber o know how senão vou sempre depender de outros e nunca sei se os outros estão a fazer bem as coisas ou não. Onde investi foi nos mercados financeiros e também em algum imobiliário.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração no futebol?
A maior alegria se calhar foi ter alcançado o meu sonho. Mesmo nas seleções eu cheguei a jogar até aos Sub21, portanto alcancei aquilo que eu sonhava em criança. A minha maior frustração se calhar por culpa própria é não ter conseguido ir mais além, não ter conseguido manter o nível que exibi no início da minha carreira.

Uma história.
Houve uma altura no Estoril em que nós estávamos a ir para estágio e começamos a mandar mensagens a um colega através de um telefone que ele não conhecia e criei ali um enredo, uma história. E a verdade é que essa pessoa foi-se entusiasmando e marcamos um encontro no jardim zoológico [risos]. Ele lá foi para ver se se encontrava com alguém e foi uma galhofa porque no dia a seguir meti um jornal que fiz em casa, no cacifo de cada um e quando ele chegou foi uma galhofa total. Mas ele ficou um pouco chateado na altura, foi aos jardim zoológico ver os animais [risos].