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A casa às costas

“Chamavam-me maluco, prefiro irreverente: baixei os calções e mostrei o rabo, no meio dos festejos, dos insultos e dos assobios”

Baixar os calções e mostrar o rabo durante breves segundos, aos 16 anos, durante um Mundial, valeu-lhe uma suspensão de um ano, castigo que Paulo Santos não aceitou bem. O ex-guardião, que passou por Sporting, Benfica e FC Porto, tem a sensação de que lhe colaram uma imagem errada durante toda a carreira - e que esta saiu prejudicada por isso

Alexandra Simões de Abreu

Ana Baiao

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Nasceu em Lisboa. Filho e irmão de quem?
O meu pai era serralheiro de alumínio e ferro e a minha mãe costureira. Tenho duas irmãs mais novas, temos um ano de diferença entre todos. Foi uns atrás do outros para facilitar [risos]

Que tipo de criança foi o Paulo?
Muito reguila. A minha mãe quando me deixava de castigo, como eu morava no 1.º andar, fugia, saltava a varanda para ir jogar à bola. Isto com nove, dez anos. Só queria saber de futebol.

Quem eram os seus ídolos?
Vítor Damas, Manuel Bento, o Chalana, eram os ídolos daquele tempo.

Em pequeno já gostava de ir à baliza?
Curiosamente não. Quem é que gosta de ir à baliza? [risos] Quase ninguém gosta, só que na altura no meu bairro, em Odivelas, eu jogava com os mais velhos. Tinha um tio de 20 anos, eu tinha apenas oito, que me levava com ele para jogar com os amigos de 18, 20 anos, e claro, o caçulinha tinha de ir à baliza, mesmo que não gostasse [risos]. Foi assim que comecei. Jogava à baliza quando estava com eles, mas quando era com o pessoal da minha idade já gostava de jogar à frente.

E tinha jeito?
Eu acho que sim [risos]. A minha formação foi no Sporting e recordo-me de uma vez, era infantil, tinha uns 12 anos, fomos fazer um torneio e o falecido César Nascimento mandou-me para a baliza com o Nº1, mas por baixo tinha o Nº14, portanto [risos].

Da escola gostava?
Confesso claramente que não gostava, para mim era uma seca, naquela altura só queria jogar à bola. Baldava-me para ir jogar. Aos 14 anos deixei de estudar, tomei essa decisão precisamente para ir atrás do meu sonho, que era ser jogador de futebol e jogar nos grandes palcos, não só em Portugal, mas também num europeu e mundial. E consegui, estou muito feliz porque consegui.

Torcia por que clube?
Sempre fui benfiquista, evidentemente que quando comecei no Sporting acabamos por ter respeito e gostar também do clube que representamos. Foi lá onde aprendi tudo o que sei como guarda-redes, foi lá que fiz a minha formação.

Paulo Santos em criança

Paulo Santos em criança

D.R.

Como e quando foi para o Sporting?
Tinha 11 anos, jogava no bairro numa praceta onde fazíamos o nosso campo, com duas pedras a fazer de baliza e entretanto, um senhor, chamado Vítor Baptista, que trabalhava na secretaria do Sporting, um dia perguntou-me se eu gostava de ir à experiência ao Sporting. Disse-lhe que sim, claro, quem é que não gostaria? Ele foi falar com os meus pais, deram autorização e foi assim que esta aventura começou.

Os seus pais nunca se opuseram a que fosse jogador de futebol?
Nunca, felizmente. E nessa altura havia pais que, por necessidade, punham os filhos a trabalhar, porque estamos a falar de famílias pobres, mas felizmente os meus pais deram-me sempre esse apoio.

Quando vai ao Sporting, vai para a baliza ou para outra posição?
Fui logo para a baliza porque esse senhor Vítor Baptista via-me a jogar com os mais velhos e eu ficava à baliza. Quando fui, estavam lá mais de mil miúdos à experiência. Era julho ou agosto, abriam-se os treinos de captação e à medida que os dias iam passando, o grupo ia ficando muito mais reduzido.

Haviam muitos miúdos a ir para a baliza ou estava sozinho?
Não eram muitos, aliás lembro-me que a determinada altura os treinadores metiam quem estava a jogar à frente, na baliza, para ver se tinham algum jeito. Não eram assim tantos porque na realidade não é fácil.

Lembra-se da primeira vez que foi chamado a uma seleção?
Sim, tinha 12 anos, fui à seleção de Lisboa. O jogo era no campo do Belenenses e era a primeira vez que eu ia para lá. Eram tempos diferentes, em que ia sozinho, saía de Odivelas e ia para o Sporting sozinho, não havia o acompanhamento dos meus pais. Para ir para esse jogo no Belenenses tive que apanhar vários transportes, e eu, um miúdo de 12 anos, quando chego lá, já tinha começado o jogo, estava no intervalo [risos].

Levou um puxão de orelhas?
Não, ninguém me disse nada, mas não fui chamado mais para outros jogos. No ano seguinte, subi aos iniciados e nos iniciados de 2º ano fomos campeões e aí é que começa a aventura da seleção mais a sério. Numa 1ª fase foram chamados jogadores do FC Porto, do Benfica, do V. Guimarães e de mais dois ou três clubes e eu não fui chamado. Mas infelizmente para uns, felizmente para mim, o Carlos Queiroz perguntou ao Figo, que juntamente com o Virgílio e o Peres eram da minha equipa, se o Sporting tinha algum guarda-redes. Eles falaram de mim e foi assim que comecei a ir à seleção.

A defender a baliza do Sporting nos iniciados

A defender a baliza do Sporting nos iniciados

D.R.

A sua primeira grande competição foi nos Sub-16, no Euro de 1989, certo?
Sim, aliás é a minha primeira internacionalização, contra a Espanha, em Salamanca, acho que foi isso. Era um sonho, somos os melhores dos melhores, mexe connosco, ainda por cima naquelas idades.

Ainda por cima foi campeão europeu.
Fizemos um campeonato espetacular, fomos sem dúvida a melhor equipa. Nesse campeonato, soube mais tarde pelo Nelo Vingada, fui eleito, unanimemente pelos treinadores daquele europeu, o melhor guarda-redes. Na realidade fiz um europeu espetacular, fizemos todos. Logo a seguir foi o Mundial de sub-17.

Onde viveu um episódio marcante, que alterou o seu eventual percurso na seleção. Pode contar o que aconteceu?
Vamos por partes. Nós éramos os favoritos, recordo-me que estávamos num grupo onde salvo erro estava o Brasil e mudaram-nos de grupo. Meteram-nos no grupo com a Guiné Conacri, Arábia Saudita e a Colômbia. Quando jogávamos o público estava sempre contra nós, sempre a mandar vir, não sei porquê, não percebemos porquê. Eu tinha 16 anos e aquilo que aconteceu foi num jogo contra a Guiné.

Mas o que motivou o seu comportamento de baixar os calções? Estavam a insultá-lo atrás da baliza? Foi isso?
Sim, estavam a chamar nomes, a mandar latas de Coca-Cola, aquelas coisas estúpidas da parte do público, e eu na altura não soube lidar com elas. Estávamos a perder 1-0 e tínhamos no mínimo que empatar para passarmos às meias finais. Como imaginam era uma pressão enorme, ainda por cima sendo guarda-redes, a responsabilidade é muito grande e aqueles nomes todos...Foi uma situação de emoções. Quando empatámos, no meio dos festejos, toda a gente a assobiar-nos e a chamar-nos nomes, tive essa reação de baixar os calções e mostrar o rabo. Mas foi uma coisa rapidíssima, ninguém viu, nem o árbitro. O que aconteceu é que houve três pessoas do público que foram fazer queixa à polícia e pronto. O Nelo Vingada no final do jogo veio ter comigo e perguntou-me se eu o tinha feito e eu disse-lhe que sim e a partir daí a FIFA castigou-me com três jogos e um ano de suspensão.

Acha que foi um castigo exagerado tendo em conta a situação e a idade que tinha?
Eu acho que sim e as consequências que tive na minha carreira foram muito grandes. Só voltei a ser chamado para a seleção de Esperanças, mas foi só para fazer um jogo amigável, nada de importante. O castigo durou muito mais do que um ano. No Europeu, o Queiroz já tinha dito que contava comigo para o Mundial de Lisboa e depois aconteceu aquilo e nunca mais fui chamado. A verdade foi essa. Compreendo a posição do mister Carlos Queiroz, mas não aceito porque era muito novo, acho que não merecia aquele castigo, mas pronto, já passou.

Aos 16 anos, com a taça de campeão europeu

Aos 16 anos, com a taça de campeão europeu

D.R.

Era um adolescente rebelde?
Não. Era irreverente mas nada de mais. Tive uma alcunha que não fazia sentido, chamavam-me maluco, por causa da minha irreverência, mas não faltava ao respeito a ninguém.

Então que tipo de coisas fazia para lhe chamarem maluco?
Sei lá, era capaz de estar a falar com o treinador e dizer as coisas à vontade, como achava, e se calhar na altura diziam “Eh pá não devias ter dito isso”, ou “Não devias ter dito aquilo”, sei lá, esse tipo de coisas. Mas estamos a falar de coisas que não eram no sentido de ofender os treinadores ou coisa parecida. Simplesmente era expôr as minhas ideias, mais nada.

Como se dá a passagem para o Benfica?
Aconteceu aquilo no Mundial e entretanto o Sporting começa a fazer contratos profissionais com alguns dos meus colegas, comigo não queria fazer, diziam que contavam comigo e que iria substituir o Damas, aquelas coisas todas que eles diziam, mas não queriam fazer contrato profissional. Foi uma altura também muito complicada no Sporting, com a transição do Jorge Gonçalves para o presidente Sousa Cintra. Eu achei que não estava a ser valorizado. Às vezes, como somos jogadores da casa, eles dão-nos como garantidos.

Já ganhava dinheiro com o futebol?
Ganhava o passe e não sei se 20 contos (100€), já não me recordo bem, já foi há tanto tempo [risos).

O que fazia ao dinheiro?
Ia com os amigos comer de vez em quando umas mariscadas [risos].

Namoros e saídas à noite também já havia?
Sim, nessa altura já namorava com a minha atual mulher, a Paula. Conhecemo-nos na escola. Temos duas filhotas lindas.

Estava a dizer que não tinha ficado nada satisfeito com o Sporting.
Não, não me senti valorizado, acabei por assinar pelo Benfica. Houve um colega que me perguntou se eu queria ir para o Benfica, disse-me que eles estavam interessados em que eu fosse e eu disse "claro que sim, depende das condições". Assim foi, iniciaram-se as negociações e acabei por ir. Não tinha empresário. O meu pai negociou por mim.

No dia do seu casamento com os pais

No dia do seu casamento com os pais

D.R.

O ambiente do Benfica era muito diferente do Sporting?
Sim, tudo diferente, a começar pelos colegas. Estava habituado a um grupo com quem trabalhava desde os infantis e de repente, são outras personalidades, é outra forma de estar porque são clubes grandes mas cada um tem a sua identidade, mas nada de radical. A adaptação foi rápida. Cheguei como júnior de 1º ano. Estavam lá Rui Costa, Brassard, Dominguez, entre outros.

Quando é chamado pela primeira vez à equipa sénior do Benfica?
Uns meses depois de ter chegado. O treinador era o Eriksson. Fui chamado para fazer uns treinos.

Como foi entrar no balneário sénior do Benfica pela primeira vez?
Envergonhado como é óbvio [risos], a admirar os jogadores. Eu era muito tímido e muito reservado. Lembro-me do Neno dizer-me para estar tranquilo e divertir-me com o treino.

Do Eriksson, gostou?
Gostei dele pelo simples facto de me ter chamado, mas não tive nenhuma conversa com ele. Cheguei, fiz um treino ou dois, e mais tarde ele convocou-me para a Taça de Lisboa, a Taça Cândido Oliveira, fiquei no banco, foi uma coisa muito boa para mim. Mas deixe-me dizer uma coisa que me esqueci.

Força.
Quando eu tinha 12 anos, treinei com os seniores do Sporting, para o Vítor Damas me ensinar, o que para mim foi um sonho.

Recorda-se de algo em especial que ele lhe tenha dito ou ensinado?
Lembro-me de uma situação em que eu defendi de uma certa forma e ele corrigiu-me e isso ficou-me sempre. Foram momentos únicos porque estava com um dos meus ídolos. Na altura o treinador era o Toshack, que gostava muito de mim e então quando acabavam os treinos, ele chamava-me para ficar lá com ele a fazer chutos à baliza. Era espetacular. Havia alturas em que eu me escondia entre eles que era para ver se o Toshack não me via e ele mesmo assim ia à minha procura para eu ficar lá a chutar [risos].

Paulo Santos tem 48 anos

Paulo Santos tem 48 anos

Ana Baiao

Quando sobe a sénior, no Benfica, é emprestado ao Mirense. Ficou triste?
Faz parte, quem está nesta vida sabe que está sujeito a estas coisas. Temos de aceitar aquilo que a vida nos dá e trabalhar para melhorar essas condições e foi o que eu fiz. Na altura fiquei um bocado triste porque sabia que tinha outros clubes da I divisão interessados em mim.

Quais?
O Vitória de Setúbal e o Belenenses. Mas fui para o Mirense e acabou por ser uma boa experiência porque aprendi muito, eram condições complicadas.

Foi viver para Mira de Aire sozinho?
Tinha 18 anos e acabado de casar. A Paula sempre me acompanhou para todo o lado. Foi um ano muito complicado porque as pessoas em Mira de Aire não queriam alugar casas aos jogadores porque tinha havido jogadores que tinham queimado as casas, tinha havido uma grande confusão e tivemos de viver primeiro em pensões. Depois, lá conseguimos arrumar uma casinha para nós. Entretanto o clube não pagava, tínhamos de pagar do nosso bolso a casa.

Como fazia para pagar as despesas se não recebia dinheiro?
Como tinha acabado de casar tinha algum dinheirinho [risos]. Foi assim que fizemos, e com a ajuda dos pais, como é óbvio.

Como correu a época desportivamente?
Estive um ano inteiro sem ter um treino específico de guarda-redes. Era IIB, na altura não havia treinadores de guarda-redes, era muito complicado. Mas é nestas dificuldades que crescemos e foi importante também para a carreira que tive.

Regressa ao Benfica no final da época?
Primeiro fui para o Olivais e Moscavide, depois é que regressei ao Benfica.

Já sabia que ia para o Olivais e Moscavide?
Eu nunca sabia para onde ia, porque os meus contratos eram feitos ano a ano, com a exceção do Benfica com quem tinha contrato profissional por três anos. Estava tranquilo porque não ia para o fundo de desemprego, digamos assim. Mas as coisas surgiam sempre no período de férias e era aí que eu decidia a minha vida. Muito raramente decidia antes de ir para férias. No Olivais e Moscavide correu bem, na altura fizemos a melhor classificação, salvo erro, ficamos em 2º lugar do campeonato, e por ter corrido bem é que regressei ao Benfica.

Depois do Sporting Paulo Santos foi para o Benfica

Depois do Sporting Paulo Santos foi para o Benfica

D.R.

Com o Toni.
Sim, e com um dos meus ídolos, o nosso grande Manuel Bento.

Como é que ele era?
Era top, espetacular, tínhamos uma relação espetacular, ele gostava muito de mim, da forma como eu defendia. O Manuel Bento era um homem de trabalho e corajoso. Aprendi muito com ele. A gente aprende sempre uns com os outros, estamos sempre a aprender. Mesmo aqueles que não percebem nada, ou que fazem alguma coisa de errado, a gente aprende sempre a fazer aquilo que não deve fazer, não é? [risos]

Nessa altura estavam o Neno e o Silvino também?
Certo, éramos nós os três. Eu, o Neno e o Silvino.

Estamos a falar da época 1993/94, em que o Benfica é campeão, mas o Paulo faz só um jogo.
Exatamente, faço o do Boavista.

Como era esse balneário, com tantas estrelas, com Mozer…
Era um balneário espetacular, tínhamos um grupo muito bom, muito unido, de grande amizade uns pelos outros, foi exatamente por isso que fomos campeões.

O plantel mandava mais que o Toni?
Não era mandar mais que o Toni, não era essa a questão. Era um plantel que ajudava o Toni e o Toni ajudava o plantel. Havia uma boa comunicação entre todos que fez com que fossemos campeões, não tenho dúvidas nenhumas. O Mozer é um senhor, ainda hoje somos amigos.

Paulo Santos esteve no E. Amadora durante três épocas e meia

Paulo Santos esteve no E. Amadora durante três épocas e meia

D.R.

Tem alguma história dessa época do 6-3?
Posso contar uma história sim. Nós tínhamos o nosso almoço de equipa todas as quartas-feiras e, no início do campeonato, à quarta-feira tínhamos treino de manhã e de tarde, e o Toni teve de mudar. Teve de começar a dar só o treino de manhã porque esse almoço era importante para a equipa, era aí que começamos a conhecer uns aos outros, a ter mais confiança uns com os outros e isso foi determinante para originar, por exemplo, o 6-3. É o resultado dessa união, simplesmente isso, não há segredos. Costumo dar como exemplo o Real Madrid, se olharmos para um Real Madrid, onde estão os melhores jogadores, quando eles não funcionam como equipa, nada acontece, não ganham nada. Quando eles funcionam como equipa, ganham tudo.

A entrada dos russos Yuran, Mostovoi e Kulkov não mexeu com o grupo?
Vamos lá ver uma coisa, na altura houve algumas polémicas em relação a eles. Temos que perceber que a cultura deles é diferente da nossa, mas acima de tudo, pelo menos eu falo por mim, eles eram excelentes pessoas. Ainda tive o privilégio de jogar uns anos mais tarde com o Kulkov, no Alverca, e tínhamos uma amizade boa. Nunca tive problemas com eles.

Mas contavam-se muitas histórias de que eles gostavam de beber e de andar na noite.
Lá está, porque era a cultura deles e nós temos a nossa, não é?

O Toni chateava-se com eles ou não conseguia ter mão naquilo?
Ó Alexandra, nós ganhávamos [risos]. É fácil de gerir essas coisas. O problema é quando não se ganha, aí sim, era complicado, agora naquele ano, nós estávamos a ganhar, torna-se muito mais fácil gerir tudo. Foi porreiro, foi um ano top.

Ainda se lembra de quando se sagraram campeões?
Então não lembro? Nós demorámos quase duas horas para chegar ao estádio da Luz, foi brutal as pessoas a receberem-nos. Imagine uma viagem de uns 15 minutos, demorar duas horas. Isso marcou-me porque foi uma alegria muito grande.

E partidas de balneário? Faziam muitas uns aos outros?
Não. No balneário, a alegria era o Neno, onde ele estava havia alegria, ele é espetacular. Cantava, brincava.

Quando chega ao fim dessa época sabia que não ficava no Benfica? O que aconteceu?
O que aconteceu é que tive uma proposta do Estrela da Amadora, só que era para o ano seguinte. Eu saio do Benfica no ano a seguir a sermos campeões, em janeiro, e fui fazer seis meses a Penafiel, mas já com contrato com o Estrela. Mais um período difícil. Seis meses sem receber um ordenado [risos].

Como foi passar da I liga e de um grande como o Benfica, para o Penafiel? Foi um choque?
Não, foi mais uma aprendizagem muito boa que tive na minha vida como atleta e como ser humano, perante as dificuldades que tive naquele ano. Aconteceram-me coisas caricatas.

Como por exemplo?
Há umas que não vou contar, mas posso contar por exemplo que quando acabou a época em que eu não tinha recebido ordenados, estou em casa e recebo um envelope do Penafiel. Era um envelope muito grande, eles tinham dito que iam enviar por correio os meus ordenados, e quando vi aquilo, pensei que vinham ali os ordenados. Quando abri o envelope, tinha cinco cheques pré-datados, dois maços de senhas de rifas para um sorteio de um automóvel que já tinha passado a validade [risos]. E eles descontaram-me isso do meu ordenado. Antes havia essas coisas assim, é verdade, mas pronto, são coisas que nos fazem crescer.

No final de um jogo vitorioso do E. Amadora

No final de um jogo vitorioso do E. Amadora

D.R.

Chega ao Estrela da Amadora em 1995/96, com Fernando Santos à frente da equipa?
Exatamente. Três anos com o Fernando Santos, com aquele ar carrancudo [risos]. Foi complicado, foi complicado. Eu também tinha o meu feitio e chocámos um bocadinho os dois, tanto que eu sou titular no 1º ano, e no 2º ano, por causa de algumas coisas mal compreendidas, vou para o banco. Não sei se foi no 2º, se foi no 3º ano.

Mas o que aconteceu em concreto?
São coisas que foram acontecendo ao longo dos outros dois anos anteriores.

Que tipo de coisas? Ele mandava-o fazer algo que não queria?
Sim, principalmente isso. Achava e hoje tenho essa convicção, que os meus treinos eram tudo menos de guarda-redes. O meu treinador de guarda-redes era o Matine. Não era propriamente um treinador de guarda-redes, ele fazia aquilo que sabia e que podia. Algumas vezes acabamos por ter discussões e eu acabava inclusive por ser conectado como uma pessoa que não gostava de trabalhar, quando não se tratava nada disso, eu simplesmente queria trabalhar como deve de ser. Porque as pessoas não sabem, mas ir para os jogos com as pernas completamente pesadas, para um guarda-redes, não pode acontecer. O treino era muito puxado, tudo à base da força.

No Estrela da Amadora quando começa a ficar no banco é quando entra o Ivkovic?
Exatamente. Porque é que o foram buscar não sei, mas quando ele apareceu, quando soube que era o Ivkovic, deu-me uma alegria grande, sinceramente, porque ia ter alguém com quem poderia competir. E foi isso que fiz, comecei a trabalhar, mas as coisas já não estavam muito bem entre mim e o Fernando Santos e acabei por passar o ano inteiro no banco. Mais tarde o Fernando Santos explicou-me o porquê e pronto, ficou tudo bem. Hoje em dia damo-nos bem e há um respeito muito grande um pelo outro. As coisas ficaram sanadas.

Pode levantar a pontinha do véu das razões que ele lhe deu?
É exatamente isso que lhe disse, ele acabou por me dizer que já começava a ficar farto das minhas coisas, das minhas atitudes, de eu refilar nos treinos, o que é compreensível, a verdade é que quem manda, manda e acabou.

Entretanto chega o Jorge Jesus.
Eu só estive duas semanas com o Jesus. Porque entretanto já tinha assinado pelo Alverca.

Sabe se o Jesus queria ter ficado consigo?
Queria. O que aconteceu é que naquele ano jogou sempre o Ivkovic e o Estrela da Amadora foi fazer a Taça Intertoto e quem devia ir era o Ivkovic, só que se não me engano ele foi para o Belenenses e disse que não ia jogar mais pelo Estrela da Amadora. Eles falaram comigo, eu falei com o Alverca e para eles não ficarem sem guarda-redes, decidi fazer esses dois jogos, contra uma equipa polaca. Fiz dois jogos excelentes e o Jorge Jesus queria que eu ficasse à força toda no Estrela. Eu disse-lhe: "Mister, desculpe, mas eu já assinei pelo Alverca"; "Eh pá, mas a gente arranja maneira, a gente fala com eles. Quero que fiques comigo". Mas eu disse-lhe que não, também queria mudar de ares, tinha sido um ano complicado e estar sempre no banco...Não me queria acomodar, porque nunca fui, nem sou, pessoa de me acomodar às situações e então preferi ir para o Alverca, respirar outros ares e dar um refresh à minha carreira.

Com a mulher, Paula

Com a mulher, Paula

Ana Baiao

Quando chega ao Alverca é Mário Wilson quem lidera a equipa?
Sim, está também o Veloso que tinha sido meu capitão no Benfica. Estava lá pessoal que eu conhecia perfeitamente porque eram todos ligados ao Benfica . E mais tarde, foi o Jesualdo Ferreira.

Na segunda época no Alverca não jogou muito. É quando chega o Ovchinnikov?
Sim, não joguei muito, porque havia um acordo de cavalheiros em que o Ovchinnikov tinha de jogar. Nesse ano, se for ver, joguei sempre contra as equipas grandes. Os jogos com o FC Porto, com o Sporting e com o Benfica.

Mas porquê só com os grandes?
São coisas do futebol, Alexandra. As coisas são como são e o que sei é que por causa dessas coisas perdi um ano da minha carreira. Foi um ano completamente difícil porque, quando o Ovchinnikov vem para o Alverca fiquei todo entusiasmado, achei que era bom para mim. Porque tinha e tenho confiança em mim e sabia que trabalhando conseguiria conquistar a titularidade. Assim aconteceu, só que por outras razões ia sempre para o banco, a verdade é essa. Mais uma vez tive uma conversa com o Romão, aliás eu dou uma entrevista na altura, salvo erro a seguir ao jogo com o Benfica em que digo "independentemente daquilo que fiz hoje, já sei que no jogo a seguir vou voltar ao banco". Isto porque já era o segundo ou o terceiro jogo que fazia e as coisas aconteciam da mesma forma. O José Romão não gostou, chamou-me, tivemos uma conversa e pronto.

Não era ele que mandava, é isso?
Exatamente. Aliás, ele próprio disse-me isso. São coisas que acontecem no futebol, para uns é bom, para outros é mau, naquele caso foi mau para mim.

Na época seguinte chega Jesualdo Ferreira.
E volta tudo à normalidade, porque o Ovchinnikov foi para o FC Porto. A coisa já estava feita, por isso é que eu não joguei no ano anterior e a partir daí correu tudo dentro da normalidade.

Gostou do professor?
O Jesualdo tinha sido meu treinador quando fomos campeões pelo Benfica, ele era o adjunto do Toni. Quando ele chegou recordo-me que me chamou para uma conversa à parte, onde basicamente me diz que acha que sou bom guarda-redes, mas que provavelmente naquele ano não iria jogar muito, porque ele gostava muito do Ernesto. Éramos os dois que estávamos lá. Eu disse-lhe "Ok, tudo bem". Mas o meu pensamento foi “OK, não contas muito comigo mas também não te vou facilitar a vida”. E a verdade é que comecei a trabalhar e fui sempre titular [risos].

Paulo Santos foi chamado por Scolari ao Mundial da Alemanha em 2006, depois de Bruno Vale se ter lesionado

Paulo Santos foi chamado por Scolari ao Mundial da Alemanha em 2006, depois de Bruno Vale se ter lesionado

D.R.

Nesses anos do Estrela da Amadora, do Alverca, sentia que o problema era diretamente consigo ou que eram os tais jogos de bastidores do futebol a que era alheio, que o prejudicava?
Comigo acho que não era, porque acima de tudo eram as minhas ações e se formos a falar desportivamente, as minhas exibições, elas eram avaliadas semanalmente. Portanto, aí tinha as provas dadas, agora se outras coisas não aconteciam mais, não sei, provavelmente havia alguma coisa que não me deixavam dar o passo em frente, não sei. Essas coisas a gente nunca sabe, não é? Mas sei que se criou uma ideia em relação à minha pessoa, e não sei quem a criou, que era completamente errada daquilo que eu sou como pessoa.

Mas ideia de quê, de refilão?
Sim, de mau, sei lá, de prejudicar o balneário ou uma coisa assim. Mas é como eu lhe digo, não há ninguém que diga que eu prejudiquei um balneário, pelo contrário, eu era uma pessoa de equipa e estava sempre na linha da frente para ajudar os meus colegas no que fosse.

Sente que foi prejudicado por dizer aquilo que pensa?
Disso não tenho dúvidas nenhumas. Quando começas a incomodar, infelizmente, no mundo, na sociedade em que vivemos, é isto. Não é só no futebol, é em todo o lado, quando começas a ter ideias que têm algum sentido, e as pessoas começam a pensar que podem ser ultrapassadas ou que o seu cargo começa a ser posto em causa... Não sei, não sei o que é que se passa na cabeça das pessoas, aí vem o que é de mau no ser humano.

Paulo Santos no banco da seleção A, ao lado de Cristiano Ronaldo

Paulo Santos no banco da seleção A, ao lado de Cristiano Ronaldo

D.R.

Como surge o FC Porto?
Acaba o contrato com o Alverca e entretanto o Luís Filipe Vieira também sai para o Benfica, ele quer que eu vá para lá, só que eu optei pelo FC Porto porque o contrato era melhor.

Já tinha empresário?
Aí já. Era o Paulo Barbosa que me prejudicou no contrato com o FC Porto.

Como?
Por causa do contrato que fizemos. Eu deixei de receber um ano de contrato porque ele não quis assumir uma coisa, mas pronto isso também já faz parte do passado.

Não quis assumir o quê?
Não quis assumir um ano de contrato que estava estipulado e que na altura, por eu confiar nele, deixei as coisas seguir e depois...Esqueça.

Mas assinou por quantas épocas?
Assinei por cinco, mas só estive lá quatro.

O ambiente que se vivia no FC Porto era muito diferente daquele que tinha vivido nos outros grandes?
Sim, em quase tudo, era diferente. Embora no Benfica nós tivéssemos criado uma boa união, mas ali no FC Porto foi uma coisa completamente diferente.

Mais intenso?
Muito mais intenso. Foram tempos espetaculares que vivi com aquele grupo de trabalho. Embora naqueles anos não tivemos a sorte de ganhar.

Está a falar do ano em que chega e em que há o problema entre Jorge Costa e Otávio Machado. Aquilo foi complicado de gerir no balneário?
Claro que sim, estamos a falar de um capitão a sério, Jorge Costa. Todos nós gostávamos dele, não havia ninguém que não gostasse do Jorge e claro que sim, isso mexeu connosco.

Com as duas filhas Catarina e Beatriz

Com as duas filhas Catarina e Beatriz

Ana Baiao

Chega a fazer a pré-época com o FC Porto?
Não porque no Alverca tive uns bons meses em que toda a gente pensava que eu tinha pubalgia, era só Voltaren para cima...Subia ao sábado para o campo, durante dez minutos batiam umas bolas para as minhas mãos e jogava no domingo. Andei durante muitos meses assim. Entretanto vêm as férias, as dores que sentia desapareceram porque nas férias não fazia nada e no jogo da apresentação no FC Porto, vou dar um pontapé de baliza e ressenti-me outra vez da lesão e tenho que ser operado. Toda a gente pensava que eu tinha uma pubalgia e afinal tinha uma hérnia. Eles foram todos de estágio e eu fiquei em Portugal a ser operado.

Entretanto chega José Mourinho. Como foi a entrada dele na equipa?
Claro que é sempre motivante quando vem um treinador com ideias novas. À medida que fomos trabalhando os jogadores foram tendo mais confiança, foram enraizando mais as ideias dele e por isso é que ele teve os resultados que teve no FC Porto.

Gostou dele?
Não tenho nada de especial a dizer.

Não jogou muito com ele.
Não. Quando o Mourinho vem já estava a jogar o Vítor Baía, depois o Vitor tem uma lesão ou ressentiu-se de uma lesão, já não me recordo e eu volto à baliza outra vez e depois tive que sair para o Vítor ir à seleção.

Paulo Santos chegou ao SC Braga na época 2004/05

Paulo Santos chegou ao SC Braga na época 2004/05

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O Vítor Baía tinha um peso muito grande no balneário do FC Porto, não tinha?
Tinha um peso muito grande no FC Porto e no futebol português. O Vítor Baía é o homem que mais títulos tem no nosso país e está no top ten dos jogadores com mais títulos do mundo.

Como era como colega?
O Vitor é espetáculo. Ainda hoje somos amigos. As opções são as opções dos treinadores. Sempre tivemos uma boa relação.

Foi praxado?
Não cheguei a levar com o balde porque cheguei ao mesmo tempo que muitos, já não me recordo quem foi a vítima na minha altura, mas lembro-me do Esnáider ter levado com ele quando chegou [risos]. Aquilo estava muito bem feito, todos iam parar aquele lugar vazio. O Paulinho Santos não perdoava [risos]. Quando o Esnáider leva com o balde e começa a correr atrás do Paulinho era tudo a rir e o Paulinho: "Ó Jorge, ó Jorge, ajuda-me" [risos].

Como foi essa época com Mourinho?
Mais uma vez a união do grupo faz toda a diferença no êxito da equipa. Não há hipótese. Em janeiro saí porque não jogava e fui para o Varzim. Estive lá um mês ou dois. As coisas também não correram muito bem, tive lá uns problemazitos.

Que tipo de problemas?
O Luís Campos teve uma conversa comigo, prometeu-me uma coisa, não cumpriu e acabei por me chatear e achamos por bem eu sair do Varzim. Regressei ao FC Porto, e estive dois anos e meio na equipa B. Foram tempos difíceis para mim.

Porque é que quando regressou não foi reintegrado na equipa principal?
Porque o Mourinho não contava comigo. E quando não se conta com um jogador, o que é que estamos lá a fazer no plantel?

Paulo Santos e Helder Postiga, em 2006, num jogo em que o SC Braga venceu 2-1

Paulo Santos e Helder Postiga, em 2006, num jogo em que o SC Braga venceu 2-1

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Em 2004/05 deixa o FC Porto rumo ao SC Braga. Como e porquê?
O Quim sai do Braga para o Benfica e o SC Braga andava à procura de um guarda-redes. O Jesualdo está de férias no Algarve onde está um grande amigo meu, o Costinha, mais o Vítor Baía. E em conversa com o Jesualdo, no Algarve, disseram-lhe: "Ó mister, você tem um excelente guarda-redes que é o Paulo Santos, já o conhece porque é que não vai buscá-lo?". E foi assim que tudo aconteceu. A partir daí o Braga entrou em contacto comigo e cheguei a acordo com o FC Porto, que pagou-me o que tinha de pagar e o Braga pagou o resto e fui.

Já tinha sido pai?
Sim. Fui pai com 28 anos, estava no Alverca a caminho do Porto. A Beatriz nasceu e vamos para o Porto. Não assisti ao parto porque fui um mariquinhas [risos]. A minha mulher esteve 36 horas em trabalho de parto, sofreu muito. Foi um dia e meio sem dormir e na altura em que a Beatriz nasceu, entro para dentro da sala, mas começo a sentir umas tonturas e disse-lhe "vou sair antes que caia aqui para o lado". Foi para lá a minha sogra, foi ela que assistiu.

Voltando a Braga. Como foi a receção no clube?
Foi complicado porque tinha saído de lá o Quim, que era muito querido pelos adeptos. Um jogador como eu, que já estava há algum tempo sem jogar, havia muita desconfiança em relação à minha prestação. Sofri muito durante seis, sete meses porque estava à procura da minha forma e de querer dar confiança à equipa e não estava a conseguir. Isso era frustrante. Quase ninguém sabe, mas eu mal dormia. Levantava-me muitas vezes durante a noite a pensar no que é que me estava a faltar, a pensar no que poderia melhorar, para que as coisas voltassem a ser como tinham sido em anos anteriores. A verdade é que quando queremos forçar uma coisa, por norma, não resulta. Acabou tudo por acontecer de forma natural. Foi precisamente quando eu me cansei de estar assim e comecei a usufruir do treino, que as coisas começaram a mudar.

Durante três épocas foi sempre titular no SC Braga.
Sim, à exceção do último ano, já com 35 anos.

Ana Baiao

Dos anos passados em Braga o que mais lhe ficou gravado na memória?
Foi o mudar a mentalidade dos bracarenses. Porque quando lá cheguei, o primeiro jogo que faço, é contra o Benfica, e quando entro no estádio pensava que estava no estádio da Luz. Aquilo eram só benquistas. E à medida que fomos ganhando, fomos mudando a mentalidade dos bracarenses e eles começaram a torcer mais pela equipa do SC Braga. Isso foi uma coisa marcante. Acho que se iniciou ali um caminho grande para aquilo que o SC Braga é hoje.

Na terceira época teve três treinadores. Algum que o tenha marcado mais do que outro?
Gostei de todos. Claro que me marcou mais o Jorge Costa pela amizade que tinha com ele.

Foi estranho ser treinado por um antigo colega de equipa?
Acima de tudo, respeite-o sempre, nunca o tratei por Jorge ou até por Bicho à frente dos colegas. Tínhamos muitas conversas como é óbvio porque havia cumplicidade, somos amigos, mas à frente de toda a gente era o mister. Só em particular é que era diferente.

O que aconteceu na última época para não jogar tanto?
Acho que as pessoas não queriam a minha continuidade. Não percebi porquê. Começaram a fazer coisas que foram desnecessárias.

Que tipo de coisas?
Terem-me posto a treinar à parte, por exemplo. Acho que foi uma grande falta de respeito por aquilo que fiz pelo SC Braga, porque eu dava tudo.

Paulo Santos na baliza do SC Braga

Paulo Santos na baliza do SC Braga

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Quem fez isso? O Manuel Machado?
Não, foi o SC Braga. A história começou no Manuel Machado porque nós fomos fazer um jogo para a Liga Europa contra o Werder Bremen, em que eu não estava em condições de jogar, passei o dia todo a receber massagens e a fazer tratamentos, fiz tudo e mais alguma coisa, e eu dizia ao fisioterapeuta que não valia a pena porque eu não estava em condições. Estava com um grande torcicolo no pescoço e mal me conseguia virar. E a conversa do Chico foi que o Manuel Machado queria que eu jogasse porque eu era o único guarda-redes que dava confiança à equipa. A verdade é que fui lá para dentro e não devia ter ido e a partir daí nunca mais fui convocado, nunca mais joguei. Perdemos 3-0. Nem foi um jogo que eu tivesse propriamente culpa de alguma coisa.

Disse-lhe alguma coisa?
A partir daí veio com uma conversa de que tinha de me proteger, não sei do quê. E nunca mais joguei. Foram este tipo de coisas que foram acontecendo sucessivamente até ao dia em que me puseram a treinar à parte. Todo esse processo foi uma falta de respeito por mim. Mas não guardo rancor a ninguém.

Quando o colocaram a treinar à parte, foi falar com alguém?
Simplesmente rescindi por justa causa. Já tínhamos tido as conversas todas, não havia mais nada a conversar. O SC Braga tinha-me proposto eu dividir o meu contrato em cinco anos e ser treinador da formação, por exemplo. Eu não quis porque achei que era cedo. Sentia-me bem fisicamente, ainda tinha muito para dar, o que foi demonstrado nos anos posteriores. Não aceitei e depois queriam dar-me só 30% do meu contrato e coisas assim. Acabei por ter de fazer uma coisa que eu não queria, porque tenho muito respeito e carinho por aquele clube, foi onde a minha carreira mais se projetou.

Com a mulher e as duas filhas no Parque das Nações

Com a mulher e as duas filhas no Parque das Nações

Ana Baiao

Foi à conta da sua prestação no SC Braga que acabou por ir ao Mundial da Alemanha, certo?
[risos]. Essa também foi caricata. Eu não fui logo chamado diretamente. Teve que o Bruno Vale partir um pé para eu ser chamado. E eu era o guarda-redes menos batido do campeonato. Enfim, são coisas que...Não sei se havia coisas de bastidores, se não havia, a verdade é que aconteciam coisas estranhas.

Acha que eram coisas de bastidores ou tinha a ver com o seu feitio refilão?
O meu feitio refilão? [risos].

Estou a perguntar, porque logo no início assumiu que dizia tudo o que tinha a dizer abertamente, sem medir muito.
Não sei dizer. Acho que só as pessoas responsáveis pelas convocatórias é que poderão falar.

Quando foi chamado em 2006, pelo Scolari, o que achou do ambiente da seleção?
Espectacular. Foi um grupo de união mais uma vez. O mundial que fizemos julgo que está bem marcado na memória dos portugueses. Foi espetacular. Foi um ambiente top. Eu já conhecia o pessoal todo.

Não chegou a jogar nesse Mundial.
Não. Mas eu sabia que era pouco provável. Quando soube que ia à seleção estava de férias e curiosamente estava a fazer um frango assado, na Costa da Caparica [risos]. Foi um sonho realizado, ainda para mais num Mundial. Acho que todos os jogadores deviam ter essa oportunidade porque é muito gratificante, não há palavras para descrever.

Voltando ao SC Braga. Acaba por rescindir e depois?
Rescindi mas não podia assinar por outro clube enquanto as coisas não se resolviam. Vim para minha casa, na Venda do Pinheiro. E para manter a forma fui falar com o Paulo Fonseca que na altura treinava o Odivelas. Tive o resto desse ano a treinar lá. Depois surgiu a oportunidade de ir para o Estoril Praia. Fiz um ano no Estoril Praia e fui para o Rio Ave.

Paulo Santos a fazer uma defesa na baliza do SC Braga

Paulo Santos a fazer uma defesa na baliza do SC Braga

D.R.

O Estoril Praia surge através do empresário?
Não, nessa altura já não tinha empresário. O Estoril Praia surge porque estou a manter a minha forma no Sindicato dos Jogadores e temos um treino com o V. Setúbal e nesse treino estava o Dimas. Era ele quem nesse ano estava à frente do projeto do Estoril Praia. Ele faz-me o convite, só que entretanto o V. Setúbal também me quer. Eu falo com o V. Setúbal, está programado para irem ter comigo no dia a seguir para assinar, mas eles não aparecem, não dizem nada. Eu como tinha falado com o Dimas, liguei-lhe, perguntei se ainda estava interessado que fosse para o Estoril. Ele disse que sim. Logo nesse dia veio a minha casa para assinar o contrato.

Chegou a perceber o que se passou com o V. Setúbal?
Não faço a mínima ideia. Posso dizer que o interesse do Carlos Azenha, o treinador do V. Setúbal na altura, era tão grande, tão grande, que mesmo depois de ter assinado pelo Estoril, ligou-me a perguntar se havia hipótese de eu ir para o V. Setúbal. Apesar de ter no contrato com o Estoril uma cláusula em que se aparecesse algum clube da I Liga eu podia sair, devido à amizade que eu tinha com o Dimas e com o Hélder que era o treinador do Estoril e com quem tinha jogado, disse ao Carlos Azenha que tinha de falar com eles. Se o Dimas dispensasse os meus serviços eu ia, mas se eles fizessem questão que eu ficasse no Estoril, era para esquecer. Embora eu pudesse ir, não precisava de autorização de ninguém por causa dessa cláusula, gosto de honrar aquilo que falo com as pessoas. O Dimas disse que contavam comigo, que era uma peça fundamental para eles e fiquei.

O Hélder e o Dimas não ficaram até final da época porquê?
Não estávamos a ter os resultados que os investidores esperavam, queriam mandar embora o Hélder e como foi o Dimas que foi buscá-lo, achou por bem sair também. Quando a época terminou, surgiu a oportunidade de ir para o Rio Ave.

O treinador era o Carlos Brito. Foi ele que o quis?
Pelo contrário, ele não me queria. Mais tarde soube que ele tinha a ideia de que eu era um homem que prejudicava os balneários. Sei que essa informação veio do SC Braga. Foi o que ele me disse. E por isso é que ele não me queria.

Mas fica duas épocas com o Carlos Brito, no Rio Ave.
Sim, inicialmente no banco, só que não há resultados e ele vê-se na obrigação de meter-me a jogar. A partir daí as coisas começaram a mudar, começamos a ganhar e a subir na classificação. No ano seguinte, ele vai buscar um guarda-redes ao Brasil. Mais uma vez acontecem estas coisas na minha carreira. Nesse ano fiquei farto e decidi deixar o futebol.

Paulo Santos agarra a bola antes que Luca Toni, do Bayern, consiga alcançá-la, num jogo da Taça UEFA, em 2007

Paulo Santos agarra a bola antes que Luca Toni, do Bayern, consiga alcançá-la, num jogo da Taça UEFA, em 2007

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Estava com 38 anos. Custou-lhe muito tomar essa decisão?
Não me custou porque eu estava realmente farto. Cheguei a um ponto em que já não estava com idade para pactuar com este tipo de situações. Eu tinha propostas para continuar, mas não quis.

Proposta de onde?
Do Trofense da II Honra, onde estava o prof. Neca, que me ligou. Mas não quis mais.

Sabia o que queria fazer a seguir a nível profissional?
Queria ser treinador de guarda-redes. Fiz o curso de treinador, tenho o nível III. No ano em que tive aquele problema com o SC Braga tirei o nível I. Quando terminei a carreira surgiram-me algumas situações em que toda a gente me dizia, não tens cursos nenhuns, e resolvi tirar o nível II e III.

Já tinha voltado a ser pai?
Fui pai da Catarina, quando jogava em Braga, em 2005. E fechou a loja [risos].

O que faz atualmente nada tem a ver com futebol, pois não?
Não. Foi uma oportunidade que surgiu quase logo de seguida. Comecei a pensar que para dar continuidade a uma carreira de treinador tinha de estar ausente da minha família. E isso era coisa que eu não queria. Comecei à procura de outras soluções e como quem procura sempre encontra, o meu amigo Ramires, com quem tinha jogado no Alverca, veio ter comigo com uma oportunidade de negócio, e estou-lhe muito grato até hoje.

Que negócio?
Tem a ver com marketing digital.

O que faz ou vende em concreto?
Eu não vendo nada. Eu crio a minha rede de distribuição de autoconsumo empresarial e a partir daí estou a gerar uma economia a nível mundial porque posso ter o meu negócio em qualquer parte do mundo e sem sair de casa. Estou associado a uma plataforma, a 4Life Research, uma multinacional que existe há mais de 20 anos e que é conhecida como a empresa do sistema imunitário, porque tem tudo à base de suplementação 100% natural. Além disso, tenho um instituto de beleza com a minha mulher que neste momento está fechado.

Mas não vende os suplementos?
Não. Posso recomendar a um amigo se calhar em conversa, mas não é isso que faço. O que faço é ajudar as pessoas a entrar nesta indústria porque temos um sistema educativo em que educamos, ensinamos e capacitamos as pessoas para que possam ensinar outras. A plataforma já está criada, nós temos de conectar pessoas à empresa, é isso. Se reparar hoje em dia as empresas que mais sucesso têm, são plataformas que estão online.

Está a treinar também no Belenenses SAD, certo?
Sim, treino os guarda-redes da equipa de sub-23 e equipa B do Belenenses SAD.

Com as filhas e a mulher numa foto recente

Com as filhas e a mulher numa foto recente

Ana Baiao

Onde ganhou mais dinheiro?
No SC Braga.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Foi uma prenda que ofereci à minha mulher, um Mercedes CLK cabrio.

É um homem de fé?
Sou, mas não praticante.

Superstições?
Tinha aquelas coisas de entrar com o pé direito. E fazer sempre as mesmas coisas quando ganhava.

Tatuagens, tem?
Não.

Qual o seu maior rival?
O Vítor Baía.

E o adversário mais difícil que apanhou pela frente?
Todos eles são perigosos e era assim que os encarava. Não tenho assim nenhum que diga que era o que mais temia.

A melhor defesa com quem jogou, a que lhe dava mais confiança?
A do SC Braga, era o Nem, o Nunes, o Paulo Jorge, o Abel e Luís Filipe.

E o melhor defesa?
O Mozer, o Jorge Costa... Mas aquele que mais me enchia as medidas era o Nem. Só que ele veio para cá numa fase avançada e com uns quilinhos muito grandes a mais. Mas era um jogador com uma inteligência muito grande.

Qual era o seu ponto mais forte e o mais fraco enquanto guarda-redes?
O mais forte era a minha rapidez, era muito rápido. O fraco sinceramente era jogar em estádios vazios. Era muito complicado para mim estar motivado. Hoje em dia não sei como é que faria, com os estados vazios devido à pandemia.

A sua melhor defesa e o pior frango?
Posso falar de uma defesa contra o FC Porto nas Antas, acho que foi um remate de Lucho Gonzalez, em que tive de mandar-me em voo e como não chegava à bola tive de meter uma mão no chão para dar impulso para tocar na bola. O maior frango, recordo um em que estávamos a ganhar 1-0 contra o Benfica, quando jogava no E. Amadora. No último minuto, o João chuta a bola, mas vai à minha figura e como estava no último minuto, para não agarrar logo na bola, amorteci-a, só que a bola ao bater no chão, bateu num buraco e vai para dentro da baliza. Posso dizer que a bola não entrou, foi golo porque o bandeirinha validou, mas a bola não entrou, digo-o convictamente. Foi muito complicado e frustrante para mim.

Paulo Santos dedica-se hoje ao marketing digital

Paulo Santos dedica-se hoje ao marketing digital

Ana Baiao

O papel do guarda-redes é o mais ingrato numa equipa de futebol?
Não tenho dúvidas nenhumas. O avançado em 90 minutos falha 10, 20 golos, chega aos 90 marca o golo da vitória. Quem é o maior? Um guarda-redes está 90 minutos a defender tudo e mais alguma coisa, chegar aos 90 e sofre um frango. O que é que acha que acontece?

Alguma vez teve problemas com adeptos?
Não. Eu como jogador dava tudo. Todos falhamos. Mas nunca me podem acusar de não ter dado tudo.

Qual a sua maior frustração na carreira?
Tenho pena de nunca ter tido oportunidade de jogar um dérbi. E não ter ido mais cedo para a seleção.

E a maior alegria?
As maiores alegrias é ter sido campeão nacional, ter ido ao mundial, ser campeão europeu.

Qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
No Manchester United, por toda a envolveria que se vive, gosto daqueles estados cheios, com os adeptos a gritar.

Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
Costinha e João Tomás.

Qual o melhor guarda redes do mundo até hoje?
O Bufon.

Se não tivesse sido guarda-redes, o que acha que teria sido?
Provavelmente aquilo que sou, um empresário, sinto que sou um líder.

O que fazem as suas filhas?
A Catarina está no 9º ano e a Beatriz quer tirar nutrição na faculdade, e é guarda redes de futsal dos Leões de Porto Salvo.

Ensinou-lhe muitas coisas?
Ao início, quando jogava numa escola, ainda fui treinador dela um mês. Mas agora é só à base de dicas.

Revê-se nela? Tem coisas suas?
Tem, a coragem.