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A casa às costas

"Uma vez virei-me ao Oceano dentro do balneário. A sorte é que ele tropeçou e caiu entre o banco e os cacifos e não se conseguiu levantar"

À beira de completar 54 anos, último de oito irmãos, Litos recorda um percurso que se inicia com o sonho de criança de ser cowboy, mas que começa a ganhar corpo como jogador no Sporting, aos 15 anos. Fala do preço que pagou pela sua frontalidade, confessa que o maior arrependimento foi ter saído do clube do coração com medo de um processo disciplinar, revela histórias que envolvem Figo, Manuel José, Cajuda, Oceano e viagens de autocarro de mais de 11 horas em África e explica por que razão era conhecido por "pipi"

Alexandra Simões de Abreu

Gualter Fatia

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Nasceu em São João da Madeira. Como era a sua família?
Somos muitos, somos oito. Eu sou o mais novo de uma família de oito, quatro rapazes e quatro raparigas. Vieram duas raparigas primeiro, depois dois rapazes, depois foi intercalado, rapariga, rapaz, rapariga, rapaz. Os meus pais já faleceram, mas segundo ouvi dizer tanto eu como a minha irmã antes de mim tínhamos sido programados para não virmos, com contracetivos, mas aquilo correu mal [risos]. Acabámos por vir os dois.

O que faziam os seus pais profissionalmente?
A minha mãe foi sempre doméstica, embora ajudasse muito a minha falecida avó da parte do meu pai no talho, tinham um talho, no qual o meu pai também colaborava muitas vezes. O meu pai era chefe de soldadores da enormíssima fábrica de São João da Madeira, a Oliva, das máquinas de costura e não só. Depois também havia a lida do campo que era uma tarefa que ajudava a sustentar a família.

Cresceu numa família numerosa, imagino que tenha sido uma infância cheia de brincadeiras.
Era uma alegria extraordinária, mas também uma guerra porque quando somos os mais novos achamos que somos mais fortes do que aqueles que estão antes de nós e então era sempre uma guerra muito grande, pelo menos com esses três, com as duas irmãs e um irmão com idades mais próximas.

Que diferença é que tem para a irmã mais velha?
Acho que a minha irmã tem 68 ou 69. O meu pai não deu muito descanso à minha mãe e as coisas eram quase muito seguidas. Antigamente dizia-se que os pescadores quando iam para o mar deixavam as mulheres já grávidas, aqui não era o caso, mas acontecia muito isso.

E da escola, gostava?
Eu gostava da escola, mas gostava muito mais de fugir para jogar à bola [risos]. Sempre fui um rapaz muito introvertido dentro da escola primária. Ainda me lembro que frequentava uma escola onde havia a separação de escola de cima e escola de baixo e nos intervalos havia aqueles jogos de disputa entre a escola de cima e a escola de baixo, isto até à quarta classe. Mas era muito introvertido, ainda hoje acho que sou um bocadinho. Libertei-me mais quando passei a ser treinador, porque até como jogador sempre que tinha entrevistas sentia-me desconfortável. Depois como treinador e hoje como comentador obviamente que as coisas ficaram melhor; mas eu sentia-me um pouco desconfortável quando tinha de apresentar algum trabalho, ou entrar nas peças de teatro que se faziam na escola.

O que dizia que queria ser quando fosse grande?
Queria ser cowboy. Queria ser dos bons e apanhar os bandidos sempre [risos]. Nós tínhamos a dificuldade das prendas porque éramos muitos, mas aquilo que eu mais gostava de ter tido era uma espingarda daquelas de brincar. Penso que só aos dez anos é que eu tive essa prenda, uma daquelas espingardas que lançavam bocados de rolha [risos]. Na altura do Carnaval, dentro das nossas possibilidades, eu ou era o cowboy bom ou então o bandido, e era giro porque os funcionários da Oliva, na fábrica onde o meu pai trabalhava, tinham nos fatos de trabalho uns lenços encarnados, que pareciam muito aqueles lenços que os bandidos colocavam a tapar a cara e então eu aproveitava nesses dias para me mascarar ou do bom ou do mau.

Litos em criança

Litos em criança

D.R.

Quando e como surge o futebol? É através de algum irmão?
Todos os meus irmãos rapazes jogaram na Sanjoanense, na equipa da nossa terra, já o meu pai tinha sido jogador, assim como o meu falecido avô e os meus tios, alguns deles até com grandes capacidades e qualidades de poderem atingir outros patamares, mas naquela zona o importante era ajudar a família com o trabalho e trazer ordenados para casa. E os meus irmãos mais velhos, todos eles tiveram de fazer essa opção, embora fossem jogando mas mais a nível distrital, sem chegarem a profissionais.

Lá em casa torcia-se por que clubes?
Tudo do FC Porto, só o meu falecido pai e a minha falecida mãe é que eram sportinguistas, tudo o resto, primos e toda a família, era tudo do FC Porto.

O Litos também?
Eu não, eu sou sempre Sporting [risos]. Não sei porquê. Se calhar por querer ser do contra, mas também um bocadinho por ser o clube do meu pai e como mais novo queria estar sempre do lado do pai para partilhar alguma coisa.

Como vai pela primeira vez para a Sanjoanense?
Numa primeira fase existiam aqueles jogos de bairros, aquilo não eram bairros, mas localidades. A iniciação começou por aí. Depois comecei a ver os colegas e os amigos que já frequentavam os infantis da Sanjoanense e também me convidaram e a partir daí, penso que com 11 ou 12 anos, comecei a fazer parte dos infantis da Sanjoanense. Fiz mais dois anos de iniciados e foi sempre um percurso de subida.

E chega ao Sporting. Através de quem?
No primeiro ano de iniciados do Sanjoanense sou convocado para a seleção distrital de Aveiro, para os torneiros distritais, somos campeões nacionais inter associações. Isto deve ter sido em 1980, 1981. O jogo foi no Estádio Nacional e nós jogámos antes de uma célebre final da Taça entre o FC Porto e o Benfica, em que o Nené fez três golos. Acho que o Veloso fez um autogolo e o Nené depois fez três golos e o Benfica ganhou 3-1. Nós estávamos todos ao lado da tribuna a assistir a esse jogo. Eu que nunca tinha vindo a Lisboa, estar a assistir a um jogo daqueles foi uma coisa fabulosa, ainda para mais depois de termos sido campeões nacionais inter associações. A partir desse momento começou a haver, não digo contactos, mas normalmente nestes distritos havia sempre alguém que era olheiro dos grandes clubes. Existia na associação de Aveiro o senhor Vítor, que era um grande sportinguista e tinha relações muito próximas do Sporting, que começou muito cedo a aconselhar-me ao Sporting.

Mas não foi logo nesse ano, pois não?
Não fui nesse ano, porque foram penso que dois ou três jogadores dessa seleção para o Sporting e eu ainda estava a iniciar o primeiro ano. No ano seguinte, num jogo contra a seleção de Castelo Branco, onde estava o Baltazar, que hoje é adjunto do António Conceição que jogou comigo no Sporting e era meu adversário na seleção de Castelo Branco, estava o meu querido padrinho de casamento Aurélio Pereira. Estavam também representantes de outros clubes, como do Futebol Clube do Porto. Quando acabou o jogo, eu estava no duche e lembro-me de ter entrado o Aurélio Pereira para cumprimentar os jogadores. Cá fora pergunta-me se eu gostava de ser jogador do Sporting. Julgo que estava também um senhor Peixoto, dirigente do Futebol Clube do Porto, que também demonstrou esse interesse.

Lembra-se do que sentiu na altura?
Senti-me orgulhoso e desejoso de poder vir a representar o Sporting. Mas o interessante disto tudo é que sou convidado pelo Beira-Mar, que no final da época ia fazer uma digressão à Bélgica, para ir com eles. Eles pedem autorização à Sanjoanense para eu fazer parte dessa digressão. E nesse torneio fui o melhor jogador, o melhor marcador e não tinha a noção da importância que estava a ser, aquilo que estavam a valorizar a minha prestação. Nós naquela idade queremos é jogar e ganhar.

Já jogava como médio ofensivo?
Sim, fui sempre médio ofensivo, era um "10". Foram muitos orgãos de comunicação social nessa viagem e quando chegámos a Portugal entregaram-me os jornais onde deram esse relevo todo ao que tinha sido a minha prestação e a prestação do Beira-Mar, que ganhou o torneio. Logo no dia seguinte recebi uma chamada do Aurélio Pereira a perguntar se eu gostava de ir conhecer as instalações do Sporting, e a dizer que gostava que lá fosse treinar uns dias. Foram oito ou dez dias que lá estive e já não me deixaram sair. Tinha 15 anos.

Litos cresceu em S. João da Madeira

Litos cresceu em S. João da Madeira

D.R.

Ficou a viver onde?
No centro de estágio. E foi um susto logo à entrada da porta 10 A.

Porquê?
Penso que era um domingo, não havia ninguém, não havia jogos e já não havia treinos, aquilo estava deserto. Na altura estava-se na fase final do campeonato e só os juniores é que estavam em competição. Quando entrei na porta 10 A, os meus pais, irmã mais velha e falecido cunhado levaram-me, dirigimo-nos à rececionista, a dona Sofia, acho que já não é viva, apresentámo-nos e naquele momento ela estava a fazer uma chamada para o doutor Branco do Amaral, que mais tarde foi meu médico nos seniores, e estava a dizer-lhe que existia um guarda-redes no centro de estágio, um tal Serambeque, que estava a ver fantasmas [risos]. Eu não sabia o que era paludismo, só ouvia falar em fantasmas e eu que sou apavorado, sou caguinchas, disse logo à minha mãe que queria ir embora, que não queria ficar [risos]. Fiquei completamente apavorado. Depois a dona Sofia lá explicou o que é que se passava, chegaram os dirigentes e pronto acalmaram-me.

Custou-lhe muito estar longe da família?
Não é fácil. Para quem tem uma família grande, que é mais ou menos acarinhado, e digo mais ou menos porque naquela altura não há tempo para carinhos por parte dos pais, com tantos filhos a um ritmo de vida muito acelerado. Mas o contentamento e a felicidade de estar a treinar no clube do nosso coração, o que sempre ambicionamos e sonhamos e de um momento para o outro estamos ali... E depois também foi o carinho que foi dado pelos treinadores, pelo Aurélio Pereira e não só, por todos os dirigentes, mas também a ajuda dos outros jogadores que estavam no centro de estágio que também passavam pela mesma situação. Essa foi sempre uma grande virtude no Sporting e acho que em todos os clubes.

Não o praxaram, não lhe fizeram nenhuma partida?
Graças a Deus não [risos]. Normalmente os praxados são aqueles que são mais atrevidos. Eu como era introvertido, era muito calmo, não fui sujeito a essa praxe.

Como foi com a escola, continuou a estudar em Lisboa ou deixou?
Éramos obrigados a ir à escola. E os meus pais puseram isso também como condição. Mas não é fácil e eu abandonei sem ninguém saber e acabei por reprovar por faltas. Porque no início do campeonato já como juvenil do Sporting fizemos um jogo com uma equipa da Ameixoeira, eu ia para finalizar e um jogador adversário meteu um pé em riste e rebentou-me com o joelho. Estive duas a três semanas em repouso, sem poder sair, sem poder treinar e acabei por faltar. Quando voltei ao final de três semanas já estava completamente atrasado em relação aos outros, fiquei desmotivado e se calhar aproveitei-me disso [risos].

Estava em que ano?
A frequentar o 8º ano. Também me desmotivei porque havia convocatórias para a seleção e nós perdíamos muitos dias na concentração e ficávamos sempre atrasados em relação aos outros. Como eu gostava e tentava ser sempre o melhor em tudo… Embora na escola compreendesse que havia muitos melhores do que eu, mas não gostava de ficar mal visto em situação nenhuma e então resolvi por iniciativa minha deixar de ir às aulas e ao fim de algum tempo aquilo foi uma bronca com o departamento de futebol juvenil, com o senhor Manuel Petronilho, juntamente com os meus pais, que quando souberam desta situação, quiseram-me expulsar e castigar, colocar em São João da Madeira, mas como as coisas estavam a correr bem em termos de futebol, lá se ultrapassou essa situação. No ano seguinte comecei a treinar com os seniores.

Era muito novo ainda.
Sou chamado a treinar com os seniores logo no meu segundo ano de juvenil, tinha 16 anos. Começo a treinar com o professor Jozef Venglos, que era eslovaco. Foi primeiro o Futre e depois começo eu a ser chamado também. Lembro-me que o professor João Barnabé, que pertencia à Direção Geral de Desportos, pedia uma autorização para que eu pudesse realizar os jogos de reservas ainda com 16 anos, porque não era permitido jovens com esta idade jogarem já com os seniores. A partir daí foi todo um caminho de que me orgulho, foi bonito, de muitos sacrifícios também, privei-me de muitas coisas.

Está a falar de festas e saídas à noite?
De tudo, de tudo. Eu tive esse cuidado, passava os domingos deitado no chão do centro de estágio a ver os filmes portugueses ou uma coboiada, tudo que passava domingo à tarde naquela altura na RTP eu via. Passava ali as tardes a recuperar dos jogos das camadas jovens. Tive a felicidade de aos 17 anos estar a ser convidado para iniciar a época, ainda com idade de júnior, com os seniores, com o John Toshack. Na época do Jozef Venglos sou convocado para um jogo de Taça de Portugal entre Sporting e Benfica. Ganhámos 2-1. Estávamos a perder 1-0, o Carlos Manuel tinha feito golo pelo Benfica na primeira parte e quando estamos a 10, 15 minutos da segunda parte, o professor Venglos mandou-me aquecer, a mim e ao Futre. Acredite porque isto é real, eu não parava de tremer [risos]. Eu achava que se entrasse no jogo ia desmaiar, ou me ia dar qualquer coisa. Não estava ainda capacitado para uma situação daquelas, o estádio completamente cheio, eu com 16 anos, não me sentia ainda capaz. Digo isto mas podia ter entrado e as coisas terem corrido bem, mas não estava preparado para.

Mas não chegou a jogar.
Não, e ainda bem, se não não estava aqui [risos]. Não foi necessário, nem acho que pudesse ajudar muito o Sporting naquela altura porque não me sentia ainda preparado para um desafio daqueles. Mas foi bonito, foi uma sensação extraordinária.

Litos (à frente) com primos e irmãos

Litos (à frente) com primos e irmãos

D.R.

Lembra-se qual foi o impacto que sentiu quando entrou pela primeira vez no balneário sénior?
Lembro-me que as coisas foram fáceis, e estamos a falar de uma época em que entrar naquele núcleo de jogadores que tinha muitos anos de casa… Naquela altura eram poucos os jogadores que saíam dos clubes, começavam e acabavam no mesmo clube. Tem o exemplo do Manuel Fernandes. Eu tive a felicidade de ter outros jogadores que foram abrindo caminho. Antes o Futre, alguns meses antes Mourato, Venâncio, um ou dois anos antes, Mário Jorge e Carlos Xavier, por isso para a minha geração e para a geração seguinte, aquilo já estava bem preparado e éramos melhor recebidos e estou a dizer isto porque os que foram primeiro, o Carlos Xavier e o Mário Jorge, foram muito bem recebidos pelo grupo de trabalho, porque eram jogadores da casa e quando se é jogador da casa, da formação, os jogadores têm esse carinho porque também passaram pela mesma situação.

Teve esse cuidado quando chegou a sua vez de receber os mais novos?
Sim, tive sempre esse cuidado quando fui capitão e sub capitão do Sporting, sempre tive esse cuidado em saber receber aqueles que vinham de fora porque eu também tinha passado um pouco por isso, não era estrangeiro mas vinha de muitos quilómetros de Lisboa e percebia a importância que teve o carinho que me deram, o acompanhamento que me deram nesses primeiros dias. A importância também do Aurélio Pereira. Convidei-o para meu padrinho de casamento não só por ter sido ele a trazer-me para o Sporting, mas por aquilo que ele me deu de carinho, ele e a sua família. Às vezes ele levava-me para estar em convívio com a família dele, com as filhas, o próprio irmão, o Carlos Pereira, e até os próprios pais. Faziam-me sentir como se estivesse em casa e isso foi muito importante para a minha adaptação.

Quando integrou o plantel liderado por Toshack, já recebia ordenado de sénior?
Não, o meu ordenado ainda era de júnior. O meu primeiro ordenado eram 14 contos [70€].

Recorda-se do que fez ao primeiro dinheiro que recebeu?
Todo o dinheiro que ganhava… [risos] Agora vai-se rir. Todo o dinheiro que tinha disponível, inclusive as diárias e prémios da seleção, então as diárias era certinho... Nós fazíamos a concentração no Hotel Fénix, no Marquês de Pombal, e quando chegava o Adalberto, que era o diretor financeiro da Federação Portuguesa de Futebol, com as diárias, ele normalmente dava à noite, e no dia seguinte muitas vezes eu, o Futre, o Ferrinho, o Sérgio Louro, saíamos logo disparados, para virar à esquerda e ir para as casas de pronto-a-vestir que existiam ali [riso]. Gastava tudo em roupa e às vezes quanto mais diferentes mais eu gostava. Depois fui conhecendo algumas pessoas, como a minha mulher e a minha cunhada, que me diziam que eu não era muito de conseguir conjugar as cores e os modelos e então eu comprava o manequim inteiro [risos]. Diziam muitas vezes que só faltava eu trazer o boneco também debaixo do braço [risos].

De onde acha que vem esse gosto pela roupa?
Nunca me faltou nada, felizmente, e nós quando somos miúdos não ligamos à roupa, mas com 13, 14 anos, no liceu, já começamos a ter um bocadinho mais de vaidade, por causa das miúdas, das namoradas, e eu durante muito tempo em São João da Madeira roubava a roupa dos meus irmãos mais velhos, que tinham roupa já com alguma pinta. Roubava a roupa e os sapatos e ia para o liceu e depois quando chegava tinha de pedir à minha irmã se o meu irmão estava, para me safar enquanto despedia a roupa rapidamente e os sapatos [risos]. Queria andar todo boneco [risos]. Eu não tinha capacidade financeira e a minha mãe também não tinha condições para comprar aquilo que nós gostávamos, era aquilo que era possível e então quando tive essa possibilidade de ter algum dinheiro gastava grande parte na roupa.

Litos (à esquerda) com os pais e irmãos

Litos (à esquerda) com os pais e irmãos

D.R.

Como foi o embate com o Toshack?
Sabe que quando há alguém que acredita em nós e nos lança nós adoramos sempre e nunca mais esquecemos esse treinador. É evidente que os meus treinadores da formação, na Sanjoanense, seleção de Aveiro, Aurélio Pereira, Mário Mateus, o Marinho do Sporting, dos juniores, todos esses treinadores me marcaram, mas quando é alguém como o Toshack, e eu não percebia muito inglês, que só te dá motivação dizendo: "Vai e joga como tu gostas, como tu sabes"... Não me dava muitas instruções porque percebia a forma como eu gostava de jogar, com 17 anos tu queres é correr e ter a bola nos pés, chegar rapidamente à baliza adversária e ganhar. Por isso o impacto foi sempre bom, o início da época foi de grande alegria mas depois foi de grande tristeza.

Porquê?
Foi uma tristeza grande quando vimos o Futre a treinar no Estádio das Antas, foi um momento de tristeza para mim e para todos os sportinguistas, mas pronto, tivemos de esquecer tudo isso, tivemos que seguir o nosso percurso, ele seguiu o dele e bem. Para mim continua a ser, e digo-o sempre, o melhor jogador de todos os tempos da formação do Sporting. E digo isso com orgulho porque sei aquilo que existia, estive ao lado, joguei ao lado dele, não só em termos de clube, mas de seleção e depois aquilo que ele fez no Atlético de Madrid, foi de facto um jogador, não retirando o valor ao Cristiano Ronaldo, ao Figo e a muitos outros, mas para mim foi o melhor jogador de todos os tempos da formação do Sporting. Mas voltando ao impacto com Toshack, foi extraordinário porque fui sendo lançado aos poucos. Mas a minha teimosia veio a refletir-se nos anos seguintes em termos de lesões.

Que teimosia?
Aquela minha vontade de iniciar a época com os seniores quando eu tinha terminado o nacional de juvenis e tinha apenas oito a dez dias de férias. Porque queria aproveitar essa oportunidade que o Sporting me estava a dar em termos de futebol profissional e mais tarde, veio a refletir-se provavelmente naquilo que foi a pubalgia que tive no ano seguinte, por algum desgaste, algum desequilíbrio em termos musculares. Pode ter tido origem exatamente nesse pouco descanso que tive naquela altura.

Na época seguinte vem Manuel José. Muito diferente de Toshack?
O Manuel José é uma pessoa da qual sou um grande amigo mas tive dois momentos problemáticos com ele. Um de saúde, outro daquilo que era a minha pureza, aquilo que é a minha forma de estar, de dizer sempre aquilo que sinto e aquilo que me vai na alma.

Litos (o mais novo) no casamento de um irmão

Litos (o mais novo) no casamento de um irmão

D.R.

Conte-nos o que aconteceu.
Foi no início da época, nas Açoteias, nesse primeiro ano de Manuel José, em que eu tinha feito uma segunda volta extraordinária ainda como júnior com o Toshack, sempre como titular. Ao fim de alguns treinos, normalmente faziam-se reuniões, uma vez ou outra noturnas, para se saber como é que as coisas estavam a correr e numa dessas reuniões, estávamos nós num anfiteatro, o Manuel José perguntou a vários jogadores o que é que eles estavam a achar dos treinos, como é que se estavam a sentir, se achavam positivo. Eu com a minha inocência de 17 a fazer 18 anos disse: "Ó mister, isto está a ser tudo muito bom, o problema é os resultados depois, se a gente começar a perder, é porque o trabalho não deve estar assim tão bom, se estivermos a ganhar o trabalho é sempre bom".

Ele não gostou?
O Manuel José não ficou muito bem impressionado. Só que nessas quase duas semanas de treino eles normalmente mediam-nos a pulsação e eu tinha sempre um ritmo cardíaco muito alto, mas o doutor Fernando Ferreira achava que era eu que não conseguia tirar bem. Íamos andando e ultrapassando a situação. No último treino de estágio normalmente leva-se com duas ou três horas de futebol, de jogo uns contra os outros, ou então faz-se um treino de grande exigência física. E nesse último dia nós fomos para a pista de atletismo das Açoteias levar uma “tareia” e eu ao fim de algum tempo de corrida comecei a dizer ao doutor Fernando Ferreira que não conseguia respirar, que estava com dificuldades em respirar. Mas as pessoas achavam que pelo facto de eu ser jovem e ter feito uns bons jogos na época anterior, estava armado em vedeta e então fui obrigado a completar o treino. Com alguma dificuldade completei, também tinha sempre essa ambição de não ficar para trás, o que é certo é que depois de termos chegado, no dia seguinte quando fomos retomar os treinos, eu fui fazer um eletrocardiograma e fiquei internado em repouso absoluto.

Então?
Foi-me detetado uma pericardite na membrana do coração. Não tive grande preocupação pela idade que tinha, a gente acha sempre que as coisas são ultrapassadas. Mas há coisa de dois anos reencontrei o Mourato e ele disse-me que os médicos e os fisioterapeutas na altura receavam que eu pudesse ficar afastado do futebol. Eu não tinha essa noção, percebi que havia grande preocupação por parte de todos mas nós com 17, 18 anos, achamos sempre que nada nos acontece.

Hoje tem problemas cardíacos ou não?
Não, acho que não, pelo menos faço sempre exames. Foi ultrapassado. É curioso que há coisa de seis ou sete anos voltei a falar com um especialista, o doutor Teles Martins, que me disse que esse problema que tive pode ter deixado algumas lesões que mais tarde podem vir a proporcionar alguma situação não muito agradável, mas eu espero que não.

Estava a contar que teve de ficar em repouso.
Sim, 15 dias em repouso absoluto na Clínica São João de Deus.

Foi visitado pelos colegas?
Muito, por todos os colegas.

O Manuel José também o visitou?
Claro que sim, todos sem exceção. É normal, ainda para mais eles estarem a saber de coisas que eu não sabia. Se calhar até por esse motivo havia essa preocupação.

O que aconteceu depois?
Depois ultrapassou-se tudo, fizemos uma época excelente nesse ano em que eu estava a jogar como médio ala, era eu e o meu cunhado, o Mário Jorge, médio ala direito e médio ala esquerdo e após um jogo das competições europeias, da Taça UEFA, no Feyenoord, eu acabei por fazer o golo que nos permitiu a passagem da eliminatória. Mas no dia seguinte mal me conseguia mexer. Havia algum desgaste porque os médios ala, eu e o Mário Jorge, éramos obrigados a fazer um trabalho muito exigente em cada jogo; normalmente os laterais fechavam por dentro e nós tínhamos de fazer todo o corredor e esse jogo foi de grande exigência. Daí se calhar a tal situação do desgaste, do pouco descanso que tinha tido nas férias, originou o problema da pubalgia e estive três meses afastado. Faltavam dois ou três jogos para final da época e apareci bem, com um trabalho muito forte do senhor Valdemar Custódio, adjunto do Manuel José, que foi de facto um homem extraordinário e que me deu todo o apoio, preparou-me para aqueles jogos finais.

Litos foi para o Sporting com 15 anos

Litos foi para o Sporting com 15 anos

D.R.

Entretanto na época seguinte há o 7-1 ao Benfica. Estava lá.
Estava. Estive em quatro golos, o golo mais bonito do Manuel Fernandes, o tal de voo de peixe, sou eu que cruzo de pé esquerdo, depois de fazer uma jogada excecional. Já tinha dado ao Mário Jorge e ao Ralph Meade, por isso estive presente nesses golos.

Acabou por não explicar ainda o que aconteceu com o Manuel José.
Depois daquilo que foi o despedimento do Manuel José, existiram alguns comentários não sei se na altura do Jaime Pacheco e do Sousa, elogiando mais a formação do Futebol Clube do Porto em relação à do Sporting, naquilo que era a atitude dos jogadores, da maior agressividade. E fui colocado ao barulho porque era a referência que estava mais bem posicionada da formação do Sporting e fui levado para uma entrevista em defesa da formação do Sporting, que era uma realidade. Sempre tivemos e temos uma boa formação e eu fui em defesa e provavelmente terei criticado o Manuel José, o Jaime Pacheco e o Sousa. Depois houve o revés, o regresso novamente do Manuel José passado um ano ou dois e aí as coisas não foram fáceis, porque não tinha dúvidas de que com Sousa e Jaime Pacheco era extremamente difícil jogar no meio e era o lugar onde sentia que seria mais capaz e podia render muito mais. Ao ser colocado no corredor direito existiria sempre uma pressão muito grande sobre mim, por aquilo que estava a ser o sucesso do Futre no Futebol Clube do Porto e nós no Sporting não ganhávamos nada.

Onde está a querer chegar?
Eu sabia que existia essa pressão sobre mim porque queriam que eu fosse melhor do que o Futre, no Futebol Clube do Porto. E era impossível ser melhor do que o Futre ainda para mais eu estando a jogar numa posição que não era a minha, eu não era um jogador muito rápido e jogando como extremo, como ala, era facilmente neutralizado, facilmente me anulavam porque naquela altura não havia a liberdade que existe hoje dos movimentos interiores. Hoje fala-se muito na liberdade que se dá aos jogadores de se poderem movimentar à procura de bola, à procura de espaço. Naquela altura nós era tudo a direito e o Manuel José não permitia sequer que eu saísse daquele corredor. Foi aí que eu comecei a ter alguns problemas com ele, porque joguei menos vezes e não jogava na minha posição. Foi logo depois de ser chamado para fazer o serviço militar.

Fez a tropa onde?
Fui para a especialidade de enfermeiro no batalhão de serviço e saúde, em Setúbal. Se tivesse de ir para a guerra, tinha de ficar na retaguarda como enfermeiro [risos]. Vou para a tropa na época em que o Manuel José volta novamente ao Sporting. Eles vão para a Holanda e eu perco todo o início da época, estou três meses confinado ao quartel e atrasou-me completamente esse ano. Apenas fiz sete jogos e foi aí que as coisas azedaram com o Manuel José, porque eu dizia que só queria jogar no meio porque sabia que os adeptos do Sporting queriam ver aquilo que era a minha produção, que eu sempre demonstrei e jogando no meio sabia que podia ter um rendimento maior, e por isso recusava-me a jogar na posição que ele queria. É uma coisa inadmissível e hoje conto aos meus jogadores, dou esse exemplo de alguém que com a idade que eu tinha não podia ter tido aquele comportamento nem dizer o que disse a um treinador principal. Eu dizia que preferia não jogar se não me colocasse a jogar no meio, porque sabia que o meu rendimento a jogar como extremo não era aquilo que os adeptos do Sporting esperavam de mim. E pronto acabei por ser penalizado por isso, joguei pouco jogos.

Mas tinha concorrência de peso no meio campo.
O Douglas, o Carlos Manuel, o Oceano, o Carlos Xavier, muitos jogadores para aquela posição. Penso que naquela altura como extremo estava o Marlon Brandão e fazia o trabalho melhor do que eu porque era muito mais rápido. Tenho perfeita noção de que ele produzia mais do que eu. Eu tinha outras capacidades, outras qualidades mas não tinha velocidade para jogar a extremo. Foi assim uma época menos conseguida no Sporting.

D.R.

Na época seguinte com o Marinho Peres farta-se de jogar.
Foi uma época extraordinária, que nos marcou. Tivemos uma oportunidade única para ficar na história do Sporting se temos conseguido chegar à final da Taça UEFA. Aquele jogo com o Inter de Milão em que em casa poderíamos ter conseguido um resultado bem melhor do que o 0-0… Depois em Itália aquilo estava tudo preparado, tínhamos tudo planeado, o Marinho Peres tinha preparado a equipa de uma forma e depois muito em cima da hora alterou e acabámos por não conseguir. Se calhar, eu digo isto porque eu era para ter jogado a titular.

E porque é que ele alterou, sabe?
Eu não tenho certezas mas aquilo que consta é que o Cadete não ia jogar a titular, ia jogar apenas o Gomes, que na frente era um jogador que segurava melhor a bola e nós íamos dar iniciativa ao Inter de Milão, aquilo que eles nos fizeram a nós. Aquilo que consta, não sei se é verdade ou se é mentira, é que o Cadete não ia jogar e depois jogou porque houve alguns recados do Sousa Cintra e da sua direção. Era importante o Cadete jogar porque estavam olheiros, estavam representantes de alguns clubes, tinha que ser visto para ser vendido. E pronto foi tudo alterado. Se calhar, se eu tivesse jogado até tínhamos perdido por mais, não sei, mas foi uma pena essa geração não ter conseguido chegar a essa final. Tínhamos ficado também na história do clube. Mas foi um campeonato excecional. Nós levamos 12 jogos, 12 vitórias, isto na época de que se fala muito e de que se vem a falar depois do "Apito Dourado". Lembro-me perfeitamente num jogo contra o Vitesse, na Holanda, reunimos no centro do terreno antes do treino para falarmos. O Marinho Peres a questionar-nos sobre o que é que achávamos do campeonato, se havíamos de apostar mais no campeonato, se havíamos de apostar mais na Taça UEFA e, não vou dizer o nome, mas gente muito conhecedora do Futebol Clube do Porto disse: "Marinho, esquece porque que quando aquela malta lá de cima quiser fechar a torneira, vão fechar a torneira e nós vimos por aí abaixo". O que é certo é que após essa 12ª vitória, no jogo em Chaves e depois na Madeira frente ao Marítimo, a equipa é roubada, fomos prejudicados em duas arbitragens e a partir daí começamos a decair em termos de prestação e resultados e nunca nos deixavam ir muito além para podermos disputar o título.

1991/92 ainda é com o Marinho Peres, mas joga menos.
Mas tem aí uma particularidade. O Balakov ainda não tinha chegado e o Marinho Peres punha-me a bater os cantos de um lado e do outro, com o pé direito e com o pé esquerdo. A confiança que o Marinho me dava era imensa. Eu tinha essa capacidade também, e toda a gente ficava espantada com o à vontade com que eu batia os cantos de um lado e do outro, com os dois pés. O Marinho Peres era também um bocadinho de superstições e enquanto vamos ganhando, vamos sempre acreditando nelas, nas mensagens que ele vai passando, naquilo que ele acredita.

Ele tinha algum ritual especial?
O ritual do Marinho Peres era naquele túnel desde o começo até ao final, ele benzia-se umas 30, 40 vezes, tocava em todos os cantos [risos]. Nós ficávamos a olhar uns para os outros, respeitando e assustados, mas o que era certo era que a equipa jogava, produzia, ele transmitia essa ambição a todos nós. Ele tinha sido o jogador que tinha sido, jogador de um grande clube, do Barcelona também, e passava-nos esse à vontade para dentro do campo, essa ambição. A nossa equipa nesses anos era das equipas mais goleadoras. Jogava o Cadete na esquerda, o Gomes e o Careca na frente de ataque, o Careca mais por trás e depois era Oceano e Douglas no meio, o Carlos Xavier que era um lateral, quase que era um extremo. Era uma equipa muito ofensiva e ganhámos grande parte dos jogos com resultados dilatados.

Litos jogou no Sporting até 1991/92

Litos jogou no Sporting até 1991/92

D.R.

Havia um sentimento de frustração, de não conseguirem chegar ao título?
Foi isso que nos marcou e que está a marcar estes agora. Naquela altura era "Apito Dourado", agora fala-se de outras coisas e depois quando se começa a verificar e a ver que neste jogo ou naquele foi decisiva a atuação da equipa de arbitragem... Uns ficam para trás e outros são levados mais ao colo. Às vezes já nem é necessário, porque falando de um clube que em alguns momentos se calhar foi ajudado, depois quando começa a ganhar mais vezes os campeonatos, entra mais dinheiro, começas a ter jogadores de mais qualidade e depois já não precisas dessa ajuda. Muitas das vezes aquilo que se provoca é a desestabilização nos outros. Basta uma arbitragem num jogo em que as coisas corram menos bem para um clube que já vai originar alguma desestabilização dentro do grupo de trabalho. E isso foram situações que foram ocorrendo durante estes últimos 30, 40 anos, de uns e outros lados.

Quais foram as maiores amizades que fez no Sporting, tirando o Mário Jorge, que foi seu cunhado?
Dos mais velhos, infelizmente alguns já não são vivos, tenho de falar sempre do Manuel Fernandes, o nosso velho capitão, do falecido Rui Jordão, do falecido Bastos, do Virgílio que felizmente ainda é vivo, do próprio Romeu, Gabriel, Carlos Xavier, Lima, Mourato, o próprio Venâncio e o Oceano. Tivemos o Figo também, mas o Figo esteve muitos anos ausente do país depois e separámo-nos mais. Continuo a ter uma amizade extraordinária com o Fernando Mendes e com o próprio Paulo Futre. Se calhar vou-me esquecer de alguns e peço desculpa.

Nunca ganhou uma alcunha?
Tenho algumas. Uma era o "Platini" pela forma como eu jogava. Depois tive a do "pipi", muitas vezes as pessoas ouviam chamar-me por pipi e não sabiam porquê [risos]. Tem a ver com isso dos manequins e da roupa. Quando comecei a ter algum dinheiro gostava de andar sempre bem vestido, então era o "pipi". E depois com a chegada do Tersinksy, o preparador físico búlgaro, o Balakov e o Yordanov começaram a chamar-me de artista, pela forma e qualidade com que jogava.

Com a filha Rita

Com a filha Rita

D.R.

Histórias divertidas ou caricatas desse tempo do Sporting, o que é que pode contar?
Não tenho muitas, mas tenho uma do meu amigo Oceano, que era um brincalhão dentro do balneário e tinha um vício terrível, que era dar-nos com a toalha de chicote no rabo. Aquilo doía, era uma dor terrível. E ele um dia lembrou-se de me fazer isso e eu armei-me em Tarzan e virei-me ao Oceano, para ir para a porrada com ele [risos]. Eu ia ficar desfeito, o Oceano com o cabedal que tinha ia rebentar comigo, mas tive sorte: o Oceano caiu, empurrei-o e ele caiu entre o banco e os cacifos e não se conseguia levantar [risos]. Foi a minha sorte porque depois os outros chegaram e separaram aquilo tudo, porque se não eu ia ficar desfeito [risos]. Mas continuamos sempre grandes amigos. Tenho outra história engraçada do Oceano, que era o louco.

Força.
Na antevéspera dos jogos, depois do treino, há sempre saunas e massagens, e então nós gostávamos muito de fazer a nossa sauninha para limpar um bocadinho e nos dias de inverno ajudava a aquecermos. O Careca, que era louco por sauna, muitas vezes até lhe dava cãibras e tudo já no autocarro ou quando ia de casa porque estava a desidratar. Eu sou claustrofóbico, não gosto de estar fechado em sítio nenhum. Nós os dois e o Felipe, o canhoto, que hoje é treinador dos Sub-17 da seleção nacional, que era asmático, estávamos na sauna e o sacana do Oceano sempre que nos apanhava dentro da sauna, entrava, abria os braços e dizia: "Agora daqui ninguém sai" [risos]. Nós que se calhar já lá estamos há 10 ou 15 minutos, desejosos de sair, já a precisar de ar fresco, tínhamos de dizer de tudo e chorar: "Oceano, deixa-nos sair, nós temos que ir apanhar ar, já não podemos mais"; "daqui ninguém sai" [risos]. Era um tormento para nós este gajo, mas é um gajo extraordinário.

E é verdade que também gozavam muito com o Figo porque além das pernas grossas diziam que tinha uma cintura de mulher?
É verdade. E aquilo ajudou-o a ser o jogador que é, aquela cintura assim daquela maneira e a parte muscular nos membros inferiores. Ajudaram-o a ser o que foi. Ele de facto tinha um corpo de atleta de alta competição. Era genético, não foi muito trabalhado. Naturalmente que depois a parte muscular dos membros inferiores foi mais trabalhada para ele ter mais potência nos seus movimentos, na forma como jogava.

Ele não ficava chateado quando vocês gozavam com ele?
Não, o Figo a única coisa com que ficou chateado foi quando ele apareceu com aquele penteado, de caracóis assim de risco ao lado, era gozado por toda a gente. Mas o Figueiras, como a gente às vezes o chamava, era um miúdo extraordinário, de grande humildade, e daí ele ter chegado aonde chegou, não só pela sua capacidade, mas por ser um rapaz com uma humildade tremenda, que era sempre acarinhado por todos exatamente por essa forma de estar.

Com o filho Diogo

Com o filho Diogo

D.R.

Como é que vai parar ao Boavista?
Vou parar ao Boavista por causa da primeira estupidez na minha vida. A primeira e a última, acho eu, acho que não tive mais nenhuma. Foi por ter-me deixado influenciar. Tinha-me sido levantado um processo disciplinar.

Porquê?
Deus o tenha, ao senhor Juca, que foi um grande profissional do Sporting, uma referência enorme do clube, mas ele era o nosso diretor desportivo e teve um comportamento que não era o melhor em relação a todos os atletas. Aquela coisa de que no tempo deles é que se jogava, é que se corria. Criticava muito os jogadores que estavam em campo e os suplentes que estavam no banco depois passavam essa mensagem e o ambiente nunca foi o melhor com ele. Em relação a mim, aquilo que se falava era que fui sempre um protegido do senhor João Rocha. Acho que fui eu e todos os jogadores da formação porque o senhor João Rocha tinha esse carinho pelos jogadores da formação. E por isso era sempre um visado do senhor Juca, havia sempre esse mau estar em relação a mim e num jogo de final de época, que realizamos em Saint-Denis, penso que com o Aston Villa, o senhor Bobby Robson ia observar o jogo porque queria conhecer alguns dos jogadores que não conhecia, que ainda não tinha visto a atuar no campeonato; ele já tinha visto dois ou três jogos cá. E eu era para ter jogado a titular, eu e o Amaral.

Não jogou?
Quem estava como treinador era o senhor Dominguez, que tinha sido adjunto do Marinho Peres que já tinha saído do Sporting. E vamos para esse jogo, o senhor Dominguez pede-nos para não levarmos a mal mas o que o senhor Bobby Robson queria ver o Guentchev e o Careca porque havia interessados em contratar o Careca. Nós aceitamos perfeitamente que iríamos entrar ao intervalo. O que é certo é que o Bobby Robson desceu para o campo, nós andávamos à aquecer há algum tempo e os outros jogadores iam entrando. Mais tarde viemos a saber que o senhor Bobby Robson em relação a mim já sabia tudo o que tinha que saber, até porque o Manuel Fernandes ia ser o adjunto, o Toshack era amigo do Robson e já tinha dado informações também em relação a alguns jogadores. Eu tinha feito dois jogos em bom plano, por isso também deve ter ficado entusiasmado com aquilo que tinha sido a minha prestação e eu era um dos tais jogadores que ele não queria ver, mas ninguém me tinha transmitido isso e eu comecei a achar que estava a haver alguma tramóia por parte do senhor Juca porque só joguei 10, 15 minutos. Fiquei revoltado e na ida para o balneário fui dizendo alguns impropérios, porque achei que alguém me queria fazer a cama.

Foi por causa desses impropérios?
O senhor Juca se calhar até não teve intenções nenhumas, espero bem que não, mas pronto desenrolou-se a situação que se desenrolou: provocou-me e mandou-me calar: "Ó miúdo, cala-te lá que só estás a dizer disparates". Fiquei ainda mais revoltado por tudo aquilo que já era do passado, que cheguei à cabine e peguei numa garrafa, dei com a garrafa em cima da mesa e foi água por todo lado. Os nossos colegas agarraram-me estava presente o engenheiro Tomás Aires, que era vice-presidente e, perante aquela situação, e acho correto, foi-me levantado um processo disciplinar.

Com a mulher e filhos

Com a mulher e filhos

D.R.

É por isso que vai embora?
Eu com a idade que tinha nunca tinha passado por uma situação daquelas, fiquei muito alarmado com o processo disciplinar. Falei com o Manuel Fernandes, que me disse para estar sossegado que não havia problema nenhum, as coisas estavam a ser tratadas, provavelmente iria responder ao processo disciplinar, era castigado, tinha alguma multa. Mas eu fiquei de tal maneira assustado e como não queria na minha folha de serviço do Sporting um processo disciplinar, porque achava que iria ser uma nódoa grande no meu currículo, que pedi ajuda para tentar resolver a situação ao senhor Manuel Barbosa, empresário que trabalhava muito com o Benfica. E numa das reuniões com ele tive a má decisão de ter dito que preferia rescindir contrato a ter processo disciplinar. Uma coisa que não ia dar em nada, mas eu convenci-me que ia ser um problema grande.

O que fez o Manuel Barbosa?
O senhor Manuel Barbosa aproveitou logo e disse; "Então vamos ligar ao presidente Sousa Cintra e vamos apresentar essa tua tomada de posição". Eu longe de imaginar que poderia acontecer alguma coisa que eu não queria, que foi o que aconteceu. Ligo ao Sousa Cintra e digo: "Senhor presidente, por aquilo que tenho do meu currículo no Sporting, do que foi a minha folha de serviço, eu prefiro rescindir contrato a ter que responder a um processo disciplinar, a ter que ter este processo disciplinar".

O que disse Sousa Cintra?
O senhor Sousa Cintra, que na altura tinha o fantasma do senhor João Rocha, achava que todos nós que vínhamos da formação estávamos contra ele e que queria fazer no Sporting a tal equipa de campeões do mundo de Riade e de Lisboa, via-nos como inimigos e só me disse: "Amigo Litos, então passa cá amanhã para a gente rescindir o contrato". Eu ainda tinha mais um ano de contrato. Tinha 25 anos, era capitão da equipa, eu e o Venâncio, éramos os dois capitães da equipa e saio do Sporting numa altura em que ia chegar o Bobby Robson, que era um admirador da forma como eu jogava, e que tinha o Manuel Fernandes como adjunto. Tenho a perfeita noção de que ia fazer uma época extraordinária juntamente com eles, que ia dar seguimento a uma carreira bonita e ainda hoje se calhar estaria no Sporting.

É o seu maior arrependimento na carreira?
É. Foi ter saído do Sporting e depois ir representar o Boavista. E dei uma entrevista que não devia ter dado da forma que dei. Algumas semanas depois disse que iria sempre defender o Boavista com todo o profissionalismo, mas que nunca iria ser como estar a defender aquilo que eram as cores do meu clube e do meu coração, o sentimento é completamente diferente. Acho que as pessoas do Boavista não aceitaram muito bem essa minha declaração, mas era como lhe dizia no início da conversa, era o coração a falar e muitas vezes prejudiquei-me porque como nortenho que sou, tenho um bocadinho esta forma de estar, fui criado assim, naquilo que era a verdade acima de tudo, sempre a verdade e aquilo que nós sentimos e que nos vai no coração e na alma. Foi mais uma declaração que eu não devia ter feito, embora tivesse feito duas épocas no Boavista, com muitos jogos, não tantos como eu gostava porque também cai de paraquedas no Boavista, não sendo se calhar muita vontade do Manuel José. Mas reconciliámo-nos nessa altura.

Falaram sobre o que se tinha passado no Sporting?
Na altura em que sou contratado pelo Boavista provavelmente eu não era um jogador que o Manuel José necessitasse. Tanto quanto me apercebi, tinha existido uma guerra entre Boavista e Famalicão, porque naquela altura quando eu rescindi com o Sporting, o senhor Manuel Barbosa quis-me direcionar para o Famalicão. O Famalicão até tinha feito uma época extraordinária com o José Romão, levou o Famalicão à Europa e o Manuel Barbosa estava a direcionar-me talvez para que eu aparecesse e depois se calhar até me transferia para outro clube, com mais grandeza, mas as coisas não resultaram assim. O presidente do Boavista, major Valentim Loureiro, interveio quando se começou a falar muito do Famalicão e mais tarde aquilo que me deram a conhecer foi que o Famalicão estava em negociações com o Boavista por um jogador jugoslavo ou croata e depois o Famalicão acabou por vendê-lo ao V. Guimarães e o major Valentim Loureiro por revanche “roubou-me” ao Famalicão. Foi o que me contaram depois.

Antes de falarmos do Boavista, já estava casado?
Sim, casei-me com 21 anos. A minha mulher, a Graça, é irmã da Ana Cristina que é mulher do Mário Jorge, dai nós sermos cunhados. E é o Mário Jorge que me apresenta a minha mulher ainda com 18 anos, quando eu sou internacional A, no jogo contra Malta no estádio da Luz. É a minha primeira internacionalização A. A seguir ao jogo, o Mário convidou-me para jantar e levou também a minha mulher e a minha cunhada. Foi aí que a conheci e nunca mais nos separámos [risos].

Foi amor à primeira vista?
Sim. A Graça já naquela altura estava acabar o curso de engenheira química no ISEL, depois tornou-se professora, foi sempre algo que quis fazer e nunca abdicou desse seu desejo, hoje é diretora de um agrupamento de escolas Carlos Gargaté, aqui na Charneca da Caparica. Fez sempre aquilo que desejou, nunca foi madame de casa, começou a trabalhar muito cedo, aos 21, 22 anos já lecionava.

Então quando vai para o Boavista ela vai consigo?
Ela vai comigo e foi dar aulas no Porto.

Litos tornou-se treinador do Portimonense em 2009/2010

Litos tornou-se treinador do Portimonense em 2009/2010

D.R.

Como foi a adaptação ao balneário do Boavista? Muito diferente do do Sporting?
Muito bom também, com gente com quem eu já tinha jogado na seleção de Aveiro, muitos jogadores da seleção nacional também nas camadas jovens e jogadores que me admiravam muito, que eram grandes sportinguistas. Lembro-me perfeitamente do Alfredo, o guarda-redes, era de facto um ambiente extraordinário.

Estava a contar que foi para o Boavista mais pela mão do major do que propriamente pela vontade do treinador. Como foi o primeiro embate com o Manuel José?
Nós fomos falando aos poucos. Fomos tendo oportunidades, o meu amigo Manuel José, por quem tenho um carinho enorme, uma admiração muito grande, é um grande pescador, eu também sou um grande apreciador de pesca, gosto na natureza, gosto do ar livre, daqueles momentos de repouso e de folga, às vezes ia ter com ele e falávamos muito sobre essas situações e as coisas foram-se ultrapassando, eu também fui demonstrando o meu empenho e aquilo que era o meu profissionalismo e naturalmente que as coisas se sanaram, eu acabei por fazer parte do grupo de trabalho dele e a relação passou a ser diferente. Hoje somos grandes amigos, sou um grande admirador dele por tudo o que ele tem feito.

No ano seguinte, 1994/95, vai para o SC Braga. Porquê?
Eu tinha uma cláusula no meu contrato que dizia que se o Boavista quisesse continuar comigo no ano seguinte teria que pagar uma verba. O major Valentim Loureiro, para que as coisas ficassem legais, enviou-me uma carta com aviso de receção em que dizia que tinha todo o interesse em que eu continuasse, mas não tinha capacidade de pagar aquela verba. Então voltámos a negociar um contrato e eu exigi dois anos de contrato, ele só queria um e eu disse-lhe que se não fizesse uma boa época, no ano seguinte eu próprio rescindia contrato e ia embora. Acabei por fazer uma época que considero boa, o major Valentim Loureiro não queria que eu continuasse, nós íamos fazer uma digressão ao Brasil, havia uma dúvida porque achavam que havia outro jogador que poderia fazer essa mesma posição e se calhar mais barato, o que é compreensível. Durante essa digressão a Belém do Pará, por causa da transferência do Artur, o brasileiro, nesse torneio fiz jogos aceitáveis, muito bons até e esses jogadores não produziram aquilo que o Manuel José estava à espera e então, inclinou-se mais para que eu continuasse. Disse que iria transmitir interesse em que eu continuasse, mas que as coisas tinham que ser passadas com algum cuidado para que não houvesse conflitos. Se no início do campeonato eu não tivesse clube, iria permanecer. Então o major Valentim Loureiro pediu para reunir comigo e relembrou-me aquilo que tinha sido o meu compromisso, de que eu próprio tomava essa iniciativa. Eu como sou um homem de palavra, como sempre faço, saio sempre prejudicado mas fico sempre de cabeça levantada, apertei a mão ao major Valentim Loureiro e disse que sim, senhor, tinha toda a razão, já que não há interesse eu vou seguir o meu caminho. E foi assim que saí do Boavista. Com pena minha porque acho que iria continuar a fazer um bom trabalho, era um clube que tratava muito bem os seus atletas.

Mantinha o Manuel Barbosa como empresário?
Não. Eu nunca tive empresário, achei que não necessitava. E tem sido quase sempre assim também como treinador, não sou muito de regatear com o que quer que seja. Apresento a minha proposta, os clubes apresentam a deles e logo se vê se há acordo.

Então como é que surge o interesse do SC Braga?
Passou a haver um interesse do Braga, quando perceberam que eu ia sair. O interesse era do Manuel Cajuda, que ia ser o treinador. Eu tinha uma relação muito próxima do Cajuda, até familiar, com os meus compadres, o Rui Correia e a mulher, ele é primo da mulher do Rui Correia. Fui convidado para estar presente no Algarve num fim de semana junto com eles, em que ele demonstrou o desejo que eu fizesse parte da equipa do SC Braga nesse ano.

Num treino do Portimonense

Num treino do Portimonense

D.R.

Deve ter vivido muitas histórias com o Manuel Cajuda. Tem alguma de que se lembre?
Tenho mas não posso contar... [risos] É um bocadinho assim… Mas foi uma pessoa que teve um comportamento extraordinário para comigo e vou dizer porquê. Num jogo contra o Sporting em Braga. O 1º de Maio, quando era inverno, ficava completamente impraticável. Na parte final do jogo em que o Sporting estava a pressionar um pouco mais, estava 0-0, quase ninguém queria pegar no jogo porque o campo estava difícil, muito difícil e eu fui perto do meu compadre, que era o Rui Correia, que estava na baliza, pedir-lhe a bola e estava de costas para o jogo. E naquele momento quando estou para rececionar a bola, há a comunicação do Rui Correia de que estava o Juskowiak e o Figo a pressionar e eu tento devolver a bola ao Rui Correia e a bola bate num torrão, dou-lhe com a canela e a bola fica quase ali à mercê do Figo, que dá ao Juskowiak que faz o golo. Acredite, naquela altura cai tudo e foi uma deceção para mim. Estava triste e estava debaixo do duche a chorar, o Manuel Cajuda foi-me dar algum conforto e passado algum tempo apareceu em minha casa para me confortar e para me dizer para levantar a cabeça que estas coisas acontecem a qualquer um. Mas foi de facto um gesto que não esqueci.

Porque é que não fica em Braga na época seguinte?
Vou-lhe contar outra do Cajuda. O Manuel Cajuda no final dos treinos muitas vezes gostava de fazer aquela velocidade de deslocamento que era da baliza até ao meio-campo, todos os jogadores da linha para baixo, ao apito, arrancavam. Eu não era rápido e sabia que normalmente ia ficar sempre para último. Quem chegava primeiro ia-se embora e normalmente eu e o Baltazar e mais dois ou três éramos sempre os últimos. Até que já na parte final e já saturado daquilo, chateado por estar a ser enxovalhado porque era sempre o último… Porque os treinos eram com os adeptos na bancada a ver… Então nas últimas, fui a fazer aquilo a 50 à hora e o Manuel Cajuda acabou o treino, acabou as sessões de velocidade, pôs-me a correr durante 20 minutos sozinho como castigo para eu aprender [risos]. Temos de aceitar.

Vai para o Estoril Praia porquê e como?
Eu já estava numa fase em que já tinha construído a minha casa na margem sul, queria voltar para casa, queria estar perto da família.

Porque é que escolheu viver na margem sul?
Foram os gémeos Castro, do atletismo, que são meus amigos de sempre e que me falaram de um terreno que um amigo deles queria vender. Fui ver. Não é que percebesse muito de terrenos nesta zona da Marisol, há 30 anos a Marisol não é o que é hoje. Comprei e fiz a casa. Então houve esse interesse de vir para mais perto de casa.

Tinha mais algum ano de contrato com o SC Braga?
Não. Foi um ano difícil, os nossos ordenados eram pagos aos terços, foi um ano em que o SC Braga teve grandes dificuldades financeiras. Mesmo assim fizemos um bom campeonato e no ano seguinte o Manuel Cajuda leva o SC Braga à Europa, eu já lá não estou. Mas estava dizer, surgiu o convite do Carlos Manuel e fui.

Litos hoje é comentador de televisão

Litos hoje é comentador de televisão

D.R.

Não o incomodou passar para a II Liga?
Não, porque aquilo que estava a ser preparado com o Carlos Manuel, ambicioso como era, tudo indicava que pudéssemos subir de divisão. E foi bastante difícil a manutenção.

Como explica isso?
A nossa equipa jogava muito bem, tinha jogadores muito bons tecnicamente, só para perceber, o nosso avançado era o Pauleta; tínhamos o Cavaco, que foi para Inglaterra, o Marco Paulo e Paulo Jorge, Martins como capitão de equipa, era uma equipa excelente, mas a equipa jogava bem demais para o campo que tínhamos. A Amoreira naquela altura era cimento autêntico e não conseguíamos praticar o nosso futebol, jogávamos melhor fora de casa do que em casa. As equipas vinham ao nosso terreno e fechavam muito, aquele campo não favorecia a equipa que jogasse melhor e com mais qualidade. Tivemos grandes problemas nesse campeonato, foi uma pena.

Entretanto vai para França, para o US Lusitanos.
A França surge por intermédio do Norton de Matos. Há um grande sportinguista da zona de Paris que lhe pergunta se havia algum jogador que pudesse estar interessado em representar o Lusitanos, onde estava o Jorge Plácido. Era uma equipa da comunidade portuguesa, presidida pelo Armand Lopes. O Norton de Matos apresentou-me essa possibilidade e eu aceitei. Era uma nova aventura. O Manuel Oliveira era o treinador.

Foi sozinho?
Não, fui com a minha mulher. A Graça estava para se tornar efetiva na escola Carlos Gargaté por isso ia ter comigo todas as quintas-feiras e regressava domingo. Entretanto ela engravida da Rita, a nossa primeira filha, que nasceu em 1997.

Nasceu em França?
Sim. Fiquei lá dois anos. Foram dois anos excecionais, Saint-Maur era uma localidade extraordinária, o povo era todo português, poucas vezes necessitávamos de falar em francês. Todos os fins de semana íamos para Paris, que é de facto uma cidade fabulosa.

Notou muita diferença ao nível do futebol?
Nós estávamos a disputar o campeonato que correspondia aqui à II B ou Campeonato do Portugal. Depois conseguiu-se subir uma divisão. Mas havia grande qualidade porque naquele campeonato existiam muitas equipas B dos grandes clubes. Aquilo que realço sempre é o grande profissionalismo que os franceses têm, não é por acaso que são campeões da Europa e do mundo.

Como se dá o regresso a Portugal? Chegou a ir para o Beira-Mar?
Cheguei ao Beira-Mar, foi o António Sousa, meu conterrâneo, que colocou essa possibilidade e eu não recusei, mas tive a infelicidade de no início da época, nos jogos particulares com Paços de Ferreira, ter contraído uma lesão no joelho que demorou muito tempo a recuperar e acabei por ser dispensado na reabertura do mercado.

Com a família

Com a família

D.R.

Seguiu-se o Atlético CP, certo?
Sim. O convite partiu do presidente na altura. Estava lá também o António Pacheco, o treinador era o Pedro Gomes, um veterano do Sporting, havia um bom ambiente, a equipa também era gira. Naquela altura os jogadores que estavam em final de carreira, durante muitos anos, acabavam a sua carreira no Atlético, um clube emblemático, que tinha um bom relvado e uma boa massa adepta. Foram três, quatro meses bons, mas depois achei que não ia ter a possibilidade de voltar aos campeonatos profissionais, onde o futebol era mais atrativo, onde é mais trabalhado e achei que não era uma divisão apropriada para mim, para a forma como eu jogava.

Custou-lhe tomar a decisão de pendurar as chuteiras?
Custa sempre. Só não custou tanto por aquilo que foi o meu início de carreira como treinador. Eu tinha tirado dois cursos em França de treinador, e no Atlético já estava a tirar o nível II do curso na Associação de Futebol de Lisboa. Poucos meses depois de terminar a carreira, o meu cunhado estava como responsável pela formação do Estoril Praia e convida-me para treinar os infantis e acompanhar as escolinhas. Foi aí que começou este bichinho. Passados três ou quatro meses estava nos juniores, a equipa desceu e no ano seguinte voltamos a colocar o Estoril no nacional, o que conseguimos, e no ano seguinte sou convidado para fazer parte da equipa técnica do Ulisses Morais. José Veiga torna-se principal acionista da SAD do Estoril. Aprendi muito com o Ulisses Morais, muitos dos meus trabalhos são baseados naquilo que eram os treinos dele embora, claro, depois vamos aperfeiçoando e arranjando outros exercícios.

Na época 2004/05 assumiu o comando da equipa.
O Ulisses Morais saiu, achou que a equipa não era a melhor, houve alguma contestação por parte de António Figueiredo e Manuel Alves, na altura presidente e vice-presidente, e o Ulisses não gostou da forma como falaram e optou por sair. Como era eu o adjunto, permaneci eu e o Rui Almeida.

Mas não conseguiram salvar a equipa.
Havia muitos problemas. Nós éramos referenciados por todos como uma equipa que jogava bem, mas a partir de uma fase as coisas começaram a ficar insustentáveis com ordenados em atraso. Tivemos três meses de ordenados em atraso. Se já para aqueles que são de cá as coisas não eram boas, quanto mais para os jogadores estrangeiros, e nós tínhamos muitos que já tinham alguns problemas diariamente e isso prejudicou-nos bastante. E nem quero falar em relação a arbitragens e outras coisas, mas isso faz parte do futebol.

Chega a iniciar a época seguinte?
Não, é o Daúto Faquirá. Eu sou chamado depois, na altura em que aquilo começa a ficar ainda pior em termos financeiros e esteve para fechar. O Daúto sai juntamente com uma série de jogadores e o senhor João Lagos assume a SAD, passa a ser ele o principal investidor e juntamente com o Carlos Janela convidam-me para voltar ao Estoril Praia, para tentar salvar o Estoril. No primeiro jogo que fiz tínhamos apenas 13 jogadores, dos jogadores de campo um ou dois estavam lesionados; tive de colocar o meu guarda-redes suplente a jogar como ponta de lança, conseguimos um empate em Moreira de Cónegos, 1-1, esse ponto foi importante para que não descêssemos de divisão e conseguíssemos a manutenção a faltar ainda uma jornada para o final.

Mantém-se no lugar?
Sim, mas saio quase na parte final porque os resultados não estavam a ser os melhores e começou-se a passar uma mensagem de que era para subir e nós não tínhamos plantel para isso, até porque o projeto não era esse, era começar a preparar uma equipa para dentro de dois anos apostar na subida e houve pessoas na estrutura que se precipitaram e quiseram pôr a carroça à frente dos bois, as coisas não resultaram da melhor maneira.

Fica um ano parado.
Fiquei quase um ano parado e vou para Moçambique.

O que fez nesse ano em que esteve parado?
Sempre que não estou no ativo tenho estado como comentador na televisão.

Litos foi treinador do Maxaquene e da Liga Desportiva de Maputo, em Moçambique

Litos foi treinador do Maxaquene e da Liga Desportiva de Maputo, em Moçambique

D.R.

Já tinha nascido o seu filho Diogo?
O Diogo nasceu depois de eu deixar de jogar, em 2000.

Como surge o convite do Maxaquene de Moçambique?
Chega por intermédio do professor Rui Caçador. Ele tinha sido ele sondado primeiro. O Rui Caçador já tinha passado por Moçambique como técnico, até porque é a sua terra natal e o presidente das Linhas Aéreas de Moçambique era muito amigo dele e perguntou-lhe por algum treinador português que pudesse estar interessado. O professor passou-me essa mensagem.

O primeiro impacto quando chegou a Moçambique foi muito grande?
Foi um bocadinho amortecido porque a minha sogra é de Lourenço Marques, a família da minha mulher é toda de Moçambique, é a família Quadros, e estavam lá alguns familiares, dois tios, que ainda viviam em Maputo, que me receberam bem e apoiaram, juntamente com toda a estrutura do Maxaquene que, percebe-se, é o Sporting de Lourenço Marques. Confesso que inicialmente ia apavorado mas por tudo aquilo que a minha sogra e outras pessoas me iam transmitindo foi atenuando. Foi uma experiência enriquecedora. Quando voltamos novamente para cá, para as condições favoráveis, percebemos que não se pode entrar em paranóia só pelo facto de faltarem meias ou uma bola. Não. Quem passa por essas dificuldades e tem que se adaptar, atenuar tudo isso, desviar as atenções por tudo aquilo que os rapazes passavam para poder chegar a um treino... Muitos deles apanhavam dois e três chapas (carrinhas de nove lugares que levam muitas vezes 15 pessoas) para chegar ao treino. Tenho até um episódio infeliz por causa disso.

Conte.
Muitas vezes nós queremos impor rigor em relação aquilo que são os horários e as nossas regras. Tive a infelicidade de uma vez um jogador meu não estar a horas no treino e eu mandei arrancar o autocarro; depois o diretor desportivo transmitiu-me que o rapaz tinha de fazer duas a três horas de viagens até chegar ao treino. Naturalmente depois implementei multas pequenas somente para criar essa responsabilidade, mas que nunca eram cobradas.

Só esteve lá um ano dessa vez.
Não acabei o ano sequer porque as dificuldades financeiras eram muitas. Começou a haver falta de pagamento, inclusive da renda do apartamento onde eu estava e eu vim embora.

Foi sozinho?
Sim. Depois de passar a treinador, de já haver os filhos, a família estava estável, andei sempre sozinho, até porque tirando Moçambique, normalmente iam ter comigo aos fins de semana onde estivesse a treinar.

Quando regressou de Moçambique foi treinar o Portimonense. Acontece como?
Parece que tenho de agradecer ao meu compadre Rui Correia, com as boas relações que tinha e tem com o FC Porto, acho que teve uma conversa com o diretor desportivo Antero Henrique, ele tinha uma relação muito grande com o presidente Fernando Rocha e as coisas avançaram. Se houve essa influência do FC Porto, agradeço, porque me ajudaram naquela altura. Acabámos por ser todos felizes e termos intervenção direta ou indireta na subida. O Bambo e o Wilson Eduardo, que eram do FC Porto, foram-nos emprestados na reabertura do mercado e foram extremamente importantes para a nossa subida de divisão. Foi uma coisa estrondosa, muitos anos depois.

No banco da Liga Desportiva de Maputo

No banco da Liga Desportiva de Maputo

D.R.

Gostou de viver no Algarve?
Muito. Embora no verão seja muita confusão e no inverno uma grande solidão, poucas pessoas. Mas como eu sou um admirador do mar... Houve um grande convívio, embora percebendo que o convívio e o ambiente é sempre mais favorável quando se ganha mais vezes.

Mas não fica até ao fim na época seguinte.
Nós jogamos sempre no estádio do Algarve e isso também nos prejudicou. Fazíamos mais quilómetros do que as equipas adversárias. Os resultados não estavam a ser os melhores e numa altura em que íamos ter dois jogos em casa e podíamos passar para cima da linha de água, o presidente e outra pessoa com influência decidiram que era melhor eu ir embora.

Não ficou quieto muito tempo porque foi logo para o Leixões.
Sim, apareceu logo esse convite. O Inácio tinha saído e surgiu o convite do Leixões. Foi um clube que adorei treinar por aquilo que são as pessoas. Há treinadores que têm receio desses ambientes, eu felizmente gosto de os encarar, porque se formos sempre honestos, dedicados e bons profissionais as pessoas acabam por reconhecer o nosso trabalho e capacidades. Foi uma fase do Leixões em que existiram também muitos problemas financeiros. O presidente Carlos Oliveira tentou resolvê-los da melhor maneira mas não foi possível. Foi pena porque eu acredito que com alguma estabilidade se calhar podíamos ter conseguido a subida de divisão, porque na reabertura do mercado alguns jogadores começaram a fugir, como o Dyego Sousa, que era muito jovem na altura, o próprio Cauê.

Esteve lá quanto tempo?
Um ano e pouco. Comecei a época seguinte também e é quando se dá a decisão do Tribunal de Contas. Havia a possibilidade da Câmara comprar o estádio e entrar o tal dinheiro que iria dar alguma estabilidade ao clube, ia pagar os ordenados em atraso, mas como aquilo foi rejeitado eu pedi ao presidente para sair, porque já não me sentia capaz de estar mais tempo com aquela carga em cima de mim. Porque tinha sempre de ser eu a transmitir aos jogadores esse acreditar de que as coisas se iriam resolver, quando tínhamos sido defraudados com essa decisão do TC, que não autorizou a compra. Optei por rescindir contrato.

Litos conquistou seis troféus em Moçambique

Litos conquistou seis troféus em Moçambique

D.R.

Seguiram-se três anos em Moçambique onde ganhou tudo. Duas ligas, três supertaças...
Foram dois anos e meio porque fui interrompido. A primeira vez que vou, faltavam três meses para o final e ganho a taça ao Diamantino, ao Costa do Sol; depois faço o ano completo, somos campeões e ganho a supertaça. No ano seguinte, começo mas venho embora.

Porquê?
Porque fui enganado pelo meu presidente, coitado, ele se calhar também não sabia, fomos jogar a Durban com o Kaiser Chiefs para a Taça dos Campeões Africanos, a 1ª eliminatória, e a federação de futebol de Moçambique tinha recebido uns autocarros da África do Sul, que tinha organizado o Mundial, e o meu presidente para querer poupar dinheiro nas viagens de avião, pediu-me para viajarmos de autocarro, que seriam sete horas. Eu convenci os meus jogadores, arriscámos, e o que é verdade é que demorámos 14 horas a chegar a Durban, chegámos às cinco da manhã. No ano anterior eu tinha feito uma campanha muito boa na Taça Nelson Mandela, a Taça UEFA de África, e chegaram notícias de que mesmo ali ao lado a África do Sul estava de olhos postos na minha equipa e no próprio treinador e podia ter sido uma oportunidade boa esse jogo com os Chiefs, para mostrar a nossa capacidade e porventura alguns de nós fazermos bons contratos. A minha equipa está a perder 1-0 aos 80 minutos e no espaço de 10 minutos os meus jogadores já não aguentavam, cheios de cãibras, a atirarem-se para o chão, eu já não tinha mais substituições para fazer e acabámos por perder 4-0. Eu disse ao meu presidente que iria fazer o jogo em casa, mas que no dia seguinte queria a minha passagem para voltar a Portugal, não queria continuar no clube porque tinha sido humilhado pela forma como tinha sido aquela nossa viagem. E assim fiz, os meus adjuntos continuaram e foram eles campeões nesse ano e eu volto no ano seguinte novamente. E voltei a ganhar mais taças e supertaças. Foram seis títulos em dois anos e meio efetivos em que estou ao serviço da Liga Muçulmana que agora é Liga Desportiva de Maputo.

Quais são as memórias mais fortes desses dois anos e meio, além dessa viagem?
As dificuldades que fui encontrando. As viagens longas, lembro-me que no 1º ano fiz uma viagem de 11 horas num autocarro em que as condições não eram as mais favoráveis. Depois havia viagens ainda mais longas de avião. Mas aquilo que eu admiro é esta capacidade de superação dos jogadores moçambicanos, que chegam sempre com uma alegria tremenda aos treinos, aos jogos e isso é que me fez ver aquilo que são as mordomias que os jogadores portugueses têm no campeonato português, em que qualquer coisa os abana. Marcou-me e tentei nas vezes que treinei aqui em Portugal criar essa forma de estar, ou seja, de retirar esses supérfluos que muitas vezes não dizem nada, que não são nada importantes para os resultados finais da equipa.

Litos foi treinador do Amora FC em 2018/19

Litos foi treinador do Amora FC em 2018/19

Gualter Fatia

Quando regressa vai para o Oriental.
Passado algum tempo, sim. Mas foram apenas três semanas. Enquanto lá estive os jogadores foram sempre bons profissionais, as coisas que aconteceram depois já são problemas de outros, mas fiquei apenas três semanas porque nesse período realizei cinco jogos e não consegui ganhar nenhum. Eu próprio para defesa do grupo de trabalho, acho que a responsabilidade é minha também, disse algo que nem devia ter dito: que não me achava com competências para tirar o Oriental daquelas posição. Foi uma forma de defender os jogadores. Fui criticado por pessoas muito amigas, porque nunca devia ter dito isso, mas fi-lo e disse-o para defender o grupo de trabalho naquela altura porque podia haver a possibilidade viesse quem viesse de conseguir fazer melhor trabalho e salvar o Oriental.

Depois esteve dois anos parado. Aproveitou para fazer alguma coisa diferente?
Nós temos sempre as formações da UEFA, ainda este verão que passou, embora não necessitasse porque tenho a minha licença de treinador da UEFA até ao ano de 23, como não tinha muita coisa que fazer andei a acompanhar o curso novamente de IV nível. Inscrevi-me e acompanhei online. Foi interessante, é bom estarmos atualizados e aprendemos cada vez mais com pessoas diferentes. Vi discursos e apresentações extraordinárias de uma série de treinadores.

Antes disso, em 2018/19 não treinou o Amora FC?
Sim. Começámos muito bem, era um projeto para que em dois anos pudéssemos colocar o Amora na II Liga, nos campeonatos profissionais. As coisas estavam a correr bem, andámos sempre nos primeiros lugares, fizemos para a Taça de Portugal um jogo extraordinário frente ao Belenenses em que podíamos ter eliminado o Belenenses e nos últimos minutos acabámos por ser nós afastados. Acho que houve precipitação por parte de algumas pessoas que achavam que o que era para ser feito em dois anos, podia ser rapidamente alcançado. Isso criou uma ansiedade e pressão muito grande sobre os jogadores. Muitos deles estavam habituados a jogar nos distritais e este Campeonato de Portugal já era uma competição muito alta para eles quanto mais cair essa pressão de subida. Se calhar até se podia ter conseguido se não existisse essa pressão. Depois houve um jogo em casa em que não gostei da forma como falou alguém que é meu amigo, o filho do meu presidente, e achei por bem sair naquela altura. Tive sempre o meu maior empenho no Amora, embora andasse magoado alguns tempos, porque tive o convite do Sousa Cintra para ir treinar os sub-23 do Sporting. O administrador disse que me iria deixar sair para o Sporting, mas no dia seguinte telefonou-me a dizer que já não, o que criou um grande mau estar. Tive de dizer que não ao Sousa Cintra e ao Sporting. E acabo por sair do Amora em dezembro, janeiro. De lá para cá estou como comentador n' A Bola TV e na Sporting TV.

Com a mulher e filhos numa foto recente

Com a mulher e filhos numa foto recente

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Sporting.

Investiu?
Nunca me meti em negócios. Tenho a minha casa e mantenho um apartamento que está alugado, eu costumo dizer que é o meu ordenado para as situações em que não estou no ativo. Mas nunca fui muito de grandes investimentos, fui sempre muito equilibrado.

Não fez nenhuma extravagância?
Acho que a maior foi quando fui jogador do Sporting e comprei o Mazda RX7, porque o Carlos Manuel tinha um vermelho e eu achei também que gostava de ter um.

Passatempo? É a pesca?
Sim, embora já não o faça assim muito.

Porquê?
Porque um dia fui pescar sozinho aqui na zona da Fonte da Telha e ao fim de algum tempo parou um carro com dois bandidos, que devem ter roubado o carro porque estavam a lançar fora aquilo que não lhes interessava e depois começaram a olhar para mim. Percebi que a intenção poderia ser roubar-me também então comecei a andar com a cana de pesca, comecei a tentar contactar os pescadores amigos mas ninguém me atendia porque eles estavam no mar. Assustei-me dessa vez e sozinho não faço mais. Mas é algo de que gosto muito, assim como das minhas caminhadas, do meu ginásio, de andar de bicicleta.

Qual o peixe que mais gosta?
Gosto de tudo. Mas gosto muito de robalo e de rodovalho... De polvo, lulas, gosto de tudo.

Tem outro passatempo?
Sou louco por filmes.

Qual o filme de que mais gostou até hoje?
Temos visto agora muitos recentemente, mas aquele que me marcou muito foi "O Campeão" há muitos anos. Chorei muito. Mas também gostava dos filmes do John Travolta e do Stallone, o Rocky, é daqueles filmes que aproveitamos como atletas, como jogadores, que nos dá aquela motivação para treinar. Muitas vezes digo ao meu filho para ver esse tipo de filmes.

Tatuagens?
Tenho. Fiz em Moçambique mas são muito pequeninas. Fiz os nomes dos meus filhos em cada uma das pernas junto ao gémeo, na canela. E tenho uma nas costas que, acredito, seja aquilo que pedi, mas como está escrito em chinês não sei na realidade o que está aqui [risos]. Pedi para escrever "frontalidade", aquilo que sempre me caracterizou.

É um homem de fé?
Acredito em Deus, mas às vezes quase duvido, por tudo o que vai acontecendo às crianças.

E superstições, tem ou teve?
Há uma coisa que eu tinha como jogador, se as coisas corriam bem tentava sempre fazer igual durante a semana e entrava sempre com o pé direito. Não me benzia. Fui criticado uma vez por um conhecido padre de Cascais por causa disso.

Se não fosse jogador, o que teria sido?
Muitas das vezes na brincadeira dizia que tinha de ser sapateiro por ter nascido em S. João da Madeira, ou então talhante. Mas acho que gostava de ter sido ator. Não sei porquê achei sempre que gostava de fazer algo que fosse importante, algo que desse nas vistas e que as pessoas apreciassem, por isso acho que gostava de ter sido uma figura pública.

Qual o seu maior sonho enquanto treinador?
Acho que o sonho de qualquer treinador é chegar a um grande. Ainda estou a tempo. Mas tenho noção de que para chegar a esse nível tenho de fazer um trabalho extraordinário em clubes com outra dimensão.

Chegou a ser chamado à seleção A?
Fiz dois jogos de apuramento para o Mundial 1986. Contra Malta, em que ganhámos 3-2 e depois joguei os últimos 15 minutos em Estugarda. Não fui ao Mundial e a seguir ao México houve os indisponíveis aos quais me juntei e a partir daí fiquei para trás. Eu estava na lista, eu e o meu cunhado, mas depois fomos encostados, os do Sporting, e foram mais jogadores do Benfica. Havia o controle do poder e ficamos para trás.

Qual a maior alegria e a maior frustração?
As maiores alegrias foram a minha entrada no Sporting e ter sido internacional A. Como treinador a subida de divisão do Portimonense e ter conquistado o que conquistei em Moçambique. A maior frustração foi não ter sido campeão pelo Sporting como jogador e não ter estado mais tempo a servir o Sporting.

Uma história para terminar.
Quando fomos para Estugarda foi connosco a seleção de Esperanças. E nessa altura não havia fatos da seleção, cada um ia vestido à sua maneira e levava a sua roupa. Na viagem eu estou todo "pipi" com um fato que tinha comprado e quando desço, o Silvino, o guarda-redes, estava com um fato igualzinho ao meu e começou tudo a rir, não é? Sabiam que eu era um vaidoso [risos], tinha a mania que tinha as coisas diferentes dos outros. Acredite que levei a viagem toda com o casaco debaixo do braço porque nunca vesti o casaco, só para não estar totalmente igual. Ainda por cima o Silvino é um gajo porreiro, mas é um gajo maluco, e eu só pensava logo este maluco é que vai comprar um fato igual ao meu [risos].