Tribuna Expresso

Perfil

A casa às costas

“Joguei no Braga, na Europa, perdi a casa, fiquei só com a roupinha. Emigrei, trabalhei no casino, servi o Cristiano e o Neymar à mesa”

Dentro de campo, Idalécio nunca passou despercebido: era grande, muito grande, 1,96m num corpo maciço. Chegou a jogar na Liga Europa, mas várias circunstâncias e equívocos deixaram-no sem casa, a aceitar 500 euros por mês em clubes de IIB e com uma família para suportar. Deixou o futebol, Portugal e seguiu para Londres onde arranjou empregos que os ingleses não querem. Um dia, um português reconheceu-o e a vida melhorou

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em Alcochete. Apresente-nos a família.
Era eu, o meu pai que também se chamava Idalécio Rosa, a minha mãe, Maria Luísa, e o meu irmão mais novo dois anos, Rui Paulo. Vivíamos os quatro no Montijo. A minha mãe trabalhava no escritório de uma empresa de carnes, e o meu pai trabalhava no Barreiro, também no escritório de uma empresa. Os meus pais separaram-se e fui viver para Loulé com a minha mãe e o meu irmão. Tinha 12 anos. O meu pai entretanto faleceu quando eu estava no Rio Ave, com um cancro nos intestinos.

Sempre disse que queria ser jogador de futebol?
Sempre. Era doido por bolas e sempre tive aptidão para desporto, embora na família não houvesse ninguém vocacionado para desporto. Eu, não sei porquê, sempre tive essa paixão e talvez por isso os meus pais ajudaram-me a praticar várias modalidades. Pratiquei basquete, ténis, natação, atletismo. Quando havia corridas gostava muito de ir, mas havia sempre grandes guerras por causa da minha altura/idade. A minha mãe e a minha avó tinham de ir fornecidas com a minha cédula para provar a idade, porque eu era um matulão em relação aos outros. Os outros pais quando me viam era logo, "Lá vem o matulão, hoje ele ganha isto tudo outra vez, vamos embora, nem vale a pena competirmos". [risos]

Praticou esses desportos em algum clube?
Sim, o basquetebol foi no Desportivo do Montijo, com sete, oito anos; a natação também era logo ali ao lado de casa, mais ou menos na mesma altura; e também tinha courts de ténis perto de casa. Mas o futebol sempre foi a grande paixão. Jogava em todo o lado.

Gostava da escola?
Nem por isso.

Torcia por que clube quando era pequeno?
Em família sempre ouvi falar muito do Benfica. Os meus avós e o meu pai tiveram uma paixão grande pelo Benfica, por isso quando era mais novo naturalmente era do Benfica.

Quem eram os seus ídolos?
Tinha um que era residente do Montijo, o Paulo Futre. No tempo de escola eu era esquerdino, tinha a mania, e até quis ter o cabelo igual ao dele e tudo [risos]. Foi sem dúvida uma grande referência. Mas eu não tinha muito o apoio da parte do meu pai para seguir o futebol. Cheguei a apanhar grandes tareias porque tinha de ser médico ou advogado. Hoje compreendo que naturalmente os pais querem o melhor para nós, mas não foi fácil. Muitas vezes acabava por haver discussão entre o meu pai e a minha mãe, por causa dessa situação.

A sua mãe sempre o apoiou?
Sim, tentou sempre apoiar-me no que eu gostava de fazer. A partir do momento em que existe o divórcio, ficou um pouco mais fácil com a minha mãe a apoiar-me totalmente e a acompanhar-me nos jogos todos.

Idalécio em bebé

Idalécio em bebé

D.R.

Foi difícil a adaptação a uma vida nova no Algarve com 12 anos?
Acaba sempre por ser difícil ver os pais separarem-se quando somos tão novos. Foi uma experiência, não digo traumática mas estranha e dura. Felizmente em Loulé as pessoas que nos receberam, a família Carrilho, foram fantásticas. A senhora tinha sido colega da minha mãe no Montijo. Estivemos lá uns tempos antes de termos a nossa casa.

Inicia a sua formação no futebol, em Loulé?
Não, antes de me mudar para Loulé, já praticava futebol de 7 no Atlético do Montijo. Depois fui convidado para ser iniciado no Desportivo do Montijo. Tive o apoio da minha mãe, o meu pai não ia assistir ou apoiar, mas acabou por ceder porque era uma coisa que eu queria muito. Eles queriam que eu conciliasse os estudos e futebol. Assinei pelo Desportivo do Montijo, em futebol de 11, um contrato de formação, mas entretanto os meus pais separam-se, vou para Loulé e não pude ser inscrito logo nesse ano nos iniciados do Louletano. Estive quase um ano até o meu pai resolver o processo com a direção do Desportivo do Montijo para que eu pudesse ser inscrito. Só dei início à minha carreira e à minha formação no Louletano como iniciado de 2º ano.

Deixa a escola quando percebe que o sonho de ser futebolista pode concretizar-se?
Deixei a escola aos 17 anos, no 8º ano. O Louletano tinha um treinador brasileiro, o professor Luís Flávio, que dava muita atenção aos jovens e pelo facto de eu ser grandalhão, chamou-me e a outros colegas, para começarmos a fazer o treino com os seniores. Depois começamos a ser chamados para os campeonatos de reservas, aquela competição a meio da semana para jogadores menos utilizados ou que vinham de castigos. Para nós que estávamos a querer dar o passo para os seniores foi uma ponte importante.

Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol?
Aos 18 anos, ainda era júnior de 2º ano. O Louletano estava na divisão distrital, não disputava campeonatos nacionais e como eu já estava há muito tempo incluído nos seniores, o treinador Bruno Cardoso, que tinha sido treinador da casa, foi para treinador principal do Almancilense e convida-me para os seniores do Almancilense, da III divisão. Depois assinei contrato profissional com o Louletano durante três anos.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
80 contos.

Recorda-se do que fez com esse primeiro dinheiro?
Ajudava em casa naturalmente. Era só a minha mãe a ganhar para nos sustentar.

Saídas à noite e namoros mais a sério começam também nessa altura?
Sim, mas não fui de grandes namoricos. As saídas à noite naturalmente eram tentadoras, mas o facto de estar a treinar com os seniores e ser um meio pequeno… Eu já tinha essa responsabilidade de levar a sério e me cuidar. Não quer dizer que uma ou outra vez não tenha saído.

Mascarado com o irmão, mais novo dois anos, num Carnaval

Mascarado com o irmão, mais novo dois anos, num Carnaval

D.R.

Não tem nenhuma história para contar dessa altura?
Lembro-me de uma coisa engraçada. Quando eu e mais dois colegas fomos emprestado no Almacilense pelo Louletano, íamos e vínhamos juntos nas viagens de 10/12km. Não tínhamos carro, não tínhamos muito dinheiro, eles eram mais velhos um ou dois anos do que eu. O Almacilense ficou de nos ajudar com transporte, ou seja táxi. Nós íamos ter com o diretor financeiro, que tinha uma loja no centro de Almancil para lhe pedir o dinheiro para o táxi. Mas quando acabávamos os treinos estávamos sempre cheios de fome e surgiu a ideia, não si de quem de nós os três, de ir lanchar com o dinheiro do táxi. Então depois, de barriga cheia, metíamo-nos à boleia para Loulé [risos]. Naquela altura era comum e normal acontecer pedir boleia. Fizemos isso algumas vezes.

Está uma época no Almancilense e regressa ao Louletano?
Sim. Joguei com alguma regularidade e com jogadores bastante experientes, num campeonato competitivo, porque a III divisão antigamente era competitiva, num campo pelado. Sou chamado aos Sub-18, o selecionador era o Agostinho Oliveira, e cheguei a representar a seleção num jogo, num torneio da páscoa. Era um bocadinho mais difícil para um jogador que não era dos três grandes, mas andei naquele núcleo duro de jogadores interessantes, Nuno Afonso, Hugo Costa, o Porfírio, o Poejo, o Pedro Henriques, Nuno Espírito Santo, Costinha, Sérgio Conceição, eu era dessa geração e desse grupo. Quando regressei ao Louletano eles estavam na II liga, e não tive tantas oportunidades de jogar.

Porquê?
Tive uma concorrência muito grande a nível de centrais. Tinha o Pagani, que deu muito ao Louletano, era uma grande referência, e o João Carlos, que hoje em dia é treinador no Brasil. Era uma dupla brasileira fortíssima. Também tinha o Marco que tinha vindo do Farense emprestado ao Louletano nesse ano. Houve jogos onde joguei como defesa esquerdo, não tinha tanta liberdade ofensiva, mas foi aí que tive mais oportunidades de jogar. Procurei agarrar o lugar, embora não fosse a minha posição. Mas acabámos por descer.

E Manuel Balela é o novo treinador. Teve mais oportunidades para jogar?
Sim, embora tenha jogado também muitas vezes como defesa esquerdo. Andámos em luta com Alverca até ao final, terminámos com os mesmos pontos, mas sobe o Alverca de divisão porque tinha vantagem nos resultados diretos connosco. E o Farense leva uma razia tremenda nesse ano, com rescisões, de salários em atraso e o mister Paco Fortes vira-se para alguns jovens próximos, eu acabei por ser um deles. Mas tive a ajuda e a intervenção do falecido empresário Manuel Barbosa e do meu pai. Quando eu começo a ir à seleção, o meu pai deve ter pensado que se calhar até tinha jeito para a coisa. E tenta chegar ao contacto com o senhor Manuel Barbosa, um agente de renome na altura. Assinei contrato com ele e ele tirou-me do Louletano, paga 15 mil contos (75.000€) ao clube, ficou dono do meu passe e colocou-me no Farense por empréstimo de uma época.

Idalécio em criança

Idalécio em criança

D.R.

E que tal o Paco Fortes?
Era uma grande referência no Farense, já estava ali há várias épocas. Mas foi uma época muito difícil, sempre com salários em atraso, com muitas dificuldades e a tentar fazer a gestão, o melhor possível. Ele era uma pessoa bastante exigente, rigorosa nos aspetos especialmente defensivos, mas sempre com uma equipa muito aguerrida, ele transmitia aquela raça catalã.

Deve ter sido um choque passar de um IIB para a I liga?
Sim, mais qualidade, não havia tanto jogador ao monte, com mais espaço para se jogar, a qualidade também era superior e ao mínimo deslize estavas a levar com um golo. Mas tive a oportunidade de jogar com alguma regularidade o que me deixou muito satisfeito.

E que leva ao interesse do SC Braga, certo?
Essa época 95/96 é uma época complicada, de muitas reuniões, muitas indecisões, muitos salários em atraso e eu sempre a pedir ajuda ao senhor Manuel Barbosa. Eu ganhava 400 contos (2000€) e sendo uma ajuda em casa, para a minha mãe e para o meu irmão, não recebendo a tempo e horas, era muito mau, fazia falta. No decorrer da época falei com o senhor Manuel Barbosa para saber se ele podia ajudar-me a sair do Farense e ir para um clube com alguma estabilidade. E ele: "Ó Idalécio tem lá calma, vai fazendo o teu trabalho". Fui levando a coisa até chegar ao final do ano com sete meses de salário em atraso.

O Manuel Barbosa ajudava-o financeiramente?
Ele tinha aqueles avales com as letras e chegou a acordo com o clube. Eu era jogador dele e ele pagou-me esse valor e chegou a acordo com o Farense em termos das letras. Um dia chamou-me ao escritório em Lisboa, na Avenida da Liberdade, a mim e ao Leonel, defesa esquerdo que conheci nessa altura. Para surpresa nossa, surge a proposta do SC Braga. O João Gomes Oliveira ia pegar no clube, ia ser o presidente. O Sc Braga também vinha de algumas dificuldades nos anos anteriores. Ele disse: "O salário vai ser este e eu prometo que no dia 26 de cada mês, o dinheiro vai lá estar". Assinei por um ano. O presidente foi uma pessoa extraordinária, foi como um pai para nós. O treinador era o mister Cajuda, que eu não conhecia pessoalmente.

É a primeira vez que sai de casa da sua mãe?
Exatamente.

Vai para Braga viver para onde e com quem?
Entretanto em Faro já tinha um namoro mais sério, com a minha atual esposa, a Rita. Era Rita Sério, casou-se comigo e ficou Rita Rosa [risos]. Ela é filha do Carlos Sério, uma grande referência do Farense, um defesa central. Ela disse que não queria nada com jogadores de futebol e julgava que eu era jogador de basquete pela altura, quando nos cruzamos pela primeira vez [risos].

O que fazia a Rita quando se conheceram?
Terminou o 12º ano, mas havia muito aquela coisa de ir trabalhar para ajudar em casa, era uma família numerosa e ela trabalhou com empresas estrangeiras na Quinta do Lago, em contabilidade.

Ela acompanhou-o para Braga?
Sim. Foi um grande passo mas acabou por correr tudo bem. Naturalmente cada um com o seu feitio mas felizmente adaptamos super bem.

Com a mãe e o irmão

Com a mãe e o irmão

D.R.

Como foi o primeiro embate com Manuel Cajuda?
Ele é do Algarve, conhecia bem o meu sogro. Eu não o conhecia pessoalmente, foi a primeira oportunidade, nem nunca o meu sogro interferiu no que quer que fosse. Tinha grande curiosidade porque era um treinador que vinha a fazer bons trabalhos no SC Braga, tinha feito um excelente trabalho no Torreense, era uma grande referência no futebol algarvio, tinha sido lá jogador e treinador. Foi o treinador com quem mais trabalhei ao longo da minha carreira.

O relacionamento dele com os jogadores era bom?
Era muito exigente, muito rigoroso. Tinha uma coisa diferente, digamos assim, daquilo a que eu estava habituado no Farense, que era o futebol de ataque. O mister Cajuda dava muita importância ao ataque, ao marcar golos. Mas era exigente ao mesmo tempo em termos defensivos, não gostava de falhas. Era uma pessoa super divertida, com bom humor quer para os jogadores, quer para a imprensa e para a direção.

Acredito que tenha muitas histórias engraçadas para contar passadas com ele. Não quer contar uma?
Sei lá, havia várias coisas. Ele criou uma espécie de “banda filarmónica”. O mister era o maestro. Sentávamos todos no parque, na parte de cima do Bom Jesus, e ele: "Agora vamos aqui dividir, cinco vão fazer o som de um instrumento, os outros cinco vão fazer o som de outro instrumento" [risos]. Era super divertido. Também se agarrava às árvores, era uma superstição que o mister tinha. Mais. Treinávamos de piton de alumínio às vezes. Começou com ele e com o presidente João Gomes Oliveira, a inovação de ter uma nutricionista a dar palestras, um árbitro a dar palestras, começou-se a ter um SC Braga já muito à frente, numa vertente de preparar melhor os jogadores não só para aquilo que era o jogo, mas para muitos outros cuidados a ter, como por exemplo controlar a massa gorda. Foi giro, foi interessante.

Mas ele vai embora.
Sim. Conseguimos a melhor classificação de sempre do SC Braga, ficámos em 4º lugar com acesso à Europa e para surpresa nossa, há qualquer coisa que acontece entre ele e a direção no final da época, e acaba por não ficar. Ficámos todos um pouco surpresos porque tínhamos um excelente grupo de trabalho, tínhamos feito uma grande época. Optaram pelos espanhóis Fernando Castro Santos e Alberto Pazos, como adjunto, treinadores completamente desconhecidos para nós.

D.R.

E com métodos muito diferentes dos de Cajuda?
Completamente. Muito treino individual, muito treino por sectores, coisas que eram novidade. Com o mister Cajuda já tínhamos feito trabalho por sectores, mas ali havia mesmo esse cuidado, era trabalho curto e intensivo. O facto de começarmos a jogar a meio da semana por causa das competições europeias, acabou por ser novo para nós. Eu tinha tido uma experiência no Farense, contra o Lyon, mas foi apenas um jogo. Fomos passando as várias eliminatórias e em dezembro surge o Sevilha interessado no Castro Santos e o Alberto Pazos assume como treinador principal. Foi uma surpresa para nós, sem qualquer experiência, ele era apenas preparador físico e cuidava dos aspectos físicos.

Nessa época chegam à final da Taça, certo?
Exatamente. Quando chegou a meia final com o Benfica, o Pazos diz na palestra: “Se o Brian Deane jogar, o Idalécio joga”. Durante a semana não preparou nada a contar comigo para jogar. Só no dia do jogo, quando soubemos no balneário qual era a equipa do Benfica é que soube que ia jogar. Vencemos por 2-1, é uma vitória e um jogo que guardo com enorme carinho. Nunca tinha visto o 1º de Maio tão cheio como naquele dia, e com a vitória que nos permitiu chegar à final, foi uma alegria enorme.

A final foi com quem, recorde-nos.
Com o FC Porto, perdemos 3-1. Para o jogo com o FC Porto, ele levou a equipa toda. Chegámos a Lisboa no dia anterior ao jogo. Só divulgou já em Lisboa os 18 que escolheu. Tiveram treino no estádio da Luz, os outros foram para o Colombo, passear e descomprimir porque não íamos contar para o totobola, como se costumava dizer [risos]. Eu fiquei na bancada, fiquei fora dos 18.

Chateado, imagino.
Sim, foi uma tristeza muito grande porque toda a gente sabe que é um jogo especial, eu achava que tinha cumprido, mas pronto, são opções e não vale a pena. Mas na altura não ficamos indiferentes a uma situação dessas. E quando se começa a ver a equipa a perder, ainda mais triste fiquei, porque ainda mais queria lá estar para ajudar.

Idalécio (2º atrás à esquerda) começou a jogar futebol de 7, com 10 anos, no Atlético do Montijo

Idalécio (2º atrás à esquerda) começou a jogar futebol de 7, com 10 anos, no Atlético do Montijo

D.R.

Na época seguinte vem Vítor Oliveira?
Sim, que vinha rotulado de II liga, já nessa altura.

Como o campeão das subidas.
Sim, não é que a nível da I liga tenha tido algum sucesso, mas era uma grande referência do futebol português. Foi sem dúvida um grande homem. Um homem de palavra, de grande seriedade, de grande rigor, sempre próximo dos jogadores. Mas as coisas ficaram mais exigentes a partir do momento em que começámos a andar na liga Europa. Na Europa os resultados até tinham sido positivos, mas a nível nacional as coisas não começam bem e o mister é muito criticado, começámos a ter dificuldade em sair do estádio, os adeptos muito exigentes, até houve situações de apedrejamento nessa época.

Teve algum problema diretamente?
Alguns atletas eram mais visados do que outros, a mim sempre me admiraram muito, mesmo não jogando, as pessoas de SC Braga sempre foram incríveis. E a determinada altura o mister Vítor Oliveira diz que não quer ser um empecilho, até se falou que ele tinha colocado o lugar à disposição sem querer receber, acho que abdica do salário do 2º ano, e vai-se embora.

E chega Carlos Manuel?
Exatamente. Ainda em relação ao mister Vítor Oliveira há uma curiosidade que gostava de referir. É uma atitude dele, como homem e como treinador que me vai ficar para sempre. Fomos a Guimarães precisamente quando a minha primeira filha, a Catarina, nasceu, a 20 de setembro de 1998. Estamos no jogo que nos corre super mal, o V. Guimarães tinha uma equipa fortíssima, perdemos 5-1, foi uma noite péssima e quando saio do jogo recebi a notícia de que a minha esposa está na clínica para ter a miúda. Tento ir à clínica e o enfermeiro, em jeito de brincadeira, "Ah, você é o Idalécio que joga no SC Braga, pois a sua esposa está aí, mas você não vai entrar"; "Então, não vou entrar?!"; "Não, você aqui hoje não vai entrar. Não tem vergonha, perderam 5-1 com o V. Guimarães" [risos]. Claro que deixou-me entrar depois, estava na brincadeira.

Conseguiu assistir ao nascimento?
Eu tinha lá a minha sogra e também não fiz muita questão de assistir sinceramente. Fiquei à porta, ouvi a bebé a nascer, a chorar e a primeira reação da minha sogra: "Rita, ela é a cara do Idalécio" [risos]. Parece que estou a ouvir a voz dela. Mas voltando ao Vítor Oliveira, iniciámos a semana de treinos e o mister chama os 11 que jogaram em V. Guimarães, "Pessoal, de facto foi um jogo menos conseguido, o V. Guimarães acabou por ter mérito, não foi demérito nosso. Só para que vocês saibam, eu podia tirar dois ou três jogadores para o próximo jogo, para mostrar que foram os culpados, era fácil para mim dar a ideia de que vocês foram os responsáveis pela derrota, mas fiquem já a saber que, se não se lesionarem, este vai ser o mesmo 11 que vai entrar no próximo jogo, por isso preparem-se e não se preocupem". Isto foi uma atitude que nos marcou a todos. Por isso foi com pena que tivemos a notícia da morte dele há pouco tempo, porque sem dúvida o futebol vai sentir falta do Vítor Oliveira.

Com o irmão e avós maternos

Com o irmão e avós maternos

D.R.

Entretanto vem Carlos Manuel. Um estilo completamente diferente?
Sim, o Carlos Manuel um homem com muita experiência enquanto jogador, como treinador tinha realizado também bons trabalhos no Salgueiros, mas as coisas mantiveram-se. Os adeptos queriam que a equipa ganhasse a todo o custo, a equipa vinha a sofrer com a mudança de treinadores, os resultados menos conseguidos, isso também tira o ânimo e o grupo não era muito unido. Infelizmente havia muitas quezílias e isso não ajudou em nada.

Essas quezílias tinham a ver com o quê? Nacionalidades e mentalidades diferentes?
Não sei se tinha a ver com mentalidades ou com jogadores que já lá estavam há muitos anos e que viam outros chegar com salários elevados. Pelo menos assim pensavam. Os próprios adeptos também pelo simples facto de ouvirem o diz que disse, se calhar transmitiam isso aos jogadores mais antigos, não sei... Mas de facto o grupo não era o mais unido, os resultados não apareciam, começou tudo a querer sacudir a areia do capote, as coisas continuaram a não correr bem e o mister Carlos Manuel acabou por estar poucos meses. E regressa o mister Manuel Cajuda.

E como é que corre esse ano com o Cajuda?
Salvo erro é um ano que começamos muito mal, começa a aposta no Tiago e no Ricardo Rocha, eles a realizarem boas exibições, mas os resultados a teimar em aparecer. Só que o mister Cajuda era sem dúvida grande líder e conseguiu dar a volta à situação; era muito respeitado pelos adeptos, até pelo trabalho que já tinha feito lá, tinha aquele carisma e aquele carinho que também lhe permitiu fazer o trabalho mais tranquilo.

O filho de Cajuda também joga nessa altura?
Sim, o Hugo nessa altura começa a integrar a equipa B.

Isso não criou nenhum tipo de mal estar?
Não, de maneira nenhuma, o Hugo era um bom miúdo. Penso que é mais difícil para pai e filho estar na posição de treinador e jogador, do que para nós. Para nós era mais um jogador que tinha qualidade, mas que infelizmente acabou cedo por causa das lesões nos joelhos. Era mais um atleta importante e um jovem que podia ajudar o SC Braga. Nunca houve nenhum atrito.

Idalécio fez a formação no Louletano

Idalécio fez a formação no Louletano

D.R.

Na época de 2000/01 esteve no Braga B. O que é que aconteceu?
O Braga B tinha alguma dificuldade com os resultados e os jogadores que não eram utilizados pela equipa A iam dar uma ajuda e ao mesmo tempo manter o ritmo, na equipa B. Houve vários jogadores que se disponibilizaram para ir, o Barroso, o Zé Nuno, eu, o Bruno. Fomos vários, uns porque vinham de lesões. Se calhar não era tão bem aceite pelos miúdos da equipa B, pensavam que lhes íamos tirar o lugar, mas o facto é que eles estavam mal classificados e houve necessidade de se fazer essa gestão e nós, sendo profissionais do clube, não tínhamos problema de fazer parte da equipa B e de ajudar nesse percurso.

Na última época no SC Braga, antes de ir para o Nacional, também não joga muito. Porquê?
Porque a equipa estava super bem, é a época em que o Odair como central faz alguns 11 golos. Havia o Artur Jorge que era a referência… Mais o Odair a fazer golos, além de boas exibições… Foi uma época com menos oportunidades. Tínhamos uma equipa bastante competitiva e sei que, sempre que fui chamado, cumpri. O meu pensamento, independentemente de ser chamado 5 minutos, 10 minutos, era dar o meu melhor, e agarrei-me sempre a isso.

Ainda como júnior, Idalécio (1º atrás à direita) jogou nos seniores do Almancilense III divisão, na época 1991/92

Ainda como júnior, Idalécio (1º atrás à direita) jogou nos seniores do Almancilense III divisão, na época 1991/92

D.R.

Esteve seis anos em Braga. Hoje quando se fala no SC Braga, qual a primeira coisa que lhe vem à cabeça?
O estádio 1º de Maio que tem uma arquitetura fora do comum e os adeptos que iam assistir em condições climatéricas muito difíceis. A proximidade dos adeptos era muito maior, iam assistir aos treinos. Mesmo as condições de trabalho, no início era campo pelado, só no primeiro ou no segundo ano é que passou a relvado e não podíamos usar sempre para não estragar a relva. Depois há a memória do primeiro ano em que fomos a Guimarães no último jogo, conseguimos o apuramento para a Taça UEFA e os adeptos quase nos trouxeram ao colo de Guimarães até Braga.

Nunca foi praxado?
Não me lembro… Mas lembro-me que quando havia brincadeiras para fazer aos outros, o Idalécio estava sempre metido nelas.

Conte-nos lá uma ou duas que tenha feito.
Aos jogadores que vinham pela primeira vez, tínhamos a mania de ligar da recepção do hotel para o quarto a pedir para descer porque estava ali um jornalista para os entrevistar. Eles vinham para baixo e ficavam à espera, a olhar todos tímidos, à procura do jornalista por todo o lado e, claro, não havia ninguém [risos]. Havia outra a quem tirava a carta há pouco tempo e levava o carro. Tirávamos a chave do carro do cacifo e íamos esconder o carro, o jogador achava sempre que lhe tinham roubado o carro [risos].

E a si nunca lhe fizeram nada? Acha que impunha medo só pelo tamanho?
[risos] A mim também me aconteceu. No balneário havia uma muito engraçada, mas que não tinha piada nenhuma, que era com a pomada de aquecimento. Procurava-se fazer isso aos mais novinhos, mas às vezes acontecia-nos também e aquilo era um ardor [risos]. A partir do momento em que vestes as cuecas, era ver os jogadores aos saltos [risos].

Idalécio (2º atrás à esquerda) estreou-se nas competições europeias pelo Farense, frente ao Lyon, em 1995

Idalécio (2º atrás à esquerda) estreou-se nas competições europeias pelo Farense, frente ao Lyon, em 1995

D.R.

Como é que vai parar ao Nacional da Madeira?
Na época anterior a terminar o contrato, o senhor João Gomes de Oliveira sai, o mister Cajuda faz um bom trabalho mas começa a ver que o Braga não conta muito com ele, se calhar por andar um pouco à deriva e o Toni Conceição fica a terminar a época, sendo que o campeonato já estava mais ou menos decidido. O senhor João Gomes Oliveira larga o clube para se agarrar à empresa que era o grande suporte dele e da família e que estava a passar por dificuldades. O SC Braga acabou por lhe tirar tempo e anos de vida, mas ele tinha uma paixão grande pelo clube e profissionalizou o clube, foi uma mais valia para o crescimento do clube. Fica Fernando Oliveira, que era diretor financeiro, como presidente do clube. As coisas acabam por não correr bem, é-me apresentada uma proposta de três anos pelo mesmo valor que eu já tinha há três anos. Decidi não aceitar, exigi mais qualquer coisa, nada de transcendente. Eu já não tinha Manuel Barbosa como empresário.

Porquê?
Porque nunca precisei dele para negociar com o SC Braga, e porque também nunca surgiu a possibilidade do estrangeiro, quando ele tinha algum mercado e levou alguns jogadores para o estrangeiro. Para mim nunca surgiu e apareceram uns empresários irlandeses a dizer que tinham interesse em levar-me para a Escócia, mas depois não se concretizou.

Idalécio (em pé de costas) chegou ao S.C. Braga em 1996/97

Idalécio (em pé de costas) chegou ao S.C. Braga em 1996/97

Bongarts

Não se concretizou porquê?
Não sei, falava-se que o SC Braga estava a pedir 300 mil contos pelo meu passe, mas não sei. Não sei se chegou alguma coisa à direção, nunca me disseram nada, andaram ali a enrolar, a direcção do SC Braga queria que eu renovasse por três anos com o mesmo valor, mas não chegámos a acordo e eu digo que quero ir embora. Mas quando digo que quero ir embora, afinal havia um contrato promessa que tinha sido assumido pelo senhor Manuel Barbosa, de eu permanecer no clube por mais um ano pelos mesmos valores. Gerou-se ali uma confusão. Eu desconhecia essa situação porque sempre confiei nele e sempre deleguei nele tudo e mais alguma coisa, ele só me dizia os anos e os valores, e perguntava se estava bem ou não. Sempre achei que estava bem, naturalmente queria mais, mas aceitava e confiava nele e depois aquele contrato promessa surgiu do nada. Meti advogados para saber opinião e disseram que o SC Braga tinha o direito.

O que aconteceu?
Mandara-me uma carta a dizer que aceitavam a minha promessa de permanecer por mais um ano. Foi tudo com desconhecimento da minha parte. A minha saída do SC Braga teve a ver com isso. Depois surge o Óscar Dias, um empresário com alguns jogadores no Nacional, a dizer que o mister Peseiro estava à procura de um central e chegou ao meu contacto. Perguntou-me qual era a minha situação e eu disse-lhe que o SC Braga naquele momento estava com dois meses de ordenado em atraso. Pensei que abdicando dos dois meses de salário, eles iam deixar-me sair e disse ao Óscar Dias que se calhar havia essa possibilidade. Ainda tentei negociar com eles, mas quando o vou fazer, o SC Braga disse-me: “Não, queremos mais qualquer coisa; "Mas querem mais qualquer coisa, como? Não me estão a dar mais qualquer coisa a mim, estão a exigir que fique por mais um ano, com um valor igual que eu não quero. Como é que vamos resolver a situação? Digam-me o valor que vocês querem". Entretanto o SC Braga diz que quer mais 5000 contos para juntar aos dois salários que já tinha em atraso. O Óscar Dias diz-me que vai falar com o presidente do Nacional, o Rui Alves, e fiquei com o compromisso de pagar até dezembro esses 5000 mil contos ao SC Braga e o Nacional dava-me esses 5000 mil contos divididos pelas três épocas que eu ia assinar. Deu-me mais 2000 contos no primeiro ano, 1000 contos no segundo e 2000 no terceiro ano de contrato.

Mas o Idalécio não esteve três anos no Nacional.
Ora aí está. Aí começa o problema dos salários em atraso no Nacional, que na altura também passava por dificuldades.

Idalécio (3º atrás à direita) no 2º jogo da 1ª eliminatória da Taça UEFA em que o S.C. Braga venceu o Vitesse Arnhem, por 2-0, na época 1997/98.

Idalécio (3º atrás à direita) no 2º jogo da 1ª eliminatória da Taça UEFA em que o S.C. Braga venceu o Vitesse Arnhem, por 2-0, na época 1997/98.

D.R.

Antes de lá irmos, vai para a Madeira sozinho ou com a família?
Com a mulher e as duas miúdas. A mais nova, a Francisca, nasceu a 23 de novembro de 2000.

Também não assistiu ao parto, calculo?
Não, e esta teve uma história curiosa também. Estou na clínica com a minha esposa, a minha sogra mais uma vez presente, a Rita começa com as dores, vêm com a epidural, dão-lhe a injeção e ela começa a sentir-se mal, a desmaiar e eu digo à minha sogra "Desculpe sogra, sou grande, mas para estas coisas não sou assim tão forte como isso e vou buscar a Catarina ao infantário" [risos]. Sabia que ela estava em boas mãos com os enfermeiros, eu também não ia ajudar a resolver nada e ficou lá a minha sogra… [risos]. A minha esposa acabou por fazer cesariana, a Francisca era enorme.

Estava a contar que se mudaram de armas e bagagens para a Madeira. Como foi o primeiro impacto quando chegaram?
Difícil. Em termos logísticos levar coisas de uma vida, de seis anos em Braga...Tínhamos um apartamento em Faro e levamos algumas coisas para lá, mas quisemos levar os dois carros no contentor para a Madeira para podermos deslocar, porque íamos ficar a viver no Funchal e o Choupana é mais deslocado. Depois é o impacto de estares numa ilha. No continente tens tudo mais à mão. Não é que a Madeira não fosse já desenvolvida o suficiente, mas de qualquer maneira não era a mesma coisa que estás em Braga, pegas no carro e vais para o Porto, para Guimarães, vais para Barcelos. Ao início foi choque, mas as pessoas foram super acolhedoras, o diretor, o Rui Sardinha, esteve sempre ali a dar a cara e a ajudar-nos no processo da casa. Eles davam-nos um valor, se a casa que nós escolhíamos passasse esse valor tínhamos de pagar do nosso bolso, mas os contratos eram feitos diretamente com os senhorios, em caso de haver algum incumprimento a responsabilidade era dos atletas, isso foi um bocado um choque para nós. Mas fomos super bem tratados e super bem recebidos. Os problemas financeiros, de salários começaram-nos a afetar porque vinha de Braga com dois meses de salário em atraso, habituado a receber sempre a tempo e a horas, isso gerou ali algum...

Mas começaram a falhar logo de início?
Em dezembro já estávamos nessa situação. Chegam vários jogadores do Brasil. Existe um grande investimento, o Paulo Assunção foi um deles e acabou por ser um elemento chave. Falou-se que houve um grande investimento por parte da direção na aquisição do Paulo. E vieram outros, não me recordo exatamente quem, mas vieram outros, e isso naturalmente criou algum mal estar entre todos, porque não dava para perceber como é que havia dificuldade no pagamento dos salários. Eu tinha investido numa casa próximo de Braga, na Póvoa do Lanhoso, havia compromissos a cumprir no meu caso. Depois tenho a notícia durante essa época da doença do meu pai, um câncer no estômago, teve de fazer várias cirurgias. E sempre que ia jogar ao continente, eu ficava para o ir visitar, para dar algum apoio, os tratamentos eram violentos, comecei a acompanhar e a vê-lo a ficar cada vez mais fraco, a perder peso até ficar em osso e acabar por falecer. Quando chegou ao fim dessa época, com essa situação, tento procurar alternativas. O Salvador e o cunhado do Mesquita Machado entram no SC Braga, começou a haver SAD e clube, eu tento chegar ao contacto para regressar ao SC Braga.

No Nacional da Madeira, com as duas filhas à sua frente

No Nacional da Madeira, com as duas filhas à sua frente

D.R.

Já sem empresário?
Sim, liguei-lhes diretamente: "Vocês conhecem-me como profissional e como pessoa, por isso não vejo necessidade de haver empresário. Se estiverem à procura de um central, eu gostava imenso de regressar a Braga, até porque o processo da minha saída não foi muito claro, nem fácil. Não saí com nenhum rancor, por isso se houver essa possibilidade". Falava-e que o treinador ia ser o Carlos Carvalhal, até que entra o Jesualdo Ferreira, vindo do Benfica. E há atritos entre o Salvador e o Pedro Machado, entre o presidente da SAD e presidente do clube. Não sei se pela situação do treinador, mas aquilo não funciona e não deu para mim, infelizmente não deu para regressar. Cheguei a falar com o treinador do Belenenses e contacto também o treinador do Rio Ave, o Carlos Brito. Eu não mandava mensagens por ninguém, falava com o treinador diretamente, era esse o meu objetivo porque o treinador à partida seria a pessoa que iria tomar a decisão de querer ou não querer. Falei diretamente com ele: "Mister gostava muito de regressar ao continente, sei que vocês perderam o Peu, um jogador importante para vocês e gostava imenso de poder ter essa oportunidade, se achar que posso ser uma alternativa”.

Qual foi a resposta?
Que vai pensar. Passado alguns dias liga-me:"O Rio Ave não vai pagar nada pelo teu passe, tens esse compromisso e essa é uma situação que tens de resolver, por isso se conseguires resolver, ponho-te em contacto com o presidente e com a direção. Trata de tudo"; "Ok, mister, mas eu gostava de assinar um contrato longo, isso é problema para si?"; "Não, o que entenderes com a direção, para mim está ótimo, vê com eles". A assim foi. Começo em contatos com a direção, começamos a ver a possibilidade de um contrato longo, eu não gostava de assinar só por um ano, pela incerteza e instabilidade que cria na vida de uma pessoa. Com mais tempo de contrato, à partida estás mais seguro. Falo nessa possibilidade, sendo que os valores eram inferiores aos do Nacional. Voltei a dizer que não tinha saído do Braga, como se tinha andado a dizer ou como quiseram fazer parecer.

E que foi?
Que sai por questões financeiras. Eu saio porque as coisas não estavam a ser conduzidas da melhor forma. Sei que eles vieram dizer que eu tinha ido para o Nacional a ganhar muito mais dinheiro e que tinha ido atrás do dinheiro, mas isso é mentira, sempre o disse e continuou a dizer, eu não fui atrás do dinheiro, é mentira. Entretanto, tenho essa situação do meu pai e o Peseiro, antes do final da época chega a acordo com o Real de Madrid para adjunto do Carlos Queiroz e eu falo com a direção:"Tenho o meu pai nesta situação, se eu abdicar dos salários das duas épocas, vocês pagam-me os três meses de salário. Vejam como é que é melhor, abdico dos dois anos de contrato, já tenho clube para onde ir e vou-me embora, tenho que acompanhar o meu pai". Foram impecáveis, o presidente deu-me cheques pré-datados, cumpriu a tempo e horas com o pagamento dos três meses de salário em atraso e eu assinei três anos com o Rio Ave. Fui ganhar menos, mas com mais um ano de garantia.

Subida de divisão no Louletano em 1998/99. Idalécio é o 1º atrás à direita

Subida de divisão no Louletano em 1998/99. Idalécio é o 1º atrás à direita

D.R.

Vai viver para Vila do Conde?
Tomámos a decisão de ficar em Braga porque assim as miúdas voltavam ao infantário que tinham frequentado, só tinham perdido um ano quando fui para a Madeira.

Gostou do Carlos Brito como treinador?
Foi uma pessoa com quem adorei trabalhar, com processos de treino muito simples e com um espírito de guerreiro, de bom futebol e de responsabilidade, com liberdade. Dava liberdade mas exigia responsabilidade aos jogadores. Éramos o plantel mais velho da I liga, mas ele criou um bom espírito e os dois anos em que ele esteve a liderar, foram sem dúvida dos melhores balneários que apanhei. É reconhecido por mim e pelos meus colegas. Nesses dois anos fui jogador. E ele sai no terceiro ano para o Boavista.

Dessas três épocas no Rio Ave o que o marca mais?
Eu não entro logo na equipa a jogar porque eles vinham da II liga com muito sucesso, tinham subido, curiosamente como Nacional; quando chego ao Nacional eles também tinham acabado de subir à I liga e o Rio Ave. Quando começo, começo a jogar do lado esquerdo com três defesas e depois lá conquistei o espaço na zona central e fizemos uma época brilhante, estivemos próximo dos lugares europeus, a praticar bom futebol. Mas a direção do Rio Ave também não se preparou ou não esperava que pudéssemos ir à Liga Europa e então não se inscreveram porque era preciso adquirir a inscrição atempadamente, a meio da época ainda, penso que antes de dezembro, se quiséssemos ir à Taça UEFA. Só que nunca passou pela cabeça de ninguém e nós andámos ali até à última com o Marítimo. O Marítimo nessa altura também investia muito mais e acabou por ir o Marítimo, já estavam preparados e nós ficámos um pouco desolados com essa situação. De não ter atingido o objetivo porque a direção não tinha tratado da inscrição para a Taça UEFA. A segunda época com o Carlos Brito também acaba por ser uma época positiva e na minha terceira época, vem António Sousa.

E as coisas não correm bem.
Não, não correram bem em termos de resultados, em termos de espírito e equipa, de união, perdeu-se ali muita coisa com entradas e saídas de jogadores e as coisas não ficaram bem.

Na época 2009/10 Idalécio (2º atrás à esquerda) esteve no Farense

Na época 2009/10 Idalécio (2º atrás à esquerda) esteve no Farense

D.R.

O Sousa fica até ao fim da época?
Não, o mister António Sousa acaba por sair porque os resultados não estavam a ser os melhores e ficou o João Eusébio que era um treinador da casa. Eu já não estava a jogar com o António Sousa, achei que ia haver mudanças com João Eusébio, mas não aconteceu. Chegou o final da época e disseram-me que não fazia parte das escolhas do treinador e da direção. Foi como uma facada, porque antes de iniciar aquela terceira época, o Carlos Brito vai para o Boavista, e disse-me que havia possibilidade, se eu conseguisse desvincular-me, de ir para lá. Eu falo com a direção, a direção disse que não, que eu era um jogador muito importante para o Rio Ave. Como viemos a verificar meses depois o Idalécio já não contava para nada e não tive oportunidade de ir para o Boavista.

O que fez a seguir?
Foi uma mágoa grande. Foi difícil. Procurei novamente clube, achava que ainda era novo para a I Liga, mas tive a percepção que só entrava em determinados clubes se fosse representado por este ou por aquele empresário. Eu não tinha empresário. Naturalmente nenhum desses empresários tinha interesse em representar-me tendo em conta a idade que tinha. A partir dos 30 anos, em Portugal, naquela altura era-se velho. Hoje felizmente essa mentalidade mudou e já se vê jogadores com mais idade. Na minha altura também sempre valorizaram muito mais os estrangeiros do que os portugueses. Hoje isso mudou, felizmente, se calhar também pelas dificuldades económicas dos clubes. Mas, comecei a contactar e vi portas fechadas. Comecei a procurar clubes da II liga para subir, desde que salvaguardado um prémio de subida. Tentei Varzim, salvo erro era Horácio Gonçalves o treinador, já tinha o plantel organizado. Julgavam se calhar que eu era um jogador muito caro, embora nunca me tenham apresentado uma proposta. Acho que tentei o Leixões. Sei que falei com mais um ou outro da II liga, dos que tentavam subir. E as portas todas fechadas.

Com a equipa do Quarteirense, o último clube que representou

Com a equipa do Quarteirense, o último clube que representou

D.R.

Acaba por ingressar no Trofense.
O Trofense está na luta para subir à II Liga. Contacto o Costa, o médio, que tinha sido meu colega dos tempos de seleção. Ele disse que ia dar um toque ao Daniel Ramos, o treinador. Esperou-se que eles conseguissem a subida através da liguilha. Depois consegui chegar à fala com o mister Daniel Ramos, que deu o aval e pôs-me em contacto com a direção. Assinei por três anos.

O salário era muito mais baixo?
Sim, salários completamente inferiores, mas a receber a tempo e horas.

Foi viver para a Trofa?
Não, fiquei na mesma em Braga.

Faz a época com o Daniel Ramos. Mas não sobem.
Sim, mas o objetivo não era subir. Acabamos por fazer uma época tranquila e jogar bom futebol. Depois não chegam a acordo como Daniel Ramos e vem António Conceição, que eu conhecia do SC Braga e de quem não tinha ficado grande fã. Mas formou-se uma equipa muito forte no Trofense com ele, coisa que com Daniel Ramos não aconteceu. Com o Toni Conceição havia dinheiro para contratar jogadores à fartazana. Da I Liga vieram vários. Milton do Ó, do Marítimo, André Barreto, do Boavista, Pinheiro, do Belenenses, Valdomiro, do U. Leiria, o Fábio Paim, que veio emprestado do Sporting. Tínhamos um plantel forte e o objetivo era a subida de divisão. Não fui logo opção, as opções caíram sobre Valdomiro e Milton do Ó.

E é emprestado ao Gondomar SC, certo?
Sim. Eu não tenho muitas oportunidades. Antes de dezembro, há castigos dos centrais e eu realizo dois jogos, Farense em casa e Gondomar. Vencemos ambos os jogos com um golo meu e penso "Já não vou sair mais da equipa". Ao terceiro jogo o Toni chama-me ao balneário e diz: "Idalécio parabéns, outra coisa não seria de esperar, mas eu vou optar por manter os centrais que estavam a jogar antes dos castigos"; "Ok. Mas não me peça para ficar satisfeito com essa situação". Entretanto, começam equipas a ligar-me, da II B e da II Liga a dizer que sabiam que eu estava na lista dos jogadores para serem emprestados. Eu não sabia de nada, dizia-lhes: "Não tenho conhecimento dessa lista e enquanto a direção ou o treinador não me disseram nada, eu não quero falar nada convosco. O meu objectivo é ficar no Trofense".

Não procurou saber se essa lista existia?
Obviamente não fiquei satisfeito e confrontei a direção. "Ah pois, o treinador não está a apostar em ti e apareceram uns clubes interessados, temos aqui o Gondomar"; "Ok. Já estou a perceber onde estou metido, então fazemos assim cheguem a acordo entre clubes sobre o meu salário, porque eu não quero perder salário que tenho. Fico com o meu prémio de subida, caso o Trofense suba, e fico com o dobro do salário que tenho agora, em caso de subida". Salvaguardei os meus direitos todos e fui para o Gondomar. Queria provar, apesar de ter 33 anos, que ainda estava em condições para jogar. O Gondomar estava em situação aflitiva para não descer de divisão.

E como correu?
Correu super bem. Não joguei logo de início porque Nicolau Vaqueiro também tinha a sua equipa montada, mas depois conquistei o meu espaço e acabei por ajudar. O mister Vaqueiro adorou trabalhar comigo e vice-versa. Foi uma pessoa impecável. No final da época ele vai para o Moreirense e a primeira pessoa com quem ele fala é comigo. Disse-lhe que tinha mais um ano de contrato como Trofense, que ia disputar a I Liga, e que por isso não lhe podia dizer nada por enquanto. Volto para Trofa e eles começam a chamar-me para reuniões durante o mês de férias, assim que acaba o campeonato. Festejaram o título naturalmente, eu não fui convidado para fazer parte dos festejos, embora tivesse contrato e tivesse jogado.

O que lhe disseram?
Nas reuniões o advogado e o diretor começaram a dizer que tínhamos de ver a minha situação porque o treinador não estava a contar comigo. "Então o treinador que seja homenzinho, venha falar comigo e diga-me na cara que não conta comigo. Porque esse mesmo treinador foi aquele que há uns anos ajudei na equipa B do SC Braga"; "Ah não, mas isto é um assunto que a direção é que tem de tratar"; "Ok. Então pagam-me o contrato todo e eu vou-me embora já hoje"; "Isso não podemos fazer"; "Então eu vou-me apresentar no início da época. Daqui não saio". E assim foi. Andamos nestas negociações. Eles oferecem-me um valor irrisório. Não aceitei. Andaram a enrolar. Eu estava a ver o filme e contatei o Louletano, para saber se havia possibilidade de regressar, embora fosse a III divisão.

No Estádio do Braga, com as filhas, em 2011 para ver um jogo S.C. Braga-Benfica

No Estádio do Braga, com as filhas, em 2011 para ver um jogo S.C. Braga-Benfica

D.R.

Porquê o Louletano?
Eu queria sair do norte, queria mudar de ares, queria ir para perto da família, permitir às minhas filhas que pudessem desfrutar da praia, do sol, dos avós, da prima. Interiorizei isso. E cheguei a acordo com o Louletano, antes de ir para a mais uma reunião. Faço as minhas contas. E abdicava de um determinado montante, que era o salário que o Louletano ia pagar, mas o Trofense tinha de me garantir o pagamento do resto a que chegámos a acordo, em mensalidades com vários cheques.

Como foi regressar ao Algarve?
Foi um choque. Havia nas minhas filhas a alegria de estar próximo dos avós, e do clima ser bom, mas sofreram ao deixar amigos para trás. A minha esposa na altura em que eu estava no Trofense, já trabalhava na perfumaria do aeroporto, nas lojas francas. Ponderamos tudo. Tínhamos uma casa, ponderamos vender ou alugar, mas foi difícil. É o ano da crise. Os valores das taxas de juro subiram imenso, a mensalidade ao banco aumentou muito, o dinheiro começou a ser menos e acabamos por entregar a casa ao banco. Nem conseguimos vender, nem alugar, em vez de estarmos a pagar aquela mensalidade, chegamos a acordo e perdemos a casa de Braga para o banco. Não fazia sentido estar a suportar aquele custo.

Mas já tinham comprado apartamento no Algarve não tinham?
Tinha sido um investimento na altura em que estávamos na Madeira, que depois também, pelas circunstâncias da vida, acabamos por ter de vender. Tinha sido com empréstimo, com o objectivo de ser para nós ou para alugar, mas acabamos por ter de vender para liquidar a divida ao banco e não ficamos com quase mais valia nenhuma do apartamento de Faro. Ficamos sem nada, ficamos com as roupinhas que tínhamos e fomos viver para casa dos meus sogros durante algum tempo. Isto quando regresso ao Louletano.

Idalécio guarda os seus cromos dos clubes por onde passou

Idalécio guarda os seus cromos dos clubes por onde passou

D.R.

E subiu de divisão no Louletano.
Sim. Era o mister Miguel Balela o treinador. Foi super positivo voltar a ser treinado por ele, mas a verdade é que chegou o final da época e a direção diz-me que não contava comigo para a seguinte. Fiquei com o coração nas mãos. E agora? Não ia ser fácil ter de sair novamente do Algarve, com 30 e tal anos. Entretanto liga-me o Farense que estava na III para subir à IIB. Apresentaram uma proposta que era: "Damos-te 500€/mês. Queres, queres, se não quiseres o que não falta aí são jogadores para jogar no Farense". Para subir de divisão? Estou dentro. Aceitei. Tiveram dificuldades em pagar mesmo assim.

O que fez?
Entretanto, tinha uns amigos que tinham uma imobiliária. O mercado imobiliário era interessante pelas comissões e era uma alternativa para quando o futebol terminasse. Mas o mercado imobiliário também estava a cair, as vendas eram poucas. Acabou por não ser alternativa, mas trabalhei, foi interessante aprender. Até que chega uma empresa muito forte do Porto, a Invictus, que comprava frações que estavam por vender aos construtores que estavam em dificuldade. Abriram um escritório em Vilamoura e fui um dos comerciais que fiquei responsável por explorar empreendimentos, contactar com construtores que tivessem com essa dificuldade, fazer estudo de mercado. Tinha de andar na zona de Faro até Vila Real de Santo António, à procura desses negócios para a empresa.

E o Farense ia-lhe pagando ou não?
Não. O Farense também estava aos quatro meses sem pagar. Começou o Edinho, o avançado, como treinador, depois mandaram o Edinho embora, estávamos bem classificados em 2º lugar, salvo erro. Vão buscar Rui Esteves. Vamos para a fase final do apuramento da subida, também bem classificados e mandam o Rui Esteves embora. E vem Joaquim Mendes terminar a época e subimos à IIB e foi uma festa tremenda. Mas não fui convidado para ficar.

Recebeu o Prémio Carreira atribuído pela Associação de Futebol do Algarve, aos 37 anos. Foi Manuel Cajuda quem lhe entregou o prémio

Recebeu o Prémio Carreira atribuído pela Associação de Futebol do Algarve, aos 37 anos. Foi Manuel Cajuda quem lhe entregou o prémio

D.R.

Vai para o Quarteirense.
Vou para o Quarteirense, que queria subir da distrital à III divisão. Fui como amador, treinar à noite e trabalhava na tal empresa. Conseguimos subir de divisão também. O treinador convidou-me para ficar mais uma época, que seria na III divisão, com possibilidade de subir para a IIB, fiquei todo entusiasmado, e 15 dias antes do campeonato começar, liga-me "Idalécio desculpa lá ter-te convidado mas afinal não vai dar para ficares. Por isso, obrigado por tudo e até à próxima". E fiquei sem alternativas. Apesar de ter sido dos jogadores mais utilizados, um dos capitães.

Nunca tinha pensado a sério no futuro pós-carreira?
Não, porque acho que nunca estamos preparados. Achamos sempre que as coisas vão durar, vão durar. Não tive a possibilidade também de fazer grandes investimentos ou os que fiz acabaram por não correr bem. O investimento numa casa sempre foi uma coisa válida, mas com a queda do mercado e como as coisas aconteceram, acabou por ser um mau investimento.

Quando percebe que não vai voltar a jogar, o que lhe passou pela cabeça?
Enquanto estive no SC Braga fiz o curso de treinador. Quando vou para o Nacional já não consigo frequentar o III nível, fiquei só com o II nível sempre mas a pensar que pudesse ser útil quando terminasse a carreira. Não pela paixão de ser treinador, mas gostava de ser adjunto de treinador, acho que é importante saber fazer esse papel. Eu também não tenho caráter para servir de marioneta, como considero que muitas vezes alguns treinadores são, por isso não era para mim. Então começo a contatar alguns amigos, para ver se havia alguma possibilidade como adjunto. Todos dizem que vão ver. Não surge nada. E o Quarteirense convida-me para ficar como coordenador da formação. Aceitei o desafio. Fiquei responsável pelos treinadores e formação de alguns 300 miúdos.

Gostou da experiência?
De todo. Porque ver miúdos de 10 anos a terminar os jogos a chorar e a chamarem nomes aos árbitros porque tinham perdido… Havia ali muito trabalho de mentalidade a ser feito; os pais a querer bater nos treinadores porque o filho só tinha jogado dois minutos ou porque não tinha jogado. Coisas que nunca pensei ver na minha vida, na formação, porque não cresci nesse meio nem dessa forma. Pelo contrário, cresci com os pais a não apoiar a ideia de se ser jogador e neste caso eram os pais a forçar que os miúdos jogassem e fossem jogadores. Os miúdos cada vez mais a querer desistir ou porque está a chover, ou porque está frio ou porque ficam no banco de suplentes. O meio social de Quarteira também era um bocado difícil, miúdos com muitas dificuldades sociais, e pronto, foi uma má experiência. Eu já fazia de motorista para ir buscar jogadores, fazia de roupeiro, de tudo. Eles não me pagavam o valor de coordenador que era de 400€, como é que ainda iam pagar a um motorista? E parei.

E depois?
Os meus sogros foram passar o natal a Londres com o meu cunhado, o irmão da minha esposa, Isto em 2012. Quando chegaram ao Algarve não se calaram: "Idalécio e Rita, Londres é que era bom para vocês. Vocês nem imaginam as oportunidades de trabalho e o reconhecimento". O meu cunhado já estava em Londres há um ano e meio, isso estava a passar-se com ele. Aquilo começou a entrar no ouvido, a entrar no ouvido. A minha esposa estava a trabalhar na secretaria de um colégio, onde as miúdas estudavam, em Olhão. Chegamos a Fevereiro, ligamos ao meu cunhado.

O primeiro emprego de Idalécio em Londres foi num Casino

O primeiro emprego de Idalécio em Londres foi num Casino

D.R.

Foi a família toda junta para Londres?
Primeiro fui sozinho. Saiu alguém da casa onde estava o meu cunhado e ele reservou-me lá o quarto individual. Vim em março. Saí do conforto da minha casa e fui para uma casa partilhada com outras pessoas, numa cidade enorme, onde só conhecia o meu cunhado. Mas devo dizer que assim que cheguei a Londres pensei de imediato: "Eu não quero sair daqui".

Porquê?
Quando começo a ver esta gente toda, este movimento todo, esta energia, só pensava: "Vou fazer tudo, nem que tenha de varrer as ruas, tenho de criar condições para ficar aqui e trazer a familia". Fui para o centro de Londres com o meu cunhado para jantar e levei logo dois CV's (curriculum vitae) na mão. Passamos por um casino e vi um anúncio a dizer que precisavam de staff. Deixei logo o CV. O meu cunhado era bartender, nunca eu tinha pensado em ir para essa área. Passado um mês comecei a pensar que não arranjava nada e ligam-me do Casino. Sem perceber bem o inglês ainda, lá fui. Fazem-me a entrevistam dizem que estão a entrevistar mais pessoas e que depois logo se via. Passado uma semana chamam-me.

Quais eram as suas funções no Casino?
A designação era team member. Andávamos com 400 libras numa bolsinha, o meu casino só tinha slot machines, e se os clientes ganhavam o montante grande em moedas e não queriam mexer nas moedas, aparecia o montante na máquina, nós dávamos em notas, colhíamos as moedas e íamos à cave, ao cofre, para trocar em notas novamente.

Fez isso durante quanto tempo?
Seis meses, sendo que ao fim de três meses fui promovido a supervisor, a liderar pessoas que já estavam há algum tempo no casino. As condições eram um bocadinho melhores mas tinha de trabalhar à noite. Aceitei, porque queria criar condições para trazer a família. Eles aqui não querem saber da nossa idade nem muito da nossa experiência profissional, aliás, a experiência de vida muitas vezes conta mais para eles.

Quando dizia que tinha sido jogador profissional de futebol qual era a reação?
No princípio, apresentava os CV's ainda como jogador. Mas começamos a conversar com outras pessoas e a perceber que se calhar não fazia sentido. Então refiz o CV dizendo que já tinha trabalhado em restaurantes e hotéis [risos]. Era isso que muitos deles faziam. Comecei a dizer que tinha aquele tipo de experiência, até porque os meus sogros tinham tido um restaurante em Faro e eu às vezes ajudava lá. Em Londres há muito trabalho em restaurantes e hotéis, é onde a maior parte das pessoas trabalha, e em limpezas. Eu não me importava de fazer limpezas, mas eu tinha algum nível de inglês e quem vai para limpezas normalmente são pessoas que não sabem falar o inglês.

Depois do Casino Idalécio foi trabalhar para o Caffe Concerto

Depois do Casino Idalécio foi trabalhar para o Caffe Concerto

D.R.

Estava a dizer que esteve seis meses no Casino. E depois?
Há um dia em que estou a ir para casa no autocarro e um português vira-se para mim "Eh pá, você é o Idalécio que jogava no SC Braga, o que é que faz aqui?". Começamos a falar, expliquei-lhe onde estava a trabalhar, que era um bocado stressante porque tinha de lidar com prémios a noite toda e o dinheiro tinha de bater certo de manhã, na caixa. Imagine eu ter um problema acabado de chegar? As pessoas podiam pensar que eu tinha roubado alguma coisa, era stressante. Esse rapaz disse que estava a trabalhar num café-concerto, com pastelaria e zona de restaurante com pratos. Tinham 19 casas abertas em Londres e estão sempre a precisar de staff. Pergunta-me se não quero lá ir fazer um trial.

E foi?
Eu estava para trazer as minhas filhas. Cheguei em março, a minha mulher em junho, e ela começou a trabalhar na recepção de um hotel. As nossas filhas tinham ficado com os avós, enquanto acabávamos de tratar do processo de alugar casa. Eles vão ligar para a tua empresa, remexem a tua vida toda. Mas se estiveres sempre a trabalhar, ao fim de seis meses eles começam a olhar para ti de maneira diferente. Já há mais informação sobre o tipo de pessoa que és e já conseguimos alugar uma casa. Mas sim, o rapaz convida-me para ir fazer o trial, eu estava um pouco inseguro, tinha receio que o meu nível de inglês não fosse suficiente para servir à mesa. Mas fui.

Correu bem?
Sim, eles disseram que ficavam comigo, que iam ensinar-me e ajudar-me. E lá fui para o café concerto, para o meio dos portugueses. Falávamos entre nós em português, mas os clientes eram ingleses naturalmente. Porque não há ingleses a trabalhar neste ramo. Os ingleses ou estão nos escritórios ou vivem dos benefícios, não fazem este trabalhos porque ganham mais nos benefícios se tiverem filhos muito cedo do que a fazer estes trabalhos. Vou para o café concerto, ajudaram-me e fui aprendendo aquilo tudo. Tive que aprender os pratos, os bolos, seis meses depois passei a supervisor, a ajudar o manager, e ao fim de um ano deram-me a posição de Assistant manager.

Entretanto as suas filhas foram viver com vocês?
Sim, chegaram em setembro, quando comecei no café concerto. Elas chegaram no dia em que nos deram a chave do nosso apartamento. Mas pelo meio, o meu cunhado que era ponte e a segurança disto tudo, recebe uma proposta de uma empresa de Londres para ir trabalhar para o Dubai. Ou seja, quando tratamos do processo da casa já não o podemos incluir, ficamos com o coração nas mãos, sem saber se conseguimos tratar de todo o processo sem a ajuda dele, que já estava cá há um ano e meio. Mas conseguimos. Ficamos só os quatro cá, sem mais ajudas nem conhecimentos.

Idalécio trabalhou três anos no Novikov, um dos restaurantes mais afamados de Londres

Idalécio trabalhou três anos no Novikov, um dos restaurantes mais afamados de Londres

D.R.

As suas filhas integraram-se bem na escola.
Elas integraram a turma do ano de nascimento. Estavam na altura quase a fazer 13 e 15 anos, tiveram de fazer os testes psicotécnicos, mas correu bem. Ficaram numa escola perto de casa, na zona de Battersea, ao lado da zona dos portugueses. Não quisemos ir para as zonas da grande comunidade portuguesa que é Vauxhall e Stockwell, porque queríamos adaptar-nos à realidade inglesa. As miúdas adoraram.

Estava a contar que foi promovido a Assistant Manager.
Sim, o salário melhorou mas deixei de trabalhar com os meus colegas e fui ser chefiado por outras pessoas, noutra das casas da empresa, onde estive durante quatro meses. A minha esposa sai da recepção do hotel e vai trabalhar na organização de reservas de restaurantes. Depois eu saio desse restaurante na zona de Piccadilly e vou para outra casa, onde estive dois meses, quase a sentir a oportunidade de ficar como manager, à frente de uma loja deles. Mas começo a ter a percepção de que se calhar se me candidatasse a outros lugares podia ganhar um bocadinho mais, aprender mais e outras portas podiam abrir-se. Voltei a sair da zona de conforto da empresa onde estava há um e meio. E vou para empregado de mesa no restaurante asiático Novikov, super famoso em Londres.

Como é que lá vai parar?
Através do Décio Barroso que também tinha jogado no Algarve mas que eu só conheci cá. Fiz amizade com ele em Londres e um dia vou a casa dele ao aniversário da esposa e os filhos eram managers do restaurante asiático do Novikov. Dizem-me que estão com falta de staff e perguntam se não quero fazer o trial. Eu já tinha ouvido falar do Novikov, que era um restaurante onde paravam as vedetas todas, onde eu podia ganhar mais e resolvi tentar. Ao fim das três ou quatro horas do trial disseram-me que ia ficar.

O que foi fazer?
Comecei a levar a comida às mesas. Não chegava mesmo às mesas mas junto do head waiter que está numa zona "morta" do restaurante. No fundo fazia a ponte entre o head waiter e a cozinha, os chefs. Ao fim de seis meses tive a possibilidade de ficar a liderar a zona de passe. Fiquei como responsável desses rapazes que levavam a comida. Eu e mais dois colegas é que fazíamos a comunicação entre os managers e os chefs da cozinha. Foi um bom desafio.

Com a mulher e as duas filhas

Com a mulher e as duas filhas

D.R.

E o futebol ficou completamente de lado?
Sim. Pelas dificuldades que tínhamos tido em Portugal, a primeira coisa que a minha esposa me disse antes de eu vir para cá foi: "Idalécio, tu vais, mas esquece o futebol. Já viste o que o futebol nos tem dado, vais para lá, vais tentar organizar tudo para nós irmos ter contigo". E assim foi. O futebol foi ficando de lado, nunca surgiu nada, nem convite nenhum. Toda a gente me conhece, tem um enorme carinho por mim e sabe que eu percebo de futebol, mas nunca surgiu nada. Fui-me concentrado naquilo que era o meu ganha pão.

Já saiu do Novikov?
Sim. Estive lá quatro anos e em março de 2019 saio para concierge de um hotel que é uma posição muito reconhecida e valorizada aqui e tem muito a ver com relações humanas, com comunicação, tem muito a ver comigo e com o que gostava de fazer. Comecei no turno da noite, trabalhava quatro dias das 19h45 às 7h45 e tinha outros quatro de folga. A minha esposa entretanto foi para uma empresa maior, onde já está há cinco anos. Comecei lá em março, em novembro ganhei o prémio do empregado do mês no meio de mais de 300 empregados. No café concerto também já tinha ganho o empregado do mês.

O que aconteceu quando surgiu a pandemia?
O hotel fechou, mas o governo apoiou-nos. Eu fiquei na lista dos empregados que decidiram apoiar, embora só estivesse lá há um ano. O problema é que eles só pagavam se fizéssemos horas e eu fiquei com zero horas, não havia trabalho para mim. Em junho já estava com o coração nas mãos e comecei à procura de novo trabalho como concierge numa empresa de residentes. Comecei no fim de agosto de 2020 a trabalhar com residentes. E agora, haja covid ou não haja, tenho de ir trabalhar, não paramos. É um condomínio, com 120 apartamentos.

De todos os trabalhos por onde passou qual as funções de que gostou mais?
As de concierge no hotel.

No restaurante qual foi para si a estrela maior que lá passou?
Cristiano Ronaldo. Ele esteve no Novikov a festejar depois de ganhar o prémio de melhor jogador da FIFA, com a comitiva toda, a família e o agente, o Jorge Mendes. Eu estava de folga nesse dia, mas fui lá para lhe dar os parabéns e fazer a visita ao restaurante. Mas iam lá muitos jogadores do Chelsea, esteve lá o Neymar, o Quaresma.

Os jogadores ingleses sabiam que tinha sido jogador?
Não. Mas os portugueses sim, muitas vezes era eu que lhes marcava a mesa. Eles sabiam que eu estava lá e ligavam-me. Não só eles, mesmo outras pessoas que começaram a saber que eu estava lá, passaram a ligar-me porque era muito difícil marcar mesa.

Idalécio começou a trabalhar como concierge em Março de 2019

Idalécio começou a trabalhar como concierge em Março de 2019

D.R.

De que forma é que o futebol o ajudou nas suas novas funções?
O trabalho de equipa, a humildade que tens de ter a jogar tens de transportar para qualquer trabalho, porque há regras, há a pessoa que te chefia, que pode ser visto como o treinador, e que tens de aceitar.

As filhas, entretanto, o que foram fazendo?
A mais velha decidiu ir para universidade que aqui, felizmente, ajudam a pagar. Está a fazer psicologia forense. No primeiro ano pode ficar nos apartamentos da faculdade, mas no segundo tem de sair, para dar a possibilidade a quem vai para o 1º ano. Ao fim dos três anos candidatou-se a um mestrado numa boa universidade em Londres. A mais nova terminou a escolaridade obrigatória, viu-se um pouco perdida sobre o que gostava de fazer. Esteve a trabalhar na Zara, e ao fim de um ano resolveu fazer um curso profissional de designer interior, pago por ela. Está a fazer o curso e a trabalhar na receção de um restaurante no Soho.

Já não pensam sair daí?
Não. Isto foi a melhor coisa que nos podia ter acontecido. O custo de vida é elevado, aqui dá para trabalhar e desfrutar, mas não dá para enriquecer. Mas adoramos cá estar.

Acha que o Brexit é um erro?
Eles parvos, não são. Naturalmente existem muitos interesses políticos. Acabou por acontecer porque muita gente de meia idade e mais velhos, dos arredores de Londres, começou a ouvir que o UK ajudava muito com saídas de dinheiro. Isso começou a preocupar essas pessoas, daí que o maior número de votos a favor do Brexit é de fora de Londres. Nunca pensamos que pudesse acontecer. Não sabemos se vai ser bom ou mau, mas eles parecem-me estar satisfeitos, vamos ver.

Costuma ir ver futebol? Passou a apoiar alguma equipa de Londres?
Enquanto estava em Portugal, sempre gostei muito do Manchester United. A partir do momento em que veio Mourinho para o Chelsea, e com as suas conquistas, passei a torcer para que ele tivesse sucesso e acabei por me tornar num apoiante do Mourinho, onde ele está eu quero que a equipa tenha sucesso. Quando o guarda-redes Eduardo estava cá, no Chelsea, às vezes ainda ia ao futebol, porque arranjava-me alguns bilhetes. Mas não é fácil comprar e arranjar convites. Durante a época está quase sempre tudo vendido e se não está os valores são elevados.

Em novembro de 2019 recebeu o diploma como General Manager do Hotel

Em novembro de 2019 recebeu o diploma como General Manager do Hotel

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
No Nacional da Madeira.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Se calhar uma carrinha Chrysler que tive.

Tem ou teve algum hóbi?
Gostava muito de jogar snooker em Portugal. Aqui é mais difícil. E adorava ir ao cinema.

Tem algum filme da sua vida?
O Top Gun marcou-me.

É um homem de fé?
Sim muito. Acredito, mas não frequento a igreja.

Superstições?
Podia ter mas tentava não me agarrar muito. Não tive muitas. Tinha aquela coisa de entrar com o pé direito.

Alcunhas, tem ou teve?
O girafa ou o bom gigante.

Tem algum clube de sonho onde gostava de ter jogado?
O Benfica.

E o maior arrependimento da carreira?
Se calhar não ter vindo mais cedo para Londres.

Não tem mais nenhuma história para contar, para a despedida?
Tenho um episódio giro no Rio Ave, com um colega holnadês, o Junas Naciri. Quando regressamos de férias para o estágio de pré época combinamos ajudarmo-nos a cuidar da alimentação para controlar alguns excessos das férias. Assim fizemos durante sete ou oito dias, sempre a cortar no pão, nas batatas, sobremesas, a coisa estava a correr bem até ao dia em que saímos de estágio e já sem as restrições; como éramos boa boca, decidimos ir direitinhos aos crepes com chantilly e gelado [risos]. Soube-nos pela vida.