Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“O prof. Alexandrino queria que eu fosse com ele ao programa do Herman José, para tocar piano e mostrar que os futebolistas não são burros”

Nandinho cresceu a conhecer as casas de fado, onde os pais trabalhavam, aprendeu sozinho a tocar piano e a ler, entretinha os turistas do Porto para ganhar alguns cobres e sonhava com um futuro no futebol. Começou no CD Candal, chegou ao Benfica e acabou por abandonar a carreira, diz ele, prematuramente. Voltou a estudar e tornou-se treinador, função que desempenha hoje em Espanha, na equipa B do Almería. Pelo meio viveu muitas histórias e aqui conta algumas, que metem bruxos, "trapadas", percebes, água com limão e um "malta"

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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É do Porto. Cresceu em que zona da cidade?
Eu nasci num bairro típico, junto à Sé Catedral do Porto, um bairro de gente pobre, humilde, mas tive uma infância extraordinária. Dentro das dificuldades que são típicas desses bairros, a minha infância foi vivida muito na rua. Mas nunca me faltou nada, graças a Deus, porque os meus pais trabalhavam.

O que é que eles faziam?
O meu pai, Alexandre Santos, foi sempre guitarrista e viola de fado. A minha mãe, Gina Santos, tornou-se fadista durante a minha infância.

Costumam atuar no Porto?
Sim. Antigamente havia muitas casas de fado e eu cresci a conhecê-las todas, de vez em quando os meus pais levavam-me. Por exemplo, no bairro onde morávamos havia uma casa típica, muito conhecida, onde eles trabalharam, a Casa da Mariquinhas. Mais tarde, ao lado, abriu o Pátio da Mariquinhas, outra casa de fados de pessoas conhecidas nossas, que viviam também ali. Agora fazem espetáculos mais em restaurantes. Com o crescimento do turismo o fado apareceu muito nos restaurantes do Porto, nos barcos que andam no Douro e vão fazendo espetáculos aí, mais aos fins de semana, durante a semana um ou outro.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha três anos, a Mónica, e um irmão, o Nuno, mais novo dois anos. A minha irmã foi gerente de lojas de roupa até há bem pouco tempo, entretanto saiu e está em casa a trabalhar na empresa de hardware e software do marido. O meu irmão trabalha numa óptica há vinte anos.

Era um puto reguila?
Era reguila no bom sentido, era um miúdo que não parava, estava sempre na rua, nas brincadeiras. Era um bocadinho atrevido porque ali no bairro onde nasci poucos são aqueles que não são atrevidos e reguilas [risos], mas nunca me meti em confusões.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não, mas desde miúdo que o futebol sempre me apaixonou. O meu pai e os amigos levavam-me a ver os jogos no estádio das Antas, éramos todos adeptos do FC Porto.

Quem eram os seus ídolos?
O meu ídolo era o António Oliveira, mas havia outros jogadores de quem também gostava, de equipas diferentes. O Chalana, o Fernando Gomes e o Jordão eram jogadores que eu apreciava na altura.

Da escola, gostava?
Gostava e fui um bom aluno. Fiz o 12º ano, sempre tive notas razoáveis. Quando cheguei ao 12º acabei por parar e fui trabalhar. Ao mesmo tempo que trabalhava, também jogava.

Foi trabalhar no quê?
Fui trabalhar para uma loja de calçado desportivo, foi o meu primeiro emprego e único porque entretanto deixei e fui fazer um curso de técnico de vendas, aqueles cursos remunerados, durante um ano. Quando terminei o curso apareceu a oportunidade de me tornar profissional no futebol, tinha uns 21 anos.

Nandinho bebé

Nandinho bebé

D.R.

Já lá vamos. Quando e como vai pela primeira vez para um clube?
Desde miúdo joguei nos clubes do bairro, o futebol era jogado na rua, ali perto não havia nenhum clube federado. Quando tinha uns 10 anos fui às captações do Futebol Clube do Porto e acabei por ficar, mas como era na altura das férias eu acabei por ir para França um mês. Era miúdo, nunca tinha ido a França e surgiu aquela oportunidade.

Foi com os seus pais?
Não, fui com os meus irmãos para casa de uns tios. Dessa vez fomos sozinhos passar o mês de verão e quando regressei, como é óbvio, já não pude voltar aos treinos do FC Porto porque tinha que ter optado por uma coisa ou outra, ainda não levava muito a sério o futebol. No ano seguinte, com 11 anos, uns amigos meus começaram a jogar no Vitória Sport Clube, uma filial do Vitória de Guimarães, que nem tinha campo nem nada; era um clube amador, sediado paredes meias com a Torre dos Clérigos, na rua de trás, na zona da Cordoaria. Eles falaram com o treinador, o treinador falou comigo, os meus pais permitiram e acabei por começar assim o meu percurso no futebol de 11 federado.

Nessa altura jogava onde calhava ou já tinha posição definida dentro de campo?
Normalmente jogava a meio-campo, um médio mais ofensivo, mas não havia ainda uma posição definida. Fiz essa época nos infantis no Vitória do Porto e no ano seguinte fui para os iniciados do Futebol Clube da Lapa, que é um filial do Futebol Clube do Porto. Fiz lá um ano, mas só ia jogar ao domingos porque também era um clube que não tinha campo e, tal como no Vitória, treinávamos no jardim da Cordoaria, treinávamos no Palácio da Justiça. Não havia carros, os bancos dos jardins eram as balizas e quando íamos para o estacionamento do Palácio da Justiça as balizas eram desenhadas nas paredes ou feitas com pedras. Jogávamos na rua, era o que havia [risos]; no Futebol Clube da Lapa era a mesma coisa, e o acordo que fiz foi de apenas ir jogar aos domingos porque ficava distante da minha casa. É que entretanto tínhamos saído do bairro da Sé para irmos viver para Vila Nova de Gaia, e tinha que apanhar dois autocarros para ir jogar ao domingo. Durante a semana era complicado por causa da escola. No meu segundo ano de iniciado parei porque era difícil conciliar. Até que, no primeiro ano de juvenil, acabo por ir para o Clube Desportivo do Candal que era relativamente perto da minha casa.

Foi por sua conta e risco ou foi alguém que o descobriu?
Fui fazer testes, tinha amigos meus que jogavam lá e que falaram com o treinador. Era o meu primeiro ano de juvenil, eu era pequenino e muito magrinho, o clube só tinha uma equipa de juvenis em que grande parte dos jogadores eram quase todos de segundo ano. O treinador gostou das minhas qualidades mas disse-me que à partida eu iria jogar pouco, porque tinha pouco físico, mas que não podia faltar aos treinos senão não ficava comigo. Eu disse que sim. Ele apanhava-me em casa para me levar ao treino. No primeiro ano joguei pouco e na transição para o segundo ano acabei por dar o salto em termos físicos. Cresci. Não fiquei forte, sempre fui magro, mas no segundo ano já comecei a jogar.

Nandinho, com dois anos, a imitar o pai

Nandinho, com dois anos, a imitar o pai

D.R.

Nunca lhe passou pela cabeça ser outra coisa sem ser jogador de futebol?
Na minha mente queria ser jogador de futebol, isso sempre foi claro. À medida que vamos crescendo e que as dificuldades vão surgindo e nos vamos apercebendo que não é fácil chegar ao nível profissional, vamos alargando os nossos horizontes a outras áreas.

Tinha um plano B?
Sempre gostei muito de falar outras línguas. Quando era miúdo e vivia no bairro da Sé eu e os meus amigos, para ganhar algum dinheiro, levávamos os turistas a visitar as caves, a conhecer um pouco a cidade. Sobretudo nas épocas festivas, Páscoa, férias. Era uma forma de ganhar algum dinheiro. Íamos aprendendo aqui uma palavrita ou outra, o básico para nos fazermos entender. Sempre fui muito curioso, aos cinco anos já sabia ler, já lia o jornal, sem andar na escola. Hoje falo espanhol, inglês, francês, percebo bem o italiano. Tenho um bocadinho dessa faceta o gosto pelas línguas, e então via sempre como plano B estar ligado a essa vertente do turismo. Claro que não estava tão desenvolvido como está agora, mas já tinha um bocadinho essa onda.

Quando sai do Candal vai para o Ataense.
Exactamente. Tinha 19 anos. Tinha feito o meu primeiro ano de sénior no Candal. O meu ordenado foram 10 contos [50€].

O que fez a esse dinheiro, recorda-se?
Sinceramente não sei. Dava aos meus pais para a ajuda, eram eles que me sustentavam, portanto o dinheiro acabava novamente por ser ressarcido [risos]. Sei que na altura os meus pais abriram-me uma conta para aquilo que eu precisasse.

Como é que vai para o Ataense?
O treinador que estava no Ataense tinha sido treinador do Candal dois anos antes e conhecia-me. Quando foi para o Ataense levou-me a mim e a outro colega que jogava comigo. Já fui com um ordenado razoavelmente bom, fui ganhar 55 contos [275€], na altura era um ordenado mínimo. Mas antes de ir, quando jogava nos seniores do Candal, também tinha um emprego, trabalhava na tal loja de desporto.

Já havia namoros, saídas à noite?
Não, eu não saía muito à noite. Mesmo sendo amador levava o futebol a sério. Saía mais para as matinés. Nós jogávamos aos sábados e no domingo à tarde íamos às matinés das discotecas. À noite, só se não houvesse jogo, mas era muito pontualmente. Só mais tarde é que já saía mais um bocadinho. Namoros era o normal, na altura os meus namoros duravam o verão [risos].

Como é que passa do Ataense para o Castêlo da Maia?
Fiz uma excelente época no Ataense e tinha muitas expetativas de ir para a III divisão nacional ou II B e acabei por ir treinar à experiência ao Varzim. Acabaram por não ficar comigo, fiquei um bocadinho desiludido e abandonei o futebol. Foi quando fui tirar o tal curso de vendas. Entretanto mais ou menos em novembro, o Ataense não estava muito bem classificado e acabaram por me ligar novamente para ir para lá jogar. Acabei por aceitar e as coisas voltaram a correr bem, fazia muitos golos. Um treinador que vivia junto do campo, o Guedes, que já treinava terceiras divisões, acabou por me levar para o Castêlo da Maia.

Ainda vivia em casa dos seus pais?
Sempre vivi em casa dos meus pais. Só quando fui para o Benfica é que saí de lá.

Nandinho, no meio, com os pais e irmãos

Nandinho, no meio, com os pais e irmãos

D.R.

Como surge o Salgueiros? Passa da III para a I divisão.
Foi um salto que não era muito normal, poucos casos há. Quando fui para o Castêlo da Maia foi a primeira vez que joguei em relvado. Acho que só nos safámos na última jornada e não fizemos uma época por aí além, mas a verdade é que me fui destacando, as pessoas iam comentando e o meu treinador comentou com o Domingos Barbosa e com o Mário Reis, através do falecido senhor Ramos, pai do Daniel Ramos, que é agora treinador do Santa Clara. O Daniel Ramos jogava comigo e também comentou com o pai e pronto, eu acabei por assinar apesar de já ter clubes de II B interessados. Tinha uma proposta do Freamunde razoavelmente boa, se calhar até melhor do que aquela que tive no Salgueiros quando assinei, mas claro, eu preferi ganhar menos e ir para a I Liga.

Quais foram as diferenças maiores que notou?
Sobretudo a nível técnico e de velocidade de jogo, é uma diferença abismal. Jogar com jogadores com qualidade de I Liga foi bom porque evoluí muito para poder estar ao nível deles. Não é que na III não haja bons jogadores, mas o futebol é diferente, é menos futebol e mais contacto físico, mais correria. Assinei pelo Salgueiros mas o intuito deles era fazer a pré-época e emprestarem-me ao Freamunde. Só que a pré-época correu muito bem, eles gostaram, eu era um jogador muito rápido e nessa altura o futebol não era tão rápido como agora e jogadores com as minhas características acabavam por se destacar um bocadinho. A verdade é que também nunca me intimidei. Acabei por renovar o contrato e por melhorar as minhas condições.

E do Mário Reis, gostou?
Muito. Não podia deixar de gostar, primeiro porque foi uma pessoa que não teve medo de apostar em mim, um jogador que vinha da III. Eu mal cheguei fui titular. Não era fácil um miúdo vir da III e fazer logo o primeiro jogo do campeonato a titular. Jogámos contra o U. Leiria em casa e ganhámos 4-0.

Marcou algum dos golos?
Não, mas seguramente ajudei a marcar algum. No primeiro ano não marquei muitos golos, agora, fazia muitas assistências. Fui logo chamado à seleção de Esperanças. Fizemos um jogo particular contra a República Checa. Fui eu, o Pauleta, que foi o meu companheiro de quarto, e foram mais dois jogadores do Salgueiros, o Renato e o Mariano. No campeonato da Europa também joguei com a Alemanha e depois estive um mês parado por lesão e quando vim da lesão fui chamado para disputar os quartos de final contra a Itália pela seleção. Fui o único do Salgueiros e daquelas equipas mais pequenas que voltou a ser chamado à seleção. E estive na pré-convocatória dos Jogos Olímpicos. Foi portanto uma época em grande e logo nessa altura estive para ir para o Benfica.

E não foi porquê?
Porque na altura em que se falava disso tive a tal lesão e fiquei um mês parado.

Com os irmãos Mónica e Nuno. Nandinho é o do meio

Com os irmãos Mónica e Nuno. Nandinho é o do meio

D.R.

Que lesão foi essa?
Foi na zona lombar, fiz uma rutura lombar e acabei por estar um mês e tal parado e aquilo esfumou-se. Depois tive contactos do Sporting e do FC Porto também, nesse primeiro ano. Mas com a lesão o interesse também acabou por se esfumar. Ainda estive na pré-convocatória da seleção, antes dos Jogos Olímpicos, mas acabei por ficar de fora, eu e o Sérgio Conceição. Na altura podiam levar três jogadores mais velhos e como havia jogadores que tinham ficado fora da seleção principal do Europeu de 96, em Inglaterra, acabaram por ser eles chamados para ir aos Jogos Olímpicos. Se não estou em erro foi o Paulo Alves, o Rui Bento e o Capucho. No ano seguinte, quando chego ao Salgueiros para a pré-época, o treinador era o Carlos Manuel.

Muito diferente do Mário Reis?
Sim. Era um treinador novo, que estava a aparecer. Ambos eram exigentes, com formas de trabalhar e de estar diferentes, mas com o mesmo nível de exigência. Tanto é que as coisas acabaram por correr bem com um e com o outro. Com o Carlos até estivemos perto de ir à Europa, perdemos a Europa no último jogo, aos 94 minutos, quando falhámos um penálti em Faro. Isso depois repercutiu-se a nível de jogadores na época seguinte. O Salgueiros vendeu dois jogadores ao Boavista, quando saiu o Mário Reis, que foram o Luís Carlos, brasileiro, e o Luís Manuel; o Basílio foi para Guimarães. Quando chegou o Carlos Manuel, a primeira época correu bem, mas na segunda ele saiu em dezembro ou antes até para o Sporting e saiu com ele, para além do staff técnico, o Leão e o Renato. Depois saiu o Luís Carlos para o Benfica e no final da época saio eu para o Benfica. Na segunda época no Salgueiros penso que marquei cinco ou sete golos e na terceira época sou o 4º ou 5º melhor marcador do campeonato.

Na escola

Na escola

D.R.

Tem alguma história engraçada do Salgueiros que possa contar?
No Salgueiros, com o Carlos Manuel, aconteceu uma gira. Nós íamos muitas vezes treinar para o parque da cidade. Então íamos na carrinha do clube e o normal era no final do treino os jogadores tirarem as meias, as caneleiras, as meias compridas e começarem a embrulhar e a fazer bolas de meias. Começavam à trapada, como dizíamos, a atirar as bolas para a frente para acertar na cabeça do motorista que se chateava e parava o autocarro a meio e dizia: "Ó mister, não levo mais o autocarro, não conduzo mais o autocarro, estes gajos estão-me sempre a acertar com isto". Numa das vezes quando vínhamos do parque da cidade, o Carlos Manuel usava sempre o chapéu, tipo cap do clube, e ia no banco atrás do motorista e, nós estávamos ali na palhaçada. O Chico, que vinha atrás e que estava sempre com isso, atira a bola, acerta na cabeça do Carlos Manuel e tira-lhe o chapéu fora [risos]. O Carlos Manuel virou-se para trás e disse: "Quem me acertou vai ter 500 euros de multa". Ui, o Chico Fonseca ficou doente. Quando chegou aos balneários foi logo falar com os capitães: "Eh pá, vocês vão lá falar com o homem"; "Não, pá, Chico, tens de pedir desculpa"; "Eu pedi, mas ele não aceita, diz que é multa". Lá foi o capitão falar com o treinador que disse: "Passo para metade. Mas têm de fazer um abaixo-assinado a dizer o jogador tal, tal vai ser multado por falta de pontaria” [risos]. Ele lá pagou só 250 euros, porque acertou no treinador e não no motorista [risos]. Aquilo para nós foi uma risota porque o dinheiro revertia para a caixinha, para os almoços.

Depois do Salgueiros vai para o Benfica. Teve outros convites para além do Benfica?
No mercado de janeiro estive para sair para o Salamanca, de Espanha. Na altura tinha trocado de empresário, o meu empresário era o José Veiga e passei para o Jorge Mendes, que estava a começar, ainda tinha poucos jogadores. Mas acabou por não acontecer porque o Salgueiros pediu muito dinheiro pelo empréstimo. Assinei no final da época pelo Benfica. Ainda fui fazer uma digressão com o Salgueiros à Ásia, fomos à China e a Macau, mas eu já era jogador do Benfica. Eles apenas permitiram que fosse fazer essa digressão.

Vai para Lisboa sozinho?
Sim. É a primeira vez que saio de casa, tinha 25 anos.

Adaptou-se bem à vida de solteiro em Lisboa?
Custou-me um bocadinho. Eu tinha uma namorada, o relacionamento terminou porque com a distância é complicado; nos primeiros seis meses custou. Os meus pais e a minha irmã às vezes iam ter comigo e ficavam lá umas temporadas. É diferente a vida em Lisboa e a forma de estar das pessoas, a convivência. Eu estava habituado a uma forma... Não é que sejam melhores ou piores, acho é que as pessoas do norte são muito mais afáveis, convivem mais. Em Lisboa as pessoas são um bocadinho mais de viver a sua vida, trabalho, casa, casa, trabalho.

Nos juniores do C. D. Candal

Nos juniores do C. D. Candal

D.R.

Lembra-se da primeira vez que entrou no balneário do Benfica?
Sinceramente não me lembro. Mas lembro-me que havia um grupo com quem eu estava sempre. Também por serem do norte, outros por terem jogado comigo, como o Luís Carlos, o Nuno Gomes também, que era meu vizinho de prédio. O João também fazia parte das pessoas com quem eu lidava mais fora do contexto futebol. Eram esses com quem eu me dava mais. Depois havia alguns solteiros como eu, com quem estava de vez em quando, o Hugo Leal, o Bruno Basto, o Andrade. Porque a maior parte deles já tinha casado e as suas famílias.

Quando chega ao Benfica o treinador era Graeme Souness. Uma mudança de estilo muito grande?
Sim, eram treinos bem mais duros, muito físicos. A pré-época por acaso até me correu muito bem mas depois nunca se repercutiu a nível de campeonato. Quando cheguei acabei por não ser muito opção, jogava pouco, muitas vezes não era convocado. Tinha um jogador na minha posição que era um grande talento, o Karel Poborsky. O problema é que quando não jogava o Karel, ele nem sempre me punha a jogar e punha outros jogadores nessa posição. Acabei por me chatear, eu era muito competitivo, queria jogar e quando não jogava ficava infeliz. Ainda por cima viver em Lisboa, não ser convocado e estar longe da família, acabou por afetar-me e fui falar com o presidente para lhe dizer que preferia sair. Tinha 25 anos, queria jogar, mostrar o meu talento. Em janeiro fui emprestado ao Alverca. As coisas começaram a melhorar em termos pessoais porque acabei por ter maior convivência com os jogadores, sobretudo com dois com quem partilhava o carro nas idas para Alverca, o Maniche e o Costa. E acabei por encontrar neles um porto de abrigo com quem estava permanentemente nos treinos, fora dos treinos e esses seis meses foram muito bons. A equipa conseguiu os objetivos, eu fiz golos.

Na equipa do C.D. Candal de 1991/92

Na equipa do C.D. Candal de 1991/92

D.R.

Apanhou o “capitão” Mário Wilson como treinador?
Sim. Gostei muito dele, era uma pessoa muito afável, muito divertida, acho que qualquer jogador que passou por ele partilha disso, era muito atencioso com os jogadores, muito brincalhão, tinha sempre uma palavra amiga e mesmo os que não jogavam gostavam dele pela forma de estar dele. Entretanto houve ali um período em que as coisas não estavam a correr bem e vem o José Romão e é ele que acaba por terminar a época.

É nesse ano que o Nandinho faz um hat trick contra o Sporting?
Sim, a 17 de abril de 1999. Ganhámos 3-2 ao Sporting, foram três pontos importantes porque faltavam poucos jogos para terminar o campeonato.

Esse jogo ajudou-o a ir para o Vitória de Guimarães na época a seguir?
Acho que não porque quando saí do Salgueiros para o Benfica tinha vários clubes interessados, o SC Braga, o V. Guimarães e o Marítimo. Depois desse jogo houve duas equipas estrangeiras que se mostraram interessadas, uma italiana se não estou em erro e uma francesa. Abordaram o presidente do Alverca, o Luís Filipe Vieira falou comigo, só que eu tinha contrato com o Benfica e tudo teria que passar pelo Benfica. As coisas acabaram por não se concretizar até porque aquilo que estava previsto era regressar e dar continuidade no Benfica porque eu tinha mais três anos de contrato.

Mas não foi isso que aconteceu.
A verdade é que o Benfica tinha uma dívida para com o V. Guimarães por causa de um jogador que tinha sido contratado, o Marco Freitas, como o Benfica não tinha saldado essa dívida eles exigiram que fosse eu como moeda de troca. Eu também queria muito vir para o norte, o V. Guimarães era uma equipa que lutava sempre por competições europeias, apesar de nesse ano ter ficado fora porque perdeu o último jogo connosco, em Alverca. Fui para o Vitória de Guimarães numa altura em que o clube estava a reestruturar-se. Tinha saído o Vítor Paneira, o Neno, o Zé Carlos, jogadores já com alguma tarimba. Eles estavam a renovar a equipa e foi quando foram buscar os miúdos que estavam emprestados ao Felgueiras, o Fernando Meira, o Pedro Mendes, o Lixa. Tinham uma equipa jovem, um projecto de três anos para se meterem na Europa e a verdade é que as coisas logo no primeiro ano correram bem, estivemos muito próximos de ir às competições europeias.

Nandinho (à direita) chegou ao Salgueiros em 1995/96

Nandinho (à direita) chegou ao Salgueiros em 1995/96

D.R.

Quando vai para Guimarães também vai sozinho?
Sim, estava sozinho, era solteiro, acho que na altura nem tinha namorada. Estava a 40, 30 minutos do Porto e ia muitas vezes a casa, até porque tinha comprado uma casa no Porto. Mas fiquei a viver em Guimarães. Fiquei os três anos que tinha de contrato com o Benfica, em Guimarães. Só aceitei se fossem os três anos, porque não queria voltar mais, queria jogar e estar no norte. Faltou-me um bocadinho de maturidade, acho que a minha vida teria sido diferente se tenho optado por ficar no Benfica ou por ser emprestado só um ano e regressar. Porventura as coisas podiam ter corrido de forma diferente.

Mal chega a Guimarães apanha uma grande figura do futebol português, o Quinito.
Sim, sim, foi dos melhores que apanhei como treinador e como pessoa também.

Tem alguma história engraçada com ele?
Eu tinha sido um dos reforços mais sonantes, vinha do Benfica, começou a época e nos primeiros jogos eu não era titular. Então eu aziava logo, ficava com azia. Os treinos para mim eram como os jogos, detesto perder, nem que seja à carica. Refilava, resmungava, mostrava o descontentamento e ele não era burro, ele notava. E há um jogo, acho que é o primeiro em que jogo a titular, contra o Campomaiorense, em que perdemos 1-0 e não jogámos nada. No jogo seguinte pensei, estou tramado, vai-me encostar outra vez. E antes da palestra do jogo, íamos jogar com o Vitória de Setúbal, ele tinha sempre a mania de dizer: “Eh pá, isto hoje é um jogo difícil, se a gente conseguir ganhar um a zerinho já não é mau, isto não vai ser jogo para muitos golos e tal”. Muitas vezes dizia o contrário: “Eh pá, isto hoje a gente tem que marcar três ou quatro”. A verdade é que as coisas saíam sempre ao contrário [risos]. Os jogos que à partida seriam fáceis eram difíceis e os que eram mais difíceis às vezes tornavam-se mais fáceis. E na palestra desse jogo, ele começa a falar e a dizer: "Hoje os pijaminhas vão para o banco. Hoje não vou meter os meninos no fogo. Hoje vai jogar a velhada". Depois virou-se para mim: "E tu vais jogar novamente. Metes azia quando não jogas, eu meto-te a jogar e depois é aquilo que tu mostras. Portanto hoje vais ter outra oportunidade, hoje não vou lá meter os miúdos, vou-te meter a ti e à velhada e vais ter de mostrar porque é que andas sempre com azia, senão não jogas" [risos]. A verdade é que as coisas correram bem, fomos lá para dentro e ganhámos 4-0, fizemos um grande jogo. A partir daí as coisas começaram a engrenar e acabei por ser quase sempre titular.

Mas o Quinito não fica até ao fim da época.
Não. Ele sai acho que faltavam sete jornadas, estávamos em posição de Liga Europa, e fica o adjunto, o senhor Ribeiro e acabamos por não ganhar mais nenhum jogo até ao fim.

Porque é que ele sai, recorda-se?
Na altura nós ganhávamos quase sempre em casa e empatávamos fora, éramos uma equipa um bocadinho irregular fora de casa e após uma derrota, nem sei se já vínhamos de uma sequência de dois ou três resultados negativos, não me recordo bem, sei que ele se chateou com o presidente, o doutor Pimenta, que também não era fácil. Na altura havia o problema do Meira porque o Meira tinha desaparecido, foi quando se dá aquela situação dele ter assinado pelo Benfica, ninguém sabia do Fernando Meira, uma confusão e o Quinito acaba por sair. Acabámos por ficar fora dos lugares da Europa. Vai o Boavista à Europa. Nós que jogámos com o Boavista a faltar sete ou oito jornadas e estávamos a cinco ou sete pontos à frente do Boavista, acabámos por ficar atrás. Em janeiro vieram jogadores que não era suposto vir porque o treinador não queria e as coisas a partir daí começaram a ficar um bocadinho azedas entre o treinador e o presidente.

Aqui a disputar uma bola com o guarda redes do Sporting, em 1997

Aqui a disputar uma bola com o guarda redes do Sporting, em 1997

D.R.

Quem entra na época seguinte para tomar conta da equipa?
Vem o Paulo Autuori e eu que tinha feito trinta e tal jogos e o Tito, que era o capitão da equipa, fomos dispensados. Quando lá chegámos disseram-nos que íamos ser dispensados e ficámos a treinar à parte. Assim, sem nenhuma explicação. O treinador tinha trazido quatro ou cinco brasileiros com ele e não sei se na altura também não tinha vindo algum jogador que estava emprestado, da minha posição, o Fangueiro, acho eu. Acabei por ficar a treinar à parte, o Tito entretanto sai para o Alverca, só que eu tinha o problema do Benfica, porque quem pagava metade do meu salário era o Benfica, então o acordo era que se eu saísse de Guimarães, o Benfica não tinha de pagar nada. Tive na altura sondagens de clubes, estive para ir para o Vitória de Setúbal, com o Jorge Jesus, Paços de Ferreira também, só que eu não podia ir porque aquilo que me iam pagar era menos do que eu ganhava. Em outubro fui reintegrado porque o Paulo Autuori foi mandado embora, a equipa não ganhava.

E veio o Álvaro Magalhães.
Sim. Fui integrado mas também não jogava muito, joguei um ou outro jogo a titular. O Álvaro esteve lá pouco tempo, dois, três meses, foi embora e vem o Inácio. E aí comecei a jogar. Quando o Inácio chega perguntou-me se podia jogar a lateral direito, se já tinha jogado nessa posição, disse-lhe que sim, e joguei a lateral direito até ao final da época. Nos últimos jogos é que já joguei a extremo. Foi uma época em que estivemos a lutar até à última jornada para não descer.

O que acontece depois? É que entretanto deixa de jogar.
Nessa época ainda, no penúltimo jogo do campeonato, na Madeira, eu tinha estado doente e não treinei, mas mesmo assim joguei a titular. As coisas ao início não me estavam a correr bem, mas depois comecei a engrenar e tal; estávamos a perder 1-0 e ele tira-me à meia-hora do jogo. Quando eu ia a sair os jornalistas para os diretos das televisões perguntam-me porque é que eu tinha saído e eu, ingénuo, disse: "Olhe, não sei, pergunte ao treinador porque eu também não percebi". Ele ficou chateado com a situação e apesar de eu me ter retratado no balneário, de ter pedido desculpa pela minha reação a quente e de pensar que as coisas estavam sanadas, a verdade é que…

O que aconteceu? Conte lá.
Eu tinha uma proposta para ir para a Grécia mas tinha que sair livre, fui falar com o Inácio e perguntei-lhe se ele ia ficar e se ia contar comigo, ele disse que não sabia. Entretanto falei com o presidente, que me disse que eu tinha mais um ano de contrato e que era impensável eu sair, se queriam tinham que pagar por mim porque eu tinha sido útil à equipa, tinha sido um jogador importante. Fiquei mais tranquilo e pensei, vou ficar. Entretanto o treinador acabou por ficar também e a verdade é que uma semana antes de começar o campeonato, uma pessoa minha conhecida que conhecia o treinador, ligou-me e disse: "Tem cuidado porque eu acho que estão a preparar-se para te dispensar." Liguei para o presidente, ele disse: "Não, isso é tudo mentira, nem pensar". Apresentei-me no primeiro dia de trabalhos e quando estou a fazer exames médicos chega o diretor, entrega-me uma carta que dizia estava dispensado e para procurar clube. É claro que quis logo falar com o treinador, ele não quis falar comigo, fugiu. Acabei por ir falar com o presidente para perceber o porquê e ele disse-me que tinha sido por causa da situação da época anterior, por causa daquilo que se tinha passado. E pronto acabei por ficar ali a época toda, sem jogar, a treinar sozinho, num horário diferente.

No Jogo das Estrelas, em 1998

No Jogo das Estrelas, em 1998

D.R.

Foi nessa época ou na anterior que apareceu o professor Alexandrino?
Foi na anterior. Contrataram o Alexandrino, o bruxo, acreditavam nos poderes parapsicológicos dele [risos]. Quando ele chegou dava palestras motivacionais, dizia que tinha poderes. Mas era engraçado que ele andava sempre com muitos instrumentos musicais, que levava para o balneário. Eu como era daqueles que estava sempre na linha da frente para a palhaçada, ele começava a distribuir os instrumentos e eu pegava logo num ou noutro. Estávamos sempre ali na palhaçada e quando ele ia para dar a palestra nós já tínhamos tudo combinado, pegávamos nos instrumentos, começávamos a fazer barulho e não o deixávamos falar [risos]. Ele depois ia fazer queixa ao treinador. E há um episódio curioso... [risos]

Conte.
Ele está a dar a palestra e o treinador do guarda-redes pediu para ficar na casa de banho a ouvir a palestra dele. Nós dissemos que sim, que o fechávamos na casa de banho e que ele não podia sair dali, para não dar barraca. O Alexandrino manda-nos fechar os olhos e estarmos em silêncio enquanto ele fala e começa a debitar a palestra e de repente ouviu-se um estrondo enorme [riso] e sai o treinador a correr. O que é que foi? Ele pôs-se de pé em cima do lavatório para poder espreitar cá para fora e o lavatório partiu-se [risos]. Aquilo foi uma barracada enorme. Mas há muitas histórias. Houve uma vez que íamos na camioneta e ele ia a um programa do Herman José e então diz-me: "Eh pá, se tu não te importares vou falar com o presidente a ver se tu vais comigo, vou pôr-te lá a tocar piano para eles verem que os jogadores de futebol não são burros como eles pensam, também têm outros dotes"; "Ó Alexandrino deixe-se lá disso, vamos é concentrar no jogo" [risos]. E ele: "Tu hoje vais ter de ir à frente, vou dar-te uma corneta (ele tinha uma corneta grande) e tu quando entrares em campo, vais à frente da equipa com a corneta a tocar. É o sinal para eles estarem concentrados". Eu comecei-me a rir, porque ao princípio ele dizia que era ele que entrava à frente da equipa com a corneta: "Ó Alexandrino, mas você não pode entrar em campo", "Ai não?!", "Não", "Então vais tu, vais tu com a corneta à frente". E eu: "Ó Alexandrino, eu nem sei se vou ser titular. E mesmo que eu seja titular, eu não sou o capitão e quem entra à frente é o capitão. O capitão vai entrar de corneta?!" [risos]; e ele "Então pronto, eu vou para a bancada com a corneta. Quando vocês ouvirem o som da corneta, é o sinal de alarme, que é sinal de que eles vão atacar" [risos]. Era só risada.

Quanto tempo é que ele esteve com vocês?
Se não passou de um mês, andou lá perto.

É verdade que os responsáveis do Vitória fartam-se dele quando há um jogo na Madeira em que ele quer levar um piano no avião...
Queria levar o piano, sim. Ele disse: "Vou levar o piano e tu tocas no avião" [risos]. Dizia que era para chegarmos lá calmos. E havia outras cenas que ele fazia, tipo mandar o pessoal fechar os olhos e descalçar-se e fazia umas manobras com a mão, dizia que ia dar técnica... Aquilo era motivo de chacota, ninguém aguentava aquilo, só o treinador, que acreditava naquilo. Mas não foi só naquele clube, houve em mais clubes. Os Alexandrinos eram outros, mas pronto foi uma fase caricata e um bocadinho surreal.

A festejar um golo no F. C. Alverca 1999

A festejar um golo no F. C. Alverca 1999

D.R.

Só teve histórias engraçadas com o Alexandrino em Guimarães. Não houve outras?
Há uma história também muito boa, essa não vou dizer nomes para ninguém ficar chateado... Num dos almoços, numa quarta-feira, fomos a uma marisqueira. Mandámos vir marisco, uma variedade de marisco diferente e então uma das coisas que vinha eram percebes e metiam as tigelinhas com água e com o limão. Um dos jogadores não sabia o que eram percebes e perguntou: "Isto é o quê? É bom, come-se?" E eu: "Claro, se está aí é para se comer"; "Mas é bom?"; "Eh pá, é salgado"; "Como é que se faz?"; "Tens de tirar a parte dura, e comes o resto". E então ele tira só a parte da unha do percebe, mas aquela capa dura deixou ficar e mete aquilo à boca, começa a mastigar [risos]. Nós fizemos de conta que não era nada, ninguém se riu. Ele a mastigar, a mastigar e mastigava e nunca mais engolia aquilo e nós: "Então pá?!" E ele: "É bom, é assim salgado, mas é um bocadinho duro" [risos]. "É muita nabo, não vês que não se come essa parte da capa, é só a parte que está por dentro?" [risos]. E no mesmo dia há um outro jogador que perguntou: "Para que é esta água com limão?"; "Isso é para desenjoar. Tu comes marisco e depois bebes um bocadinho que é para desenjoar" [risos]. E não é que ele pega na tigela de água com limão e começa a beber [risos].

Como é que aguentou a época seguinte sem jogar, a treinar à parte?
Tinha de me aguentar, eu não podia sair porque tinha a situação do Benfica. Acabei por ter uma proposta para ir para Espanha, para um clube da II liga espanhola, para o Badajoz, treinado pelo falecido Carlos Alhinho. Ainda fui a Badajoz reunir-me com eles só que, claro, eles não pagavam aquilo que eu ganhava no Vitória. Falei com o presidente, perguntei se queriam chegar a um acordo comigo. Eles davam uma parte e o Badajoz pagava a outra parte, mas ele não aceitou, que me deixavam sair, mas que eu tinha de abdicar. No dia seguinte, dia 1 de fevereiro, em que o mercado já estava fechado, a advogada do clube telefona-me a dizer que queriam fazer um acordo comigo. Então agora que já não posso jogar em lugar nenhum vão fazer um acordo comigo?

Nessa altura continuava a viver em Guimarães?
Sim, e também estava no Porto, porque como só treinava à tarde, umas vezes dormia no Porto. Entretanto a advogada volta a ligar-me a dizer que o presidente aceitava as minhas condições. Acabaram por pagar mais do que aquilo que me tinham de pagar se me tivessem deixado no dia anterior ir para Badajoz. Foi mesmo só para tentar prejudicar e ver até onde eu aguentava.

Antes de irmos ao Gil Vicente, nessa altura já tinha casado?
No segundo ano em que estou em Guimarães conheci a minha esposa, Isabel. Ela trabalhava numa loja de roupa, era gerente de uma loja de roupa na Maia e eu conheci-a através de uma amiga minha que trabalhava com ela. Namorámos um ano e casámos. Caso em 2001 e o meu filho Rafael nasce em 2002.

Com os pais e irmão

Com os pais e irmão

D.R.

Como surge o Gil Vicente?
Entretanto, antes do início da nova época 2002/2003, ligam-me do Salgueiros, era o Carlos Manuel que ia ser treinador novamente, e eu assino contrato com o Salgueiros, que estava na II liga. Assino com eles mas ainda não tinha começado a época e liga-me o director do Gil Vicente, através de um amigo meu, a fazer uma proposta. Disse-lhe que estava no Salgueiros, claro que preferia ir para a I Liga, mas tinha de falar primeiro com o Salgueiros para ver se me libertavam. Eu e o Sérgio, que também trabalhava na Gestifute, acabámos por ir falar com o presidente do Salgueiros e com o treinador. O treinador não gostou muito e ficou chateado comigo na altura.

E o presidente?
Expliquei ao presidente, disse que tinha uma proposta de I Liga, em termos financeiros era mais vantajoso e ele deixou-me ir. Também pela amizade que tinha e por aquilo que representei para o Salgueiros, porque a verdade é que fui o jogador que mais dinheiro deu a ganhar ao Salgueiros. Acho que só o Sá Pinto é que me ultrapassou, mas o Sá Pinto saiu com o Pedrosa, saíram dois, a nível individual daquilo que foi pago, acho que fui o jogador que mais dinheiro deu ao clube, segundo pessoas do Salgueiros me disseram. Portanto há um bocadinho essa relação de gratidão e o presidente acabou por libertar.

Foi viver para Barcelos?
Não. Eu vivia em Gaia e ia com o Ivo, com quem jogava. Íamos os dois de Gaia. Entretanto casei e acabei por ir viver para a Maia, onde trabalhava a minha esposa.

Esse primeiro ano no Gil Vicente é com o Vitor Oliveira.
Nem precisa de apresentações, um dos treinadores mais titulados do futebol português. O início custou-me porque eu vinha de uma época parado e não é fácil. Nos primeiros meses, na pré-época, as coisas até estavam a correr bem, mas depois lesionei-me e estive um mês e tal sem jogar. Aos poucos as coisas foram engrenando e acabei a época a jogar sempre.

Tinha assinado por quanto tempo?
Só por uma época. No ano seguinte veio o Mário Reis e renovei. Ele sai em dezembro e acaba por vir o Luís Campos, de quem gostei muito. Um treinador já para a altura com uma metodologia nova, com uma abordagem diferente. Quando chega fazemos uma boa fase final, acabamos por nos safar, ele renova contrato, mas na época seguinte as coisas começam a não correr-lhe bem e acaba por sair; vem o Ulisses Morais, um treinador muito exigente, muito rígido, mas sempre com uma atenção especial para a parte humana do jogador. A verdade é que a equipa estava mal e acaba por engrenar bem e ganhar pontos. No ano seguinte, o Paulo Alves, que era o diretor desportivo, toma conta da equipa depois de um jogo em Alvalade, quando nós já estávamos numa situação de quase condenados. E fizemos uma recuperação espectacular e acabamos por nos safar no último jogo com o Belenenses, o que não nos valeu de nada porque depois desceram-nos na secretaria. E pelo caminho tive a minha filha.

Nandinho jogou no Gil Vicente FC de 2002 a 2007

Nandinho jogou no Gil Vicente FC de 2002 a 2007

JOAO SANTOS

Como se chama e quando nasceu a sua filha?
A Lia nasce em 2004, a seguir a um jogo com o Benfica. Fez agora 16 anos. Na altura em que descemos de divisão na secretaria eu era capitão de equipa e foi um final de época muito desgastante e um início de época ainda mais desgastante com aquelas peripécias todas em que não jogávamos, faltas de comparência, fomos a Lisboa, apresentámo-nos para jogar, não nos deixaram jogar, viemos para cima, mais uma série de peripécias.

Conte algumas.
Essa foi uma das peripécias em que nós fomos a Lisboa, para jogar contra o Benfica, apresentamo-nos mas sabíamos que à partida não iríamos jogar porque já tinham dito que era o Belenenses que ia ficar, mas o presidente António Fiúza não se conformava, e com razão. A razão acabou por lhe ser dada, anos depois, e o Gil Vicente está na I Liga por isso mesmo. Acabámos por ir a Lisboa passear, como dizia o presidente, vamos visitar o zoo [risos]. Pernoitámos em Lisboa e viemos embora no dia seguinte. Jogámos na II Liga e eu fiquei até dezembro. Acabei por ter uma proposta do Leixões, o Vitor Oliveira ligou-me. O Gil Vicente tinha sido penalizado com pontos por ter faltado a jogos. E o Leixões era um projecto de subida, davam-me mais um ano de contrato para além daquele e eu no Gil Vicente ia acabar o contrato. Como no Gil havia também um desgaste com o presidente, ele queria que os jogadores baixassem o salário 30%... Eu era o capitão de equipa e andava desgastado, ia levar por tabela por ser o capitão. Falei com o presidente, disse-lhe que tinha uma proposta e que sabia que era um dos jogadores mais caros do plantel, que se calhar era preferível eu sair, uma vez que seria muito difícil o clube subir esse ano. Fui para o Leixões, onde fui campeão, apesar de não ter jogado muito, porque as coisas também não me correram bem a nível individual.

Porquê? O que é que não correu bem?
Era uma equipa que estava em 1º e que tinha uma dinâmica boa de jogadores e eu entrei e não me consegui adaptar à equipa, as coisas não me correram bem de início e depois, claro, acabei por não ter muita opção. Entretanto o Vitor Oliveira sai. Eu tinha falado com ele, e ele não sabia se ia ficar mas achava que eu devia ficar porque para mim era melhor jogar na I liga, sabia que me ia adaptar melhor à I liga porque a II liga é muito mais física, o que não era muito o meu estilo de jogo.

Mas acaba por sair também.
Eu começo a pré-época, chega o Carlos Brito, eu fiz dois, três jogos na pré-época, só que entretanto por causa de pessoas de dentro que o influenciaram ele acabou por falar comigo e disse que se calhar era melhor eu sair porque não ia ser muito opção. Senti que havia ali algum empecilho à minha continuidade.

Porquê? Tem noção? Por ser refilão?
Não. Nessa altura já não. Tinha 34 anos, já não estava para me chatear como é óbvio. Nada que se pareça. Aliás, a minha atitude dentro do grupo sem foi muito boa e se falar com colegas meus todos eles dirão a mesma coisa. Eu apenas sabia que havia pessoas que não queriam a minha continuidade porque eu tinha ido para o Leixões um bocadinho à revelia dessas pessoas, que tinham algum poder no clube e que normalmente eram elas que decidiam as contratações. Como a minha ida não passou por elas, sabia que ia ter um bocadinho a vida dificultada por essas pessoas. Se calhar o treinador quando veio foi influenciado por essas pessoas. Perguntei ao presidente e ele acabou por me confirmar que era um bocadinho por aí também. Quando o Carlos Brito falou comigo eu disse-lhe logo que não valia a pena estarmos com rodeios, que me vou embora, apesar de achar que podia ser útil e acreditava que podia jogar porque era o jogador com mais experiência de I liga no plantel. Na altura também vieram jogadores emprestados do FC Porto e um deles era o Veirinha, que jogava na minha posição, o Diogo Valente, que também era extremo, portanto, percebi que esses jogadores teriam de jogar. Cheguei a acordo com o clube e vim embora.

A disputar uma bola com Simão Sabrosa do Benfica

A disputar uma bola com Simão Sabrosa do Benfica

Reuters

Aí ainda tinha esperança de continuar a jogar ou decidiu logo terminar a carreira?
Não, ainda tinha esperança porque me sentia bem e eu acho que acabei prematuramente a minha carreira. Acabei com 34 anos e aos 37 fazia jogos de veteranos e posso dizer que tive convites de clubes de II B. Mas aí já não tinha disposição.

O que fez logo a seguir?
Comecei a treinar no Maia, o treinador era o Secretário, ele deixou-me treinar para ir mantendo a forma. Entretanto surgiu a possibilidade de ir para o Luxemburgo, mas queriam que eu fosse treinar à experiência, e eu disse que não, que tinha um currículo e um passado e que se as pessoas queriam, contratavam-me, senão, que não estava para fazer experiências muitos menos numa equipa onde não conhecia ninguém. Fiquei por cá. Houve a possibilidade de ir para o Feirense, mas o treinador liga-me no dia em que fecha o mercado e eu já não podia ser contratado. Ainda tentei falar com um advogado da Gestifute, com a Liga, para ver se havia possibilidade, uma vez que eu estava sem jogar desde o início da época, desempregado, mas não, o mercado fecha para toda a gente no dia 1 de fevereiro.

Já tinha pensado no futuro, no que queria fazer depois de pendurar as chuteiras?
Não, não tinha. Sabia que queria continuar ligado ao futebol, eu já tinha o nível III de treinador. Comecei a tirar o primeiro nível ainda jogava no Salgueiros. O II nível estava em Guimarães e o III em Barcelos, no Gil Vicente. Fui tirando porque sabia que quando acabasse a carreira, ser treinador podia ser uma possibilidade. Era a minha vida, era aquilo que eu queria e é difícil quando estás tantos anos ligado ao futebol desvincular-te, sobretudo quando fazes as coisas com paixão.

Mas ainda esteve muito tempo desligado do futebol.
Sim, mais ou menos cinco anos.

O que fez nesses anos?
Passado um ano de estar parado, sem fazer nada, estive a ajudar a minha esposa que tem uma loja de roupa que abri quando estava em Barcelos. Apoiava sobretudo no backoffice. Mas depois resolvi ir para a faculdade, resolvi formar-me.

A receber a placa dos 200 jogos na I liga

A receber a placa dos 200 jogos na I liga

AMANDIA QUEIROS

Foi para que faculdade e curso?
Numa conversa com o professor José Neto, ele acabou por me desafiar a licenciar-me em desporto, e fiz isso. Inscrevi-me no Instituto Universitário da Maia, fiz os pré-requisitos, eu já não estudava há 20 anos, mas sentia que podia ser uma mais-valia ter algum conhecimento científico e que uma abordagem mais teórica podia ajudar-me àquilo que era o meu conhecimento empírico.

Sentiu dificuldade em voltar a estudar?
Curiosamente não. Claro que houve algumas disciplinas como estatística e biomecânica, que têm muita matemática, e como eu não tinha bases, tive alguma dificuldade, mas a verdade é que não me custou. Acho que quando se vai estudar aos 39 anos, depois de estar 20 anos sem estudar, já com uma família, o foco é diferente. Quando fui, como o prazo para os pré-requisitos físicos já tinha passado, só me pude inscrever em disciplinas teóricas. Fazia três disciplinas por semestre. Uma licenciatura de três anos demorei quatro a fazer porque não quis acumular disciplinas.

O curso foi mesmo útil para este percurso que está a fazer como treinador?
Foi porque temos disciplinas que nos ajudam perceber melhor, por exemplo, os médicos quando falam de problemas musculares; torna-se uma linguagem comum. Acabamos por ter algum conhecimento fisiológico que nos ajuda a entender melhor o treino, o que é que estamos a trabalhar.

Nandinho (ao centro em baixo) chegou ao Leixões em 2006/07

Nandinho (ao centro em baixo) chegou ao Leixões em 2006/07

D.R.

Depois de terminar o curso o que sucedeu?
Fui o melhor aluno do curso do meu ano. Eu tinha amizade com o Joaquim Evangelista, do meu tempo de jogador, e ele já me tinha desafiado, um dia ia convidar-me para treinar no Sindicato dos Jogadores e acabou por acontecer. Em 2011 ele convida-me para ser o treinador dos estágios do Sindicato, na zona norte. Era uma situação de dois meses, mas foi essa a minha primeira experiência como treinador e serviu para perceber se realmente era isto que eu queria.

E gostou desde logo?
Sim, a verdade é que gostei, numa situação difícil de lidar com jogadores desempregados, com todas aquelas frustrações e expectativas. E também durante o curso o convite do Gil Vicente surge porque eu fiz parte da organização dos congressos internacionais de futebol que se fazem no ISMAI, e comigo estava o Lino, que na altura vai para coordenador da formação do Gil Vicente e falou aos dirigentes. Eles queriam um treinador que tivesse passado no clube e ele lembrou-se de mim, os dirigentes falaram comigo e acabei por aceitar a proposta. E nesse ano, em 2012, acabei por conciliar com o sindicato.

É muito diferente treinar miúdos e adultos.
Sim, completamente. É uma idade difícil em que é aquela fase de transição em que eles já começam a tornar-se adultos. Mas gostei das duas situações. Estive três anos na formação do G. Vicente, nos juniores, e alcançámos os melhores resultados de sempre do clube a nível de formação. Fomos vice-campeões nacionais, subimos à I nacional e ficamos em 3º lugar só com FC Porto e Sporting à frente. E no ano seguinte quando vou para os seniores, quando o clube desceu da I para a II liga, levei oito juniores comigo para a equipa principal. Dois acabaram por sair emprestados e ficaram seis no plantel principal. Não é muito comum apostar na juventude como eu o fiz. Levei seis jogadores, dois deles guarda-redes.

Como correu essa primeira experiência como treinador de uma equipa sénior da II Liga? Foi o que estava à espera?
Construímos um grupo bom. É diferente estarmos de início ou entrarmos a meio da época num plantel que não fomos nós que o formámos. Era uma época de transição também, ficaram seis ou sete jogadores da I Liga, o resto foram jogadores novos, com pouca experiência a nível profissional, vinham de II B, de campeonatos de outros países, de jogar campeonatos estaduais e não profissionais, mas fizemos uma equipa muito engraçada. Estivemos até ao último terço do campeonato ainda a lutar por lugares de subida e no último terço caímos um bocadinho. Acabamos por ir às meias-finais da Taça de Portugal, fomos eliminados pelo FC Porto. Foi uma época boa e pensei que podia dar ali o salto para a I Liga.

Isso não aconteceu porquê?
Na altura eu tinha proposta para continuar no G. Vicente, falei com o presidente mas as condições que me iriam dar seriam idênticas ou pior às que eu tinha naquele ano. Uma coisa é dizer que se quer fazer um plantel para subir e depois não há orçamento para contratar jogadores para poder lutar por isso. Senti que não ia ter as condições desejáveis para continuar a fazer aquilo que eles queriam, que era a subida de divisão. Também na altura acabei por ter uma sondagem de um clube da I Liga e resolvi não ficar e arriscar esperar para ver se acontecia e acabou por não acontecer.

Qual era o clube?
Era o Paços de Ferreira. Acabaram por optar pelo Carlos Pinto.

nandinho foi campeão da II liga, pelo Leixões, em 2007

nandinho foi campeão da II liga, pelo Leixões, em 2007

D.R.

Como é que surge depois o Famalicão?
Entretanto, em outubro, liga-me o presidente do Famalicão e acabei por aceitar a proposta. Era um clube que tinha uma boa estrutura apesar das condições de trabalho não serem as melhores, mas a nível de massa adepta eram exigentes e as pessoas que estavam à frente do clube eram sérias. As coisas ao início correram bem, tivemos bons resultados, mas depois houve uma fase menos boa, e como em tudo no futebol quando vem uma fase menos boa vem a desconfiança e acabei por sair. Falei com o presidente e achei que na altura era o melhor, e também senti que as pessoas já começavam a não acreditar e a ter algumas dúvidas.

O que fez no ano a seguir?
Saio do Famalicão e no dia seguinte tenho duas propostas de clubes de II Liga, do Freamunde e do Leixões, que estavam na mesma luta com o Famalicão, que tinha cinco ou seis pontos a mais apenas. Rejeitei as propostas porque achei que não seria de bom tom sair do Famalicão e ir meter-me em clubes que estão a lutar com o Famalicão, numa situação difícil a faltar cinco ou seis jogos. Achei que não seria bom. Quis esperar e tentar começar uma época de início. Mas acabou por não surgir nenhuma proposta e fiquei um ano parado. É o normal, quando começa a não haver propostas e não entras no mercado de trabalho... Se calhar devia ter aceitado uma das propostas porque quem está no mercado de trabalho está sempre no ativo, mesmo que as coisas não corram bem, há sempre clubes interessados. E da forma como está o futebol atual, em que estão sempre a mudar de treinador e procuram sempre treinadores que estejam no ativo...

Com a mulher e os filhos

Com a mulher e os filhos

D.R.

Então como volta a surgir o Gil Vicente?
Entretanto tenho uma proposta para sair para os Emirados Árabes, através de um amigo que ia treinar para lá. Aceitei e uma semana antes de viajar, já com tudo acordado, ligam-me do Gil Vicente novamente porque o Gil tinha descido para a I I , para treinar a equipa. Disse-lhes que não. Aliás, quem me contacta é o Jorge Mendes, é o Jorge que me liga e eu disse-lhe que tinha uma proposta e que não ia aceitar treinar numa II B porque para a minha carreira era mau, não ia dar-me visibilidade nenhuma. Para jogar a feijões não fazia sentido, quando tinha uma proposta dos Emirados, que era superior. A única forma de eu aceitar seria com um contrato de dois anos e ser eu o treinador na I Liga. Começar a preparar a equipa para a I Liga. Eles disseram que sim. Disse-lhes que uma das condições também seria, para não andarmos a competir a feijões, fazer uma equipa de sub-23 e prepará-la para entrar no campeonato de sub-23 e os jogadores que tivessem qualidade para fazer parte do plantel da I Liga subiam para a primeira equipa. E foi esse o projeto. As coisas correram muito bem a nível de resultados. Aquilo que me pediam era para fazer muitos jogos com equipas da I e II Ligas para ver o nível de jogadores e que o campeonato não interessaria assim muito. Foi o que fizemos de início, jogamos com muitas equipas e o comportamento foi bom, tínhamos sempre muito bons resultados. E no campeonato as coisas também correram bem. Até que, a faltar duas jornadas para acabar, sou surpreendido pelo presidente que me pergunta se eu podia ficar mais um ano com a equipa de sub-23 e eu disse-lhe peremptoriamente que não porque não era isso que tínhamos acordado e porque já tinha dado provas da minha capacidade, tanto é que em janeiro até estavam a ponderar aumentar o vínculo. Mas a verdade é que fui surpreendido com essa situação. Tinham falhado com a palavra e naquele momento nada me garantia que não iam falhar novamente. Eu tinha contrato, fui despedido e é uma situação que está ainda em tribunal.

Nandinho tornou-se treinador principal do Gil Vicente, em 2015

Nandinho tornou-se treinador principal do Gil Vicente, em 2015

D.R.

E como aparece o Almería no meio disso?
Surge passados uns meses em finais de setembro. O Mário Silva, que é o meu vizinho, somos amigos, liga-me a dizer que tinha recebido uma proposta para ser coordenador técnico do Almería e que tinha de levar treinadores para treinar a formação, a equipa B, juniores, juvenis, porque era um projeto de dois, três anos, queriam fazer uma academia. Perguntou-me se me interessava. Reunimos com as pessoas que compraram o clube, o Turki Al-Sheikh. Eles também já me conheciam porque segundo me disseram queriam ter comprado o Gil Vicente um ou dois anos antes e conheciam-me daí. Acabei por aceitar a proposta deles e vir para Almería. E aqui estou.

Foi sozinho ou levou a família?
Sozinho. Trouxe a minha equipa técnica. Entretanto a época estava a correr muito bem, com muita visibilidade a nível dos jornais e televisão porque chegámos e em oito jogos tivemos sete vitórias e um empate e estivemos 17 jogos seguidos sem perder. Mesmo assim não foi suficiente porque quando veio a pandemia nós estávamos em 5º lugar, a três pontos do 4º, eram os quatro primeiros que iam ao playoff. E acabou o campeonato de repente e aqueles quatro primeiros apuraram-se diretamente para o playoff. Foi o efeito da pandemia.

No início da pandemia ficou em Espanha?
Eu fui para Portugal, estive aí cerca de dois meses, em maio voltei a Almería para perceber como estavam as coisas e começar a ter reuniões para a próxima temporada, porque temos mais este ano de contrato. Entretanto, passado duas semanas, o Guti sai e o Mário Silva acaba por nos ligar a dizer que ia assumir a equipa e que tínhamos de ir ajudá-lo. Eu tinha já o IV nível do curso e ele não tinha, eu é que tinha de ser inscrito. E claro, viemos, não podíamos dizer que não, foi ele que nos trouxe para aqui, era uma oportunidade também para ele. Faltavam sete jogos, acabamos por nos apurar para o playoff e entretanto ele decidiu sair porque o que ele queria era isto, treinar, ser treinador e não coordenador. O Mário saiu, nós ficamos porque tínhamos contrato, e felizmente surgiu-lhe logo a situação do Rio Ave e acredito que vai fazer uma brilhante carreira.

Mas quem assume a equipa principal do Almería não é nenhum dos portugueses.
Não, o Mário sai e nós saímos com ele, mas como tínhamos contrato eles quiseram que ficássemos novamente com a equipa B e acabamos por continuar.

O contrato termina em 2021. Está a gostar da experiência?
Estou a gostar da experiência, agora é claro que vínhamos com uma expectativa de fazerem uma academia, de ter condições de trabalho e estas não são aquelas que esperávamos ter nesta altura. Pensávamos que a academia por esta altura já estaria pronta e nós já tínhamos as condições necessárias para desenvolver a formação do clube e potenciar jogadores para a primeira equipa. Com isto da pandemia parou tudo e atrasou o projecto.

Já sabe como vai ser depois do contrato acabar?
Não sei. Vou cumprir o meu contrato até ao final e depois vamos ver. Quando assinei queriam que assinasse mais um ano de opção e não aceitei. Aquilo que lhes disse é que no final há que reunir com as pessoas. Se estiverem satisfeitas com o trabalho, se quiserem que continuemos e nós estivermos satisfeitos também e quisermos continuar, tentaremos chegar a um acordo. Entretanto é fazer bem o nosso trabalho até ao final da época e cumprir porque no futebol não sabemos o dia de amanhã e a realidade é que já tive propostas para voltar a Portugal que acabei por não aceitar por não serem aliciantes. Mas a vida de treinador é mesmo assim. Vamos ver como é que as coisas vão correndo.

Com a mulher e filhos

Com a mulher e filhos

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro até agora?
No Benfica.

Além da loja de desporto, onde investiu o dinheiro?
Fui investindo em alguns negócio de imobiliário, em alguns produtos bancários, uns correram melhor outros pior.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
O carro dos meus sonhos. Quando saí do Benfica e fui para Guimarães, um descapotável, um SLK cabriolet. Mas só comprei quando pude, porque quando jogava antes no Benfica andava de Fiat Punto porque era o que eu podia.

É crente?
Sou q.b. Não sou praticante.

E superstições?
Sim, normalmente benzia-me sempre antes de entrar em campo. E pedia para não me magoar.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Um Real Madrid ou Barcelona.

Tem tatuagens?
Tenho uma que fiz em Lisboa. São dois golfinhos.

Tem algum passatempo?
Não. Antes gostava de tocar piano, tinha um orgão em casa e tocava muitas vezes. Gosto muito de ouvir música. U2, Bon Jovi, mas também gosto muito de cantores como o Luís Miguel, aqui em Espanha ouço muito música espanhola. Houve uma fase da minha vida em que ouvia muito música clássica. Comprava CDs de piano. O tipo de música depende muito da fase da vida e do espírito com que estamos.

Quem são as suas referências de treinadores?
Acabei por ser influenciado pelos que tive. Mas reconheço que há treinadores hoje em dia de grande competência, como o José Mourinho, Villas-Boas, Vítor Pereira, Jorge Jesus, são treinadores que temos de olhar para eles como referências porque são nossos, do nosso país, mas há outros como o Guardiola ou o Klopp que também têm deixado marca. Mas agora dizer que me revejo neste ou naquele treinador, não.

Ao nível do modelo de jogo qual deles tem aquele que mais se aproxima do que gosta?
Gosto de treinadores que têm modelo de jogo ofensivo, que joguem para a frente. Gosto muito da Atalanta do momento. É uma equipa que joga para a frente que faz muitos golos. Há muitos treinadores que preferem ganhar 1-0, eu prefiro ganhar 4-3.

Qual a sua maior ambição enquanto treinador?
É chegar a uma grande liga, uma liga inglesa, espanhola, acho que é a ambição de qualquer treinador. Sei que não é fácil chegar aí. Treinar a I Liga em Portugal é um objectivo. A seleção nacional acho que será sempre o sonho de qualquer treinador.

A maior alegria e a maior frustração na carreira?
A maior alegria foi ter sido internacional por Portugal, mesmo que sendo a nível de Esperanças. A maior frustração não ter ido aos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.

Nandinho treina a equipa B do Almería, de Espanha

Nandinho treina a equipa B do Almería, de Espanha

D.R.

Para terminar, tem mais uma história que possa partilhar?
Uma das histórias engraçadas que tenho foi no Salgueiros. No início da época chegou um jogador novo, brasileiro, era a primeira vez que vinha para a Europa. Chamava-se Lino. Começámos a treinar e a equipa técnica era o Carlos Manuel e o Chicão, que era o adjunto e preparador físico, chamava-nos assim: "Vamos lá malta, vamos lá começar". E havia sempre um que respondia: "Vamos lá". Quase sempre era o Renato que ia na frente, era um dos capitães e dizia, "vamos lá, vamos lá", e lá íamos, lá começávamos a correr. No Salgueiros normalmente à sexta-feira o plantel reunia sempre ao almoço. E na primeira ou na segunda semana vou ter com o Lino no final do treino e digo-lhe: "Lino, nós vamos almoçar, costumamos ir almoçar todos. Vens com a gente? Queres boleia?" E ele: "Não, pá, eu vou com o Malta, ele já me convidou, vou com o Malta". E eu fiquei... "Mas espera aí, quem é o Malta?!" E ele aponta para o Renato. "O Renato?!" E ele: "Não, o Malta". E eu: "Mas ele não se chama Malta, chama-se Renato"; "Mas quando o treinador chama malta ele responde sempre" [risos]. O que me ri. Como o Renato respondia sempre, "vamos lá, vamos lá" ele pensava que ele se chamava malta. Só passado uma semana é que se inteirou que chamava-se Renato [risos]. Estive a explicar-lhe que "malta" somos todos, em vez de dizermos vamos lá pessoal, dizemos vamos lá malta [risos].