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A casa às costas

"Na Roménia, o treinador tirou-me da equipa, em cima de um jogo, porque quis comer ovos em vez de esparguete"

Quando finalmente chegou à I Liga, aos 26 anos, com o Belenenses, João Meira decidiu partir para os EUA, para jogar nos Chicago Fire, onde diz que viveu uma vida de estrela de cinema. Passou por Noruega e Roménia, esteve com um pé em Espanha e quase cumpriu o sonho de jogar em Itália, mas, ao longo do percurso, acabou muitas vezes a treinar sozinho ou com um PT para não perder a forma física e o comboio do futebol. Chegou a estar castigado por doping, foi roubado e quase partiu a mão por causa da Playstation

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Lisboa. Onde cresceu?
Em Almada.

Fale-nos da família, o que faziam os seus pais profissionalmente?
A minha mãe é cabeleireira desde que eu me lembro, o meu pai tinha uma empresa de arranjo de máquinas fotográficas e de vídeos. Essa área teve uma evolução muito grande, hoje em dia é tudo digital e deixou de haver tanto trabalho porque quando alguma coisa se avaria compramos outra, os valores são tão baixos que não vale a pena arranjar. A certa altura, como houve um decréscimo no negócio, o meu pai teve de fechar e virar-se para outras áreas. Vendeu casas, neste momento exerce gestão de condomínios e está ligado a uma empresa de família que trata de registos de marcas e patentes.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho, o Tiago, que sempre foi o meu melhor amigo. Tem 39 anos. Sempre me espelhei nele. Ele ia jogar à bola e eu ia ver os jogos do meu irmão, no intervalo, dava uns toques com os irmãos dos colegas do meu irmão e fui crescendo na sua sombra. Aos 21, 22 anos ele ia para as discotecas com os amigos e eu com 14 anos experimentei pela primeira vez, através do meu irmão, uma ida à discoteca. Ele fez anos e bebi pela primeira vez uma bebida alcoólica. Experimentei, um bocado às escuras. Ver aquelas luzes todas da discoteca fez-me muita confusão, nunca pensei que fosse assim. Basicamente devo tudo ao meu irmão porque acompanhei-o para todo o lado. Ele jogou futebol também, nunca foi profissional, apesar de eu achar que tinha muita qualidade, mas felizmente ele ingressou na banca, hoje é gestor no Novo Banco. É casado, tem um filhote de dois anos e felizmente está tudo bem.

Era um puto reguila ou pacato?
Os meus pais dizem que eu era uma paz de alma, ao contrário do meu irmão. O meu irmão era mais reguila. Pelo que os meus pais dizem eu era um come e dorme, um paxázinho, muito calminho, muito tranquilo.

Lembra-se do que dizia que queria ser quando fosse grande?
Sim, dizia que queria ser advogado.

Porquê, tem ideia?
Queria ser o doutor da família [risos].

João (à direita) com o irmão, o seu melhor amigo

João (à direita) com o irmão, o seu melhor amigo

D.R.

Torcia por que clube?
A minha família foi sempre muito ligada ao Benfica e eu era benfiquista ferrenho, doente. O meu avô era sportinguista e muitas vezes eu ficava com os meus avós, porque o meu pai e a minha mãe iam trabalhar, e o meu avô quando chegava a casa punha-me a ver o Sporting e dizia: "João, o Sporting, o Sporting". E eu: "Não, avô, o meu pai diz que eu sou do Benfica, tenho que ser do Benfica". Foi sempre um pequeno desgosto para ele, mas a minha família era 100% benfiquista e eu fui por aí.

Gostava da escola?
Gostava, sempre tive boas notas, felizmente. Cumpri todos os anos até ao 12º ano sem nunca ter reprovado. Por aí nunca houve grande problema, mas como é óbvio chegou ali uma altura, pelo 10º, 11º ano em que comecei a dar os primeiros passos no futebol profissional, a sentir o cheirinho do balneário profissional e a minha cabeça começou a desviar, mas felizmente também tive uns pais que me deram valores, educação e a noção de que os estudos eram importantes, e continuam a ser. Felizmente acabei o 12º ano e ingressei na faculdade, não acabei o curso, mas pronto.

Já lá vamos. Como é que surge o futebol um bocadinho mais a sério?
Logo aos seis anos. O Cova da Piedade na altura ainda não tinha o escalão de escolinhas e como eu ia sempre jogar nos intervalos dos jogos do meu irmão, houve um diretor que disse ao meu pai, vamos abrir escolinhas e se o João quiser venha aqui dar uns toques, fazer uns treinos e logo se vê. Fui, correu muito bem, gostaram de mim e foi por aí. A partir dos seis anos fui jogando nas escolinhas do Cova da Piedade. Nos juvenis surgiu a possibilidade de ir para o Vitória de Setúbal, tinha 14 ou 15 anos.

Foram eles que foram buscá-lo?
Eu tinha feito um jogo de entrega de faixas de campeão contra o Sporting e as pessoas do Sporting ficaram muito interessadas. Entretanto estava na escola, creio que estava no 10º ano e um colega meu que jogava no Corroios, que era nacional e eu era distrital, disse-me: "Vou ao Vitória, o meu pai leva-me lá. Porque é que não vais comigo?" Eu disse que ia ficar à espera do Sporting, mas lá me convenceu e fui com ele. E pronto, acho que correu muito bem e no final do treino, o treinador do Vitória, o mister Chico Silva, veio ter comigo: "João, qual é a tua situação?" Eu expliquei-lhe tudo e fiquei logo no Vitória. Desvincular-me do Cova da Piedade é que foi um pequeno filme, mas felizmente correu tudo bem.

Um pequeno filme porquê?
Porque na altura havia a questão dos direitos de formação. Entretanto tivemos de pagar uma quantia ao Cova da Piedade, senão eu não ia para o Vitória porque o Vitória não queria pagar, queria dar algum material desportivo, o Piedade queria dinheiro e pronto, foi uma negociação.

Foram os seus pais que pagaram?
Sim e os meus tios também me ajudaram.

Os pais de João Meira

Os pais de João Meira

D.R.

Como é que ia para os treinos?
Nos juvenis, nesse primeiro ano, os treinos eram às sete da tarde e o meu pai, depois do trabalho, cansadíssimo, ia-me levar. Eu às vezes olhava para o lado, ele a conduzir de Almada a Setúbal quase todos os dias, e via que estava cansado e eu sentia que naquela altura eu não fazia os esforços necessários para poder jogar em Setúbal e ele levava-me todos os dias e eu nem sempre jogava. Hoje em dia dou muito valor a isso, porque sou pai e começo a imaginar, como é que é possível? Eu se calhar não tinha a força que ele teve, e ele dizia-me: "João, deixa isto, estuda, que se lixe o futebol, eh pá deixa o Vitória". E por vezes eram 30 minutos a ouvir descascas, porque isto, porque aquilo, mas pronto fazia ouvidos de mercador e pensava, amanhã será um dia diferente. E no dia a seguir era igual, continuava porque também tinha os problemas dele e como se calhar não tinha ninguém para falar, descarregava em mim.

Mas então ele nessa altura estava a ver se o João desistia do futebol?
Não, ele queria mas também queria que eu desse mais nos treinos, que fosse diferente, porque na altura eu pensava que era um grande jogador, um grande craque e as coisas não estavam a correr bem. No ano seguinte, nos juniores, os treinos começaram a ser de manhã, tive de alterar o horário na escola para a tarde para conseguir treinar. Foi quando dei um clique. O mister Quim e mais tarde o mister Mota ajudaram-me muito, e descobriram uma nova posição para mim no campo. Eu normalmente costumava jogar a "8", "10" e passei a "6" ou defesa central.

Agradou-lhe a mudança?
É óbvio que quando soube dessa possibilidade de mudança de posição não fiquei nada feliz porque eu pensava que era um grande craque, mas não dava se calhar para outra posição. E hoje em dia valorizo muito mais a posição de defesa central com saída de jogo por isso mesmo. Porque a minha escola é um pouco mais à frente, mais de organização.

Começa a ganhar dinheiro quando vai para Setúbal?
Sim, eles pagavam aquelas ajudas do contrato de formação. Dava para ajudar a pagar o gasóleo do meu pai.

No CD Cova da Piedade, onde começou a jogar

No CD Cova da Piedade, onde começou a jogar

D.R.

É nos juniores que assina o primeiro contrato?
Assino o primeiro contrato mas durou pouco, porque saí dos juniores para a equipa B, mas passadas duas, três semanas o mister Edmundo disse que não contava comigo no Vitória e que eu tinha de procurar uma nova solução para a minha carreira.

Foi um balde de água fria.
Sem dúvida, porque eu era capitão de juniores, era totalista, havia algumas expectativas sobre mim; no ano seguinte quando eu pensava que ia ter um treinador na equipa B foi outro e pronto são mentalidades e ideias diferentes do que é o jogador. Naquela altura custou-me muito a aceitar, a mim e mesmo às pessoas que pertenciam ao Vitória mas aceitei e fui para o Cova da Piedade novamente, na III divisão, para jogar ao lado do meu irmão.

Qual foi o primeiro ordenado que ganhou?
Foram 150 euros no Cova da Piedade.

Recorda-se do que fez a esse dinheiro?
Não me lembro muito bem... Era para ir gastando com a gasolina do carro. Para colmatar essa lacuna que eram os 150 euros, tinha alguns contactos na margem sul e fazia algumas festas temáticas com um amigo meu, onde dava para ganhar algum dinheiro. Normalmente eram festas africanas, de kizomba, etc, que estava na moda e ia muita gente às nossas festas, todas as semanas recebíamos ali um extrazinho que dava para suportar um tempo.

O que fazia em concreto, punha música?
Não. Eu e o meu outro colega éramos relações públicas. Organizávamos, andávamos a distribuir flyers, éramos os relações públicas daquelas festas [risos] e acho que correram muito bem, tínhamos saída, mas depois chegou uma altura em que tive de deixar.

Nunca teve problemas nos treinos por causa de noitadas?
No Cova da Piedade treinávamos sempre à tarde, então não havia esse problema, mas eu não queria ficar associado a isso, só fazia mesmo aquela festa à terça-feira, ao fim de semana esse meu amigo continuava, porque esse bar contratou-o para ser o relações públicas e eu nunca quis dar esse passo. Posso dizer que até certo momento da minha vida, porque entrámos nesse mundo, facilitei um pouco. Não porque ia bêbado, ou qualquer coisa do género, para os treinos, mas o meu descanso e a minha alimentação não eram ideais e foi uma fase. Quando regressei ao Cova da Piedade, se calhar desmotivei-me um pouco e pensei que não chegaria aonde acabei por chegar. Mas fui jogando sempre e isso também me ajudou, as coisas iam-me correndo bem. A descansar bem ou mal, a comer bem ou mal, estava sempre no foco da equipa, então foi bom.

Quando é que começam os namoros?
Em Setúbal, na escola, no segundo ano de júnior do Vitória fui estudar para o liceu que ficava ao lado do Vitória e conheci a minha primeira namorada a sério em Setúbal. Namorei dois anos com ela.

Ao lado de Chalana

Ao lado de Chalana

D.R.

Faz duas épocas no Cova da Piedade e depois vai para o Mafra. Como?
O treinador na altura no Cova da Piedade era o Lívio Semedo e eu tinha partido o maxilar num jogo contra o Amora. Aos 10 minutos, o meu irmão bateu o canto, eu apareço ao primeiro poste, cabeceio para dentro da baliza e a bola entrou, só que o árbitro não assinalou, a bola vai para fora da área e um colega meu, que é um dos meus melhores amigos também, de infância, nasci e fui criado com ele, acertou na bola com tanta força que eu, que vou de boca aberta, ao virar bateu-me de lado e partiu o maxilar.

Foi a bola que lhe partiu o maxilar?
Sim. Aquilo entrou INEM, entrou tudo. Foi uma coisa feia. Depois fui operado e começo a treinar e um ex-treinador meu liga-me a dizer que um agente queria entrar em contato comigo porque havia uma possibilidade. Eu fui beber café com esse agente e ele propôs-me ir ao Mafra, que eles até tinham algum interesse, mas que eu tinha de ir à experiência. Estive lá uma semana à experiência antes do campeonato acabar. O Piedade sabia disto e o mister Filipe Ramos no final de dois ou três dias disse-me: "Vamos entrar em contacto com o teu empresário, vamos fazer uma oferta porque eu quero-te aqui para o ano". E pronto, como era um passo em frente na minha carreira, era uma II B e o Mafra era um clube organizado, aceitei de imediato.

Não tem histórias pata contar dos dois anos no Cova da Piedade?
Lembro-me que uma vez íamos jogar contra o Silves, era um jogo decisivo e o nosso treinador, mister Cravo, andava muito nervoso durante a semana porque aquilo era um jogo de vida ou de morte também para ele. No balneário tínhamos aqueles jogadores da velha guarda e nesse ano tínhamos lá o Travassos, que fez as camadas jovens no Sporting. Quando chegámos ao estádio o mister Cravo começa a palestra e estava muito nervoso. E o Travassos vira-se: “Ó mister, posso falar?; “Eh pá, Travassos, agora não me apetece, agora estou focado, deixa-me concentrar no que estou a dizer”; “Mas, ó mister, deixe-me lá falar um bocadinho"; “Então diz lá”; “Ó mister, não me leve a mal, mas cheira-me que hoje vamos levar uns três ou quatro” [risos]. Foi um alvoroço, a malta toda a rir, mas a verdade é que quebrou ali o gelo e acabámos por ganhar o jogo. Lembrei-me de outra.

Conte.
Nesse mesmo plantel tínhamos um rapaz, o Nuno Sampaio, do mesmo estilo do Travassos, e os cacifos do clube eram de metal, pareciam aqueles da tropa, e o Sampaio, a par do Travassos, era maluco, faziam ambos muitas partidas. E um dia o Sampaio pede ao mister para sair mais cedo do treino porque tinha de fazer qualquer coisa. O que ele fez? Ele levou uma bisnaga de silicone e virou os cacifos ao contrário e começou a colar todos os cacifos, todos, e levou as chaves dos cacifos. A malta quando chegou depois do treino para tomar banho, à noite, tinha os cacifos virados ao contrário contra a parede, todos colados.

Nos juvenis (à esquerda) do V. Setúbal

Nos juvenis (à esquerda) do V. Setúbal

D.R.

Foi viver para Mafra depois?
Não. Ia de Almada num carro oferecido pelo Mafra, que nem sei como é que andava [risos]. Ia com dois jogadores que estavam a acabar a carreira e uma ex-glória do Benfica, o Chiquinho Carlos. Era o Miranda, o Lapinha e o Chiquinho Carlos, íamos os quatro. Aquele carro todos os dias das oito da manhã até às duas da tarde era uma risota [risos]. Acho que todas as pessoas que apanhei tiveram um propósito muito grande na minha carreira. Essas pessoas foram muito importantes para mim, deram-me muitos conselhos e felizmente no Mafra também joguei quase sempre e isso ajudou-me.

Como é que surge o Atlético?
Foi esse empresário que me levou para Mafra. O Atlético era treinado pelo Toni Pereira, que também é da margem sul, e em conversa de cafés e restaurantes, etc., havia colegas meus que já tinham sido treinados pelo Toni Pereira e que diziam: "Mister, vá buscar o Meira, o miúdo é bom". E esse meu empresário, o Admar Hipólito, perguntou-me se queria ir para lá, que o Atlético pagava mais, estava perto de casa. Realmente o Atlético é um clube com mais nome e seria bom para a minha projeção. Fui ouvir a proposta, gostei do que ouvi e ingressei no Atlético. Também muito pelo treinador porque ouvia falar tanto do Toni Pereira que gostaria de trabalhar com ele.

Gostou de trabalhar com ele?
Sem dúvida. Foi uma aprendizagem diária e foi o banho de humildade que eu precisava na minha carreira para me estabelecer. Foi a pessoa mais importante, sem dúvida alguma, naquele momento da minha carreira.

Muito diferente do Cova da Piedade e do Mafra?
Sim. O Atlético é um clube histórico, que já move muita gente, já se sentia a pressão de ganhar. Era diferente de todos os outros. O Piedade também é um clube localizado no centro de Almada que leva muita gente, mas o Atlético é diferente, já é mais elitista, tem modalidades, já esteve na primeira divisão. No Mafra não me lembro de muita gente no estádio, era um clube que estava muito bem organizado, tanto é que hoje está na II Liga e continua a fazer brilharetes. Mas o Atlético já é era um clube maior.

O que mais o marcou nas três épocas em que lá esteve?
As pessoas perguntam-me: "Como é possível dizeres que és do Setúbal, és do Atlético, és do Belenenses, és de todos?" Mas é verdade porque fui muito bem tratado nesses clubes. No primeiro ano de Atlético fizemos uma grande temporada porque eles vinham de anos anteriores complicados; ficámos em 2º lugar, não subimos porque o União da Madeira era um super União da Madeira. No segundo ano subimos de divisão, foi fantástico. Uma equipa com 13 jogadores na pré-época. No estádio da Tapadinha metade do campo estava a equipa com os 13 jogadores que já estavam com contrato e do outro lado eram uns vinte e tal jogadores à experiência. Era mais ou menos lançar a cana, pescar e pronto [risos]. Fizemos um grupo e uma equipa fantásticos e fomos campeões. Lembro-me de ver a Tapadinha quase cheia. O ano seguinte foi marcado pela negativa, pela minha suspensão.

Foi suspenso porquê?
Por doping. Eu perguntei ao departamento médico se podia tomar uns medicamentos que a minha mulher tinha trazido dos EUA, disseram-me que sim, tomei e até no controlo antidoping no último jogo contra o Padroense eu disse que estava a tomar aquilo, na inocência, sem problema nenhum. Fui suspenso por oito meses. Nesses oito meses ainda consegui jogar oito jogos na II Liga, mas não desfrutei do que era a II Liga.

Já como júnior do V. Setúbal

Já como júnior do V. Setúbal

D.R.

Vamos recuar um bocadinho para nos apresentar a sua mulher. Como se chama, como e quando a conheceu?
Chama-se Carmen Dias. Num verão, eu e o meu irmão tínhamos ido à praia, depois decidimos ir até ao Estoril jantar e a seguir ir ao Tamariz beber um copo, porque ele estava de férias. Fomos ao Gordini no Estoril e demos um pulo ao Casino Estoril para jogar umas fichazinhas só para fazer tempo para irmos para o Tamariz. Mas nesse entretanto de ir do Casino ao Tamariz, aquilo ficou cheio e eu disse-lhe: "Mano, vamos embora, não vamos ficar aqui à espera". E eu sabia que havia um amigo meu que ia a uma festa da aviação (a minha mulher é assistente de bordo da TAP). Liguei para ele e fomos lá ter. Quando chegámos havia uma pequena fila para entrar e estou eu a chegar com o meu irmão e está a chegar a Carmen com uma amiga, não as conhecia, eu até dei assim um toquezinho ao meu irmão: "Eh pá, é gira" [risos]. Na inocência. Ela entrou à minha frente e quando entro lá para dentro, por incrível que pareça, ela e a amiga entram para o grupo dos meus amigos. O meu amigo, através da amiga dela, disse-lhe que eu lhe achei graça e etc., etc. No fim de semana seguinte acho que a encontrei novamente e passado duas semanas perdi a vergonha e mandei-lhe uma mensagem. É assim a história, até hoje. Nessa altura estava no Atlético.

Voltemos ao que ela lhe trouxe dos EUA. Foi o João que viu o produto online?
Fui, fui eu que lhe pedi. Aquilo era termogénico de l-carnitina para secar. Parvoíces, parvoíces. Ela perguntou se eu queria eu disse: "Sim, traz, eu mostro aqui e depois logo se vê". Disseram-me que não havia problema. E realmente não havia, só que aquilo era de um laboratório americano e o nome que lá constava era diferente nos laboratórios europeus e pelos vistos na Europa era proibido. Ou seja, cá é proibido e lá não.

Não ficou zangado com o departamento médico do clube?
Sem dúvida. E depois a sucessão de factos que aconteceram, o quererem rescindir o contrato porque eu não ia jogar mais aquela época, quando a culpa não era totalmente minha. Acaba por ser porque sou eu que tomo, fui eu que pedi, mas fui aconselhado a, por isso foi um pouco... Fiquei um bocado triste com as pessoas mas mais tarde também acabei por entender, porque iriam estar a pagar um contrato em que eu não poderia jogar. Acabaram por fazer um acerto de valores e pronto.

Joao foi para o Atlético CP em 2009/10

Joao foi para o Atlético CP em 2009/10

D.R.

Quando se viu sem clube o que fez?
Eu não fiquei sem clube, porque eu joguei do fim de novembro, creio, até início de janeiro, deu para fazer oito jogos e esses oito jogos correram muito bem. E houve um clube na Bélgica, o Antuérpia, que hoje em dia está muito bem, que me tinha visto num jogo contra o Belenenses, e pediram, através de um empresário belga que entrou em contato comigo, para eu ir à Bélgica uma semana à experiência. Eu disse que sim, porque era o que eu queria naquele momento, sair de Portugal. Estava completamente cansado de tudo o que me rodeava, já na altura.

Mas não ficou na Bélgica. O que aconteceu?
Um dia antes de ir para a Bélgica, onde por acaso até tinha família que me ia ajudar muito, tinha tudo feito, e liga-me um agente português a perguntar se eu gostaria de ingressar num novo projeto na próxima época desportiva em Portugal, de II Liga, que era um clube grande que se estava a reformular e eu disse-lhe: "Portugal para mim é para esquecer, eu neste momento tenho esta situação e vou lá". Ele disse-me para ir e depois dar-lhe feedback. Passada uma semana, não disse nada porque estava feliz de lá estar e esse tal agente ligou-me a perguntar como é que era, se eu já tinha decidido e eu disse-lhe que sim, que ia ficar por lá. Depois ele perguntou-me as condições do clube, quais eram as condições do contrato, anos, etc. Passados dois minutos volta a ligar-me: “João, se quiseres vens para Portugal e nós cobrimos esse valor e ainda te damos mais qualquer coisa". Fiquei um pouco a abanar. Apesar de saber que esse clube era instável e de não acreditar muito, acabei por aceitar e se calhar ainda bem que acreditei, era o Belenenses. Fui o primeiro jogador a assinar contrato nesse projeto e as coisas correram-me fantasticamente bem. Assinei à revelia do Atlético, eles não sabiam. Mas eu sentia-me tão traído porque era capitão de equipa, e fazerem-me o que fizeram... Custou-me. E já tinha decidido não ficar no Atlético.

Encontra Van der Gaag como treinador no Belenenses. O que é que achou? Notou muita diferença para o Atlético?
Sem dúvida, era como se fosse jogar na Liga dos Campeões [risos], porque tínhamos tudo, o Belenenses era um clube enorme, os adeptos esperavam-te nos treinos, viam os treinos, íamos de estágio, era tudo diferente, tudo diferente. Tínhamos o autocarro para ir para todo o lado, tínhamos carrinhas, tínhamos roupa bonita. No Atlético era uma amarela, uma vermelha, uma azul, era tudo diferente então automaticamente fiquei apaixonado e pensei para mim que era a oportunidade da minha vida. Levei as coisas muito a sério e correram-me muito bem.

Ainda vivia em casa dos seus pais?
Não, como a Carmen é assistente de bordo, sempre que ela estava cá, eu ficava com ela, quando ela ia voar, para não ficar sozinho, ia para os meus pais, também para lhes fazer companhia. Mas no final do primeiro ano tivemos que viver em permanência porque nasceu a minha filha Maria Inês, em 2013.

Equipado a festejar o título do Atlético na II divisão

Equipado a festejar o título do Atlético na II divisão

D.R.

Acabou por não responder, gostou do Van der Gaag?
São duas personalidades completamente diferentes mas para mim são os dois treinadores que mais me marcaram e com quem mais gostei de trabalhar, o mister Toni e o mister Mitchell Van der Gaag. O mister Toni pela questão da liderança, que o mister Mitchell também tem mas é diferente, o mister Toni é mais… Não é casmurro, é diferente, é uma coisa mais ali do bairro, mais natural. O mister Van der Gaag é mais meticuloso. Por exemplo, na pré-época começámos logo a ganhar, criámos um espírito de equipa, uma coisa incrível, acho que na vida não vou ter uma equipa assim. Havia algum problema com quem quer que fosse e... Lembro-me que houve um problema com um jogador e o balneário todo a chorar, a sentir a dor desse problema, foi incrível, incrível e conseguimos o recorde na II Liga, fomos à meia-final da Taça de Portugal, contra o V. Guimarães, acho que dessa equipa estão todos valorizados, acabámos todos por jogar na I Liga porque éramos uma equipa muito forte.

E são campeões da II Liga.
Sim, campeões alguns 10 jogos antes de acabar.

Chega à I Liga finalmente.
Finalmente, muito tarde, creio. Tinha 26 anos.

Entraram mal na I Liga. Acha que isso aconteceu porque estavam demasiado ansiosos?
Não, acho que ainda estávamos em lua de mel, acho que ainda estávamos a pensar no ano anterior. Realmente nós jogávamos bem, mas perdíamos e pensávamos: “Ah para a semana ganhamos”. Mas as coisas não estavam no caminho certo. Também houve algumas alterações a nível de jogadores. Entretanto creio que na 5ª jornada jogámos contra o Marítimo em casa, ganhámos 1-0 e há a infelicidade do nosso treinador ter aquele problema que teve e foi substituído pelo Marco Paulo que, creio, esteve oito jogos e depois o mister Lito Vidigal acabou a temporada.

Treinadores completamente diferentes uns dos outros.
Todos [risos]. Mas, por exemplo, o Mitchell é um líder, como estava a dizer é muito meticuloso, sabe tudo e mais alguma coisa de futebol, acho que o grupo estava completamente agarrado ao Mitchell por tudo o que vivemos, depois vem o mister Marco Paulo, que era uma pessoa do Belenenses, do Restelo, de quem toda a gente gostava muito e os jogadores adoravam o Marco, mas não estávamos a conseguir pôr em prática as ideias que nos estavam a passar e acabou por sair. Vem o mister Lito, que é um treinador como nós todos sabemos que no momento em que é preciso dar o choque para acordar, dá. Acho que foi a escolha certa naquele momento.

João (à direita) chegou ao Belenenses em 2012/13

João (à direita) chegou ao Belenenses em 2012/13

D.R.

A temporada seguinte começam ainda com Vidigal e depois vem Jorge Simão.
Sim. O mister Jorge Simão já tinha trabalhado no Belenenses, era adjunto do mister Mitchell van der Gaag, e acho que houve alguma ligação porque já conhecíamos a pessoa. Acabo por sentir-me um pouco triste por tudo o que aconteceu porque era o meu último ano de contrato, até janeiro joguei sempre, houve uma certa pressão para renovar e de um momento para o outro, não sei se era opção, se era castigo ou o que quer que seja, fui um pouco afastado e não consegui dar o meu contributo.

Percebeu porquê?
Não sei. Não sei se foi por não ter avançado logo com a renovação de contrato, sei que na altura tive um pequeno desentendimento com o mister Lito Vidigal, não creio que pudesse ter sido por aí, mas se calhar até foi.

Que desentendimento foi esse?
Não há assim muito a dizer, foi apenas porque não acatei ou não aceitei uma decisão que ele teve porque ele disse-me uma coisa e acabou por não ser assim e pronto.

Confrontou-o?
Confrontei. Se acho que foi um erro? Não sei se foi um erro, porque acho que fiz o que é certo e quando é assim, estou de consciência tranquila. O mister depois, como é óbvio, ele é que é o líder, ele é que sabe e tenho de respeitar. Se aceito, aceito e respeito, mas é difícil de engolir. Bola para a frente, como se diz.

Mas quando percebeu que estava a ser afastado, o que pensou?
Caiu-me um pouco o mundo aos meus pés porque eu não estava à espera que aquilo pudesse acontecer, porque houve várias oportunidades de sair e nunca foi aceite.

Para onde?
Para o estrangeiro e houve uma equipa de cá também. Nunca foi aceite porque o presidente, Rui Pedro Soares, acreditava que eu pudesse ficar no Belenenses muitos anos. Sinceramente não era essa a minha ideia porque sempre quis jogar no estrangeiro, mas se as coisas fossem bem feitas, não por ele, porque acho que por ele as coisas foram andando e tranquilo, mas pelo que me fizeram, acho que não se faz a ninguém, fiquei um bocado triste e tomei a decisão de sair logo em fevereiro. Ainda fizemos um jogo com o Gil Vicente para a Liga Europa, ainda houve a conversa de renovar, mas a minha decisão já estava tomada. Acho que já não valia a pena voltar atrás. A partir de determinada altura jogava quando era preciso: “Olha, João precisamos de um médio”, “olha, João, precisamos de um avançado, tens de ir”, “oh João, tens de fazer um defesa direito” e eu jogava. Não era nas condições que eu queria ou que idealizava.

Com a filha Maria Inês nos braços a festejar o título da II liga pelo Belenenses

Com a filha Maria Inês nos braços a festejar o título da II liga pelo Belenenses

D.R.

Quando chega o final dessa época, já sabia que ia para os EUA?
Não, eu tinha mais ou menos as coisas todas certas com o Sporting Gijón, eles estavam na iminência de subir à I Liga e até fui a um almoço em Sevilha para acertar tudo. Voltamos a Portugal praticamente com tudo fechado. Só que o Sporting Gijón no ano seguinte sobe à primeira liga e é declarado fair-play financeiro. Ou seja, só podiam assinar jogadores até aos 23 anos ou então jogadores emprestados e eu não era um, nem outro, por isso tinha que esperar e o feedback que me chegava das pessoas do Sporting Gijón era que para a semana se vai resolver, para a semana, para a semana e já estávamos em agosto. Fui rejeitando outras propostas de países até periféricos, mas de clubes bons e de bons contratos à espera do Gijón, que era o meu sonho, poder jogar numa grande liga. Fui esperando, esperando, esperando, talvez se calhar por vaidosice, porque quando estamos bem na vida, pensamos sempre que somos melhores do que o que realmente somos e naquele momento talvez não me tenha relacionado bem com as pessoas certas e fui esperando, esperando e acabou por não se concretizar. Na última semana de agosto olhei para a parede e não tinha praticamente nada. Tinha Chipres, etc., etc. Fiquei seis meses sem clube.

O que fez durante esses seis meses?
Foi um choque. Porque eu tive um grande choque quando soube que ia ficar suspenso oito meses quando parti o maxilar, mas tinha um clube, agora, não ter clube, andar a correr sozinho na rua ou ir treinar com um PT [personal trainer], o meu lado mental estava destroçado. Mas eu não queria passar isso às pessoas, à minha mulher, à minha filha, ao meu irmão, e depois o pior de tudo, quando não temos clube, é as pessoas perguntarem-te: "Então já tens clube?", “então, já tens alguma solução?", sabendo que não tenho nada.

Tinha empresário?
Naquele momento optei por ficar sem empresário porque tudo o que me iam trazendo não era aquilo que eu queria, então preferi não ter ninguém em concreto e aquele que me trouxesse o melhor contrato... Às vezes essa é a ideia errada, porque temos de ter alguém em quem confiar e que também confie em nós. Lembro-me uma vez em que estava a correr no parque de Monsanto e começou a chover e eu comecei a correr e parei ao fim de 15, 20 minutos e comecei a chorar, a pensar para mim: “O que é que estou a fazer aqui, sozinho, a correr feito totó porque realmente é o que eu neste momento sou. Não dá para mim, não dá para mim, vou para casa”. E fui para casa a pensar como é que é possível estar numa situação daquelas. Podia ter aceitado coisas muito boas e acabei por rejeitar. Mas o barco passou. Entretanto em outubro desse ano, quando eu estava sem clube, o Belenenses estava na Liga Europa e o mister Ricardo Sá Pinto estava lá. E o presidente Rui Pedro Soares liga-me durante a noite a perguntar se eu gostaria de ir para Itália e eu disse-lhe: "Jogar em Itália é o meu sonho porque adoro o futebol italiano"; "Então pronto, amanhã passa aqui no Restelo e temos uma conversa porque tenho aqui uma proposta para si". Eu fui ao Restelo no dia a seguir e ele falou-me de uma possibilidade em Itália.

Qual era o clube?
Não sei, ele nunca me disse. E quando eu estava a sair da reunião, aparece a equipa, que tinha ido treinar ao Jamor. Fizeram uma festa: "Então o que é que estás aqui a fazer? Vens para aqui?" O mister Sá Pinto viu-me e perguntou-me: "Então João, como é que é, prazer, toda a gente fala muito bem de ti, gostava que estivesses aqui connosco. Estás a treinar onde?" Disse-lhe que estava com um PT e ele imediatamente: "Eh pá, não há personal trainer nenhum, a partir de amanhã tu fazes parte deste grupo, treinas aqui connosco e estás à vontade". Eu até me senti assim um pouco: "Mas mister, eu não quero criar problemas com ninguém"; "não há problemas, vens para aqui porque fazes parte de grupo, toda a gente gosta de ti, estás a treinar até arranjares uma solução". E pronto foi assim, comecei a treinar com eles até dezembro e nessa altura eu já estava a ter as primeiras reuniões com os Chicago Fire através de um agente que entrou em contato comigo a perguntar se eu gostaria de ir para a MLS.

Nos festejos da subida à I Liga pelo Belenenses

Nos festejos da subida à I Liga pelo Belenenses

D.R.

O que pensou quando lhe falaram da MLS?
Pensei que um dos objetivos que tinha era ir jogar para o estrangeiro. Como a minha mulher é assistente de bordo da TAP, normalmente todos os verões íamos para Miami e eu dizia-lhe: "Um dia ainda vamos viver nos Estados Unidos, olha para isto, espetacular o desporto aqui". Naquela altura víamos muito os playoffs do basquetebol e as ruas ficavam ainda mais loucas porque os Miami Heat estavam em grande forma na altura. Eu só dizia: "Carmen, isto era espetacular para nós, ainda vamos conseguir um dia". E pronto, concretizou-se. Tive duas reuniões via Skype, depois reuni-me com eles na Sérvia. Entretanto o mister Sá Pinto é despedido do Belenenses e entra o mister Júlio Velazquez. Quando ele entrou, estava lá eu e outro rapaz que fazia parte do Belenenses mas que não estava inscrito, e ele disse que jogadores que não tinham contrato não podiam treinar lá mais. Eu agradeci, como é óbvio, e fui-me embora. Passado duas semanas cheguei a acordo com o Chicago Fire e foi um momento fantástico.

Quando chegou aos EUA foi um choque de realidades.
Era tudo diferente, porque aqui em Portugal não se pode sair da linha, no estágio tem que ser tudo a horas, tudo à espera que o treinador diga que é para levantar da mesa, etc., etc. Eu fui diretamente para a Flórida, onde eles estavam em estágio de pré-época, em janeiro, e cada um ia jantar à hora que quisesse, cada um levava a roupa do clube que quisesse (porque eles davam umas três, quatro t-shirts), se quisesse ia de rosa, amanhã ia de cinzento e os outros de azul, desde que dissesse Chicago Fire estava tudo bem. Cá se um vai de calças, todos vão de calças [risos]. Lá era um pouco mais relaxado, acho que um choque mas pela positiva.

Foi sozinho?
Fui. No início fiquei no hotel até arranjar casa, mas o clube tinha uma pessoa que ia connosco procurar casas, tu é que tens de arranjar casa, mobilar, tens de arranjar o teu carro, essas coisas tens de te desenrascar. Mas felizmente a MLS dá um valor, uma ajuda para mobilar a casa. A minha mulher também ajudou na escolha porque elas estiveram lá três meses por causa do visto. Entretanto o nosso filho nasce em novembro de 2016.

Assistiu ao parto dele?
Não, o meu último jogo era dia 6, foi a parte final do playoff e eu vou ser sincero, isto é feio de dizer, mas eu estava tão desejoso que a época acabasse para estar com a minha filha e para ver o meu filho nascer… Porque se eu ganhasse jogava dia 16 e dia 22 e ela já me dizia que estava cheia de dores e eu pensei, isto a qualquer momento vais rebentar, tenho que me ir embora. E quando perdemos, eu pensei: “Graças a Deus” [risos]. E foi giro porque no dia em que fomos para o hospital, equipei-me todo com a máscara, etc. e naquele espaço: "Você vai entrar a qualquer momento"; "Está também", fui à casa de banho e nesse momento chamam-me "o pai do Isac, o pai do Isac", por amor de Deus eu estou agora aqui a urinar. "Ele vai nascer" e quando saio da porta já estava ele a vir. Ajudei a vesti-lo mas já não o vi a sair, foi de cesariana mas já não vi [risos] E também já não vou ver de certeza mais nenhum filho, porque para mim já chega [risos].

A dar uma entrevista nos EUA. João foi jogar para os Chicago Fire, em 2016

A dar uma entrevista nos EUA. João foi jogar para os Chicago Fire, em 2016

D.R.

Voltando ainda aos EUA, quais foram as maiores diferenças que notou a nível de treino, de jogo?
O jogo é muito mais partido do que em Portugal, não se pensa tanto no tático. Acho que é também mais físico, mas apesar de ser mais físico não trabalhávamos muito mais o físico do que trabalhamos em Portugal, o que é engraçado. Acho também os jogadores americanos hoje em dia bem melhores, felizmente já estão a ser muitos vendidos para a Europa, mas há quatro, cinco anos todos os jogadores que vinham das faculdades, dos drafts ainda tinham alguma dificuldade em perceber o que era o jogo.

Dificuldade em perceber o que era o jogo, como assim? Tente dar um exemplo.
Por exemplo, no momento de ficar com bola ou de avançar com a bola. Estamos a ganhar 1-0 e aos 89 minutos já temos de cair, como em Portugal, ficar com bola, guardar a bola para ganhar o jogo. Mas nos EUA a cultura desportiva é tão de show que eles estão a ganhar 1-0 aos 89 minutos e querem ganhar 2-0, não importa se empatarem, porque os adeptos se ganharmos só 1-0 ou se ficar 0-0 não gostam; eles querem ver golos, querem divertir-se, pagam bilhete para tal. Por isso é que o jogo aos 20, 30 minutos está partido. Hoje em dia já não porque vão buscar muitos jogadores europeus, mas era muito assim e no primeiro ano tive algumas dificuldades de adaptação, pelo menos nos primeiros seis meses.

Mas ao nível do marketing é um mundo à parte, estão à nossa frente.
Sem dúvida. De tudo, de comunicação, de marketing, ali fazem-nos sentir umas autênticas estrelas e autênticos jogadores. Posso dizer que vivia uma vida de estrela de cinema, vivia num apartamento que era num edifício fantástico, viviam alguns atores da série "The Empire", uns cantores, lá no meu prédio. Ia para os treinos e toda a gente me conhecia na rua, toda a gente me abordava porque felizmente as coisa iam-me correndo muito bem. Volto a dizer que foi talvez a experiência mais enriquecedora que tive na minha vida. E Chicago é uma cidade fantástica para viver.

Nos EUA, João aproveitou para ver outros desporto ao vivo, como o hóquei no gelo

Nos EUA, João aproveitou para ver outros desporto ao vivo, como o hóquei no gelo

D.R.

Que histórias de lá pode contar?
Tenho uma não muito engraçada mas que vou contar porque acaba por ser marcante. O nosso patrocínio era uma marca de uma loja de construção civil ou algo desse género e todos os anos há a semana da caridade, em que temos de fazer alguma coisa pela comunidade. Na parte sul de Chicago é onde existem os maiores gangues, é uma zona de subúrbios, fica a uma hora de caminho e nós fomos lá fazer um trabalho na comunidade, estar com os miúdos. Na altura dividimos a equipa por dois grupos. Um grupo ficava na rua a varrer e a limpar e a outra ficava nas pinturas e nos cortes de madeira e da parte da tarde trocávamos. Na parte da manhã eu estava a limpar a rua e aparece um carro e começa a disparar contra uma pessoa que estava num alpendre. Isto foi a 50 metros, eu fiquei em choque. O nosso grupo andava com uma mulher polícia que estava ao meu lado e começou a fugir e eu fiquei parado. E ela: "Sai daí, sai daí". Mas eu fiquei tão bloqueado com aquilo. Nos dois dias seguintes dormia muito mal, sonhava com isso.

O resto da família e amigos foram visitá-lo?
O meu irmão foi lá e foi espetacular porque consegui mostrar a cidade toda, vivemos os dois coisas que já não partilhávamos desde a infância e isso para mim foi muito marcante.

Teve muitas marcas que o quisessem apoiar e patrocinar?
Sim. A MLS é patrocinada pela Adidas, que por acaso é a minha marca preferida, e quando lá cheguei vieram logo falar comigo para saber se queria calçar Adidas nos próximos dois anos e que me davam logo algum material. Para mim foi espetacular, não estava à espera. Lá também há todas as semanas as chamadas appearances e uma vez mandaram-me ir para um centro comercial fazer campanha ao FIFA 2017; deram-me logo um jogo com a capa do Chicago Fire, etc. Lá é tudo mais fácil, estão sempre a fazer promoções e a dar-nos coisas. Eles parecem que têm gosto em mostrar o produto para provarmos e para sermos a cara ou parceiros/colaboradores dessas marcas. Tanto fui convidado para open houses como para ir visitar a Google. O clube todos os meses tinha alguns eventos, nomeava três, quatro jogadores e distribuía por esses eventos; e todos esses eventos eram pagos, eram um bónus além do que já recebíamos. Era um complemento muito bom.

A conversar com Schwensteiger, nos EUA

A conversar com Schwensteiger, nos EUA

D.R.

Sente que evoluiu enquanto jogador? Aprendeu muita coisa com o Paunovic?
Sim, acho que cresci muito. Primeiro a nível pessoal porque estava sozinho num país brutal, gigante e estive muito tempo sozinho. A nível profissional também evoluí porque o treinador era sérvio e esteve muitos anos em Espanha, transmitia-nos algumas coisas que tinha aprendido em Espanha, que era muito similar ao português, mas com mais posse, com mais bola, sem medos de arriscar. Depois para mim foi importante porque na MLS todas as equipas têm dois, três jogadores na frente de boas seleções. Apanhei David Villa, Giovinco, Altidore, Drogba, jogadores de Liga de Campeões, e isso fez-me crescer muito.

Assinou por dois anos. Não quis renovar ou foram eles que o dispensaram?
No último ano, quando o meu filho nasceu, tentámos falar com o clube para melhorar as condições e até houve alguma recetividade porque eu tinha feito os jogos praticamente todos. Só que em devido tempo houve uma indecisão e enquanto estávamos naquela vai não vai surgiu-me a oferta de um clube da Championship, o Queens Park Rangers; tinha tudo praticamente acordado. Ir para Inglaterra também era fantástico, o meu filho tinha acabado de nascer e a minha mulher dizia-me que apesar dos EUA serem espetaculares não dava para mudarmos toda a nossa vida para lá e se eu fosse para Inglaterra era mais fácil, estávamos mais perto. E Inglaterra para mim também era um sonho porque, depois de Itália, tem o melhor campeonato do mundo, por isso aceitei. Acabei o contrato com o Chicago, fui a Inglaterra reunir-me com as pessoas mas as coisas não avançaram da maneira como eu queria e fiquei sem clube porque tinha dito ao Chicago que não tinha interesse naqueles valores e eles também não quiseram avançar com mais nada. Fiquei sem os dois.

Ficou sem clube quanto tempo?
Isto foi em dezembro e em janeiro apareceu-me a hipótese de ir trabalhar para o Alcorcón de Espanha, onde estava o mister Julio Velazquez, que tinha dito para eu sair do Belenenses. Falaram-lhe muito bem de mim e ele precisava de um central em Espanha. Eu disse que ia porque até gostava de trabalhar com ele, também me tinham dito bem dele. Mas ficámos ali num contratempo que era a casa, porque o clube não queria pagar a casa. Viver em Madrid é caro, resolvi insistir e esperar pelo dia seguinte para ver se eles avançavam com a casa. Mas se não dessem eu ia na mesma. Fui treinar com o PT nesse dia por volta das sete da tarde e recebi uma chamada de Espanha. Era um agente a perguntar se eu gostaria de ingressar num clube da II Liga espanhola, eu disse que já tinha tudo fechado com outro clube da II Liga espanhola, ele disse que vinha da parte do Lorca FC, que ia ter um novo dono, novo presidente, que ia investir muito dinheiro com a ideia de manter o clube na II Liga naqueles seis meses, mas no ano seguinte montar uma equipa para atacar forte e tentar subir. Disse que já tinha praticamente tudo fechado com o Alcorcón, mas que se no espaço de meia-hora me mandasse a oferta pelos valores que me estava a dizer, eu aceitava. Passados uns minutos mandaram-me logo a oferta por email, era real, assinado por toda a gente, e eu enviei para o empresário, que me disse que a escolha era minha, mas que o Alcorcón apesar de não pagar o que eu queria era um clube estável. Eu fui pelo dinheiro. Fui para o Lorca. Só que às vezes quem tudo quer tudo perde.

Com a mulher Carmen Dias

Com a mulher Carmen Dias

D.R.

O que aconteceu para não ficar no Lorca?
Durante 15 dias houve dois jogos: um jogo eles empataram e o outro perderam e esse tal investidor acabou por não querer comprar o clube, foi-se embora sem ninguém saber dele e os contratos que eles nos tinham oferecido, a mim e a outros dois jogadores, aquela estrutura que lá estava não tinha capacidade para pagar. E pronto. Até final de janeiro ainda apareceu uma situação em Portugal, de um clube da I Liga, que não vou dizer o nome porque o problema não é do clube mas da pessoa que o dirigia. Propõe-me um contrato no dia 30 de janeiro, aceito para não estar parado porque o mercado ia fechar e eu já estava escaldado daqueles seis meses e queria ficar pelo menos empregado. Disseram-me: "Ok João. Amanhã (que seria 31 de janeiro de 2018) vamos fechar um jogador a um clube grande e depois de almoço vens para cima para fazeres exames médicos e apresentação". No dia seguinte ligo por volta da hora de almoço e disseram que estavam numa reunião com esse tal clube a tentar vender o jogador mas para eu ficar despachado por volta das cinco da tarde. Eu começo a fazer a mala e por volta das três, quatro da tarde vejo a notícia de que esse jogador foi vendido e em contrapartida o clube grande envia um jogador emprestado da mesma posição. Ou seja, ia fechar para mim, já não ia ter oportunidade. Perguntei-lhes se era verdade, disseram: "Já te ligo para explicar tudo". Mais tarde ligou-me a dizer que eu não podia ir. Eu disse o que tinha a dizer. E acabou ali a minha oportunidade.

E depois?
Em fevereiro, por volta do dia 10, a minha mulher, como é assistente de bordo e me via um pouco desanimado, disse-me que tinha um voo para o Rio de Janeiro por altura do Carnaval e como eu nunca tinha ido ao Rio, podia ir com ela e para nos divertirmo os dois um bocadinho. Ficou combinado. O voo era às 11 da noite, fiz o check in online às três da tarde, estava fazer a mala às quatro da tarde e recebo uma proposta do Craiova, da Roménia, um contrato de longa duração. Às seis da tarde ligou-me um clube espanhol também, o Valladolid, a dizer que já sabia da situação do Craiova porque tinham falado com o meu agente, mas que podia ir para Espanha no dia seguinte para fazer o reconhecimento médico e em 15 dias estava pronto para jogar. E eu, que se lixe o dinheiro, já não vou para o Rio, vou para Valladolid. Espanha ainda por cima era perto de casa. A minha mulher foi para o Brasil e quando voltou eu ainda estava em casa [risos].

Então?
Mais uma semana à espera e o Valladolid acabou por assinar com outro jogador. Também não entendo o porquê, nem sei como, mas foi isso. A minha carreira dá para escrever um livro [risos].

A festejar um golo dos Chicago Fire

A festejar um golo dos Chicago Fire

D.R.

Foi-se muito abaixo psicologicamente?
Sim, foi um grande tiro, mas continuei a trabalhar, sempre a treinar, sempre com força anímica porque ainda havia alguns países com mercado aberto. Tentei falar com as pessoas da MLS, mas diziam-me que a nível de estrangeiros já estava difícil. E apareceu-me uma situação no dia 26 de fevereiro, para Itália. E eu: "Eh pá, não brinquem comigo. Aqui é que não toquem, não brinquem. Itália é o meu sonho". Itália, II Liga, Cremonese, um clube que estava a fazer de tudo para subir, estava muito bem classificado. Foi através de um colega meu, disse-me que o empresário dele falou com o presidente, que ficou interessado no meu nome, etc., etc. No dia seguinte ligam-me com a oferta concreta. Eu só pensava, está feito. No dia 28, último dia dos jogadores livres em Itália, viajo, assino o contrato, faço reconhecimento médico, faço tudo e vou para o hotel. No dia seguinte comecei a treinar e passados 10 dias recebo uma nota da federação italiana a dizer que eu não podia ser inscrito porque houve um erro de contagem de estrangeiros livres que eram só dois e eu era o terceiro. Como havia um que era argentino-italiano, eles pensavam que esse contava como italiano mas não, era argentino. E pronto, vim para casa outra vez.

De mãos a abanar, nem sequer foi indemnizado.
Nada, nada. Aí foi a machadada final que me fez ir para a Noruega, felizmente para um clube bom, o Valerenga. Assinei só por três meses e logo no primeiro jogo senti a coxa, rasguei o músculo e fiquei um mês e meio parado. Quando voltei ainda fiz três, quatro jogos mas a minha cabeça já não estava bem, era muita coisa a acontecer e eu só queria vir embora e começar do zero num clube qualquer. Não consegui arranjar solução nenhuma que eu quisesse naquele momento e fiquei mais seis meses sem clube. Foi aí que fiquei mesmo a pensar como é que é possível a carreira estar num pico tão bom e cair tão rápido?

O que fazia nos tempos livres?
Treinava todos os dias com o PT. Em outubro tive a felicidade do treinador do Cova da Piedade, que era meu amigo de infância, perguntar-me seu eu queria treinar lá para manter a forma, podia ser que em janeiro pudesse lá ficar. Fui. Conhecia o clube, conhecia a malta e ia espairecer um pouco. E foi assim. Estive a treinar com eles até janeiro e depois apareceu a situação para ir para a Roménia. E fui.

Com a filha no final de um jogo

Com a filha no final de um jogo

D.R.

Quando lhe apareceu essa situação da Roménia qual foi a sua reação?
Eu queria ir. Porque a Roménia pode ter muitos contras mas tem um pró muito grande que é: se vamos e mostramos valor há vários mercados ali à volta, como a Turquia ou mercado árabe, que abrem com facilidade; ou mesmo um clube grande da Roménia. Eu fui com essa perspetiva. De ir para um clube que estava mais ou menos condenado para descer mas que me podia promover. Foi um tiro no escuro que acabou por correr mal porque quando lá cheguei, passados dois dias de treino senti que o clube ia descer de divisão muito fácil.

Porquê?
Era um clube muito mal estruturado, muito mal organizado, todos os dias havia confusões. Jogadores a chegar, outros a sair, os romenos a fazer um grupo só deles. Os estrangeiros, como é óbvio, como chegam a um país novo se ninguém os abraça juntam-se também para falar. O treinador começou por criar grupos. No início ele é que foi buscar os estrangeiros todos e dizia que não confiava nos romenos, que não prestavam para nada. Depois a equipa não ganhava e ele começou a dizer que a culpa era dos estrangeiros e que os romenos é que eram bons. Era um grupo destroçado e muito mal orientado.

Sei que tem uma história engraçada na Roménia, que mete ovos. Quer partilhá-la?
[risos] Esse foi o grande problema que tive com o treinador. Íamos jogar contra o Dínamo de Bucareste e fomos para o estágio. Lá fazem estágio, seja jogo em casa ou fora. Nós só jogamos sábado às oito ou nove da noite, entramos em estágio um dia antes. O jantar foi esparguete com carne, o almoço foi esparguete com carne e no pré-jogo, podia ser um bolinho ou qualquer coisa assim, mas não, era esparguete com molho de tomate. E eu virei-me para o empregado e perguntei-lhe se me podia arranjar uns ovos mexidos ou um bolo, qualquer coisa, porque não queria mais esparguete, estava mesmo farto de esparguete. O treinador levanta-se e diz: "Mas quem é que quer ovo?"; "Mister, sou eu"; "Mas porquê ovo?"; "É proteína, é bom"; "É a primeira vez que vejo um atleta que não vai comer esparguete"; "Oh mister, mas já comi esparguete ontem, comi esparguete hoje e não quero mais esparguete"; "Não, um jogador meu tem de comer esparguete". Depois virou-se para uns colegas romenos que tinham estado em Itália e perguntou "Tu quando estavas em Itália o que é que tu comias, esparguete ou ovos mexidos?"; E, claro, ele "esparguete" e fez isto com mais um ou dois, que responderam sempre “esparguete”. E depois terminou: "Então é esparguete que se tem de comer. Mas se queres os ovos, come lá os ovos". Eu comi os ovos. Fomos para o estádio, deixo a mochila no balneário no meu lugar, onde estava o meu equipamento com a camisola, tudo prontinho e vou ver a relva. Quando regressei de ver o relvado a minha camisola tinha saltado, fiquei como 19º convocado porque não comi esparguete e comi os ovos [risos].

Em ação (à esquerda) pelos Chicago Fire

Em ação (à esquerda) pelos Chicago Fire

D.R.

Tem mais alguma história de lá?
Eles lá são ortodoxos. Eu não sigo nenhuma religião, tenho a minha fé, mas não vou a igrejas. Mas ali nós tínhamos muitos muçulmanos. Antes dos jogos os romenos iam todos para a igreja e às vezes ia lá o padre perfumar os balneários e os muçulmanos não queriam estar ali e saíam, como é lógico, porque não faz parte da religião deles. Eu e mais dois ou três íamos com eles. E ele dizia: "Quem não rezar não deve jogar porque não vamos ganhar" [risos]. Era tudo assim. Lembro-me de mais uma.

Força.
Uma vez chegamos ao centro de treinos e ele cumprimentava de uma maneira muito estranha, parecia que cumprimentava só com três dedos. Chegamos, cumprimentamo-nos todos e às tantas ele vai junto de um estrangeiro e diz: "Ouve lá, tu não me cumprimentaste hoje"; "Oh mister, acabei de o cumprimentar"; "Não, não me cumprimentaste. Cumprimenta-me lá outra vez". Ele cumprimentou e o treinador: "Isto sim é cumprimentar. E agora faz-me um favor, vais tu e vai toda a gente para casa que eu não vos quero ver mais hoje". E fomos todos embora. [risos]. Outra vez também, havia um jogador que estava afastado e que apareceu no balneário. O treinador chegou, viu-o: "O que estás aqui a fazer?"; "Oh mister, eu tenho contrato, tenho de me apresentar"; "Tens de te apresentar mas não é neste balneário" e desataram os dois a pancada. Toda a gente a ver o jogador e o treinador à bancada [risos]. Era tudo assim, era de bradar aos céus. Houve também situações que não são giras de se contar, muitos confrontos entre estrangeiros e romenos. Complicado.

Nunca esteve metido numa confusão dessas?
Comigo felizmente não houve nada, mas tive de separar alguns. Mas na Roménia é assim, se ganhamos dois, três jogos, o ambiente é espetacular, se perdemos um jogo, já a desconfiança é enorme.

E no dia-a-dia, na rua, nos restaurantes, o que achou dos romenos?
Fabuloso. Vivi em Bucareste e a cidade surpreendeu-me muito, à minha mulher também e amigos que lá foram. Não tem nada a ver com aquelas situações de pobreza de que tanta gente fala. Achei uma cidade muito boa, com muita vida. Os restaurantes são de uma classe muito alta, assim como os bares, os parques. Muito bom.

Enquanto esteve nos EUA, João foi convidado para visitar a gigante Google

Enquanto esteve nos EUA, João foi convidado para visitar a gigante Google

D.R.

O que acontece depois desses seis meses?
Acabei contrato e vim embora. Era impossível ficar na Roménia. E aparece-me a hipótese de voltar ao Vitória de Setúbal, para tentar realizar o sonho que eu tinha de jogar um dia na primeira equipa do Vitória, o que só aconteceu 13 anos depois.

Uma época um bocado louca, com muitas mudanças de treinador.
É mais um ano em cinco [risos]. Quando cheguei o treinador era o mister Sandro. Comecei a treinar, fiz o jogo com os sub-23 e uma semana depois comecei a ser convocado, mas nunca senti que eu tivesse voltado ao Vitória para ser uma solução. Fui para o Vitória, mas o mister praticamente não me abriu a porta. Não era opção do mister, não era preciso ninguém dizer porque eu senti isso. joguei muito pouco com o Sandro. Quando ele saiu entrou o mister Julio Velazquez, que me tinha mandado embora de Belém porque não me conhecia e que me queria no Alcorcón. Íamos ter a oportunidade de trabalhar juntos finalmente. Deu-me muito mais tempo de jogo, sim, mas também não foi o tempo de jogo que eu queria e que na minha opinião, merecia. Gostei de trabalhar com ele, mas esperava outra coisa a nível pessoal, esperava que pudesse estar mais relacionado com a equipa. Depois vem a situação da covid. Quando voltamos, estávamos em 6º ou 7º lugar e quando começamos a jogar não ganhamos jogo nenhum. Entretanto ele sai, nesse espaço em que regressamos da covid eu também nunca joguei; a seguir o Meyong pegou na equipa durante um encontro, em que joguei e depois veio o mister Lito Vidigal, em que por um milagre conseguimos a salvação, a manutenção.

Mas que não serviu de muito.
Infelizmente não serviu de nada. Mais uma vez a minha vida é completamente alterada devido a alguma incompetência não minha, porque fiz tudo o que podia em campo, mas por quem comandava o Vitória na altura.

Durante o confinamento treinou em casa?
A minha mulher dizia que eu era completamente doente porque eu não parava, estava sempre a treinar. Treinava de manhã à tarde ia correr, até que ela acabou por ir para o Algarve porque os meus sogros são de lá e eu fiquei 15 dias em casa e acho que atingi o meu pico de forma na quarentena [risos]. É estranho mas é verdade. Estava muito, muito bem na quarentena, foquei-me muito e nunca me desleixei porque quando voltasse eu queria entrar muito forte. Por isso fiquei também um pouco desiludido porque cheguei muito bem e as oportunidades nunca me foram dadas. E não foi por falta de qualidade. Eram as ideias do treinador, e temos de respeitar mais uma vez.

Com a filha e a mulher gravida do segundo filho

Com a filha e a mulher gravida do segundo filho

D.R.

Quando fica decidida a descida do V. Setúbal, o que pensou? O que aconteceu?
Quando soube da notícia pensei que fosse mais uma daquelas tentativas de mandar o Vitória abaixo. Porque no ano anterior tinha acontecido, dois anos antes também. Conseguimos a manutenção, houve uma festa tão grande, no dia a seguir ainda fomos ao Vitória para buscar algum material e só dois dias depois é que aparece a notícia. Eu já estava a pensar nas férias, em ir com a família para algum lado, falei com um grupo de amigos, achamos que não era uma decisão definitiva. Mas o que é certo é que não se via uma luz ao fundo do túnel. Tenho uma pessoa amiga que é advogado e me avisou para não esperar decisão a favor do Vitória.

Nessa altura não tinha perspetiva de outros clubes.
Nada. Alguns até me perguntavam como é que ia ser a minha situação, mas eu quis sempre acreditar que o Vitória ia ficar na I Liga. Começamos a pré-época. Entretanto, alguns jogadores foram saindo e depois veio a decisão de que o Vitória ficava no CNS. Ainda tinha contrato, mas comecei a mexer-me mais, só que já era muito tarde. Os mercados que eu queria já estavam todos fechados, as equipas já estavam feitas e os treinadores já tinham outras opções. E com três quatro dias para fechar o mercado, tive de decidir e rescindi o contrato.

João ainda esteve 15 dias no Lorca FC, de Espanha

João ainda esteve 15 dias no Lorca FC, de Espanha

D.R.

E surge o Cova da Piedade. Através de quem?
Através do mister António Pereira, numa conversa informal. Ele liga-me para perguntar sobre um jogador, ele sabia que eu tinha várias propostas na II Liga, mas disse-me que gostava de me ter ao pé dele. Eu disse para ele ver no clube os valores porque se calhar até preferia ficar ao pé da família e com ele, íamos reaver-nos e trabalhar juntos. Combinamos almoçar, decidimos e fiquei no Cova da Piedade. A diferença monetária não era tão avultada que justificasse mover-me para outra cidade e sair outra vez do seio familiar.

Como foi regressar ao clube tantos anos depois?
Foi bom. Já não é a mesma coisa porque se calhar à conta da quarentena o clube está um pouco descaracterizado, devido a falta de adeptos. É diferente, está muito mais profissional, tem um campo relvado, muito melhores condições, etc. Ainda lá estão algumas pessoas que se lembravam de mim, quando eu era um menino querido do Cova da Piedade. O mister no primeiro jogo, quando me deu a braçadeira de capitão, disse que era por respeito à minha história no clube, e isso significou muito para mim porque o meu irmão foi capitão naquele clube.

Quem era o capitão?
Normalmente era o Edinho, só que como partiu a perna, passou a pasta ao Miguel Rosa e ao João Patrão. E o mister a partir dali decidiu que ia ser eu até porque era o único jogador com história passada no Cova da Piedade.

Mas foi um choque, não? São realidades completamente diferentes, o V. Setúbal e o Cova da Piedade.
Sim, não tem nada a ver. O Vitória é um clube com muitos adeptos, um clube de muita tradição, muita pressão, é um clube castiço, mas é um clube muito grande. Apesar de achar que no Cova da Piedade temos alguns potenciais jogadores de futuro, como é óbvio os valores de mercado e o que ganham uns e os outros é completamente diferente. Acho que baixei um pouco, não a nível de qualidade de jogo porque jogamos bem no Cova da Piedade, mas não há tantas soluções como no Vitória.

Em 2018 João jogou no Valerenga, da Noruega

Em 2018 João jogou no Valerenga, da Noruega

D.R.

Tem contrato até final da época. Já pensou no que vai fazer depois de pendurar as chuteiras?
Já começo a pensar nisso, também por tudo o que vivi nos EUA que me deu uma bagagem muito grande para fazer coisas que aqui em Portugal são muito primárias ainda.

Como por exemplo?
O marketing desportivo, a comunicação, a imagem que se passa, as redes sociais. Em Portugal só há dois, três anos é que 60% dos clubes começaram a investir nisso. E isso é muito importante porque um jogador, por exemplo, eu, João, quero ir jogar para um clube na Letónia que não conheço, o que é que vou ver? O que vou procurar? Vou ver se descubro o clube nas redes sociais. Se o clube tiver uma boa imagem, uma boa estrutura, se calhar é muito mais apelativo eu ir para lá. Se eu procurar nas redes e não ver nada, é mais complicado eu arriscar, e se calhar o clube até é bom. Por isso acho que nesse campo em Portugal pode evoluir-se muito, muito mais.

Chegou a entrar na faculdade. Em que curso?
Em gestão hoteleira, na Pontinha, mas no final do primeiro semestre parti o maxilar no jogo como já contei e depois foi difícil. Acabei por desistir e naquela altura pedi à minha mãe para me dar o dinheiro que ia pagar na faculdade, uma vez que eu não gostava do curso, para eu comprar o carro. E ela disse-me: "Olha, João, os estudos eu pago-te, o carro não" [risos]. E tive de o pagar.

Qual foi o seu primeiro carro?
Pago por mim foi um Mini, de 2007.

No dia em que foi apresentado no Concordia Chiajna, da Roménia

No dia em que foi apresentado no Concordia Chiajna, da Roménia

D.R.

O seu objectivo agora é voltar à faculdade?
Talvez. Gostava de tirar o curso de gestão desportiva. Para já acho que vou tirar em breve o curso de diretor desportivo que a FPF anda a realizar, até para saber se é mesmo aquilo que eu acho que é um diretor desportivo. E depois, se gostar, vou tirar Gestão Desportiva utilizando algumas equivalências que ainda tenho do outro curso. Vamos ver. Mas não estou a pensar em pendurar as chuteiras já no final desta época, porque me sinto muito bem. Ainda tenho na minha cabeça uma nova aventura.

Onde?
Gostaria muito de ir à Austrália ou Ásia.

Porquê?
Gosto de novas culturas, de ver o futebol nesses países e dá-me um upgrade para o meu futuro conhecer outras realidades para ver como é que se trabalha.

Um dos seus grandes amigos do futebol é o Sílvio. Mas foi à conta dele que levou três pontos no nariz. Recorde lá esse episódio.
[risos]. É verdade. Jogamos contra o Portimonense, duas semanas antes do confinamento, e no minuto 85 há uma bola descoberta em que vamos os dois, ele escorrega e ao virar-se para trás eu estava mesmo atrás dele, deu-me uma cotovelada no nariz e partiu-me o nariz. Fui diretamente para o hospital e fui operado.

João regressa ao V. Setúbal na época 2019/20

João regressa ao V. Setúbal na época 2019/20

D.R.

Calculo que foi nos EUA que ganhou mais dinheiro no futebol. Onde investiu?
Tenho com o meu pai uma empresa familiar de gestão de condomínios e de marcas e patentes. De resto ainda não me meti em mais nada. Mas estou a analisar o mercado para ver se vale a pena investir numa academia de padel, por exemplo.

É um homem de fé?
Acredito em alguma coisa. Peço ajuda a alguém, mas não tenho nenhum Deus, nem é a imagem de Jesus Cristo.

Superstições?
Entrar com o pé direito antes de aquecer e quando vou para o jogo. Comecei a ganhar algumas coisinhas, por exemplo, calcei esta bota e ganhei, continuo. Aos poucos fui ganhando esses rituais.

Tem algum passatempo?
Tenho um que me está a dar alguns problemas cá em casa, é a Playstation [risos].

Porque diz que está a dar alguns problemas?
A minha mulher fica doente porque no prime time aqui de casa, a hora dos banhos e jantar, estou a jogar. Porque tenho um grupo de amigos e jogadores com quem jogo FIFA que estão dispersos, um está no Chipre, o outro está em Espanha e temos de entrar a horas diferentes, eu entro por volta das oito e tal, nove horas. Ela resmunga mas felizmente tenho alguma compreensão da parte dela.

É verdade que não gosta de perder nem a feijões e que se irrita muito nesses jogos?
Odeio, odeio perder. É o meu grande problema, e eles gozam comigo porque eu estou sempre a discutir com eles. É complicado. Até com o meu filho. Estamos a jogar e o meu filho de quatro anos diz: "Deixa-me ganhar"; "Não, não ganhas, tens de jogar". A ele ainda vou deixando algumas vezes, a minha mulher começa a dizer-me para o deixar ganhar, mas não gosto [risos].

Ia partindo a mão por causa da Playstation.
É [risos]. E nunca mais fiquei com a mão boa, de vez em quando ainda me dói. Estava a perder na Playstation e dei um soco tão forte aqui no sofá em que apanhei uma parte de madeira, uma parte dura, senti um choque tão grande... Andei a jogar com a mão ligada e tudo.

Esta época regressou ao clube onde começou, o CD Cova da Piedade, e tornou-se capitão

Esta época regressou ao clube onde começou, o CD Cova da Piedade, e tornou-se capitão

D.R.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Milão.

E em Portugal nunca sonhou jogar num grande?
Sim. Eu era benfiquista em miúdo e esse era o meu sonho, jogar no Benfica, mas curiosamente acho que me identificaria bastante com o FC Porto. É estranho dizer isto, eu sei.

Quando esteve nos EUA também notou muita diferença ao nível dos dirigentes e das arbitragens?
Muita, muita. Ali é by the book, não falha uma regra, um cêntimo, uma vírgula, nada. É tudo feito ao pormenor. Nós pensamos que isto ia acontecer, já aconteceu, já está tudo programado. Ao nível das arbitragens também. Tenho ideia que em Portugal não somos muito fortes na arbitragem porque também não são 100% profissionais. Os EUA foram pioneiros no VAR. E eles já começam a entender o jogo, já não é só espectáculo. Entendo que os recursos não são iguais e facilidade com que se tem as coisas nos EUA não é igual em Portugal, mas acredito muito que quando as pessoas são profissionais, podemos não ter recursos mas se houver vontade para que se faça de certeza que se vai fazer algo muito bonito. Dou o exemplo do Famalicão. É um clube que há três anos estava na II Liga, cresceu o ano passado de uma maneira incrível porque tem gente muito competente e a marca Famalicão hoje em dia já é bastante respeitada. E há três anos não era nada. Porque é que isso aconteceu? Porque entrou alguém com uma mentalidade completamente diferente e sem a mesquinhice do costume. Até porque primeiro que tudo somos humanos, antes de sermos jogadores, e há muita gente que ainda não consegue fazer essa diferença. Eu sigo o Diogo Luís e ele dizia uma coisa com a qual concordo, que em Portugal enquanto não houver investimento privado nas SADs, enquanto os clubes não venderem as SADs a pessoas credíveis que façam crescer o negócio futebol, não evoluímos muito. Porque enquanto o presidente do clube for o presidente da SAD e quiser comandar tudo, não vamos lá. Os presidentes têm medo de perder o controle sobre tudo, sobre a decisão, o que complica. Acho que podíamos melhorar muito. E por isso dou os parabéns à FPF de fazer estes novos cursos de formação, de diretores desportivos, porque pode ser que o paradigma mude um pouco.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração da carreira?
Alegria ter sido campeão pelo Belenenses e frustração foi ter ficado desempregado.

Com os dois filhos

Com os dois filhos

D.R.

Não tem mais nenhuma história caricata que possa partilhar?
Tenho uma do Belenenses de que hoje nos rimos, mas na altura não. Na fase da I Liga em que as coisas não estavam a correr muito bem, um dia estávamos a treinar de manhã, creio que foi num sábado, e de seguida íamos para estágio, acabámos o treino, voltámos para o balneário, muitos jogadores deixavam os telemóveis a carregar, os ipads, para depois nas viagens não terem problemas de bateria. Na altura eu tinha dois telemóveis e acabado de comprar carro novo. Qual é o nosso espanto quando lá chegamos, começamos todos a dar por falta dos telefones, chaves do carro, dinheiro. Fomos assaltados, entrou para lá alguém que limpou o balneário. Levou-me os dois telemóveis e a chave do meu carro novo. Tive de trocar o canhão do carro e tudo. São peripécias de que nos rimos agora, mas na altura foi de choro.