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A casa às costas

“Nasci com um dom, mas fui o meu pior inimigo. Pesei quase 100kg, tive problemas de coração, chorei muito. Hoje monto peças para carros”

Nesta 2ª parte Rui Baião confessa que Jorge Costa, o treinador que lhe propôs jogar como médio defensivo, foi o líder que mais o marcou, apesar de ter chegado junto dele com quase 100 kg, na sequência de uma depressão. Recuperado, ainda foi campeão no Olhanense, mas acaba por pendurar as botas mais cedo do que queria, para não colocar a vida em risco. De lá para cá já trabalhou num arquivo, foi repositor em supermercados e agora monta peças para automóveis e faz comentários de futebol

Alexandra Simões de Abreu

Ana Baiao

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Chegou ao Kerkyra, da Grécia, ainda na época 2004/05. Como foi o impacto?
Foi uma grande desilusão. Aquilo é na ilha de Corfu. Fui com a minha mulher e, vou ser sincero, quando aterrei no aeroporto, de um lado era só canavial com muito mau aspecto, e pensamos: "Vamos apanhar imediatamente o avião de volta" [risos]. Os voos para Corfu eram só ao domingo e eu fui numa sexta-feira. Estive de sexta à noite até domingo em Atenas, que é lindo e adoramos. Quando chego a Corfu e deparo-me com aquela imagem [risos].

Tinha gente do clube à vossa espera?
Tinha, mas o estádio era quase ao lado do aeroporto. Andamos dois minutos de carro estávamos num motel, nem era hotel, que era em frente ao estádio. Eu e a minha mulher nessa noite só ouvíamos os gemidos do quarto ao lado [risos]. O Kerkyra jogava em casa e fui ver o jogo deles, que se não me engano era contra o AEK. Quando acabou pensei para mim "Onde é que me vim meter?". Só pensava, vão ser cinco meses de penitência aqui. O mês de fevereiro esteve praticamente todo a chover. Que depressão, uma pessoa não saía de casa, só chovia. Depois o meu passe internacional demorou um mês para chegar, portanto durante um mês só estive a treinar. Sei que só fui convocado para três jogos.

Porque só esteve na Grécia pouco mais de dois meses?
O primeiro jogo foi em casa. Depois fomos ao Panathinaikos e no último que joguei, em casa, tínhamos obrigatoriamente de ganhar. Só quando cheguei lá é que vi que o clube estava em último ou penúltimo. Empatamos e fomos de vela. O presidente vai ao balneário e: "É só para dizer que a partir de hoje os jogadores que não tenham contrato com o Kerkyra não jogam mais".

Veio embora?
Não, continuei a treinar, mas não jogava. Mas só pensava "não vou ficar aqui dois meses e tal a treinar. Para isso vou chegar a acordo com eles, recebo menos mas vou para o meu país". Fui falar com o diretor, eles deixavam-me sair mas não queriam pagar nada. Andamos quase três semanas a negociar. Levaram-me ao limite. Acabei por abdicar de dinheiro para me pagarem as passagens aéreas para vir embora. Deixei lá quase o dinheiro todo que tinha a receber porque já não aguentava mais.

Pepa e Rui Baião

Pepa e Rui Baião

D.R.

E vai para o Portimonense.
Eu ainda tinha contrato com o Gil Vicente, mas entretanto como o Gil Vicente não me dizia nada, eu próprio tomei a iniciativa de telefonar ao diretor, que disse que ia falar com o treinador e depois dizia-me alguma coisa.

Ainda era o Ulisses Morais?
Sim. Disse que não contava comigo e que não era preciso apresentar-me. Mas para me precaver, exigi que mandassem um papel assinado com isso, para não terem provas contra mim, de que não me tinha apresentado no clube. Deram-me mais um período de férias e quando passou esse período entrei em contacto novamente. Continuaram a dizer que eu não iria fazer parte do plantel e eu disse-lhes que me ia apresentar no clube. Marcaram uma data para me apresentar, só que ia continuar como tinha acabado a meio da época, a treinar à parte, num sítio diferente, a horas diferentes. Apresentei-me no dia que eles estipularam. No meu contrato tinha uma cláusula em que ou me davam um apartamento ou tinham de pagar a mensalidade para onde eu fosse morar. Só que durante esse tempo em que estive lá, nem uma coisa, nem outra. Tive de ir para um hotel, às minhas custas. Estive sempre em contacto com o Sindicato dos Jogadores.

O Paulo Barbosa continuava a ser seu empresário?
Sim, continuava, só mais tarde é que deixei.

Não apareciam propostas?
Estava complicado porque a minha imagem estava muito beliscada. Era a de um jogador que tinha muito talento, muita qualidade mas era problemático. Os clubes começaram a ficar reticentes em contar comigo. Passado uma semana e tal, sempre em conformidade com aquilo que os advogados do Sindicato me diziam, mandei um fax para o clube, disse que o que estavam a fazer comigo era ilegal e que tinham obrigatoriamente de reintegrar-me no grupo de trabalho. Responderam que não. Outro fax, a exigir o mesmo, e eles recusaram novamente. A partir desse momento, entrei com o processo de rescisão de justa causa com o Gil Vicente, ainda tinha mais três anos de contrato. Entretanto, quando assinei esse processo de justa causa, já tinha as coisas mais ou menos alinhavadas com o Portimonense.

Depois da Grécia Rui foi jogar para o Portimonense

Depois da Grécia Rui foi jogar para o Portimonense

D.R.

Que surge através de quem?
Através do empresário. Na altura quem estava no Portimonense era o Diamantino, que me conhecia. Eu nunca tinha trabalhado com ele, mas conhecia-o porque ele vivia na Moita. Ele conhecia-me como jogador e mostrou interesse. Fiz um pré- acordo com o Portimonense: se eu ganhasse o processo contra o Gil Vicente, o contrato com o Portimonense entrava em vigor. Fiz ainda um bocado da pré-época, treinava normalmente com o grupo, só que não podia competir, estava à espera que saísse a decisão da Comissão Arbitral em relação ao meu processo. Saiu em fins de outubro ou início de novembro. Ganhei o processo e comecei logo a ser utilizado.

Como foi a sua relação com o Diamantino?
Gostei muito de trabalhar com ele. Tinha bons métodos e adorei estar em Portimão, uma cidade espetacular com vida o ano todo. A minha mulher foi lá ter mais tarde porque entretanto começou a trabalhar num shopping. E foi para lá também trabalhar num shopping.

Assinou quanto tempo com o Portimonense?
Dois anos. Nos primeiros cinco jogos marquei três ou quatro golos, só que como não apanhei aquela fase principal da pré-época, que tem mais carga física, comecei a ter muitas lesões. Tive muitas roturas e isso acabou por afetar o meu rendimento. Estivemos até ao fim a lutar pela manutenção e o treinador queria contar comigo sempre. Eu também queria ajudar a equipa e então fazia recuperações rápidas. Lesionava-me, passado duas, três semanas voltava a jogar, jogava uma, duas semanas e voltava a ter outra rotura. Chegou uma altura em que o preparador físico, o Fidalgo Antunes que esteve no Sporting, já não sabia o que havia de me fazer [risos] "Não sei o que é que se passa contigo!". Fui fazer vários exames de medição muscular para ver se havia algum problema, mas não deu nada de anormal.

De férias no Algarve

De férias no Algarve

D.R.

Como foi então a segunda época?
Quando acabou essa época, meti na cabeça que não queria passar pelo mesmo e praticamente não parei para férias. Tive uma semana para descansar, mas depois estive sempre a treinar e quando cheguei ao clube estava bem e fiz uma época muito boa.

Ainda com o Diamantino?
Sim, começamos com o Diamantino, estávamos a fazer uma época mediana, nada de extraordinário, mas entretanto entrou outra direção no clube, que vinha com outras ideias em relação à equipa técnica. Como os resultados não eram muito abonatórios, a direção resolveu mudar. O Diamantino saiu e entrou o Luís Martins da formação do Sporting.

E?
Não tenho nada a dizer. Correu tudo de maneira normal, mas no fim da época, pessoalmente as coisas começaram a não correr bem, até que para o fim deixei de jogar. Há fases em que não estamos bem, não sei o que é que se passou comigo. Entretanto apareceu uma oportunidade, através do meu empresário, de ir treinar à Escócia e fui treinar ao Hearts, no final da época.

Que tal essa experiência?
Espetacular, adorei aquilo.

Esteve lá quanto tempo?
Uma semana e vou ser sincero, fui para lá como um jogador desconhecido, mas naquela semana trataram-me como nunca me tinham tratado. Fizeram-me exames a tudo e mais alguma coisa. Exames físicos, testes médicos, exames de resistência, exames de velocidade, exames de impulsão, impulsão com balanço e sem balanço de várias posições, testes de velocidade, de cinco, dez, vinte e cinquenta metros, senti-me jogador ali, pela forma como fui tratado.

Com o filho mais velho recém nascido

Com o filho mais velho recém nascido

D.R.

Estava tudo bem?
Eu estava sem competir e não estava com os índices físicos que deveria ter. Eles são muito metódicos, é por sectores, a defesa tinha de ter uma capacidade de resistência “X”, os médios normalmente são aqueles que têm de ter maior capacidade de resistência, porque tem de atacar e defender. Eu estava um bocado abaixo daquilo que esperavam, mas expliquei-lhes que já não competia há algum tempo e que era normal não estar com os índices físicos que esperavam.

Não quiseram ficar consigo por causa disso?
Calma, isto tem etapas [risos]. Depois fui falar com o médico e com os fisioterapeutas que me perguntaram como é que tinha sido a minha carreira em termos de lesões. Contei-lhes tudo. O fisioterapeuta esteve a examinar o meu corpo, a minha postura e chegaram à conclusão de que eu tinha muitas roturas porque quando era miúdo parti a clavícula duas vezes.

Como?
A primeira vez estava no 5º ano, estávamos a brincar à apanhada, o chão era de gravilha e a fugir de um colega, virei-me de repente, os meus pés escorregam, ele faz o mesmo movimento atrás de mim, eu caio de lado e ele cai em cima de mim. Parti a clavícula. A segunda vez foi um ano depois. Tinha ido andar de bicicleta com o meu melhor amigo, na altura usavam-se cabelos compridos e nós tínhamos esse corte; parámos numa bica para beber água. Quando acabei de beber, molhei o cabelo todo e comecei a sacudir a cabeça de olhos fechados, com os pés em cima dos pedais e de repente quando dou por mim estou a bater com o ombro no chão [risos]. Parti a clavícula. Estava a uns cinco quilómetros de casa, tive de ir o caminho todo só com uma mão a guiar a bicicleta.

Foi sempre a mesma clavícula?
Foi. Isto para dizer que as lesões musculares que tinha, foram em função disso. Porque ao partir a clavícula, os músculos das costas estavam muito esticados, isso afetava a coxa e fazia com que eu tivesse roturas com facilidade. Foi a causa que eles encontraram para as minhas constantes roturas. Depois fizeram-me ressonância magnética a tudo. Aos tornozelos, aos joelhos, às ancas, até deixei-me dormir dentro da máquina [risos], tal o tempo que não demorei a fazer o exame.

Na semana em que foi entrevistado

Na semana em que foi entrevistado

Ana Baiao

Mas ainda não explicou porque não ficou na Escócia.
Durante os treinos as coisas correram muito bem. Fomos treinar também à academia deles. Adorei o ambiente da cidade, a cultura, foi mesmo espetacular. Gostaram tanto de mim que me convidaram para fazer a pré-época com eles. Estava encantado da vida, vou fazer a pré-época com eles, que se não me engano foi na Alemanha. Vou com o Paulo Madeira que era colaborador do Paulo Barbosa, ele é que me levou à Alemanha. As coisas aí já não correram tão bem.

Porquê?
Acontece. Os treinos eram muito complicados, eles eram treinados por um russo qualquer, que rebentava connosco. Começaram a aparecer-me dores, tinha algumas dificuldades físicas durante os treinos... Entretanto o que foi treinador durante a pré-época passou para outra posição e veio outro treinador. Aconteceram várias coisas que não me beneficiaram e para meu desgosto, acabei por não ficar. Mas adorei essa experiência que tive.

Regressa e depois?
Entrei em contato com o Paulo Barbosa para arranjar uma solução. Como nunca mais me dizia nada tomei a iniciativa de começar a ligar para treinadores que conhecia. A resposta politicamente correta que davam era que já tinham o plantel fechado. Para alguns se calhar era essa a razão, mas acredito que para outros, era não querer contar com um jogador problemático. Entendo o lado deles, mas para mim custou-me. Com o passar do tempo as portas foram-se fechando e acabei por ficar sem competir um ano. Foi isso que aconteceu.

O que fez durante esse período?
Fiquei em casa. Tomei a decisão de voltar a estudar, à noite. Mas acabei por não terminar o ano letivo. Desleixei-me, perdi o interesse também. Estava desmotivado, entrei um bocadinho em depressão.

Rui Baião esteve uma semana no Hearts da Escócia

Rui Baião esteve uma semana no Hearts da Escócia

D.R.

Procurou ajuda?
Não. Estava triste, mas fui deixando passar. Em dezembro liguei para o Diamantino que estava no Olhanense. Ele disse-me: "Gostava que viesses mas não depende só de mim. Não te vou prometer nada, vou falar com a direção".

E?
Fui ganhando peso, treinava mas fui ganhando peso. Ele falou com a direção e não houve possibilidade de ir para lá durante o mercado de inverno. As pessoas do Olhanense também estavam muito chateadas comigo.

Porquê?
Já lhe conto a seguir. Ele disse que não havia oportunidade naquele momento, mas que em princípio, se tudo corresse normalmente no início da época seguinte seria diferente. Só que, quando eu fui para o Portimonense, não assinei logo os dois anos. Assinei uma época e depois uma segunda época. E no fim da primeira época do Portimonense estive para ir para o Olhanense. As pessoas do Olhanense entraram em contacto, fui ter com eles a Olhão, mas quando lá cheguei, não gostei da primeira imagem que tive. Em Portimão há movimento dia e noite, toda a gente consegue fazer uma vida boa. Em Olhão é uma coisa mais recatada, têm outro tipo de mentalidade, as pessoas são mais bairristas e aquilo não me cativou. A realidade é essa.

Não aceitou a proposta deles?
Sentei-me com as pessoas à mesma, só que já tinha a minha decisão tomada, não ficar. Eles davam-me "x" e eu exigia mais. Fizeram um esforço e chegaram ao valor que eu pretendia. Depois quis que me dessem um apartamento, sempre a arranjar desculpas para não ficar lá, mas eles iam sempre ao encontro daquilo que eu ia pedindo. Tudo aquilo que exigia, eles davam-me.

Rui Bi (à direita) com um colega escocês às costas, quando esteve à experiência no Hearts

Rui Bi (à direita) com um colega escocês às costas, quando esteve à experiência no Hearts

D.R.

Mesmo assim assinou pelo Portimonense outra vez.
Às tantas, eles dizem: "Então vá, vamos assinar". Disse-lhes que não queria ficar lá. Ficaram muito desiludidos e chateados porque tudo aquilo que exigi era um esforço grande para eles e no fim de contas fugi com o rabo à seringa. Ficaram chateados mais pela minha atitude porque recusei o esforço que eles tinham feito por mim. Isso para eles foi uma falta de respeito. Na altura negociei com o senhor Isidoro Sousa que ainda não era o presidente, era diretor. Desta segunda vez ele já era presidente, e só uma pessoa com grande coração é que conseguiu esquecer aquilo que eu fiz ao Olhanense.

Está arrependido?
Arrependo-me da atitude que tive, sim. Não da decisão de não ter ido para lá naquela altura, isso é uma coisa que qualquer um pode fazer. Arrependo-me é da atitude que tomei perante as pessoas.

Mas aceitaram-no de volta.
Sim. As coisas correm bem ao Diamantino, eles conseguem a manutenção e eu volto a ligar-lhe para saber se posso ir para o Olhanense. E o Diamantino diz-me: "Ó Rui, eu vou sair do Olhanense. Mas independentemente daquilo que se passou entre vocês, deixei lá as coisas alinhavadas para poderes regressar. Agora isso já não depende de mim, fiz aquilo que pude. Telefona ao presidente para ver se dá para ires para lá". Ele ia regressar ao Benfica, não sei se para a equipa B ou para os juniores.

Telefonou ao presidente?
Não telefonei logo, porque tinha vergonha. Comecei a ligar novamente para todas as pessoas para quem eu já tinha ligado e para outras, no final dessa época. Para ver se podiam contar comigo. A resposta foi sempre a mesma. Que já tinham o plantel definido. A única hipótese era o Olhanense [risos]. Eu já estava tão farto de ouvir recusas, de ouvir desculpas, virei-me para a minha mulher e disse: "O não é garantido por isso vou ligar para o presidente do Olhanense. É o último para quem vou ligar. Se me disser que não, não ligo a mais ninguém e esqueço a minha carreira, não quero saber mais de futebol". Liguei para o Isidoro de Sousa. Estava com medo, estava nervoso, como é que ia ser a reação dele depois de tudo o que se tinha passado?

Qual foi a reação?
Atendeu-me de uma forma que eu não estava à espera, pensava que ia receber-me de uma forma fechada, chateado, mas não, a reação dele até foi de contentamento. "Presidente, sei que está a par da minha situação, o Diamantino já falou consigo"; "Pois, eu sei, mas aconteceu esta situação do Diamantino ter ido para o Benfica e estamos em negociação com um treinador. Mas Rui, vou ser sincero, enquanto direção gostávamos que viesses, mas isso vai depender do que o novo treinador quiser para o plantel”. Disse-me para ligar três ou quatro dias depois.

Com os dois filhos

Com os dois filhos

D.R.

E quando ligou de volta?
“Rui, estivemos a falar, com o treinador já está tudo acertado, vou já dizer-te quem é o treinador mas não digas nada a ninguém porque ainda não é público. Vai ser o Jorge Costa" [risos]

O que pensou nessa altura?
O que é que eu pensei? Desculpe lá a expressão, mas é que já tinha ido com o caralho [risos]. Porque o Jorge Costa dentro de campo era mais ou menos como eu, uma pessoa muito efusiva, falava muito e mandava muita gente para muitos sítios. Nos jogos contra o FC Porto tive alguns bate bocas com ele [risos]. Pensei, ele vai lembrar-se das merdas todas que eu fiz e vai dizer que não me quer. Mas o presidente continuou: "Apresentámos o teu nome ao treinador e ele concordou que viesses para cá". Quando ele me disse isso foi um alívio, como se fosse uma salvação [risos]. "Agora temos de falar de números, do contrato".

Eram muito abaixo do que esperava?
Aquilo que lhe disse era tão verdadeiro e tão simples quanto isto: “Presidente, eu não quero saber de números, não quero saber de valores de contrato, eu apenas quero voltar a jogar futebol. Quando chegar aí, pessoalmente falamos disso, mas isso não é prioridade para mim neste momento. A prioridade é saber que vou fazer novamente parte de um plantel, de um grupo de trabalho e poder mostrar o meu valor". Fiquei todo feliz, combinámos o dia da apresentação. Quando cheguei, as pessoas não me reconheciam. Quer dizer, reconhecer, reconheciam só que não estavam a acreditar que era eu.

Porquê?
Porque o meu peso enquanto jogador andava à volta dos 82, 83 quilos. E quando cheguei a Olhão estava com quase 100kg [risos]. Tinha dois queixos, duas barrigas, um rabo que pareciam três. Desleixei-me, deixei mesmo de treinar. Até dezembro ainda corria, mas a partir de janeiro desleixei-me completamente, estava mesmo desmotivado.

Rui Baiao num jogo pelo Olhanense, contra o Benfica.

Rui Baiao num jogo pelo Olhanense, contra o Benfica.

D.R.

O Jorge Costa quando o viu o que disse?
Antes de assinar o contrato, tive de assinar um papel em como eles podiam ao fim de 30 dias, caso as coisas não estivessem de acordo com o que queriam, rescindir comigo. Aceitei na boa.

Uma espécie de período à experiência.
Digamos que sim. Tinha o contrato assinado, mas tinha ali 30 dias experimentais. Basicamente o que aconteceu foi que durante dois meses eu fazia treino integrado no grupo, mas depois fazia muito trabalho extra para perder peso. Muita corrida, muito treino aeróbico.

Foi muito difícil esse período?
Sim, passei muita fome.

E o Jorge Costa?
Tenho muito respeito pelos treinadores que apanhei durante a carreira, mas há sempre aquele que nos marca e o Jorge Costa, já o disse publicamente, para mim, foi o melhor treinador que tive. Porque defendia os jogadores, era de uma geração mais moderna, apanhou aquela fase do Mourinho, sabia como é que havia de tirar o melhor dos jogadores e ao mesmo tempo também retribuía isso com outras coisas. Nunca mais me esqueço que no dia da apresentação, a primeira coisa que estava escrita no quadro, eram duas palavras: liberdade e responsabilidade. Com ele tínhamos a liberdade toda para fazer o que quiséssemos, dentro e fora de campo, só que era exigida também responsabilidade. E um jogador quando sabe que tem alguém ali ao lado, que tem essas atitudes, vai para dentro de campo até à morte por essa pessoa.

Equipa do Olhanense num jogo de celebração da subida à I Liga. Rui é o 3º atrás, a partir da esquerda

Equipa do Olhanense num jogo de celebração da subida à I Liga. Rui é o 3º atrás, a partir da esquerda

CARLOS VIDIGAL JR.

Teve duas boas épocas com ele?
Sim. A questão do peso foi complicada de início porque atrasou ter o meu espaço na equipa. Também foi uma coisa muito pessoal para mim, porque ao longo da minha carreira, fui sempre o meu pior inimigo porque metia objetivos sempre muito altos. Nesse ano fui mais responsável. Foi a partir do Olhanense que a minha vida desportiva e pessoal deu uma grande volta. Aquele ano em que estive sem jogar, fez-me pensar muito. E uma das coisas que percebi é que tinha de ter objetivos exequíveis a longo prazo. Não podia querer logo atingir o objetivo maior. Propus a mim mesmo objetivos curtos. Se fosse antigamente o meu pensamento era: eu sou o Rui Baião sei que tenho valor para jogar nesta equipa, o que quero é entrar já de caras na equipa. Mas dessa vez pensei, cheguei com excesso de peso, o meu primeiro objetivo é chegar ao meu peso ideal.

Foi por etapas.
Exatamente, fui seguindo etapas e objetivos realistas. Cheguei ao meu peso ideal, 82, 83 quilos. Segundo objetivo, começar a treinar em condições normais para entrar nas contas do treinador e ser uma opção real. Estar em condições físicas e mentais para o treinador começar a olhar para mim, como uma opção. Cheguei a esse objetivo. Objetivo seguinte, conquistar o meu espaço na convocatória. A seguir, entrar no jogo. Depois só faltava o objetivo de conquistar o meu espaço na equipa titular.

Acabou por conseguir?
Fui conquistando o meu espaço. Houve uma altura em que não tínhamos tão bons resultados fora e o Jorge Costa viu que eu já estava numa fase boa e veio falar comigo: “Rui, vou ser sincero contigo, tu estás bem, mas na tua carreira sempre foste médio ofensivo e neste momento os maiores problemas na nossa equipa não estão no capítulo ofensivo. Com a tua estatura física, com a leitura do jogo que tu tens, a qualidade técnica e a formação que tiveste, acho que tu dás um excelente médio defensivo e a nossa equipa está a precisar de alguém como tu ali no meio campo. Quero saber se estás interessado, já que não é a posição que tiveste ao longo da tua carreira".

O que respondeu?
Nem sequer pensei, disse logo que sim, o que eu queria era jogar, fosse a médio defensivo, defesa esquerdo, avançado, só a guarda-redes é que não [risos]. Tive a sorte de, felizmente, a partir daí, a equipa começou a ter bons resultados, tanto em casa, como fora. Começamos a andar nas duas primeiras posições até que chegamos ao 1º lugar e já não saímos de lá. Fomos campeões. Não era o objetivo que tínhamos porque o que tinha ficado definido, era que o 1º ano seria de construção de grupo e de equipa, e na segunda época sim, iríamos lutar pela subida. Mas fomos uns justos campeões.

A festejar a conquista do título da II liga pelo Olhanense

A festejar a conquista do título da II liga pelo Olhanense

D.R.

A época seguinte foi tranquila na I liga?
Primeiro foi uma festa de todo o tamanho quando fomos campeões, em Gondomar. Parávamos em quase todas as estações de serviço para festejar com bebidas [risos]. E nunca mais me esqueço da receção em Olhão. Eram altas horas da manhã e a cidade estava completamente cheia à nossa espera. Foi uma receção apoteótica. Nessa semana ainda íamos jogar contra o Gil Vicente, acho que só treinamos sexta-feira [risos]; de resto foi a semana toda em almoços e jantares nos restaurantes que nos ofereciam para felicitar termos sido campeões. Na segunda época, sabíamos que ia ser difícil, porque era um clube que não estava há trinta e tal anos na I liga. O objetivo era a manutenção, mas sem andar a sofrer até ao fim. As coisas acabaram por acontecer nesse sentido, conseguimos a manutenção na I liga.

Não fica no Olhanense e vai para o Fátima porquê? O que aconteceu?
Depois o Jorge Costa decide que não quer continuar no Olhanense, o trabalho dele estava feito, queria partir para outros objetivos na carreira dele; assim como muitos jogadores que lá estavam e eu acabava o meu contrato com o Olhanense. A direção queria que eu continuasse, mas estava sempre dependente do novo treinador que viesse.

Quem foi?
Daúto Faquirá.

Não quis ficar consigo?
Sim, deu a entender que não queria ficar comigo. Estava no direito dele. Cada treinador tem as suas ideias, tem os seus jogadores, há que respeitar isso. Obviamente não gostei, mas respeitei. Comecei a ligar para os clubes, deixei o Paulo Barbosa. Pensei: se eu é que ando a ligar para os clubes, se eu é que ando a fazer pela minha vida, não preciso de empresário para nada.

No jogo de despedida, no Pinhalnovense

No jogo de despedida, no Pinhalnovense

D.R.

Vai para o Fátima através do Diamantino?
Sim, foi através dele. Mas antes disso, houve uma pessoa que me dececionou muito.

Quem?
Na altura, o Manuel Fernandes estava no Vitória de Setúbal e eu liguei para ele. O Vitória estava na I liga, era perto de casa, um clube histórico de que eu gostava. Falámos, eu disse-lhe que tinha acabado contrato com o Olhanense, mas que tinha feito duas boas épocas em Olhão e queria dar continuidade à minha carreira na I liga. Ele mostrou abertura para eu ir para lá, mas que ainda havia coisas por definir porque havia muitos problemas diretivos, mas que da parte dele contava comigo. Fiquei com isso na cabeça, que era uma questão de tempo. Passado pouco tempo ligo novamente para saber como é estava a situação e ele diz que já não contava comigo. Fiquei muito desiludido com ele porque num dia diz uma coisa e no noutro já diz completamente o contrário, que eu era um jogador que não lhe interessava. Não gostei, sinceramente. Mais valia ter sido sincero e ter dito as verdadeiras causas de eu não não ir para lá, mas cada um vive com a sua consciência. Entretanto o Diamantino foi treinar o Fátima, falei com ele, chegámos a acordo e fui. Mas vou ser sincero, fui para lá desmotivado.

Porquê?
Ia fazer 30 anos, tinha feito duas boas épocas e sentia que tinha qualidade para estar num patamar melhor.

A turma de Rui Baião no curso de treinador nível II. Rui é o 1º em pé à esquerda

A turma de Rui Baião no curso de treinador nível II. Rui é o 1º em pé à esquerda

D.R.

Como correu a época no Fátima?
Infelizmente, não correram bem. Nunca fui mau profissional, nunca faltei ao respeito a ninguém, simplesmente, não estava com motivação e isso é meio caminho andado para que desportivamente as coisas não corram bem. E no Fátima quiseram fazer uso da imagem que eu tinha antigamente para tentar encontrar motivos para usar contra mim. Isso eu nunca iria admitir, porque a partir do momento em que fui para o Olhanense disse a mim próprio que nunca mais iam ter motivos para me atirar à cara. A partir do momento em que as pessoas do Fátima, que eram umas pessoas completamente amadoras, quiseram fazer uso disso contra mim...

De que forma é que eles quiseram fazer uso disso contra si?
Aquilo era um clube profissional dirigido por pessoas amadoras. Só para lhe dar um exemplo: eu fazia parte de um grupo de jogadores que tinha de ir a Alverca apanhar uma carrinha de nove lugares, que todos os dias ia e vinha para Fátima. Eu vou da minha casa no Barreiro para Alverca, que são uns trinta e tal quilómetros, depois a carrinha tinha de fazer mais cento e tal quilómetros para Fátima. Chegava lá, treinava, acabava o treino e tinha de fazer aquele caminho todo de volta. A nível desportivo e de rendimento isso vai ter repercussões obviamente. Os resultados não foram bons, o Diamantino acabou por sair. Entretanto, em dezembro ou janeiro, os diretores do Fátima vêm falar comigo em tom ameaçador. Eu não estava a ter o rendimento que eles pretendiam e dizem-me que ou eu começava a ter o rendimento que eles queriam ou então rescindiam com justa causa, porque era o jogador mais bem pago do plantel.

E era?
É assim, houve uma altura em que eu exigi um apartamento em Fátima, não tinha vida para andar todos os dias a fazer 300 quilómetros, e render o que eles queriam que eu rendesse dentro de campo. Só que eu depois não ficava em Fátima todos os dias, mas se calhar dois, três dias por semana. Foi por causa disso que começaram a ficar, sei lá, com raiva de mim, não sei, eles lá tinham as razões deles e começaram a querer arranjar coisinhas, uma coisinha aqui, outra ali, para tentar usar contra mim e foi quando essa reunião aconteceu. Que eu era o jogador mais bem pago do plantel, que tinha um apartamento em Fátima quando os outros não tinham, que o meu rendimento dentro de campo não ia ao encontro do que eu ganhava e que se isso não mudasse, que eles iam rescindir com justa causa comigo.

Com a mulher e os filhos

Com a mulher e os filhos

D.R.

Como reagiu?
Só lhes dei uma reposta: "Querem rescindir com justa causa comigo? Não podem, não têm motivos porque não lhes dei motivos nenhuns para vocês rescindirem comigo. Se querem que eu me vá embora, só têm uma coisa a fazer, é pagarem o que me têm de pagar até ao final do contrato e eu vou já embora". Entretanto eles continuaram a tentar arranjar algum motivo para rescindir, até que houve uma situação.

Que foi?
Íamos jogar aos Açores ou à Madeira, já não me recordo bem, e o que estava previsto era que quem fosse convocado ficava ali e tinha de estar logo preparado para viajar. Houve o treino, treinamos normalmente, chegou a convocatória e eu não fui convocado. Aqueles que não eram convocados iam voltar para Lisboa na carrinha e eu que tinha ido na carrinha nesse dia, felizmente. Porque se fosse sozinho aí é que tinha sido um bico de obra. Quando estamos a vir na carrinha, telefonam para mim, a dizer que um colega meu não se estava a sentir bem, que tinha saído da convocatória e eu tinha entrado. E eu "Tudo bem", só que, depois há coisas que são coincidências do caraças. Eu nesse dia tinha-me esquecido da carteira em casa e não podia viajar sem documento. Transmiti isso. Tive a felicidade de ir na carrinha com colegas meus que ouviram a conversa que eu estava a ter. Entretanto o que eles dizem: "Se não tens carteira, não vale a pena"; "Tudo bem, OK". Na semana seguinte quando vou apresentar-me para treinar, tinha um processo da direção contra mim. Eles afirmavam que eu me tinha recusado a viajar com a equipa.

O que aconteceu depois?
Obviamente que o processo foi para tribunal e aí tenho de agradecer aos meus colegas porque foram homens com H grande, porque se fossem outros se calhar para não comprometer o seu lugar na equipa ou coisa assim, poderiam ter testemunhado a favor do clube. Mas não, felizmente, portaram-se muito bem. Se fosse um jogador ranhoso de quem não gostavam, se calhar testemunhavam contra mim, mas não, eles viram que eu tinha razão e ganhei o processo. E tiveram de me pagar tudo o que deviam.

A equipa do Sindicato dos Jogadores, de que Rui (1º em pé à direita) fez parte

A equipa do Sindicato dos Jogadores, de que Rui (1º em pé à direita) fez parte

D.R.

Segue-se o Pinhalnovense?
Sim, mas numa fase em que o futebol para mim já não era coisa para levar tão a sério, era uma coisa de que eu queria tirar prazer, algo que não tive durante muitos anos na minha carreira. Depois do Fátima, fiquei sem clube e fui treinar para o Sindicato dos Jogadores, em vez de andar a correr sozinho. Há um colega que está a treinar lá também e que vai para o Pinhalnovense. Como era um bocado dispendioso para mim estar a ir e vir quase todos os dias para Lisboa, porque treinávamos no Jamor, liguei para ele e pedi-lhe para falar com o treinador do Pinhalnovense para ver se eu poder treinar lá porque estava mais perto de casa. Ele falou, ligou-me, no dia a seguir integrei os trabalhos do clube, mas nunca foi com intenção de lá jogar.

Mas acabou por ficar lá três épocas.
Sim. O treinador que estava à frente do Pinhalnovense na altura era o Francisco Barão, uma excelente pessoa que eu não conhecia, só de nome. Comecei a treinar, íamos conversando, criamos uma relação engraçada e passado um tempo começou a chatear-me todos os dias: "Rui, aqui é que estavas bem". Estive dois anos e meio no Pinhal Novo e foram dos anos em que tive mais prazer em jogar, porque não me impus qualquer pressão, estava imune às pressões exteriores, tudo o que eu queria era ter prazer e ser feliz a jogar.

Já tinha pensado no que queria fazer depois de pendurar as chuteiras?
Quando estive no Fátima exigi um apartamento porque entretanto quis tirar o curso de treinador, e o único que estava disponível nessa altura era na Associação de Futebol de Leiria, que era perto de Fátima. Pedi o apartamento mais por causa disso. Durante esse tempo fiz o nível I, que na altura durava quatro, cinco meses. Depois tirei o nivel II já mais tarde na Associação de Futebol de Setúbal, quando estava no Pinhalnovense.

Quando foi pai pela primeira vez?
O meu primeiro filho, Santiago, nasceu quando eu estava no Olhanense, em 2010. O segundo, o Salvador, costumo dizer que é um milagre de Fátima porque ele foi feito quando eu estava em Fátima [risos]. Eles têm diferença de 16 meses. Assisti ao parto dos dois e adorei.

Algum deles joga futebol?
O mais novo estava a jogar no Moitense, mas com a pandemia, não está a jogar. O mais velho só quer computadores e tecnologias.

Depois de deixar de jogar Rui trabalhou num arquivo, onde às vezes tinha de andar de lanterna

Depois de deixar de jogar Rui trabalhou num arquivo, onde às vezes tinha de andar de lanterna

D.R.

Quando resolveu pendurar mesmo as botas?
Eu não resolvi, fui obrigado.

Como assim?
No Olhanense, quando fomos jogar ao Santa Clara, senti-me mal do coração. Na 2ª parte comecei a sentir umas batidas muito estranhas e irregulares, depois de uma jogada. Assustei-me, pensava que ia morrer em campo. Fui a correr direito ao banco de suplentes e saí logo do jogo. Estive uma semana parado e fui fazer exames complementares. Viram umas arritmias, mas não era nada de anormal. Aquilo passou, voltei a competir normalmente. Anos mais tarde, no Pinhalnovense, fomos jogar a Montemor e voltou a passar-se a mesma coisa, mas um bocadinho mais grave. Aí já foi no fim do jogo. Do nada começo outra vez a sentir as tais batidas mas pior do que da outra vez e a faltar-me o ar. Uma pessoa pensa logo: "Vou morrer aqui". Depois vem logo à cabeça os jogadores que morreram. Fui ao banco de suplentes e disse ao treinador que tinha de sair do jogo porque estava a sentir-me mal e ia morrer ali. Ele olha para mim, começa-se a rir. "Não brinques comigo, vai lá para dentro de campo que o jogo está quase a acabar". Mas quando olhou para minha cara, viu que eu estava muito sério. Saí do campo, fui para o balneário, deitei-me numa maca, continuei a sentir aquelas batidas. Foram lá os bombeiros e tudo.

Afinal o que tinha?
Fui fazer exames novamente e acusou uns problemas e umas arritmias outra vez mas um bocadinho mais gravosas. Eu estava com 33 anos e o especialista de cardiologista disse-me: "Estas arritmias não te impedem de jogar futebol, mas já não pode ser futebol de alta competição. Podes ter uma vida normal, jogar futebol de recriação e convém que continues a fazer exercício físico, mas tudo o que envolve desporto de alta competição, esquece. Não é proibitivo, mas não é aconselhável". Avisou-me que dali para a frente era provável que aquilo voltasse a acontecer com mais frequência. Não valia a pena estar a pôr a minha vida em risco, até porque não estava no início da profissão, estava em final de carreira.

Foi difícil tomar a decisão de deixar o futebol?
Foi. Porque não era a maneira como eu queria acabar a carreira. Já tinha dito a mim mesmo que ia acabar a carreira com 35 anos e nos meus próprios termos. Não da forma como me foi imposto e a maneira como tudo aconteceu, de um dia para o outro. Ainda por cima numa altura em que ainda tinha muito prazer naquilo que estava a fazer, é sempre muito mais doloroso.

Rui com o pai, filhos e sobrinha

Rui com o pai, filhos e sobrinha

D.R.

Quando colocou o ponto final, já tinha definido o futuro?
Nos meus dois últimos anos no Pinhalnovense eu acumulava a função de jogador com a de treinador de formação. Treinei um ano os iniciados e no 2.º ano treinei os juvenis. Aquilo que pensava do meu futuro era isso porque já estava nessas funções.

Isso não veio a acontecer porquê?
Tive um desgosto enorme com essa situação e chorei muitos dias. Quando fui comunicar aos meus colegas, estava a direção e os treinadores, grande parte deles estava a chorar baba e ranho. Pelo meu passado e por tudo o que eu era dentro daquele balneário, as pessoas consideravam-me e havia muita gente nova que olhava para mim como um exemplo, como um pai, porque eu já fazia muitas vezes a função de treinador dentro de campo. Fui-me um bocado abaixo quando deixei de jogar. Já estava a tirar o nível II do curso de treinador. Só que comecei a desligar-me um pouco do futebol.

Mas não continuou na formação porquê?
A questão da formação é que na minha altura se eras bom ficavas, se não eras, não ficavas, ponto. Hoje o futebol de formação é todo pago e tinha de estar constantemente a levar com os pais a perguntar porque é que os filhos não eram convocados, porque é que não jogavam, isto e aquilo. Eu percebo a questão dos pais porque para muitos é um sacrifício enorme pagar uma mensalidade e equipamentos, só que muitos deles querem ver nos filhos a salvação da vida deles; e se calhar grande parte dos miúdos não têm a qualidade e esperteza que havia na minha altura, também fruto se calhar de não praticarem futebol na rua. Muitos deles não têm qualidade para jogar futebol, mas os pais querem obrigar à força os filhos a jogar ou a ser alguém na vida para que um dia venham a ganhar muito, porque vêm os Ronaldo's, e Messi's e Neymar's a ganhar aqueles balúrdios.

Rui Baião (atrás de branco) chegou a praticar Kenpo com o filho mais velho

Rui Baião (atrás de branco) chegou a praticar Kenpo com o filho mais velho

D.R.

Fartou-se?
Sim, tudo isso foi-se acumulando até que chegou uma altura em que me desliguei completamente do futebol. Não via futebol, não queria ouvir o que quer que fosse relacionado com o futebol.

O que foi fazer então?
Através de uma amiga da minha mulher, apareceu a oportunidade de ir trabalhar para um arquivo, em Palmela, através da Esegur. Aquilo é um depósito de documentos de vários clientes e quando estes precisam de ter acesso aos mesmos, enviam um mail e nós vamos buscar para ser enviado.

Esteve aí quanto tempo?
Estive lá dois ou três meses, era trabalho temporário, depois através da mesma empresa fui para a Tranquilidade, em Lisboa, nas férias de outros colaboradores, trabalhar na parte do correio. Depois regressei ao arquivo onde estive quase dois anos. A seguir fui trabalhar como repositor no Continente e no E. Leclerc. Ainda estive quase três meses no fundo de desemprego. E a seguir fui para o Parque Industrial Autoeuropa, em 2017. Onde estou a trabalhar até hoje.

O que faz em concreto?
Estou na Benteler onde monto peças que vão ser utilizadas nos carros produzidos na Autoeuropa. Trabalho por turnos, fisicamente é muito cansativo e desgastante. As minhas costas e os meus pulsos estão feitos num oito. Tenho de trabalhar com ligaduras nos pulsos.

O futebol ficou completamente de parte?
Há um ano tive a felicidade de A Bola TV ter feito o programa "Lembras-te de mim", em que fez uma reportagem comigo. Teve boa repercussão e as pessoas começaram a entrar em contacto comigo. Tinham gostado muito da honestidade da entrevista e tinham conhecido um lado em mim que não tinham visto antes porque ficaram sempre com aquela imagem de um jogador que poderia ter tido um grande futuro, com muita qualidade, mas problemático, irreverente. Na reportagem disse que o bichinho do futebol pode adormecer mas nunca morre. E a partir daí o bichinho acordou outra vez. Recomecei a acompanhar o futebol e de vez em quando vou à Bola TV comentar. É uma coisa que gosto de fazer e que gostava que continuasse porque acho que tenho qualificações e experiência para o fazer. Além de comentador, se houvesse oportunidade de voltar ao futebol diretamente, gostava obviamente.

Atualmente Rui Baião monta peças para automóveis

Atualmente Rui Baião monta peças para automóveis

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Gil Vicente.

Investiu em alguma coisa?
Infelizmente foi tostão ganho, tostão gasto.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Talvez a maior foi ter comprado um BMW descapotável.

É um homem de fé?
Sou. Já fui mais praticante. Quando era jogador, orava muito. Mas devo dizer que, embora não seja uma religião, sou praticante de Reiki. É um à parte, não é uma religião, mas acho que é uma coisa que muita gente devia aderir, quer acreditem quer não mas é algo que dá muito autoconhecimento e auto-ajuda.

Superstições?
Benzia-me sempre antes de entrar em campo. E hoje em dia quando vou trabalhar benzo-me sempre antes de sair de casa e quando chego a casa.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Acima de tudo gostava de ter jogado na liga inglesa. Acho que é a melhor do mundo.

Tem ou teve alguma alcunha?
Fora do futebol a minha alcunha de infância era o alentejano, porque os meus pais são alentejanos. No futebol, nunca tive.

Tatuagens?
Tenho duas. Só vou dizer uma. A primeira que fiz foi quando fui operado à minha hérnia, porque na altura tive muito medo e resolvi fazer a tatuagem de Jesus Cristo no meu peito.

Segue ou pratica outro desporto além de futebol?
Sigo muitos desportos, agora praticar... Sigo ténis, gosto muito de ciclismo também.

Rui também faz comentários para a Bola TV

Rui também faz comentários para a Bola TV

Ana Baiao

Tem algum hóbi?
Amo música. A minha irmã ofereceu-me uma guitarra quando tinha 16 anos. O que aprendi foi quase tudo sozinho. Agora com as redes sociais e canais da internet é muito fácil de aprender a tocar. Mas atualmente não toco guitarra com muita frequência, não há muito tempo disponível e também depende do meu estado de espírito. Também pratiquei Kenpo. Eu e a minha mulher queríamos uma atividade física para o nosso filho mais velho, que não é muito dado ao desporto e encontramos na net o Kenpo, uma arte marcial japonesa, cultura de que gosto muito. O meu filho começou a frequentar e eu gostei tanto que também me inscrevi. Atualmente não frequento por causa do meu horário laboral e por estar a comentar para a Bola TV. Mas se tiver oportunidade, volto.

Ainda sobre a música, de que tipo de música gosta?
O meu tipo de música é muito vasto, bandas sonoras, pop-rock, rock, heavy metal e outras definições que nem eu sei, mas o preferido, é sem dúvida, o grunge. Grupos de música, Nirvana, Foo Fighters, Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Smashing Pumpkins, Queens of the Stone Age, Audioslave, Metallica, o velhinho Peter Frampton que toca mesmo muito guitarra, oh pá, nunca mais saía daqui...

Se não fosse jogador de futebol, o que acha que teria sido?
Nunca pensei nisso. Acho que nasci com um dom para ser jogador de futebol, infelizmente, não aproveitei da maneira como devia, mas acho que nasci única e exclusivamente para ser jogador de futebol.