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A casa às costas

“Quando representei a Grécia, cantei o hino, arrepiei-me, lembrei-me do bairro de onde vim, de tudo o que passei. E então pensei no meu pai”

A improvável epopeia de Zeca deu uma entrevista de vida de sobressaltos, escolhas, um drama pessoal - "perdi o meu pai para droga aos 10 anos" - e um final feliz. Nascido no Bairro do Zambujal, o português trilhou o seu caminho até ao Panathinaikos da Grécia, acabando por naturalizar-se grego e jogar pela seleção grega. Conheça a história deste futebolista super supersticioso que tem um ritual meticuloso antes de cada jogo e a quem chamavam Inspetor Gadget

Alexandra Simões de Abreu

IDA GULDBAEK ARENTSEN

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Nasceu em Lisboa. Apresente-nos a família.
A minha mãe trabalhava na Makro de Alfragide e o meu pai quando nasci estava desempregado. Tenho um irmão mais novo, tem 21 anos, mas é de outro relacionamento da minha mãe.

Cresceu onde?
Cresci no bairro do Zambujal, Alfragide, depois andei a mudar de casa. Estive na Brandoa, quando vivi com a minha mãe, porque os meus pais separaram-se quando eu tinha cinco anos. Depois fui viver para a Amadora, já com 10, 11 anos e vivi lá até aos 21 anos.

Que tipo de criança foi?
Acho que fazia tudo o que as outras crianças faziam. Derivado ao bairro onde nasci, era um bocadinho reguila mas nunca passei para lá disso, para as más fases, mas pode-se dizer que era um bocadinho reguila.

Recorda-se de ter feito alguma coisa que tenha chateado muito os seus pais?
Lembro-me que o meu pai chateava-se muito porque havia dias em que eu saía de manhã e ia para Alvalade, para ver os treinos do Sporting, e só voltava para casa por volta da meia noite e tinha nove, dez anos. O meu pai andava à minha procura.

Faltava às aulas então.
[risos] Na altura não ia muito, não.

Do que não gostava na escola?
Não era não gostar da escola, não tinha nada contra, só que o que queria mesmo era ir aos treinos do Sporting, ver os jogadores a treinar e pedir camisolas e equipamentos aos jogadores. Achava que isso era mais importante para mim do que a escola [risos].

Quem eram os seus ídolos?
O meu ídolo sempre foi o Rui Costa, que é benfiquista [risos]. É verdade, sempre tive uma loucura com o Rui Costa. Comecei a vê-lo mais no tempo da Fiorentina e era o meu jogador favorito, tudo o que era do Rui Costa, eu queria ter. Tinha t-shirts, tinha posters, fotografias.

Zeca em criança, no jardim

Zeca em criança, no jardim

D.R.

Os amigos metiam-se consigo por ser do Sporting e gostar do Rui Costa?
A malta dizia: "Eh pá, tu lá no fundo és benfiquista porque gostas do Rui Costa que é um grande benfiquista". Eu dizia que não, que não havia hipótese de ser do Benfica. Hoje em dia já vejo o futebol de maneira diferente, mas naquela altura não podia ouvir falar do Benfica [risos]. Dizia-lhes que não tinha nada a ver, que eu admirava as qualidades dele como jogador.

Tem alguma ideia de porque é que se tornou sportinguista?
Por causa do meu pai e da família do meu pai que são todos sportinguistas. Sempre ouvi falar do Sporting em casa, tive que ficar sportinguista, embora a minha mãe seja benfiquista.

O que dizia que queria ser quando crescesse?
Dizia que ia ser jogador de futebol e que o primeiro salário ia ser para a minha mãe e para a minha avó. E tinha confiança nisso. Nunca trabalhei em outra coisa que não fosse o futebol, tirei um curso profissional na Casa Pia mas...

Um curso de quê?
De serralheiro mecânico e exerci só por dois dias, depois não fui mais.

Estudou sempre na Casa Pia?
Não, estudei na Brandoa até ao 4.º ano, depois na Amadora até ao 7.º, e depois é que fui para Pina Manique, para o curso profissional até ao 12.º ano. Era muito mais fácil porque jogava no Casa Pia. Antes, às vezes, tinha de faltar aos treinos porque não chegava a horas e falei com as pessoas da Casa Pia e foi mais fácil assim.

Com o pai

Com o pai

D.R.

O futebol surge como e quando?
Eu vou para o Casa Pia a fazer os meus 10 anos, porque tinha um amigo no bairro do Zambujal, mais velho um ano, o Fábio, com quem andava sempre a jogar à bola. E ele à tarde dizia-me: "Eh pá tenho de ir embora, vou ter de ir treinar". Entretanto um dia convidou-me: "Vem lá treinar, estão a fazer captações, se não gostares depois vens embora". Fui e no primeiro treino o treinador gostou de mim, disse que queria que eu ficasse na equipa e que fosse mais vezes. Lembro-me que ainda não tinha o Bilhete de Identidade feito e tive de ir fazer.

Quando disse aos seus pais, o que é que eles acharam da ideia?
Os meus pais sempre me motivaram a jogar futebol. Tanto que a minha mãe nunca me pôs de castigo por causa das notas da escola, como por exemplo, não ir aos treinos por causa das notas e tal, então sempre tive apoio total deles.

Esteve quantos anos no Casa Pia A.C.?
Dos 10 aos 21 anos. É lá que faço a minha estreia como sénior também. Faço um ano na distrital e dois anos na III divisão e depois é que vou para o Vitória de Setúbal.

Desse percurso todo no Casa Pia, quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes?
O meu primeiro treinador que, o Rui Ervidel, e a Sofia que era a adjunta. Foram eles que me chamaram para a equipa, deram-me a oportunidade de jogar e ensinaram-me tanta coisa; como comportar-me [risos]. Porque naquela altura só reclamava de tudo e tinha de ficar muitas vezes de castigo.

Explique lá isso melhor.
Reclamava muito, reclamava com tudo o que o treinador dizia, com qualquer falta que ele não apitasse quando estávamos nos treinos ou o golo que eu achava que não era correto, tudo que fosse contra mim achava que não era correto [risos]. Sempre fui muito refilão em campo e por vezes ele mandava-me embora dos treinos, até eu aprender. Eu jogava sempre a titular, mas quando isso acontecia, nesse fim de semana nunca começava a titular e acho que me fez aprender muita coisa com esses castigos.

A festejar um aniversário com a mãe e o irmão

A festejar um aniversário com a mãe e o irmão

D.R.

Quando começam os primeiros namoros e saídas à noite?
O meu primeiro namoro sério foi só aos 19 anos. As saídas também começam no Casa Pia, ia para o Loft, com um colega, o Nuno, e depois com o Pedro Santos.

Nunca teve problemas por causa das noitadas?
Não, só saía quando não tinha jogos ou nas férias. Acho que acabei por sair algumas vezes também no fim de semana de jogo, mas nunca foi uma coisa que fizesse regularmente, devo ter feito uma, duas vezes. Sabia que não ia ser bom para mim, para o jogo do fim de semana.

Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado e de quantos anos tinha?
Tinha 19 anos e ganhava 125 euros. Devo ter comprado uns ténis porque sempre fui de gostar de ténis.

Zeca (à direita) começou a jogar futebol no Casa Pia A.C.

Zeca (à direita) começou a jogar futebol no Casa Pia A.C.

D.R.

Como surge o Vitória de Setúbal?
Eu jogava no Casa Pia com o Pedro e a Proeleven andava atrás do Pedro para assinarem com ele. Vieram ver uns jogos do Pedro, e acabaram também por ver em mim capacidade para trabalhar com eles. Marcaram uma reunião connosco no Casa Pia. Eles queriam representar-nos, mas não queriam prometer-nos nada, queriam mostrar trabalho. Assinei com eles um pouco mais tarde.

São eles que o levam para Setúbal?
Sim, eles trataram das coisas todas para ir para Setúbal. A situação do Vitória de Setúbal aparece num jogo contra o Alcochete, onde jogava o Tiago Fernandes, filho do Manuel Fernandes. O Manuel Fernandes estava na bancada nesse jogo e, se não me engano, fiz um golo e duas assistências, também fiz um penálti contra nós [risos]. No final do jogo o Tiago Fernandes veio falar comigo, disse que o pai tinha gostado muito de mim e perguntou se eu tinha empresário, porque gostavam de falar com ele. A partir daí, isso foi entregue ao Carlos Gonçalves. Mas pouco antes disso eu e o Pedro estivemos à experiência no Recreativo de Huelva.

O que aconteceu?
O treinador do Casa Pia não queria que nós fossemos, mas acabamos por ir uma semana ao Recreativo de Huelva, à experiência, através da Proeleven. Quando chegámos lá ao fim de dois dias mudaram de treinador e tivemos de ir treinar com a equipa B. Mas fiquei com a ideia de que eles tinham gostado muito do Pedro e disseram que iam continuar a acompanhá-lo, só que precisavam de ver a situação no clube. Em relação a mim, disseram que tinham jogadores de sobra naquela posição. Na altura fiquei triste mas também estava num clube que gostava muito e onde me sentia bem.

Não tem histórias engraçadas para contar dos tempos do Casa Pia?
Tenho uma caricata: no Casa Pia tínhamos um colega que estava à procura de trabalho e outro colega foi falar com ele e disse-lhe: "Tenho um trabalho para ti, um part-time, bem pago, só tens de fazer duas horas e recebes 500 euros. Acho que é bom”; e o outro: “Espetáculo, é tranquilo" e perguntou-lhe o que era o trabalho. “Só tens de fazer isto: há um marquês (que era o Marquês de Pombal) e tu tens de cuidar dos leões, enquanto ele vai almoçar. Mais nada"; "Eh pá, a sério, tomar conta de leões, como é que eu vou fazer isso?"; "Não te preocupes que os leões não saem dali"; "Mas estão enjaulados, como é que é? Toda a gente tem medo de leões."; "Não tens de fazer nada, os leões estão ali parados, quietinhos. Tu só tens de esperar que o marquês venha do almoço"; "Então tranquilo, diz lá o meu nome que eu vou, quero é trabalhar, não há problema nenhum" [risos]. Ele acreditou na história até lhe contarmos: "Eh pá, o Marquês de Pombal é a estátua onde o Benfica e o Sporting vão celebrar, sabes disso!". É engraçado porque ele não sabia, na realidade.

Zeca esteve uma época, a de 2010/11, no V. Setúbal

Zeca esteve uma época, a de 2010/11, no V. Setúbal

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Quando vai para Setúbal sai pela primeira vez de casa da sua mãe?
Sim. Fui viver com a minha namorada da altura, a Sara, em Alcântara. Só soube o que é que era viver sozinho mais tarde, aos 26, 27 anos. Fui viver com ela e foi uma experiência diferente, se calhar não estava preparado para a situação, era muito novo, tínhamos pouco tempo de namoro e fizemos as coisas muito rápido.

Não era cansativo ir e vir todos os dias de Setúbal?
Pior eram as despesas, que começaram a ser muitas. A sorte é que conheci o Hugo Leal, no Setúbal, e há um dia em que estamos a voltar de Setúbal para Lisboa, ele vê-me na ponte e no dia a seguir ele sugere que, como éramos os únicos a viver em Lisboa, ele vivia no Estoril, podíamos começar a ir juntos. Uma semana levava eu o carro, na outra ele. Entretanto, como depois tivemos problemas com os salários em Setúbal, ele passou a levar-me todos os dias, só uma semana conduzia ele o carro dele e na semana seguinte era eu a conduzir o carro dele. Ele dizia que queria ir no banco do pendura, a descansar até à hora do treino. Fazia de motorista dele nesse carro.

Gostou do Manuel Fernandes como treinador?
Sim, e como pessoa era um ser humano incrível.

Um ritmo diferente daquele a que estava habituado no Casa Pia?
Sim, eram treinos diferentes, mais exigentes, mais qualidade. Ao início tive problemas com o ritmo, sim.

Que tipo de problemas?
A intensidade dos treinos era completamente diferente e a forma dos jogadores pensarem, a rapidez que eles tinham também era diferente. Apanhei um balneário com jogadores muito experientes, com muitos jogos na I liga e era complicado, mas também foi aí que o mister ajudou muito, a dar-me confiança.

Zeca com Beatriz, a filha mais velha

Zeca com Beatriz, a filha mais velha

D.R.

Foi praxado, havia muitas partidas?
Não fui praxado mas havia muitas partidas. O Hugo Leal era muito palhaço, sofri de um bom bullying, ele estava sempre a brincar comigo. Noutro dia ele contou uma que me fez. Nós quando íamos para Setúbal tomávamos sempre o pequeno almoço num café em Setúbal e ele metia sempre os talheres de um lado, dobrava o guardanapo sempre da mesma forma e comia sempre da mesma forma. Andou a fazer aquilo durante muito tempo e eu olhava, mas não tinha aquela confiança de dizer: "Oh pá ó Hugo o que é que se passa? Estás cheio de tiques? Metes os talheres assim e o guardanapo assim...". Não tinha coragem. Até que uma vez estamos a tomar o pequeno almoço, ele vai à casa de banho e eu ajeito tudo como ele fazia, para ele comer. E quando regressa começa-se a rir, começa a gozar comigo: "Estava a ver que não fazias ou não perguntavas. Andei este tempo todo a fazer isto, que era para tu perguntares e acabaste por fazer o que eu faço [risos]. Estive a gozar contigo este tempo todo e já me estás a arranjar o pequeno almoço e tudo" [risos].

Mais alguma história caricata desses tempos em Setúbal?
Lembro-me que tínhamos a votação do mais feio da equipa. Os mais velhos, que eram o Ricardo Silva, o Hugo Leal e outros, diziam: "Eh pá, o Zequinha estás aí entre o primeiro e o segundo, estás aí numa grande luta" [risos]. E eu já andava a suar, não queria ter esse título do mais feio e então tínhamos dois dias para votar e eles sempre a dizer: “Ó Zeca, aquilo que a malta já me disse é que tu já estás em 1º, mas pá, não te deixes levar por isso que isso é uma votação tranquila, não te acanhes, é só uma brincadeira, um título". Acabei por não ganhar, mas andei preocupado [risos]

Quem é que ganhou?
Foi o Miguelito. Eles fizeram a cama ao Miguelito dois anos seguidos [risos]. Aquilo tinha uma consequência, por isso é que eu andava preocupado.

O que era o castigo?
[risos] Tínhamos de vestir-nos de mulher. Eu não estava preparado para isso na altura e estava a ficar preocupado, vão gozar comigo, vão gozar comigo. Foi o Miguelito que ganhou e lá teve ele de vestir-se de mulher. Mas ele também era um palhaço e levou aquilo para a brincadeira. Espero que ele não fique ofendido por contar isto. E tenho outra história do Hugo Leal.

Força.
Todas as semanas fazíamos o Euromilhões e quem ia pôr os números do Euromilhões era ele. E uma vez ele pegou nos boletins todos da malta que tinha feito os números e no dia em que foi o sorteio, ele em casa preencheu um boletim com os números que tinham saído e meteu lá no meio dos outros boletins. Eles viam sempre os números, antes de ir entregar à papelaria verificar os boletins. E quando estavam a verificar viram que os números estavam a bater certo e a malta começou a pensar que tinha ganho o euromilhões, que estávamos todos cheios de dinheiro e havia uns já muito contentes, a querer ligar para a família e amigos e ele teve de contar [risos]. Mas foi muito engraçado ver a reação de todos no balneário.

A festejar um golo pelo Panathinaikos, na Liga Europa, em 2012

A festejar um golo pelo Panathinaikos, na Liga Europa, em 2012

Stephen Pond - EMPICS

Desportivamente como correu essa época em Setúbal?
Correu melhor do que o esperado, fiz 14 jogos a titular e 14 a sair do banco. Infelizmente o mister Manuel Fernandes saiu a meio da temporada. Tivemos uma fase de maus resultados e decidiram que o mister tinha que sair. Era uma pessoa por quem eu tinha grande respeito e apreço.

Quem o substituiu?
O Bruno Ribeiro. Tive o apoio total dele, gostava muito de mim, dava-me muitos conselhos, também tinha sido médio-centro. Ajudou-me, deu-me minutos e, dois ou três meses antes de surgir o Panathinaikos, foi ele que me disse para eu continuar a trabalhar que andava a ser visto por uma boa equipa na Europa e que a minha vida podia mudar. Nunca me tinha dito o que era, mas andava sempre a puxar por mim.

Quais eram os seus sonhos, chegar ao Sporting? Ir lá para fora?
O meu sonho nessa altura era ficar na I liga, jogar mais do que tinha vindo a jogar e depois, se possível, ir para um clube com outras ambições na I liga, não quer dizer que fosse um grande, mas uma equipa que pudesse lutar pela Europa; e se calhar depois disso ir para um Sporting, para uma equipa grande.

Quando lhe dizem que o clube interessado era o Panathinaikos, na Grécia, qual foi a sua reação?
Eu estava de férias e ligou-me um empresário que não me recordo o nome a dizer que tinha uma proposta do Panathinaikos. Respondi: "Ok, então fale com o meu empresário, tratem vocês disso. Parece-me uma situação muito boa para mim e para a minha carreira, mas tem de falar com ele porque ele é que trata dessas coisas". Mal desliguei o telefone, liguei para o meu empresário e ele: "Zeca nós já estamos a tratar disso há quatro meses, por isso não te preocupes que está tudo a correr bem". Eu só disse “OK”.

Zeca esteve quase sete anos na Grécia, onde sempre representou o Panathinaikos

Zeca esteve quase sete anos na Grécia, onde sempre representou o Panathinaikos

EuroFootball

O que sabia do clube e da Grécia?
Já tinha ouvido falar porque o FC Porto na altura em que ganhou a Liga dos Campeões enfrentou o Panathinaikos. E também houve uma altura em que o Benfica jogou com o Olympiacos na fase de grupos da Liga Europa, mas era só isso que conhecia da Grécia, não conhecia mais nada. Sabia que tinham ganho o Euro 2004 e lembro-me que nesse dia chorei baba e ranho por eles terem ganho a Portugal. Também não pesquisei muito, porque não achava que as coisas estivessem assim tão adiantadas.

Quando é que se define em concreto?
Acabei as férias, voltei para fazer a pré-época com o Vitória de Setúbal e o meu empresário nessa altura ligou-me a dizer que ia fazer a transferência. Entretanto vejo a pré-época a passar, jogos de treino e nada, eu continuava no Vitória de Setúbal. Foi difícil essa situação porque estava ansioso. Até porque houve uma altura em que o meu empresário tinha-me dito alguns valores e passavam muito para além dos valores que eu recebia em Setúbal. Isso também começou a pesar um bocadinho. Há um jogo contra o Estoril em casa, de apresentação aos sócios, eu equipei-me, fui para o banco e o treinador diz-me: "Tu hoje não jogas, porque hoje ou amanhã fica tudo tratado". Passados dois dias o Vitória de Setúbal chamou-me para assinar o contrato da rescisão porque ia para o Panathinaikos.

Parte para a Grécia sozinho ou com a namorada?
Fui só com o meu empresário, ao fim de dias ele veio embora.

Como foi o primeiro impacto?
Cheguei era meia noite e meia, mas lembro-me que estava um calor infernal e estavam uns 10, 15 jornalistas no aeroporto a querer falar comigo. Eu não falava inglês, nem grego, não falei nada, fui para o hotel e no dia seguinte, depois do primeiro treino fui dar umas voltas pela zona do hotel e aquilo parecia-me tudo muito bonito por causa do mar, das praias, tudo incrível. Foi um bom começo, um bom primeiro impacto.

Zeca com o irmão João Pedro

Zeca com o irmão João Pedro

D.R.

Era Jesualdo Ferreira quem estava à frente da equipa.
Sim, foi o Jesualdo que me quis no Panathinaikos, acho que se não fosse ele, não tinha ido para lá.

O que achou dele como treinador?
Para mim foi o melhor treinador que tive até hoje. Ensinou-me coisas de futebol que ninguém tinha perdido tempo para me ensinar. A posição do corpo quando recebia a bola, a posição em campo, a forma de ler o jogo, ensinou-me isso tudo e perdia muito tempo comigo. Esforçava-se tanto comigo para eu fazer o controlo adiantado. Ou seja, estar sempre com o corpo aberto para jogar a bola para frente, eu fazia sempre controlo da bola para trás e ele parava os treinos e dizia: "Eh pá, mas tu és burro!? Já te disse que é assim..." [risos]. Mas sempre apostou em mim, meteu-me a jogar, nunca desistiu de mim porque levei mais tempo para aprender do que se calhar outros jogadores que ele tinha. Ele dava-me sempre os exemplos do Hulk, do Falcão, do Lisandro, que quando chegaram também tinham essa dificuldade e aprenderam rápido. Eu via a carreira que esses jogadores estavam a ter e o sucesso que tiveram com ele, por isso errado ele não podia estar, eu é que estava errado, então tinha de mudar e tinha de aprender. Tanto ele, como os adjuntos dele, qualquer coisa que precisasse estavam sempre prontos para me ajudar.

Ficou a viver sozinho?
Estive dois meses sozinho na Grécia, num hotel, depois é que a minha namorada, a Sara, vai para lá.

Como é que se desenrascou com a comunicação se não sabia falar inglês e muito menos grego?
Foi complicado. No primeiro dia fui com o meu empresário comer ao que eles chamam uma taberna, que tem “souvlaki” e “gyros”, então andei a comer nesse restaurante uma data de tempo. Comecei a apontar o que queria e o homem era fanático do Panathinaikos e eu ia lá sempre comer. Tanto que chegou uma altura em que já não precisava de apontar: sentava-me e ele trazia a comida e comia sempre o mesmo [risos].

Comia o quê?
Salada grega, “souvlaki” ou o “gyros pita”, com as batatas fritas. Lembro-me que quando lá cheguei, dormia tarde e à noite tinha fome, lá são duas horas a mais do que em Portugal, então ligava para receção e queria pedir uma tosta, um pão, qualquer coisa e quando ligo para a receção a senhora falava e eu :"Tosta, tosta" [risos]. Ela começava a falar e eu queria dizer o número do quarto e não conseguia dizer o número do quarto e não nos conseguíamos entender um ao outro. Fiquei com fome nas primeiras noites. Depois pedi ao meu colegas que era espanhol e entendia o meu "portuñol", para dizer à senhora da receção que à noite me levassem uma tosta para o quarto. Foi assim que me safei à noite para não passar fome.

Porque é que ficou tanto tempo no hotel?
Fiquei dois meses no hotel porque encontrei uma casa que gostei mas onde vivia um jogador do Olympiacos que estava para sair. Só que ele levou mais de um mês para sair e eu tive de esperar.

Zeca naturalizou-se grego e joga pela seleção helénica

Zeca naturalizou-se grego e joga pela seleção helénica

D.R.

Esteve quase a ser campeão na primeira época.
É verdade, mas nunca cheguei a ser campeão na Grécia. Esse foi o ano em que estive mais perto de ser campeão, com o mister Jesualdo Ferreira estivemos em 1.º até cinco jornadas do fim. Tínhamos mais quatro ou cinco pontos que o Olympiacos e a cinco jornadas do fim estragámos tudo.

Mas por alguma razão em especial?
Não, mas desses cinco jogos três foram contra o PAOK, contra o AEK e contra o Olympiacos e perdemos os três. O Olympiacos passou para a frente e no jogo contra o Olympiacos o jogo acabou aos 75 minutos porque os fãs estavam a fazer desordem na bancada. Nós estávamos a perder 1-0 mas deram-nos a derrota por 3-0 e tiraram-nos três pontos nessa época e mais dois na próxima.

A época seguinte começa com o Jesualdo mas acaba por ter quatro treinadores. Foi uma época estranha?
Foi uma época horrível, a pior que tive. As coisas não estavam a correr como nós queríamos, o mister Jesualdo acabou por ir embora, veio um espanhol que ninguém conhecia. Não falava inglês, nem grego, só falava espanhol, era muito difícil a comunicação dele com os jogadores, então não foi fácil a adaptação.

Era o Fábio González?
Sim. As coisas também não correram bem. Depois veio o Juan Ramón Rocha que era uma lenda do clube e até tivemos bons resultados com ele comparando com os que tínhamos vindo a ter, mas acho que por causa de uma situação que ele teve com a direção, porque ele defendia uns jogadores e a direção não estava muito contente e ele pôs-se do lado dos jogadores, optaram por despedi-lo. Acabámos essa época com o adjunto desse Rocha e ficámos em 6.º lugar. Tivemos de jogar mais um jogo de playoff porque tivemos os mesmos pontos que os Xanthi para ir à Liga Europa. Ganhámos esse jogo, fiz dois golos por acaso e acabámos por não ir à Liga Europa porque não preenchíamos os requisitos.

Porquê?
Por causa de dinheiro, por causa de dívidas. Acabámos por nem poder jogar a qualificação para a Europa.

Pagavam-lhe?
No Panathinaikos sempre tivemos salários em atraso, mas sempre que ia para férias pagavam-me quase tudo, ficavam com um mês de salário em atraso, quando chegava de férias pagavam-me esse mês de salário em atraso. Desde que estive lá, nunca ninguém perdeu dinheiro, claro que não é saudável para a equipa não receber a horas e ficar muitos meses sem receber, mas na verdade é que acabávamos sempre por receber o nosso dinheiro.

Tinha assinado por quanto tempo?
Por três anos e ao fim de dois, renovei por mais dois e depois quando faltava um ano para acabar o meu contrato, voltei a renovar. Renovei duas vezes com o Panathinaikos.

Zeca com a Taça da Grécia na mão, que conquistou em 2014 pelo Panathinaikos

Zeca com a Taça da Grécia na mão, que conquistou em 2014 pelo Panathinaikos

ARIS MESSINIS

Quando começa a aprender grego e como é que aprendeu?
Primeiro comecei a aprender inglês no ano em que cheguei. Disse para mim próprio que tinha de aprender inglês, todos falavam inglês no balneário. Tinha um companheiro, o Quincy, que tinha jogado do Celta de Vigo e que há uns anos jogou no Boavista, e ele falava um pouco de espanhol e então eu ficava no quarto com ele e ele estava sempre ao telefone, nunca vi uma pessoa assim, sempre ao telefone ou no Skype a falar com os amigos que tinha em Londres, porque ele tinha jogado no Arsenal. Eu tentava perceber e quando ele acabava o telefonema, perguntava-lhe se podia dizer o que é que percebi e se ele me podia ajudar e fui aprendendo com ele no quarto. Ao fim de três, quatro meses já conseguia comunicar o normal com as pessoas em inglês.

E o grego?
O grego vem ao fim de três anos na Grécia. Comecei a ouvir muita música grega e conseguia cantar. Ia para os treinos e cantava e eles perguntavam: "Como é que sabes cantar?!". Perguntava-lhes o que é que as letras queriam dizer e cada vez que as pessoas falavam eu intrometia-me muito e era um papagaio, sempre a repetir e sempre a tentar perceber e então eles começaram a falar mais vezes comigo em grego. Nunca tive aulas. Ajudou ter no balneário o Karagounis, o Setaridis e o Katsouranis que falava um italiano português. Isso também me ajudou a aprender e a evoluir mais na língua inglesa e na grega.

Quando é que decide ficar com a nacionalidade grega e como é que isso acontece?
Começou com uma conversa que, acho que começou por ser uma brincadeira. Porque o presidente do Panathinaikos dizia: "Eh pá tu vais ficar aqui para sempre, vais jogar aqui para sempre, tu já és um grego como nós, só te falta o passaporte".

Isso foi em que ano?
Ao fim do quarto ou no início do quinto ano de lá estar. E eu respondia-lhe: “Se você tratar disso tudo, eu faço o passaporte". E ele: "Então eu vou tratar disso, vou falar com os meus advogados e vou tratar disso". "Está bem, ok". Até que começou a ser mais sério, ele começou a pedir-me papéis de Portugal sobre o meu pai, sobre tudo e começou a tratar. Chegou aos ouvidos do treinador da seleção, que era o alemão Michael Skibbe, e ele através de um amigo em comum que tínhamos, combinou um café comigo.

O que lhe disse?
"Eu sei que estás a tirar o passaporte grego e quero fazer-te esta pergunta. Se tudo correr bem com o passaporte tu gostavas de te juntar à seleção grega?". Eu disse que sim, que gostava, e que iria ser muito bom para mim.

Zeca chegou ao FC Copenhaga, da Dinamarca em 2018

Zeca chegou ao FC Copenhaga, da Dinamarca em 2018

Jan Christensen

Já tinha representado alguma vez a seleção portuguesa?
Já, nos Sub-23, numa ocasião em Itália quando ainda jogava no V. Setúbal. Também foi uma história engraçada, quando eu voltei para casa depois do jogo em Setúbal.

Conte-nos.
Quando chego a casa depois desse jogo em Setúbal ligam-me, era umas onze e tal da noite, eu nem queria atender. Dizem que é da seleção, para me apresentar e eu: “Ah, OK, OK”. Pensei que era o Hugo Leal que estava a brincar comigo e disse: "Ok pá está bem, está bem". E desliguei o telefone [risos]. Quem me ligou logo a seguir foi o meu mister, o Ribeiro: "Então ó Zeca telefonaram-te da seleção e tu desligaste o telefone!?". Explique-lhe o que tinha pensado. "Não, tens de te ir apresentar no hotel. Faz as malas e vai para a seleção porque o Yannick Djaló lesionou-se e tu vais para o lugar dele". Lá ligaram para mim outra vez da seleção, eu pedi desculpa e fui. Tivemos um jogo em Itália, na Sicília, uma meia-final de um torneio, que se ganhássemos íamos jogar a final contra Inglaterra, mas eu só fui ao jogo em Itália. Ganhamos 3-2, joguei a 2.ª parte e foi a minha única internacionalização.

Achava que tinha hipótese de ser chamado mais vezes e chegar à seleção A?
Na altura não me passava pela cabeça chegar à seleção A, eu sabia que depois daquele jogo tínhamos mais outra convocatória que era para jogar contra Inglaterra e aí pensei que pudesse ser chamado. Porque até joguei bem, mas não pensava mais à frente do que isso. Lembro-me é que quando fui chamado fiquei super contente e mandei mensagem para todos os meus amigos, liguei à minha mãe a dizer que estava a ir para a seleção, que ia representar Portugal. Eu não conhecia muitos dos jogadores, mas acolheram-me muito bem e receberam-me muito bem.

Com as duas filhas Beatriz e Laura

Com as duas filhas Beatriz e Laura

D.R.

Voltando à Grécia, o que aconteceu depois?
Tive de fazer uns testes e sentar-me à mesa com uns representantes do Estado que me fizeram uma entrevista para perceber se eu sabia da história, se sabia falar grego. Passei. O passaporte ainda não tinha saído e a Grécia ia ter dois amigáveis com a Austrália. Tentaram junto da FIFA que eu fosse com eles, mas infelizmente não consegui ir porque ainda não tinha o passaporte.

Quando é chamado então pela primeira vez?
Em 2017 penso eu. Eles estavam na qualificação para o Mundial de 2018 e saiu a convocatória e o treinador já me tinha ligado a dizer que eu ia ser chamado para essa convocatória, fiquei muito feliz, não sabia como é que iria ser porque não tinha nenhum companheiro na equipa que tivesse sido chamado, estava na expectativa para ver como é que era e como é que ia ser recebido. Receberam-me muito bem, todos muito amáveis para comigo e sempre prontos a ajudar.

A sensação que teve ao ouvir o hino grego foi diferente de quando ouviu o de Portugal?
Não, não senti diferença nenhuma, senti mesmo como se fosse o meu hino e não estou a dizer isto porque represento a Grécia. Lembro-me de me arrepiar imenso, eu sabia o hino todo e eles ficaram espantados de eu saber cantar o hino. Também foi numa altura em que pensei no meu pai, porque eu perdi o meu pai para a droga quando tinha 10 anos.

Como lhe deram a notícia?
Ia ter um jogo com o Casa Pia e na altura ia sempre sozinho. Estava em casa e antes de sair a minha mãe recebe um telefonema e eu vejo a minha mãe a chorar, apercebo-me que alguma coisa não está bem, para a minha mãe estar a chorar.

Os seus pais já estavam separados nessa altura?
Sim, eles separaram-se quando eu tinha quatro ou cinco anos, mas sempre foram os melhores amigos. Entretanto eu vejo a minha mãe a chorar, ela não tinha coragem para me dizer. Estava uma amiga da minha mãe em casa e ela é que me dá a notícia e eu: "Não acredito, não acredito". Começo a chorar, mas digo à minha mãe: "Mãe, eu vou sair, vou para o jogo, tenho que sair, tenho que jogar na mesma". E fui para o jogo sozinho, lembro-me de ir no autocarro a chorar o caminho todo, fazer o jogo pelo Casa Pia e depois voltar para casa voltar à realidade de tudo o que aconteceu.

Deve ter sido muito, muito duro.
Sim, foi muito duro. Também cresci imenso com isso, consegui ver o que era bom para a minha vida e o que não era, o que queria para a minha vida, desde muito de novo. É uma situação complicada, foi difícil, gostava que não tivesse acontecido, mas aconteceu e acho que consegui tirar ilações da vida dele para a minha.

Zeca com a mãe, o irmão e as duas filhas

Zeca com a mãe, o irmão e as duas filhas

D.R.

Regressemos ao futebol e à seleção.
Quando estava a cantar o hino lembrei-me de tudo isso e em como consegui estar ao mais alto nível no futebol. De ter vindo de onde vim, do bairro de onde vim, do clube de onde tinha vindo, de todo o esforço que tinha tido até lá e foi emocionante. Joguei sete minutos, ao fim de vinte segundos fiz um sprint e já não conseguia respirar porque era muita coisa [risos]. Foi um dia de muita alegria para mim e de muitas emoções.

Durante os anos em que esteve na Grécia, que foram quase sete, só ganhou uma Taça da Grécia.
Sim, infelizmente. Na Grécia não era fácil quando eu estava lá, outras equipas ganharem a não ser o Olympiacos.

Da sua vida na Grécia, qual foi o costume a que nunca se conseguiu habituar?
Não há nada de que eu não gostasse. Gosto de tudo, do país, da comida que é incrível, tem coisas parecidas à nossa, o clima e as praias são incríveis, na verdade eu adoro tudo naquele país.

E dos gregos, também gostou logo deles?
Ao início tive dificuldade porque da forma que eles falavam grego, pensava que eles estavam sempre chateados e a reclamar uns com os outros. Só ao fim de um tempo é que percebi que aquilo era a forma deles se expressarem e falarem. Mas fazia-me confusão ao início porque parecia que estavam sempre chateados com tudo, com vida, mas estes gajos não gostam da vida? [risos].

Ainda vive com a Sara?
Vivemos quatro anos e meio juntos na Grécia, entretanto separámo-nos. Tenho duas filhas com ela.

Nasceram quando?
Uma, a Beatriz, ela já tinha, de outro relacionamento, mas é minha filha na mesma. Eu conheci-a quando ela tinha dez meses. Está comigo até hoje, tem 12 anos, chama-me pai e só me vê a mim como pai, até porque não tem contacto com o pai biológico. Já a tínhamos quando fomos para a Grécia e depois nasceu a Laura, em 2014.

Zeca no casamento de Pedro Santos (ao centro) e outro dos melhores amigos, João Baptista (à direita)

Zeca no casamento de Pedro Santos (ao centro) e outro dos melhores amigos, João Baptista (à direita)

D.R.

Quando vai para a Dinamarca e como surge o convite?
O Panathinaikos teve um jogo de classificação para a Liga Europa, que jogamos contra o Atlético de Bilbau, as pessoas do Copenhaga foram ver o jogo e ficaram muito interessadas. Faltava uma semana e meia para fechar as transferências e deu-se o interesse deles. Eles falaram com o clube, que na altura estava a precisar de dinheiro. Eu queria ficar mas o contrato que tinha com o Panathinaikos era de mais dois anos e o Copenhaga estava-me a oferecer quatro anos, era uma garantia maior que tinha para a minha vida profissional, o salário também era melhor e juntou-se o útil ao agradável.

Copenhaga é outra realidade, completamente diferente da Grécia. Gostou logo do que viu ou não?
Eu gostei porque temos um centro de treinos muito bom, temos um estádio incrível, temos muito mais gente no estádio do que tinha no Panathinaikos. Mas confesso que no início faltou-me aquela paixão que os gregos têm pelo futebol, aquela cobrança, eu aprendi a viver o futebol assim, com aquela cobrança.

Teve problemas na Grécia com os adeptos?
Tive, tivemos inúmeros problemas. Vinham aos treinos, invadiam os treinos, falavam connosco cara a cara, às vezes vinham com as caras tapadas e era difícil. Era uma pressão muito intensa, tínhamos que ganhar sempre e quando as coisas não corriam bem, no final dos jogos estavam à nossa espera cá fora. A pressão era enorme.

Mas teve alguma vez algum confronto mais sério?
Tive situações em que chegámos mesmo a discutir, não chegámos a vias de facto, mas discutimos muito seriamente e uma mão aqui, outra mão ali, mas não passou disso. Porque na verdade, eles sempre tiveram um enorme respeito e um enorme carinho por mim. Estive lá quase sete anos e fui quatro anos capitão da equipa. Então cobravam-me, tinha que fazer alguma coisa na opinião deles. Era complicado, mas eu aprendi a viver com isso e isso também me dava uma energia extra porque sabia que se falhássemos já sabíamos como é que era.

Na Dinamarca são mais certinhos e frios, é isso?
[risos] É isso mesmo. Mas também tive a sorte de chegar à Dinamarca e no primeiro jogo ganhamos 5-4, fui o melhor jogador em campo e marquei no meu primeiro jogo. Comecei com o pé direito, mas não foi uma época fácil para nós. Acabámos em 5.º lugar, o que para um clube como este é impensável. Tivemos momentos difíceis em que eu pensava que ia ter gente à espera lá fora para a cobrança, mas nada, tudo tranquilo, nas redes sociais, nada [risos].

Zeca ganhou o seu primeiro titulo de campeão nacional na Dinamarca, em 2018/19

Zeca ganhou o seu primeiro titulo de campeão nacional na Dinamarca, em 2018/19

D.R.

Vai para Copenhaga sozinho?
Sim, separei-me da Sara um ano depois da Laura nascer. Ela foi para Portugal viver com as crianças e eu vim sozinho. Foi duro esse ano e continua a ser, nunca vai deixar de ser duro, porque é complicado estar longe das filhas. Tive uma relação de um ano há um ano, mas estive este tempo todo aqui sozinho porque essa relação era com uma portuguesa também e ela ia e voltava, ia e voltava. Entretanto também me habituei à minha vida de solteiro e a viver sozinho.

Aprendeu a cozinhar?
Não, isso é a única coisa que eu não faço. Acho que sou o rei a encomendar [risos]. Brinco com os meus colegas, nós temos aqui uma companhia que é como se fosse o Uber, e eu digo que já sou dono de 15% da companhia, porque estes anos todos a encomendar quase todos os dias... [risos]. Tenho aqui um amigo que é libanês, a mãe dele às vezes faz comida para ele trazer para mim e comemos os dois juntos, jantamos os dois.

É seu colega no clube?
Não, é um amigo que eu fiz aqui na Dinamarca, fora do clube. Ele trabalha numa companhia de telefones/internet e um dia veio aqui a casa pôr a internet e começou a falar, a dizer que conhecia alguns jogadores do Copenhaga, um que era brasileiro, que até jogou no SC Braga, o Claudiomir, e que jogou aqui também. Começou a dizer-me algumas palavras em português na brincadeira e trocámos números, caso fosse preciso alguma coisa com a internet e também disse que se precisasse de alguém para mostrar a cidade. Ele também conhecia um colega meu cipriota e então começámos a sair juntos cada vez mais e ficamos grandes amigos até hoje. Ele vem quase todos os dias a minha casa, depois do trabalho, vamos jantar ou ele trás a comida e jantamos.

Já conseguiu habituar-se ao frio escandinavo?
Mais ou menos, não posso dizer que esteja habituado porque faz muito frio [risos]. Quando vim para cá foi a primeira vez que vi a cair neve durante o dia, na zona onde eu vivo. Faz muito frio, escurece às três da tarde no inverno e no verão fica de dia até às dez e meia da noite, é muito complicado até te habituares a isso. Mas ao frio, até hoje não me consegui habituar, sofro muito com o frio.

Não lhe fizeram nenhuma partida na Dinamarca? Não tem nada para contar?
Fizeram [risos]. Houve um colega que cortou-me as meias na parte dos dedos e claro, quando fui calça-las, chegavam até ao joelho [risos]. Era uma praxe que tinham aqui para os novos.

Tem contrato até quando?
Até 2023.

Durante os festejos de campeão pelo FC Copenhaga

Durante os festejos de campeão pelo FC Copenhaga

D.R.

Gostava de voltar para Portugal?
Na realidade penso acabar aqui o meu contrato porque sei também que para voltar para Portugal não vou para um clube que me dê as mesmas condições, tanto para trabalhar, como condições financeiras. Estou bem aqui. Estou num clube grande, fui campeão no meu 2.º ano, sinto-me feliz. Também estou a fazer história aqui, sou o primeiro capitão não escandinavo na história do clube.

Já aprendeu dinamarquês?
Não. Sei algumas palavras mas é a língua mais difícil que já ouvi. O grego nós ainda percebemos as palavras que eles dizem. Eles aqui escrevem de maneira diferente do que falam. Quando falam, cortam as palavras, é impossível. E parece que estão a falar com uma batata na boca, então não consigo perceber muito bem. Falo sempre em inglês. A minha vida aqui é muito tranquila. Treino, venho para casa, ou almoço no clube e venho para casa, fico em casa, saio para jantar.

O que faz nos tempos livres?
Fico em casa, falo com os amigos, às vezes jogo PlayStation com o Pedro, se bem que ele joga muito mais do que eu e então eu às vezes não tenho paciência para jogar [risos].

Jogam o quê?
“Call of Duty”, mas ele é muito melhor do que eu, eu sou muito mau naquilo [risos]. Ou saio com o Elias, esse meu colega libanês, vamos ao centro tomar um café e voltamos para casa. Basicamente é essa a minha vida.

Se pudesse escolher, gostava de terminar a carreira onde?
No Panathinaikos.

Uma homenagem dos adeptos do FC Copenhaga que escreveram o nome de Zeca, nas bancadas, depois deste ter sido expulso por festejar um golo com eles

Uma homenagem dos adeptos do FC Copenhaga que escreveram o nome de Zeca, nas bancadas, depois deste ter sido expulso por festejar um golo com eles

D.R.

Já pensou no que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Quero trabalhar na área da representação de jogadores. Acho que é aí que me enquadro melhor. Não me vejo a ser treinador, se bem que vou querer tirar o curso porque não perco nada com isso, mas não é a minha primeira opção.

As suas filhas reclamam muito da sua ausência?
Sim. A mais velha já entende e percebe o porquê. A mais pequenina não entende tão bem e pergunta-me porque é que não pode vir para aqui ou porque é que eu não posso ir e quantos dias faltam. Depois fica a contar os dias e diz-me: "Pai, tens de me dizer os dias. É cinco, é seis, é sete, como é que é? Porque já são muitos dias" [risos].

Quando costumam estar juntos?
No verão, no Natal, nas férias da Páscoa e também em algumas férias de Carnaval.

Como está a viver estes tempos de pandemia?
No início foi muito difícil. Na altura não treinávamos, não jogávamos, estávamos em casa. Passava a maioria do tempo sozinho porque isto dava medo, não se sabia o que era, foi muito, muito complicado estar sozinho. E ainda é porque agora o que eu faço é vir para casa depois do treino e não saio mais. Vejo esse meu amigo, o Elias, e não vejo mais ninguém. Não posso arriscar nesta altura do campeonato, em que estamos a lutar para chegar ao 1.º lugar, não quero perder jogos por causa do coronavírrus. Mas não é fácil esta vida de não sair, de não socializar, de não falar, de não fazer uma vida normal. É tão difícil para mim como para toda a gente no mundo.

Houve alguma altura na sua carreira depois de ter saído de Portugal pela primeira vez, que tenha passado pela cabeça voltar?
Não, nunca pensei voltar a Portugal porque tive uma relação tão forte com o Panathinaikos que não esperava.

Nunca foi sondado por um clube português?
Houve uma altura em que o meu empresário me falou que o Couceiro tinha perguntado por mim, e que podia haver o interesse do Sporting, mas não passou disso. Nunca tive uma abordagem ou qualquer conversa com quem fosse para voltar a Portugal.

Zeca a entrar no relvado do FC Copenhaga com as duas filhas pela mão

Zeca a entrar no relvado do FC Copenhaga com as duas filhas pela mão

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro até agora?
Aqui no Copenhaga.

Foi investindo em quê?
Estou num negócio de imobiliário com o Pedro Santos e outro amigo.

Tem algum hóbi para além de jogar PlayStation?
Gosto muito de ver séries e filmes, mais filmes do que séries, o meu hóbi é ver a Netflix.

Alguma série preferida?
"A casa de papel". O filme que mais gosto é o "Man on fire" com o Denzel Washington em que ele é segurança de uma menina. Ele é o meu ator favorito.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Férias com os amigos em que não olhei a gastos, olhei para o meu bem estar e dos meus amigos, para a minha felicidade e a deles.

Foi o Zeca que proporcionou as férias a esses amigos?
Sim. Em Mykonos.

Tem tatuagens?
Tenho duas. Uma é o nome do meu pai, no pulso direito. E tenho no braço uma tatuagem Maori que comecei há uns anos e estou a acabá-la.

É um homem de fé, acredita em Deus?
Mais agora do que antes.

Porquê?
Antes foi por causa de ter perdido o meu pai, não entendia o porquê e culpava Deus por essa situação, até que fui crescendo e percebi que não tem culpa nenhuma e que são opções das pessoas. Não sou uma pessoa muito crente mas acredito mais, tento pedir, mas acima de tudo agradecer mais aquilo que tenho. Não costumo frequentar a igreja mas comecei a agradecer à noite, como muitas pessoas fazem, quando estou na cama, antes de dormir, agradecer por tudo, há um ano que comecei a fazer isso.

E superstições?
Tenho muitas. Por exemplo, tento fazer as mesmas coisas que faço no jogo anterior. Para equipar-me fico até aos últimos três minutos de calções e t-shirt no balneário. Quando faltam três minutos, meto a minha caneleira esquerda e depois a direita, meia esquerda, meia direita, bota esquerda e bota direita. Para o aquecimento entro sempre com o pé direito e quando entramos para começar o jogo também volto a entrar com o pé direito e dou três beijos no meu pulso direito que é onde tenho o nome do meu pai.

Zeca com as duas filhas e uma foto sua na mão

Zeca com as duas filhas e uma foto sua na mão

D.R.

Qual foi a maior alegria e a maior frustração na carreira?
A maior alegria foram os títulos que ganhei, tanto com o Panathinaikos, como agora com o Copenhaga. A maior frustração é não ter ganho um campeonato com o Panathinaikos.

E adversário mais difícil que encontrou pela frente?
O Luka Modric do Real de Madrid. E na altura em que joguei contra o Benfica, no meu primeiro jogo a titular pelo V. Setúbal, foi o Pablo Aimar. Esses foram os adversários mais difíceis e que me encheram as medidas na altura.

Segue ou pratica algum outro desporto para além do futebol?
Gosto muito de basquetebol e de ténis. A minha equipa favorita no basquetebol é o Boston Celtics e os jogadores que mais gosto são o LeBron James, o Antetokounmpo porque é grego e é um grande jogador. E no ténis gosto do Nadal e do Federer. Quando estou de férias ou quando tenho tempo gosto de jogar padel. Não sou grande craque, estou no começo, a aprender, mas é um desporto que pratico e gosto.

E o maior arrependimento que tem?
Não me arrependo de nada do que fiz até hoje porque ensinou-me a crescer e a lidar com as situações. Se calhar podia ter feito coisas diferentes, mas não ia ser nada do que tenho hoje.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Gostava de ter jogado no Sporting e no Manchester United.

Alcunha alguma teve ou tem?
Muita gente me chama fininho, porque sou muito magrinho. Tenho a alcunha de Inspector Gadget, porque o Gadget é magrinho e eu tenho a cara comprida e um colega meu do Casa Pia na altura em que subi aos seniores, meteu-me essa alcunha.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Não sei, possivelmente estava a trabalhar como serralheiro mecânico, não tinha outra solução.

Podendo escolher e não sendo jogador de futebol, que outra profissão é que teria?
Gostava de ter sido jogador de ténis.