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A casa às costas

“Na Arábia, entrei no banco com a minha mulher e filha e ouviu-se logo uma voz: ‘Ladies, out’. Elas tinham de entrar pelas traseiras”

João Carlos Gonçalves herdou a alcunha do irmão, Tuck, e fez carreira como médio, até aos 35 anos, em apenas dois clubes: Gil Vicente e Belenenses. Tornou-se treinador logo de seguida e ainda não conseguiu vingar na liga maior do futebol português, mas já teve uma experiência das Arábias, na equipa técnica liderada por Jorge Jesus, no Al-Hilal. Voluntário da Refood há três anos, Tuck revela que o seu talento escondido não tem nada a ver com futebol: é fazer bem limpezas

Alexandra Simões de Abreu

Ana Baiao

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Nasceu em Barcelos. Quem são os seus pais?
Os meus pais são os dois professores primários, reformados naturalmente. Conheceram-se no magistério primário, em Braga. O meu pai é de Trás-os-Montes, a minha mãe de Barcelos. Eu sou o terceiro de quatro filhos. O meu irmão mais velho é radiologista, a minha segunda irmã é contabilista e o mais novo é agente de seguros. É uma família de classe média de pessoas respeitadoras e muito amigos uns dos outros.

Era um puto calminho?
Era muito tranquilo. Gostava da escola, mas a partir dos 17, 18 anos comecei a embicar, por causa do futebol.

Quando era pequeno torcia por que clube?
É normal que goste muito do Gil Vicente porque fui habituado a ir de mão dada ao Gil. O meu pai sempre teve uma afinidade, que já vinha do meu avô, pelo FC Porto, mas nada de doentio. Depois, quando te tornas profissional, a parte emocional começa a deixar-nos um bocadinho.

Quem eram os seus ídolos?
Como gosto muito de brincar e de me divertir, curiosamente gostava muito do Herman José. Lembro-me de, mesmo pequenino, gostar da forma de humor dele. Não é humor negro, é um humor sarcástico. Gosto de brincar com tudo, inclusive com a morte e com situações menos normais. Em termos de jogadores, sempre gostei muito do Redondo, do argentino que jogava na mesma posição do que eu, e mais tarde, já com outra idade, do Guardiola. São jogadores da minha posição.

O futebol começou na rua?
Sim, naturalmente. Passava o dia a tirar pedras e a pôr pedras para os carros passarem [risos].

Quando é que se torna um bocadinho mais sério?
Em termos oficiais, não havia competições antes dos 12 anos, nos escalões normais. No meu tempo era: dos 12 aos 14 anos os iniciados, dos 14 aos 16 anos os juvenis e dos 16 aos 18 anos os juniores. Mas como o meu irmão também lá estava, e o Gil tinha começado a ter escolas de animação, quem quisesse ia. E eu, embora fizesse natação também no Gil, porque os meus pais sempre nos incentivaram a aprender a nadar, com oito anos comecei a ir de vez em quando aos treinos do Gil. Entre os oito e os 12 anos fui um dos selecionados para ir ficando e a partir dos 12 anos comecei a jogar federado.

Já na posição de médio?
Sim, embora tenha trabalhado como médio ofensivo e depois médio defensivo. Não só pelas características, na altura se calhar tecnicamente seria dos jogadores mais evoluídos e os treinadores punham-me nessa posição. Com o decorrer da minha vida profissional, em função das minhas características fui passando para médio defensivo.

Em bebé

Em bebé

D.R.

Fez toda a formação no Gil Vicente?
Sim, vim aos 28 anos para o Belenenses, só estive um ano emprestado ao Grupo Desportivo do Prado. No meu primeiro ano de sénior, já tinha contrato com o Gil, mas na altura achei que era importante rodar, por duas razões: primeira, porque efetivamente o Gil tinha uma equipa muito forte, apostou para subir de divisão, da antiga II B, que não havia liga de honra. O Gil tinha feito nesse ano um acordo com uma equipa da distrital, onde ia colocar seis ou sete jogadores, mais os jogadores dessa equipa distrital e eu achei, com todo o respeito, que o distrital era descer duas divisões e pedi para ser emprestado. Nessa altura, o treinador era o professor Fernando, que tinha sido treinador do meu irmão mais velho e é amigo do meu pai, e eu perguntei-lhe se não precisava de um médio e fui emprestado.

O seu nome é João Carlos, mas quando entra no Gil Vicente já vai com a alcunha de Tuck.
Sim.

De onde é que surgiu essa alcunha?
As informações que tenho são dos amigos do meu irmão, porque nem o meu irmão sabe bem como é que aconteceu. O meu irmão mais velho que tem uma diferença de idade de seis anos e essa alcunha era dele, mas depois acabou por passar para mim.

Mas como é que ele ganhou essa alcunha?
Aquilo que me disseram é que foi por brincar aos cowboys, o meu irmão ao disparar em vez de fazer 'pum pum', dizia 'tuck tuck'. A partir daí foi ficando.

Então estreia-se como sénior no GD Prado?
É verdade. Tinha 18 anos, ia fazer 19 poucos dias depois.

Tuck é o terceiro de quatro irmãos

Tuck é o terceiro de quatro irmãos

D.R.

Como é que estava a escola nessa altura?
Estava no 11º e foi ficando por aí. Comecei a facilitar um bocado, queria ser profissional de futebol e dedicar-me a isso.

Já havia namoros e saídas à noite?
Das saídas à noite nunca gostei muito. Sempre gostei de me juntar com casais amigos e beber uns copos, mas nunca gostei de discotecas. Vivi numa fase em que se podia fazer tudo na discoteca, como fumar, e eu não me dou muito bem com o fumo. E depois, a partir da uma da manhã, o que é que andamos a fazer na noite, em vez de estarmos no aconchego do lar? Mas isso sou eu, é a minha forma de ser. Agora, em relação ao namoro, já brincava. Curiosamente, nessa altura do Prado, pouco antes de subir a sénior, comecei a namorar com a minha atual mulher.

Como a conheceu?
Eu e a Isabel éramos praticamente vizinhos. Ela tem mais quatro anos do que eu, e quando eu tinha 10 anos e ela 14 já lhe mandava bilhetinhos. Inclusive a minha mãe pouco antes de casarmos entregou-nos um bilhete que a minha professora apanhou [risos].

Estreia-se como sénior no Gil Vicente pela mão de Rodolfo Reis.
Sim.

Como foi regressar ao Gil Vicente, notou muita diferença para o GD Prado?
Sim, a intensidade e qualidade dos jogadores é completamente diferente, embora no ano do Prado tenha feito treinos com a equipa, mas o Mário Reis não conseguiu subir o Gil, subiu depois com o Rodolfo. E há uma situação curiosa, o Famalicão tinha subido de divisão no ano em que fui para o Prado, só que por uma situação administrativa desceu e teve de ir para a III divisão, ou seja acabou por descer duas divisões e nós, o GD Prado, tivemos alguns jogos contra o Famalicão. Aparentemente o Rodolfo gostou de alguma coisa que viu e quando foi saber dos jogadores que estavam emprestados ou que pertenciam ao Gil, deram-lhe a informação de que eu pertencia ao clube. Modéstia à parte, fiz um campeonato interessante no Prado, e o Rodolfo insistiu que eu ficasse. Estreei-me no campeonato, nos jogos de apuramento de campeão, mas oficialmente não aparece. Eu estava no plantel, eu e mais dois ou três colegas meus. Eram quatros jogos de apuramento de campeão e eu fiz três jogos.

E que tal era o Rodolfo Reis como treinador?
O Rodolfo era uma pessoa boa, mas naquela altura a forma de treinar era dura. Os métodos de treino eram praticamente consensuais.

Treino sem bola a maior parte do tempo, não era?
Sim, muito treino sem bola, muita dureza, muita carga física e depois um treinador extremamente exigente com todos e qualquer situação menos positiva. As relações, a forma de olhar era muito mais para o jogador do que para o homem, coisa que agora se inverteu.

Tuck (à esquerda de camisa e calções) com os pais e os irmãos

Tuck (à esquerda de camisa e calções) com os pais e os irmãos

D.R.

Subiram de divisão. Houve grandes alterações na equipa?
Houve algumas alterações boas e eu estreei-me nos últimos seis jogos do campeonato, o primeiro jogo foi em casa, com o Famalicão. Naquela altura os estádios estavam praticamente lotados e o velhinho Adelino Ribeiro Novo, numa fase em que estávamos a disputar a manutenção e o Famalicão também, estava cheio. Foi um jogo de adrenalina grande porque ansiava jogar na I divisão. Foi uma ansiedade grande e uma emoção enorme depois do apito inicial.

Tremeram-lhe as pernas antes de entrar?
No decorrer do jogo essa ansiedade vai desaparecendo, mas, antes do jogo, suou-me um bocadinho as mãos e acho que mesmo agora, enquanto treinador, se não suar um bocadinho as mãos falta paixão do jogo e acho que é importante.

Destas duas épocas com o Rodolfo Reis há algum momento mais marcante?
Lembro-me de uma história com o Chico Nelo, que tinha uma relação de amor-ódio com o Rodolfo. Eles já se conheciam dos juniores do FC Porto e o Chico era muito terra a terra, era um rapaz das Caxinas e era um bocadinho naif. Logo que souberam que ele ia dar uma entrevista, no ano da subida, o pessoal começou "Eh pá, temos que estar atentos à entrevista do Chico". Como era na rádio Barcelos onde às vezes estava sintonizado ouvi e o Chico falou que gostava de jogar vagabundo e não sei o quê, e depois perguntaram-lhe: "Ó Chico, desculpe lá, acha que o Gil Vicente tem condições para subir de divisão?" E ele respondeu: "Tem. Então, tem campo, tem bolas, tem equipamentos, tem todas as condições para subir de divisão" [risos]. Gravaram a entrevista e puseram a dar no balneário. O Chico que é uma pessoa excecional, aceitou na boa, lá está, por ser muito terra a terra, aceitou. Lembrei-me de outra com ele [risos].

Conte.
Num jogo, já não sei se foi na I ou na II divisão, o Rodolfo queria fazer uma estratégia com ele, mas o Chico não gostava muito de jogar no corredor, ele era um canhoto que sentia-se muito mais confortável a jogar por dentro e o Rodolfo, num jogo-treino, a meio da semana, disse-lhe: "Preciso que vás jogar na linha e que depois faças movimentos para dentro, que é para arrastares o lateral deles e o Cabral passar (o Cabral era o nosso lateral esquerdo)". O Chico não fez movimento nenhum, fez 45 minutos em cima da linha [risos]. Mas é que fez mesmo, para trás e para a frente sempre em cima da linha. Esse jogo-treino foi no Andorinhas, que ficava a uns três ou quatro quilómetros do Gil, acabámos o jogo e depois íamos de autocarro, mas o Rodolfo no sítio dele, no primeiro banco, quando o Chico vai para entrar: "Vais a pé por aí acima. Podes continuar a correr" [risos]. Então era ele de chuteiras, a correr no alcatrão por ali acima.

No dia da entrevista a Tribuna

No dia da entrevista a Tribuna

Ana Baiao

A época seguinte é com António Oliveira. Um estilo muito diferente do Rodolfo Reis?
Sim, muito mais, não digo humano, mas mais de relações e menos a olhar para a equipa em termos de homem a homem, mas mais de zona. O Rodolfo era mais: "Tu tens que agarrar aquele homem, nem que vá para a cabine, tens de ir atrás dele". O Oliveira era mais próximo de nós, uma relação muito próxima dos jogadores e um bocadinho mais de organização de zona da equipa. Fizemos uma boa época. Mas ele sai, vai para a seleção ou para o FC Porto, e vem o Vítor Oliveira, o meu mentor da gestão do grupo.

O que quer dizer com isso?
Tenho umas saudades dele enormes, ainda me emociono um bocadinho porque foram quatro anos e meio com ele. Não são quatro dias, foram anos, e continuamos a privar. Três ou quatros dias antes de ele falecer, combinámos um almoço para dois ou três dias depois de ele ter falecido. O Vítor era uma pessoa ainda mais próxima dos jogadores. A minha forma de liderança no balneário é um bocadinho a ideia dele, que é, uma exigência sempre grande, mas com proximidade dos jogadores, sem esquecer aquela linhazinha de distanciamento. Fizemos três épocas boas com ele. Com dificuldades, uma ou outra em que estivemos mesmo quase até à última para nos mantermos, mas sempre com um espírito de equipa muito forte e ele era claramente um senhor. Um homem com "H" grande.

Tinha alguma característica que fosse muito própria?
Era um contador de histórias. Ele queria era rir.

Era supersticioso ou tinha alguns rituais de balneário?
Não. Mais supersticioso se calhar era o António Oliveira. Corria mal um jogo, depois de uma derrota mudava o tipo de treino ou o hotel ou a refeição no estágio, coisas desse género. Não, o Vítor era um contador de histórias e procurava sempre animar toda a gente. Ele às vezes fazia uma coisa [risos]. Nós jogadores temos o hábito de, quando vemos uma bola, parece que temos um íman e temos de chutar. Havia a caixinha das multas e uma das regras era, acabava o treino e era sagrado parar, para depois o roupeiro ou os treinadores não andarem à procura das bolas. E o Vítor punha sempre duas ou três bolas à nossa volta, mandava mesmo bolas às vezes para o nosso meio, e quem estivesse distraído, pumba, dois euros [risos]. Ele criava este tipo de situações de propósito.

No dia do casamento

No dia do casamento

D.R.

Quando foi pai pela primeira vez?
Tenho um filho de 25 anos, o João e uma menina, a Inês, com 22.

Entretanto o Vitor Oliveira sai e vem o Bernardino Pedroto.
Sim, o Bernardino arriscou. Eu louvo a qualidade humana da máxima liberdade, máxima responsabilidade, mas há alguns jogadores que não a sabem utilizar. Não sabem a grandeza humana da pessoa que têm à frente e aproveitam, ou tentam forçar para ver até onde vai a liderança do treinador. Mas o Bernardino, em termos táticos, uma pessoa muito dedicada, muito interessada e com quem gostei muito de trabalhar.

Mas descem.
Isso foi no segundo ano dele, ele começou a meio e depois veio o Festas. No primeiro ano do Bernardino tivemos uma época boa, houve jogadores que saíram para boas equipas, outros que tiveram propostas mas que, como o Gil não abdicou de uma verba boa, não conseguiram sair. A partir daí criou-se algum, não é atrito, mas algumas situações em que a tal liderança de máxima liberdade, máxima responsabilidade, foi perdendo influência. Embora nós, os capitães, tentássemos fazer ver a alguns jogadores que não estavam a agir bem, havia alguma irreverência. O Festas quis mudar algumas situações, uma delas achei curiosa, passou o treino de recuperação à segunda-feira, para as sete da manhã, se calhar para que nenhum de nós tivesse a tentação de ir para a noite. Mas infelizmente ele já apanhou a equipa numa fase menos positiva.

Vem o Henrique Nunes para a temporada a seguir?
Vem o Henrique Nunes e terminou com o Diamantino. Não conseguimos subir por um ponto ou dois. Em condições normais subíamos. O que aconteceu é que o Alverca era satélite do Benfica, a dois ou três meses do fim, como sentiu que podia subir de divisão, terminou o vínculo para depois ser dado como confirmado na I liga. Na altura os clubes satélites não podiam subir de divisão ou pelo menos encontrarem-se na mesma divisão, podiam subir mas desde que não colidisse com a equipa mãe, digamos assim. Terminaram o vínculo a dois ou três meses do fim e nós não conseguimos materializar a subida de divisão.

E o Tuck também vai embora.
Sim.

Tinha empresário?
Nunca tive. Porque se nós nos entregamos a um empresário, ele enquanto tiver contrato, se calhar não vai fazer aquilo que deve. Agora, eu posso assinar contrato com algum deles, se eles me pagarem. Se, quando acabar o contrato, eles continuarem a pagar-me, se calhar vão fazer mais pela vida. Eu tinha colegas meus que assinavam com grandes empresários e diziam, por exemplo, “sou jogador do Jorge Mendes”, mas ele nunca lhes ligava. Cheguei a dizer a um colega, se tu assinares dois anos e não obrigares o empresário a que te dê mais dinheiro do que os 2.500 euros que recebes, não vais ter vantagem nenhuma, só se um clube te quiser e aí vai ser o empresário a negociar por ti, não és tu a obrigá-lo a negociar. Agora se ele tiver de te pagar, vai andar a fazer pela tua vida. Mas estava eu a dizer, não tinha empresário, não.

Tuck fez toda a formação no Gil Vicente e só saiu do clube em 1998

Tuck fez toda a formação no Gil Vicente e só saiu do clube em 1998

D.R.

Como é que vai parar ao Belenenses?
O mundo é pequenino. O Luís Campos tinha trabalhado ou dava-se muito bem com o Manuel Cajuda e o Cajuda foi para o Belenenses e infelizmente o Belenenses desceu de divisão, no ano em que nós, no Gil, não conseguimos subir. E o Vital que jogava comigo no Gil, costumava encontrar-se muitas vezes com o Luís Campos. Naquelas conversas de café, estava a falar com o Luís Campos e disse-lhe: "Olha, um gajo que quer sair do Gil e que gostava de experimentar outras situações, é o Tuck. Gosta muito de Barcelos, gosta muito do clube, tem uma proposta de renovação mas está a estudar outras situações.". O Luís Campos falou com o Cajuda e pronto, ligaram para mim, do Belenenses.

Aceitou de pronto?
Aceitei. Tinha uma outra proposta, não vou negar, da I liga.

De que clube?
O U. Leiria fez-me uma abordagem. Mas as pessoas do Belenenses foram muito francas com o projeto que queriam, que era subir de divisão e depois estabilizar o clube no meio da tabela para cima. Isso, além da envolvência do clube, chamou-me. Fiz uma aposta que me agradou.

Veio de armas e bagagens para Lisboa com a mulher e com o filho?
Com a mulher, com o filho e com a pequenina no ventre.

A sua mulher trabalhava?
Nessa altura já não trabalhava. O parto do meu filho foi um parto pré-termo, ele passou algumas agruras no início da vida dele. Nasceu prematuro, pequenino, tinha dificuldades em mamar, o leite da minha mulher secou, ele perdeu peso, quiseram voltar a interná-lo, teve icterícia... Mas felizmente, entre os seis e os oito meses, voltou ao normal, só que entendemos que era necessário a minha mulher estar muito próxima dele e eu com uma exigência profissional tão grande, ela deixou de trabalhar. Era assistente dentária.

A adaptação à capital foi fácil?
Nos primeiros dois anos, fomos viver para a Parede, porque gostamos muito da zona. O menos fácil de lidar foi o trânsito. Eu adoro Barcelos mas gosto muito de Lisboa, acho que é uma cidade lindíssima, bonita para se passear, bonita para se visitar, mas o trânsito.... Era uma hora na marginal para ir para o treino. O que vale é que esta estrada da marginal é um quadro, é uma fotografia lindíssima, principalmente com raios de sol. Diminui o impacto do trânsito, mas foi claramente o menos fácil. Depois viemos morar para Carnaxide, onde ainda vivemos.

Os filhos de Tuck, Inês e João

Os filhos de Tuck, Inês e João

D.R.

Como foi o primeiro embate no Belenenses, muito diferente daquilo a que vinha habituado no Gil Vicente?
É a exigência ainda maior de um clube que tem uma implantação muito mais vasta que o Gil Vicente. Só depois de vir para cá e de começar a jogar aqui é que comecei a perceber quantos Belenenses é que tinha em Barcelos, por exemplo. Havia pessoas que eu conhecia mas que não sabia que eram do Belenenses. Nunca mais me esqueço do nosso primeiro jogo. Já tinha relatos de que na outra época em que o Belenenses já tinha estado na II liga, arrastava ainda mais gente do que na I Liga, principalmente nos jogos fora, porque as pessoas unem-se mais na dificuldade. O primeiro jogo foi no Jamor por causa dos concertos no Restelo, que deixaram a relva em mau estado, e lembro-me de sair do aquecimento e já estava o estádio composto, mas quando voltamos (até me estou a arrepiar) para entrar no jogo, estava uma faixa da Fúria Azul a dizer "sentido obrigatório" e todas as pessoas que estavam naquela bancada tinha um placa com a seta do sentido obrigatório para cima. Foi um grande impacto.

E o Manuel Cajuda? Dele deve ter muitas histórias para contar.
T
enho uma do Murça, adjunto do Cajuda, que é engraçado e gosta de pensar que é o mais giro do mundo. O Cajuda uma altura para nos pôr a rir e desanuviar o ambiente começou a dizer: "Temos aqui um modelo na cabine, mas vou dizer-vos, eu concordo com vocês, a equipa técnica é das mais feias do futebol português, principalmente por causa do Murça. Aquilo caiu que nem uma bomba ao Murça [risos]. O Cajuda foi um treinador se calhar do mais próximo que tive, até em termos destas brincadeiras. E com as filosofias dele, ele tem aquelas tiradas filosóficas. Uma vez, vínhamos de um ou dois jogos que correram menos bem, ele estava chateado connosco e fomos para o Estádio Nacional, para treinar, mas a palestra demorou tanto que alguns jogadores já estavam com cãibras. Ele dizia: “Os jornalistas e os dirigentes pensam que vocês vieram levar uma coça, mas afinal viemos conversar”.

Tuck jogou no Belenenses de 1998 até final da carreira de jogador, em 2005

Tuck jogou no Belenenses de 1998 até final da carreira de jogador, em 2005

D.R.

Mas ele não termina e reencontra Vitor Oliveira.
É verdade, veio o Vitor Oliveira, com quem subimos de divisão. Uma parte do feito veio do Cajuda, claro. Tenho uma história do Vitor Oliveira engraçada.

Força.
Antes dele vir, eu estava no obstetra, no Porto. Tínhamos jogado na Feira e íamos ter treino na segunda-feira, mas como a minha mulher estava no final do tempo da minha filha Inês, eu tinha pedido para ficar a acompanhá-la. E nisso o Cajuda foi impecável, só tenho de agradecer-lhe porque muitas vezes deixou-me ficar lá em cima. A minha mulher a partir do quinto/sexto mês ficou em Barcelos, para que se houvesse alguma situação, estava perto da família. Eu normalmente acabava o treino à segunda-feira e ia para cima. Ia lá todas as semanas. E muitas vezes o Cajuda libertou-me dos treinos à segunda-feira e agradeço-lhe por isso. Mas voltando à história, essa segunda-feira de manhã ligam-me a dizer que o Cajuda tinha chegado a acordo para ir embora. À tarde, estava eu na consulta e liga-me o Vítor Oliveira, que estava a caminho de Coimbra para falar com os dirigentes do Belenenses. E vira-se: "Olha lá, tu mandas treinadores embora?"; "Mas porquê?"; "Então, és expulso no jogo, mandaste o treinador embora, não conseguiram ganhar" [risos]. Eu fui expulso quase no fim, ele estava a brincar.

Ligou-lhe só para dizer isso?
Não. O que ele me pediu não foi informação nenhuma do grupo, porque ele é excecional, não gosta de chibarias; ele só me perguntou como era das casas, dos prémios, se estavam metidos no contrato ou não, só esse tipo de informações para ele negociar. Era impecável. Fez-me uma que nunca mais me esqueço também.

Conte lá.
Foi curiosamente no dia de nascimento da minha filha, ela nasceu na madrugada de uma quinta-feira, mas às nove e tal da noite de quarta rebentam as águas à minha mulher e ela liga-me a avisar. Eu preparei-me logo para fazer-me ao caminho para cima, mas telefonei ao Vitor Oliveira. E ele pergunta assim: "Quando vai nascer?"; "Não sei, de madrugada"; "E tu vais fazer o parto?"; "Claro que não, mas quero ir ter com ela"; "Mas olha lá, pensa bem, não é melhor fazeres o treino (o treino de quinta-feria era um dos mais importantes) e no sábado, que já te dou a dar uma borla, já te estou a dizer que vais ser convocado, vais ter ao hotel (íamos jogar a Paços de Ferreira)? Vais lá ter no sábado à tarde, assim ainda tens a quinta à noite, a sexta toda e o sábado quase todo para estar com elas". Eu não tive cabeça para dormir naquela noite, mas a verdade é que ele pensou bem, porque deu-me dois dias. Aquele treino era importante para ele, mas em termos práticos se eu fosse para cima na quarta à noite e depois viesse para treinar na sexta, se calhar perdia mais tempo. Ele teve um excelente sentido profissional e humano ao mesmo tempo.

Como foi essa época na I liga?
Foi um campeonato estável.

No dia da entrevista a Tribuna

No dia da entrevista a Tribuna

Ana Baiao

Tinha na equipa o Pedro Estrela e, ao que sei, há imensas histórias para contar dele.
Do Pedro Estrela tenho muita história. Mas tenho uma, que só quem o conhecer é que interpreta de forma tranquila o que ele disse. O Vitor Oliveira tentava que toda a gente tivesse os dias de folga no mesmo momento, os que jogavam e os que não eram convocados. Então o que fazia? Um ou dois elementos da equipa técnica vinham mais cedo, quando estávamos em estágio, para dar o treino aos não convocados de forma a eles estarem despachados quando estivéssemos a chegar para o jogo. Normalmente nem encontrávamos os jogadores que não jogavam. E o Pedro foi um deles. Chegamos do estágio e ele ainda lá estava, sem tomar banho nem nada, porque o Pedro era assim, relaxado, tranquilo. Eu devo ter ido à casa de banho ou qualquer coisa e fiquei sozinho com ele no balneário e vou a passar por ele, e ele vira-se para mim, a pensar que eu não era dos convocados e diz: “Dragon Ball, vou-te dizer uma coisa, o futebol está todo ao contrário"; "Mas porquê Pedro?"; "Não estás a ver? O artista aqui sentado e os pernas de pau é que vão jogar, pá" [risos]. Ele nem se lembrou que eu jogava.

Porque é que o chamava de Dragon Ball?
Por causa do meu cabelo na altura [risos]. Mas para perceberem como era o Pedro Estrela, um dia ele estava na marginal com a namorada, no carro descapotável dele... Eles tinham um cão dálmata. Pararam num semáforo, o Pedro olha pelo espelho e diz para ela na maior das tranquilidades: “Está ali um cão na estrada que parece o nosso”. Ela quando olha para trás, era mesmo o cão deles que tinha saltado do carro enquanto estavam parados e estava a passear no meio da marginal [risos]. Mas o Pedro sempre tranquilo, nem sequer olhou para trás [risos]. Uma vez, fomos jogar aos Açores, onde estava o Manuel Fernandes, que já tinha tentado contratar o Pedro Estrela, mas o Vítor Oliveira não deixou. No saco do equipamento havia apenas uma camisola porque era o roupeiro quem tinha as outras, caso fosse preciso substituir. Mas o Pedro quando abriu o saco e viu que só tinha uma camisola começou logo: “ Isto é coisa do Manuel, mandou roubar no aeroporto, é para o artista não jogar" [risos]. Mas ele dizia aquilo confiante, acreditava naquilo. Há tantas dele…

Mais uma então para fecharmos este capítulo do Pedro Estrela.
Uma vez, nós já tínhamos feito mais de 20 jogos quando o Pedro começou a jogar. Ao fim de três ou quatro jogos que ele tinha feito, há um dia em que entro no balneário não o vi. Perguntei por ele e disseram-me "ele está no posto médico, vai lá vê-lo que ele está "morto"". Ele fisicamente era robusto. Cheguei lá, estava ele na marquesa a bufar e eu: "Pedro, o que é que se passa?"; "Dragon Ball, stress competitivo" [risos] Nós já com 20 e tal jogos nas pernas e ele jogou três seguidos e dizia que tinha stress competitivo [risos]. Era um puro.

Tuck atirado ao ar pelos jogadores do Sacavenense, nos festejos da subida de divisão em 2016/17

Tuck atirado ao ar pelos jogadores do Sacavenense, nos festejos da subida de divisão em 2016/17

D.R.

Tem dois anos com Marinho Peres no Belenenses.
Enquanto o Vitor era o gestor de grupo, o Marinho é o verdadeiro gestor do plantel porque sabe levar. Bonacheirão, queria jantares, e às vezes convidava os dirigentes para ver se pagavam o jantar em vez de ser a caixinha das multas, que era para fazer outro jantar [risos]. Mas sabia gerir em função da qualidade humana e tática de alguns jogadores, sabia dar responsabilidade e autonomia para que tomássemos algumas decisões no bom sentido do grupo de trabalho. Dava essa liberdade para gerirmos taticamente, fazermos uma ou outra correção posicional. Era amigo dos jogadores. Também há histórias com ele.

É sempre bom ouvi-las. Força.
Uma vez íamos ter um jogo nas Antas, numa sexta-feira. Ele já tinha autorizado dois dias de folga e acho que lhe pedi mais um ou dois dias, porque precisava de tratar de umas coisas na segunda-feira, em Barcelos. Mas antes desse jogo, jogamos com o Beira-Mar e levamos um grande amasso, perdemos 5-1. O Fary saiu, e bem, ovacionado depois de fazer quatro golos. Devia ser mais vezes assim, mas infelizmente em Portugal temos o síndrome da clubite e não da desportivite. Mas, levar 5-1 em casa, upa, upa. Vamos para as Antas a seguir e não sei se lhe começou a bater, mas a verdade é que pouco antes do lanche pré-competitivo o Marinho perguntou-me com aquele jeito brasileiro "Pô, garoto, você tem de ficar cá em cima, né?"; "É. já falamos"; "Pô, garoto, não sei se pode ser não. Se a gente perde e leva outra abada eu não sei como é que consigo dizer aos dirigentes que a gente não vai treinar amanhã ou depois"; "Ó mister, por favor, já combinei as coisas e tenho de tratar de uns assuntos e acho que os resultados não devem influenciar o nosso processo. Mas, estou aqui para respeitar"; "No fim do jogo a gente fala". Fomos ganhar 2-1 e ele no fim queria dar-me mais dias de folga. E eu "Pó, c...., agora sou eu que não quero" [risos].

Tuck orientou o Camacha em 2017

Tuck orientou o Camacha em 2017

D.R.

A época seguinte começa com Marinho mas depois chega Manuel José. Como foi?
Tivemos alguns altos e baixos. A gestão de expectativas foi alta e ficamos praticamente até ao fim a lutar para nos mantermos e conseguimos, com uma liderança diferente. O Manuel José extremamente exigente comparativamente com o Marinho na forma de gestão, no relacionamento, bom, mas muito menos próximo. Gostava de brincar mas não tanto como o Marinho. Um modelo de treino um bocadinho diferente, uma estrutura tática também diferente. Mas felizmente conseguiu implementar as suas ideias.

Manuel José sai para Arábia e vem Bogicevic.
Esteve pouco tempo, acho que não se adaptou. Estava na MLS, tinha outra forma de abordar o treino e a liderança, claramente a comunicação não conseguiu chegar com facilidade a todos nós e os resultados não ajudaram. Depois veio o Inácio.

O que pode dizer dele?
[Longo silêncio] Em função das expectativas de um campeão nacional, de um treinador que no V. Guimarães tinha feito um trabalho brilhante, infelizmente não conseguimos materializar a qualidade de jogo. Ficamos assim.

Estava com 34 anos e faz a sua última época com Carlos Carvalhal. Com que opinião ficou dele?
Eu já o conhecia pessoalmente de algumas tertúlias em Braga, em que conversamos sobre futebol. Acho que é uma pessoa extremamente inteligente e confirmei que taticamente e nos métodos de treino é excecional. Foi dos treinadores que mais me marcaram em termos táticos e técnicos de treino. Ele e a equipa técnica, onde estava o Miguel Cardoso. Não me admira a ascensão e o sucesso que tem tido.

Nessa altura já tinha um jovem na equipa que hoje também está a dar cartas como treinador, o Rúben Amorim.
Claramente um miúdo que se eu tivesse de dizer se seria um potencial treinador, se calhar não, mas daquilo que é ao nível de balneário, sempre foi agregador, muito divertido, muito amigo do seu amigo, muito sincero, competitivo, e tenho de lhe dar os parabéns pelo trajeto que tem tido.

Tuck integrou a estrutura técnica que Jorge Jesus levou para o Al Hilal, da Arábia Saudita

Tuck integrou a estrutura técnica que Jorge Jesus levou para o Al Hilal, da Arábia Saudita

D.R.

Desses anos todos do Belenenses o que mais o marcou?
Há vários momentos. Mas as duas coisas que me marcaram foram o primeiro jogo, aquele tal impacto, com o Paços de Ferreira, e a outra foi a homenagem que a claque do Belenenses me fez. Eles exibiram uma faixa já depois de eu ter deixado de jogar e puseram as costas da minha camisola com o meu nome e a braçadeira, que dizia “Eterno capitão”. Ofereceram-me recentemente a faixa no jogo do centenário com o Real Madrid. Esteve muito tempo no estádio e agora no centenário a Fúria Azul veio ao relvado oferecer-me.

É o Tuck que decide que está na hora de pendurar as chuteiras ou aconteceu por força de alguma lesão?
Foi o projeto que o Belenenses me apresentou, o Carvalhal, o Rui Casaca e o engenheiro Barros Rodrigues, de projetar um clube a médio e longo prazo, a todos os títulos top. Propuseram-me coordenar o gabinete de prospeção e estive nessas funções durante um ano. Integrar a estrutura técnica, próximo da equipa técnica em que o objetivo era criar uma e se possível duas equipas sombra em função dos jogadores que tínhamos.

Mas custou-lhe pendurar as chuteiras ou não?
Custou muito. Muito. E esta proposta que me fizeram foi nesse ano em que estive com o Carvalhal. Fizeram a proposta logo em janeiro ou fevereiro, portanto tive quase quatro meses para decidir. Mas no dia do jogo com o V. Setúbal em que efetivamente me despedi... Não vou dizer que me arrependi, até porque depois tive propostas para voltar a jogar passado uma semana ou duas... Mas não voltei, porque só tenho uma palavra. Embora não tenha nada contra quem volta porque isto é mesmo um bichinho que parece que se está a injetar todos os dias. Mas custou-me. Quando fui à conferência de imprensa após o jogo, acho que nem acabei a conferência tal era já a minha nostalgia.

Quando lhe fizeram a proposta em janeiro, já tinha pensado alguma vez no pós final da carreira?
Não. Porque eu tinha mais um ano de contrato. Só que o Belenenses foi tão excecional para mim que não mexeram em nada em termos financeiros. Quiseram aproveitar as minhas capacidades humanas e profissionais numa outra função.

Teve essa função um ano. Porque não continuou?
Porque entretanto o Belenenses nesse ano começa com o Carvalhal, termina com o Couceiro, desce de divisão e acontece o caso Mateus. E o presidente Cabral Ferreira, que infelizmente já faleceu, foi buscar o Jorge Jesus. A proposta seria o Jesus subir de divisão, mas o Belenenses sobe rapidamente porque ganha o caso Mateus. E o Belenenses precisava, na opinião do Cabral Ferreira e do Jesus, de uma pessoa próxima dos jogadores e próxima dele também e escolheram-me para secretário técnico.

Tuck (de azul) a correr com os jogadores do Al Hilal durante um treino

Tuck (de azul) a correr com os jogadores do Al Hilal durante um treino

D.R.

Que tal o Jorge Jesus?
É uma pessoa com quem tens de trabalhar a 200% e 36 horas por dia. Ele é claramente uma pessoa focada na qualidade do treino e de tudo o que envolve a equipa. Nada pode falhar. O trabalho dele é sempre de excelência. Não é por acaso o sucesso que tem tido.

Tem alguma história com ele?
Uma das que tenho foi um célebre jogo Benfica-Académica, em que estávamos em estágio e eu achava-o claramente competente para outros voos que não o Belenenses; apesar do Belenenses estar com uma equipa boa, porque nas duas épocas com o Jesus o Belenenses foi à final da Taça e ficou em 5º lugar; e no ano seguinte ficamos em 6º porque perdemos aquele três pontos do Meyong. Nesse 2º ano, o Benfica perdeu 3-0 com a Académica em casa. E conforme iam entrando os golos, estávamos a ver o jogo, eu dizia-lhe e ao adjunto: "Mister, preparem-se que vocês têm de fazer as malas. É só o que vos desejo". Ele riu-se. Por acaso não foram nessa época, foram um ano e tal depois, porque ainda foram para Braga.

Não vai com ele nem para Braga, nem para o Benfica. Só depois, para a Arábia.
Fui trabalhando com os outros treinadores. Porque eu estava na estrutura técnica do Belenenses, não era do Jesus. Estive mais três ou quatro anos e curiosamente depois de ter terminado o vínculo com o Belenenses, passados 15 dias ou três semanas disso acontecer o Rui Gregório, por quem eu tenho uma estima enorme, e se um dia eu for um treinador de sucesso muito a ele o devo, chamou-me para adjunto, no Belenenses, na liga de honra.

Com a mulher e os filhos

Com a mulher e os filhos

D.R.

Já tinha feito o curso de treinador?
Tinha o nível III do curso. Comecei a tirar enquanto jogador. Sempre gostei de perceber o porquê dos treinos, o porquê de fazer aquele exercício em vez de fazer o outro.

Ficou com o Rui Gregório quanto tempo?
Infelizmente só lá estivemos cinco jogos. Ele regressou um ano e tal depois aos juniores. Digo que tenho de agradecer ao Rui porque ele chamou-me para o campo, como adjunto dele. Ele chegou a acordo com o Sintrense e ainda na pré-época por motivos pessoais entendeu que precisava de se desvincular e os dirigentes perguntaram-lhe quem é que ele achava que podia ser o seu substituto. Ele indicou o meu nome. E é assim que me torno treinador principal.

Estava ansioso?
Estava. Mas essa época em termos de expectativas correu muito melhor do que se perspectivou. Éramos claramente um dos candidatos a descer de divisão, mas no último jogo da primeira fase empatamos e se tivéssemos ganho íamos à fase de subida. Como não conseguimos, o desafio que lancei aos jogadores foi sermos a equipa que mais rapidamente garantiria a manutenção. Claramente que conseguimos a manutenção.

Mas não ficou. Passou pelo GS Loures, o Casa Pia, Sertanense, depois esteve duas épocas no Sacavenense, ainda passou pela Camacha e Sintrense antes de ir para Arábia com Jorge Jesus.
Sim. No Sacavenense ficou uma grande ligação. Porque no ano em que lá chegamos eles estavam praticamente "mortos" e conseguimos a manutenção, em que quase ninguém acreditava. Só eu, os jogadores e a direção que me foi buscar. No ano a seguir, numa equipa com um dos orçamentos mais baixo dessa série, conseguimos entrar na fase de subida, que não conseguimos depois concretizar.

Os portugueses que estiveram no Al Hilal na época 2018/19

Os portugueses que estiveram no Al Hilal na época 2018/19

D.R.

E a passagem pela Camacha, na Madeira? Era o projeto do Maniche?
Sim. Ele comprou o clube mas depois, infelizmente, não se materializou as expectativas que ele nos criou. A ideia dele era fazer da Camacha um clube médio alto e infelizmente não aconteceu.

Porquê?
Poderíamos ter sido mais felizes e o Maniche também claramente muito mais presente. Acho que poderia ter sido mais presente. A ausência dele se calhar também ajudou a que não houvesse tanto sucesso. Eu dei um “deadline” até ao fecho do mercado de janeiro, as coisas não se concretizaram em termos de jogadores e viemos embora. Acabei no Sintrense nessa época.

E depois é convidado pelo Jorge Jesus para ir para a Arábia. Como foi essa aventura?
Antes de mais tenho de agradecer e enaltecer o Rui Pedro Soares, o Silas e o Zé Luis, porque não rubriquei um vínculo oficial mas fui convidado, chegámos a acordo para eu treinar os sub-23 do Belenenses, e passado três dias o Jorge Jesus convida-me para integrar a estrutura técnica dele no Al-Hilal e eles deixaram-me ir.

O que o fez mudar de ideias e aceitar?
Basicamente a proposta de um treinador top, para um clube top, com uma cultura diferente e com condições financeiras 10 vezes maiores do que ia auferir. Daí o meu agradecimento à estrutura do Belenenses porque acho que é de enaltecer, libertaram-me do vínculo, não oficial, mas emocional, e para mim a palavra basta.

Tuck com Jorge Jesus

Tuck com Jorge Jesus

D.R.

Como foi o impacto quando chegou à Arábia?
Vamos procurando obter informações, seja pela internet ou amigos que já lá estiveram, mas o impacto impacto cultural é muito grande. Mas agora está muito melhor porque, por exemplo, as mulheres já conduzem, já podem ir ao futebol, ao cinema, etc.

A sua mulher foi consigo?
Foi passar o Natal e a passagem de ano. E tive uma situação... Ela e a minha filha foram expulsas do banco. Fomos ao banco para levantar dinheiro, entrámos e nem me lembrei que elas não podiam entrar no banco pela porta da frente. Tinham uma entrada por trás, nas catacumbas. Assim que entramos foi logo: "Ladies, out". Curto e grosso. Foi um choque. Por outro lado, se não lidasse com 50 graus, não acreditava que havia [risos]. Foi outra situação que não conseguimos estar habituados.

Os treinos eram à noite?
À noite e com 42/43 graus. O Jorge Jesus foi extremamente sensível. No início não muito mas depois foi-se adaptando e muito bem aos costumes, às rezas, aos horários das rezas. A sexta-feira é nosso domingo, com os seus rituais religiosos. Eles saíam do estágio, tinham uma Mesquita incluída no centro de treinos, para ir à missa. Agilizava-se os horários das refeições em função disso. Não vinham, por exemplo, ao pequeno-almoço porque acordavam às cinco da manhã para rezar e tomavam o pequeno-almoço logo e ficavam a dormir até à hora de almoço. Já não apanhámos foi com o Ramadão.

Qual era o seu papel na estrutura?
Era estar próximo nos treinos, como um elemento da equipa técnica, mas tudo o que envolvesse a parte de secretaria da equipa técnica, para gerir com a administração, ou alguma situação que acontecesse com as casas, era eu o gestor dessa parte burocrática da equipa técnica.

Tinham assinado por um ano mais um de opção?
Sim, mas em fevereiro o Jesus entendeu que seria melhor interromper o vínculo o mais cedo possível porque não ia renovar. E eles queriam meter um novo treinador para a Liga dos Campeões.

O que aconteceu entretanto?
Viemos para cá e eu fui trabalhar para o Amora FC. Esta época iniciei no GS Loures mas voltei agora ao Sacavenense em janeiro. No Amora FC quis vir embora por diferentes formas de abordar a gestão do plantel. No Loures foram os resultados menos positivos e agora vamos tentar fazer uma gracinha boa no Sacavenense, que é a manutenção.

Com a medalha da vitória da Supertaça da Arábia, em Londres

Com a medalha da vitória da Supertaça da Arábia, em Londres

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
No Belenenses.

Investiu?
Em imobiliário.

Tem algum hobby?
Gosto de ler e de passear com a minha família. A leitura é claramente direcionada para o futebol, dentro da parte técnica do exército do treino, de formas de liderança, de abordar o jogo. E de psicologia do desporto e da motricidade. São os livros que mais procuro porque além da parte técnica e tática do treino para mim a evolução cada vez maior do treinador é na influência emocional e na liderança e motivação.

Tem algum treinador modelo?
Eu fui bebendo de muita gente. O meu protótipo de liderança é o Vitor Oliveira, proximidade e exigência. E depois em termos de treino, as pessoas com que gostei muito de trabalhar porque têm uma ideia de jogo muito próxima da minha foi o Rui Gregório e depois Jesus, Carvalhal e Rui Jorge. Estes quatro treinadores trabalham em função do 4-4-2, embora o Carvalhal possa variar mais.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Nunca fui pessoa de deitar dinheiro fora, mas a maior extravagância foi comprar um relógio com que gosto de correr. Há muitos mais caros, mas para mim, quase 500€ por um relógio é muito dinheiro.

É um bom garfo?
Sou e por isso corro para poder comer. Os meus pratos favoritos são arroz de cabidela e bacalhau cozido.

Acredita em Deus?
Acredito naquilo que faço e acredito nas pessoas. Fui educado na religião católica, mas não sou claramente praticante.

E superstições?
As superstições têm duas coisas, e eu lido com isso todos os dias, respeito quem as tem e anulam-se a elas próprias.

Com a tarja que a claque do Belenenses lhe dedicou durante anos, no Belenenses

Com a tarja que a claque do Belenenses lhe dedicou durante anos, no Belenenses

D.R.

Qual foi o adversário mais difícil que apanhou pela frente enquanto jogador?
João Vieira Pinto.

E o maior rival?
O meu maior rival seria eu se não acreditasse em mim.

Segue ou pratica algum outro desporto além do futebol?
Agora faço corrida de manutenção. E gosto muito de todas as modalidades, as únicas que não sou grande fã são as de luta.

Qual a maior frustração da carreira?
Não ter sido internacional.

O momento mais feliz?
A estreia na Liga.

E o mais triste?
Ter descido também com o Gil Vicente.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Rui Gregório?

Se pudesse escolher de todos os clubes do mundo qual aquele onde gostava de ter jogado?
No Barcelona. Gosto da cultura do clube, ganhar mas a jogar bem.

Tem algum talento escondido?
O meu talento, e não sou grande fã, é fazer limpezas. Quando me dedico sou tramado.

Qual foi o momento mais fácil da sua vida?
Foi ir visitar o meu filho e ter de tocar a uma campainha para poder aproximar-me dele. É uma sensação... Ele esteve sempre bem, mas nós pensamos que ele está muito mal. As pessoas foram excecionais.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Com a paixão que tenho pelo desporto ia tentar ser professor de educação física.

Tuck e a filha Inês são voluntários da Refood, em Carnaxide

Tuck e a filha Inês são voluntários da Refood, em Carnaxide

D.R.

Qual a sua maior ambição enquanto treinador?
Ter sucesso na profissão e conseguir um trajeto bom para conseguir treinar um clube da I liga e depois manter-me muitos anos lá.

A pior partida que lhe fizeram?
Como eu era dos que fazia mais, se calhar eles tinham medo que eu lhes fizesse.

Então qual foi a pior que fez?
Foi pegar nas chaves do carro de um colega, tirar-lhe o carro do sítio e depois ele andar à nora. Também já pus carros à venda de colegas, eles depois fartavam-se de receber telefonemas. Meter espuma nos sapatos, mas isso também me fizeram.

A sua mulher voltou a trabalhar?
Sim, ela trabalha como assistente operacional numa creche.

E os seus filhos fazem o quê?
A minha filha está a terminar fisioterapia e o meu filho terminou Economia e o ano passado terminou mestrado em gestão desportiva, mas ainda não conseguiu entrar no mercado de trabalho. Ele ainda jogou até aos 17 anos mas depois viu que seria melhor ir para outros campos.

O que lhe dá mais prazer fazer nos tempos livres?
Se puder vou ver jogos de futebol. Depois é ler. Há uma semana acabei de ler o “O Tatuador de Auschwitz”. E outro livro que já li duas vezes foi o Equador do Miguel Sousa Tavares. O livro apaixonou-me, tem uma sensibilidade muito boa. E há uma coisa que gosto muito também: faço voluntariado. Sempre tive vontade de ajudar, acho que devemos dar-nos um bocadinho aos outros e tentei procurar uma associação que se enquadrasse nos meus valores humanos. Encontrei a Refood, que é uma associação que serve para ajudar quem tem dificuldades económicas. Mas tem uma coisa que para mim foi fundamental, com todo o respeito por todas as outras instituições, é que não gira dinheiro na Refood, ela trabalha só com os excedentes dos parceiros, principalmente restaurantes, supermercados, padarias e pastelarias. Os voluntários têm três formas de ação: a recolha, a preparação e distribuição das refeições/produtos alimentares. A distribuição e a quantidade é feita em função de cada agregado e respectivas idades. Eu faço este voluntariado há três anos em Carnaxide, uma vez por semana. São cerca de duas horas por semana. Felizmente a minha filha, que foi comigo uma ou duas vezes começou a gostar, e também faz.