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A casa às costas

“No Leixões tive seis meses de salário em atraso, queria comer e não tinha dinheiro, tive de pedir à minha mãe que mandasse dinheiro”

No Rio Ave, Ukra batizou-o de "o anão mais gigante do mundo" e apesar de Pedro Santos não ter brilhado muito em Portugal, onde jogou em clubes como Sporting, V. Setúbal, Rio Ave e SC Braga, conseguiu destacar-se do outro lado do Atlântico e tornar-se uma peça fundamental na equipa de Columbus Crew. No final de 2020, o extremo esquerdo sagrou-se campeão da liga norte-americana de futebol (MLS), mas o azar bateu-lhe à porta e teve de assistir ao último jogo em casa, sem poder festejar com os colegas a conquista do título, por estar infetado com covid-19

Alexandra Simões de Abreu

Carlos Rodrigues

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Nasceu em Lisboa. Fale-nos um pouco das suas origens.
A minha mãe era cozinheira e o meu pai mecânico de motas. Tenho um irmão mais velho 10 anos e uma irmã mais velha sete anos.

Cresceu onde?
Em Benfica, no Calhariz de Benfica até aos 12 anos, depois remodelaram o bairro, fizeram construções novas e mudámos para o Lumiar, onde a minha mãe ainda vive.

Era um miúdo reguila ou pertencia aos mais calminhos?
Sempre fui mais para o reguila, apesar de não dar grandes problemas aos meus pais. Fiz algumas asneiras. Uma vez, a brincar com garrafas, parti-as e sofri um corte junto à boca que tive de levar pontos. Foi uma brincadeira estúpida de criança que podia ter corrido pior, porque foi ligeiramente abaixo do olho.

O que dizia que queria ser quando crescesse?
Sempre disse que queria ser jogador de futebol. O meu irmão sempre jogou à bola, o meu pai também jogou futebol, sempre como amadores. Lá no bairro os amigos mais velhos do meu irmão jogavam todos à bola e eu andava sempre lá no meio. Vinha todo esfolado para casa porque na altura jogávamos no alcatrão e como era o mais pequenininho.

Pedro Santos ao colo da mãe

Pedro Santos ao colo da mãe

D.R.

Torcia por que clube?
Sempre fui do Sporting, a família toda é sportinguista.

Gostava da escola?
Até aos 10 anos sim, mas quando fui para o 5.º ano, já foi um bocado mais difícil, também houve alguns anos em que não me portei muito bem...

Como assim?
Faltava às aulas.

Para fazer o quê?
Para estar com os meus colegas e ir jogar à bola. Mas entretanto o meu pai ameaçou-me tirar-me do futebol se eu não me portasse bem na escola e aí foquei-me. Resolvi terminar o 9.º ano.

Como vai parar ao Sporting?
Eu jogava na rua e na escola. Havia os Jogos de Lisboa e havia um senhor que ia às escolas ver os miúdos a jogar e na altura gostou de mim, levou-me para essa equipa de Lisboa. O meu pai viu alguns jogos, achou que eu tinha qualidades e fui fazer treinos de captação ao Sporting, com oito anos. Acabei por ficar. Só que na altura não era federado e só fazia alguns torneios. Ao fim de um ano saí e fui para o ADCEO que é um clube dos Olivais

Porquê?
Porque eles disseram que não queriam que eu ficasse porque era muito novo e já íamos passar para o escalão de escolas. O meu pai tinha um amigo que era presidente desse clube na Encarnação, e como ele não tinha grandes conhecimentos em outros clubes, levou-me para lá.

Com a irmã, mais velha sete anos

Com a irmã, mais velha sete anos

D.R.

Esteve três anos no ADCEO.
Sim.

Mas regressa ao Sporting. Como e através de quem?
Durante esses três anos do ADCEO, fui-me destacando muito e o Sporting tentou levar-me de volta várias vezes, mas por uma razão ou outra nunca aconteceu, até que a dada altura o mister César Nascimento ligou para minha casa. Falou com o meu pai e disse que estava muito interessado em mim, queria que eu fosse outra vez ao Sporting fazer treinos de captação. Fui e acabei por ficar. Eles depois chegaram a acordo como ADCEO e fui para o Sporting.

Tinha 12 anos. Como é que ia para os treinos? Sozinho?
Quando treinávamos no Sporting da Torre, o clube ao pé do Campo Grande, e saía mais cedo da escola ia sozinho de autocarro; quando saía mais tarde o meu pai ia-me buscar. Mas no segundo ano, já foi na academia de Alcochete, saía da escola ia até ao estádio do Sporting de autocarro e lá apanhava o autocarro do clube que estava à espera dos jogadores para os levar para a academia. Depois vinha outra vez para o estádio do Sporting e apanhava o autocarro às 11 da noite para casa.

Entretanto fica dois anos no Sporting e a seguir vai para o Casa Pia. O que aconteceu?
No segundo ano eu não jogava muito e por isso já previa que eles não quisessem que eu continuasse. Lembro-me que saíram muitos colegas, alguns foram para o Alverca, eu também tinha essa possibilidade, mas o Casa Pia tinha um protocolo com o Sporting e alguns de nós saímos por empréstimo para o Casa Pia, porque se estivéssemos a jogar bem e eles nos quisessem de volta, podíamos voltar. Acabei por ficar no Casa Pia e nunca mais sai, só sai de lá já formado.

Fez o 9.º ano e deixou a escola?
Sim, tinha 16 ou 17 anos. Ainda era júnior de primeiro ano. Só no segundo ano de júnior é que me estreei como sénior.

Pedro na escola primária

Pedro na escola primária

D.R.

Já ganhava dinheiro com o futebol?
A primeira vez que recebi ainda era júnior mas passei logo para os seniores do Casa Pia, aí é que já me pagavam.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
50 euros.

O que fez a esse dinheiro?
Não me lembro ao certo, mas devo ter guardado para alguma coisa, para gastar mais tarde. Sempre fui muito poupadinho e guardava para depois comprar coisas que eu quisesse, uns ténis de marca ou outras coisas.

Recorda-se do jogo de estreia como sénior?
Sim, fomos jogar ao Cartaxo. Era júnior e fui treinar duas vezes aos seniores, nem estava a perceber muito bem o que é que se estava a passar, pensava que era só para fazer número. Depois o mister veio falar comigo e disse-me que eu ia com eles para a concentração, porque ia jogar.

Aí o coração acelerou ou não?
Acelerou sim, mas é sempre bom; depois, quando se entra dentro de campo as coisas passam. Estreei-me logo a titular, para mim foi muito bom.

Faz três épocas como sénior no Casa Pia. É nessa altura que começam as saídas à noite, os namoros mais a sério?
A partir dos 16 anos já saía, mas sempre fui muito focado no futebol e tive o meu pai que me ajudou muito nisso, lembrava-me da responsabilidade e eu como sempre tive o sonho de ser jogador de futebol, só saía depois dos jogos.

Nunca teve nenhuma chatice por causa das saídas?
Não, sempre fui muito responsável e sempre que tínhamos jogo, eu via os meus amigos todos a sair e dizia-lhes que não ia porque tinha jogo no dia seguinte. Depois dos jogos sim, ia com os meus amigos divertir-me. Namoros, eram os de escola, nada de sério.

Pedro foi às captações do Sporting com oito anos

Pedro foi às captações do Sporting com oito anos

D.R.

Como é que se dá a passagem para o Leixões? Tinha empresário?
Na altura já era representado pelo Carlos Gonçalves da Proeleven, mas a minha passagem para o Leixões acontece porque, num jogo para a Taça de Portugal, o Casa Pia jogou com o Leixões em Matosinhos, perdemos, mas eu e o Zeca fomos os destaques do jogo e toda a imprensa falou muito bem de mim; disseram que fui o melhor jogador em campo e o Leixões e o mister José Mota ficaram interessados. No ano seguinte, avançaram e também tive a ajuda do Carlos Gonçalves. Se não fosse ele não tinha conseguido.

É a primeira vez que sai de casa.
Sim, é a primeira vez que saio e vou viver sozinho. Custou-me um bocado porque tinha 22 anos e deixei os meus melhores amigos, a minha família, deixar tudo para trás e ir viver para Matosinhos foi difícil. Mas felizmente correu bem, os meus pais sempre que podiam iam lá acima visitar-me.

Notou muita diferença nessa passagem da III para a II liga?
Claro que notei, aquilo para mim era um mundo completamente diferente.

Quem era o treinador?
Era o mister Inácio.

O que achou dele?
Aí sim, fiquei nervoso porque tinha visto o Inácio ser campeão do Sporting, era uma pessoa que tinha visto na televisão e depois estar ali, num clube, com ele. Tinha muito respeito e ficava sempre com um bocado de medo da presença dele. Medo mas no bom sentido, mas foi bom ter passado por essa experiência. Era diferente, era muito mais profissional, já era um treinador de I liga e os métodos são diferentes, a exigência também é muito maior.

Inácio não fica até ao fim, vem o Litos. Muito diferentes? Deu-se bem com ele?
Nessa época dei-me bem, mas no início da segunda as coisas não estavam muito bem.

Porquê?
Ele dizia que eu tinha uma atitude que não achava que era a correta e estive para sair.

Por ser refilão?
Sempre fui refilão, mas acho que não era por causa disso. Lembro-me que ele dizia que eu andava sempre chateado, mas sinceramente não acho, porque sempre trabalhei e sempre dei o máximo. Mas ele disse que não contava comigo para essa época e eu disse: “OK, tudo bem, sem problema”. Lembro-me que na altura já tinha tido algumas propostas e quando estava praticamente tudo definido para sair, ele vem ter uma conversa comigo e diz que achou que eu tinha mudado durante essas semanas nos treinos, que estava mais empenhado, que afinal já contava comigo. Acabei por fazer a época toda e joguei praticamente quase todos os jogos com ele até ao fim.

Depois de um ano no Sporting, Pedro foi para a formação da ADCEO (Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais)

Depois de um ano no Sporting, Pedro foi para a formação da ADCEO (Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais)

D.R.

Na época seguinte ainda começa no Leixões, mas depois segue para Setúbal. Porquê?
Uma das propostas que tinha tido um ano antes era do Vitória de Setúbal. Começo a época mas o Leixões estava a passar por uma fase má, tínhamos seis meses de salários em atraso, eu disse ao meu empresário que para estar assim, longe da minha família, não valia a pena e queria uma solução.

Como é que fez nesses seis meses em que não recebeu? Foi às poupanças?
Sempre tive a ajuda dos meus pais, e também tive a ajuda dos meus empresários. Passei por algumas dificuldades nessa altura. Todos os clubes já tinham começado a treinar e nós no Leixões ainda não sabíamos o que é que ia acontecer, se a equipa ia ser inscrita ou não. Uma semana antes de começar a Taça da Liga as coisas resolveram-se, conseguiram inscrever o clube, fizemos uma pré-época de uma semana e ao fim dessa semana estávamos a jogar o primeiro jogo oficial na Taça da Liga, na fase de grupos. Eu ainda fiz três jogos, mas chegou um momento em que disse ao meu empresário e aos diretores que não tinha mais condições para estar ali, sem receber era impossível. E cheguei a acordo com o Vitória de Setúbal.

Disse que passou por dificuldades...
Claro que cheguei, vivia sozinho e tinha que me sustentar.

Que género de dificuldades?
Cheguei a uma altura em que não tinha dinheiro, queria comer e não tinha dinheiro e tive de pedir à minha mãe que mandasse dinheiro.

Vai viver para Setúbal sozinho?
Não, primeiro fiquei a viver em Lisboa, em casa dos meus pais. Ia todos os dias de Lisboa para Setúbal, na altura ia com um dos adjuntos do mister José Mota e com um rapaz que fazia a parte do vídeo, íamos os três de Lisboa para Setúbal.

Com a bola num jogo pela ADCEO

Com a bola num jogo pela ADCEO

D.R.

Qual a maior diferença que encontrou da II para a I Liga?
A maior diferença é quando defrontamos um grande, aí sim, o ambiente que rodeia o jogo é completamente diferente, o ambiente no estádio.

Como foi essa época em Setúbal?
Quando chego ao Vitória faltava uma semana para começar o campeonato e lembro-me que o meu jogo de estreia foi no campo do Nacional da Madeira. Estávamos a perder 2-0 e eu entrei, sofri penálti, o Meyong marcou. E ainda fizemos o 2-2. Depois comecei a jogar regularmente e acabei por fazer uma época bastante boa.

Mas não continua no Vitória de Setúbal. Porquê? Só tinha assinado por um ano?
Sim. Há muita gente que não sabe disso, mas o acordo seria de três anos, mas quando lá cheguei tinha um acordo só de um ano e mais dois. Ou seja, era um contrato de um ano, e disseram-me que se as coisas corressem bem, depois renovava por mais dois. Na altura não tinha grande opção e ficou assim. O clube foi deixando andar e não avançou com os dois anos de contrato. Quando comecei a ser destaque já estávamos perto do mês de dezembro e foi quando os dirigentes se lembraram que queriam avançar. Mas como já estávamos perto de janeiro e já se falava que havia interessados em mim, eu e o meu empresário achámos que era melhor adiar para depois de janeiro porque se aparecesse uma proposta melhor não fazia sentido estar a assinar naquela altura. E assim foi, esperamos por janeiro e em janeiro acabou por aparecer o Sporting de Braga.

Não hesitou.
Claro que não. O Braga já era um grande do futebol português e o meu sonho sempre foi representar os grandes clubes. O Sporting de Braga estava a jogar a Liga dos Campeões, claro que para mim era um sonho poder jogar num clube como o Braga.

Assinou por quanto tempo?
Quatro anos.

Pedro (em baixo à direita) voltou ao Sporting aos 12 anos

Pedro (em baixo à direita) voltou ao Sporting aos 12 anos

D.R.

Mas não fica em Braga.
No primeiro ano, não.

O que é que aconteceu?
Não sei. Fiz a pré-temporada toda. Depois quando fomos eliminados da Liga Europa, lembro-me que o mercado fechou em Portugal e o mister Jesualdo Ferreira veio falar comigo, achava que eu ia jogar pouco e que era melhor sair. Mas em Portugal eu já não tinha hipótese de jogar e apareceu uma proposta da Roménia.

Ficou frustrado?
Fiquei, porque nunca ninguém me tinha posto essa possibilidade de ser emprestado.

Não foi Jesualdo Ferreira quem o quis em Braga?
Não, quando assinei pelo SC Braga o treinador ainda era o mister José Peseiro.

O que achou do professor Jesualdo?
Muito exigente. Lembro-me que o pouco que trabalhei com ele, aprendi muito porque andava sempre a insistir comigo nas ideias dele e aprendi bastante.

O quê? Pode dar exemplos?
Em termos de posicionamento, a forma de receber a bola e de ficar com o corpo virado para a frente, são movimentos importantes. Foi graças a ele que melhorei nesse aspeto.

A Roménia surge através do empresário?
Não, é o Braga que consegue arranjar um clube na Roménia, o Astra, mas eu lembro-me que não estava muito contente, não era minha ideia sair. Recordo-me de ter falado com o meu empresário e dizer-lhe que não queria ir, queria ficar no Braga a lutar pelo meu lugar e se em dezembro não estivesse a jogar, então era melhor procurar alguma coisa em janeiro. O meu empresário falou comigo, disse que se calhar o melhor era eu sair e ir para o Astra jogar. Se depois as coisas não estivessem a correr bem, em janeiro tinha sempre a hipótese de voltar. Mudei de ideias e acabei por ir para o Astra.

Depois de dois anos no Sporting, Pedro (com a bola) ingressou no Casa Pia

Depois de dois anos no Sporting, Pedro (com a bola) ingressou no Casa Pia

D.R.

Como foi o impacto quando chegou à Roménia?
Foi um choque grande porque é uma cultura completamente diferente, um país diferente, também era a minha primeira experiência fora de Portugal, mas fui com o Yazalde e acabou por ser mais fácil.

Ficaram a viver juntos?
Ficámos no mesmo hotel. O clube dava casa para cada um. A minha namorada foi viver comigo.

Está a falar da namorada que se tornou sua mulher e mãe dos filhos?
Sim. Conheci a Ana quando estava no Vitória de Setúbal. Ela é de Setúbal. Ela é da área de hotelaria, trabalhava num hotel.

Ela acompanha-o para a Roménia?
Sim. Quando fui para Braga, ela teve de deixar o emprego em Setúbal para ir viver comigo e fazia todo o sentido ir comigo para a Roménia.

O que mais estranhou na Roménia?
Aquilo para mim foi completamente diferente daquilo que estava à espera. Lembro-me que uma vez, perdemos um jogo para a Taça e o diretor da equipa queria retirar 25% do salário de todos os jogadores. Tivemos uma reunião no balneário e os jogadores romenos estavam a pedir aos jogadores estrangeiros para irem falar com ele, porque tinham medo do dono. Aquele clube já tinha passado por coisas... Os jogadores contaram-me que tinha lá estado um jogador português que era muito bom, toda a gente falava dele, e que num dia ele marcou dois golos num jogo e o presidente veio dizer que ele era o melhor jogador da equipa; no jogo a seguir, ele teve a infelicidade de marcar um autogolo e o presidente veio dizer que ele era o pior jogador da equipa e que já não o queria na equipa e mandaram-no embora [risos].

Como foi a comunicação? Sabia inglês?
Não sabia muito inglês, só algumas coisitas, nada demais, mas depois de lá estar fui-me desenrascando. Também tínhamos dois jogadores brasileiros que já falavam romeno e que nos faziam a tradução. Aprendi algumas coisas em romeno e já me conseguia desenrascar na cidade.

A receber o troféu de melhor jogador do torneio de Loures em iniciados

A receber o troféu de melhor jogador do torneio de Loures em iniciados

D.R.

Ficou quanto tempo na Roménia?
Estive de setembro só até dezembro, em dezembro vim embora e já não voltei mais.

Porquê?
Porque não jogava, sem saber porquê deixei de jogar, não contava para a equipa e ficava quase sempre de fora, ou ia para o banco e não entrava. Nessa altura também soube que o meu pai ficou doente e, estando ali, longe do meu pai e sem jogar, sem nada, disse ao meu empresário que não queria voltar para lá, não fazia sentido. Vim para Portugal logo com as coisas todas, porque já contava não regressar.

O que tinha o seu pai?
O meu pai teve um cancro no pâncreas, foi quando descobrimos. Faleceu no ano passado.

Vem-se embora em dezembro e o que acontece em termos profissionais?
Em janeiro assinei pelo Rio Ave.

Ainda emprestado pelo SC Braga?
Sim. Fomos à final da Taça da Liga e ainda disputámos a final da Taça de Portugal.

Com o Nuno Espírito Santo como treinador. Gostou dele?
Gostei. Ele falava muito comigo e dava-me muito na cabeça mas dizia sempre que gostava muito de mim.

Porque é que lhe dava na cabeça?
[risos] Porque sempre fui muito refilão e, às vezes nos treinos, ele não marcava uma falta, ou alguma coisa assim, eu refilava. Era normal [risos]. Mas ele achava graça e acabava por gostar da minha maneira de ser. Fizemos uma época fantástica, acabei por estar a um nível muito bom e gostei muito da maneira como ele trabalha e lida com os jogadores.

Apanhou um balneário com jogadores carismáticos, entre eles o Ukra. De certeza que tem alguma história dele para contar.
O maluco do Ukra tem sempre alguma coisa para fazer. Lembro-me de uma em que ele e outros fizeram um filme porque havia um jogador que dizia que namorava assim e fazia muitas coisas com as namoradas e não sei o quê, então ele e o Tiago Pinto fizeram um filme a fingir que eram esse jogador e a namorada. O Ukra todo nu, enrolado numa toalha… [risos] Depois fomos todos para o balneário e passaram o filme com toda a gente a assistir e rir com as maluquices deles.

A si nunca lhe pregou nenhuma?
Dizia que eu era o anão mais gigante do mundo [risos].

Pedro (no centro, de frente) foi para o Leixões em 2010

Pedro (no centro, de frente) foi para o Leixões em 2010

D.R.

Entretanto na época seguinte regressou finalmente ao SC Braga.
Sim, com o Sérgio Conceição.

Como é que ele é enquanto treinador?
Muito exigente. Acho que parte do sucesso dele é da exigência no trabalho, ele exige sempre muito dos jogadores e quando vê que as coisas não estão a ir pelo caminho certo, tenta falar com os jogadores e puxá-los para o mesmo caminho, para que toda a gente siga a mesma direção e consigam atingir o sucesso.

Nessa equipa tinha o Eder, tinha o Rafa. Passava-lhe pela cabeça que o Eder pudesse tornar-se no herói do Euro 2016?
Para ser sincero nunca pensei que Portugal ganhasse o Euro, apesar de ter uma grande equipa. Mas achava que ele tinha qualidade para ser jogador da seleção, isso sim, eu achava. E o mesmo do Rafa. Ele desde cedo mostrou que tinha qualidade para ser um jogador de topo.

Pessoalmente correu-lhe bem a época?
Sim, fiz cinco golos nessa época, joguei vários jogos, apesar de não ser sempre titular mas fui jogando, só foi pena não termos ganho a Taça de Portugal.

A temporada seguinte já é com o Paulo Fonseca. Foi uma mudança muito grande em relação ao Sérgio?
Foi, têm personalidades diferentes. São ambos exigentes, o Paulo também é exigente, mas acaba por ser mais tranquilo, mais calmo. É um treinador que desde o início tinha a sua ideia de jogo e sempre trabalhou para que a ideia dele funcionasse.

Era uma ideia de jogo muito diferente da do Sérgio?
Sim. O Paulo tinha uma ideia de jogo com os extremos mais por dentro, enquanto a ideia do Sérgio era mais da mobilidade do meio campo, mais agressividade e mais intensidade no estilo de jogo.

Foi uma época onde se destaca a conquista da Taça de Portugal.
Sim, foi a minha melhor época em termos individuais e a melhor época também em termos coletivos porque no fim acabámos por vencer a Taça ao Porto.

Em 2012 Pedro Santos (com a bola) jogou no V. Setúbal

Em 2012 Pedro Santos (com a bola) jogou no V. Setúbal

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O ano seguinte começa com Peseiro a treinador. Que tal?
Para mim foi ótimo, porque ele mostrava muito carinho por mim. Hoje ainda falo com ele e mandou-me uma mensagem depois de ter sido campeão nos EUA. Sempre tive um carinho muito grande por ele, mas em comparação com outros, era um treinador mais brincalhão, mais aberto e mais dado aos jogadores. Infelizmente, perto de dezembro, foi embora e veio o Jorge Simão. Quando ele chegou eu estava lesionado e não estava a jogar, mas ele tinha umas ideias de intensidade muito parecidas com as do Sérgio, e na altura o balneário já estava um bocado perdido, porque as coisas não estavam a correr bem e para ele foi difícil. Acabou por se ir embora. E vem o Abel Ferreira. A equipa já estava muito desanimada e era difícil para qualquer treinador chegar ali e conseguir pôr as suas ideias a funcionar. No início da época seguinte, falámos e ele veio dizer que esperava mais de mim. Mas, quando ele chegou, como eu disse, aquilo estava tudo com a cabeça no ar e era complicado. Acabei por nem trabalhar muito com ele, faço dois jogos da Liga Europa e vou para os Estados Unidos.

Porque decidiu ir para os EUA?
Eu tinha falado com o mister Abel e até o presidente já sabia que eu achava que estava na altura de sair, de dar um passo em frente, ir jogar noutras ligas. Eu tinha tido propostas da liga francesa e da liga inglesa na época anterior e o Braga achou que não era o momento certo.

De que clubes recebeu propostas?
Do Sheffield, da Championship, e do Caen, de França, mas na altura o presidente achou que não era o momento certo para eu sair e eu disse-lhe que no ano a seguir, se houvesse propostas, queria sair. Não tinha aparecido nada em concreto e depois do nada recebi a proposta dos EUA, que me apanhou um bocado de surpresa porque não estava à espera.

Pedro com o pai

Pedro com o pai

D.R.

O que é que conhecia da MLS, a liga dos Estados Unidos?
Praticamente nada. Conhecia os LA Galaxy devido aos grandes que lá jogaram, mas tinha pouco conhecimento da liga.

Então o que é que o fez ir? O dinheiro?
Sim, a questão monetária foi o peso maior mas também porque falei com a minha família.

Já tinha filhos?
Tinha o Martim, que nasceu a 5 de agosto de 2014.

Eles foram consigo?
Sim. Toda a gente me apoiou e disse para arriscar. Não sabia para o que vinha, era um mundo completamente diferente mas olhando para trás, foi a decisão mais acertada da minha carreira.

Porquê?
Porque as coisas têm-me corrido bem aqui, a minha família está contente, os meus filhos estão bem aqui, estão adaptados, gostam de estar aqui e em termos desportivos as coisas têm corrido bem e agora finalmente consegui ganhar um título, o título de campeão e sinto-me bem, quero continuar por aqui.

Como foi o primeiro impacto quando chegou aos EUA e neste caso à zona de Ohio?
Foi grande. Foi chegar e ver um país que a gente só conhece pela televisão.

Depois de ser contratado pelo SC Braga Pedro foi emprestado ao Rio Ave em 2013/14

Depois de ser contratado pelo SC Braga Pedro foi emprestado ao Rio Ave em 2013/14

D.R.

E é muito diferente daquilo que estava habituado?
Sim. Em Portugal o futebol é visto como uma "religião" e aqui é visto como uma oportunidade de marketing, de espetáculo e é realmente um espetáculo. As coisas aqui são feitas... Não é que sejam menos profissionais do que em Portugal, mas as coisas aqui estão mais abertas. Por exemplo, quando vamos de estágio para fora, para jogar contra outra equipa, viajamos no dia antes para o hotel e, mesmo que cheguemos às seis da tarde, os jogadores podem ir passear, podem ir conhecer a cidade, não têm hora para regressar ao hotel, enquanto que em Portugal é impossível isso acontecer, ficamos fechados no hotel em concentração. É para descansar, é para comer, para recuperar energias para estar fresco no dia a seguir e aqui a mentalidade é completamente diferente.

Dá-se mais liberdade aos jogadores, é isso?
Sim. Temos essa liberdade e os jogadores têm responsabilidade porque sabem também que não podem abusar porque no dia a seguir têm jogo. Isso foi um impacto grande porque eram coisas que eu não pensava que fossem possíveis.

E os adeptos?
Completamente diferentes. Até mesmo quando perdemos as pessoas dizem: “Ah, não faz mal, ganhamos o próximo, vocês deram tudo o que tinham, não faz mal”. Em Portugal era impossível de acontecer. Quando a gente perde, somos os piores, não merecemos jogar no clube. Ou seja, as mentalidades são um bocado diferentes a exigência das pessoas também é muito menor aqui. Quando vamos na rua as pessoas praticamente não nos conhecem ou se conhecem não é como em Portugal que vêm pedir fotos ou autógrafos. Aqui normalmente quando conhecem só dizem "Go Crew”.

Não há problemas de arbitragens?
Haver, há, em todos os jogos praticamente há problemas. Ainda agora nos playoffs houve um problema no jogo dos Orlando porque o guarda-redes foi expulso e, nos penáltis, o árbitro deixou o clube fazer outra substituição, que não podia, e depois é que lhe disseram que não podia e acabou por ir um jogador para a baliza. Já houve aqui problemas também com um jogador que não estava na folha de inscrição para o jogo e jogou. Ou seja, há sempre muitas confusões, muitas falhas na arbitragem, os árbitros aqui também erram muito. Lembro-me que me tiraram um golo no ano passado, com uma falta que nem foi falta. O chefe da arbitragem da MLS e a própria MLS vieram dizer que o golo devia ter sido validado e que não havia motivos para ter sido anulado. Mas são coisas que depois os clubes acabam por nem reclamar. Há casos de expulsões em que o árbitro vai ao VAR, vê que é para expulsar e expulsa o jogador e depois no jogo a seguir, a MLS retira o jogo de castigo porque achou que não havia motivo para cartão vermelho e o jogador joga logo no jogo a seguir. Isto são coisas que acontecem diariamente mas que para fora não têm o impacto que teria se se passasse em Portugal.

Pedro regressou ao SC Braga época 2014/15

Pedro regressou ao SC Braga época 2014/15

Gualter Fatia

Entretanto voltou a ser pai?
Sim voltei, aqui nos Estados Unidos. Chama-se Vicente e nasceu a 25 de agosto de 2018.

O seu filho mais velho fala português?
Só fala português connosco em casa, mas a jogar e a brincar é tudo em inglês.

Nestes quatro anos a que é que mais lhe custou adaptar?
O mais difícil foi mesmo em termos de alimentação. Encontrar produtos que sejam parecidos com os de Portugal. Mas com o passar do tempo fomos encontrando as coisas e hoje em dia já temos praticamente tudo mais ou menos português.

Está a referir-se a que tipo de alimentos?
Ao arroz, por exemplo, porque eles aqui têm um arroz completamente diferente. Ao azeite. Temos um mercado português online onde podemos encomendar. Eu mando vir por exemplo Sumol que aqui também não há. O representante da Delta nos EUA é português e mandou-me uma máquina. Foi bastante bom, porque gosto de tomar café.

E o mais fácil, aquilo que se habituou logo e que já interiorizou?
Assim de coisas americanas não há muita coisa que eu siga. É mais o dia da Ação de Graças que também passei a celebrar porque tenho uns portugueses que estão americanizados, mas falam português, e que seguem essas tradições. As coisas a que me adaptei, são as coisas que eles celebram, o Halloween, que eu não celebrava, nunca fui de me mascarar e agora que estou aqui tenho de mascarar-me para participar com a família.

Pedro conquistou a Taça de Portugal ao serviço do SC Braga na época 2015/16

Pedro conquistou a Taça de Portugal ao serviço do SC Braga na época 2015/16

D.R.

Que amizades com portugueses é que fez, como é que surgiram?
A mulher, que se chama Marta, nasceu em Portugal mas veio para aqui com 10 anos, então já é mais americana do que portuguesa. Ele nasceu cá, mas os pais são portugueses e ele fala português. Eles já vivem aqui há muitos anos e sempre foram adeptos do clube e num dos jogos em casa, eu vi a bandeira portuguesa na bancada e no final do jogo achei que devia ir lá para falar e saber se eram os portugueses. Foi assim que os conheci. Foram muito simpáticos e disseram que sempre que eu precisasse de alguma coisa, estavam ali para me ajudar. Mais tarde combinámos encontrar porque eles também têm filhos, e criámos amizade até hoje. Os amigos mais chegados que tenho aqui são eles. Infelizmente não consegui trazer ainda ninguém de família até cá. Até ao ano passado, como o meu pai estava doente e tinha tratamentos diários, eles não conseguiam vir. Agora que a minha mãe está sozinha, talvez este ano se isto da pandemia passar, consiga trazê-la cá. Depois o resto da família é porque trabalham e não dá para virem aqui.

O que fazem nos tempos livres?
Agora que os miúdos estão na escola, é mais para aproveitar o dia com a minha mulher, para ir almoçar fora, passear um pouco e quando temos o fim de semana livre, normalmente reunimos com esse casal português e vamos até lá para as crianças brincarem, para estarmos juntos e passamos o dia em companhia.

Tem algum hóbi?
Não. Jogo PlayStation para passar o tempo. Jogo “Call of Duty” com os meus amigos de Portugal.

O que já visitaram nos EUA?
Fomos para Miami de férias em família e para as Bahamas. Conhecer outras cidades ainda não. Eu já tive oportunidade através dos jogos de conhecer outras cidades, mas em família não.

Qual foi o local que o deixou mais deslumbrado?
Apesar de não ser americana, gosto muito da cidade de Toronto, é uma cidade muito grande, muito bonita, já lá passei algum tempo. Nova Iorque também sempre foi um sonho de visitar e já tive a possibilidade de estar lá.

Pedro Santos partiu para o Columbus Crew dos EUA em 2017

Pedro Santos partiu para o Columbus Crew dos EUA em 2017

Emilee Chinn

Ao nível do futebol, é completamente diferente daquele que se pratica na Europa?
Sim, muito diferente, mas para mim é um futebol que me agrada porque é muito aberto, com muito espetáculo para as pessoas que estão a assistir. Há sempre golos, há sempre oportunidades e há sempre grandes jogadas, porque aqui também há muita qualidade.

É menos tático?
Sim, em termos táticos é completamente diferente de Portugal, as equipas aqui não são tão táticas. Apesar de já haver equipas que trabalham mais a parte defensiva e mais o aspeto tático, acaba por ser um bocado aberto.

Muito diferentes os treinos daquilo a que estava habituado?
Não, os treinos são praticamente a mesma coisa, apesar de que aqui há mais volume de treino, ou seja, acabamos por estar mais tempo dentro do campo, e depois disso ainda nos obrigam a ir para o ginásio para trabalhar fortalecimento e isso é que é a maior diferença porque eu quando cheguei cá, praticamente não fazia muito trabalho de ginásio e aqui é uma exigência para todas as equipas praticamente.

Com a familia e a taça da MLS que conquistou em 2020

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D.R.

O mês passado sagrou-se campeão da MLS, pelo Columbus Crew, mas infelizmente ficou em casa a ver o último jogo porque estava com covid-19. Quando soube que estava infetado?
Na segunda-feira anterior a esse jogo.

Não tinha sintomas?
Tinha uma ligeira impressão nos pulmões e um bocado de tosse, mas como tinha testado negativo no sábado, no dia antes do penúltimo jogo, assumi que fosse do frio. Como tinha aquela impressão, insisti em fazer novo teste e na segunda-feira à noite ligaram do laboratório a confirmar que era mesmo positivo.

Qual foi a sua primeira reação?
Eu não acreditei muito, fiquei ainda esperançoso. Durante a semana disseram-me que iam testar-me novamente e que se eu tivesse dois negativos ainda podia ir a jogo, só que na quinta-feira voltou a dar positivo e aí é que a esperança foi por água abaixo, fiquei completamente fora do jogo. Em casa felizmente ninguém testou positivo.

Tem contrato até quando?
Renovei mais um ano agora.

O que quer fazer a seguir? Manter-se ai?
Sinto-me bem aqui, se tiver a possibilidade de permanecer por cá, ficarei, mas não fecho portas a nenhuma possibilidade. Se aparecer alguma coisa de outra liga qualquer e for bom para mim, aceitarei.

Já pensou no futuro pós-carreira de futebolista?
Quero ficar ligado ao futebol. Não sei ao certo como, mas gostava de talvez seguir a carreira de treinador. Mas ainda não fiz nenhum curso e os cursos daqui não me permitem treinar na Europa. Por isso, tenho de ver com calma.

Pedro falhou o último jogo da MLS em 2020 por estar infetado com covid-19

Pedro falhou o último jogo da MLS em 2020 por estar infetado com covid-19

Emilee Chinn

Onde ganhou mais dinheiro?
Aqui nos EUA.

Foi investindo?
Investi em imobiliário em Portugal.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Se calhar ter comprado uns ténis mais caros, porque gostava. Custaram 1500€. Mas sempre fui muito poupadinho.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não sei, nunca pensei ser outra coisa, nem nunca fiz mais nada. Teria de procurar um emprego e seria o que encontrasse.

Acredita em Deus?
Não.

E superstições, tem?
Por vezes, sim. Mas tento contrariar. Se o jogo corre bem, no jogo a seguir tento fazer praticamente tudo igual mas se não correr bem, mudo e sigo em frente.

Tem animais de estimação?
Em Portugal tenho três cães que é a minha mãe que esta a tomar conta deles porque não os posso trazer. E aqui tenho um aquário com peixes porque o meu filho e agora recentemente compramos uma chinchila, chama-se Charlie.