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A casa às costas

“Na Guatemala, um tipo apontou-me a arma à cabeça e perguntou se sabia o que era Roleta Russa. Disse-lhe que comia armas ao pequeno-almoço”

As peripécias do treinador Guilherme Farinha pelo mundo incluem armas, rajadas de metralhadora, jogadores que se vendem por tuta e meia, passaportes roubados e retidos, fugas, encontros com Nino Vieira e o 3.º homem mais rico do Paraguai e também com Roque Santa Cruz, ciclismo e a morte de Joaquim Agostinho. São 64 anos de vida, quase tantos como os episódios que conta nesta entrevista, como ele diz, sui generis

Alexandra Simões de Abreu

José Fernandes

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Nasceu em Lisboa. Filho de quem?
A minha mãe, Marília Gomes de Almeida de Oliveira Farinha, foi uma pessoa dedicada à cultura, era poetisa, publicou alguns livros de poesia. O meu pai, Fiel Farinha, foi gerente de três empresas e chegou a ser vice-presidente do Sporting no tempo do João Rocha; foi diretor do Sporting durante alguns anos, também chegou a ser presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs gémeas mais novas quatro anos.

Como surge o futebol na sua vida?
Eu estava na barriga da minha mãe e ela já dizia ao meu pai: "Quando este bebé nascer vai ser jogador de futebol porque dá-me tantos pontapés" [risos]. Por isso costumo dizer que comecei a jogar futebol ainda na barriga da minha mãe. A verdade é que a primeira palavra que falei quando era bebé foi “bola”. Comecei a jogar com oito anos no futebol escolar, aos 13 anos fui ao Sporting para uma captação de futebol e fiquei. O meu primeiro treinador foi o Mário Lino. Só que eu andava a estudar num colégio, as notas começaram a baixar e o meu pai disse logo: "O menino está a estudar para uma profissão, seja ela qual for e não o quero jogador de futebol". Tirou-me do futebol e eu, por raiva, apareci nos torneios de captação do atletismo do Sporting. Porque eu gostava de educação física e era essa a área que queria seguir.

E fez atletismo?
Sim, com 14 anos fiz 1m58,08 nos 700m, uma boa marca. O Moniz Pereira gostou da marca. Fiquei até aos 18 anos no atletismo do Sporting. Mal fiz 18 anos, o meu pai fez-me a emancipação plena, também por interesses dele nas empresas das quais fez-me sócio, e eu aproveitei e disse-lhe: "Pai, desculpa lá, mas o meu ADN e o que gosto é de futebol. Gosto muito de atletismo e ciclismo, mas a minha vida é futebol". E voltei ao futebol. Mas aqueles quatro anos que estive fora do futebol, dos 14 aos 18 anos, foram péssimos. Joguei nos distritais de Lisboa, tive como treinador o Luís Norton de Matos e como preparador físico o Aparício, bons de nome, mas num clube de bairro de Lisboa, distrital. E depois fui para a Holanda jogar futebol num clube de II divisão.

Guilherme Farinha com os pais

Guilherme Farinha com os pais

D.R.

Como é que vai parar à Holanda?
Uma das minhas irmãs casou-se com um holandês. Ela casou cá, mas também houve uma festa na Holanda a que também fui. Ele gostava muito de futebol, era guarda-redes e enquanto estávamos lá perguntou-me se queria treinar com ele. Fui treinar, eles gostaram muito de mim, perguntaram-me se não queria ficar lá a jogar futebol. Eu disse que sim. Disse ao meu pai que já não regressava com a família a Portugal que ficava na Holanda a jogar futebol. E assim foi. Isto em 1978.

E depois da Holanda?
Ainda na Holanda, um dia, a jogar futebol sem um bom aquecimento porque tinha muita flexibilidade, pratiquei artes marciais, fui 1º Dan de Taekwondo, facilitei; fiz uma espargata numa estupidez de jovem, e ao fazê-la sem um bom aquecimento fiz uma ruptura total do isquiotibial. Tinha 25 anos, quiseram operar-me mas eu disse que não: para mim, o futebol de competição terminou. Em 1981-1982 tenho possibilidade de treinar o K.S. Broekhoven, a primeira equipa e o alto rendimento, que corresponde aos juniores, e fui campeão da Holanda do alto rendimento. Querem que eu fique, mas decidi voltar para Portugal. Entretanto treinei os juniores do Sport Lisboa e Fanhões, mas em 1985-86 o mesmo clube holandês, da cidade de Tilburg, pede-me para voltar, treinar novamente a primeira equipa e coordenar o futebol. Volto à Holanda fico lá até 1987. Depois por questões familiares e saudades de Portugal, regressei. Podia ter ficado na Holanda porque fui convidado para treinar uma equipa da I divisão, mas sabia que se o fizesse não voltava, ficava lá a viver. E quis regressar a Portugal.

Já tinha casado?
Casei com uma holandesa que era uma das irmãs do marido da minha irmã. Ela era médica. Casamos em 1980, mas divorciámo-nos em 1987. Posso dizer que me divorciei por causa do futebol. Tivemos uma filha, da qual já tenho um neto. Entretanto, quando vim para Portugal juntei-me com uma senhora, a Maria Fernanda, que está comigo há 33 anos. Dessa união tenho outra filha. A Maria Fernanda tem sido uma grande mulher, a sofrer muito, porque estou a trabalhar fora de Portugal há 28 anos e ela ficou sempre cá, nunca me acompanhou. Eu só vinha cá de férias, praticamente não conheço a nossa filha que tem 31 anos. O meu pai quando faleceu, eu estava em África e nem fui ao funeral dele; com a minha mãe passou-se o mesmo, quando ela faleceu eu estava no Paraguai e nem fui ao funeral dela. Foi complicado. Por isso gostava de treinar em Portugal para estar mais perto e mais tempo com a família.

Em 1987 quando veio para Portugal, o que foi fazer?
Vim treinar o Vitória Clube de Lisboa da III divisão. Daí fui para o FC Oliveira do Hospital e em 1990 saiu do país e vou definitivamente.

Com a mãe Marília Farinha

Com a mãe Marília Farinha

D.R.

Vai para a Guiné-Bissau, certo?
Exatamente. Há a necessidade de ir um técnico português para a cooperação bilateral e para organizar o futebol juvenil da Guiné Bissau, que não existia. Houve várias entidades a decidir quem era o treinador. Passou pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, passou pela Direção Geral de Desportos, liderado pelo prof. Mirandela da Costa, pela Federação Portuguesa de Futebol, passou pelo major Valentim Loureiro que era o cônsul de Portugal na Guiné. E decidiram eleger-me. Foram quatro anos lá.

Que memórias tem desses quatro anos?
A nível de futebol, ganhamos os 1º Jogos Desportivos de Língua Portuguesa na final, a Portugal; estivemos quase para ser campeões do mundo de Tóquio 1993, em sub-17. Ainda hoje me convidam na Guiné para falar de futebol em vários programas da rádio. Por isso foi, quiçá, dos melhores trabalhos que fiz na minha vida de treinador sem ter grandes condições. Isso marcou-me. Organizei todas as categorias e escalões etários dos campeonatos nacional da Guiné. Foi um trabalho muito exausto. O que mais me custava era estar com os meus colegas guineenses, que também os capacitei, e quando perguntava por alguns meninos eles respondiam "Prof. desculpe mas tenho de informar que o menino morreu". Morreram vários miúdos, desidratados ou com alguma doença, dos oito aos 12 anos. Foi o que mais me custou. Ver crianças com talento muito grande para o futebol de um momento para o outro a desaparecer e nunca mais os ver. Foram dezenas de casos e isso marcou-me.

Histórias desses tempos, não tem?
Muitas. Lembro-me que eu gostava de correr, a maior parte das vezes ia de minha casa para o estádio 24 de setembro a correr, trabalhava, e ao final do dia voltava a correr. Eram 6 kms no total. O general Nino Vieira, presidente da Guiné, gostava de jogar ténis e quando se deslocava ia sempre com muitos militares à frente e atrás, a fazer a escolta. Ele quando me via, parava o carro, mandava os militares afastar-se e ficávamos a conversar 10, 15 minutos no meio da estrada [risos]. Ele fez-me uma homenagem por termos sido campeões e ganharmos os Jogos Portugueses, em Portugal, mas também pelo bem que estava a fazer a toda a juventude da Guiné Bissau.

Sentado no capot do carro junto do pai, no antigo Congo Belga

Sentado no capot do carro junto do pai, no antigo Congo Belga

D.R.

Mais nenhuma?
Tenho uma marcante, quando eu era o treinador da seleção de sub-17 para Tóquio-Japão 1993, em que quase fomos campeões do mundo, foi a Nigéria que ganhou. A Nigéria em todo o campeonato do mundo só teve uma derrota, foi connosco, por 2-0. Nós fomos a Lagos, o avião parou e estava convencido que vamos para o hotel. Entramos no autocarro e paramos à frente de uma grande mansão. E mandaram-me sair. Eu era o único branco que estava no autocarro. Eu saí. À entrada dessa mansão havia cerca de 20 rapazes bastante altos e musculados todos armados, de camuflado. Abriram o portão de ferro e apareceu uma senhora muito bonita, muito alta, olha para mim pergunta quem sou, eu respondo, e diz-me "Dá-me o teu passaporte". "Não, eu não vou dar o passaporte à senhora, primeiro porque eu não sei quem é a senhora, segundo porque o passaporte e meu e terceiro porque preciso do passaporte amanhã para apresentar no jogo e para regressar à Guiné-Bissau". "Já estás a falar demais. Já te disse que quero o teu passaporte". Isto tudo em inglês. E eu :"Desculpe lá mas não dou, não sei quem é a senhora e tenho um jogo amanhã, por isso se me dá licença". Quem tinha o meu passaporte era o delegado da seleção, que entretanto sai do autocarro e põe-me o passaporte na mão.

O que aconteceu depois?
Ela volta a insistir "Já te disse, dá-me o teu passaporte". "E quem é a senhora para me pedir o passaporte?". "Eu sou a esposa do comandante da polícia da cidade de Lagos". "Muito prazer, mas eu não lhe vou dar o passaporte". "Vais, vais" e nisto ouço as 20 armas atrás de mim "clique, clique". Tive a noção de que ao mínimo gesto que eu fizesse a minha cabeça voava, desaparecia, com aquelas armas todas apontadas. E eu aí, claro, tive medo, não queria que me rebentassem com a cabeça, dei-lhe o passaporte. E ela vira-se e diz: "Nunca mais vais ver o passaporte. Vais amanhã para o jogo, vais perder o jogo, mas depois não regressas à Guiné. Tu depois vais ficar numa prisão em Lagos e vais morrer de podre nessa prisão". Depois é que fomos para o hotel. Ir para o hotel, jantar, passar a noite, ir para o jogo, acabar o jogo, ir para o aeroporto, imagina o estado de espírito com que que eu estava. E chego ao aeroporto sem passaporte.

Não falou com ninguém da FIFA?
Claro que sim. Disseram-nos que apresentássemos um relatório, o que fizemos. Não deu em nada. Entretanto, vou para o aeroporto e os meus jogadores foram comprar uma gravata, que ainda a tenho, e um dos jogadores, o Brinca, que já morreu, disse-me: "isto é uma lembrança para o mister e quero que o mister fique descansado, já comunicamos à comitiva da Guiné, que onde o mister estiver nós vamos estar consigo, nós não o vamos abandonar". Isto foi a atitude que tiveram os meus jogadores da Guiné Bissau e não me largaram nem um bocadinho. Houve chamadas para diplomatas e entre governos houve concentrações que demoraram duas horas, para me darem autorização para eu sair de Lago sem o meu passaporte. É claro que quando cheguei a Bissau tive de pedir um passaporte novo à embaixada. E nunca mais vi o passaporte que ficou em Lagos.

Guilherme Farinha (atrás á esquerda) num campeonato escolar pelo Externato de Alvalade

Guilherme Farinha (atrás á esquerda) num campeonato escolar pelo Externato de Alvalade

D.R.

Sai da Guiné e vai parar aos Açores. Como?
Quando saí da Guiné fui dar aulas de Educação Física para a escola secundária da Paiã. Estive lá quatro, cinco meses. Fiz uma rotura total do Tendão de Aquiles, a dar aulas. Fui operado. Ainda não tinha 24h de anestesia geral, com a perna em gesso e chama-me o presidente do Sporting Clube Praiense a convidar-me para ir para lá porque o clube estava em último lugar e não podia descer de divisão. Eu agradeço, digo-lhe que tinha acabado de ser operado e ele: "Não interessa, tem de vir". No dia seguinte, vou para os Açores para salvar o Praiense da descida, estava na IIB. E salvei. A verdade é que nunca fiz o trabalho de recuperação como deve ser ao meu gémeo.

Salvou o Praiense e ficou lá na época seguinte.
Sim. Tinha jogadores portugueses do continente e açorianos e tinha jogadores guineenses. Até tínhamos uma boa equipa só que os três grupos começaram a dar problemas.

Como assim?
Começaram a dar-se mal, porque uns eram do continente, outros eram dos Açores, porque outros eram africanos. Falei com eles, disse-lhes que estavam a prejudicar-se a eles próprios. Como não estava a gostar do comportamento deles e como não gosto de trabalhar onde não tenho prazer, vim embora. Saí do Praiense, mas nem vim ao continente, porque mal se soube que tinha saído de lá o presidente do Sporting Clube da Horta, que estava para descer de divisão, chamou-me passadas umas horas. "Ó Farinha, não vá para Portugal para não estar a perder tempo, é só apanhar um avião, sai da Terceira e desce aqui no Faial". Passadas 24h estava a treinar o Sporting Clube da Horta. Outro que salvei da descida. Depois regressei ao continente.

O que foi fazer?
Fiz uma análise e reflexão dos meus trabalhos, porque gosto de fazer isso. Entretanto o Sporting chama-me em maio de 1997. Diz que tinham um protocolo com o Cerro Corá da I divisão do Paraguai. O Sporting tinha na altura um jogador paraguaio que era o Cesar Ramirez. Avisaram-me logo que o Cerro Corá ia baixar de divisão, mas que o presidente tinha pedido um técnico ao Sporting. Eu tinha contrato com o Sporting, era técnico do Sporting, mas eles decidiram que as minhas funções seriam aquelas, ir para o Paraguai com a missão de fazer subir a equipa novamente à I divisão uma vez que eles estavam em último e iam descer, e organizar todo o futebol juvenil. E fui.

A cumprimentar o presidente Nino Vieira na Guiné-Bissau

A cumprimentar o presidente Nino Vieira na Guiné-Bissau

D.R.

Era coisa que lhe agradava?
Encantava-me, sim. Se não gostasse não ia. Quando cheguei ao Paraguai havia umas televisões e umas rádios: "Treinador português veio do Sporting para salvar o Cerro Corá, mas o clube está muito mal" e tal. Eu cheguei quando terminou o torneio de abertura. Tive a sorte que entre o torneio de abertura e o de clausura havia um mês para preparar a equipa. Mas no dia em que cheguei, o presidente disse-me: "Nós estamos em último, já baixámos, não te preocupes com isso; eu quero é que daqui a dois anos me subas o clube à I divisão, que organizes todo o futebol juvenil do Cerro Corá e daqui a quatro anos vais-te embora".

Mas não foi isso que aconteceu.
Não. Quando olhei para os papéis que ele me deu sobre a equipa e o torneio de abertura, pus-me a fazer contas e disse: “Espera aí, nós ainda não baixamos. Vai começar o torneio de clausura, são 11 jogos, temos de jogar contra os grandes e contra os outros dois que estão a lutar para não baixar, é muito complicado, mas deixa-me lá ver o que posso fazer”. Falei com os jogadores no dia seguinte, estive um mês a trabalhar com eles, vi que o grupo era muito, muito bom. Tive de fazer uma limpeza de três ou quatro jogadores, porque de facto não estavam a fazer bom ambiente, nem estavam a perceber a filosofia do treinador que era trabalho, disciplina e ordem. Chamei quatro miúdos do alto rendimento [juniores], um deles o conhecido Roque Santa Cruz, que depois foi para o Bayern de Munique e o ano passado foi campeão nacional pelo Olimpia. Aliás todos os da família Santa Cruz foram meus jogadores, eram cinco. No primeiro jogo perdi 4-0. E vou-lhe dizer, não levei 8-0 porque as bolas foram ao poste, porque podia ter sido uma vergonha. Foi um escândalo. E todos os jornais, claro: "Nem o português que veio do Sporting consegue salvar o Cerro Corá".

E salvou?
Com aquela derrota não podíamos perder mais nenhum jogo. Falo com os jogadores: "Ainda não baixámos, só baixámos se empatarmos outro jogo ou perdermos. Estes 4-0 foram um acidente de percurso quanto a mim, vocês trabalharam muito bem este mês e podem dar muito mais, confio em vocês, têm que nos comer a carne e chupar o sangue para nós baixarmos". Sabe o que aconteceu? Ganhei 14 jogos seguidos e fui vice-campeão nacional. E ganhei o meu primeiro prémio no Paraguai, como melhor técnico estrangeiro, oferecido pelo ABC Color, o jornal mais forte. E porque é que não fui campeão nacional? O Olimpia é um clube grande, é um Sporting ou Benfica daqui, o Cerro Corá é um clube de bairro. E quando fomos para a final com o Olimpia, o capitão do Olímpia era o Gabriel Gonzalez "El loco" e o irmão dele era do conhecidíssimo árbitro Epifânio Gonzalez, que foi apitar esse jogo. É claro que tínhamos de perder. Mas nessa final posso dizer que estavam 53 mil pessoas e todo o estádio pôs-se de pé a aplaudir a minha equipa no final.

No meio de Domingos Té e João Nafatcha, a sua equipa técnica das seleções de sub-17 da Guiné-Bissau e o roupeiro Melo (de camisola amarela)

No meio de Domingos Té e João Nafatcha, a sua equipa técnica das seleções de sub-17 da Guiné-Bissau e o roupeiro Melo (de camisola amarela)

D.R.

Continua no Paraguai mais dois anos.
No ano seguinte fui novamente vice-campeão com o Cerro Coraá, perdi para o Cerro Porteño, outro grande do Paraguai. Mas também me fizeram uma coisa feia: eu tinha cinco titulares que se levassem mais um amarelo não podiam jogar o segundo jogo, porque nesse ano eram dois jogos. Nós ganhámos o primeiro jogo por 1-0, mas o árbitro sabia quem eram os que se levassem amarelo não jogavam no outro jogo. Escolheram a dedo. Os cinco jogadores levaram amarelo. E no segundo jogo, sem os meus cinco titulares, eles ganharam 3-1 e foram campeões. Entretanto, pelo bom trabalho que fiz no Paraguai, estava num treino, isto já no terceiro ano no Cerro Corá, o capataz que corresponde ao nosso roupeiro, aparece a gritar "Prof. telefone, telefone, Costa Rica, Costa Rica, venha, venha".

Quem era?
Era uma jornalista que me diz que estou a ser falado para treinar a Liga Deportivo Alajuelense, que é só o maior clube da Costa Rica, juntamente com o Saprissa. Disse-lhe: "A senhora vai-me desculpar mas está enganada" e desliguei o telefone. O presidente não me tinha dito nada, ninguém me tinha dito nada, só podia ser um engano. Passados cinco minutos o nosso capataz chama-me outra vez. Ela voltou à carga. "O senhor é o Guilherme Farinha?". "Sou sim senhor". "Então não é um engano, o senhor é o eleito para ser treinador do Alajuelense". "Deve ser engano, minha senhora"; "Não, foram os presidentes que falaram". "Mas eu não sei de nada, a não ser que sou treinador do Cerro Corá". Entretanto vamos para a concentração no centro de estágio e no jantar aparece o presidente, que me diz que falou com o presidente do Alajuelense, que estávamos a viver um momento político delicado...

Na semana em que foi entrevista, em Lisboa

Na semana em que foi entrevista, em Lisboa

José Fernandes

O que se passava?
Tinham matado o vice-presidente da República do Paraguai e um presidente honorário do Cerro Corá, que já tinha sido presidente do clube, estava a ser acusado de mandar assassinar o vice-presidente, porque ele queria ser Presidente da República. Queriam prendê-lo. E prenderam. Nós quando íamos jogar fora aquilo já era balas para o autocarro e gritos de “assassinos, assassinos”. Passávamos um mau bocado e ele diz-me: "Eu fui ao funeral da tua mãe e não quero ir ao teu funeral, porque uma bala perdida pode matar-te. Isto está a ficar muito perigoso portanto vais para a Costa Rica". "Não presidente, não vou, eu fico aqui, não tenho medo das balas, estou muito feliz consigo, com a minha equipa, com o clube, estou a ser muito bem tratado, gosto muito do Paraguai, ainda não fui campeão e quero ser campeão aqui". "Não, vais-te embora, amanhã segues para a Liga Alajuelense". No dia seguinte fui para o aeroporto, ele acompanhou-me até à porta do avião e disse-me: "Farinha, queremos-te muito, vamos ter muitas saudades tuas, fizeste um grande trabalho, mas desta vez vais para o maior clube da Costa Rica e lá vais ser campeão". Fui toda a viagem até a Costa Rica a pensar nas palavras do meu presidente: "Vais ser campeão, vais ser campeão".

E conseguiu.
Cheguei à Costa Rica e os jornalistas perguntaram-me o que tinha a dizer aos aficionados e eu respondi "Eu? Então, eu estou aqui para ser campeão". Começaram-se a rir. Porquê? Porque o Saprissa tinha sido campeão dois anos seguidos. E no último ano a Liga Alajuelense tinha perdido muito mal perdido o título e estava jogar muito mal. O processo da escolha de treinadores é diferente de Portugal, havia 45 treinadores, um deles era o Filipovic, que jogou no Benfica, dos 45 ficaram 5 e dos 5 eu fui o eleito. Assinei o contrato no dia 13 de maio, e eu por acaso sou devoto da Nossa Senhora de Fátima.

Foi campeão nacional dois anos seguidos.
E pronto, fui campeão nacional com cinco pontos de vantagem sobre o Saprissa. Ganhei o torneio de abertura e o de clausura. Se fosse hoje não tinha ganho dois campeonatos mas quatro, porque hoje um torneio de abertura vale um campeonato, por isso eu tinha ganho quatro campeonatos e deveria estar no top dos treinadores portugueses com campeonatos nacionais ganhos no estrangeiro, mas até nisso eu não tive sorte. Nessa altura eu tinha de ganhar o torneio de abertura e o de clausura para ser campeão.

Com a equipa técnica e jogadores suplentes da seleção sub17 da Guiné-Bissau, no Jamor, quando se disputaram os primeiros jogos dos Palop's, que venceu.

Com a equipa técnica e jogadores suplentes da seleção sub17 da Guiné-Bissau, no Jamor, quando se disputaram os primeiros jogos dos Palop's, que venceu.

D.R.

Depois de dois anos de campeão nacional porque não ficou lá e voltou a Portugal?
Eu já lhe conto, mas deixe-me contar outra história. No segundo ano sou bicampeão nacional com 26 pontos de avanço sobre o segundo. Foi a passear. A minha equipa nesse ano fez 77 jogos, porque era o campeonato nacional, era o torneio de Uncaf, que fomos campeões, era o torneio da Concacaf, a Copa Merconorte, eram os jogos de preparação para o Mundial da Coreia-Japão 2002, a maior parte da minha equipa estava na seleção. Eu era o treinador e preparador físico e isto sem lesões musculares. Tenho os papéis todos, posso mostrar. Por tudo isto queriam que ficasse lá o 3º ano para ser novamente campeão nacional.

Então porque não ficou?
Foi só isto: eu fiz a minha pré-época praticante com as minhas reservas porque os meus jogadores estavam nos jogos para o Campeonato do Mundo, portanto, não fiz pré-temporada. O clube Santos Guapilés estava na frente, eu não estava na frente como era costume, a minha equipa não estava a render o que eu queria, porque estavam mais preocupados, e é lógico, em qualificar-se para o Mundial da Coreia-Japão do que propriamente com a liga. Então o que fizemos? Em conjunto, a minha equipa técnica e os meus jogadores, decidimos, vamos fazer o nosso melhor neste torneio de abertura, entretanto somos qualificados para o Coreia-Japão e pegamos no torneio de clausura, ganhamos o torneio de clausura, vamos para a final com o Santos e somos campeões. Mas eu comecei a não gostar de alguns jogos, comecei a não gostar do ambiente, porque eu estava habituado a estar sempre em 1º e disse: "Ná, vou-me embora". Decidi sair. Eles não acreditavam. Estive um mês para sair da Costa Rica, um mês lá no hotel. O presidente: "Fica Farinha, fica". E eu disse que não, que estava na hora de regressar a Portugal.

Como surge o Casa Pia?
Antes disse. Agarrei nas minhas medalhas todas e nos prémios de melhor treinador do ano, e outros, e fui pendurar a medalha do meu primeiro campeonato nacional ao pescoço do meu presidente, Carlos Perez Garay, do Cerro Corá, no Paraguai. Peguei na medalha, tirei do bolso passei por cima da cabeça dele e disse-lhe "Esta medalha é sua. Disse-me que ia ser campeão e cumpri". Nessa altura, quando lá estive, fui ao programa “Tiro Direto” na televisão, à noite, e de repente os jornalistas dizem-me "Já que estás aqui aproveitamos para te dar a notícia, tu és um dos três candidatos para selecionador nacional do Paraguai para o Mundial Coreia-Japão. Os outros candidatos são o argentino Diaz (que ganhou a Copa Libertadores) e o colombiano Maturana". E eu respondo: "Não, eu não sou". "Não és?"; "Não, eu não tenho empresário, como vou ser eu? Eu não tenho força, tenho de ter um empresário por detrás de mim e não tenho. Portanto, muito sorte para o Diaz e para o Maturana". Mais tarde vim a saber que não foi nenhum dos três, mas o Cesare Maldini, o pai do Paolo Maldini, que fez um péssimo campeonato do mundo, nem regressou ao Paraguai.

Como técnico do Cerro Corá, do Paraguai, acompanhado pelo filho de um diretor do clube, em 1997

Como técnico do Cerro Corá, do Paraguai, acompanhado pelo filho de um diretor do clube, em 1997

D.R.

Então e o Casa Pia?
Venho para Portugal para junto da família, para descansar um pouco e fazer mais uma análise ao meu trabalho, capacitar-me, estar atualizado. Estava a preparar-me para ir ver o mundial Coreia-Japão ao vivo e entretanto liga-me o presidente do Casa Pia, que está em último lugar da II B. Ele e o diretor do clube convidam-me para treinador. Disse que não porque, primeiro queria ir ao campeonato do mundo, segundo, vinha de ser bi-campeão nacional e vice-campeão da Concacaf, bi-campeão da Uncaf, 2º na Merconorte, tinha a minha equipa na 23º lugar do ranking mundial da FIFA (hoje estão em 500 e não sei quê), portanto, não posso agora vir aqui na perspetiva de descer a equipa, não posso. Não aceitei. Entretanto, falo com os meus amigos que jogaram futebol comigo, conto-lhes o que se tinha passado e eles respondem: "Tu tens medo de quê ó Farinha? Vai lá salvar aquilo, pá. Queremos ir ver jogos teus". E entusiasmaram-me. O Casa Pia liga-me outra vez, insistem e dizem: "Você é o treinador certo, não podemos baixar. Olhe, o Santana Lopes que é o presidente da Câmara de Lisboa prometeu-nos isto, isto, isto, isto, mas não podíamos era baixar; portanto, se baixarmos não nos dá nada; as bombas da gasolina Repsol, aquilo é um negócio que é para nós, mas não podemos baixar à III divisão. Você tem que vir cá para nos salvar e damos-te um bom dinheiro". E deram um bom ordenado, sem eu nunca pedir nada. Aliás, tenho sido um treinador missionário, mas não mercenário. Sou bom a trabalhar, sou bom treinador (a humildade demais também é estupidez), mas sou muito mau a ganhar dinheiro [risos].

A festejar o título pelo Liga Deportiva Alajuelense, da Costa Rica, em 1999/2000

A festejar o título pelo Liga Deportiva Alajuelense, da Costa Rica, em 1999/2000

D.R.

Entrou no Casa Pia quando?
O campeonato estava exatamente a meio, eu ia começar na 1ª jornada da 2ª volta. Repare bem o que fui encontrar. Saiu o treinador levou oito jogadores titulares com ele, portanto avisaram-me logo que tinha de ir buscar sete ou oito juniores; um central e um trinco titulares estavam lesionados e já não jogavam mais aquele ano. E estávamos em último lugar. Era este o panorama. Ainda vou ver um jogo da última volta que era com o Lusitânia dos Açores e o Casa Pia perde 3-0. Peguei na equipa, fui buscar os tais sete miúdos, um deles o Furtado que foi depois o goleador do campeonato da I divisão da Bulgária, e vou ao Atlético empatar 1-1. Vamos ao Louletano e perdemos 1-0. Resumindo, sabe em que lugar ficamos? Ficamos em 5º lugar. Só não subimos à II divisão de honra porque entretanto o campeonato terminou e não tive tempo. Não havia mais jogos. Do Casa Pia fui para o Académico de Viseu.

Porquê?
Eles no Casa Pia queria-me, mas vou para Viseu porque a minha falecida mãe, que eu nem fui ao funeral dela, era de Viseu e eu por memória à minha mãe e à família dela, pensei "A mamã vai ficar feliz". Ela era a única lá em casa que torcia pelo Académico de Viseu. Estamos a fazer um bom trabalho no Ac. Viseu e entretanto aparece o empresário Jorge Baidek, que é meu amigo, e diz-me: "Vais sair do Ac. de Viseu. Vou falar com a direção do clube e tu vais para o Badajoz, para a II divisão do campeonato espanhol, para salvar o Badajoz”. O presidente era um português da Madeira. Vamos todos jantar e ele diz aos dirigentes do Casa Pia "O Farinha vai comigo para Badajoz, mas vocês não ficam descalços, amanhã têm aqui o Caetano para ser treinador"; e o presidente diz "Está enganado, o nosso projeto passa por este treinador e como ele tem contrato connosco, não sai". Eu disse ao Baidek que ia respeitar o contrato.

Mas não fica no Ac. Viseu.
Nessa noite fomos a caminhar ao frio para o átrio da Sé Grão Vasco de Viseu e o Baidek está até às 4 da manhã a convencer-me a ir a casa fazer a mala para ir com ele para Badajoz, porque no dia seguinte queria que eu estivesse já a treinar a equipa. Não conseguiu. Passado um mês, eu e o meu assistente, estamos numa reunião com a direção do Ac. Viseu e nessa reunião há um diretor que entra totalmente bêbado, alcoolizado, interrompe a reunião e diz-me agressivamente: "Você perdeu no Sanjoanense. Habituou-nos a ganhar por quatro e tem de continuar a ganhar por quatro porque se..." e assim sucessivamente. Eu fartei-me, mandei-o calar, virei-me para o presidente e disse-lhe: "Passe-me o cheque que eu amanhã vou para Lisboa". E vim embora.

É nessa altura que surge o convite para regressar ao Paraguai?
Sim, em 2003, para o mesmo clube só que o Cerro Corá já tinha baixado para a II divisão, tinha sido vice campeão da segunda divisão. Mas fico lá pouco tempo. Depois regresso a Portugal e vou para o Belenenses como preparador físico.

Quem era o treinador do Belenenses nessa altura?
Era o Augusto Inácio. Depois saímos do Belenenses, o Augusto Inácio vai para o Qatar e o Casa Pia torna-me a convidar.

A ser parabenizado pelo diretor das relações públicas do Alajuelense

A ser parabenizado pelo diretor das relações públicas do Alajuelense

D.R.

E vai treinar o Casa Pia na II B, certo?
Certo. No início do campeonato vou buscar o Silvestre Varela ao Sporting que depois vai para o FC Porto, vou buscar o Mateus também ao Sporting que hoje está no Penafiel e é da seleção de Angola, vou buscar o Miguel Ângelo, o Yannick Djaló e o Semedo, atual capitão do V. Setúbal. Fui buscar jogadores que ainda estavam em formação no Sporting. O treinador do Sporting era o Peseiro, tenho uma reunião com ele e levo-os para o Sporting na intenção de subir à II. Estávamos em 1º lugar, o Faquirá do Barreirense estava em 2º e andávamos ali taco a taco primeiro, segundo, primeiro, segundo os dois, mas entretanto o Sportivo Luqueño do Paraguai convida-me, por alturas do natal. Eu estava no Belenenses e já Nacional de Asunción me tinha convidado e eu tinha dito que não. Entretanto, o presidente do Sportivo Luqueño era o 3.º homem mais rico do Paraguai, o irmão dele era deputado, e ele diz-me: "Farinha venha cá que quero ser campeão nacional. Há muitos anos que não sou campeão nacional e quero sê-lo contigo". "Mas eu não posso ir porque sou treinador do Casa Pia, tenho o Casa Pia para subir". "Não quero saber nada disso, vens para aqui e vens passar o natal comigo". “Pelo menos deixe-me passar o natal com a família". "Não, vens já para aqui. Quero-te aqui já". Ó Alexandra foi o meu maior erro como treinador.

Porquê?
Porque eu tinha ficado no Casa Pia, tinha subido o Casa Pia à II, o Sporting tinha ficado bastante satisfeito comigo porque tinha estado a formar jogadores. Aliás, esses jogadores comigo no Casa Pia foram convocados logo às seleções, como o caso do Silvestre Varela por exemplo. E o Sporting ficou um bocadinho triste comigo, o Casa Pia também e com razão, os próprios jogadores que gostavam muito de mim e que ainda hoje gostam, tivemos um jantar há muito pouco tempo e pedi-lhes desculpa por ter saído. Fui então para o Sportivo Luqueño e depois voltei para a Costa Rica treinar o Herediano. E sem parar, sempre a trabalhar ora na Costa Rica, ora no Paraguai. Nunca mais trabalhei em Portugal.

Com o troféu de campeão da Costa Rica

Com o troféu de campeão da Costa Rica

D.R.

Esteve no Irão também quatro ou cinco anos.
Sim, estive cinco anos no Irão na I divisão como adjunto do Inácio primeiro. Depois o Inácio saiu e fiquei eu porque eles não me deixaram sair com o Inácio, ficaram-me com o passaporte e disseram: "Você vai ser o nosso treinador." Depois fiquei como coordenador e preparador físico e o treinador era o presidente nacional da associação de treinadores de futebol deles.

Mas ficou porque quis ou porque foi obrigado?
Porque eles não me davam o passaporte. Ó Alexandra quando tu chegas ao Irão, a primeira coisa que eles fazem é ficar com os passaportes. "Você daqui não sai, faltam poucos jogos, o Farinha é que conhece os jogadores, não vamos arriscar vir um treinador que não conhece os jogadores, por isso fica cá." E fiquei.

Podia ter-se dirigido ao consulado ou à embaixada.
Mas não quis problemas, tentei explicar isso ao Augusto Inácio, coisa que ele não aceitou, teve uma conversa comigo, mas eu não podia. Aliás eu e o assistente dele, que também teve de lá ficar, atenção. Depois o JJ [Jacinto João] saiu porque teve um problema com a saúde de um irmão. O irmão melhorou, ele depois ficou sem trabalho e eu ajudei o Jota a regressar ao Irão, não ao mesmo clube. E eu fiquei quatro anos no Foolad FC, nessa altura já como preparador físico, porque quem era o treinador principal por questões políticas era o Majid Jalali. Gostei muito de lá estar. Fui convidado para ir a vários funerais e casamentos. Sempre me respeitaram e sempre me senti bem. Foi o país onde me senti mais seguro, curiosamente.

A receber o prémio de melhor técnico do ano em 1999/2000, acompanhado por vários diretores do clube Liga D. Alajuelense

A receber o prémio de melhor técnico do ano em 1999/2000, acompanhado por vários diretores do clube Liga D. Alajuelense

D.R.

A seguir vai para a Guatemala.
Entretanto estou em plena pré época e o CSD Municipal da Guatemala convida-me. Já era a terceira vez que me convidavam. Até falaram com a Fernanda, a minha esposa, primeiro. Falei com o presidente e com a direção do Foolad, deram-me autorização mas disseram: "Só te damos autorização se trouxeres a medalha de ouro, de campeão". Fui para Guatemala, cheguei lá a 15 dias de começar o campeonato, tive de fazer das tripas coração porque não fui eu que contratei os jogadores, muitos não tinham a qualidade que desejava, mas tive de jogar com os que tinha. Ganhámos o torneio regular. São torneios curtos, isto foi em 2010. De lá para cá nunca mais ganharam um torneio regular. Ganhámos os jogos todos, fui à final com o Comunicaciones, para ser campeão. Entretanto na véspera do jogo mudam o árbitro e dois jogadores meus venderam-se cada um por 30 mil dólares ao clube rival. E um deles era o que marcava os penáltis. Estávamos a ganhar 2-1 , penálti a nosso favor e escorregou. A relva estava seca mas ele escorregou, coitadinho...

Como é que soube que eles se tinham vendido?
Porque veio-se a saber. Já eu tinha saído, já não estava na Guatemala. Mas eu vou-lhe contar. Entretanto empatámos 2-2, vamos para penaltis, perco no oitavo penalti e sou vice campeão, medalha de prata. E regresso ao Foolad, foi assim que ficou combinado, regresso ao Foolad por mais um ano. Fui ter com eles e disse-lhe: "Vocês desculpem, não cumpri com a minha palavra, disse que trazia uma medalha de ouro e trago a de prata", e contei-lhes a história. E eles: "Pronto, fizeste o teu melhor, mas não foi mau. Fizeste um bom trabalho". Fiquei mais um ano no Foolad.

Com o Presidente da República da Costa Rica e sua esposa, em 2000

Com o Presidente da República da Costa Rica e sua esposa, em 2000

D.R.

Não tem uma história de uma arma apontada à cabeça na Guatemala?
Sim, na Guatemala uma vez apontaram-me uma arma à cabeça. Havia um rapaz de muito mau caráter que tinha uma rádio e que era dos Rojos do Municipal e fez-me a vida negra porque queria que dois jogadores amigos dele jogassem. E uma vez convidaram-me a mim e ao meu assistente para uma reunião. O capitão da minha equipa, o Romero e ele levaram-nos muito estranhamente à noite para uma reunião, mas numa garagem. E ele meteu a pistola em cima da mesa e perguntou: "Já brincaste à roleta russa?". E eu: "Não, não sei que jogo é esse. E não percebo o porquê dessa arma. É verdadeira?". E ele saca da arma, aponta para o alto e dá um tiro. Depois tira as balas todas da arma e vira-se para mim: "É para jogarmos à roleta russa. E o primeiro és tu e aqui está a bala", e mostrou-me. E eu só respondi: "Olha em relação a essas brincadeiras das roletas russas e das armas ficas a saber que eu como a armas ao pequeno almoço e cago à noite. Portanto isso não me mete medo nenhum. Agora, se me quiseres mesmo dar um tiro, dás-me um tiro pela costas e és um cobarde". Saí e fui embora. Claro que eu estava cheio de medo [risos]. Entretanto continuou a ameaçar-me de morte: "Um dia levas um tiro". E depois disso mandava-me mensagens, etc.

Não voltou a ter problemas mais sérios com ele?
Ameaçou-me várias vezes de morte. Nós quando íamos jogar fora, eles ficavam na pala mesmo por cima do banco onde eu estava a dirigir a equipa e atiravam rajadas de metralhadora para os meus pés para intimidar, só para intimidar. Foi muito grave, porque uma bala perdida pode matar. Por isso foram castigados pela FIFA há pouco tempo e a Guatemala ficou sem poder jogar em competições a nível de clubes e de seleções. Levaram um castigo e merecidamente porque é uma vergonha o que se lá passa, uma vergonha, uma vergonha. Saio da Guatemala nessa altura, volto ao Irão e faço lá mais um ano no Foolad.

No Ac. de Viseu que treinou em 2002/03

No Ac. de Viseu que treinou em 2002/03

D.R.

E regressa à Costa Rica, agora para treinar o Carmelita?
Sim, em 2013 vou para a Costa Rica. Estive no Carmelita, no Alajuelense novamente e no Municipal. Nos últimos dois anos sou diretor desportivo da Academia Wilmer Lopez / Sporting Clube de Portugal / A.D. Carmelita. E Sporting Clube de Portugal porquê? Faço um convénio com o Sporting, levo à Costa Rica o ex-presidente do Sporting, Bruno de Carvalho e o senhor Luís Duque, vice-presidente, vão lá os dois, assinamos o convénio que ainda hoje existe, já lá vão três anos. Mas entretanto por causa da covid, por causa da família, porque comecei a ver que as coisas estavam a piorar e porque eu gostaria de terminar a minha carreira de treinador em Portugal, achei que estava na altura de regressar. Estou aqui desde julho. Já tenho a minha equipa técnica preparada, cujo preparador físico é só o Paulo Cipriano Badajoz, professor assistente convidado na Faculdade de Motricidade Humana, mais o João Vilela da Silva um rapaz que já está no segundo mestrado e é só o melhor aluno da faculdade. Estou recheado de uma equipa técnica de grande qualidade.

Já teve contactos para treinar cá?
Com clubes portugueses há um empresário a tentar, mas oficialmente nada de concreto. Temos contactos para irmos para fora, que era o que eu não queria. Mas digo-lhe com franqueza que, se entretanto não conseguirmos ter um clube, e atenção que não estou a falar da Liga NOS da primeira divisão, porque eu sei onde estou, conheço muito bem o meu país e o futebol do meu país, e os lóbis estão montados, não tenho hipóteses nenhuma. Mas para uma Liga Pro, para o Campeonato de Portugal, não me caem os parentes na lama, vou com muito gosto, não tenho medo nenhum, nunca tive graças a Deus.

No Irão acompanhado pelo assistente Jacinto João

No Irão acompanhado pelo assistente Jacinto João

D.R.

Qual o país onde esteve com maior qualidade de vida?
Em termos de qualidade de vida foi a Costa Rica, não foi onde fui mais feliz. Onde fui mais feliz foi no Paraguai.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Costa Rica.

Foi investindo?
Investi a ajudar amigos que estavam mal aqui.

Já sei que é um homem de fé. E superstições, tinha ou tem?
Entrar com o pé direito, benzer-me, talvez estas. Ah e quando vai começar o jogo, os primeiros três segundos olho só para o relógio, a partir daí começo a ver o jogo. De resto penso que não tenho mais.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida porque sim, porque podia?
Não faço extravagâncias porque respeito os pobres. Quando estive na Guiné Bissau vi muita pobreza. Respeito as pessoas que passam mal a vida. Nasci num berço de ouro, não vou mentir, a minha mãe era uma senhora de bem, o meu pai não tanto. O meu pai era bonito e conquistou a minha mãe, mas a minha mãe era de famílias de sangue azul, da nobreza mas sempre me educaram a trabalhar, a ser sério, a ser honesto. Nunca me deram nada, disseram-me: “Tem que ser à tua custa”. Hoje em dia agradeço aos meus falecidos pais pela educação que me deram. Por isso, extravagâncias não há.

Se não tivesse sido jogador de futebol o que é que teria sido?
Maestro a dirigir uma grande orquestra. A música é uma paixão que tenho, aprendi a tocar piano, bateria e viola quando era mais pequeno. Hoje em dia já não faço nada. Desde que o meu pai e a minha mãe morreram e desde que deixei de dançar. A minha mãe ensinou-me a dançar mas nunca mais dancei desde que ela morreu, em 1997.

No banco com a equipa técnica, no Irão

No banco com a equipa técnica, no Irão

D.R.

E uma última história para terminar?
Em 1984 fiz o Tour de France como diretor desportivo e preparador físico do Sporting Raposeira. Tinha 28 anos. O meu pai, Fiel Farinha, nesse ano era o diretor do ciclismo do Sporting e organizou a equipa para ir ao Tour e, apesar de que estar no futebol, convidou-me para ser diretor da equipa e ajudar nos aspetos físico se fosse preciso uma vez que eu tinha conhecimentos nessa área. Nesse ano dedico-me inteiramente ao ciclismo. O meu pai entretanto convite do Joaquim Agostinho para sair da equipa francesa e regressar ao Sporting. Que foi aliás onde ele começou, não me esqueço que as primeiras pedaladas do Joaquim Agostinho como ciclista foram feitas à minha frente, porque eu acompanhava sempre o meu pai desde pequenino às provas de ciclismo.

Mas o Joaquim Agostinho não chega a fazer o Tour.
Deixe-me contar. Onde é que nós convidamos o Joaquim Agostinho? Foi em Barcelona, num jogo que o Sporting fez com o Barcelona. Na suite do meu pai, em Barcelona, houve a reunião entre João Rocha, presidente do Sporting, Fiel e Guilherme Farinha e Joaquim Agostinho. O Joaquim foi ver o jogo connosco e depois eu vim com o Joaquim Agostinho, cada um no seu carro, para Lisboa. Viemos os dois de Barcelona a Lisboa. entretanto, o Joaquim Agostinho morre na Volta ao Algarve, num acidente que teve por causa de um cão, a chegar a meta.

Na Guatemala, em 2010/11

Na Guatemala, em 2010/11

D.R.

Estava lá?
Não, graças a Deus não acompanhei o Sporting nessa volta ao Algarve, nesse ano fiz o JN, a Volta a Portugal e o Tour. Quando fomos para o Tour, o Joaquim já não foi porque ele teve a queda, esteve 11 dias de coma no hospital, e nesses 11 dias posso dizer-lhe que perdi 8kg. Porque o meu pai só me disse assim: "Eu tenho de ir com a equipa de ciclismo para a Colômbia, temos o contrato e temos de ir. Eu vou acompanhar a equipa, mas tu ficas responsável por tudo o que acontecer aqui dentro do hospital e se houver alguma fatalidade ficas também responsável pela cerimonia fúnebre". Aconteceram varias peripécias meses 11 dias em que o Joaquim esteve em coma.

Como por exemplo?
Havia pessoas que queriam tirar fotografias e diziam que se tirassem a fotografia de um modo assim e assado ele ia ficar bom, etc. etc., e queriam entrar, mas naturalmente ninguém lá entrou. Estive sempre a acompanhar a esposa e a família do Agostinho e o que é certo é que depois organizei na Basílica da Estrela toda a cerimonia do velório, com todas as modalidades desportivas do Sporting. E posso dizer que desde a Basílica da Estrela ate à terra do Joaquim Agostinho, um percurso que se faz em 40 minutos, demorámos cerca de 6 horas. Foi uma coisa como eu nunca vi. Havia pessoas que se deitavam na estrada para o carro funerário não passar, porque queriam tocar nos vidros, no carro funerário, foi uma coisa indescritível. Eu ia a conduzir logo atras dos dois carros funerários, um para levar o corpo e outro só com flores. Entretanto, chegamos ao local onde o Joaquim ia ser sepultado e eu quase que caí no buraco, porque as pessoas empurravam, empurravam.

Sempre vai para o Tour?
Vou, pois. Ganhámos a 3ª etapa com o Paulo Ferreira. Eu conduzia o primeiro carro de apoio do Sporting. Nem lhe passa pela cabeça o que é descer os Alpes a conduzir, porque um ciclista a descer os Alpes ou Pirinéus atinge 100km/h e nos temos de os acompanhar. é preciso ter muita perícia de condução. Entretanto, a organização do Tour na última noite ao entregar todos o prémios, dá-me os parabéns pela maneira como eu, com 28 anos, fui diretor e conduzi o carro de apoio, porque era sempre o primeiro carro a chegar quando furava algum ciclista ou no que fosse preciso.

Em sua casa, em Lisboa, olhar para um álbum de memórias

Em sua casa, em Lisboa, olhar para um álbum de memórias

José Fernandes

Bela história.
Posso contar outra curiosidade.

Força.
Eu recebi um prémio, o Prémio Fernando Vaz, que me foi entregue pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol, em S. João da Madeira. Só que antes da cerimónia da entrega do prémio em S. João da Madeira eu tive de ir para a Costa Rica, primeiro porque era o início de pré-época e depois para receber o prémio também, numa determinada data e hora, num castelo da cidade de San José. E esse era o prémio para o melhor treinador do ano da Costa Rica. O engraçado disto, é que o dia da entrega de ambos os prémios era o mesmo. A minha filha e esposa foram a S. João da Madeira receber o prémio Fernando Vaz e eu, no mesmo dia, num outro continentes fui receber outro prémio de melhor treinador do ano. É uma coincidência daquelas. Qual o treinador que no mesmo dia e em continentes diferentes recebe dois prémios de grande distinção? É sui generis.