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A casa às costas

“Aquele campeonato foi uma vergonha: o Benfica empatou no Bessa na última jornada, ouviram-se coisas manhosas. E houve o jogo com o Estoril”

Areias fez ao filho o mesmo que o pai fez com ele: tornou-o sócio do FC Porto no dia em que nasceu. Aos 43 anos, não esconde não só a paixão pelo clube, onde trabalha agora como técnico-adjunto da formação, como confessa que as pernas ainda lhe tremem, do alto dos seus 1,89m, sempre que se cruza com Pinto da Costa. E recorda um título do Benfica, em 2005

Alexandra Simões de Abreu

Rui Duarte Silva

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Nasceu no Porto, é filho único. E os seus pais, o que faziam profissionalmente?
Nasci no Porto mas vivi sempre em Vila Nova de Gaia. Tanto o meu pai como a minha mãe eram empregados de escritório, agora estão reformados. Sempre me deram uma educação espetacular e apesar de não serem pessoas ricas, nunca me faltaram com nada. Recordo a minha infância com boas memórias. O meu pai sempre me acompanhou para todo o lado na minha formação como jogador e como homem.

Sempre torceu pelo FC Porto?
Sempre fui portista. Desde miúdo que ia ao antigo estádio das Antas com o meu pai e com o meu avô. Foram eles que introduziram em mim o bichinho do futebol. O meu pai jogou futebol na formação do FC Porto, mas nunca jogou a nível profissional. E sempre praticou desporto.

Quando era pequeno gostava da escola?
Para ser sincero, nem por isso. Fiz o 12.º ano aos empurrões, mas fiz. Concluí o 12.º ano.

Era um puto reguila?
Sim, sempre lhes dei um bocado de trabalho.

O que fazia? Faltava às aulas para ir jogar à bola?
Não a esse ponto. Mas os meus pais iam às reuniões da escola e os professores diziam-lhes sempre: “Ele é inteligente e fixa bem as coisas, o problema é que está a maior parte das vezes distraído, só pensa em jogar futebol, está sempre a olhar para o relógio para ver quando é que chega o intervalo para ir jogar futebol com os amigos. Só se esforça uma semaninha ou duas antes dos testes”. Para ser sincero sempre tive o foco de que queria ser jogador. E graças a Deus consegui.

Quem eram os seus ídolos?
O Paolo Maldini sempre foi o meu jogador preferido e também ia admirando jogadores que iam passando pelo Porto, mas o meu ídolo desde criança sempre foi o Maldini.

Miguel Areias com os pais

Miguel Areias com os pais

D.R.

Quando e como vai jogar pela primeira vez para um clube?
Tinha cerca de nove, dez anos, já não sei precisar. Houve umas captações no campo da Constituição, no Porto, que por acaso é onde treino a formação do Porto já há cinco anos; estive nos sub-15, nos sub-14 e agora estou nos sub-16. Aquilo não tem nada a ver com o que era dantes, está tudo sintético, tudo com condições espetaculares. Na altura quando lá fui a umas captações, o treinador era o senhor Álvaro Silva e passado um, dois treinos, fiquei logo. Ele veio falar comigo e disse para eu voltar passado uma semana ou duas. Como deve imaginar, fiquei muito feliz, muito contente, só que na altura os meus pais trabalhavam e eu estudava em Gaia e não tinha como ir para o treino.

O que fizeram então?
Coincidiu que os meus avós estavam a reformar-se e eles fizeram um esforço. Inicialmente, vinham buscar-me a Gaia para me meter no autocarro para eu ir para o treino, eles não tinham carro. Eles vinham de autocarro para Gaia, para me meter no autocarro, porque eu era muito miúdo e não tinha aquele à vontade de andar sozinho de autocarro. Faziam isso três vezes por semana.

Foi fazendo a sua formação sempre no FC Porto.
Sim, estive lá seis anos, entretanto fui dispensado. Agora não parece porque sou muito alto, mas nos iniciados era dos mais pequenitos, não era muito alto. Fui dispensado porque na altura havia jogadores mais fortes.

Tinha quantos anos?
Por volta de 14, 15 anos. Entretanto fui jogar para os juniores do Salgueiros.

Mas antes disso não passou pelo Candal e pelo Espinho?
Exatamente, antes estive no Espinho e depois é que fui para o Salgueiros. No Candal não cheguei mesmo a jogar, porque na altura tive um grande problema no joelho relacionado com o crescimento. Estive praticamente a época toda parada, estive com a perna engessada.

Fez alguma lesão?
Não, eram problemas de crescimento. Naquela altura ninguém sabia o que era, parecia que nem conseguia andar porque, de um ano para o outro, cresci mesmo muito, foi uma coisa estranha. Até que fui ao doutor Rui Pimenta, ao hospital da Prelada, e ele engessou-me a perna - estive cinco ou seis semanas com a perna engessada. Foi uma coisa... Porque dei mesmo um salto descomunal de um ano para o outro. Tenho 1,89 cm. Tive muitos problemas de crescimento.

Areias já mais velho com os pais

Areias já mais velho com os pais

D.R.

O SC Espinho surge quando?
No segundo ano de juvenil. Fui lá porque tinha uns amigos que tinham jogado comigo no FC Porto. Eles foram para lá e eu também fui. Entretanto, tive um convite para vir para mais perto de casa, e nos dois anos de júnior fui para o Salgueiros. Era mais perto e também jogavam o nacional de juniores.

Já tinha deixado a escola?
Não. Vivia em casa dos meus pais, eles sempre me ajudaram a atingir o meu sonho de ser jogador, mas como não sabiam se dava ou não, sempre me disseram: "Podes jogar futebol, mas nunca vais deixar a escola, tens de conciliar, não se sabe o dia de amanhã”.

Fica na Salgueiros até que idade?
Joguei lá os dois anos de júnior.

Essa também é a altura dos namoros, das saídas à noite. Era muito dado a isso?
Sempre soube bem o que queria, tinha as minhas rebeldias como qualquer jovem, mas era tão focado em querer ser jogador que não me importava. Os meus amigos diziam-me “vamos sair à noite”, mas eu já sabia que não podia porque ou tinha treino ao sábado de manhã, ou tinha jogo ao domingo de manhã. Sempre tive aquele sonho e não deixava que as saídas à noite ou as namoradas me influenciassem nisso.

Quando passa a sénior vai para o Ermesinde.
No Ermesinde tive uma história curiosa. Estava no Salgueiros, que na altura não era o que é agora, era um clube que estava na I divisão. Era um clube onde muito dificilmente uma pessoa passava de júnior para sénior, e fui dispensado, era o normal, mas para mim foi um choque enorme, foi o momento mais difícil que tive no futebol. Andei ali um bocado na corda bamba e pensei: se calhar estou a fazer tudo para ser jogador, mas se calhar não tenho qualidade, ou não tenho jeito, ou não tenho sorte... Se calhar é melhor desistir.

Pensou mesmo em desistir?
Sim. Dos meus amigos, aqueles que jogavam comigo no plantel do Salgueiros, só subiu um ou dois aos seniores, o resto foi tudo embora. Fiquei muito triste, chegava a casa desanimado, uma pessoa sente-se um bocado sem rumo, não vê uma luz no fundo do túnel. As equipas já tinham começado os treinos e eu andava um bocado desanimado e de repente surgiu a hipótese de ir para o Ermesinde que era um clube que também ficava perto do Porto, com campo relvado e que tinha boas condições.

Areias jogou no Beira-Mar de 2000 a 2004

Areias jogou no Beira-Mar de 2000 a 2004

D.R.

Estreou-se como sénior no Ermesinde?
Sim. Assinei um contrato. Mas ganhava pouco, à volta de 80, 100 contos [400, 500€].

Lembra-se se havia alguma coisa que quisesse muito comprar com esse seu primeiro dinheiro?
Não, na altura nem ligava muito ao dinheiro, porque graças a Deus os meus pais nunca me faltavam com nada. As refeições eram sempre em casa, com a minha mãe a cozinhar, se queria alguma peça de roupa eles compravam, mas nunca fui de grandes excentricidades. Apesar de já ter 17, 18 anos quando subi aos seniores ainda tinha uma mentalidade de miúdo, ainda era muito ligado aos meus pais.

Como foi a sua estreia como sénior no Ermesinde? Correu bem?
Quando uma pessoa sobe aos seniores com 17, 18 anos e entra num balneário com pessoas de trinta e tal anos, é tudo muito estranho, mas deu-me para perceber o que era o futebol sénior, o que era a competição. Uma coisa completamente diferente do que tinha passado até aí e foi daquelas fases em que pensei: tenho de ser jogador, é isto que eu quero. Sempre gostei de ver todo o tipo de jogos, de I, II e III divisão e vivia obcecado em em ser jogador e chegar à I divisão. Deitava-me na cama a pensar: o que é que posso melhorar, o que é que posso treinar mais, mesmo obcecado, uma coisa mesmo doentia. Quando começavam as pré-épocas os meus colegas todos iam de férias e eu sempre a treinar, praticamente não tinha férias para chegar ao primeiro dia de treinos fosse qual fosse o clube e estar super preparado, porque sabia perfeitamente que tinha o meu futebol, tinha a minha qualidade, mas se calhar havia pessoas com quem tinha jogado e partilhado o balneário que tinham mais qualidade do que eu e que nunca conseguiram chegar lá porque não tiveram se calhar o empenho, a persistência e a dedicação que eu tinha.

Tinha consciência de que não era um fora de série.
Sim. Sabia que não era nenhum Maradona, nenhum craque, mas no empenho, na dedicação, no saber aquilo que eu queria, aí ninguém me podia ganhar. Acho que isso foi um dos grandes segredos de eu vir a ser profissional de futebol durante muitos anos, foi mesmo pela persistência, pelo profissional que era. Recordo-me perfeitamente dos meus colegas irem aquele mês de férias e eu ia de férias, mas 15 dias, três semanas antes de começarem os treinos já estava a correr no parque da cidade sozinho, não facilitava em nada para chegar ao primeiro dia de treinos e estar acima dos outros todos, porque sabia que só assim poderia sobressair e agarrar o comboio desde o início.

Depois da passagem pelo Ermesinde, o que acontece?
Surgiu a hipótese, através de um empresário, de ir para o Estrela de Portalegre. Esse empresário, o Jorge Leal, era também de Gaia, acompanhou mais ou menos o meu percurso na formação e nesse ano, no Ermesinde, veio falar comigo e disse "Acho que tenho aqui um passo importante para ti. Estás disponível para sair de casa, abdicar do conforto, para ir para Portalegre?".

Fez a formação no FC Porto, saiu e só regressou como sénior, em 2004/05

Fez a formação no FC Porto, saiu e só regressou como sénior, em 2004/05

D.R.

E vai para Portalegre.
Vou. Vou sozinho para o Alentejo, sem conhecer ninguém no plantel, sem conhecer nada, zero. Nos primeiros tempos quando acabava o treino e chegava ao quarto, havia vezes que chorava com saudades dos meus amigos, da minha família...Foi um bocado difícil no início mas a vontade que eu tinha em ser jogador superava isso tudo. Graças a Deus subimos de divisão, as coisas correram bastante bem e no ano a seguir é o momento chave de minha carreira.

Então?
Vou para a Ovarense, que era II divisão B. Estive lá dois anos. O primeiro foi espetacular, fiz a maior parte dos jogos. O ano a seguir foi outra época espetacular em que subimos de divisão, em que já tinha vários clubes, várias equipas da I e II liga interessados. Entretanto, troquei de empresário, porque o Jorge Leal era um empresário aqui de Gaia, movimentava-se bem com equipas da II divisão, e na altura apareceu-me o António Teixeira, empresário de Matosinhos. Contactou-me para assinar por ele que tinha várias equipas da I liga interessadas em mim.

Quais?
Na altura já tinha o Boavista, o Gil Vicente e o Beira Mar que foi para onde acabei por ir.

Porquê o Beira Mar?
Fui pela persistência deles, davam-me um contrato de quatro anos já a ganhar algum dinheiro. Foi também pelas informações que eu tinha do clube e pelo interesse do treinador, o António Sousa, em me contratar. Convenceram-me.

Também foi viver sozinho para Aveiro?
Sim.

Esteve quatro anos, sempre com o António Sousa como treinador. Gostou dele?
Imenso. Nos primeiros dois anos, como eu vinha da II B, fui jogando, mas não tanto como pretendia; os últimos dois anos foram espetaculares, fiz a maior parte dos jogos todos, tanto numa época, como na outra, a coisas estavam mesmo a correr-me muito bem.

Areias foi chamado por José Mourinho mas nunca jogou com ele

Areias foi chamado por José Mourinho mas nunca jogou com ele

Reuters

Das quatro épocas quais são as memórias mais fortes que tem?
As melhores foram dos dois últimos anos porque desportivamente foram os anos que me correram mesmo bem, estava a jogar regularmente, era I divisão, comecei a ser reconhecido na rua. Eu sentia que estava a realizar um sonho. Parti muita pedra até chegar lá e foi aí que comecei a sentir que estava a realizar aquilo com que sempre sonhei desde miúdo.

Quando e como se definiu a sua posição em campo?
Até aos juvenis jogava sempre a médio esquerdo. No Alvarense, o treinador Bruno Cardoso teve uma conversa comigo e confesso que na altura fiquei um bocado chateado, porque eu achava que tinha mais condições para jogar a médio. Mas bem dita a hora em que ele me disse: "Tu podes fazer uma carreira espetacular a defesa esquerdo". Naquele momento fiquei um bocado chateado porque gostava de jogar mais à frente para ter mais oportunidade de marcar golos, mas o que é certo é que ele tinha razão. No último ano no Alvarense nós tínhamos uma equipa muito boa, uma equipa ofensiva e os laterais tinham de subir muito e eu joguei a época toda a defesa esquerdo e foi aí que fui para o Beira Mar, também nessa posição, como lateral esquerdo.

Não tem histórias do Beira Mar que possa partilhar?
No Beira Mar tenho recordações espectaculares. Tínhamos sempre grupos de trabalho fantásticos, éramos uma verdadeira família. É difícil estar a dizer nomes porque posso estar a ser injusto. Recordo como um clube espectacular, estabilizado, na altura o presidente era o Mano Nunes, nunca nos faltou com nada, pagava sempre a tempo e horas, proporcionava condições de trabalho, o treinador António Sousa sempre me ajudou, apesar de nos dois primeiros anos não ter jogado tanto como pretendia, conversava comigo, que ia chegar lá, que ia chegar a minha oportunidade e realmente veio a acontecer.

E histórias engraçadas, nada?
Uma vez estávamos em estágio e ligamos para o quarto do Fary a fingir que éramos jornalistas. Ele fartou-se de falar, falou, falou [risos]...Tínhamos um grupo muito unido, muito solidário, dávamo-nos muito bem uns com os outros dentro e fora do campo.

Fotografado esta semana no Porto

Fotografado esta semana no Porto

Rui Duarte Silva

Como é que surge o FC Porto novamente na sua vida?
Como já contei, sou portista desde miúdo, o meu pai fez-me sócio no dia em que nasci, e eu também já pus o meu filho sócio do FC Porto. Mas foi assim, os dois últimos anos no Beira Mar estavam-me a correr muito bem, estavam a aparecer vários clubes e um dia, nunca mais me esqueço, estava a almoçar em Aveiro, naqueles dias em que tínhamos treino de manhã e de tarde, toca o telefone, eu atendo. "Boa tarde, olhe vou-lhe passar aqui uma pessoa que quer falar consigo". E eu "Sim, mas quem é?". Passou-me: “Areias, é o presidente [Pinto da Costa]”, reconheci logo a voz. "Tive uma reunião com o Mourinho sobre os reajustamentos do plantel agora em dezembro e o Mourinho quer que tu venhas para aqui já em janeiro". Na altura acho que era o Nuno Valente que estava lesionado, assim qualquer coisa. E eu, como deve imaginar, parecia que estava num sonho. O presidente a ligar-me para ir para o FC Porto.

Aí é que lhe tremeram as pernas?
Ui, mas é que foi mesmo [risos]. O presidente a ligar-me, a dizer que " quero que tu venhas em janeiro, se não for em janeiro, quero que seja para o ano seguinte. O Mourinho quer muito que tu venhas para aqui". O Mourinho gostava de laterais altos. "O Mourinho está a acompanhar-te há bastante tempo, ele gosta imenso de ti, não te preocupes com nada, é só para te dar a informação de que nós vamos fazer tudo para venhas para aqui". Eu abri-me com ele: "Como deve imaginar, eu sou um portista doente e um sonho que tenho é jogar no FC Porto". Só que na altura o presidente do Beira Mar não tinha assim muito boas relações com o FC Porto. Na altura o Beira Mar tinha muito boas relações com o Luís Filipe Vieira. Tanto é que depois o Fernando Aguiar, o Cristiano, havia muitos jogadores que transitavam para o Benfica e vice-versa, como o Diogo Luís, Toni. E o presidente Pinto da Costa disse: "Eh pá, temos de fazer alguma estratégia porque o presidente do Beira Mar, não pode saber que é para o FC Porto que tu vens". Na altura, fingiu-se que eu ia para a Turquia. O Beira Mar na altura que me vende nunca imaginou que era para o FC Porto.

Quando perceberam que era para o FC Porto qual foi a reação?
Ficaram um bocado chateados e eu também fiz o meu papel: "Chegou aqui um empresário que quis comprar o meu passe, vocês venderam. Eu na altura não sabia bem ao certo para onde é que era". Mas hoje já sabem da história e compreendem como é lógico.

Areias foi emprestado pelo FC Porto ao Boavista em 2005/06

Areias foi emprestado pelo FC Porto ao Boavista em 2005/06

D.R.

Mas quando chega ao FC Porto já não lá está o José Mourinho.
É uma das minhas grandes mágoas. Eu estava para ir para o Porto em janeiro. Acabou por não se proporcionar primeiro porque pensavam que a lesão do Nuno Valente era muito grave e afinal não era tão grave quanto isso; e o Beira Mar nas primeiras abordagens não me vendeu. Não chegaram a acordo e não me vendeu. Mas eu, tranquilo, porque já tinha assinado um pré-acordo para assinar por quatro anos na próxima época. Portanto fiquei um bocado triste, mas depois também pensei, não é em janeiro é em junho. Mas uma das grandes mágoas da minha carreira é precisamente isso, é que sou contratado pelo Mourinho que já era um dos melhores treinadores, e ia concretizar dois sonhos. O de jogar no FC Porto e com o Mourinho. Entretanto nesses seis meses, o FC Porto ganhou a Liga dos Campeões, ganhou tudo e mais alguma coisa e houve uma debandada no plantel. Saem o Mourinho, o Paulo Ferreira, o Ricardo Carvalho, o Deco, o Pedro Mendes, o Alenichev, uma debandada total no plantel. Quando chego ao FC Porto no início da época não encontro nada do que estava em janeiro. Chega o Del Neri, depois vem o Victor Fernandez, depois o José Couceiro, os jogadores que ficaram estavam todos a querer sair porque sentiam que tinham mercado. Na altura, o Costinha, o Maniche, malta que também ganhou a Liga dos Campeões, que estavam bem valorizados, aparecia-lhes contratos para ganhar três e quatro vezes mais e o presidente não podia vender, porque não podia vender a equipa toda, só vendeu meia dúzia.

Desses três treinadores com quem é que se entendeu melhor e pior?
É assim, o Del Neri só esteve na pré-época. Lembro-me que fomos para o Canadá e para os Estados Unidos numa digressão e quando chegámos ele foi despedido, foi embora. Não posso dizer que gostei, nem que não gostei dele. Ele não chegou a fazer nenhum jogo oficial para a gente perceber o que é que ele queria. Particularmente, não encontro nada que não tenha gostado de trabalhar com ele. Acho que ele caiu um bocado mal no grupo porque cometeu erros.

De que género?
Ele estava a chegar a um clube que tinha acabado de ganhar a Liga dos Campeões e reunia os jogadores numa sala a mostrar vídeos do Verona, a equipa que ele estava a treinar antes de ir para o Porto. Imagine ele a falar para o Jorge Costa, para o Costinha, Vítor Baía ou Maniche e dizer: "Eu quero que a equipa jogue assim.". Quer dizer, eles acabaram de ganhar a Liga dos Campeões e ele queria pôr a equipa a defender como a de Verona? Acho que não foi muito inteligente da parte dele. E na altura aquilo começou a criar um bocado de anticorpos, ainda por cima ele tinha um feitio um bocado do “eu quero, posso e mando” e mesmo com os brasileiros, o Derley e o Carlos Alberto, começou a haver choque e viu-se logo que ele não ia ter muita sorte ali. Entretanto, não sei bem o que é que se passou ao certo, mas quando chegámos a Portugal dessa digressão, houve um ou dois dias de folga e quando voltamos para treinar no Olival, ele já não era o treinador. A passagem dele foi curta.

Seguiu-se o empréstimo ao Standard de Liége

Seguiu-se o empréstimo ao Standard de Liége

D.R.

Vem Vítor Fernandez.
E tive sorte, fui jogando com ele, ainda fiz 14 jogos. Na Liga dos Campeões lembro-me que joguei em casa com o CSKA de Moscovo, joguei com o Chelsea no último jogo os 90 minutos e ganhámos 2-1, passámos aos oitavos de final. Concretizei vários sonhos com ele, joguei na Champions, no campeonato, na Taça, fui jogando. Mas a equipa tinha perdido os melhores jogadores e identidade, e os resultados não estavam tão bons como na época anterior. Mesmo assim ganhámos a Supertaça, a Taça Intercontinental e perdemos o campeonato na última jornada, o Benfica veio ganhar ao Bessa [correção: o Benfica empatou 1-1 com o Boavista]. Até foi uma vergonha porque o diretor do Estoril era o José Veiga, que estava ligado ao Benfica [correção: José Veiga era diretor do Benfica], e o Benfica foi jogar com o Estoril para o Algarve e tudo, a três ou quatro jornadas do fim, uma vergonha. Mesmo assim, perdemos o campeonato na última jornada porque o Benfica veio ganhar ao Bessa e também se ouviram histórias um bocado manhosas desse último jogo. Mas, como estava a contar, o Fernandez foi embora e a dois, três meses do final da época vem o José Couceiro. A nível pessoal não foi bom, porque deixei de jogar. Tinha as opções dele.

Jogou ao lado de Jorge Costa.
Sim. O Jorge é uma instituição. Joguei com ele no FC Porto, e era um capitão, mas depois eu saio para o Boavista e o Jorge vai para o Standard de Liège, para onde eu também vou depois quando está o Jorge quase a sair. Quando ele saiu aproveitei e fui viver para a casa dele. É uma pessoa espetacular.

Gritava muito consigo em campo?
Muito. Sempre a gritar, sempre a corrigir os colegas. Uma pessoa chega do Beira Mar e leva uma dura do Jorge Costa aos berros no início e treme um bocado [risos]. Mas depois habitua-se àquilo e percebe que é para o bem de todos, da equipa, para nos acordar. São referências, são jogadores que uma pessoa tem de admirar e respeitar sempre. Agora não nego que no início quando levava duras dele, tremia um bocado, mas era o feitio dele. "Acorda miúdo, acorda, isto é para andar, isto não é o Beira Mar", eram duras desse género.

O Couceiro explicou-lhe porque não o colocava a jogar?
Nem sequer falou comigo, não me deu justificação, nem eu sinceramente o procurei, eram as opções dele. Na altura jogava o Nuno Valente, que era um jogador de seleção, mais experimentado do que eu, a realidade é essa.

No Porto em 2020

No Porto em 2020

Rui Duarte Silva

A seguir chega Co Adriaanse.
Eu sabia que não tendo jogado muito na parte final da época, e apercebendo-me que o FC Porto tinha comprado outros brasileiros para a posição, seria difícil a minha continuidade. Continuou o Nuno Valente e contrataram um brasileiro, o Leandro.

O que fez? Falou com o seu empresário ou com alguém do clube?
As duas coisas. Tinha várias possibilidades para ir para fora.

Para onde?
Para Espanha e para outros clubes, agora já não me recordo bem quais, em Portugal. Fui para o Boavista. Falei com o presidente, com quem sempre tive uma boa relação, é uma pessoa que admiro muito. Para ser sincero, se ainda hoje encontrar ou falar com o presidente, não sei, parece que uma pessoa vê Deus à frente, fico um bocado nervoso ainda hoje. Na altura falei um bocado com o presidente e ele aconselhou-me :"Olha vais jogar para o Boavista, é aqui perto de casa". O treinador era o Carlos Brito, que demonstrou muito interesse que eu fosse para lá. Isto no futebol uma pessoa nunca sabe, mas tinha mais ou menos a garantia de que ia jogar, o que veio a acontecer, fiz trinta e tal jogos na época. Era o que eu precisava, as coisas correram-me muito bem, valorizei-me. O Boavista era um clube muito mais estabilizado do que é agora, lutava sempre pelas competições europeias, tinha sido campeão nacional há poucos anos, portanto foi uma boa opção. Acabou a época, ainda estava naquela, fico, não fico no FC Porto, estava naquela esperança e há um dia em que estou de férias e o presidente liga-me: "Areias, passa aqui no meu escritório, está aqui uma pessoa que quer falar contigo."

Quem era?
O Luciano D’Onofrio, que era na altura o presidente e dono do Standard de Liègé. O presidente disse-me: “Tens aqui uma possibilidade de ires para a Bélgica". Na altura fui um bocado apanhado de surpresa. "Isto é um clube grande, estão lá portugueses. É para lutar para ser campeão, o campeonato da Bélgica é forte, é bom para ti...". E eu "Olhe presidente, eu queria ficar no FC Porto mas se me está a dizer isso, OK ". E pronto, fui jogar para o Standard de Liège.

Areias foi emprestado ainda pelo FC Porto ao Celta de Vigo, em 2006/07

Areias foi emprestado ainda pelo FC Porto ao Celta de Vigo, em 2006/07

D.R.

Foi sozinho ou já tinha constituído família?
Fui sozinho.

Como foi quando lá chegou?
Custou-me imenso a adaptação, um país um bocado frio. Recordo-me que treinávamos de manhã, acabava o treino, ia almoçar na maioria das vezes com o Rogério Matias, o Nuno André Coelho e o Sérgio Conceição. Estávamos sempre juntos, o que era importante para a adaptação. O Sérgio já estava lá desde o ano anterior, os outros é que estávamos a chegar. O Sérgio foi muito importante para a nossa adaptação.

Ainda apanhou o Sá Pinto?
Apanhei mais tarde. Com dois, três meses de época chega o Sá Pinto.

E os treinadores? Chega com o Boskamp, mas depois vem Preud'homme.
Não gostei nada de trabalhar com o Boskamp, as coisas não me estavam a correr bem, não estava feliz, já estava a pensar em vir embora. Treinava de manhã, íamos almoçar, saíamos do restaurante por volta das três, quatro horas já estava de noite, uma vida mesmo horrível. Não estava a gostar do país, sempre frio e chuva. Falei com o meu empresário que me disse: "Tem calma, isto mal começou". Mas não estava a jogar, as coisas não me estavam a correr bem, estava um bocado stressado, ansioso, a pensar se teria tomado a melhor decisão. Entretanto esse treinador vai embora e entra o Preud’homme e as coisas mudam de uma forma radical. Na entrada dele joguei logo no primeiro jogo, as coisas começaram a correr bem, comecei a jogar sempre, os resultados estavam a aparecer e a meio da época, quando nós estávamos a jogar a Liga Europa, jogámos contra o Celta de Vigo dois jogos, faço uma eliminatória espectacular e como as pessoas do Celta de Vigo sabiam que eu estava emprestado pelo FC Porto, falaram com o FC Porto para eu ir para Vigo. O presidente falou comigo; “Vigo é uma cidade a uma hora e tal do Porto, é pertinho. É I liga espanhola, tem visibilidade"... E fui.

Antes disso, quando estava no Standard de Liège não chegou a ser cedido à Juventus?
Essa história da Juventus é assim: estava bem, com confiança e o campeonato parou duas semanas, se não estou em erro, por causa das seleções. O Standard de Liège tinha um protocolo com a Juventus em que dois jogadores do Standard iam fazer um jogo de solidariedade, de angariação de fundos para uma instituição em Itália, um Juventus-Roma. Um dia, quando acabou o treino, o Michel Preud´homme chamou-me: "Há um protocolo entre o Standard e a Juventus, pediram-nos um lateral esquerdo e um médio. O que é que tu achas de ires fazer esse Juventus-Roma?". Eu fiquei assim um bocado: "Está a falar a sério ou está a brincar comigo?". "Estou a falar a sério, é um protocolo. Vais lá, fazes o joguinho, eles vêm-te aqui buscar, e para a semana estás a treinar outra vez tranquilo”. Até tivemos um vôo privado, eu e o meu colega.

Como foi?
Foram dois ou três dias diferentes, Partilhar o balneário com jogadores como o Del Piero, como o Nedved, tudo do bom e do melhor, avião privado. Treinei com a equipa quando cheguei, no dia a seguir viajamos para jogar numa cidade perto de Roma. O treinador era o Dechamps, que é agora o selecionador de França, recebeu-me bem, falou comigo, joguei os 90 minutos. "Joga à vontade, tranquilo, isto não se trata de uma observação, reconhecemos o teu valor e pedimos que viesses, desfruta do jogo". Ter vestido a camisola da Juventus, parecia um sonho.

À beira mar, esta semana

À beira mar, esta semana

Rui Duarte Silva

Estava a contar que depois foi para o Celta de Vigo. Como é que foi o impacto quando chegou? Era o que estava à espera?
Adaptei-me bem porque Vigo é uma cidade muito parecida com o FC Porto. É uma cidade que tem praia, não tem nada a ver com Liège e também o facto de estar a uma hora de carro do Porto, ajudou. Quando podia vinha a casa. Fui muito bem tratado, muito bem recebido, foi bom, passados três dias joguei logo a titular contra o Espanhol de Barcelona. Apesar de ter tido um problema no pé que levou a que mais tarde tivesse de ser operado, quando cheguei ao Belenenses. No ano a seguir vou para o Belenenses com o Jorge Jesus.

Mas o que é que aconteceu ao pé?
Tinha um osso que estava saído debaixo do calcanhar, chama-se esporão calcâneo. Tiveram de abrir-me o pé e raspar o osso porque me causava muitas dores. O pessoal lá do Celta de Vigo não me deixou operar, mas o certo é que não conseguia treinar, tinha dores horríveis. Lembro-me de ir a várias consultas com podólogos diferentes para ouvir outras opiniões, eles davam-me aquelas talonetes de silicone para treinar. Fazia tudo e mais alguma coisa, mas não conseguia treinar, tinha umas dores horríveis e as coisas desportivamente não correram bem porque fiquei mesmo impedido de jogar.

Quem era o treinador quando chegou?
O Fernando Vasquez. Foi ele que me contratou e pôs a jogar. Ele depois foi embora porque os resultados não estavam famosos e veio o Stoichkov. Raramente treinei com ele, porque já estava com essa dor. No ano seguinte, quando vou para o Belenenses, eles fazem-me exatamente os mesmo exames e dizem-me logo que tenho de ser operado. Fui operado e passados dois meses já podia treinar novamente.

Areias (à esquerda) já como jogador do Trofense

Areias (à esquerda) já como jogador do Trofense

Reuters

E que tal o Jorge Jesus?
É uma figuraça. Completamente obcecado pelo treino, vive futebol 24 horas por dia. Para ele não existe mundo à volta. Recordo-me de um episódio. Na altura do natal há ali três, quatro dias de folga. E os brasileiros Roncatto, Hugo Alcântara, Weldon, naquelas brincadeiras de balneário começaram a picar o Amaral, outro brasileiro que estava lá há mais tempo: "Oh Amaral, vai lá falar com homem a ver se nos dá mais um dia para ver se a gente vai ao Brasil passar o Natal com a família". Até que há um dia em que o Amaral ganhou coragem. Maldita a hora em que ele vai lá [risos]. Bateu à porta: "Oh mister, preciso falar consigo". "Entra aí". "Oh mister é o seguinte, nas férias vamos ter três quatro dias e era para ver se o mister dava mais um dia para passarmos natal com a família". O Jesus levanta-se aos berros :"Família? Que família, caralho, pensa mas é no treino" [risos]. Isto é só para ter noção de como ele era obcecado pelo treino.

Mas tem sucesso.
O Jesus é incrível, ele estuda a outra equipa ao pormenor, é muito forte na organização defensiva. Lembro-me que quem jogava contra nós tinha facilmente 10, 15, 20 foras de jogo, por jogo. E aquilo era trabalho. Ele é muito perfeccionista e havia dias que uma pessoa chegava a casa farto de o ouvir gritar, farto de o ouvir. Por que ele é bruto, é a maneira dele ser, nao deixa a pessoa adormecer um segundo, mas o que é certo é que ele tem resultados. Agora, é muito, muito, muito desgastante trabalhar com ele. Quem trabalha com ele mais do que uma época...Deus me livre. É muito desgastante. Normalmente com os outros treinadores uma pessoa treina tipo à terça de manhã, à quarta de manhã e de tarde, quinta só de manhã. Com ele é terça de manhã e à tarde, quarta de manhã e à tarde, quinta de manhã mas vai-se almoçar, sexta é treinos de manhã e banhos e massagens à tarde. Quer dizer, uma pessoa acaba o treino de manhã e não pode fazer logo banhos e massagens, ir almoçar e ter a tarde livre? Não. Ele faz questão mesmo de prender lá uma pessoa. Ele como vive aquilo 24h também quer que os jogadores estejam lá. Mas pronto é a maneira de ele ser e o sucesso é a olhos vistos, se calhar neste momento é um dos melhores treinadores do mundo, o resto é letra. Mas é muito desgastante trabalhar com ele, há dias em que uma pessoa nem o pode ver à frente.

Essa época como é que termina para si?
Como lhe disse perdi o comboio no início porque tinha sido operado, lutava pelo lugar com um brasileiro o Rodrigo Alvim. Houve uma altura em que joguei, depois deixei de jogar, depois voltei a jogar. Eu fui emprestado ao Boavista, ao Standard Liége e ao Celta de Vigo e ao Belenenses pelo FC Porto. Quando terminou o vínculo com o Belenenses, deixei os empréstimos pelo FC Porto, acabou o contrato com o FCP. O Jorge Jesus foi para o SC Braga e surgiu a hipótese de continuar no Belenenses, mas tive uma proposta muito boa de uma equipa aqui do norte que tinha subido à I Liga com muito boas condições financeiras, o Trofense. Fizeram-me uma boa proposta e aceitei.

Teve como treinadores o Toni Conceição e o Tulipa. Jogou mais com qual deles?
Com os dois. Só que tive o meu grande azar da carreira, fui operado aos ligamentos cruzados, num jogo Trofense Nacional da Madeira dei cabo do joelho. Fiquei parado mais de seis meses. Muito tempo mesmo. Primeiro porque diziam que não era preciso ser operado bastava reforço muscular, mas não tive outra hipótese e tive mesmo de ser operado e fiquei parado muito tempo. Na época seguinte nem joguei nem nada.

Areias a cabecear a bola sob olhar de um jogador do FCP

Areias a cabecear a bola sob olhar de um jogador do FCP

Reuters

Época seguinte essa que já foi no Leixões.
Exactamente. O mister Inácio estava no Leixões e convidou-me a ir para lá. Disse-lhe que não sabia se estava em condições. Ele disse para ir, fazer uma semana ou duas a ver como estava. Ele deu-me a volta à cabeça. Aceitei. Foi o último ano da carreira. As dores nunca passaram. O meu joelho nunca mais foi a mesma coisa. Ainda hoje se fizer uns jogos com uns amigos no sintético, inflama-me sempre o joelho.

Decidiu naturalmente pendurar as chuteiras no final dessa época no Leixões, tinha 34 anos. Custou-lhe muito?
Custou. Quando eu tinha 26, 28 anos sempre pensei que ia ter uma carreira longa, até aos 36, 37 anos, a um bom nível, porque eu não fumava, não bebia, não era muito de sair à noite. Sinto que isto "matou-me", tirou-me a alegria de jogar porque eu acordava de manhã para ir para o treino e era um desconforto, uma dor e foi-me matando aquela alegria de acordar de manhã e ir para o treino, desfrutar do treino. Na altura em que acabei ainda tive uma proposta ou outra, só que estava a ser mau profissional se aceitasse porque sabia que não ia corresponder, já não tinha aquela ambição que uma pessoa tem que ter porque treinava em sofrimento.

Já tinha pensado no futuro? Sabia o que queria fazer após a carreira de futebolista?
Sabia que iria ser qualquer coisa relacionada com o futebol porque é o que fiz a vida toda e fui tirando os cursos de treinador. Estava no Boavista e tirei o nível I, depois fui tirar o nível II e surgiu a hipótese de ir para a formação do FCP, onde já estou há cinco anos.

Mas entre acabar a carreira e ir para o FCP passaram quatro anos. O que fez nesse período?
Não fiz grande coisa. Observava jogos, estava numa fase de reflexão, a ver o que queria fazer. Tive convites de empresários para trabalhar com eles na observação de jogadores. Só que senti que não era aquilo que verdadeiramente queria.

Ainda continuava solteiro?
Entretanto casei e já me separei. Casei tarde, porque como andei sempre com a casa às costas as coisas não se proporcionaram e também sempre gostei de andar mais na minha, digamos assim. Casei já na parte final da carreira, tenho um filho de seis anos, o Tiago, e separei-me quando ele tinha dois anos, por aí. Ele é que é o amor da minha vida. Estou com ele praticamente todos os dias. Tenho uma relação boa com a mãe dele, cada um seguiu a sua vida, mas somos amigos.

Com o filho Tiago, de seis anos

Com o filho Tiago, de seis anos

D.R.

Como surge o convite do FC Porto? Através de quem?
Sempre acompanhei a vida do clube e uma vez estava a ver um jogo e encontrei um diretor do FC Porto, ele perguntou-me o que eu estava a fazer, disse-lhe que gostava de ser treinador, que já tinha o nível II do curso e ele disse-me para lá ir no dia seguinte. Assim foi, e meteu-me como adjunto do Vitor Severino, nos sub-15, uma pessoa espetacular, aprendi imenso com ele. Ele agora está no Shakhtar Donetsk com o Luis Castro. E assim começou a minha aventura, já lá estou há cinco anos, já trabalhei com várias pessoas. O ano passado tirei nível III. E estou a contar fazer o IV nível, inscrevi-me mas fiquei como primeiro suplente. Estou com o bichinho de treinador e quero seguir esta carreira.

Qual é a sua maior ambição agora?
Evoluir. Sinto que estou a evoluir no FCP, estou a trabalhar com pessoas muito competentes que me fazem evoluir. Quero aprender e preparar-me cada vez mais para ter outro tipo de visibilidade. Se me perguntar se quero ser treinador principal, nem se trata disso, eu quero é sentir-me útil, seja como treinador principal ou como adjunto. Estou realizado porque estou no clube do meu coração, mas quero algo mais para mim, não me quero acomodar a estar sempre ali na formação. Quero algo mais e sinto que estou no clube perfeito neste momento para aquilo que pretendo.

Areias tem 43 anos e é treinador-adjunto na formação do FC Porto

Areias tem 43 anos e é treinador-adjunto na formação do FC Porto

Rui Duarte Silva

Onde ganhou mais dinheiro?
Standard de Liège, porque ganhava pelo FCP e ainda me deram mais algum.

Investiu-o em quê?
Nunca fui de arriscar muito. Sempre fui mais de meter o dinheiro no banco, tenho a casa e o carro pago, a vida estabilizada.

Qual a maior extravagância que fez?
Onde eu gastava mais dinheiro porque era o que me realizava e ainda hoje realiza, é nas viagens.

Alguma que o tenha marcado mais?
Brasil, México e Republica Dominicana.

O sítio mais bonito onde esteve?
Cada um com os seus encantos, mas talvez Brasil, Salvador da Bahia e a ilha do Sal, em Cabo Verde.

É um homem de fé?
Sim. Sou católico, não vou à missa, mas sou daquelas pessoas que tenho uma fé grande em deus e quando estou ansioso, gosto de pedir a Deus para mim próprio.

Tem ou teve alguma superstição?
As coisas normais de me benzer. Se estacionava o carro num lugar na garagem do Dragão e ganhava o jogo nesse dia, na semana a seguir se o lugar estivesse vago era capaz de estacionar lá o carro.

Tatuagens?
Não.

Tem algum hóbi?
Sempre colecionei cromos e agora voltei a isso por causa do meu filho. Adoro tudo o que é desporto. Num sábado sou capaz de ver o FCP em basquete, em hóquei, em futebol, sou obcecado e adoro ver jogos de todas as modalidades e não me canso.

Numa foto recente depois de ir ao barbeiro com o filho Tiago

Numa foto recente depois de ir ao barbeiro com o filho Tiago

D.R.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Sinto-me um privilegiado porque sempre sonhei jogar no FC Porto e tive a possibilidade de jogar na formação do FC Porto, ser sócio do FC Porto e agora ser treinador da formação do FC Porto.

Do que mais se arrepende na carreira?
Não se trata de arrependimento, mas de uma mágoa que tenho, o facto de ter sido contratado pelo mister Mourinho e não ter sido treinado por ele.

A maior alegria e frustração?
A maior alegria foi o dia em que o presidente me ligou a transmitir interesse em querer-me contratar. A maior frustração o dia em que fui dispensado quando estava na formação do FC Porto.

Representou várias seleções mas nunca chegou à seleção A.
É verdade. Mas estive na B que era quase uma seleção A. Não tive o privilégio de ser internacional A, mas posso dizer que vesti a camisola da seleção.

Qual a sua maior referência hoje enquanto treinador?
Sérgio Conceição.

Nota: entrevista corrigida às 15h37 de sábado, 21 de novembro, devido a imprecisões do entrevistado relativas ao resultado do Boavista-Benfica da última jornada da I Liga de 2004/05 e das funções que atribuiu a José Veiga, antigo diretor do Benfica.