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A casa às costas

“Estava num WC, entram o Toni e o Jesualdo a falarem de mim e eu quis sair disparado para o bate-boca. Eu era assim: dizia e fazia porcaria”

Aos nove anos, Rui Baião pediu a uma estrela cadente para um dia jogar no Estádio da Luz pelo Benfica e o desejo concretizou-se mas o sonho de brilhar no clube do coração foi traído pelo feitio irreverente; a relação com Jesualdo Ferreira, diz, também não ajudou e a saída do SLB seria um dos seus dois maiores arrependimentos. O segundo, uma discussão violenta com Luís Campos Esta é a primeira parte de uma longa entrevista a um dos meninos rebeldes do futebol português

Alexandra Simões de Abreu

Ana Baiao

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Nasceu no Montijo. Apresente-nos a família.
Os meus pais, Francisco e Inácia Baião, são ambos do alto Alentejo, da aldeia Perolivas, ao lado de Reguengos de Monsaraz, para onde eu ia todas as férias de verão. O meu pai era vidraceiro na siderurgia e a minha mãe trabalhava como empregada de limpeza. Tenho duas irmãs mais velhas, a Otília e a Elsa, temos sete e cinco anos de diferença. A minha mãe diz que eu sou o camisinha rota [risos].

Era um puto regula?
Sim. Basicamente tinha tudo a ver com o futebol, embora antes de jogar futebol pratiquei atletismo, com 8,9 anos, porque os meus pais viviam, e ainda vivem, na Moita e a minha irmã do meio andava no Núcleo de Atletismo da Moita. Participei em vários corta-matos e algumas corridas. Uma vez fomos a uma corrida em Santo André e no regresso a carrinha avariou. Já todos partidos da corrida, ainda tivemos de andar a empurrar a carrinha, até pegar [risos]. Mas tenho uma história engraçada.

Conte.
Eu devia ter uns 12 anos e combinei com malta do meu bairro irmos todos às piscinas de Vendas Novas num fim de semana. Tínhamos de encontrar-nos às cinco e tal da manhã para apanhar o comboio de forma a chegar às piscinas à hora de abertura, às 9h. Tudo combinado, tudo certo, só que havia um problema: a minha idade. Grande parte do grupo era mais velho do que eu. Como é que eu ia convencer os meus pais, com a minha idade, a deixarem-me ir com pessoal amigo mais velho do que eu? Além de que eu só tinha dinheiro para a viagem e nada mais. Andei o que restava da semana a pensar num esquema e a solução que encontrei foi esta: não contei nada aos meus pais. Nós vivíamos num 3.º andar e para não os acordar e não fazer barulho, nessa noite não dormi, escrevi um bilhete a dizer que tinha saído cedo e ido para a praia com o meu melhor amigo; e desci do 3.º andar até ao rés do chão pelas varandas de trás, sem pensar no perigo do que estava a fazer [risos]. Como não tinha dinheiro para comprar comida, fui comendo um bocado da comida dos outros [risos].

Gostava da escola?
Gostava de não ir à escola [risos]. Durante a primária e até ao 7º ano sempre fui um aluno assíduo e tirava boas notas, a partir do 8º ano é que se complicou porque coincidiu com começar a jogar futebol mais a sério.

Quando era pequeno já dizia que queria ser jogador de futebol?
Não me lembro de ter nada idealizado quando era pequenino, até à altura em que o meu pai comprou uma telefonia e eu comecei a ouvir os relatos de futebol. Aquilo fascinou-me imenso. Sobretudo ouvir os nomes dos jogadores. Foi a partir daí que comecei a pensar "Quem me dera a mim ser jogador de futebol", mas para que os meus pais também pudessem ouvir o meu nome na rádio.

Torcia porque clube?
Isto aconteceu no final da década de 80 e nessa altura quem estava na mó de cima era o Benfica. Lá em casa éramos todos benfiquistas, mas nunca me foi incutido ser de um clube. Acho que foi mesmo de ouvir os relatos. Aquele rádio dava para cassetes e no dia em que o Benfica ganhou 2-0, nas Antas, com dois golos do César Brito, resolvi fazer uma gravação de mim a fazer o relato desse jogo [risos]. Tenho pena de já não saber onde anda essa cassete, mas lembro-me de alguns anos mais tarde ouvi-la e lá estava a minha vozinha de criança a relatar.

É verdade que pediu um desejo a uma estrela cadente e que se cumpriu?
É. Devia ter uns nove anos, estava com os meus amigos à noite na rua e vi passar uma estrela cadente. Dizia-se que devíamos pedir um desejo e eu acreditava. O desejo que pedi foi: "Um dia gostava de ser jogador do Benfica e jogar no Estádio da Luz". Isto porque a minha irmã, que praticava atletismo, ganhou um prémio e fomos fazer uma visita ao antigo Estádio da Luz. Eu fiquei fascinado com a imponência daquilo, o terceiro anel, a grandeza. Graças a Deus consegui cumprir esse meu desejo.

Quando começa a jogar futebol num clube?
Eu jogava à bola com os meus amigos no ringue todos os dias. Na escola, combinávamos os jogos no ringue, aquilo era bairro contra bairro, eram grandes batalhas. Foi aí que comecei a aprender o básico, com os amigos, no bairro da Caixa. Entretanto, fizemos uma equipa e fomos a um torneio distrital, em Setúbal. Estavam lá olheiros e coincidiu estar um do Barreirense, que veio falar comigo e com o meu melhor amigo de infância, Nuno Camões, para irmos às captações no Barreirense.

Qual foi a reação em casa?
Os meus pais sabiam que eu gostava muito de jogar à bola e que faltava às aulas por causa disso. A minha mãe era muitas vezes chamada à escola. Diziam-lhe: "O Rui quando vem às aulas é bom aluno, mas ele falta bastante"; "Falta bastante? Mas ele levanta-se cedo e vem para a escola"; "Pois, mas ele prefere andar a jogar do que vir às aulas". A minha mãe diz que quando me confrontava eu respondia: "Pois mãe, é que eu não tenho tempo para jogar à bola" [risos]. Mas nunca me impediram de seguir o meu sonho.

Como correu nas captações?
Eu nunca tinha jogado futebol 11, era sempre futebol de salão, no ringue. Sabia que quando a bola saía era lançamento, mas as regras mais específicas eu não sabia. Quando fui às captações, disse que jogava a avançado e fiz como no ringue, fiquei junto da baliza à espera da bola para fazer golos. A defesa subia e eu ficava encostado ao guarda redes à espera que me passassem a bola [risos]. O treinador pôs-se aos gritos :"Miúdo, tens de vir com os defesas senão ficas em fora de jogo". E eu: "Fora de jogo? Sei lá o que é isso, fora de jogo". Tinha 11 anos. Cheguei a casa e fui perguntar ao meu pai o que era o fora de jogo e ele lá me explicou.

Mas mesmo assim ficou no Barreirense?
Chegou um dia em que aconteceu uma coisa que não estava à espera. O meu melhor amigo de infância jogava a defesa central, gostaram muito dele e quiseram ficar com ele. Ele vira-se para as pessoas do Barreirense: "E o Baião?"; "É bom jogador mas não contamos com ele"; "Então se não contam com ele eu também não fico. Só fico se o Baião ficar". Eles queriam muito que ele ficasse e acabaram por ter de levar comigo também [risos]. Eu e o Nuno fomos criados no mesmo prédio, onde ia um, ia o outro, só não somos irmãos de sangue, porque de resto somos irmãos e tratamo-nos como tal.

Ficou no Barreirense até quando?
Dois anos. Aconteceu tudo muito rápido. Tive uma evolução fora do comum, tanto que fui para lá como iniciado B, fiz quatro cinco jogos e passei logo para a equipa A e fui titular o resto do ano. Fomos campeões distritais e subimos ao nacional. No ano a seguir, jogámos contra Benfica, Sporting, Belenenses, Setúbal. Quando jogávamos na relva com os clubes grandes, como não estávamos habituados, levávamos grandes cabazadas, mas quando eles vinham jogar ao nosso pelado sofriam muito para ganhar-nos. Entretanto, como tinha feito um bom campeonato pelos iniciados, mas não passamos à fase seguinte, o treinador dos juvenis levou-me para os juvenis A. Entrei na equipa e não saí mais. Fui campeão distrital juvenil, apesar de ser iniciado.

O que aconteceu depois?
Como as coisas estavam a correr bem, fui tentar a minha sorte ao Vitória de Setúbal. Mais uma vez fui com o meu melhor amigo. O treinador ficou maravilhado, foi logo ter comigo: "Vamos ali à sala do diretor e vais já assinar por nós". Mas eu, com 14 anos, respondi: "Não, não quero assinar nada. Até posso continuar a treinar aqui, mas por enquanto não quero assinar". Não sei se foi alguma coisa divina a desviar-me para o que aí vinha, mas não aceitei. Passados 15 dias aparece o Zé Augusto e o Adolfo, na Moita, à procura da casa dos meus pais. Eu estava a andar de bicicleta, não estava em casa. Entretanto. um amigo vem ter comigo: "Baião, vamos à tua casa que estão lá uns homens do Benfica à tua procura"; "Eh pá, vai-te lixar, estás a gozar comigo"; "É verdade, é verdade, anda lá"; "Vai-te lixar"; "O que é que apostas?"; "O que é que aposto? Então olha, aposto a roda da frente da minha bicicleta" [risos].

Perdeu a aposta.
Perdi. Estava a chegar perto da minha casa e naquela zona estão sempre pessoas à janela, as chamadas coscuvilheiras, e começaram logo: "Eles estão-se a ir embora, estão-se a ir embora". Agarro na bicicleta e vou atrás deles. Eles viram-me, pararam o carro e voltaram para casa dos meus pais. Disseram que já há muito tempo que andavam a seguir-me e que queriam muito que eu fosse para o Benfica. Os meus pais disseram que a última decisão era minha.

Não hesitou, claro.
"Onde é que assino?" [risos]. Não o disse mas era o que estava a pensar. Passado duas semanas ligam para a casa dos meus pais, do Sporting. Queriam que fosse para lá [risos].

Já tinha assinado pelo Benfica?
Eu naquele dia assinei logo um papel. Era o meu sonho, alguma vez ia perder essa oportunidade?

Nessa altura já lhe falaram de dinheiro?
Sim, fui para lá ganhar 25 contos (125€).

Quando ganhou o primeiro ordenado lembra-se do que fez ao dinheiro?
Lembro-me muito bem. Fui comprar umas Levi's, que custavam 20 contos (100€). Fiquei com 5 contos (25€) para o resto do mês.

Sabe quanto lhe oferecia o Sporting?
Nem cheguei a falar com eles. O que me disseram depois é que o Benfica deu 2000 contos (10.000€) ao Barreirense mais equipamentos e bolas, e que o Sporting dava 4500 contos (22.500€) por mim. Foi o que me disseram, se é verdade ou não, não faço ideia. Obviamente que se não tivesse aparecido o Benfica e só tivesse surgido o Sporting se calhar tinha ido para lá. Mas mesmo que não tivesse assinado pelo Benfica e estivesse entre um clube e outro, nem que o Sporting me pagasse mais de ordenado, com aquela idade eu queria lá saber de dinheiro... Queria era jogar no clube de que gostava, era o sonho de qualquer criança. Eu tinha 14 anos.

Como foi a adaptação à nova realidade do Benfica?
Não foi fácil. Havia o centro de estágio, só que como eu morava relativamente perto, não me deixaram ir para lá. Na pré-época treinávamos de manhã e de tarde e eu tinha de me levantar muito cedo porque tinha de apanhar comboio da Moita para o Barreiro, depois o barco para o Terreiro do Paço, e antigamente não havia estes catamarãs, antes demorava quase uma hora; depois, não havia metro no Terreiro do Paço, tinha que ir a pé até ao Rossio, para apanhar o metro para o Colégio Militar. Treinava, almoçava no centro de estágio, treinava à tarde e era a volta ao contrário. Ia e vinha sozinho. Hoje, olho para os meus filhos e penso que os miúdos não têm nem metade da responsabilidade que nós tínhamos. Hoje quando eles vão brincar para a rua ficamos com o credo na boca, quanto mais eu deixar o meu filho ir do Barreiro, onde vivo agora, de transportes para Lisboa. Os meus pais deram-me uma dose de responsabilidade muito grande.

É aí que deixa os estudos?
Ainda não. Eu andava completamente de rastos. Não aguentava aquele ritmo. Uma vez quando acabou o treino apanhei o metro no Colégio Militar, deixei-me dormir, só acordei no Campo Grande, com o revisor a dar-me pancadas no braço. Tinha ido de um lado ao outro da linha. Nessa altura fui falar com os diretores do Benfica. E fiquei no centro de estágio. Mas foi complicado essa fase de adaptação.

Com Nuno Camões o melhor amigo de infância

Com Nuno Camões o melhor amigo de infância

D.R.

Custou-lhe afastar-se da família?
Claro. Estamos habituados ao carinho familiar, a ter tudo feito, e de um momento para o outro tens de ser responsável por ti próprio. Claro que chorei, não escondo. Cheguei a pensar em voltar para casa.

Fizeram-lhe alguma partida, alguma praxe quando chegou?
Não, mas fizeram-me uma espera quando fui para o Benfica. Um ano antes tinha jogado contra o Benfica no campeonato nacional e eu sempre fui um jogador agressivo, e já na altura, apesar de ser magrinho, era bastante alto. Nunca gostei de perder. Eles lembraram-se de mim e quando me viram a entrar no balneário a primeira vez - isto eles contaram-me depois -, reconheceram-me. "Olha quem está aqui. Seja bem-vindo", mas a pensar "espera aí que a gente já te faz a folha". Então, cada vez que eu tocava na bola, pumba, vai de paulada. Ainda durou alguns treinos. De certa forma eu sabia porque é que eles estavam a fazer aquilo.

Adaptou-se bem à escola em Lisboa?
Nessa altura a escola é que andava mal comigo, não era eu com a escola [risos]. Eu só queria bola, estava desligado da escola, já desde o Barreirense. Na Moita tinha chumbado dois anos. Quando fui para o centro de estágio do Benfica passei para a escola secundária de Telheiras, no 8.º ano. As coisas correram bastante mal, mas tiveram um fim feliz.

Como assim?
No 1.º período tenho oito negativas, até a educação física tive negativa porque no Benfica durante um jogo parti o braço e não podia fazer. Só tive uma positiva, ao que mais gostava, inglês. No 2.º período tive positiva a inglês e educação física [risos]. No 3.º período, ainda fui uns tempos à escola, mas quando faltava um mês e tal para acabar deixei de ir porque com aquelas notas sabia que ia chumbar. Acaba o ano letivo, estou no centro de estágio e vêm chamar-me para ir ao telefone. Era a minha diretora de turma, nunca mais me esqueci do nome dela pelo que ela fez por mim, Maria José Mota. Disse-me que independentemente de eu ter faltado às aulas e das minhas notas, ela sempre me tomou como um bom aluno porque quando ia mostrava capacidades. E resolveu falar com os outros professores, porque sabia que eu já tinha chumbado duas vezes no 8.º ano e se chumbasse mais uma vez ia entrar numa sequência de anos perdidos que não seria bom para mim. Depois de uma conversa séria, aceitaram passar-me de ano [risos]. Eu nem queria acreditar, pensava que estava a gozar comigo. Mas não, foi impecável e disse que era só eu querer que conseguia ter excelentes notas e para aceitar aquela oportunidade porque se calhar não ia ter outra. Então fiz uma promessa à professora.

Qual?
Disse-lhe que estava muito agradecido pelo que ela fez, por ter dado a cara por mim, e prometi-lhe que pelo menos ia cumprir a escolaridade obrigatória, que na altura era só o 9.º ano. E assim fiz. No ano seguinte, mudei de escola, fui para o externato Álvares Cabral em Benfica e passei o ano só com uma negativa e porque entrei em conflito com uma professora. Ela não ia com a minha cara e eu não ia com a dela e deixei de ir às aulas. Era professora de Física e Química.

Juvenis Barreirense. Rui é o segundo em baixo à direita, com as mãos na bola

Juvenis Barreirense. Rui é o segundo em baixo à direita, com as mãos na bola

D.R.

Voltando ao futebol. Quando chega à equipa principal do Benfica?
Tive excelentes treinadores na formação do Benfica. Não foi sempre fácil, por minha culpa também, nunca fui um jogador fácil, fui sempre muito irreverente, muito espontâneo. O que eu pensava ou sentia era aquilo que saia, não refletia. Muitas vezes também fui mal interpretado, e outras errei, não tenho vergonha de assumir.

Algum treinador que o tivesse marcado mais na formação?
Talvez o professor Rui Oliveira e o Jaime Graça. Depois tive o Arnaldo Cunha, que fez o que alguém devia ter feito muito mais cedo, que foi cortar-me as vazas. Se tivessem tido esta atitude comigo sempre, se calhar o meu comportamento teria sido diferente. Só que a partir de determinada altura na formação do Benfica, eles tinham mesmo muita esperança em mim, era como um diamante que eles queriam lapidar. O problema é que eu continuava a cometer erros e ninguém metia travão.

Que tipo de erros cometia?
Acima de tudo era um miúdo muito mimado, conseguia levar avante as coisas que eu queria, da maneira que eu queria. E quando apanhei o Arnaldo Cunha, no 2.º ano de juvenil, houve um jogo nas Antas em que se ganhássemos éramos automaticamente campeões. E nessa semana portei-me mal outra vez.

O que significa, em concreto, portar-se mal?
Às vezes tinha más atitudes com os meus colegas. Infelizmente sempre fui um jogador muito emocional, deixava as emoções tomarem conta de mim. Mandava todos para o "baralho" e para a "coisa" da mãe deles ou passava-me uma coisa pela cabeça, um colega passava por mim e mandava-lhe um grande pau e depois não pedia desculpa. Já não me lembro em concreto qual a situação, sei que me portei mal e o Arnaldo Cunha: "Ai é?". Chegou o dia da convocatória e o nome do Baiãonito não estava [risos]. Os meus colegas foram às Antas, ganharam, eu fui campeão na mesma, mas não fui a esse jogo. Depois desse jogo o Arnaldo Cunha veio com um discurso claramente dirigido a mim. "Quando temos uma maçã podre no grupo, essa maçã pode apodrecer as outras maçãs. Qual o melhor remédio para as maçãs não apodrecerem todas? É tirar a maçã podre do meio das outras".

Na seleção nacional de sub-16. Rui está atrás, no meio

Na seleção nacional de sub-16. Rui está atrás, no meio

D.R.

Nos juniores correu melhor ou nem por isso?
Apanhei o mister Nené, que foi a primeira alavanca para eu ir à equipa principal. Era meu treinador nos juniores e os seniores entraram numa fase de transição e enquanto não vinha o novo treinador. Foi o Mário Wilson que assumiu os seniores, com o Nené como adjunto dele. Começámos o campeonato nacional e o Nené tinha uma confiança cega em mim. Tanto que, mesmo sendo mal comportado e tendo em conta que havia colegas há mais tempo no clube, meteu-me como um dos capitães da equipa, para me dar responsabilidade. O Nené enquanto treinador, dentro de campo era uma pessoa de regras muito rígidas. Só para dar um exemplo: na relva éramos obrigados a treinar com pitons de alumínio porque se fôssemos com os de borracha e tivéssemos o azar de escorregar, íamos logo tomar banho. Tínhamos de andar com o equipamento bem lavadinho, camisola dentro dos calções. E com as horas então… Eish. Tenho uma história a propósito.

Conte.
Íamos jogar a uma das ilhas, tínhamos de apanhar um avião e a hora de saída era às duas. O Baiãonito chegou três minutos atrasado e o autocarro já não estava [risos]. Lá consegui que uma pessoa conhecida me levasse ao aeroporto. Pedi desculpa ao mister e embarquei. Mas ele era muito rígido nas regras. Tinha também o outro lado. Era uma pessoa que a mim, particularmente, dava muita confiança, acreditava muito em mim.

Chegou a treinar na equipa principal nessa altura em que ele acumulava como treinador principal dos juniores e adjunto dos seniores?
Sim. Ele ensinava-me muita coisa. "Nos cantos, posicionas-te ali e vais ver que vais fazer golo". E era. Nesse ano de juniores fartei-me de marcar golos. Nessa fase em que ele era adjunto de Mário Wilson, levou-me a treinar com a equipa principal tinha eu 17 anos.

Quem eram as figuras da equipa principal que o impressionavam mais?
Acima de tudo o João Pinto. Na altura era Deus no céu e João Pinto no Benfica [risos]. Nunca tinha entrado no balneário dos seniores, entrei mudo e calado. Era um respeitinho. Era chegar dizer bom dia, equipar e estar caladinho, mais nada.

Rui Baião tem 40 anos

Rui Baião tem 40 anos

Ana Baiao

Continuou a treinar com os seniores a partir daí?
Só nessa fase de transição e não todos os dias. Quando veio o novo treinador voltei aos juniores, fiz dois anos e entretanto surgiu a equipa B. Estive um ano na equipa B. Claro que subir à equipa principal era um objetivo, mas naquela altura era muito mais complicado para um jovem da formação conseguir entrar diretamente na equipa A, a não ser que fosse algum fora de série.

Depois da equipa B vai para Alverca, onde estava o professor Jesualdo Ferreira. Deram-se bem?
Sinceramente não tenho muitas coisas abonatórias a falar dele. O professor Mariano Barreto era um excelente homem, muito boa pessoa, e vou fazer aqui uma confidência. Muito daquilo que o Pedro Mantorras foi, deve-se ao Mariano Barreto e não ao Jesualdo Ferreira.

Por que razão diz isso?
Quando fui para o Alverca, fiz uma excelente pré-época, digamos que era eu e mais dez, e quando chegou a altura do campeonato, o primeiro jogo foi contra o Marítimo, em casa, fui para o banco mas não entrei. Depois tive azar porque num jogo durante a semana contra os juniores do Alverca tive uma entorse muito grave, tive de andar de canadianas e estive mais de um mês parado. Fiz a recuperação, comecei a treinar, mas durante esse período em que estava fora dos treinos, estava eu e o Mantorras. Nós os dois, enquanto os outros treinavam, aquecíamos os guarda-redes. Entretanto comecei a recuperar, mas passado pouco tempo tive de ser operado a uma apendicite de emergência. Perdi meia época praticamente.

E o Mantorras?
Voltando ao Mantorras. Ele nunca contou para o Jesualdo, era um jogador que estava quase sempre à parte e o Mariano Barreto era das pessoas que mais acreditava no Mantorras e fazia muito trabalho específico com ele, dava-lhe muita confiança, dizia para nunca desistir. Na altura os avançados eram o Caju, o Anderson e outro que não me recordo o nome. O Mantorras era um jogador que andava ali, que não contava. Só que, por causa de lesões ou castigos, o Jesualdo foi praticamente obrigado a meter o Pedro Mantorras a jogar e foi o que se viu. Explodiu completamente. Mas o grande obreiro para aquela explosão foi o Mariano Barreto. Sou testemunha disso. O Jesualdo se calhar é que ficou com os louros de ter apostado nele. Não tenho nada contra o Jesualdo Ferreira, simplesmente quando trabalhei com ele infelizmente nunca tivemos coisas boas, não sei se lhe fiz alguma coisa mas... Porque mais tarde voltei a encontrá-lo no Benfica.

Ao lado da mãe e da sobrinha ainda bebé

Ao lado da mãe e da sobrinha ainda bebé

D.R.

Já lá vamos. Continuava solteiro?
Já estava com a minha atual mulher, a Teresa. Começámos a namorar em 2000. Ela vivia com a mãe no prédio em frente ao dos meus pais, que eu visitava muitas vezes porque já tinha carro. Muitas vezes dormia em casa dos meus pais, e como saía muito cedo, para ir para Lisboa, via-a quase sempre de manhã. A Teresa é alta, tem 1,77m, e fiquei intrigado e interessado, porque não me lembrava dela quando vivia com os meus pais. Passado uns tempos, estava com o melhor amigo de infância e a Teresa estava com uma amiga que ele conhecia. Perguntei ao meu amigo quem era ela e ele não vai de modas e chama a duas. Convida-as para tomar café, à noite. Elas não apareceram. Fomos à procura e lá as encontramos. Começou a partir daí. Mas isto para dizer que quando estava em Alverca fiz um contrato promessa de compra e venda de um apartamento em Sacavém, mas nunca cheguei a comprá-lo, e a Teresa ia lá de vez em quando.

Depois do Alverca volta à equipa B?
Depois de ser operado à apendicite já não quis voltar ao Alverca porque não gostava de como as coisas estavam a correr. Havia alguns jogadores que tinham comportamentos que eu não achava adequados. Para ser simples e direto, nunca gostei de "chibos" no grupo de trabalho. Nunca fui "chibo". No Alverca tinha alguns jogadores que iam chibar tudo o que se passava dentro do balneário. Para mim o que se passa no balneário é sagrado, o que acontece lá, fica lá. Uma coisa é se todos tomarem uma decisão comum de dar conhecimento ao treinador, ao diretor, presidente, a quem quer que seja, outra é haver três, quatro jogadores que se vão chibar sem conhecimento dos outros só para ter proveito próprio. Não aceito isso.

Mas houve alguma situação consigo diretamente?
Felizmente, não. Mas não gostava do ambiente e por outro lado vi que o meu espaço, também em função das lesões que tinha tido, tinha acabado. Sempre pensei pela minha cabeça. Entretanto, voltei ao Benfica, para a equipa principal. Curiosamente o meu primeiro dia, foi o último dia do José Mourinho, no Benfica. Eu treinava com a equipa principal e jogava pela equipa B ao início. No final do treino o Mourinho despede-se de todos um a um. Disse-me: "Não te conheço, mas olha, boa sorte". Foi assim.

Em ação pela seleção de sub-16

Em ação pela seleção de sub-16

D.R.

Entra Toni. Gostou dele?
Gostei muito. Entretanto, o campeonato parou, já não sei porquê, e a equipa principal vai fazer uma digressão ao estrangeiro, com dois jogos. Fomos à Bélgica jogar contra o Lierse, onde estava o Pepa, e depois fomos fazer um jogo à Polónia, contra o Wisla Cracóvia. E marquei um golo em cada jogo. Fui chamado a uma conferência de imprensa quando cá cheguei e uma das perguntas foi: "Quando é que a aposta recai em si?". E eu não vou de modos: "Para mim é já". Mas não foi logo. Depois comecei a ser convocado para a equipa A, já não para a B, e entretanto aconteceu um momento muito triste.

Que foi?
O Benfica foi jogar a Campo Maior e eu tinha sido convocado - na altura normalmente ficava como 18º e ficava de fora, mas para mim já era excelente ir com a equipa principal -, e nessa semana o Toni tinha-me dito que se tudo corresse bem se calhar ia-me estrear em Campo Maior. Nesse jogo eu ia para o banco e quem ficava de fora era o Geraldo, o irmão do Bruno Alves. Eu estava todo contente, ia para o banco, se calhar ia estrear-me na equipa principal. Só que, no aquecimento, o Paulo Madeira lesionou-se, para meu azar. O Geraldo era central. Ou seja, o central que ia para o banco passou a titular e o Geraldo que ia ficar de fora é que vai para o banco. Quem é que fica de fora? Aqui o Baiãonito. Quando o Toni vem falar comigo nem sei como é que me consegui aguentar diante dele. Começaram a vir as lágrimas aos olhos, mas aguentei. Assim que acabou de falar comigo, saí de pé dele, fui para um sítio sozinho e chorei baba e ranho. Nunca ninguém soube. Mas chorei tanto.

Com a bola durante um jogo dos juvenis do Benfica

Com a bola durante um jogo dos juvenis do Benfica

D.R.

Mas estreia-se logo a seguir, não foi?
Nesse jogo o Roger leva o 5º amarelo e na semana seguinte jogávamos em casa contra o Marítimo e o Toni veio falar comigo para estar tranquilo que em princípio eu é que ia ocupar o lugar do Roger no 11 inicial. Acho que durante essa semana não dormi, praticamente [risos]. Era tanta ansiedade e medo que algo pudesse acontecer novamente, foram muitas emoções, tinha medo de disputar bolas no treino, de me lesionar.

Tremeram-lhe as pernas?
Bastante. Até à altura os únicos jovens que tinham transitado da formação para a equipa principal e entrado logo como titular tinha sido o Diogo Luís e depois fui eu. Estava nervoso. Por muito bonito que o estádio da Luz de hoje seja, nunca vai ter a imponência que o antigo tinha, não tem nada a ver, aquilo impunha respeito. Ir por aquele túnel, subir aquela escada de acesso ao relvado e ouvirmos os adeptos a gritar e a puxarem por nós, a gritar o nosso nome... Eh pá... É difícil descrever. Muitas emoções inexplicáveis. Para mim que sempre foi o que tinha desejado, cumprir isso, foi... Foi o ponto mais alto da minha carreira.

Correu-lhe bem o jogo?
Correu. Nos primeiros minutos, basicamente queria mostrar que não errava para ganhar confiança. Passados dez minutos o nervosismo passa. Podia ter feito dois golos e tudo. Fiquei feliz.

Nos juniores do Benfica

Nos juniores do Benfica

D.R.

Depois disso jogou mais até final da época, ou não?
Fiz mais alguns jogos. Fiz o meu primeiro golo, contra o Salgueiros, mas foi num dia triste para mim porque foi no dia em que faleceu a minha avó paterna. Dia 20 de maio. Jogámos em casa e o meu melhor amigo costumava ir com os meus pais ver o jogo. A minha avó estava mal, já estava tudo mais ou menos à espera, e os meus pais avisaram: "Se nós não formos, já sabes o que é que aconteceu". Durante o jogo não soube o que tinha acontecido, só no final do jogo quando percebi que só lá estava o meu amigo.

Acaba a época e o que aconteceu?
Fui de férias, sabia que tinha contrato com o Benfica, e como tinha feito um final de época bom, estava à espera de continuar na equipa A, não estava à espera de ir para a B e começar tudo de novo. Ligam-me para o dia da apresentação. O Benfica desportiva e financeiramente não estava bem e em 2001/02 nem tivemos jogo de apresentação, ou melhor, a apresentação foi o plantel a jogar uns contra os outros. Fizemos a pré-época, ainda com Toni, na Suíça. Foram buscar alguns jogadores que tinham mais nome do que aquilo que a meu entender poderiam oferecer desportivamente ao clube, nomeadamente o Drulovic e Zahovic. Tinham mais estatuto do que realmente podiam oferecer dentro de campo, porque já estavam em final de carreira. E essa foi uma das razões porque mais tarde quis sair do Benfica.

Num derbi pelos juniores do Benfica

Num derbi pelos juniores do Benfica

D.R.

Deixou de ser opção por causa dessas contratações?
Sem dúvida. Voltei a jogar pela equipa B, coisa que eu não queria. Não porque sentisse que era despromoção, mas porque sentia que estava numa forma ascendente da minha carreira e não estavam a reconhecer que eu estava melhor do que eles. O que fazia com que eles jogassem era apenas o estatuto que tinham. Nos treinos eu sabia que treinava melhor, estava melhor física e taticamente do que eles. Mas eles é que jogavam. Isso foi corroendo por dentro. Fui acumulando, acumulando. Os resultados não ajudavam. Entretanto fomos fazer um jogo da Taça, ao norte, já não sei contra quem, e faço um grande jogo. Depois do jogo tenho mais uma história para contar.

Força.
Ainda era Toni o treinador, mas aí é que eu me apercebi realmente que não ia ter futuro com o Jesualdo. Depois do jogo fomos jantar a uma unidade hoteleira e no fim do jantar fui à casa de banho. Estou na sanita a fazer as minhas necessidades e oiço entrar na casa de banho o Toni e o Jesualdo. Vinham a falar. O Toni dizia: "Eh pá o miúdo, viste o jogo que ele fez? Grande jogo que o miúdo fez. Vou apostar no miúdo pá, que o miúdo está com uma grande confiança, uma grande moral". Quando os ouvi a falar, para eles não verem que eu estava na casa de banho, levantei os pés e encostei-os à porta. O Toni começou a falar de mim e eu a ouvir aquelas palavras estava todo contente e orgulhoso. Mas depois começa a falar o Jesualdo e começa a pôr um travão às pretensões do Toni: "Tem calma, não vás já apostar no miúdo".

O que fez?
Aquilo causou-me uma revolta muito grande. A minha vontade foi sair disparado da casa de banho e ter um bate boca com o Jesualdo, mas não o fiz. A verdade é que o Toni começou a apostar em mim. Mas tive a infelicidade dos resultados não serem bons e depois veio coincidir com o Jesualdo assumir o cargo de treinador principal.

Pediu logo para sair?
Não. A partir do momento em que o Jesualdo assumiu, acho que ainda fiz um jogo, mas eu sabia que enquanto ele estivesse à frente da equipa eu não tinha futuro no Benfica. No Alverca ainda lhe dei o benefício da dúvida porque tive a entorse e a apendicite. Mas a partir do momento em que ouvi aquela conversa... Quando o Jesualdo assumiu, eu sabia que ia ter muitas dificuldades, já nem digo em jogar, em permanecer sequer no plantel principal. Foi o que aconteceu.

Chegou a ter algum bate boca com ele?
Nada. Prefiro não comentar o que se passou depois, para não dar azo a ... Posso dizer que fiquei com uma imagem que se calhar não corresponde totalmente à verdade. É a minha forma de ver, se outros veem de outra forma, tudo bem. A partir do momento em que ele entrou, obrigou-me a ir jogar para a equipa B. A verdade é essa. Ele não pediu. Eu era um jogador que tinha sido apresentado no plantel principal, fazia parte do plantel principal, para mim não era vergonha nenhuma ir jogar pela equipa B, porque tinha lá muitos colegas da minha formação, foi a postura que ele teve para comigo que me revoltou. Porque uma coisa era ele dizer: "Rui, neste momento não estás bem, as coisas não estão a sair bem". Ou: "Eu não conto contigo", uma coisa de forma mais respeitável. Não. Obrigou.

Como?
"Ou vais para a equipa B ou nunca mais treinas com a equipa principal". E eu recusei-me a ir para a equipa B. Veio o processo disciplinar, houve ali muitas coisas, já diziam que eu era jogador da equipa B e não da principal. Em contraponto tinha como prova em como fui apresentado como jogador da equipa principal e que não era obrigado a ir jogar à equipa B, se não quisesse.

No que resultou esse processo?
Não resultou em nada. O que resultou foi que eu depois fui mesmo para a equipa B, cumprir o resto da época.

A festejar a conquista de um torneio na Holanda pelos juniores do Benfica

A festejar a conquista de um torneio na Holanda pelos juniores do Benfica

D.R.

Tinha empresário?
Sim, o Paulo Barbosa. Foi o único que tive.

O contrato com o Benfica era até quando?
Até 2004. Mais dois anos. Só que o Jesualdo continuou à frente do Benfica, o que é que eu ia lá ficar a fazer? Nada. Eles não queriam emprestar-me também. Não queria perder dois anos da minha carreira numa fase em que precisava de jogar, de crescer e amadurecer. Vamos conversar, chegamos a um acordo. Cada um foi para seu lado.

Como surge o Varzim?
Nessa altura era Vilarinho presidente, mas quem mandava já quase naquilo tudo era Luís Filipe Vieira, que entrou para diretor. Entrei em acordo com ele. Ele fez logo aquelas cláusulas anti-rivais. É uma coisa que não percebo. Quer dizer, se não servimos para o clube onde estamos, então têm medo do quê? Que vamos jogar para o FC Porto ou para o Sporting? Só que quando assinei a rescisão com o Benfica, foi através do Sindicato dos Jogadores e os advogados de lá deixaram-me à vontade: "Podes incluir essa cláusula anti-rivais, que isso não tem validade nenhuma em termos legais". Na altura, rescindi eu, o Pepa e o Jorge Ribeiro e os "profetas" começaram logo a profetizar que íamos para o FC Porto.

O FC Porto chegou a entrar em contacto consigo?
Anos antes os jogadores que rescindiram ou que eram emprestados e nunca regressavam ao Benfica, iam para o FC Porto e cresciam; o FC Porto aproveitava-os muito bem e conseguia rentabilizá-los bem. Essa imagem também ficou colada a nós. Ainda por cima fomos jogar para um clube que é o primeiro clube satélite do FC Porto, o Varzim.

Mas chegou a ser abordado pelo FC Porto, ou não?
Numa primeira fase isso nunca aconteceu. Só falo por mim. No meu caso o que aconteceu foi que tinha contrato com o Varzim, começamos a fazer uma excelente época e é normal que haja interessados. Apareceu o FC Porto, mas a única coisa que ficou estabelecida, não com os jogadores, mas entre clubes, era que se houvesse algum interessado em qualquer um de nós, o FC Porto teria sempre uma primeira palavra a dizer. Agora, o FC Porto nunca me abordou diretamente para ir para lá.

Vai sozinho para a Póvoa do Varzim?
Depois de arranjar habitação, a minha mulher foi viver comigo.

A irmã ofereceu-lhe uma guitarra e Rui diz que no centro de estágio do Benfica ficava tudo maluco com as suas guitarradas e gritos em altos berros

A irmã ofereceu-lhe uma guitarra e Rui diz que no centro de estágio do Benfica ficava tudo maluco com as suas guitarradas e gritos em altos berros

D.R.

Quem era o treinador quando chegou ao Varzim?
Era o José Alberto Costa que no ano anterior já queria que eu fosse meia época para lá, emprestado. Foi uma pessoa extremamente afável, muito bem educado, e em toda a minha carreira foi o treinador que conseguiu tirar o melhor proveito desportivo de mim. Essa época no Varzim foi realmente a minha melhor época em termos individuais. Infelizmente acabamos por descer de divisão. Viramos a 1ª volta em 4º ou 5º lugar, era o FC Porto, Benfica, V. Guimarães, Sporting e 5º, nós. Depois não sei o que é que se passou, mas a 2ª volta foi o oposto da 1ª. A bola não entrava, acabamos por descer de divisão na última jornada.

Já com Luís Campos como treinador.
Sim. O Luís Campos em termos de métodos de treino era muito bom, mais atual, com mais bola, só que ele era um treinador que não percebia que no futebol, em equipas que estão a lutar pela permanência, quando não se consegue ganhar, empata-se. Um pontinho aqui, outro ali e no fim do campeonato esse pontinho vai fazer muita diferença. Mas ele apostava sempre tudo para ganhar. Infelizmente, perdemos mais vezes do que ganhamos.

Tinha assinado por quanto tempo pelo Varzim?
Acho que por três anos.

No primeiro treino pela equipa principal do Benfica, aos 17 anos

No primeiro treino pela equipa principal do Benfica, aos 17 anos

D.R.

Mas na época seguinte vai para o Estrela da Amadora. Porquê?
Derivado à época que tinha feito, que foi muito boa.Na altura estive quase a ir para o FC Porto. Mas só vim a saber desta história uns anos mais tarde, pelo meu grande amigo Pepa. Somos grandes amigos, ele é padrinho do meu filho mais novo e eu sou padrinho de uma das filhas dele. Só um aparte para dizer que estou muito feliz e muito orgulhoso do que ele está a fazer como treinador. Ele sempre foi muito resiliente. Em relação ao FC Porto, ele contou-me que eles estavam muito interessados que eu fosse para lá. Durante os jogos que fizemos contra o FC Porto, o Mourinho e o Pinto da Costa vieram falar comigo, mas nunca disseram: "Para o ano vais para o Porto". Não. Apenas deram-me os parabéns e que devia continuar assim. Sei que houve contactos entre os clubes, só que o Varzim pelos vistos pediu mundos e fundos ao FC Porto. Não sei o valor em causa. Sei que pediam bastante dinheiro que o FC Porto não estava disposto a pagar. E quem acabou por ir para o FC Porto foi o Pedro Mendes. Eles estavam indecisos entre mim e ele.

Então como é que surge o Estrela da Amadora?
O Varzim desceu e eu informei os responsáveis que não queria ir para a II divisão. Claro que tinha contrato com eles, não eram obrigados, mas eu e o meu empresário fizemos ver que em função da época que tinha feito, ir para um clube da I liga podia ter mais visibilidade e futuramente o Varzim podia ser ressarcido de algum valor. Ainda comecei a treinar no Varzim, à espera que se encontrasse alguma solução e apareceu o E. Amadora que tinha o João Alves como treinador.

E vem de armas e bagagens para Lisboa novamente.
Eu já tinha comprado a minha atual casa no Lavradio, Barreiro. O E. Amadora era perto de casa, foi fácil chegamos todos a acordo. Mas as coisas não começaram a correr bem logo de início.

Porquê?
Porque desde a pré-época que estive sempre lesionado, comecei a ter pubalgias e isso limitava-me muito. Mas fui jogando. Todos os dias tomava anti-inflamatórios para poder treinar e jogar. Mas foi uma decisão minha, ninguém me obrigou. Eu queria mostrar-me. Fazia trabalho preventivo, para não aprofundar ainda mais a lesão, mas a verdade é que joguei a época praticamente toda com pubalgia. O primeiro jogo é contra o FC Porto do José Mourinho e empatámos. Ficámos entusiasmados, tínhamos um plantel com muita experiência, o Paulo Madeira, o Marinho, o Paulo Fonseca, o Rogério, entre outros. Tínhamos uma mescla de jogadores maduros, uma faixa intermédia e outros mais jovens. Mas o que é facto é que depois disso não ganhámos a ninguém [risos]. Foi uma época horrível.

Em Itália a apoiar Rui Costa na Fiorentina. Rui (3º a partir da direita) está ao lado do grande amigo Pepa

Em Itália a apoiar Rui Costa na Fiorentina. Rui (3º a partir da direita) está ao lado do grande amigo Pepa

D.R.

O que aconteceu à pubalgia?
Foi piorando, até que chegou um momento em que eu já não conseguia andar sem dores. Tinha de dormir com as pernas encolhidas, se estivesse esticado estava sempre cheio de dores. Andar doía-me, nos treinos parecia que tinha uma faca a espetar-me na zona inguinal. O João Alves já tinha saído e ficou o Miguel Quaresma, que foi adjunto do Jorge Jesus, disse-lhe que dei tudo o que podia e que não aguentava mais, que tinha de parar. Ele confrontou-me com uma coisa que não esperava ouvir, mas que tocou-me bastante: "Rui, eu compreendo a tua situação mas peço-te que faças mais um esforço, porque prefiro que jogues tu a 50% do que outro colega". Deixou-me orgulhoso ouvir aquilo, mas por outro lado também não gostei de ouvir. Porque os meus colegas trabalhavam todos os dias no máximo para tentar jogar e eu não treinava todos os dias, mas quando chegava ao fim de semana era eu que jogava.

Estava a viver o outro lado da situação com que se deparou no Benfica, com Zahovic e Drulovic?
Pois. Tive ali sentimentos distintos, porque já tinha passado por isso. Eu estava a jogar pelo estatuto que tinha conseguido e acho que não é correto. Já tinha passado pelo que os outros estavam a passar, não é correto. Eu disse: "Mister, não dá. Fiz tudo o que estava ao meu alcance mas eu não aguento mais, não consigo jogar". Fui fazer exames e o que eu tinha já não era pubalgia, mas uma hérnia inguinal.

Foi operado?
Fui. Como sou supersticioso, fui operado numa sexta-feira 13 [risos]. Curiosamente o Feher tinha morrido há pouco tempo e eu estava cheio de medo de ser operado, mesmo cheio de medo. Graças a Deus correu tudo bem. E tenho uma história para contar da operação.

Conte.
Fui para o hospital. Como era na zona inguinal tive que me depilar na zona púbica, mas depilei-me com máquina. Quando a enfermeira viu, disse que não estava bem porque tinha de ser com gilette, não podia ter pêlo mesmo nenhum. Eu pensava que ela é que me ia depilar e então baixei as calças quase todas, todo descascado [risos]. Pensava que era ela que ia raspar a zona. Mas ela na maior das descontrações: "Não, não. Você é que vai depilar os pelos a si próprio". [risos]. Cheio de vergonha, levantei as calças, pedi desculpa e fui embora.

Num jogo pela equipa principal do Benfica

Num jogo pela equipa principal do Benfica

D.R.

O que aconteceu depois da cirurgia?
Fui operado em fevereiro. A recuperação leva um mês e meio até poder jogar. Ou seja, em finais de março já podia estar a jogar outra vez. Mas pensei: "Não. Estou aqui como emprestado, não quero estar a fazer as coisas à pressa, quero recuperar bem. Falei com o treinador e a direção do Estrela e disse-lhes que ia fazer a minha recuperação na FisioGaspar e que já não queria jogar mais naquela época. As pessoas do Estrela não aceitaram muito bem mas compreenderam a minha decisão e cumpriram-na. Depois o Varzim não subiu e comecei a falar com o meu empresário porque eu não queria voltar ao Varzim para continuar na II liga. Então chegamos a acordo com o Varzim, com quem ainda tinha um ano de contrato.

Que tipo de acordo?
Ou eu voltava para o Varzim e cumpria o último ano e eles não tinham dinheiro para me pagar ou eles chegavam a acordo com o Gil Vicente, porque o Luís Campos tinha ido para lá, e como tinha gostado de trabalhar comigo no Varzim, queria-me. As coisas já estavam mais ou menos apalavradas com o Gil Vicente, faltava só o acordo com o Varzim. O acordo foi que eu não recebia nada do Varzim do último ano mas saía como jogador livre.

Com as duas irmãs

Com as duas irmãs

D.R.

E vai para Barcelos. Sozinho?
Por onde andei, fui sempre com a minha mulher. Assinei quatro anos com o Gil Vicente.

Mas esteve lá só meia época. Porquê?
Fiz um excelente contrato. A cada ano o meu ordenado ia subindo. Nessa altura já estava a ficar muito desiludido com o que se estava a passar na minha carreira e com certas coisas do futebol. A partir do momento em que saí do Varzim aquilo que passei a ter em mente era fazer bons contratos e ganhar muito dinheiro para ter uma vida futura boa. E perdi a ética desportiva, em ter prazer em treinar e jogar, toda essa ética e esse prazer foi-se desvanecendo. Fui desvalorizando a parte desportiva, em prol da parte financeira. Começou a época no Gil Vicente. A mim correu bem, estava a jogar, mas o Alverca e o Gil Vicente foram os únicos plantéis onde apanhei pessoas com aquelas características de que eu não gostava. Fui para ali com estatuto e os jogadores que lá estavam há mais anos começaram a olhar de lado para mim, porque fui para conquistar o espaço deles, de que não queriam abrir mão. Tinha um treinador que me defendia e apostava em mim. Só que o Luís Campos é como eu já disse... Metia sempre a carne toda no assador para ganhar e acabou por ser vítima disso.

Sai e veio Ulisses Morais.
Sim, mas antes disso passou-se uma situação entre mim e o Luís Campos, que foi grave, a coisa mais grave que tive na minha carreira enquanto jogador e que é das coisas que mais me arrependo, à parte de ter saído do Benfica, que foi o maior erro da minha carreira. É o maior arrependimento que tenho de ter faltado ao respeito a um treinador.

No jogo contra o Marítimo

No jogo contra o Marítimo

D.R.

O que aconteceu?
Durante um treino, as coisas estavam a sair-me bem, e não sei se foi por ordem do Luís Campos, se foi por iniciativa dos meus colegas, a partir de certo momento no treino cada vez que tinha a bola comecei a levar pau a torto e a direito. Levo uma, calei-me, levo duas, calei-me, levo três, calei-me, à quarta reagi porque faziam falta e o Luís Campos não apitava. Aquilo começou a ficar-me atravessado na garganta. Comecei a refilar: "Então? Não é falta?" e ele "Está calado, segue, continua". Isto repetiu-se várias vezes até que às tantas rebentei "Foda-se, caralho, mas o que é esta merda, sou algum boneco de pancada ou quê?"; "Está mas é calado, continua a jogar que nos jogos também vai acontecer"; "Mas não quero saber de jogos nenhuns, mas que merda é esta...". Ficamos ali num bate boca até que, como aquilo veio numa sequência de maus resultados, saiu-me tudo: "Tá calado, caralho, tu com os maus resultados, vais com o caralho primeiro que eu do clube". O que fui dizer, com toda a gente a assistir. Ele: "Vai já para o banho". Perdi a razão toda e obviamente levei com um processo disciplinar. Eles tinham justa causa para rescindir comigo depois de tudo aquilo que disse. Nem eu tinha como provar que não tinha dito aquilo porque os meus colegas, adjuntos, todos assistiram.

No que resultou esse processo?
Fui tomar banho, vi a porcaria toda que tinha feito. Eu era assim, dizia e fazia as porcarias, mas depois quando me acalmava pensava: "O que é que eu fui fazer? Rui, tu estás fodido". Quando aconteciam essas coisas o meu empresário ligava-me, mas eu nunca atendia o telefone [risos]. Já sabia o que ia ouvir. Chegava a casa não contava nada à minha mulher, só que ele já tinha ligado para ela porque não conseguia falar comigo. Ela vinha logo direta a mim: "O que é que tu fizeste? O Paulo Barbosa está a ligar para mim porquê?" [risos]. Depois falei com o meu empresário. E ele disse-me: "Rui, vais ter de pedir desculpas pessoalmente e publicamente". E assim fiz. Eles com muita renitência e depois de muita insistência e só por reconhecerem o valor que eu tinha é que fui reintegrado na equipa.

Mas já sabia que não ia ficar no final da época?
Não. Se o Luís Campos tivesse continuado, ficava. Não comecei logo a jogar, mas passado algum tempo conquistei o meu lugar outra vez com o Luís Campos porque ele conhecia-me, sabia o valor que eu tinha.

Na equipa B do Benfica. Rui é o 3º atrás, a partir da direita

Na equipa B do Benfica. Rui é o 3º atrás, a partir da direita

D.R.

E com o Ulisses Morais?
Eu costumo dizer que o Ulisses Morais foi treinar o Gil Vicente por causa das, entre aspas, "ratas velhas", que viram os seus lugares ocupados. Jogadores mais velhos, o Casquilha, o Paulo Alves, o Luís Coentrão... Não tenho medo de dizer nomes. Fizeram muita força para que fosse para lá o Ulisses Morais. A partir daí, quando o treinador é posto no clube em função de alguns jogadores, claro que esses jogadores vão ter de jogar. Não sei o que contaram ou não ao Ulisses Morais, mas acabei por perder o meu espaço. Não tive problemas nenhuns com ele, simplesmente perdi o meu espaço. Chegou dezembro e aconteceu mais uma história bonita da minha carreira [risos].

Então? Conte.
Chegou a dezembro e deixei de fazer parte do plantel. Infelizmente o presidente do Gil Vicente faleceu e quem assumiu foi o Fiuza, que sempre foi um contestatário à minha reintegração. Nunca aceitou, só que na altura era diretor. Quando ele assumiu, depois aconteceram uns episódios.

Que episódios?
Eu sofro de uma doença há muitos anos e aconteceu uma coisa quando estávamos a regressar de um treino. E vou assumir publicamente pela primeira vez. Sofri durante muitos anos de ataques de pânico. Hoje já não, está controlado porque entretanto fui à procura de ajuda para o meu problema, mas sofria de ataques de pânico, que não sei se as pessoas sabem o que é, mas o coração fica a bater a 200 e uma pessoa pensa que vai morrer. Nós tínhamos ido treinar a Santa Maria, uma freguesia ao pé de Barcelos e no regresso eu comecei a ter um ataque de pânico no autocarro, pensava que ia morrer ali. Vou a correr aflito em direção ao motorista e digo-lhe: "Abra a porta, abra a porta", saí do autocarro e começo a correr para ir para o hospital. Porque quando tinha ataques de pânico era isso que fazia, queria fugir e ir direito a um hospital porque pensava que ia morrer. Paranoias, mas pronto, na altura é o que pensamos: "Não quero morrer, não quero morrer". E por acaso sei que há pouco tempo o Nandinho, que foi meu colega no Gil Vicente, gozou comigo acerca disso no programa do Bar da SportTv.

Gozou como?
Contou esse episódio e gozaram comigo. Não gostei mesmo nada de saber isso, não tenho problemas em assumir que tive esse problema, que está controlado. Mas uma coisa é gozar com situações engraçadas, outra coisa é gozar com doenças de pessoas, que afetam e bastante as pessoas, e que me afetou bastante durante a carreira. É uma coisa que se tiverem de saber sabem por mim, ninguém tem nada de andar a expor a minha vida pessoal e os meus problemas na praça pública. Se alguém tem de o fazer sou eu. O Nandinho foi meu colega no Benfica e eu também sei uma história da vida pessoal dele e também podia andar aí a contar, mas não o vou fazer. Seja de quem for, coisas pessoais, ainda para mais gozar, não se faz e não gostei mesmo nada.

No apartamento de Sacavém, quando jogava no Alverca

No apartamento de Sacavém, quando jogava no Alverca

D.R.

O que aconteceu depois desse ataque de pânico?
Depois o Ulisses Morais, não sei se lhe foram dizer que eu era uma pessoa emocionalmente desequilibrada, mas há um dia em que chego ao campo, vou pedir a roupa ao roupeiro e ele diz-me: "Rui, antes de te equipares, vai ao gabinete do mister que ele quer falar contigo". Fui, bati à porta, entrei e ele: "Não te preocupes que já falo contigo no balneário". Fui para o balneário, equipei-me normalmente. O Jorge Ribeiro estava lá comigo e há toda uma sequência de acontecimentos do meu caso e do Jorge. Há uma determinada altura em que o Jorge Ribeiro deixou de aparecer no Gil Vicente. Para os media, o Gil Vicente queria dar a imagem que o Jorge estava a faltar ao respeito ao clube, não ia treinar e que iam rescindir com ele, mas basicamente o que se passava é que o Jorge Ribeiro, mais o Jorge Mendes, o Gil Vicente e o Lokomotiv de Moscovo tinham todos chegado a um acordo para o Jorge ir para o Lokomotiv, só que para não parecer mal para o clube, puseram as "culpas" no Jorge e que iam rescindir com justa causa. Isto encadeia na conversa do Ulisses Morais que começa a falar no balneário: "Andam aqui meninos que andam a brincar com o clube, a faltar ao respeito, o Jorge Ribeiro não mete aqui os pés, ninguém sabe onde é que ele anda". E depois vira-se para mim: "E tu Rui Baião, o que é que estás aqui a fazer? Não sei porque é que te equipaste, porque para mim já não contas mais". Isto a falar agressivamente. Não sei o que é que lhe disseram, se disseram alguma coisa do género "fala com ele agressivamente que ele passa-se e vai para cima de ti".

O que fez?
Eu cometi muitos erros na minha vida pessoal e profissional, mas em muitas ocasiões parece que tive sempre alguma coisa que me disse o que havia de fazer. E naquele momento aquilo que senti que devia fazer era ignorar. Parecia que me estavam a dizer: "Rui mantém-te calmo, não respondas, isso é o que eles querem, que faças qualquer coisa para terem um motivo para rescindir contigo". Ele depois de dizer isso ficou tipo à espera. O balneário ficou calado, em silêncio. E noto mesmo que ele estava à espera que eu fizesse alguma coisa. Lixou-se. Não reagi. Simplesmente acenei com a cabeça e calmamente comecei a desequipar-me, tomei o meu banhinho e fui para casa. A partir daquele momento deram-me ordens para que não aparecesse mais nos treinos. A partir desse dia, eu e mais três jogadores dispensados tínhamos de nos apresentar no estádio antigo todos os dias às 8 da manhã para treinar.

Numa foto atual

Numa foto atual

Ana Baiao

E cumpriu?
Claro. Alguma vez ia dar azo a que tivessem alguma oportunidade para rescindir? Entretanto fui estando sempre em contacto com o Sindicato, que muito me ajudou, para saber se aquilo era legal. Transmitiram-me que era ilegal. Isto em 2005. A única situação em que um jogador podia não estar incluído no grupo de trabalho era quando estava lesionado e mesmo assim não era dispensado. Mesmo os jogadores que são dispensáveis, tinham de estar integrados no grupo de trabalho e não podiam ser colocados a treinar à parte. Não sei se hoje ainda é assim, mas foi isso que me foi transmitido pelo Sindicato. Eu ia avançar para tribunal, só que como eu já tinha falado com o meu empresário e tinha-lhe dito que queria ir para fora porque sentia que estava com uma imagem muito escaldada em Portugal, a três, quatro dias de fechar o mercado, apareceu a oportunidade de ir para a Grécia.

O Gil Vicente não se opôs, obviamente.
Claro que não. Chegamos a um acordo. O clube grego ia pagar o meu ordenado, portanto, na boa. E fui para a Grécia emprestado. Na altura a internet não era como hoje e eu não tinha informação praticamente nenhuma do clube para onde eu ia, o Kerkyra. Nem nunca tinha ouvido falar.