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A casa às costas

Manuel Fernandes: “Deixei o pé e o Bento, que tinha levado 8 pontos na cabeça, veio cego, acertou-me e disse: ‘És sempre a mesma porcaria’”

Criado pelas irmãs, Manuel Fernandes acabou por cumprir o sonho da mãe, e que se tornou o seu também: jogar futebol no Sporting. Esteve com um pé no FC Porto, fez a tropa, foi ao México, em 1986, apenas para passear e saiu de Alvalade com a mágoa de não poder terminar a carreira no clube do coração. No domingo, segue-se a 2ª parte desta entrevista, na pele de treinador

Alexandra Simões de Abreu

NUNO BOTELHO

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Nasceu em Sarilhos Pequenos. Fale-nos um pouco da família, o que faziam os seus pais, quantos irmãos tem.
Aqui, nesta aldeia, as pessoas eram todas fragateiras. Os fragateiros trabalhavam no mar, faziam o transporte de terra para o mar e do mar para terra. O meu pai tinha um barco e vivia disso. A minha mãe trabalhava o campo e tinha uma taberna na terra. A minha mãe morreu tinha eu 10 anos.

Morreu nova.
Sim. Morreu com uma úlcera no estômago.

Como soube da notícia?
Eu tinha 10 anos, lembro-me que foi um choque muito grande. Eu estava em casa. Antigamente, a assistência médica não era tão boa e ela faleceu. Mas tenho duas irmãs mais velhas, uma já falecida e outra que vive ao pé de mim. Quando a nossa mãe morreu, foram elas que trataram de mim. Foram elas as minhas mães.

Não é a mesma coisa...
Lógico, nunca é a mesma coisa. Mãe é sempre mãe.

No que sentiu mais falta da sua mãe?
As minhas irmãs deram-me um conforto muito grande e se calhar até se prejudicaram para que não me faltasse nada, mas o amor de mãe é uma coisa que deve ser única, como o amor de pai, é insubstituível, e portanto foi doloroso para um miúdo de 10 anos. O meu pai morreu já eu tinha a minha vida feita, já era profissional de futebol e tinha 23 anos. Lembro-me que estava na tropa quando ele faleceu.

Já lá vamos. O futebol? Começa na rua, calculo…
A minha mãe é que me meteu esse vício.

Como assim?
Ela tinha a taberna e na taberna eu tinha sempre bolas para jogar que ela comprava. Ela é que organizava os jogos aqui na nossa rua, e ela é que sempre me incutiu o espírito de ser jogador de futebol. Porque ela adorava futebol, o meu pai não.

E era adepta do Sporting?
Era adepta do Sporting e ferrenha aqui pelo clube da terra. Na altura, o clube era bom também, era um bom clube do distrito de Setúbal e portanto ela meteu-me sempre na cabeça que eu havia de jogar no 1º de Maio Sarilhense, que é o clube aqui da terra, depois na CUF - e depois tinha que ir para o Sporting. Ela incutiu-me sempre isto na cabeça.

Acabou por concretizar-se.
É verdade, é verdade. Mas ela não viu.

Só vai para o 1º de Maio de Sarilhense com 16 anos, não é?
Sim, foi quando calcei botas de futebol pela primeira vez, aos 16 anos.

Quem é que lhas deu?
O clube. Antigamente, os pais não compravam botas para os filhos jogarem futebol. Hoje compram tudo, mas antigamente não, foi o clube, e fizemos uma equipa de juvenis. Daquelas equipas aqui de rua, juntaram-se montes de jogadores e ficámos com uma grande equipa.

Nessa altura ainda estava na escola já tinha largado os estudos?
Estava na escola, no Montijo. Só deixei a escola quando ingressei na CUF, já como profissional. Com 18 anos.

Manuel Fernandes aos 13 anos, com as duas mãos em cima da bola e a equipa da sua rua

Manuel Fernandes aos 13 anos, com as duas mãos em cima da bola e a equipa da sua rua

D.R.

Como e através de quem vai para a CUF?
Quando eu jogava nos Sarilhos, nunca joguei em júnior, passei de juvenil para sénior. A CUF tinha olheiros aqui no distrito, viu-me jogar e levou-me. Era o que eu queria, ser profissional de futebol.

Aí já foi ganhar algum dinheiro?
Já. Eu era um miúdo de 18 anos e eles não sabiam o que é que eu ia dar, e da fábrica recebia até mais do que do futebol. Todos tínhamos um emprego na fábrica da CUF.

Que trabalho tinha?
Era serralheiro mecânico porque o meu curso era de serralheiro mecânico. Mas só lá fui três meses, depois dediquei-me ao futebol, mas recebia sempre um salário todos os meses.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Na fábrica eram 1.000 escudos (5€) e no futebol eram 800 (4€), e depois recebia umas luvas de 20 contos (100€).

Recorda-se do que é que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Havia alguma coisa que quisesse muito comprar?
Fui juntando até comprar um carro.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Toyota Corola azul, da cor do céu.

Ainda fica na CUF alguns anos...
Seis anos. No primeiro ano joguei sempre pelas reservas, e no seguinte mudaram de treinador, veio o senhor Carlos Silva que apostou logo em mim. Joguei sempre, até dar cabo de um joelho, aos 19 anos. Tive uma lesão grave no joelho.

O que fez?
Foi o menisco, só que na altura o menisco era muito complicado. Agora já não, mas antigamente era complicado. Estive seis meses sem jogar, praticamente.

Teve receio que o futebol tivesse acabado para si?
Não, porque o hospital da CUF tinha excelentes médicos, só que o diagnóstico levou tempo. Na rua onde eu vivia, viviam os pais do Zé Carlos, que jogava no Sporting a defesa-central, e um dia ele encontrou-me e perguntou: "Então tu nunca mais jogaste?". "Eh pá, ando aqui com um joelho que me incha sempre que vou começar a treinar". "Então amanhã vais ao Manuel Marques". Fui ao Manuel Marques que me disse logo que tinha de ser operado ao menisco. Fui operado e comecei a jogar na época mais tarde, mas só não joguei os primeiros jogos no ano em que ficámos em 4.º lugar. Entrei à sexta jornada e nunca mais sai. Ganhámos ao FC Porto 1-0 e eu fiz o golo, nesse ano.

Jogava em que posição?
Como extremo direito. Jogava na direita mas eu ia sempre para o centro do terreno, que dava muito para aparecer em zonas de finalização.

Manuel Fernandes e as irmãs Maria Leonor e Palmira (à sua esquerda)

Manuel Fernandes e as irmãs Maria Leonor e Palmira (à sua esquerda)

NUNO BOTELHO

Nessa altura já está com 20 anos. Já havia namoros e saídas à noite?
Eu comecei a namorar com 18 anos, com a mãe dos meus filhos, do meu primeiro casamento. Tenho um segundo casamento.

Quando teve o primeiro filho?
A Susana nasceu em 1975. Quando ela nasceu eu ainda estava na CUF. Ela nasceu em abril e eu fui para o Sporting em junho ou julho.

Mas esteve quase com um pé no FC Porto, não é verdade?
Não estive só com um pé, fui mesmo lá, ao Porto. Quando acabou a lei da opção, que era uma lei de escravatura do jogador de futebol, que mesmo que quisesse ir para algum lado não podia ir, mesmo que acabasse o contrato, estava vinculado ao clube sempre; e quando se deu o 25 de abril esta lei mudou e coincidiu que em 75 era quando eu acabava o contrato, então já fui eu que escolhi. O FC Porto convidou-me e eu fui ao Porto, cheguei a acordo de verbas, mas o meu objetivo era de facto o Sporting: era o Sporting que eu queria. Embora eles me oferecessem boas condições, vim do Porto um bocadinho triste, falei com um amigo e disse: "Eh pá tenho de ir para o Porto, o Sporting não me diz nada e eu também não me vou oferecer". Entretanto, esse amigo conhecia uma pessoa, essa pessoa falou com alguém do Sporting e nessa noite falaram comigo. Fui ter com eles e resolvi logo o problema para ficar no Sporting, porque era aquilo que eu queria e que a minha mãe também queria.

A proposta do Sporting era mais baixa do que a do FC Porto?
Sim.

Perdeu dinheiro para cumprir o sonho.
Perdi, é verdade.

Isso foi na véspera de ir para o Brasil, não foi?
Sim, nós fomos numa modalidade que é o show bola; fomos quatro portugueses, com outros jogadores da Europa. Fui eu da CUF e mais um colega meu da CUF que era o Arnaldo e foi o Eusébio e o Nené do Benfica. E se eu não tenho assinado antes de embarcar, já não voltava.

Então porquê?
Porque os brasileiros... ninguém me conhecia, conheciam era o Eusébio e o Nené naturalmente, mas eu é que fiz golos, fiz muitos golos nos quatro jogos que fizemos. O Nené também fez alguns, mas o Eusébio já estava naquela fase final de carreira. E começaram a interrogar-se quem era este rapaz que estava a jogar, mas eu disse-lhes que já tinha assinado pelo Sporting antes de embarcar.

Qual foi a sensação de entrar pela primeira vez como jogador em Alvalade, recorda-se?
A sensação... Era aquilo que eu queria, portanto foi uma sensação de delírio mesmo. Por acaso, já tinha lá treinado uma vez quando era miúdo, na aldeia praticamente nunca podíamos ir ver os jogos, era muito longe, antigamente demorava muito mais tempo, apesar da distância ser a mesma, hoje é muito mais fácil. Fui bem recebido. Aliás, o Sporting, nesse ano, levou uma transformação muito grande, saíram vários jogadores importantes e entraram novos jogadores. As pessoas estavam na dúvida de quem era o Manuel Fernandes, conheciam-me na CUF se calhar mais como extremo-direito, mas o que é um facto é que nos dois primeiros anos no Sporting, quando joguei mesmo a ponta de lança, em dois anos marquei 48 golos, 26 de uma vez e 22 de outra, só no campeonato nacional.

Manuel Fernandes no dia do seu casamento com uns primos

Manuel Fernandes no dia do seu casamento com uns primos

D.R.

Lembra-se do jogo de estreia pelo Sporting?
É inesquecível porque foi um jogo particular com a Académica de Coimbra, em Alvalade. Foi a primeira vez que me vesti a rigor com camisola, calção, bota. Jogou muita gente, era o jogo de apresentação da equipa, com muita gente no estádio, ganhámos 5-3 e eu marquei 3 golos.

Não lhe tremeram as pernas?
Não, aí já não. Eu já vinha de uma equipa que estava sempre no 7.º e o 8.º lugar, e que até ficou em 4º. E a CUF, ao contrário do que se possa pensar, era uma equipa que tinha umas condições fabulosas, se calhar até melhor do que o Sporting, na altura. É evidente que o estádio da CUF era mais pequeno, mas era muito bonito, o futebol via-se de todo lado. Depois inaugurou, em 70, um campo relvado só para nós treinarmos.

Quando vai para o Sporting, vivia onde?
Já tinha casado e estava a viver em Sarilhos Grandes. Nunca quis ir para Lisboa. Habituei-me a viver aqui. Hoje se calhar teria outra mentalidade, mas na altura senti-me bem na minha aldeia e neste momento já estou outra vez a viver em Sarilhos Pequenos, que é a minha terra natal, onde nasci.

Estava a contar que fez logo uma série de golos na primeira época ao serviço do Sporting. É o Juca que o puxa para ponta de lança?
Sim, ele tinha na frente o Marinho e o Chico Faria e eu jogava mesmo entre os defesas adversários. Foi aí que comecei a jogar a ponta de lança. Depois no terceiro ano chegou o Jordão e eu já jogava mais por trás dele e portanto mudei um bocadinho a forma de jogar. Eu enquadrava-me nos lugares todos do ataque.

Ainda antes da chegada do Jordão, depois do Juca vem o Jimmy Hagan.
Grande treinador. Ele era muito puro, muito sincero, muito reto e eu gosto de pessoas assim. Agora ele apanhou uma equipa com algumas limitações em termos de banco, tínhamos um 11 bom, mas os treinos dele foram sempre muito duros, sempre da mesma forma, do primeiro dia ao último dia. Chegámos à 13ª jornada e íamos com sete pontos de avanço do 2.º classificado. Depois magoei-me, magoou-se o Keita e não tínhamos suplentes à altura no banco, tínhamos só miúdos dos juniores e naturalmente que a equipa ressentiu-se e acabámos por perder nove pontos para o campeão nesse ano que foi o Benfica.

Teve uma passagem pelos EUA, antes de regressar ao Sporting na época seguinte?
Eu de facto fui aos EUA, ali nas épocas 78 e 79, com o presidente João Rocha; foi também o Artur, o Keita e o Jordão. O que eu sei é que ele vendeu o Artur e o Keita e a mim e ao Jordão ele disse: "Não, vocês vão que vocês fazem falta lá no Sporting". "Então mas nós viemos aqui...?". "Não se preocupem que eu compenso-vos". E agora aparece no meu currículo que eu estive lá nesses clubes. Não percebo. Nunca joguei, nunca treinei, nunca nada. Nunca fiz lá nada.

Mas gostava de ter ficado nos EUA naquela altura?
Eu não trocava o Sporting por nada naquela altura. Para além de estar a jogar no Sporting, eu convivia com as gentes do clube, gostava muito de estar a conversar com os roupeiros, com os empregados da secretaria, envolvi-me mesmo ali no clube. Vivia o clube por dentro. Normalmente nunca almoçava em casa, praticamente ficava lá o dia todo. Às vezes ia almoçar com os meus colegas, mas sentia-me bem estar ali, mesmo sem estar a treinar, sentia-me bem estar lá.

Manuel Fernandes (à direita) com as duas irmãs, um sobrinho e um primo, no dia em que o seu barco à vela ganhou uma regata

Manuel Fernandes (à direita) com as duas irmãs, um sobrinho e um primo, no dia em que o seu barco à vela ganhou uma regata

NUNO BOTELHO

Antes de prosseguirmos com a sua vida, falou há pouco da tropa. Conte lá essa experiência.
Na altura éramos obrigados a ir. Fiz a recruta em Leiria, mas a CUF, como era um clube com uma organização muito grande, teve uma pessoa que me acompanhou, falou com as pessoas para me dispensarem à tarde para ir treinar ao União de Leiria. Todos os dias ia treinar ao União de Leiria e ao domingo ia jogar pela CUF.

Não lhe custou fazer a recruta?
Um bocadinho, principalmente na semana de campo. Mas também tinha uma boa condição física, o pior era o levantar que era às seis da manhã. [risos]

Fizeram-lhe muitas partidas?
Não, eu depois arranjei lá uns amigos, todos os dias íamos jantar, havia até um deles que era do Alentejo e reencontrei-o quando estive no Campomaiorense 20 anos depois. Combinámos jantar e beber um copo todas as sextas-feiras enquanto estive em Campo Maior. É verdade, encontrei o Pataca 20 anos depois, tinha sido meu colega na tropa, dormia na minha caserna e íamos jantar todos os dias. Ganhámos uma grande amizade e ainda hoje temos uma grande amizade e falamos muito. Depois da recruta em Leiria fui tirar a especialidade de escriturário e vim para Lisboa, para o arquivo geral do ministério do exército, como escriturário, e dá-se o 25 de abril.

Como é que viveu esse momento?
Isto parece história, mas é verdade. Estava em casa, as minhas irmãs chegaram e disseram-me que estavam a dizer para os soldados todos se apresentarem. Eu fui logo para lá, mas o meu gabinete estava fechado. Como dizia o Solnado, a tropa estava fechada [risos]. Não quis saber e vim-me embora, pronto. Depois, passados dois ou três dias é que lá fui novamente. Antigamente não havia telemóveis para comunicar. Vivi a revolução em casa.

Voltemos ao futebol. Na época 79/ 80 é eleito capitão.
Fui escolhido uma época antes, em 78/79, foi o Pavic, o treinador jugoslavo. Acho que o Keita foi embora para o estrangeiro, e ele disse: "O capitão da equipa vai ser o Manuel Fernandes". Nem perguntou quantos anos tinha de Sporting. E a partir daí fui capitão. Era capitão quando fomos campeões em 1979/80.

O seu primeiro grande título pelo Sporting.
Já tinha uma Taça de Portugal, mas foi o primeiro campeonato. Nós não éramos a melhor equipa, mas começámos a fomentar um grupo extraordinário; o que acontece é que esse grupo só durou três anos e nesses três anos ganhamos dois campeonatos.

Na tropa. Manuel Fernandes é o 4º a partir da esquerda, na 3ª fila

Na tropa. Manuel Fernandes é o 4º a partir da esquerda, na 3ª fila

NUNO BOTELHO

Dos treinadores todos que teve no Sporting, qual deles o marca mais?
Eu não quero ser indelicado com ninguém, mas há um que me marcou pela positiva, a mim e se calhar a todos os meus colegas, que foi o inglês, o Malcolm Allison.

O que tinha de especial?
Para além de ser exigente, era uma pessoa muito aberta, positiva, que queria um futebol ofensivo, preocupava-se menos com os problemas defensivos e mais com os problemas ofensivos; disse-nos sempre que se sofrêssemos três golos mas marcássemos quatro, estava satisfeito na mesma. Era aquele futebol inglês, para a frente, e nós tínhamos na frente três jogadores que resolviam o jogo: eu, o Jordão e o Oliveira. E atrás de nós tínhamos jogadores que trabalhavam muito para o coletivo.

Foram as melhores épocas do Sporting?
Penso que foi dos melhores períodos do Sporting. Em 79/80 o Sporting fez uma coisa que se calhar ninguém sabe. Em 81/82 até já tínhamos uma equipa melhor ou igual aos dois concorrentes ao título, agora em 79/80 não, eles eram superiores a nós em termos de jogadores, tinham melhor coletivo do que nós, mas nos 15 jogos que fizemos no estádio José Alvalade, tivemos 15 vitórias, o que é de realçar; e foi aí que ganhámos o campeonato. Também fomos ganhando alguns jogos fora e depois decidimos o campeonato no Porto. Com três árbitros a arbitrar o jogo, foi inédito. Eram três árbitros internacionais a arbitrar o jogo: dois a fiscal de linha e um a árbitro, estava tudo feito para o FC Porto ganhar aquele campeonato e nós aí, notou-se o nosso espírito de grupo. Eu falei com os jogadores, disse-lhes aquilo que sentia e de facto foi com muito espírito que nós não perdemos esse jogo, porque fomos muito melhor equipa que o Porto, mas tínhamos um árbitro a não querer que nós ganhássemos o jogo.

Lembra-se de algumas palavras que disse aos jogadores?
Lembro. Cheguei à 2ª parte e disse para o Bastos e para o Menezes que eram os centrais: "Vocês não toquem em nenhum jogador do FC Porto. Não toquem em nenhum, porque senão ele marca penálti". E assim foi. O Bastos não queria tocar nele, até se desviou, ele é que se atirou contra ele e... penálti logo. Empatámos 1-1.

A desconfiança das arbitragens e as alegadas influências são muito antigas, pelos vistos.
O que eu agora acho inacreditável é que com um VAR que está atento às situações e mesmo assim consegue haver falhas. Não sei se estão atentos ou se estão distraídos. Eles não sabem distinguir o que é futebol da alta competição, não sabem. No futebol da alta competição sempre existiu contacto, agora tem que se saber se o contacto é intencional ou não. Isso é uma definição que tem de ser feita, porque há coisas que acontecem que são ridículas. Acho que o VAR é importante, mas tem que se melhorar muitas coisas. O VAR quando não tem a certeza de uma coisa não pode intervir e o problema é que em alguns casos eles intervêm e dão a volta ao árbitro. O árbitro decide, porque vê dentro do campo, e o VAR sabe que aquilo pode ser, ou pode não ser falta e não tem que intervir, é uma decisão do árbitro. Mas quando intervêm, intervêm sempre para os mesmos lados. Mas não sou capaz de explicar porque é que isso acontece.

Manuel Fernandes, Manoel Costa e Jordão

Manuel Fernandes, Manoel Costa e Jordão

D.R.

Vamos a 1986/87 e a um jogo que ficou marcado para sempre, os 7-1, ao Benfica.
Esse jogo, ao contrário do que as pessoas possam pensar, não foi o meu melhor Sporting-Benfica. O meu melhor Sporting-Benfica foi quando fomos campeões em 1979/80 e ganhámos 3-1. O Jordão marcou dois golos, eu marquei outro, mas joguei muito nesse jogo. Estava a chover muito (eu gostava de jogar quando estava a chover) e fiz um jogo extraordinário, penso que foi o melhor Sporting-Benfica que fiz. No 7-1 marquei quatro golos e ainda hoje é inesquecível.

Explique lá o que aconteceu, porque não é um resultado normal para um dérbi.
Ao intervalo estávamos a ganhar 1-0 e até estávamos com um caudal ofensivo muito mais forte do que na 2.ª parte. Só que no início da segunda parte, eu fiz o 2-0 e o Benfica reduz para 2-1. E quando nós fizemos o 3-1 e o 4-1 que foram quase seguidos, o Benfica paralisou, bloqueou, nós movimentávamos e ninguém nos acompanhava.

Aperceberam-se logo dentro de campo?
Eu notei isso no campo, o central do Benfica é aqui da minha terra, de Sarilhos Pequenos e era central do Benfica e eu perguntei-lhe: "O que é que se passa com vocês?!". "Eh pá, não sei, não sei". Bloquearam mesmo e então os golos apareceram e se o jogo dura mais, aquilo não parava.

Entretanto no final desse ano e apesar desses quatro golos...
Fui-me embora.

É dispensado.
Pois é, essa foi a dispensa... O Sporting tinha às vezes essas coisas. Estou convicto de que se o João Rocha estivesse na presidência não me tinha ido embora, ele deixava-me acabar a carreira no Sporting, mas... Um treinador inglês que se chamava Burkinshaw que apareceu nesse último ano, foi substituir o Manuel José, já depois dos 7-1, fez ali uns meses e deu uma entrevista a dizer que eu ia jogar pouco. Eu estranhei aquilo tudo. Entretanto, o Vitória de Setúbal tinha um presidente que foi meu colega, e meu amigo, e deu-me logo a indicação: "Ouve lá, esse gajo está a dizer uma coisa dessas, não queres vir aqui para o Vitória?". "Eh pá, deixa ver, estou aqui de férias no Algarve". Entretanto, passado uma semana, ele dá uma entrevista ainda pior em relação ao Manuel Fernandes e eu telefonei a esse meu amigo: "Olha eu vou para o Vitória de Setúbal". Quando os diretores do Sporting viram que eu ia embora, é que falaram comigo. "Não, ele deu uma entrevista e vocês não impediram de dar a segunda. Portanto eu vou-me embora, já decidi. Não assinei mas dei a minha palavra e vou para o Vitória de Setúbal". E assim foi. Ia fazer 36 anos.

É a sua maior mágoa em relação ao Sporting?
Ao longo da vida vamos tendo algumas mágoas. No Sporting nem tudo foram flores, mas só o prazer de estar no Sporting, para mim, suplantava tudo. Agora penso que essa foi a maior mágoa, não acabar a carreira no Sporting. Mas acabei no Vitória de Setúbal também com dignidade, onde fiz uma grande época e depois passei a treinador.

Já lá vamos. Esteve 12 anos no Sporting. Dessas 12 épocas o que foi mais marcante?
Para mim, a melhor época de sempre foi 81/82, em grupo de trabalho, em tudo, foi tudo espetacular. Ganhámos tudo, Campeonato, Taça, Supertaça.

E o pior momento?
A minha saída. Porque foi inesperada, até porque eu uma época antes tinha ganho a Bola de Prata. E mesmo naquele ano em que saí já tinha marcado 17 golos, e nada justificava eu sair. Mas felizmente fui para o Vitória de Setúbal, que foi um clube que me recebeu muito bem, era um clube muito bom na altura e deu-me a possibilidade de eu continuar ligado ao futebol sendo treinador do Vitória de Setúbal dois anos seguidos.

Manuel Fernandes (à direita a olhar para baixo) com Maradona (à esquerda)

Manuel Fernandes (à direita a olhar para baixo) com Maradona (à esquerda)

NUNO BOTELHO

Vamos falar da seleção. Quando é chamado a primeira vez?
A minha primeira internacionalização foi na seleção de esperanças, ainda jogava na CUF. Fui oito vezes, salvo erro, internacional de esperanças. E ainda fui internacional A pela CUF. O Pedroto convocou-me para jogar contra uma seleção do Estado de Goiás, no Brasil. Fomos inaugurar lá um estádio maravilhoso, joguei a 2ª parte desse jogo; foi a minha estreia na seleção nacional. Depois fui mais trinta vezes internacional, na altura não era como hoje, havia menos jogos. Mas a minha melhor fase na seleção foi no apuramento para o Mundial da Argentina, em 1978, em que apanhámos a Polónia, a Dinamarca e o Chipre. Joguei os jogos todos, em seis jogos fiz quatro golos, foi a melhor fase da minha carreira na seleção.

Era um ambiente muito diferente do dos clubes?
Sim, diferente, mas os jogadores de futebol têm uma coisa boa, adaptam-se todos às circunstâncias e, estando juntos, aquele espírito que há nos clubes depois vai-se passando para a seleção. Nunca tive problemas até porque nós defrontamo-nos uns com os outros, mesmo que houvesse algum problema, era ultrapassado facilmente na seleção.

Nessa altura ainda não havia a guerra norte/sul de que tanto se fala dentro da seleção?
Eu acho que nunca houve uma guerra norte/ sul, mas houve fases muito complicadas em que o FC Porto se sentia prejudicado quando vinham jogar ao sul, e depois nós também fomos prejudicados em determinadas alturas quando íamos jogar ao norte. Mas isso faz parte.

Mas dentro da seleção não havia essa separação?
Nunca notei isso, embora cada um tivesse a sua personalidade, tínhamos bom ambiente dentro do grupo das seleções.

Com quem é que se dava mais quando ia à seleção?
Comecei com os Tonis, com os Octávios, com o Alves, Pietras, aqueles jogadores da minha geração, um bocadinho mais novos, se calhar. No Porto, havia vários jogadores também, lembro-me do Celso, que era brasileiro e foi à seleção no apuramento para esse mundial, do Gomes, que também era um jogador de seleção. Aquilo era mais à base do Benfica, do Sporting e do FC Porto e o Sporting era o que tinha menos jogadores.

Era o que tinha menos influência?
Menos influência? Não sei, acho que os selecionadores não iam em influências, não sei se vão, se não.

E o México 86, o que é que aconteceu?
Em 86 isso aí houve muita influência, mas não sei se foi dos clubes, se foi de alguns jogadores de algumas equipas... Houve muita influência para não ir, até porque o José Torres - que já não está entre nós, infelizmente -, num jantar que eu tive com ele, garantiu-me que eu ia.

Mas não foi ao Mundial.
Sim, acabei por não ser puxado na convocatória final.

Nunca lhe perguntou porquê?
Não. O Sporting, sentindo aquela injustiça, porque eu fui o melhor marcador e era o jogador em melhor forma nesse ano, perguntou-me se eu queria ir ao México que eles pagavam-me tudo e fui sozinho para o México. Estive lá 15 dias, foi uma maravilha porque assisti à inauguração do campeonato do mundo, vi dois jogos de Portugal, o terceiro não vi porque preferi ir para a praia, fui aproveitar a praia. O Sporting resolveu essa injustiça, oferecendo-me essa viagem.

Tendo em conta tudo o que aconteceu em Saltillo, depois ficou de alguma forma "agradecido" por não ter ido.
Se calhar até fiquei, se calhar até fiquei. Em Saltillo estive sempre perto de pessoas do futebol, estava num hotel onde estava muita gente do futebol e de facto aquilo não foi bonito de se ver. Foi uma fase da seleção muito negativa.

Em 1984 também tinha falhado o Europeu.
Sim, mas aí tive uma lesão e não fiz um bom campeonato no Sporting. Ai eu compreendo, havia o Jordão e outros jogadores em melhor forma do que eu. Tive uma época muito oscilante por causa da lesão. Aliás, foi das minhas piores épocas.

Manuel Fernandes (ao centro em baixo) com a equipa do V. Setúbal, quando terminou a carreira de jogador

Manuel Fernandes (ao centro em baixo) com a equipa do V. Setúbal, quando terminou a carreira de jogador

NUNO BOTELHO

Antes de passarmos ao Manuel Fernandes treinador. Recorde o lance com o Bento, em que o Bento foi direto a si e acabou expulso.
Há uma bola metida e eu meto o meu pé, mas longe de mim que fosse para o aleijar. Deixei lá o pé porque ele podia largar a bola e se o fizesse, eu fazia golo. Entretanto, ele tinha levado oito pontos na cabeça, 15 dias antes em Famalicão, ficou com a cabeça aberta e teve uma uma reação. Vi-o a vir com a bola no braço esquerdo “cego” direito a mim. Eu ainda lhe pus as mãos e disse: "Calma Bento, o que é que vais fazer?!". E ele acertou-me, não com a mão, não foi um murro, foi com o braço, com a parte de baixo, na cara. Evidente que eu deixei-me cair logo e ele respondeu: "És sempre a mesma porcaria".

E ele foi expulso.
Foi expulso e o Jordão marcou de penálti e ganhámos 3-1, foi um jogo importante para o campeonato.

Depois ficou tudo bem entre vocês?
Ficou, fomos juntos à televisão e tudo, a um programa do Carlos Cruz, fomos lá explicar a situação. Ficou tudo resolvido.

Já falou na sua filha, mas ainda não falou nos outros filhos.
A Cláudia nasceu em 1977, no dia dos 7 a 1, ofereci-lhe a bola quando fez nove anos. Ainda a tem guardada. O Tiago nasceu em 1981, é o mais novo do primeiro casamento. Do segundo casamento tenho uma filha, a Rita, que nasceu em 2003. Estive 10 anos divorciado, mas depois como ia para Angola e já tinha a minha filha, a Rita, disse à minha [segunda] mulher: "Acho que chegou a altura de casarmos". Antes de embarcar para Angola casámos. Tenho ainda uma filha da minha mulher que foi criada comigo desde os quatro ou cinco anos e que considero como minha filha, a Xana. A minha filha Susana é dos quadros da Jerónimo Martins, a Cláudia é professora do 1º ciclo, a Rita está no 12º ano. A Xana que é minha enteada é hospedeira. O Tiago como devem saber é treinador.

Em Setúbal acaba a época já como jogador/treinador, certo?
Em quatro jogos fui treinador/jogador, mas já não joguei. Esse ano em Setúbal ganhava a bola de prata se jogasse os jogos todos, mas tive duas lesões, uma delas contra o Sporting em que levei uma cabeçada do Virgílio e fui parar ao hospital para ser operado.

O que aconteceu?
Enfiou-me o maxilar para dentro. Tive de ser operado e fazer uma plástica para ficar tudo bem e felizmente nunca mais tive nada. Mas se jogo os jogos todos se calhar ganharia a bola de prata, porque mesmo assim fiz 16 golos no Vitória de Setúbal.

Como é que foi quando pegou na equipa como treinador?
Aquilo que foi assim: quando estava aleijado, o Fernando Oliveira, que era meu amigo, convidou-me para ir ver um jogador a Vigo (Espanha) e eu fui com ele. O Vitória de Setúbal estava a jogar com o Salgueiros em casa, e quando vínhamos de regresso ele perguntou na fronteira, enquanto mostramos os passaportes, quem é que tinha ganho o jogo. O homem disse que o Vitória tinha perdido 2-0. Ele vira-se para mim. "Amanhã vais ser treinador do Vitória de Setúbal". "Eu não pá, tu não faças isso". Ainda por cima o treinador era o homem que eu mais gostava, o Alison. E disse-lhe :"Ó Fernando tem calma pá". "Não queres tu, vou buscar outro". "Eh pá isso também não, se eu quero ser treinador um dia, se tu estás a pôr isso dessa maneira, vamos conversar". Ele tomou logo a decisão de que ia mandar o homem embora e eu fiquei lá mais três, quatro jogos como treinador/jogador, mas já não joguei porque tinha lá jogadores para jogar no meu lugar, fiquei de fora e só no último jogo de despedida é que joguei. Foi o meu último jogo, foi com o Farense.

Já tinha algum curso de treinador?
Em 1983, quando estava no Sporting. Antigamente eram os níveis todos de uma vez e estagiávamos durante 15 dias juntos. Tínhamos aulas durante seis meses e fazíamos o exame final.