Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“O Ronaldo foi à minha casa e deixei-o andar numa acelera. Ele tinha 13 anos, fez um cavalo, roda no ar durante três metros, e desapareceu”

O fim desta história foi feliz, como outras de outros talentos que passaram pelas mãos de Leonel Pontes. Nesta entrevista de vida cabem figuras e episódios como o indomável Quaresma, João Moutinho, Ricardo Carvalho, os berros de Derlei ou a liderança carismática de Paulo Bento. E também alguns presidentes de clubes, uns que o trataram bem, outros nem por isso

Alexandra Simões de Abreu

Leonel Pontes é treinador principal desde 2014/15

DR

Partilhar

Nasceu na Madeira.
Nasci na freguesia do Porto da Cruz, sítio do Serrado, na casa dos meus avós. Os meus pais eram agricultores, vivíamos relativamente perto do mar, temos muitos terrenos, somos uma carrada de irmãos, quatro rapazes e duas raparigas.

O Leonel é dos mais velhos ou dos mais novos?
Sou o penúltimo. Todos eles se formaram, à exceção de um que foi para a Venezuela. Tenho muitos familiares, muitos tios emigrantes, uns na África do Sul, outros na Venezuela, e dois dos meus irmãos mais velhos tiveram a possibilidade de emigrar com os meus tios. Um regressou, porque não se adaptou e queria estudar; o outro ficou lá, fez carreira e vive na Venezuela.

Algum dos seus irmãos também se dedicou ao desporto?
Não, seguem por afinidade. O meu irmão Manuel é um ferrenho adepto de futebol e de desporto em geral. Ele jogava futebol e bem, fez parte das equipas da faculdade. É mais ferrenho do que eu a viver o futebol, na intensidade com que o vive. Os outros não, seguem um pouco porque eu estou no futebol.

O bicho do futebol foi-lhe incutido por esse irmão fanático?
Julgo que sim. Mas lembro-me de em miúdo fazer coleção de cadernetas de jogadores de futebol, comecei muito cedo com uns sete, oito anos já fazia as minhas coleções.

Lá em casa torcia-se por que clube?
O meu irmão Manuel é totalmente benfiquista e eu sou Sporting desde pequenino. Na caderneta gostei do verde e na primária quando me perguntavam "De que clube és?", eu respondia sempre "Sou do Sporting". Mas foi uma coisa que foi ganhando expressão ao longo do tempo. O meu irmão na altura jogava futebol no Inatel e lembro-me de o ver sair no domingo para ir jogar com os amigos, a carrinha parava lá ao pé de casa. Havia sempre bolas em casa e joguei futebol desde pequenino. Lembro-me dos vasos das flores da minha mãe, que se passava porque a gente partia aquilo tudo; e da parede do quintal que estava sempre manchada porque era lá que batíamos a bola.

Leonel em criança, na Madeira

Leonel em criança, na Madeira

D.R.

Quando era pequenino o que dizia que queria ser quando fosse crescido?
Jogador de futebol. Não queria saber de outra coisa, nem me passava pela cabeça [risos]

Quem eram os seus ídolos?
O Paulo Futre, o Jordão, o Manuel Fernandes. Depois havia o Eusébio, o Torres de que eu ouvia falar. Nunca me esqueço de um vizinho, taxista, ainda hoje é vivo, ele é benfiquista e maritimista, e quando o Benfica ia à Madeira ele ia ver jogos e, pelo menos por duas vezes, levou-me com ele. Levava o filho, o Orlando, que hoje é jornalista de "A Bola" na Madeira, eu, e o meu irmão Manuel. Na altura levamos uma hora de carro até ao Funchal, hoje em dia são 20 minutos. Lembro-me de estar no Caldeirão dos Barreiros a ver futebol com eles. E isso também ajudou ao bichinho. Eu era de tal maneira maluco por futebol que cheguei a querer ir para o seminário só por causa dos campos de futebol que eles tinham.

E foi?
[risos] Na 4.ª classe, os padres iam à escola promover o seminário e ver quais os miúdos que queriam lá ir para ter uma experiência. Eu fui lá uma vez e adorei porque tinha campos de futebol. Nesses anos, entre a 4ª classe, o 5º e o 6º anos, fui lá três ou quatro vezes, para ir jogar à bola. Eu pensava “tenho de dizer que quero ir para o seminário, para vir jogar futebol”. Andei ali assim, mas quando chegou à altura de decidir se queria mesmo ficar e me perguntaram mais seriamente, eu: “Não, não quero ficar, que não quero ser padre” [risos]. Mas tenho um amigo meu de infância que hoje é padre, em Alfragide.

Alguma vez chegou a faltar às aulas para ir jogar à bola?
Cheguei. Mas do 1º ao 6º ano, como a escola era mesmo perto de casa, eu ia a pé e não dava para faltar. Portava-me mal de vez em quando, jogávamos à bola até tarde, na estrada, era roda e bota fora, toda a gente da minha geração jogava. Só tínhamos um problema, não era bem um problema mas, nós trabalhávamos muito enquanto miúdos.

Trabalhavam no campo?
Sim. Ajudávamos muito os nossos pais. Desde miúdo, em casa, a minha mãe punha-me a fazer coisas. E íamos para o campo com os meus pais quando chegávamos da escola. Depois, a partir dos oito, nove anos, havia uma equipa no Porto da Cruz e eu comecei a jogar lá, tinha treino duas vezes por semana e fugia de casa para ir jogar. O meu pai não se importava, mas com a minha mãe era uma guerra para ir jogar à bola. Aliás, sempre foi, acho que ela só reconheceu que era uma coisa boa para mim muito mais tarde, já como treinador. A minha mãe dizia-me sempre: “Quero dar-vos estudos, não quero que vocês passem o que nós passamos”. Todos os meus irmãos estudaram. Tenho um irmão médico cirurgião, na área da oncologia, uma irmã enfermeira, tenho dois irmãos professores. Eu era aquele que fugia para jogar, fugia para sair. Fui sempre um lutador por aquilo que achava que eram os meus direitos enquanto criança. Mas não lhes dava azo a que me apontassem muitas vezes o dedo. Fartava-me de trabalhar, na escola não estudava muito, mas tinha boas notas.

Leonel foi campeão de iniciados pela Associação Desportiva de Machico

Leonel foi campeão de iniciados pela Associação Desportiva de Machico

D.R.

Estava a contar que começou no Porto da Cruz.
Sim. Éramos uns 10, 12 miúdos, e como jogávamos futebol na escola e na rua, um padre e outras pessoas começaram a criar equipas. Entretanto estavam a construir um novo campo, não tínhamos campo de futebol na altura. Lembro-me que a equipa do meu irmão fazia em Santana os jogos em “casa”. Ou seja, tinham de andar três quartos de hora quando jogavam em casa.

Jogava em que posição?
Sou esquerdino, era um ala esquerdo que gostava de fintar, chamavam-me fossão, não passava a bola a ninguém, queria era fintar [risos]. E tinha muito medo de me magoar porque se me magoasse, lá em casa era um problema. Cheguei a ir trabalhar com o meu pai no campo e levar uma mochila escondida com o equipamento, para depois ir treinar. Àquela hora era sagrado: não falhava um treino, só se me matassem ou se me amarrassem. Eu fugia para ir treinar e só aparecia à noite. Mas a partir do 6º ano vou para a escola de Machico e acabo por ir jogar para o Machico. Tinha treino dois dias por semana, ao final da tarde, ou seja, passava o dia todo no Machico e isso era um problema. O meu pai até gostava que eu fosse treinar, agora a minha mãe ficava com aquela azia de eu passar o dia todo fora. Fiz uma época e somos campeões da Madeira, pelo Machico. A nossa equipa inaugurou o campo da Imaculada Conceição do Marítimo, que é o relvado onde o Marítimo hoje treina, e ganhámos 7-1, nunca me esqueço. Eu tinha 13 para 14 anos.

Depois desse ano em Machico volta ao Porto da Cruz?
Sim, volto ao Porto da Cruz. Esse passo não sei porque é que dei. Sei que era juvenil mas o Porto da Cruz só tinha uma equipa de juniores e então estive dois anos a jogar nos juniores, como juvenil.

Leonel (o 5º em baixo) com a equipa campeã de iniciados de Machico

Leonel (o 5º em baixo) com a equipa campeã de iniciados de Machico

D.R.

Até que surge o convite do União da Madeira. É isso?
Sim, aquilo foi uma coisa caída do céu. Houve uma “guerra” porque a minha mãe queria que eu fosse e viesse todos os dias para o Funchal. Só que eu tinha um tio que estava emigrado na África do Sul, mas tinha uma casa no Funchal. Então arranjei maneira com as minhas irmãs e com o meu irmão de ficar lá, na casa do meu tio António. Assim podia estudar e jogar futebol. Lá vou eu viver para o Funchal. Tinha 15/16 anos, estava no 10º ano.

É nessa altura que se estreia nas saídas à noite e nos namoros?
Já acontecia antes porque o verão no Porto da Cruz é uma coisa muito agitada. É uma terra pequenina, mas onde vinham muitos estrangeiros e nós já saíamos. Entretanto, cheguei ao Funchal sem conhecer ninguém. Curiosamente o primeiro ano correu-me muito bem porque comecei a treinar com os seniores. Foi uma experiência boa. O União na altura estava na I Divisão.

Quem era o treinador?
Era o Rui Mâncio e o Nuno Jardim como adjunto. Às quartas-feiras, nos jogos de reservas eu jogava. Fui capitão de equipa num jogo com o Porto da Cruz. Toda a gente me tratava por Pontes, ninguém sabia quem era o Leonel.

Adaptou-se bem a viver sozinho tão novo?
Tive que me desenrascar. Comia na cantina da escola. Como tinha estudantes à noite, comia muitas vezes lá. Fiz dois anos no União que foram muito bons, aprendi a viver numa cidade, conheci gente completamente diferente daquilo que era a zona mais rural, criei relação com uma turma onde não conhecia ninguém e uma relação com um conjunto de colegas de equipa. E como eu estava sozinho, também fazíamos algumas festas lá em casa [risos]. No 2º ano continuei a trabalhar com a equipa sénior, embora fosse júnior e eles propõem-me um contrato. Faço a pré-temporada com a equipa e assino por um ano.

É o primeiro dinheiro que ganha com o futebol?
Já nos juniores ganhava algum dinheiro. Mas lembro-me que o meu primeiro dinheiro foi para botas. Comprei dois, um com pitões de alumínio e outro com pitões de borracha.

O que aconteceu depois?
Sou emprestado a uma equipa do regional da Madeira. Faço um ano no Choupana e é no final desse ano que volto à equipa sénior e entro na faculdade, para Educação Física. Havia na Madeira também, só que eu queria vir para o continente. Tomei essa decisão mas não disse nada a ninguém. Candidatei-me, pus os papéis para Educação Física no continente. E vim para cá, para a FMH com o objetivo de continuar a jogar.

Veio sozinho, foi viver para onde?
Isso é outro filme. Quem me influencia a vir para educação física foi um vizinho, o João José, que era o filho do sapateiro. “E agora João José, como é que eu faço agora?"; "Eh pá, vou ligar ao senhor João Francisco - que é o responsável do lar - e tu vais para lá. Quando chegares vais falar com ele". Eu só trazia essa referência comigo, mais nada [risos]. Preparo a mala e não é que no avião vai um casal com um filho, o Nuno, que era meu colega de turma? Nos dois primeiros dias fiquei com eles numa residencial perto do Rossio. Mas entretanto tinha de ir falar com o tal senhor João Francisco. Falei, expliquei-lhe a minha situação, mas eu não podia ficar no lar. Andei sempre atrás do João Francisco e ele por portas e travessas lá me meteu no lar, enquanto eu tratava das papeladas. Ou seja, estive mais de 15 dias no lar um bocado clandestino, até ter tudo tratado. A primeira coisa que fiz foi arranjar um clube. Fui ao Casa Pia treinar, não fiquei. O treinador era o Vítor Móia, o Rui Borges e o Chainho jogavam lá. Entretanto fui jogar para Oeiras. O treinador do Oeiras era um rapaz do 4º ano da faculdade.

Leonel, com a bola, a jogar pelo União da Madeira

Leonel, com a bola, a jogar pelo União da Madeira

D.R.

Como é que vivia em Lisboa? Os seus pais enviavam-lhe dinheiro?
Consegui arranjar maneira de ter três bolsas [risos]. Uma bolsa do governo da Madeira, a bolsa do João Berardo e a bolsa do continente. Devia ter uma bolsa só, que era a da Madeira, mas vieram [risos]. A residência universitária era de borla. Estava bem. No 2º ano joguei no Oeiras e na equipa da faculdade. No 3º ano vou para o Atlético da Tapadinha, na II divisão. Fui treinar lá em outubro, à experiência, o treinador gostava de mim mas disse que tinha muitos jogadores, só que não queria que eu me fosse embora e fiquei lá a treinar. Em janeiro, as coisas estavam muito bem encaminhadas para assinar e num treino conjunto lesionei-me no joelho. Tive de ser operado. Estava no 3º ano da faculdade, faço a recuperação e no final da época o treinador que estava na equipa da faculdade convidou-me para ser o treinador, no ano seguinte. Aceitei. Fui treinador da equipa da faculdade no meu 4º ano e subimos de divisão, fomos à Holanda, a um torneio universitário e ganhámos. A seguir o Sporting convida-me. Tinha 22/23 anos.

Quem lhe fez o convite para o Sporting?
Foi através do professor Rui Claudino que trabalhava com o Queiroz, no Sporting.

Nessa altura já tinha passado a vontade de ser jogador de futebol?
Não, não. Aquele momento da lesão foi duro porque eu sentia a cenoura ali ao pé, as coisas estavam a correr bem no Atlético, entretanto criei uma boa amizade com o Lima, que hoje está na FPF e fez carreira no Sporting. Eu é que acabo por levar o Lima pela mão para se inscrever na faculdade e fazer o curso. Mas quando tenho aquela lesão, eu só pensava em me recuperar o mais rápido possível para voltar a jogar. No 5º ano da faculdade, ou seja, no ano de estágio, entro no Sporting para ser treinador adjunto dos infantis. A jogada do Aurélio Pereira era: temos de ir buscar um estagiário que precise de casa para ficar no centro de estágios com os jogadores e ao mesmo tempo possa ajudar o Osvaldo Silva. E eu, por ser do Sporting, por estar ligado ao futebol, porque a minha cadeira de metodologia do treino foi futebol com uma boa nota... aquilo conjugou-se. O convite surge numa altura curiosa.

Então porquê?
Nunca me vou esquecer que estava no lar à janela a estender roupa e a pensar "o que é que eu faço? Vou para a Madeira estagiar ou fico cá?", quando chegou um colega: "Ouve lá, o professor Claudino quer falar contigo, acho que tem uma coisa para ti". Nem eu imaginava o que me esperava. Se já não imaginava ir trabalhar para um clube, muito menos para o Sporting. E de repente.

E foi viver para o lar do Sporting?
Não, era o que faltava, eu ainda por cima tinha estágio na escola Josefa de Óbidos. Como era responsável do centro de estágio, de vez em quando ficava lá, uma ou duas vezes por semana, para eles sentirem que nós estávamos presentes. Se não ficava, ia lá de manhã, tomava o pequeno almoço com eles antes da escola, e como eu e outro colega éramos orientadores pedagógicos, cada um orientava metade do grupo. Depois era controlo de pequenos almoços, almoços, ir à escola, falar com os diretores de turma, acompanhá-los no jantar. Ao mesmo tempo comecei a dar treino aos infantis, com o Osvaldo Silva.

Leonel, com a bola, e a equipa de juniores do União da Madeira

Leonel, com a bola, e a equipa de juniores do União da Madeira

D.R.

Acompanhou vários jogadores que vieram a brilhar no futebol português e não só. Pode falar de alguns deles?
Na altura do centro de estágio apanhei vários, em anos diferentes, o Nuno Santos, guarda-redes, o Simão Sabrosa, o Vasco Faísca, o Miguel Garcia, o Luís Lourenço, o Quaresma, José Fonte, o Cristiano Ronaldo. Mas nesse primeiro ano, da minha equipa de infantis, aquele que se conseguiu projetar, foi o Quaresma. Quando entrei tive uma reunião com o senhor Aurélio e nesse mesmo dia vou acompanhar um treino de infantis. Não tinha referência nenhuma do que era um bom jogador infantil. Eles iam treinar a Algés. Vou na camioneta caladinho, a ver os miúdos, e quando lá chegamos sentei-me na bancada. Eles fizeram duas equipas, aquecimento e jogo. No final do jogo e um bocado para quebrar o gelo, vou à cabine e disse que havia ali quatro ou cinco miúdos muito interessantes, bons jogadores e o Osvaldo, que era brasileiro: "Você é bôbo?!"; Assim com aquele ar gozão. "Você ainda não viu os nossos". "Os nossos?"; "Sim, esses eram os que vinham à experiência" [risos]. Ou seja, só no dia seguinte é que era o treino da equipa de infantis. Quando eu vejo os miúdos dos infantis a jogar, o meu pensamento foi: “Nenhum daqueles que vi ontem cabia nesta equipa”. Ou seja, eu não tinha a referência do que era um bom miúdo de 12 anos. E essa equipa era a equipa onde estava o Zé Fonte, o Quaresma, o Filipe Falardo, Pedro Coelho, Tecelão. Tenho uma história engraçada até com o Quaresma.

Conte.
Nós tínhamos duas equipas nesse 1º ano, 1995/96, a equipa A e a B. Trabalhávamos todos juntos e ao fim de semana, quando os jogos coincidiam à mesma hora, o senhor Osvaldo orientava a equipa A e eu ia com a equipa B para o campeonato distrital. O Quaresma era dos mais velhos e nunca ia para a minha equipa. Mas há um torneio em França para a equipa B e o Osvaldo quis ir, eu é que fiquei com a equipa A, que tinha um torneio também cá. Quem é que entrava nesse torneio? O Belenenses, o Estrela da Amadora, o Sporting e uma seleção de Lisboa composta por jogadores de várias equipas. O Quaresma também ia jogar. Fizemos o jogo com o Belenenses e ganhámos, depois com o Estrela da Amadora o Quaresma finta, finta, finta, não passava a bola a ninguém e eu já irritado chamei-lhe à atenção algumas vezes. Mas ele finta, finta, finta e não passava a bola a ninguém. Passei-me e substituí-o.

E ele?
Parece que o estou a ver: 12 anos, saiu irritado, olhar em baixo, com os pés para dentro, nem foi para o banho. Nós ganhámos o jogo e íamos à final que era Sporting-Seleção de Lisboa. Os miúdos todos a ver o que é que ia acontecer. E eu ponho o Quaresma no banco. Ele nunca tinha ido ao banco, o Osvaldo tratava-o como um príncipe, jogava sempre, podia fintar 10 [risos]. O Osvaldo era aquele tipo de treinador que valorizava o miúdo porque ele resolvia os jogos, fintava todos e marcava golo. Tinha um drible, uma capacidade. Ele gozava com aquilo, brincava com o adversário, fintava o guarda-redes e ficava à espera dele, aquelas coisas que eu não gosto e por isso o pus no banco. Sentei-o mesmo ao meu lado. Na 1ª parte estávamos a perder 3-0 e ao intervalo: "Quaresma, aquece que vais entrar na 2ª parte". Ele entra e nós ganhamos 5-3. Deu um recital de futebol, coletivo, individual... E fez de propósito, fintou o guarda-redes, passou para o colega para fazer golo e olhava para mim, para o banco, com orgulho [risos]. Mas fez uma joga. Ainda nos recordamos desse momento.

Arrependeu-se de o ter posto no banco.
Não. Eu acho que esses momentos fazem bem aos miúdos que têm este talento, precisam de estar do outro lado, precisam de estar fora, não têm de jogar sempre. Têm de jogar se o justificarem, quando não, têm de ficar de fora para perceber a diferença.

Leonel com 18 anos

Leonel com 18 anos

D.R.

E no ano seguinte?
No 2º ano sou convidado pelo Carlos Pereira e pelo Paulo Leitão para ir trabalhar com eles nos juvenis e nos juniores. Também nesse ano dos infantis, eu treinava com os juniores do Sporting, enquanto jogador. O Carlos Pereira era treinador da equipa de júnior e convidava-me para eu ir fazer número à quinta-feira. E até estava bem na altura. O problema é que aquele ano foi muito duro para mim porque tinha infantis, a coordenação do centro de estágios, e o estágio na escola, não tinha tempo para mais nada. Ainda fazia estatística de jogos da I Liga para a InfoDesporto. Tinha uma vida muito ocupada. Queria voltar a jogar, mas não dava. Entretanto o Carlos convidou-me para trabalhar com ele nos juvenis e o Paulo Leitão convida-me para trabalhar nos iniciados e eu decidi ir para os iniciados porque achei que era o patamar seguinte.

Nessa altura onde vivia? Já namorava?
Não, não tinha namorada. Tinha saído da residência dos estudantes, aluguei uma casa em Sassoeiros com dois colegas meus, o Vítor, que era guarda-redes, e o Batalha.

Nessa altura já tinha carro?
Tiro a carta, curiosamente, na Madeira nas férias entre o 4.º ano e o ano de estágio. Trabalhei um mês como animador numa escola de miúdos no Funchal, paguei e tirei a carta. O meu primeiro carro foi um Volkswagen Polo, branco. Já estava no Sporting.

Voltando ao que estava a contar...
Estive dois anos nos iniciados, fui treinador principal nos iniciados e em 1997 é o ano em que o Sporting passa a SAD, houve grandes alterações e fico nos infantis, como treinador principal. Depois, nova remodelação e vou para adjunto dos iniciados, do Rui Palhares, e aí começo a trabalhar diretamente como treinador do Cristiano Ronaldo, em 1998. Porque quando eu estou como treinador dos iniciados, ele está como jogador dos infantis. Depois ele sobe para iniciado e eu desço para os infantis e depois quando subo dos infantis para os iniciados ele está no 2º ano de iniciado. Faço um ano de iniciado com o Palhares, como adjunto e no ano seguinte vou trabalhar com o Luís Martins para os juvenis em 99/00 se não me engano.

Com os pais

Com os pais

D.R.

Do Ronaldo tem alguma história que possa contar?
Tenho uma que já contei e que tem a ver com a maneira como o conheci. Estava eu nos iniciados e havia um torneio de escolas na Madeira, em 1997 e o treinador dos escolinhas era o César Nascimento. O Aurélio Pereira disse-me :"Vais com a equipa das escolinhas à Madeira, à tua terra, e vais observar um miúdo chamado Ronaldo ou Cristiano. Disseram-me que é um miúdo que tem muito talento". Lá vou eu para a Madeira só que o miúdo não jogou no torneio. Como aquilo era de escolinhas e ele era um ano mais velho, já era infantil de 1º ano, não jogou. Conheci-o no campo do Câmara de Lobos, chamei-o no intervalo dos vários jogos, ao relvado, apresentei-o aos miúdos, ao Paim, que era o craque da companhia na altura, aos outros colegas e dei-lhes uma bola, só para ver. E o miúdo a querer mostrar aos outros, a dar toques, e eu: “O que é isto?!”. Uma habilidade com a bola... Ele na altura estava no Nacional e toda a gente me dizia: “O miúdo é terrível, não passa a bola a ninguém, quer fintar todos, não sabe perder, é um fossão, mas é rijo e tem uma personalidade bem vincada”. E eu, eh pá, isto são tudo características importantes para a alta competição. Telefonei ao Aurélio: "Aurélio, o mais rápido possível, arranje maneira deste miúdo ir aí, porque aquilo que eu vi foi bom e aquilo que toda a gente me diz é uma coisa extraordinária". E lá vai ele fazer um treino no final da época. O maior reconhecimento foram os próprios colegas dele a dizer “Eh pá, o miúdo joga muito”. Mas tenho outra história mais gira do Ronaldo.

Conte.
No segundo ano eu levei-o à Madeira, à minha casa. A minha mãe olhou para ele, isto em 1998. "Ó filho, isto vai ser jogador? É tão lingrinhas, tão magrinho?" [risos]. "Ó mãe ele é muito bom para a idade que tem. Se tudo correr bem vai ser um grande jogador". A minha mãe nunca se esquece disto. Eu tenho uma acelera lá em casa, uma moto pequenina e perguntei ao Cristiano quando lá foi: "Queres dar uma voltinha? Sabes andar?"; "Sei mister, sei". Passei-lhe a mota. Não é que quando ele acelera, levanta-se o pneu da frente, ele faz um cavalo de três metros com o pneu no ar e com os pés no chão a arrastar. E lá foi. Eu deitei as mãos à cabeça: "O que eu fui fazer?". Ele desaparece-me na curva. Aqueles momentos entre ele ter desaparecido e ter chegado, foi um martírio para mim, nunca me vou esquecer [risos]. Foi uma irresponsabilidade e uma inconsciência. Nem capacete tinha, lá na minha terra, no Porto da Cruz. Bem, quando ele parou ao pé de mim, o meu coração estava a saltar pela boca. E ele todo contente [risos].

Falou no Paim. Um jogador promissor que passou ao lado de uma grande carreira. O que lhe aconteceu?
Não aconteceu porque ele também não correspondeu e a abertura na altura não era tão grande como agora. Ele tem responsabilidades, mas nós sabendo do talento que ele tinha, quem sabe deveríamos ter feito de forma diferente. Mas depois há contornos ali pelo meio que não conseguimos controlar. A questão dos empresários... Ele teve uma lesão aos 16 anos que o limitou e depois era um miúdo que não trabalhava afincadamente, vivia muito do talento que tinha, achava que era suficiente. Não foi um jogador aplicado como o Ronaldo. O Ronaldo é um jogador aplicadíssimo, dentro do campo, no treino, fazia tudo com paixão, com empenho, com brio. O Paim não, era desleixado, agora, tinha um talento... A bola vinha, ele ia para cima deles, driblava para a direita, para a esquerda, fazia golos e dava gosto vê-lo jogar. Era muito parecido fisionomicamente com o Thierry Henry, era aquele jogador que recebe para a frente, que vai para cima do adversário, que parece que é leve, parece que desliza. Era um miúdo amável, simpático, carente e ao mesmo tempo gostava de jogar à bola. Aquela idade entre os 16 e os 18 foram determinantes. Depois a “guerra” de empresários... deram-lhe muita coisa, deram-lhe um Mercedes para a mão e ele ainda nem tinha carta. Deram-lhe um apartamento ao lado do Estoril, proporcionaram-lhe viagens, regalias e enquanto outros tiveram cabeça, ele não teve capacidade para ir gerindo aquilo que lhe foi acontecendo na vida. Depois ficou-lhe a frustração de nunca ter sido opção do Sporting. O Sporting tem responsabilidades, mas ele também as tem.

Com os pais e irmãos

Com os pais e irmãos

D.R.

Entretanto, esteve dois anos nos juvenis, certo?
Sim. Encontrei uma equipa de juvenis maravilhosa, constituída pelo João Moutinho, Fernando Ferreira, Mário Felgueiras, Jorge Teixeira, Emídio Rafael, todos estes fizeram carreira e mais três ou quatro, Bruno Filipe, Carlos Saleiro, essa equipa jogava muito. O treinador responsável do escalão era o Luís Martins e eu era o adjunto e era o responsável pelos Sub 16. Estive aí dois anos, no primeiro era a equipa do Ronaldo, do Paulo Sérgio, do Miguel Garcia. O Ronaldo também estava nesse escalão e andava entre os B's e os A's. Em 2000/ 2001 sou convidado para trabalhar com o Luís Alegria na equipa B. O Jean Paul era o coordenador e eu vou para a equipa B com o Luís. Trabalhei dois anos com a equipa B.

Aí já tinha como objetivo ser treinador?
Já, mas a chegada a uma equipa A era uma coisa utópica, ainda por cima porque era adjunto e eu nunca me impus a esse nível de: eu quero ser treinador principal; porque foram surgindo sempre oportunidades mais acima. Fiquei dois anos na equipa B e o Paulo Bento convida-me para trabalhar nos juniores com ele. O Paulo conhecia-me porque tanto o Bölöni como o Fernando Santos às vezes colocavam alguns jogadores na B para treinar. O João Pinto treinou connosco, o Barbosa, acho que o Rui Jorge também, o Paulo Bento, por isso já nos conhecíamos. A relação era de respeito e não uma relação próxima. O Paulo convida-me para trabalhar nos juniores e somos campeões nacionais.

Quando se apercebe que vão para a equipa principal, qual foi a sua reação?
Ah, isso abanou um bocadinho. Primeiro porque não é como hoje, hoje qualquer treinador da formação do Sporting até tem ambição de chegar à primeira equipa. Na altura eu nem pensava muito nisso porque, talvez pela minha imaturidade, achava que era uma coisa muito difícil de lá chegar, que aquilo era para os outros, não era para mim. Quando em outubro há uma reunião e dizem, vamos para os seniores, eu tinha a possibilidade de ficar como treinador dos juniores. Pergunta-me se quero ficar como treinador dos juniores. E eu na altura pensei; "pôxa, vou rejeitar esta oportunidade?”. Decidi ir para os seniores, o Paulo queria que eu fosse.

Leonel foi jogador da equipa da Faculdade de Motricidade Humana, enquanto tirou o curso de Educação Física

Leonel foi jogador da equipa da Faculdade de Motricidade Humana, enquanto tirou o curso de Educação Física

D.R.

Esteve muitos anos na formação, em todos os escalões, adaptou-se bem à realidade do futebol profissional?
Deixe-me só dizer uma coisa. Sinto que de uma forma ou de outra, modifiquei carreiras, vidas. No dia em que eu escolho o Miguel Garcia, que vem ao meu treino, e digo: “Este fica ali de parte que é para ficar”, eu estou a mudar a vida de um garoto de Moura. Quando eu digo ao Bruno Filipe “este é para ficar” estou a mudar a vida deste miúdo e eu tive esse privilégio de mudar a vida de muitos miúdos. Uns por decisão minha, outros por decisão coletiva. Lembro-me de nos infantis ter ido ver um jogador e decidir por outro e esse jogador passado dois anos voltou a casa porque não evoluiu como poderia evoluir. Nós enquanto treinadores da formação, tomamos decisões que mudam a vida das pessoas. São pequenas decisões mas que vão mudar o rumo de muitos miúdos.

Voltemos à equipa principal e ao Paulo Bento, com quem esteve quatro anos à frente do Sporting.
O Paulo Bento foi dos treinadores que fez um dos melhores trabalhos nos últimos anos. Não tendo sido campeão, é como se fosse.

Dessas quatro épocas, entre outubro de 2005 e novembro de 2009, quais as principais memórias?
Muitas, mas uma boa, muito boa, foi o jogo que fizemos com o Benfica para a Taça de Portugal. Estávamos a perder 2-0, na meia final da Taça e a jogar melhor.

O que é que mudou ao intervalo?
Alguma crença e alguma maturidade de alguns elementos do grupo e o discurso do Paulo. Recordo como se fosse hoje. Entramos na cabine, estava tudo aos berros. O Derlei, que estava no banco, começou a abanar os colegas, a dizer uns palavrões, a gritar, a agitar e o Paulo disse-me: "Não, não, deixa-o falar, deixa-o falar". Ele continuava a agitar e o Paulo passado um bocado volta e só disse assim: "Hoje quando acabar o jogo vou sair por ali, pela helicoidal - que era a saída do parque de estacionamento - vocês escolhem por onde é que querem sair" e foi-se embora. Fez as substituições que tínhamos a fazer, acho que fizemos o primeiro golo aos 12 minutos da 2ª parte e foi o Yannick que o marcou. Depois o Liedson faz outro e empata 2-2. Depois o Derlei marca o terceiro, o Yannick volta a marcar e estamos com 4-2 , o Benfica ainda faz mais um golo e no final o Vukcevic marca mais um e ganhámos 5-3. Foi um jogo memorável. Mas tivemos outros.

Quais?
A final com o Belenenses em 2006/2007, se não me engano. Era a equipa do Jorge Jesus e ganhámos por 1-0, com um golo de Liedson. A final da taça de Portugal com o FC Porto, também ganhámos. Temos um jogo com o Inter de Milão em casa que ganhamos 1-0, golo do Caneira, que é também um jogo memorável. Tivemos muitos bons jogos. A primeira época e a segunda época estivemos até à última. O FC Porto foi sempre campeão, e nós ficámos sempre à frente do Benfica nessas épocas 2005/2006, 2006/2007 e 2007/2008, andámos sempre perto do 1º lugar.

Esta foi a primeira equipa da FMH que Leonel orientou

Esta foi a primeira equipa da FMH que Leonel orientou

D.R.

Acompanhou a evolução do Paulo Bento. O que é que ele tem de melhor enquanto treinador?
O carisma. Ele é carismático com os jogadores, tem uma liderança muito personalizada na forma de ser, sério, responsável, frontal, com uma relação profissional com os jogadores. Foi uma aprendizagem muito grande que tive com ele. Fizemos quatro épocas e o Paulo já não queria ficar na quinta época. Estava cansado, eram quatro épocas. Mas pela emoção e pelas pessoas o Paulo acabou por ficar. A relação com os adeptos não foi a melhor na ponta final, porque a época de 2008/2009 já não foi boa, ficámos a muita distância do 1º lugar, da parte dos adeptos houve alguma contestação. Houve ali uma pressão enorme para o Paulo continuar, para dar continuidade ao trabalho.

Quando diz que a ponta final da época 2008/2009 já não correu muito bem, o que mudou?
Provavelmente o investimento foi menor, porque pensávamos que íamos resolver as coisas com os miúdos. Uma coisa era termos miúdos com um grande talento na época de 06/07, onde tínhamos o Nani, o Miguel Veloso e o João Moutinho a aparecer e à volta deles havia um conjunto de jogadores com alguma maturidade. Na época 08/09 não só pelo menor investimento, porque financeiramente o Sporting estava sem dinheiro, tivemos que jogar com os jogadores que duas, três época depois quase já nem estavam a jogar futebol. Recordo-me que em Braga jogamos com o Tó Mané, um ponta de lança que três ou quatro épocas depois deixou de jogar. Jogámos com o David Caiado que fez uma carreira mediana, ele ainda hoje joga na Roménia, mas foi uma carreira mediana. Não era um jogador de top, ou seja, face ao investimento, à contestação da época 08/09 e ao investimento que o Sporting não estava preparado, o risco das coisas não correrem bem era grande e quando tu pensas que pode correr mal, corre mal. No fundo isso aconteceu nessa época 09/10, aliás nós saímos em novembro de 2009.

Destes quatro anos, quais foram os jogadores que mais o marcaram?
Houve vários, um deles foi o Derlei por aquilo que ele tinha sofrido. Ele vinha de uma rotura de cruzados anterior e pela idade que tinha era um jogador que parecia um miúdo a treinar. Ainda ficava chateado se errava o passe, falava de futebol, gostava de falar futebol. Depois havia ali um conjunto de jogadores que me marcaram, o Caneira pela liderança, pela insistência, o Tonel, o Abel que já era um jogador que queria saber porque é que se fazia, porque é que não se fazia, estava sempre atento às decisões do treinador, aos exercício, questionava, perguntava, era inteligente, esperto. Depois havia os miúdos que tinham aquela energia de miúdos, o João Moutinho que era um craque, que jogava muito futebol. O Romagnoli que tinha acabado de vir da Argentina e tinha um talento extraordinário, um miúdo muito calmo, não se via um pinguinho de suor. O Yannick pela sua espontaneidade, o Nani pela irreverência que tinha, eram jogadores que estavam a aparecer e que me foram marcando e depois havia um jogador que marcava a diferença na maior parte das vezes, e que era o Liedson.

Com a equipa de infantis do Sporting em 1995/96

Com a equipa de infantis do Sporting em 1995/96

D.R.

Quando o Paulo Bento saiu, o que lhe aconteceu?
Eu fico para fazer a transição. Quando o Paulo sai não há treinador ainda, a administração entende que devia ser o treinador adjunto a orientar a equipa no jogo seguinte.

Ele não ficou chateado consigo?
Não, porque nós tivemos de assegurar até chegar a nova equipa técnica, ficámos todos, o único que não ficou foi o Paulo. Fiquei eu, ficou o Carlos Pereira, ficou o Ricardo Peres, treinador de guarda-redes, o João Aroso, preparador físico. Ficámos todos.

Quando se depara com essa situação de ter de assumir a equipa, o que sentiu?
Mexeu. Mexeu porque era uma responsabilidade. No fundo era substituir o Paulo e o Paulo para mim era a referência, eu não olhava o Paulo como um adversário, não olhava como uma pessoa que pudesse tirar o lugar, longe disso, nem eu queria tirar o lugar ao Paulo, nunca, não me passava pela cabeça.

Mas mudou muita coisa no tempo que lá esteve?
Não. Se bem me recordo estivemos só duas ou três semanas.

No balneário notou mudanças em relação a si?
Não, havia um respeito pelo treinador adjunto, porque nós éramos muito interventivos, o Paulo dava-me a liderança de muitos exercícios. Eu tinha muita presença dentro do balneário. Havia dois adjuntos, era o mister Carlos Pereira e era eu. O Carlos Pereira era aquela figura mais velha, consensual que tinha um bom discurso para os jogadores, mas eu orientava mais o treino do que ele. Ele acompanhava-me, ajudava-me, andava sempre ali perto, tinha muito uma ação individual sobre os jogadores, até pela experiência que tinha e por ser o homem mais velho, pela figura que era. Eu era mais do treino, do exercício, de orientar exercícios, de organizar, de fazer grupos, de entrar no treino muitas vezes se fosse necessário e às vezes jogava. Agora, senti diferença em mim pelo impacto que aquilo tem. Podem dizer o que quiserem mas não tem nada a ver aquilo que é ser treinador principal, e treinador adjunto, não tem rigorosamente nada a ver.

Explique essas diferenças.
Toda a responsabilidade a todos os níveis cai sobre o treinador principal, nas pequeninas e nas grandes. No departamento médico, na rouparia, no início do treino, na relva, na formação de grupos, nos exercícios, porque ele é que tem a palavra final, ele pode ter pessoas a trabalhar mas se acontece algum problema, ele tem que ser chamado. Tem que estar reunidas todas as condições para que um treinador principal se sinta confortável na sua tarefa e para se sentir confortável na sua tarefa ele tem que controlar um conjunto de coisas à volta. Muitas vezes delega, mas tem que estar a controlar e depende das pessoas. É por isso que as estruturas são importantes para suportar as decisões do treinador, para que sejam decisões seguras.

Leonel e a sua equipa que venceu o torneio da Pontinha

Leonel e a sua equipa que venceu o torneio da Pontinha

D.R.

Esteve 15 anos no Sporting. Depois de tantos anos que análise faz para o Sporting não conseguir ganhar campeonatos?
Eu acho que é mais um problema estrutural porque as lideranças não têm sido lideranças consensuais, ainda há muita intervenção de fora para dentro. Provavelmente ao longo do processo faltou gente e estruturas mais consistentes viradas para o alto rendimento e para o sucesso.

Ou faltou um líder carismático?
Também. Mas os líderes carismáticos, além de terem esse carisma, têm que ter a capacidade de escolher a sua equipa. A escolha de pessoas à volta do líder é fundamental porque o clube é muito grande e precisa de pessoas com capacidade e visão, que tenham experiência. O que acontece muitas vezes é que as direções entram e reúnem um conjunto de pessoas com pouca experiência na área do futebol e isso é penalizador, associado depois a maus investimentos. Um dos grandes investimentos do Sporting tem que ser sempre a formação. Devia ser um pilar ,porque é da formação que se pode retirar grandes dividendos, sabendo de antemão que o Sporting enquanto instituição, tem facilidade em ir buscar os melhores, ou tinha, porque agora a concorrência é maior. Tinha facilidade em ir buscá-los mais jovens e eles cresciam juntos enquanto jogadores, com regras rígidas com treinadores exigentes que não davam azo a muita brincadeira, mas ao trabalho, ao rigor e isso fez com que muitos desses miúdos crescessem com um alto nível.

Essa forma de gerir mudou no Sporting?
Não, isso foi-se alterando ao longo dos anos porque as lideranças têm mudado muito no Sporting. Ainda há pouco tempo saiu um estudo num jornal que diz que o Benfica foi o clube que teve mais tempo presidente, menos treinadores e mais títulos. E o Sporting era mais presidentes, mais treinadores, menos títulos. Se formos a ver a história do Sporting ao longo dos últimos 20 anos tem havido sempre muitas alterações.

Acha que isso acontece porquê?
Também pela falta de um modelo organizacional consistente nos vários estratos do futebol, não só na formação como no profissional, falta de gente competente para organizar e cimentar ideias, de capacidade financeira e de tomar boas decisões utilizando bem os recursos que se tem e potenciar jogadores da formação. Eu assisti ao longo de muitos anos a "Agora é que é o ano zero". E passava o ano zero, dois anos e, voltava o ano zero, com mudanças, saídas, entradas, porque não havia ideias claras daquilo que se queria. E quando não se sabe para onde se quer ir, corre-se riscos de irmos para onde não se quer.

É um problema estrutural, como dizia.
Não tenho dúvidas que é também um problema estrutural, porque do ponto de vista da história, dos adeptos, do poder social, é um clube enorme. E com recursos. A nossa Academia foi quase pioneira. O Vitória de Guimarães já tinha uma espécie de academia e outros clubes também, mas o Sporting foi pioneiro na Academia. E não tenho dúvidas de que continua a ser uma grande Academia de futebol, uma grande formação de jogadores. Mas que houve alterações ao longo do tempo que foram penalizadoras, com lideranças completamente distintas, que fizeram com que o Sporting fosse perdendo capacidade de mercado e de conquista e naturalmente perdendo a capacidade de ter nos títulos, houve.

Com Roquette e jogadores no primeiro Centro de Estágios do Sporting, em 1997/98

Com Roquette e jogadores no primeiro Centro de Estágios do Sporting, em 1997/98

D.R.

Naquela fase da sua vida, já tinha casado?
Na fase da equipa B para a equipa A, juntei-me com aquela que é a mãe da minha filha, a Sara, mas mais à frente separamo-nos. A Sara nasceu em setembro de 2009, num fim de semana de paragem de seleções, tive essa sorte, e consegui assistir ao parto. Mas depois quase "desapareci" de casa porque tinha jogos ao fim de semana, jogos a meio da semana. Coincidiu com fazer aquelas três semanas na equipa principal. Não foi fácil. Naturalmente que as mães precisam da atenção do pai para ajudar em várias coisas, ainda por cima os pais da mãe da Sara são de Viana, os meus são da Madeira, estávamos quase sozinhos, a viver no Meco, afastados de tudo e de todos.

Entretanto faz o jogo com o Rio Ave, como treinador principal do Sporting.
Sim, estávamos a ganhar 2-0, depois o Daniel Carriço é expulso. Nunca me esqueço dessa expulsão, pelo Soares Dias. Tenho ideia também das substituições que fiz, entrou o Felipe Caicedo, hoje tinha feito diferente, mas na altura quis seguir a linha do Paulo, não queria mudar muita coisa. Entrou o Angulo, quem sabe não devia ter entrado o Adrien, que estava no banco, e em vez do Caicedo devia ter entrado o Saleiro, que eram no fundo os meus meninos. Acabei por manter a linha da maturidade. Embora o Filipe era um miúdo novo que depois faz uma belíssima carreira, está a jogar em Itália, tinha um potencial enorme. Mas quem sabe não devia ter metido mesmo o Adrien e o Saleiro, não meti e pronto acabamos por empatar 2-2, já com menos um em campo.

Quando vem o Carvalhal o que lhe dizem?
O presidente era o Dr. Bettencourt que me convida para ficar na equipa técnica. Uma espécie de treinador interino do Sporting. Foi um momento em que sabia que ia tomar uma decisão que podia mudar a minha vida. Para o bem para o mal. Ia mudar. Porque eram 15 anos no Sporting e eu até podia falar com o Paulo Bento e dizer-lhe que queria continuar no Sporting, fosse na equipa técnica ou como treinador de juniores ou juvenis, não interessa. Mas quando o Bettencourt convida-me eu digo que não vou ficar, porque quem me deu oportunidade de ir para a equipa principal foi o Paulo, e sentia que naquele momento tinha de sair também por uma questão de respeito pelo Paulo. Não foi fácil. Nunca tinha estado fora, nunca tinha estado desempregado.

O que fez a seguir?
De repente fui para o Meco, com a Sara com quatro, cinco meses. E não ter o trabalho diário, o levantar para ir trabalhar, não foi nada fácil. Gerir o tempo todo que tinha, quando era altura crucial para dar tempo de qualidade à Sara, eu hoje sinto que não o fiz, não pelo tempo que lhe dediquei mas porque a minha mente não estava bem, precisava de trabalhar, queria voltar a trabalhar. Estive desde novembro até outubro de 2010, praticamente um ano, em casa com a miúda e a mãe dela, que entretanto tinha deixado de trabalhar porque o futebol dava para vivermos.

Leonel fez parte da equipa técnica que orientou a equipa de sub-16 e sub-17 em 2000/2001

Leonel fez parte da equipa técnica que orientou a equipa de sub-16 e sub-17 em 2000/2001

D.R.

Acaba por ir para a seleção com o Paulo Bento. Quando ele lhe diz que é para assumirem a seleção A, qual foi a sua reação?
“Não. É mentira, não pode!”. Foi uma coisa incrível. Foi inesperado. Acredito que o Paulo, porque também fez parte da seleção enquanto jogador, que conhece aquele meio, um dia podia ter a ambição de ser selecionador, mas não sei se na altura já a tinha. O Paulo é escolhido pelo bom trabalho que fez durante aqueles quatro anos, pelo perfil, o tipo de pessoa que é, frontal, honesto, trabalhador, sério. E porque depois também teve a ajuda da Olivedesportos, do Jorge Mendes, no fundo das pessoas que tinham alguma influência de decisão, na Federação. Foi um privilégio enorme fazer parte daquela estrutura.

É um mundo completamente diferente dos clubes?
Completamente diferente. Uma das coisas que me surpreendeu foi o poder da federação enquanto instituição. Na capacidade de organização, na forma como tudo estava preparado e organizado, as pessoas que lá trabalhavam, a seriedade, o profissionalismo, não faltava nada. Vivíamos num mundo top, top mundial. Um mundo em que está tudo organizado, é tudo muito claro, não havia interferência exterior no nosso trabalho, aquilo que pedíamos, de uma forma equilibrada e sem abusos, era tudo correspondido. Fosse um programa, um computador ou ver jogos no outro lado do mundo. E se era preciso visitar um jogador ou ver um jogo, estava tudo preparado, a viagem, a estadia, os transferes, o bilhete no sítio, sempre muito bem colocados nos estádios, a maior parte dos jogos íamos ver para a tribuna, nos camarotes. A FPF interna e externamente era reconhecida. Um treinador de federação que fosse a um país qualquer era reconhecido e tratado com deferência. Depois era a família que ali existia. Não só as pessoas que lá trabalhavam como os jogadores.

Todas as rivalidades ficam de fora?
A maior parte dos jogadores estavam ali porque eram escolhidos, e estavam ali também já num trajeto longo. A maior parte deles fazem parte das seleções desde os 16, 17 anos, à exceção de três ou quatro que vão entrando e saindo. Mas havia um núcleo, que era uma alegria enorme cada vez que se encontravam. Levam aquilo com um lado responsável mas também com um lado muito familiar, de relações, de convívio, de conversas, de partilha. Depois, o privilégio que tive também enquanto profissional de encontrar mais de metade dos jogadores que fizeram parte do meu crescimento enquanto treinador. É só olhar para a lista de jogadores que ali estavam. E foi extraordinário lembrar-me deles aos 13, 14 anos, dos defeitos deles nessa altura, e aos 22 e 23 anos ver que alguns deles ainda tinham os mesmos defeitos [risos].

Dê-nos lá um exemplo.
Nós tínhamos um jogador que no jogo aéreo era horrível, andamos a fazer trabalho individual com ele, e continua com dificuldade no jogo aéreo. Havia um médio que raramente fazia remates de meia distância, fez um golão há pouco tempo, mas não rematava e nós insistimos muito com ele para rematar e para treinar isso. Mas alguns não conseguiram dar determinados passos em aspetos importantes.

Equipa técnica do Sporting B em 2003. Justino, Luís Alegria, Iordanov e Leonel Pontes

Equipa técnica do Sporting B em 2003. Justino, Luís Alegria, Iordanov e Leonel Pontes

D.R.

Como é que os jogadores têm tendência a juntar-se na seleção, por personalidades, idades?
Havia o núcleo duro, jogadores mais maduros...Muitas vezes os jogadores quase se juntam não só pela familiaridade, mas quase por estatuto. No avião, por exemplo, quem tem mais internacionalizações é quem vai à frente. Há regras, que têm a ver com o número de internacionalizações e com o estatuto que se vai ganhando na seleção e nos clubes. Mas a relação entre eles era muito boa.

A referência é Cristiano Ronaldo, todos sabemos. Os outros tentavam imitá-lo no estilo, nas roupas, etc.?
O processo de imitação acontece mais nos jovens, ali já não, porque estão todos no mesmo patamar, são todos profissionais, mas nos jovens acontecia muito, no juvenis e juniores é que se tenta imitar os grandes jogadores. Aliás, o Ronaldo criou a sua própria imagem mas também imitou outros quando era mais novo. Muitos imitaram Ronaldo nas malas, na roupa, no calçado, brincos, tudo, mas na seleção principal não. Há respeito pelos mais velhos, os mais novos baixam a bola, não andam ali em bicos de pés, mas há essencialmente respeito pelo capitão. Lembro-me que o Ronaldo é promovido a capitão pelo Scolari e eu falei com ele e disse-lhe que não gostava de o ver a capitão.

A sério? Porquê?
Eu disse-lhe "é uma carga de responsabilidade para ti, tu precisas estar liberto das responsabilidades para exponenciares todo o teu futebol. Precisas de ter liberdade e não peso". Porque ele é um jogador responsável e um jogador às vezes quando tem esse excesso de responsabilidade fixa-se tanto em tanta coisa que esquece-se do essencial, que é jogar à bola. Mas enganei-me. Quando cheguei à seleção e percebi o peso, entre aspas, e a importância que ele tinha para toda a gente... Ele era o primeiro de todos, naquilo que era a atitude, comportamento, postura, exigência. Ele como capitão encarna perfeitamente o papel. Com alguma dificuldade às vezes de se expressar no início, mas com uma grande capacidade de liderar, de exigir, de puxar.

Viu-o alguma vez a dar uma dura?
Ó, muitas vezes. A chamar a atenção por causa dos atrasos, chamar a atenção das pessoas quando falhavam, pequeninas coisas que não funcionavam muito bem e ele vinha falar com o seleccionador, defendia os colegas. Exigia, as folgas, isso tudo, ele participava: "A gente faz isto, mas depois há aquela folga". Havia ali um ajuste de contas. Foi fantástico. Foi das lideranças mais vincadas, pelo exemplo, além de ser um grande jogador. Mas depois havia à volta dele também um conjunto de jogadores que eram muito sérios. Bruno Alves, Pepe, Ricardo Costa, vários jogadores que tinham uma postura muito correta.

Leonel fez parte da equipa B do Sporting, aqui em julho 2003

Leonel fez parte da equipa B do Sporting, aqui em julho 2003

D.R.

O que aconteceu para Tiago e Ricardo Carvalho e Tiago quererem sair da seleção?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O Tiago que eu saiba simplesmente não quis vir mais à seleção. O Ricardo resolveu sair porque achou que não ia jogar a titular e desertou, foi-se embora.

O Paulo Bento teve alguma conversa com ele antes dele abandonar?
Aquilo foi uma coisa espontânea. Ele percebeu que não ia ser convocado, penso eu, não me lembro de haver outros motivos, sentiu que o facto de ser um jogador com regularidade a jogar devia continuar a jogar, andava lá com uma dor na perna, às vezes treinava, não entrava, e o Paulo entendeu optar por outro jogador, neste caso foi o Bruno Alves e provavelmente em vez de jogar o Pepe com o Ricardo jogou o Pepe com o Bruno Alves. Estávamos a caminho do Chipre se não me engano e o Ricardo ao perceber, agarrou no carro e fugiu da seleção.

Nunca mais vos disse nada?
Penso que eles devem ter conversado, agora naquela altura o Paulo foi peremptório, e muito bem, que enquanto lá estivesse não ia jogar. Mas todos nós temos direito a sermos perdoados por aquilo que fizemos, tanto que o Ricardo depois fez parte da seleção com o Fernando Santos. Mas quem sabe a FPF devia ter uma mão a dizer "Não. Um jogador que deserta, que abandona...Se não estás para os momentos difíceis não podes estar para os bons momentos". Era legítimo se a FPF o fizesse também.

Esse foi o momento de maior tensão na altura?
Sim, foi um momento difícil. Difícil de entender de um jogador que era tranquilo, que fazia o seu trabalho, bom jogador. Apesar de o Ricardo ter uma personalidade muito diferenciada, não é um jogador comum, às vezes parece que nem é jogador de futebol, mas um grande jogador.

Porque é que não parece um jogador?
Pela forma como veste, como vive, na forma de estar, não tem aquele estereótipo de jogador da bola. Na verdade era um grande jogador e que teve esse comportamento que é de lamentar. Mas há momentos na vida em que todos também o temos. E ele teve esse momento. O Tiago não quis mais representar a seleção. O Paulo chamou-o, falou com ele e ele não quis vir. Às vezes não sabemos os reais motivos que levam a tomar essas decisões.

O Paulo Bento dava-se bem com todos?
Que eu saiba sim. O treinador da seleção é que os escolhe. E é mentira que haja pressões exteriores de empresário de B ou C. Pelo menos connosco. Eram escolhidos por nós, com a decisão final do Paulo. Tínhamos um leque de 50 jogadores em observação e em função do rendimento, da necessidade momentânea, eram escolhidos dentro desses critérios.

João V. Pinto, Paulo Bento e Leonel Pontes

João V. Pinto, Paulo Bento e Leonel Pontes

D.R.

Fizeram duas grandes competições, o Euro 2012 e o Mundial do Brasil em 2014. Qual dos dois ficou-lhe mais atravessado?
Tenho dois momentos marcantes. O jogo com o EUA, em que empatamos 2-2 e tínhamos de ganhar. O efeito do jogo da Alemanha, em que perdemos 4-0, foi enorme. Nesse jogo perdemos muita coisa, não foram só três pontos. Perdemos jogadores, uns por lesão, outros por castigo e aí perdemos a coesão necessária para dar resposta aos dois jogos seguintes. Acho que tínhamos de passar à fase seguinte no campeonato do mundo, ainda por cima no Brasil. Aquela meia final com a Espanha em 2012 foi outro momento marcante. Podemos falar em sorte e azar, mas não fomos competentes a bater penáltis e eles foram. Jogamos contra a equipa que tinha sido campeã do mundo em 2010 dois anos depois, e acho que tínhamos condições de passar à final.

Sai da seleção ainda antes de Paulo Bento. Porquê?
Eu quando vou para o campeonato do mundo já sei que vou ser treinador do Marítimo. Eu ia ver um jogo e quando aterrei em Munique, tinha uma chamada de um número que não conhecia. Liguei de volta e era o presidente do Marítimo que quero falar comigo.

Quando lhe fez o convite qual foi a sua primeira reação?
Vou, direto. Aliás, os jogadores já me diziam que estava na altura de assumir, de ser treinador principal. Perguntavam-me quando é que assumia. Por isso aceitei. Pensei, falei com o Paulo e com algumas pessoas.

O que lhe disse o Paulo?
Ele achava que era legítimo e normal eu seguir com a minha carreira. Fui muitos anos adjunto. Quem sabe não devia ter saído mais cedo até.

Com a Taça de Portugal em 2007

Com a Taça de Portugal em 2007

D.R.

Como foi voltar à terra natal para treinar o maior clube local?
Acho que, para primeira vez, a experiência no Marítimo correu muito bem. Atenção que, uma coisa é tu seres treinador principal há muito tempo, até da formação, outra coisa é estar como adjunto durante muitos anos. Estive 11 anos como adjunto. Dois como adjunto na equipa B, uma nos juniores, quatro no Sporting e quatro na seleção. De repente fui assumir uma equipa sénior, num mundo que eu não dominava muito bem, o mundo acima do treinador principal.

Está a falar dos presidentes e administradores das SAD's?
Exato. Os meus presidentes até aí foram Fernando Gomes, um senhor. O Dr. Bettencourt, um senhor, Soares Franco, um senhor, Roquette... Nunca tive problemas com dinheiros, ganhando mais ou menos, eram contratos certos, não havia truques, não havia contratos de representação, nem dinheiros extras, havia aquilo que era, e era tudo claro. Nem discutia contrato, no fundo era o Paulo enquanto treinador que orientava as coisas. E de repente entro nesse mundo que não conhecia. E não há como entrar no Marítimo para perceber que é um mundo difícil de gerir. Primeiro tens de ter um advogado que te represente e bem. Depois tens de estar muito convicto das decisões que tomas e das ideias que tens para o que tu queres. E uma das coisas que não soube fazer foi jogar com a paixão do presidente. Ele é que me escolheu e não foi fácil o processo inicial. Tínhamos muitas divergências.

Em quê?
Desde logo na forma como o contrato foi feito e sobre alguns jogadores que não queria que continuassem, já eram jogadores que do ponto de vista do rendimento e da idade não deviam corresponder; sobre o recrutamento, nós não tínhamos jogadores de equipas grandes eram tudo jogadores do Brasil ou que estavam em contextos estranhos e difíceis mas que o presidente acreditava que podiam vir a dar uma boa resposta. Tínhamos algum poder nas contratações, mas vinham jogadores não tinha sentido nenhum virem, mas que no fundo eram tentativas de apostas. Obrigava-nos a ter plantéis grandes, que não tinham muita qualidade.

Foi sozinho ou com a família?
Fui sozinho. Esse foi o momento mais difícil porque não foi consensual a minha ida para a Madeira. A Sara tinha quatro anos. Fui sozinho. Depois senti um envolvimento muito grande da minha própria família, que sem querer criou-me uma pressão enorme. O Marítimo ganhava e era um alívio, perdia e aquilo era uma dor porque toda a gente sofria, porque as derrotas do Marítimo eram as derrotas do familiar direto. Vivi no meio de muita gente, muita solidão ali, numa primeira fase, enquanto não me adaptei. Mas curiosamente foi a fase de melhores resultados. A maior parte das decisões eram coletivas, da equipa técnica.

Com Paulo Bento na casa do Manchester United

Com Paulo Bento na casa do Manchester United

D.R.

Que foi escolhida por si?
Sim, menos um, quase imposto, que acabou por se portar mal comigo. É a vida. Mas conseguimos construir uma equipa boa, arranjamos um equilíbrio, tanto que até tenho uma medalha de bronze do jornal Record, porque estávamos em 2º lugar à 8ª jornada se não me engano. Estávamos a fazer um campeonato crescente. Fomos descobrindo o nosso caminho, experimenta aqui, experimenta acolá, tira um, põe outro e na verdade chegamos a janeiro e potenciamos o Fransergio que estava na equipa B e raramente jogava. Potenciamos o Danilo. Disse-lhe que ele ia estar na seleção nacional e estava. Potenciamos o Edgar que não jogava, lançamos o Xavier que estava na equipa B e agora joga no Panathinaikos. Lançamos o Fábio Abreu, fomos buscar o Dyego Sousa que estava no Portimonense, fomos buscar o central Raul que agora está no SC Braga. Potenciamos o Maazou que estava há dois anos no V. Guimarães e tinha dois golos. Eu não queria o Mazu, porque tinha tido problemas de comportamento no Guimarães, mas o presidente entendeu que queria comprá-lo. Eu disse ao presente que íamos então potência-lo e que em janeiro vendemo-lo. A verdade é que o Maazou foi vendido e faz o melhor período da carreira dele, é só ir ver as estatísticas. Em cinco meses fez 11 golos e foi vendido por 1,2 milhões de euros. Ou seja, aqueles cinco meses de trabalho foram muito bons, fizemos coisas maravilhosas.

E menos bom?
Perdemos 3-0 com o Nacional em casa, Vínhamos de uma vitória de 4-0 contra o Boavista, tivemos três ou quatro lesões, jogadores castigados e a equipa foi reformulada do meio para trás e perdemos 3-0. Depois ganhamos ao SC Braga do Sérgio Conceição, apuramos a equipa para a meia final da Taça da Liga, e perdemos com o Nacional outra vez em casa para a Taça de Portugal. Perdemos 4-0 em casa com o Benfica e logo a seguir ganhamos ao FC Porto, 1-0. A nossa equipa jogava bem e para o ataque. Entretanto, no meio disto tudo, houve alguma ingerência no meu trabalho por parte da direção e ao mesmo tempo despediram um adjunto sem o meu consentimento.

Por que razão?
Para tentar enfraquecer a minha posição. Curiosamente o Maazou tinha sido vendido, o Dyego estava lesionado, houve um conjunto de problemas que tivemos ali e nunca foi equacionado que com a oscilação de rendimento naquela fase tinha que se fazer o contrário, proteger o treinador, resolver os problemas que tínhamos para resolver e continuar. Não. Foi enfraquecer o treinador, tirar um adjunto da equipa e tomar um conjunto de decisões mesmo para o treinador ir embora. Bati com a porta. Aliás eu devia ter saído logo quando ele me tirou o adjunto, esse foi um erro meu.

Depois do Sporting, Leonel Pontes mantém-se como adjunto de Paulo Bento na seleção

Depois do Sporting, Leonel Pontes mantém-se como adjunto de Paulo Bento na seleção

D.R.

Como surge a Grécia a seguir?
Vim embora em março. Foi um momento difícil porque não esperava sair do Marítimo assim. Não é fácil digerir aqueles momentos pós. E aparece o Panetolikos.

Através de quem?
Nunca consegui perceber quem lança o meu nome lá, porque houve vários agentes que falaram nisso. Isso era outro mundo que também não conhecia bem, a relação dos treinadores e agentes, eu não tinha nenhum agente específico. A verdade é que quem me contactou foi o diretor desportivo.

Ir para fora, para a Grécia estava no seu horizonte?
Eu queria trabalhar. Em Portugal não tinha nenhum convite. O convite apareceu no final da época 2015 e aceitei. Ia para a I Liga. As condições do clube eram boas, consegui levar a minha equipa técnica à excepção do treinador de guarda-redes. Levei treinador adjunto, preparador físico, e um analista. Fui sem família, embora tenha tido a visita da Sara e da mãe da Sara.

Esteve lá pouco tempo. Porquê?
Quando entramos em junho o clube tinha ficado em 6º ou 7º lugar e tinha apenas dois anos de I Liga. Eles queriam chegar ao playoff, mas mandaram 11 jogadores embora. Eu faço a pré-temporada com juniores e com os restantes. Difícil arranjar jogadores. Não ganhamos um jogo na pré-temporada contra as equipas da I liga. Com as equipas de II Liga, ganhávamos à rasquinha. Ou seja, a expectativa sobre esta equipa baixou. Quem teve de andar a telefonar a jogadores fui eu. Lembro-me de andar a telefonar para o Brasil para o Marcos Paulo. O nosso guarda-redes, o Bracali, que tinha sido o melhor jogador da equipa na época anterior não ficou, foram buscar outro. 1ª jornada, estamos a ganhar 1-0 ao Panathinaikos e nos 10 minutos finais perdemos 2-1. Mas a expectativa até cresceu um bocadinho porque a equipa deu uma resposta fantástica para quem não acreditava nela. No segundo jogo ganhámos 2-0, o terceiro ganhamos, o quarto empatamos. Portanto, à 4ª jornada estávamos com 7 pontos. Muito bom.

O que aconteceu então?
Na 5ª jornada fomos jogar à ilha de Lesbos. Foi quase um dia de viagem de avião e autocarro. Não tínhamos quarto para todos, tive dois jogadores com intoxicação alimentar. Era a ilha dos refugiados e o hotel estava cheio, metade da equipa ficou a dormir nos sofás nos quartos dos colegas. Eu não sabia que aquela ilha era tão húmida, fomos jogar às quatro da tarde e parecia que estávamos a jogar em setembro nos Barreiros. Abafado. Perdemos 5-1. Portanto, à 5ª jornada, tínhamos duas vitórias, duas derrotas e um empate. Nesse mesmo dia, acabou o jogo, o presidente estava na Suécia e ligou a dizer que a equipa técnica portuguesa estava despedida e que tínhamos uma reunião na segunda-feira. Foi assim. E isto é difícil de explicar e entender quando se olha só para os resultados e não se percebe como é possível um clube com aquela dimensão que perdeu tantos jogadores, inicia um campeonato daquela forma, em cinco jogos faz sete pontos o que é bom para aquela qualidade.

No balneário da seleção a conversar com Bruno Alves e Pepe

No balneário da seleção a conversar com Bruno Alves e Pepe

D.R.

Veio embora e o que acontece?
Saio, desiludido, a pensar "Rebentou com a minha carreira, não sei o que é que vou fazer". E há um jogador que contratei chamado Vida que veio do Ittihad egípcio. E logo que saio ele telefona para o presidente do clube egípcio que precisava de um treinador e diz "leve este treinador que ele é bom. Ele escolheu-me para aqui". Esse jogador acaba por ir para o PAOK. E de repente vou para o Egito, um mês depois de chegar da Grécia.

Qual foi o primeiro impacto?
Horrível. Fui para Alexandra, uma cidade gigante com 10 milhões de habitantes. Colocaram-me num hotel pouco cuidado. Os jogadores estavam lá em estágio. Apresentam-me um tradutor que falava mal inglês. Tenho uma reunião de direção com uma carrada de gente. Os jogadores estavam concentrados e eu estava de frente para os jogadores a vê-los entrar e sair a comer. Eu estava maluco a ver aquilo. Entretanto depois vi a entrevista do Mladenov, antigo jogador do Belenenses que tinha lá estado, e ele dizia que faltavam bolas e que as condições eram más, não havia dinheiro. Falei com o agente que me levou e que disse que era uma nova direção, que as coisas estavam a andar bem, havia dinheiro. Sim senhor. Assinei um contrato de dois anos que financeiramente era muito bom. Assino e recebo um mês. Só podia levar uma pessoa para a equipa técnica. Levei. Até aí tudo bem.

E depois?
Na primeira semana arranjaram uns campos mais ou menos bons para treinar. A seguir, horrível. Só recebi o primeiro mês. Fizemos oito jogos, estávamos em 5º lugar. Mas ao longo desse tempo as condições de trabalho eram cada vez piores, lembro-me do roupeiro levar as toalhas amarradas numa corda jogadas no fundo da camioneta. Os campos eram ervados. Havia um campo que tinha uma lixeira ao lado, tínhamos de atravessar a lixeira para chegar ao campo; as cabines horríveis. Comecei a falar com os jogadores e havia um brasileiro, o Paulo César, que me dizia que tinha dois filhos no Brasil mas que só ganhava cinco mil dólares e que já lhe deviam dinheiro há três meses, que estava com dificuldades e que o senhorio o queria pôr na rua. E que não era caso único. Entretanto, começamos a ganhar jogos e os prémios de jogo eram elevados mais 500€ de prémio de jogos e eles não pagavam. Começou a azedar e eu do lado dos jogadores. Depois percebi que o jogador brasileiro que lá estava e tinha o contrato mais alto do plantel que eram 15.000 dólares, só recebia 5000.

Alguém ficava com o dinheiro ou não lhe davam mais do que isso?
Quando eu soube quis matar o empresário. Enganaram o jogador que não percebia nada de inglês. Havia alguém a ganhar 10.000 dólares. O contrato dele que estava no clube era de 15.000 mas ele só recebia 5000. Os outros 10.000 era o empresário que estava a receber. Lembro-me de ter um jogo com o Ismaili, no Canal Suez e houve um diretor que levou uma mala de dinheiro. Pensamos que ia pagar os prémios todos e só pagou uma ninharia. Andava lá a dividir pelos quatros. Na semana seguinte fizemos greve a um treino. Os adeptos começaram a manifestar-se contra a direção, estiveram sempre do nosso lado.

A cumprimentar Cristiano Ronaldo à chegada a um estágio da seleção A

A cumprimentar Cristiano Ronaldo à chegada a um estágio da seleção A

D.R.

Qual foi o resultado disso?
Entretanto, fizemos oito jogos sem ganhar, porque a moral dos jogadores estava tão baixa que era difícil. Sem dinheiro, fracas condições, direção ausente, aquilo era um caos. Quando eu saio, reunimos no clube para a rescisão do contrato. O antigo diretor, porque a direção não apareceu, o meu adjunto, o tradutor e o empresário. Estávamos reunidos e ouvimos um barulho. Aquilo era uma espécie de condomínio onde só entram sócios. Fomos à janela ver e um diretor que ia entrar para a reunião foi agredido pelos adeptos e foi parar ao hospital. E de repente entra na reunião o chefe de claque, para dar uma dura ao diretor que lá estava. Disse bem de mim e que me tinham de pagar e que a ele também tinham de pagar os prémios de jogo. Ou seja, eles também pagavam prémios de jogos ao chefe da claque. Ele quis tirar uma fotografia comigo e depois foi-se embora [risos]. Era um clube cheio de incoerências.

Como assim?
Não tínhamos campos para treinar, mas uma vez fomos jogar a Assuã, que fica a 1000 km do Cairo, tivemos de fazer três horas de autocarro para o Cairo e depois fizemos a noite toda de comboio, chegamos de manhã e, outra vez camioneta até à cidade. As outras equipas iam de avião. Vamos para o hotel e de repente paramos à frente de uma estação fluvial e tínhamos um barco à nossa espera. Então o hotel ficava no meio de uma ilha, a meio do Nilo. Um hotel 5 estrelas de luxo. Eu só pensava "Não é possivel". O hotel faz parte dos postais de Assuã, é de luxo. Não faz sentido. Fizemos esse jogo perdemos 1-0. Uma azia, a viagem toda de regresso nos mesmos moldes e aí chutei o balde. Dei uma entrevista. Porque aquilo era muito penalizador para todos. Acabamos por rescindir, mas só recebi dois anos depois; tive de mete-los na FIFA. Não o dinheiro todo do contrato, aquilo que acordamos, atenção. Porque chegamos a um acordo de cavalheiros, e eu até fui simpático, e mesmo assim não queriam pagar.

A orientar um treino da seleção com Paulo Bento

A orientar um treino da seleção com Paulo Bento

D.R.

Quando vem embora do Egipto, a Hungria surge logo a seguir?
Sim, no início da época 2016/17. O agente que me leva tinha jogado lá e apresentou o meu currículo ao clube. Fui visitar e fiquei maravilhado, sobretudo, depois de vir da realidade de onde vinha. Chego e vejo uma academia com 11 relvados muito bem tratados, sala de musculação, sala de palestras, refeitório, um estádio lindo de morrer, novo, no meio da floresta. Vejo uma história de clube interessante, adeptos. Financeiramente foi dos melhores contratos que tive.

Não havia nada mau?
A grande dificuldade foi a cultura porque estamos na Europa mas eles ainda viviam muito o império austro-húngaro e ainda acham que são superiores aos outros. Quem vem de fora tem muita dificuldade. Não falam inglês. Budapeste é uma coisa, Debreceni, é outra. Tem uma cultura desportiva muito forte mas para os desportos individuais, à excepção do andebol onde são muito fortes.

Tinha tradutor?
Não. Quem traduzia era o diretor desportivo. Os jogadores diziam que percebiam, mas a maior parte não percebia nada, tinha de andar com grandes filmes. Eu tinha de ter um quadro tático no relvado enquanto treinava. Era difícil. Depois era o tipo de jogadores. Muitos húngaros, normal, sérvios e romenos. Do ponto de vista cultural davam-se muito mal por causa da rivalidade entre países. Os húngaros perderam império para a Roménia e para a Sérvia, então aquilo não é fácil. Há uma rivalidade que é bem vincada. Num dos jogos o guarda-redes agrediu um húngaro da sua própria equipa, dentro de campo. Foi para cima dele completamente louco. Mas foi um desafio enorme porque as condições eram boas e gostei de lá estar. Tinha uma casa boa, um bom carro, um bom contrato. Mas muita dificuldade em arranjar jogadores.

Porquê?
O presidente era um problema. O presidente foi indigitado pelo governo para ser presidente daquele clube e tinha o seu fundo de maneio em dois casinos. Ele era jogador. Em todos os treinos, e isto é literal, ele sentava-se numa cadeira a ver o treino junto à linha lateral. Poucos treinos não viu. Queria opinar sobre o treino, a estratégia, os jogadores, só que ele não fala nada inglês, só falava húngaro e como não havia tradutor, só de vez em quando é que a gente conseguia conversar. Logo nas primeiras semanas, reuni no meio do campo com os jogadores e disse-lhes "Estão a ver aquele senhor que ali está, ele é o presidente do clube, mas aqui dentro destas quatro linhas quem manda sou eu, mais ninguém". Foi uma guerra que tive. Tanto que houve um jogo treino com uma equipa da II Liga em que no fim da 1ª parte estávamos a ganhar 2-0 e na 2ª parte mudei radicalmente a equipa. Perdemos 3-2. Mas era um jogo treino. No final do jogo o presidente veio para a cabine falou, falou, e era o diretor desportivo a tentar traduzir. Foi um vexame. Esse foi um momento difícil, assim como o timing em que entramos. Porque entramos numa sexta-feira, tivemos jogos sábado, empatamos 1-1, jogamos na quarta-feira, perdemos 1-0 e na jornada seguinte fomos ao Videoton, que era a melhor equipa, e perdemos 4-1. E um treinador que entra e em 3 jogos empata um e perde dois, o impacto não é fácil. Depois fomos irregulares.

Leonel, já como treinador do Marítimo, a dar indicações durante um jogo

Leonel, já como treinador do Marítimo, a dar indicações durante um jogo

Joana Sousa

Entretanto vem embora, porquê?
Tive um problema de saúde que começou em novembro de 2016.

Que problema?
Em novembro andava com uma dor no rim do lado direito. Fui ao médico do clube, fiz exames, análises e ele deu-me uns comprimidos para tomar durante um mês. Entretanto falei com um médico, urologista, que era amigo do meu irmão. Mostrei-lhe os exames, ele entrou em contacto com o médico do clube. No iniciou de dezembro continuava com aquela dor. Novos exames e faço uma biópsia. O resultado deu negativo. Mas num dos exames via-se uma massa entre a bexiga e o ureter que é o canal que liga ao rim. Chegamos à conclusão que essa massa estava a comprimir o ureter, a urina subia não ia para a bexiga e provocava a dor. Meteram-me um tubo no ureter para a urina passar. O médico disse-me que tinha de ser operado em janeiro. Nessa altura estávamos a preparar um estágio em Portugal, no Algarve, porque ia haver uma paragem de inverno. Disse ao médico "Ó Dr. não vou ser operado. Por amor de Deus vamos ter de resolver isso de outra forma". Ele lá acabou por aceitar meter o tubo que tinha prazo de validade até março. Em março controlavamos, se a massa aumentasse tinha de ser logo operado, se não, logo se via. Em março tiro o tubo, meteo outro. Avaliaram a massa, estava ela por ela. Eu disse logo que até final da época era um instantinho, três meses e que seria operado no final da época, em junho. E assim foi.

Foi operado e depois?
Tiraram aquela massa, fizeram biópsia, era benigno. Neste momento tenho apenas uma bexiga ligeiramente mais pequena. E claro como tive de ficar 15 dias no hospital, levei 50 pontos e a recuperação demorava, decidimos não ficar na Hungria.

Esteve um ano parado?
Estive um ano na Sport TV. Gostei muito da experiência, permitiu-me estar envolvido no futebol, ver jogos, analisar jogos.

À conversa com Fernando Santos

À conversa com Fernando Santos

Helder Santos

Não teve convites durante esse ano?
Tive só dois convites de Portugal. Um para o União da Madeira, II liga, não aceitei

Por ser II liga, por causa das condições, por ser o clube que era ou tudo junto?
Não aceitei por causa das notícias que fui ouvindo do União da Madeira, também por ser II liga. Era uma equipa sem consistência, e eu não podia meter-me num barco desses e por aquilo que fui ouvindo do que era a história do clube. Tanto que o clube foi caindo a pique. Quando eu saí do Marítimo, eles estavam na I Divisão e não me convidaram e eu propus-me a. E nessa altura achei que não era o melhor caminho. Entretanto fui convidado pelo Covilhã. Não aceitei porque as condições não eram as ideias na altura. E no final dessa época 2017, recebi um convite para ir para Espanha. Uma abordagem de um empresário para um clube da II B, o Jumilla, que ia fazer um protocolo com o Wolverhampton. Queriam um treinador que soubesse falar inglês, português e espanhol, com alguma experiência com jovens. E fui ver.

Pelos vistos gostou do que viu porque ficou lá.
Era um clube que, com muito respeito, era tipo Alcochete. Relvado numa terriola pequenina, em Murcia, tipo Alentejo, calor. Uma bancada para 1000/2000 pessoas, numa cidadezinha onde não se vivia muito o futebol. Condições de treino fracas, um sintético, mas a ideia de estar relacionado com o Wolverhampton... O contrato era bom, feito pelo Wolverhampton, a reunião que tive foi com o diretor desportivo do Wolverhampton e da equipa principal. O objectivo era trazer jogadores de lá para terem uma experiência diferente fora de Inglaterra e potencia-los. Eu pensava que eram jogadores sobre os quais tinham perspetiva de futuro, mas rapidamente cheguei à conclusão que não era bem assim.

Então?
O protocolo surgiu porque o presidente do Jumila era amigo do presidente do Wolverhampton. Só que eles não mandavam jogadores que tinham perspectivas futuras, mas jogadores que não cabiam nas equipas deles, porque eram fracos, mas tinham contrato. Jogadores juniores, de reservas e jogadores que nem cabiam na League One nem na Two. Estamos a falar da quarta e quinta divisões de Inglaterra. “Então o que fazemos com eles? Eh pá, vão para o Jumilla". E assim foi. Recebi nove jogadores de lá. O Wolverhampton dava um dinheiro e o diretor desportivo e o presidente geriam esse dinheiro para a equipa técnica e para os jogadores. Primeiro problema, os jogadores estiveram muito tempo e alguns deles nunca saíram mesmo de um hotel de 5 estrelas, com tudo pago. Está a ver o investimento que não é? O início do campeonato foi difícil, exigente. Conseguimos fazer uma mescla entre jogadores vindos do Wolverhampton e alguns espanhóis que já faziam parte da equipa, uma equipa que tinha um ano. Aquilo era II B, mas os jogos eram televisionados, reportagem antes, depois, estádios com 15 mil pessoas, uma coisa já quase profissional.

Na Grécia, onde foi treinador do Paetolikos, depois de sair do Marítimo

Na Grécia, onde foi treinador do Paetolikos, depois de sair do Marítimo

D.R.

O que correu mal?
iniciamos muito bem. Quase todos os fins de semana vinha o diretor desportivo, o fisioterapeuta do Wolverhampton para ver como eles estavam, o médico, o responsável do recrutamento também ia lá de vez em quanto, o diretor da academia idem. Estiveram lá todos, iam-se revezando, os miúdos sentiam-se acompanhados e eu estava a gostar. Fui a Wolverhampton, estive como Nuno Espírito Santo, com os jogadores portugueses, o presidente do Wolverhampton levou-me para o hotel para conversar. Entretanto, há dois jogadores titulares, que começaram a ser observados por clubes espanhóis e em dezembro quiseram ir embora. Atrás deles foi um terceiro e ao mesmo tempo perdemos o capitão da equipa, que era um elemento fundamental. Ou seja, perdemos quatro jogadores ingleses, um espanhol capitão de equipa e um lateral direito que se lesionou. Pedi ao diretor desportivo do Wolverhampton para mandar mais jogadores.

E não mandaram.
"Vamos ver, está difícil". A verdade é que no mês de dezembro já tínhamos começado a sentir algum desleixo da parte deles, já não apareciam tanto. Em janeiro sou considerado o treinador revelação entre 80 equipas. No final de janeiro mandaram-nos um jogador lesionado. Tivemos de ir buscar jogadores ao sindicato. A equipa mudou, entramos em fevereiro, temos quatro derrotas seguidas e nunca mais nos encontramos até final da época. O Wolverhampton nunca mais apareceu desde janeiro. nunca mais. Ou seja, o apoio dele cortou. O presidente do nosso clube também desaparecia, ia para a China, aparecia de vez em quando. A verdade é que faltou apoio, faltaram jogadores.

Depois da Grécia, Leonel Pontes foi treinar o Ittihad Alexandria, no Egipto

Depois da Grécia, Leonel Pontes foi treinar o Ittihad Alexandria, no Egipto

D.R.

Como surge o Sporting a seguir?
A descida em Espanha foi dolorosa. Vim para Portugal e o Sporting convida-me para os Sub-23, com um contrato de dois anos. Uma casa que já conhecia para trabalhar com uma equipa técnica de que gostava. Tivemos uma relação muito forte. Uma das premissas era que, a equipa de sub-23 tinha tido muitos treinadores, numa época teve quatro ou cinco treinadores, e queriam estabilidade. Entrei, não conhecia a maior parte dos jogadores, começamos a trabalhar, tivemos 10 vitórias e chamam-me para a equipa principal.

Sabia ao que ia?
Mais ou menos, não sabia ao certo. Acho que a tentativa foi, ver o que dava. O Kaiser, sai mas os outros ficaram, ajustaram-me as condições financeiras para um treinador de I Liga. A comunicação para fora é que não foi a mais clara. O presidente diz "vai ser um tarefeiro". Ou seja, no fundo, se ganhasse ficava, se não ganhasse ia-se alterar. A verdade é que as condições à volta do treinador não foram as melhores e eu senti isso durante o processo. Não obstante, a verdade é que nós não ganhamos. Um dos jogos devíamos ter ganho.

Quando diz que as condições à volta do treinador não foram as melhores, refere-se em concreto a quê?
No fundo no suporte a vários níveis durante aquelas duas semanas. Porquê? Porque eu não fui apresentado como o treinador da equipa, fui apresentado como o elemento que vem aqui fazer uns jogos. Não foi uma coisa oficial, interna. E a mensagem para fora também não foi a melhor. Quem sabe o erro foi meu, porque o que eu devia ter decidido é: ou assume-me como treinador, fazemos um contrato em que escolho a minha equipa e vamos para a frente com o projeto; ou então assumimos que eu faço quatro ou cinco jogos enquanto arranjam um treinador. Isto era muito claro para dentro e para fora. Não foi isso que aconteceu e isso fez com que houvesse grande indefinição. Embora a minha função no fundo era tentar ganhar jogos e equilibrar uma equipa que vinha um bocado fragilizada de jogos anteriores. Com isto tudo, empatamos com o Boavista 1-1, jogamos muito bem como o PSV Eindhoven na Liga Europa mas perdemos 3-2, fizemos uma grande 1ª parte contra o Famalicão a ganhar 1-0, quando podíamos estar a ganhar por 2 ou 3 e perdemos 2-1 porque faltava consistência na equipa e houve decisões que eu tomei também que não ajudaram.

Que decisões?
Havia jogadores que não estavam preparados para a competição ainda. Havia jogadores lesionados. Tivemos o azar, e foi mesmo azar, de termos feito o jogo treino contra o V. Setúbal antes do jogo oficial com o Boavista, e perdemos o Luís Filipe e o Vietto, por lesão. O primeiro jogo com o Boavista, além de jogadores que vinham das seleções, que eram muitos, principalmente os sul americanos, tive de jogar com o Bolasie que nunca tinha jogado a ponta de lança sozinho e estava há três semanas na equipa. Tive de jogar com Jesé, que estava um bocado gordo e mal preparado para a competição; tivemos de jogar com o Rosier lateral direito, que andou lesionado durante muito tempo, ou seja, tivemos de jogar com muitas "deficiências" e empatamos 1-1. O último jogo que fiz foi com o Rio Ave, um jogo em que temos 19 remates contra 3 e eles ganham 2-1. No fundo faltou consistência e trabalho na equipa para conseguirmos ganhar jogos porque a equipa de 3 em 3 dias estava a jogar e não tivemos o engenho, nem a sorte de ganhar um ou dois jogos para estabilizar e preparar a equipa para outro nível.

Seguiu-se a passagem pelo Debreceni Vasutas Sport Clube da Hungria

Seguiu-se a passagem pelo Debreceni Vasutas Sport Clube da Hungria

D.R.

Quando percebeu que vinha aí substituto?
Eu sabia que se não ganhasse ia haver mudanças. Aliás, depois do Famalicão, começaram logo a aparecer nomes nos jornais, não sei se lançados pelo Sporting se por outros, mas a verdade é que apareceram vários nomes. Uma coisa é "vai para esta tarefa e eu acredito em ti e vamos com tudo" ou "vamos para isto a ver o que dá".

Os jogadores sentiram que estava a prazo?
Claro. Aliás os próprios jogadores manifestaram que não sabiam quanto tempo é que eu ia estar. E neste contexto saímos todos penalizados. Sai eu, enquanto treinador, saiu o Sporting e os jogadores, por uma falta de clareza naquilo que são as competências e as capacidades do treinador. Foi o que aconteceu.

Regressa à equipa de sub-23.
Sim, fizemos um campeonato que acabou em março por causa da pandemia. Estávamos na fase final, estava a ser bom, potenciamos muito jogadores. Da equipa de sub-23 que trabalhou connosco, seis jogadores foram para a equipa A, um está na B e outro foi emprestado, o Pedro Mendes. Mas estava a dizer, em março fomos todos para casa e no final da época o Sporting quer fazer uma equipa B. Começam a aparecer nomes de treinadores nos jornais. Umas vezes era o Leonel Pontes, outras vezes era o Filipe Martins, outras vezes eram outros. O presidente vai dar uma entrevista no Canal 11, falam no treinador da equipa B e ele não assume que posso ser eu o treinador e aí percebi. Ele disse que o Ruben Amorim tinha uma palavra a dizer em relação à escolha, não sei se tinha ou não. Só que entretanto a FPF diz que podiam entrar com a equipa B, mas que tinham de ter equipa de sub-23 à mesma.

Pensou que ficava à frente da equipa de sub-23?
Sim. Tinha contrato, estava tranquilo. Tivemos uma reunião e disseram-me que ia ser o treinador dos sub-23 e não da equipa B. Aí manifestei-me, disse que não tinha sentido porque trabalhei com aquele grupo de jogadores, potenciei os jogadores; fui o escolhido para a equipa A para ajudar naquele processo, e portanto achava que tinha mais sentido ficar na equipa B. Manifestei a minha opinião. Eles disseram que não, que tinham outro treinador para a B e que eu tinha de ficar nos sub-23. Eu aceitei os sub-23, mas dei a minha opinião. Uma semana depois telefonaram a dizer que não estávamos a caminhar no mesmo sentido, que eu não tinha motivação para treinar os sub-23 e que tínhamos de nos afastar contratualmente.

Chegaram a acordo?
Tinha um contrato e continuo com contrato até junho de 2021. Continuam a pagar. Mas foi um processo muito difícil que me magoou muito. Provavelmente fui um bocado efusivo na forma como manifestei que fiquei desiludido com a decisão porque gostava de ser o treinador da equipa B, por uma questão de coerência, não consigo entender ainda hoje porque não o fizeram. Ninguém me explicou também. E é isto.

Leonel Pontes dá indicações a um jogador do Jumilla de Espanha, clube que orientou em 2018/19.

Leonel Pontes dá indicações a um jogador do Jumilla de Espanha, clube que orientou em 2018/19.

D.R.

Já foi contatado entretanto por algum clube?
Tive uma proposta do Iraque, do Al-Shorta de Bagdad, estive em Bagdad três dias. Gostei do que vi, chegámos a acordo, mas não quis assinar lá, vim para cá tomei a decisão dois dias depois e isso prejudicou-me porque começaram a fazer-me muitas perguntas, depois já diziam que o valor do contrato era elevado e que o que o tradutor não podia ganhar tanto e acabaram por ir buscar outro treinador. Tive outra proposta do Egipto mas não eram as condições que idealizava e não aceitei. Estou a aguardar.

O que gostava verdadeiramente?
Gostava de ficar em Portugal. Aceito um clube de II liga com um projeto aliciante, que tenha organização, pessoas com credibilidade à frente. Eu preciso de voltar a trabalhar, até do ponto de vista do brio profissional, quero voltar. A minha experiência permite-me hoje dizer que sou capaz de trabalhar em qualquer clube em Portugal, mas a verdade é que tem sido difícil entrar, muito difícil.

Que razões encontra para isso?
Às vezes não consigo perceber os critérios que levam à escolha de treinadores. Provavelmente há uma imagem de mim enquanto treinador que eu não conheço ou que imagem é que passa. Porque já estive em clubes da I liga, já tenho alguma experiência daquilo que é liderar equipas, estive no campeonato do mundo, campeonato da Europa Liga dos Campeões em ene jogos, na Liga Europa...E vejo treinadores com menos currículo do que eu a terem as suas oportunidades e mesmo perdendo e mesmo descendo equipas em Portugal continuam a ter as suas oportunidades e eu não tenho tido uma oportunidade com consistência. Estou à espera que ela venha a acontecer, porque acho que posso vir a fazer bons trabalhos.

E voltar à formação está fora de questão?
Não gostava de voltar à formação. Foram muitos anos, acho que foi muito bom do ponto de vista pessoal, não me arrependo de nada, mas o investimento foi muito grande no futebol sénior, foram muitos jogos, são 12 anos no futebol sénior por isso não tem sentido voltar a formação.

Leonel com a filha Sara

Leonel com a filha Sara

D.R.

Tendo em conta a sua experiência nas camadas jovens considera que hoje temos jovens a entrar cedo demais nas equipas principais?
Em alguns casos sim. Passamos do 8 ao 80. Houve uma fase em que muitos miúdos sentiam muitas dificuldades para entrar nas equipas principais, entretanto começamos a ver exemplos de outros países. Por exemplo, quando jogámos com o PSV Eindhoven a média de idades era de 22 anos. O Borussia Dortmund é campeão alemão com um conjunto de jovens jogadores. Por outro lado, a incapacidade financeira dos clubes para dar resposta à competição é cada vez maior, porque gastam mais do que aquilo que ganham. Então onde é que a aposta terá de ser feita? Na formação. E a verdade é que uma boa parte dos clubes está a lançar jovens jogadores. E acho muito bem. Porque a partir dos 17 anos eles podem ser profissionais e o nível de maturidade futebolística da maior parte deles é mais que suficiente para jogar nas equipas seniores. Agora, muitos ao mesmo tempo, é outra questão.

Leonel do meio de Paulo e Aurélio Pereira

Leonel do meio de Paulo e Aurélio Pereira

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Hungria.

Tem algum hóbi?
Faço mergulho. Na Madeira já fazia, mas mergulho de garrafa comecei a fazer no continente. E corro. E gosto de jogar futebol, antes da pandemia todas as semanas jogava futebol.

É um homem de fé?
Sou. E sou praticante. Não sou um praticante regular, mas de vez em quando vou à igreja.

Superstições?
Quando era miúdo tinha uma coisa estranha que era, se eu der dez toques na bola vai acontecer isto que quero que aconteça. Se não conseguisse achava que não ia acontecer. mas depois esquecia-me [risos]. Hoje não tenho superstições.

Se não fosse treinador, o que teria sido?
Alguma coisa ligada à saúde, a ajudar pessoas.

Se pudesse escolher qualquer clube do mundo para treinar, qual seria?
A Juventus e o Manchester United. A Juventus pelo clube e pelo país, o Manchester pelo campeonato. Mas tenho o sonho ainda de treinar o Sporting.

Qual o treinador de quem gostava de ter sido adjunto?
Nunca pensei nisso, gostei muito de ter sido adjunto do Paulo Bento. Mas se pudesse escolher, gostava de ter sido adjunto do Bobby Robson ou do Ferguson.

Enquanto treinador, qual é o seu treinador de referência?
Gosto das equipas do Jorge Jesus, acho que tinham um nível de organização de alto nível.

Qual a maior alegria e a maior frustração da carreira?
Tive muitas alegrias, é difícil definir a maior. De uma forma geral, uma grande alegria foi ter representado a seleção nacional. Frustração foi não ter ganho nenhum jogo no Sporting nesta última passagem pela equipa principal.

A invasão à Academia de Alcochete surpreendeu-o?
Não, porque já tinha havido indicadores em outros anos. Já tinham acontecido pequeninas coisas no passado parecidas, de adeptos a quererem tirar satisfações.

Leonel Pontes foi treinador principal do Sporting durante quatro jogos na época 2019/2020

Leonel Pontes foi treinador principal do Sporting durante quatro jogos na época 2019/2020

Jose Lorvao

Não tem mais nenhuma história para fechar a entrevista?
Fomos jogar ao Al-Masry. E fomos jogar num estádio onde houve aquele massacre em que morreram 70 pessoas, cujo treinador do Al-Ahly era o Manuel José. Eu ia enfrentar o mesmo treinador que o Manuel josé enfrentou naquele dia. No estádio so podiam estar um xis número de pessoas à conta desse acontecimento. Havia muito pouca gente de parte a parte. O chefe de claque do Ittihad estava proibido de entrar nos estádios. De repente o jogo ainda não tinha começado e vê-se ele a correr nas bancadas e a policia atrás dele. O jogo começou. O treinador da equipa adversária, mais o irmão que era o secretário técnico, começaram com uma agressividade enorme para o árbitro. O jogo está a decorrer e de repente, na 2ª parte, olho para trás e vejo as duas direções à pancada, na tribuna. Eram socos, copos a voar... Uma coisa impressionante. O jogo empata 1-1. E nós em cima deles. Há um jogador nosso que começa: “agora é que vai dar, vamos 'matá-los', embora lá”. Há um canto e um sururu à volta desse jogador, mas o jogo continuou. Às tantas há um livre lateral a nosso favor, faltam cinco minutos para terminar o jogo e o árbitro acaba aí o jogo. Ficamos todos a olhar uns para os outros. Ele disse que estava muito perigoso, que podia dar muita confusão e por isso acabou o jogo. Entretanto, o nosso jogador é rodeado pelos jogadores adversários, mas como estava junto do árbitro aquilo ainda estava controlado. Vem o treinador adversário e o árbitro distrai-se e aquele grupo de jogadores, com o nosso jogador, afasta-se um bocadinho e há um pontapé no nosso jogador que começa a fugir em direção ao balneário. Atrás dele vão os outros jogadores, o nosso adjunto português, o Pedro, faz um bloqueio ao primeiro, até há foto disso, mas o segundo passa e vai a equipa toda lá para baixo. Bem, um enxerto de pancadaria que nem imaginam. Médicos, roupeiros, delegados, diretores, jogadores, tudo lá em baixo, aquilo parecia uma guerra. Saiu de lá toda a gente machucada. Quando estávamos a sair do estádio, estavam dois tanques de guerra, um à frente outro atrás da camioneta para nos levar à saida da cidade, onde tínhamos um restaurante à nossa espera para jantar. A meio do jantar entra a direção do Al-Masry. Vão todos para uma salinha. Chamam a nossa direção, chamaram-me, pediram desculpa e foram-se embora [risos].