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A casa às costas

“Íamos no avião e o Cintra a culpar os três centrais, como se percebesse daquilo. Eu disse ao Robson: ‘Tomorrow, you, I e Mourinho, out’”

E assim foi: no dia seguinte à derrota com o Casino de Salzburgo, “o resultado mais injusto” que Manuel Fernandes viu durante a sua vida, o presidente do Sporting chamou o incrédulo Bobby Robson e despediu-o. Este é apenas um dos episódios que o antigo ponta de lança leonino conta nesta segunda parte da entrevista, inteiramente dedicada à carreira de treinador que terminou, para ele, quando não quis jogar o jogo das comissões

Alexandra Simões de Abreu

Manuel Fernandes segura a sua camisola do Sporting, junto à igreja da sua terra, Sarilhos Pequenos

NUNO BOTELHO

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Sempre soube que queria ser treinador?
A liderança de grupo foi uma das coisas de que sempre gostei. A minha liderança pode ser muito diferente da dos outros, mas é minha e acho que é boa, porque acima de tudo respeitava muito os jogadores. Mas havia um ou outro...Aquele jogador que pensa que é importante demais para mim não dá. Acho que ninguém é mais importante do que ninguém num grupo de trabalho. Há jogadores que sabemos que são melhores, mas não se podem pôr em bicos de pés perante nada; e eu, quando sentia que havia um jogador que gostava de fazer isso, não era um treinador benevolente para com eles.

O que lhes fazia?
Se calhar alguns afastei-os do grupo de trabalho, se eu sentisse que estavam a prejudicar o grupo. Era uma coisa que me custava muito, mas também não queria que prejudicassem o meu grupo de trabalho.

Não lhe custou deixar de ser jogador uma vez que passou logo a treinador ou foi difícil à mesma pendurar as chuteiras?
Não, não custou precisamente por isso. Se eu me afastasse definitivamente do futebol, se calhar custava muito, mas como fiquei ligado ao futebol... Aquele gosto pelo balneário, o dia a dia de estar com as pessoas de quem eu gostava manteve-se, portanto não foi um choque muito grande.

Quando sai do Vitória, em 89/90, sai porquê?
Nessa época fiz uma grande equipa. Gosto de bons avançados e tinha uma linha avançada que era das melhores. Na 1ª volta estávamos em 3.º lugar, depois começámos a baixar um bocadinho, é normal, e fomos eliminados da Taça. Depois de termos eliminado o Benfica e outras equipas, fomos eliminados pelo Belenenses em casa. Eu estava em 5.º lugar na altura em que saí. O 5.º lugar era uma boa classificação e dava lugar na Europa. O Fernando Oliveira falou comigo, nós tínhamos empatado com o Nacional em casa, ou perdemos na Madeira, já não me lembro bem, e ele disse que era melhor eu sair. Respondi: "Tu é que sabes. Se achas que é melhor, eu não tenho problemas. Chegamos a um acordo e pronto". Faltavam quatro jogos para acabar o campeonato. O Vitória acabou o campeonato em 7.º lugar e não foi à Europa. Comigo se calhar também não ia, mas....

Recebeu logo convites de outros clubes?
Recebi o convite do Estrela da Amadora e é aí que convido o José Mourinho para trabalhar comigo. O José Mourinho era o treinador do juniores em Setúbal. Eu falava com ele porque orientava a equipa de reservas do Vitória de Setúbal em conjunto com o Conhé, que era meu adjunto.

Viu de imediato valor nele?
Vi. Eu assistia aos treinos dos juniores e via o valor que tinha. Tanto que ele era professor, dava aulas aqui perto da minha terra e, quando recebi o convite do Estrela da Amadora, a primeira pessoa de quem me lembrei foi dele. Fui ter com ele. "Gostava que tu me acompanhasses, o que é que tu achas?". E ele: "Ó mister é para já". Abandonou logo a escola, pediu uma licença sem vencimento e veio comigo.

Vai no início da época para o Estrela da Amadora, mas não fica até ao final.
Saí ali por março. Tínhamos feito uma carreira na Taça das Taças boa, salvo erro fomos eliminados por uma equipa belga, mas eliminamos primeiro uma equipa suíça, o Neuchâtel Xamax. Quando fomos eliminados, comecei a sentir a equipa a ir um bocadinho abaixo, o que é normal. Em janeiro, fevereiro, já não me lembro bem, as coisas não estavam mal, mas na verdade também não estavam bem. Era uma direção por quem tinha uma amizade muito grande, eles falaram comigo e eu, mais uma vez, disse: "Se vocês acham que é assim, é assim, vou-me embora e não há problema nenhum". Fui embora do Estrela e estive ali uns meses sem treinar.

Até receber o convite do Ovarense.
Sim.

Notou muita diferença da I para a II liga?
Ao nível das condições, notei. Embora haja clubes da II Liga que às vezes têm algumas condições melhores do que os da I. Mesmo assim, fiz aquilo que eu mais gostava que era treinar e pegar numa equipa que estava em último lugar e colocá-la do meio da tabela para cima. Gostava muito de fazer isso. Tanto que o presidente queria ir à I divisão no ano seguinte, mas entretanto aparece o Sousa Cintra a convidar-me para adjunto do Sporting.

Manuel Fernandes (no meio, de verde) foi treinador do Estrela da Amadora em 1990/91

Manuel Fernandes (no meio, de verde) foi treinador do Estrela da Amadora em 1990/91

NUNO BOTELHO

Sabia que ia ser adjunto do Bobby Robson?
Não. Aceitei o convite do Sousa Cintra para ser adjunto do Sporting, depois é que fomos escolher o treinador.

O Sousa Cintra alguma vez lhe disse porque é que não o queria a si como treinador principal?
A primeira coisa que eu lhe disse foi: "Se você quer um treinador para estes jogadores que temos, temos bons jogadores e uma boa equipa, um treinador inglês resolve-nos o problema". Começámos a ver os treinadores ingleses que estavam em atividade e indicámos logo o Bobby Robson.

Nessa altura não se sentia ainda com capacidade para tomar o comando de uma equipa como o Sporting?
Eu preferia que fosse assim primeiro. O Sousa Cintra disse logo: "É o Robson? Então vamos já à Holanda falar com ele". O Sousa Cintra era assim, era para resolver, então fomos para a Holanda, ele, eu e o senhor Juca. Falámos com o Robson e ele ficou encantado com o projeto, foi um homem espetacular.

E o José Mourinho como aparece no Sporting?
Primeiro contratamos o Robson e eu nunca falei no Mourinho ao Sousa Cintra. Só depois é que lhe disse: "Presidente já temos treinador, eu agora quero uma pessoa que fala muito bem inglês, foi meu adjunto e tem uma capacidade de trabalho espetacular, vai ser muito importante aqui no Sporting". "Então mas quem é?". "É o José Mourinho. À minha confiança é ele que vem para trabalhar connosco". Depois, as pessoas disseram que o Zé [Mourinho] era tradutor, mas ele nunca foi tradutor. O Robson trabalhava por grupos. Eu fazia trabalho específico num grupo, o Mourinho fazia noutro. Éramos os dois adjuntos. É evidente que eu é que ia para o banco, eu era o principal, mas o Zé nunca foi tradutor do Sporting. Nunca. Ele falava bem inglês, é verdade, mas os jogadores do Sporting falavam quase todos inglês - e quando alguns não falavam, o Zé podia dar ali uma ajuda é evidente, mas daí a dizerem que ele foi tradutor... As pessoas muitas vezes para denegrir a imagem…

O Robson também gostou logo do José Mourinho?
O Robson também viu a capacidade de trabalho dele.

Manuel Fernandes cumprimentado por Rudi e acompanhado do adjunto Oliveira e de um dirigente do Campomaiorense, nos festejos da subida de divisão

Manuel Fernandes cumprimentado por Rudi e acompanhado do adjunto Oliveira e de um dirigente do Campomaiorense, nos festejos da subida de divisão

NUNO BOTELHO

Entretanto passado um ano, são despedidos.
Nós fomos despedidos um ano e meio depois, em 1.º lugar no campeonato.

No célebre episódio de Sousa Cintra no avião?
Vou dizer com toda a sinceridade: a maior injustiça até hoje que eu vi no futebol foi o Sporting perder aquele jogo com o Casino Salzburgo e ser eliminado da Taça UEFA. O Sporting jogou muito, falhou golos que até... A bola até parecia que estava embruxada. Eu não acredito nisso, em bruxas, mas a bola não entrava de maneira nenhuma. Atirámos quatro bolas ao poste e não entrava. E eu disse: "Está-me a cheirar que isto vai correr mal". E no prolongamento perdemos 3-0, tínhamos ganho em casa 2-0 e acabámos por ser eliminados. Depois, o Sousa Cintra praticamente no avião despediu o treinador. Tanto que eu disse ao Robson, e não falo muito bem inglês: "Mister, tomorrow, you, I e José [Mourinho], out". "What?!". Ele não acreditava, não acreditava [risos].

Mas o que é que o Sousa Cintra disse, que argumentos utilizou?
Ele começou a dizer que o Robson foi culpado de jogar com três centrais, como se ele percebesse. Foi alguém que lhe disse. O Sousa Cintra foi muito pressionado porque eu vi-o no aeroporto a ser pressionado por um monte de gente.

Por quem?
Não interessa enumerar ou nomear as pessoas que estavam com ele, eu vi-as todas, mas isso fica para mim. E esses é que despediram o Bobby Robson no aeroporto. Acho que o Sousa Cintra não queria despedir o Robson.

Mas ele falou com o Robson no aeroporto ou no avião?
Não. Só fez aquele discurso no avião, e no outro dia é que chamou o Robson. Que ficou surpreendido porque não acreditava que fosse possível. Mas, pronto. O Robson depois foi para o FCP e levou o José Mourinho com ele. Eu saí passados oito dias: apareceu-me o Campomaiorense e fui.

Que estava na II de Honra.
Em último lugar e terminámos a meio da tabela e no ano seguinte subimos à I divisão.

Manuel Fernandes segura a sua camisola do Sporting, junto à igreja da sua terra, Sarilhos Pequenos

Manuel Fernandes segura a sua camisola do Sporting, junto à igreja da sua terra, Sarilhos Pequenos

NUNO BOTELHO

Vai também sozinho para Campo Maior?
Sim, fiquei num hotel do Sr. Nabeiro que era um espectáculo.

Na terceira época no Campomaiorense o que aconteceu?
Fiz 11 jornadas. Essa foi a despedida mais dolorosa, porque ganhei uma afetividade muito grande às pessoas de Campo Maior. As coisas não correram bem. Era uma equipa jovem, muitos dos jogadores ainda não tinham jogado na I divisão. Mas no ataque tinha bons jogadores. À defesa eram miúdos que subiram dos juniores e fui buscar aos clubes grandes. Acontece que, no primeiro jogo, jogámos muito bem, mas perdemos com o Vitória de Guimarães; eu senti que a equipa podia render mais ainda, mas quando se perde logo três jogos no início é muito difícil. Os resultados não apareceram e o presidente despediu-me, mas com muita pena e com muita classe. É daquelas despedidas em que eu digo assim: "Isto é gente do mais puro que eu conheci na minha vida no futebol". A família Nabeiro e a direção do Campomaiorense foram das pessoas mais puras que conheci no futebol, foram especiais.

O que aconteceu depois?
Quando subi o Campomaiorense à I divisão apareceu-me o Boavista, que era a grande equipa da altura. Mas eu disse-lhes: "Não vou, porque não vou virar as costas a estas pessoas. Se vocês quiserem, falem com as pessoas, eu não". E não fui. Era incapaz de virar as costas, preferia que fossem eles a mandar-me embora do que eu a ir embora. Bem, depois saí, fiquei ali uns meses sem treinar e, se não me engano, ainda fui ao Tirsense, onde tive diretores espetaculares, estive lá três meses porque apareceu-me o Vitória de Setúbal. E os diretores gostavam tanto de mim que disseram: "Ó Mister vá para a sua terra, é o clube que você gosta". E fui safar o Vitória de Setúbal de descer de divisão.

Mas não fica em Setúbal muito tempo também.
Há coisas que são muito complicadas no futebol. O meu início de carreira foi lá e depois voltei mais duas vezes e safei sempre o Vitória de Setúbal de descer de divisão. E o último ano que treinei o Vitória de Setúbal [2010/11] foi o meu último ano de treinador. Disse: "já não treino mais ninguém, acabou o futebol para mim". Safei o Setúbal de descer com a pior equipa da história do Vitória de Setúbal. Eu quando subi o U. Leiria e fui jogar a Setúbal com o Leiria na I divisão, ganhei lá 4-0 com uma facilidade dos diabos. E depois fui treinar aquela equipa e aquela equipa safou-se de descer, mas no ano seguinte já foi muito complicado e há coisas que... já se passaram tantos anos, nem vale a pena falar.

Com Pelé

Com Pelé

NUNO BOTELHO

Está a adiantar-se muito. Voltemos à época em que sai do Vitória de Setúbal e vai para os Açores.
Sim, saio do V. Setúbal e vou para os Açores, onde fiquei três anos e meio. Eu nunca tinha treinado a II B, subi à de Honra esse ano e, com uma equipa para nos mantermos, subimos à I divisão. No ano seguinte fui buscar o Clayton, o George, jogamos a I divisão. Quando o Clayton estava na equipa, nós estávamos a meio da tabela sempre. O Clayton foi vendido para o FC Porto em dezembro, a equipa resssentiu-se e foi descer de divisão. Mas os dirigentes disseram: "Nós vamos vender o Clayton, mas você, mesmo que desça de divisão, não sai daqui". E não saí, mas disse-lhes: "Vou ficar mas quero arranjar uma equipa para subir na próxima época". Arranjei uma equipa boa para subir e até à primeira jornada da segunda volta estava em 1.º com alguns seis ou sete pontos de avanço. Mas o Sporting foi-me buscar... eu não queria vir porque eu senti que aquilo não era seguro.

Porquê?
Pelo Sporting ia logo de cabeça, mas senti que houve ali qualquer coisa que alguém não aceitou, que havia ali uma confusão e que eu ia só porque ia safar a pele de alguém. Mas os dirigentes do Santa Clara gostavam tanto de mim que disseram: "Ó mister vá para o seu clube, vá para o seu clube". E fui para o meu clube.

Mas ficou lá muito pouco tempo.
Seis meses. Ganhei a Supertaça como treinador do Sporting e depois não quiseram que eu ficasse mais.

E regressa ao Santa Clara.
Sim, onde fiquei mais um ano e meio. Mantivemo-nos na I divisão e no ano seguinte já não completei a época toda. A partir daí foi sucesso no futebol, mas uma desgraça nas outras coisas.

Como assim?
Sucesso no futebol porque eu subi o Penafiel, subi o U. Leiria, safei o Vitória Setúbal de descer e ponho um ponto final na minha carreira, porque não aceitava determinadas regras. Sempre fui uma pessoa que pensou pela minha cabeça e sempre fiz aquilo que quis, as pessoas sempre confiaram em mim. E senti que nós, os treinadores, já não estávamos bem a ser os treinadores que punham e dispunham as coisas. Mas, nas últimas épocas como treinador, levei o Penafiel de meio da tabela à I divisão, depois levo U. Leiria do último lugar à I divisão e tiro o V. Setúbal de descer de divisão. No ano seguinte disse: "acabou o futebol para mim, não quero treinar mais".

Mas o que é que aconteceu? Nota-se aí uma grande mágoa.
Uma grande mágoa porque eu não aceitava... Eu fui uma pessoa que sempre fiz equipas e nunca precisei de ganhar comissões do futebol, nunca precisei de nada disso. Escolhi sempre jogadores para os clubes poderem vender e ganhar dinheiro - e todos venderam jogadores que fui buscar. E chegou uma altura em que os jogadores já eram contratados e eu não mandava nada. Não aceitei isso. Eu sei que o futebol está diferente, mas as pessoas aceitam ou não, e eu não aceitei as regras do jogo. Acabei por abandonar o futebol como treinador. Nos últimos três clubes onde estive as equipas tiveram sucesso, mas depois quando era para fazer equipas para a I divisão, o treinador não contava para nada. Eu acho que o treinador é importante para, pelo menos, haver diálogo, discutir se vais buscar este ou aquele. Até podem ser os dirigentes a dizer: "Está aqui este jogador, o que é que pensa?" Agora, ignorarem que o treinador existe, isso eu não admito.

A festejar um aniversário na companhia da família e de José Mourinho

A festejar um aniversário na companhia da família e de José Mourinho

NUNO BOTELHO

E a passagem pelo ASA de Angola, em 2007 e 2008? Como é que lá foi parar?
Foi uma passagem extraordinária e adorei estar em Angola, pode ter a certeza.

Não teve um choque quando aterrou?
Eu sou uma pessoa que me adapto a tudo. Sou de origens humildes também, nunca tive problemas na minha infância mas sempre vivi com gente perto de mim com algumas dificuldades, por isso, Angola foi quase como voltar atrás na minha infância, quando passava por determinados sítios. Adaptei-me facilmente e a coisa de que eu mais gostei foi da vontade de aprender que o jogador angolano tem. O treinador para eles é sagrado, tinham um respeito muito grande pelo treinador. Eles até me chamam de "professor"; eu não gostava, pedia para me chamarem de mister. Gostavam de aprender para dar melhor vida às famílias.

Recorda-se de algum episódio marcante que lá tenha vivido?
A nossa equipa era da companhia de aviação, a TAAG, e uma vez íamos no avião e houve uns atrasos não sei porquê e se chegássemos atrasados perdíamos os pontos. Quando estávamos para aterrar disse aos jogadores: "equipem-se aqui no avião para entrarmos logo em campo". E assim foi, ainda conseguimos chegar a tempo e ganhámos 2-1 nesse jogo. E tenho outra.

Força.
Uma vez fomos de autocarro jogar a 300/400km de Luanda. Eu disse à direção que queria um autocarro com condições para os jogadores irem tranquilos e a descansar. Quando às seis da manhã cheguei ao clube, o autocarro era daqueles com lugares em pé ao meio, não tinha os bancos todos. Lá fomos. No regresso, o autocarro avariou. Foram de Luanda para lá para arranjar o autocarro e, quando já vínhamos a meio do caminho, o nosso motorista teve um acidente que eu estava a ver que íamos todos por ali abaixo. Só se magoou um que ia mais à frente e bateu com a cabeça no vidro, felizmente mais ninguém se aleijou.

Quando decide colocar um ponto final no percurso de treinador, vai logo para o Sporting?
Sim, fui logo trabalhar para lá a convite do Dr. Luís Duque. Foi no tempo em que o Godinho Lopes foi presidente. Depois, apareceu o presidente Bruno de Carvalho e eu saí.

Porquê?
Porque ele não me quis. É tão simples como isso. Depois quando o Jesus foi para o Sporting exigiu a minha presença, o Bruno Carvalho falou comigo e fui para lá novamente, para a área do scouting. Agora tenho estado só na televisão do Sporting.

Com as filhas e Jorge Jesus

Com as filhas e Jorge Jesus

NUNO BOTELHO

Quando se deram os acontecimentos de Alcochete estava lá. Como viveu aquele momento?
Foi muito triste. Acho que possivelmente as pessoas podiam não ir com a intenção de fazer aquilo, mas o que é um facto é que aquilo descambou de uma forma que foi vergonhosa e violenta.

Porque acha que descambou?
Eu não acredito que eles fossem com a intenção de fazer aquilo que fizeram. Acredito que pensassem que aquilo não ia ter as proporções que acabou por ter. Mas a verdade é que aquilo que aconteceu com o Bas Dost não foi feito com um murro de certeza. Tenho quase 70 anos, sou sportinguista desde que me conheço e aquilo para mim foi a fase mais negra da história do Sporting.

A si não lhe fizeram nada.
Não, a mim disseram-me logo: "Isto não é nada contigo". Mas pronto, não quero falar mais disso, está resolvido, a Justiça já atuou e o Sporting agora precisa é de sossego e de estar focado naquilo que é importante, e a equipa de futebol é o mais importante do Sporting. Este ano as contratações foram excelentes, a equipa está a jogar um futebol de grande qualidade, agora na dúvida... Sabe que há muitos campeonatos que se ganham nos casos de dúvida. Os casos de dúvida acontecem em muitos jogos. Em cada jogo existem vários. E há casos de dúvida em que o Sporting não é visto da mesma forma que outros clubes. Na decisão, toma-se decisões que... No jogo com o Famalicão, toda a gente sabe que o Sporting foi prejudicadíssimo. Isto independentemente do valor do Famalicão, o Sporting jogou muito bem e acabou por perder dois pontos, com decisões erradas da equipa de arbitragem. Isto é que é um facto.

Porque é que acha que isso acontece?
Não sei, não sei. Vamos ver se eles começam a ter mais respeito pelo Sporting. Eu não sei se isto é poder ou não é poder, não sei o que chamar. Sei é que o futebol, para mim, é para ser jogado nas quatro linhas. Eu vejo jogadores a terem entradas violentas sobre outros e não são penalizados, e vejo os do Sporting terem uma entradazita sobre um jogador e é logo penalizado. Isto é ridículo. Acho que têm que ter mais respeito pelo Sporting. O Sporting tem ganho pouco nestes últimos anos, é um facto, mas eu já apanhei o Sporting nessa fase, e sei como é que as coisas são. O Sporting tinha uma equipa que era fabulosa no tempo do Robson, do meio para frente eram jogadores fabulosos que jogaram todos em grandes clubes europeus.

Manuel Fernandes junto às muitas recordações que guarda dos seus tempos de jogador e treinador

Manuel Fernandes junto às muitas recordações que guarda dos seus tempos de jogador e treinador

NUNO BOTELHO

Qual foi o melhor ponta de lança do Sporting até hoje?
Jordão.

Onde ganhou mais dinheiro?
Como jogador, o meu melhor salário foi no Vitória de Setúbal.

Fez investimentos?
Fiz alguns investimentos em terrenos, comprei, vendi. Mas nunca me meti em negócios porque não tenho muita vocação para negócios.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Às vezes as minhas extravagâncias são almoçar com os amigos, com aquelas pessoas que eu gosto, de resto não fiz nada de especial. Tive possibilidades de comprar Porsches e assim, mas para mim o carro é um meio de transporte. Tenho um bom carro e tenho outro Mercedes que não prescindo dele, tem 22 anos. É o carro com que mais gosto de andar aqui às voltinhas.

E o seu maior rival?
De clubes, o Benfica. Jogadores... Gostei muito de defrontar o Humberto Coelho. Humberto Coelho era um senhor a jogar, elegante e adorei jogar contra ele.

Quem era o defesa que mais o chateava?
O Álvaro Magalhães. Estava sempre a dizer "Sai daqui Manel, sai daqui" [risos].

E qual o guarda-redes que lhe impunha mais respeito?
Joguei várias vezes contra o Damas que era um excelente guarda-redes. Penso que o Damas e o Bento eram os guarda-redes mais difíceis de ultrapassar.

Qual a maior amizade, o maior amigo que fez no futebol?
Jordão.

O treinador com quem mais gostou de treinar?
Malcolm Allison.

A equipa que mais gozo lhe deu treinar?
Campomaiorense e Santa Clara. As das subidas de um e de outros.

Tem algum hóbi?
Não. Gosto de ver um muito bom jogo de futebol. Estou numa idade em que já não consigo ver determinados jogos de futebol. Mas os grandes jogos de futebol gosto de ver.

Manuel Fernandes como comentador de futebol

Manuel Fernandes como comentador de futebol

Se não fosse jogador de futebol o que tinha sido?
Se calhar trabalhava no mar também, como muitos deles da minha idade trabalharam. Mas a minha vocação estava direcionada para o futebol, por isso se não fosse futebolista não sabia o que fazia.

Em que momento percebeu que ia mesmo alcançar o seu sonho?
Ainda foi na CUF. Foi lá que vi que mais tarde ou mais cedo ia para um clube grande. É evidente que o 25 de Abril ajudou, mas em 1972 o Sporting quis-me levar e o Jorge de Melo, o patrão da CUF, não permitiu que eu saísse.

Qual a equipa de sonho onde gostava de ter jogado, além do Sporting?
Antigamente não tínhamos a ambição de jogar no estrangeiro, era muito difícil sair. Mas se pudesse escolher gostava de ter jogado com dois jogadores: o Maradona e o Cruijff.

Acredita em Deus?
Acredito em alguma coisa que possa estar acima de nós, respeito todas as religiões, mas não tenho nenhuma.

E superstições, tem ou teve?
Quando entrava em campo benzia-me mas era por imitação que via os outros fazer quando era miúdo, não era por convicção.

É verdade que enquanto treinador costumava passar as cassetes de vídeo com os seus jogos para os seus jogadores verem?
No Sporting não sei se o fiz, não me lembro sinceramente, agora em alguns clubes pequenos que treinei fiz isso muitas vezes nas viagens para eles verem quem foi o treinador que tinham.

Quando o seu filho Tiago começou a jogar futebol, reviu-se nele?
Ele jogava no meio-campo, não era avançado. Mas uma das coisas que disse ao Tiago, e eu tenho de ser sincero com os meus filhos, é que o futebol só vale a pena para quem consegue chegar aos grandes clubes. Isto na altura dele, agora não, agora mesmo sem jogar ganham muito dinheiro. Isto já passou de todos os limites. Antigamente só quem jogava é que tinha boas vidas, e quem jogava em determinados clubes. Por isso disse-lhe, a partir de determinada altura: "Tiago, tens 25 anos e já viste que não passas destes clubes da II divisão. Não quiseste acabar o curso, vais acabar o curso, vais tirar o curso de treinador porque já vi que gostas de ser treinador e interessas-te. Faz isso e joga futebol nos clubes da nossa zona enquanto gostares, mas vai estudar". E foi o que ele fez. Tirou o curso superior de Desporto, tirou vários cursos e está interessado no futebol. E acho que vai longe, tem muita qualidade, vamos ver, vamos aguardar.