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A casa às costas

“O Pepe estava com o Cristiano e micou-me: ‘O puto é tuga, é do Jorge Mendes, vamos lá’. É um sarrafeiro, mas um paz de alma, bom coração”

Na segunda parte deste "A Casa às Costas", o filho de emigrantes Pedro Mendes conta que emigrou para jogar lá fora: Suíça, Espanha e França, onde atua agora pelo Montpellier. E guarda um momento para elogiar Pepe, que inesperadamente o surpreendeu no balneário do Real Madrid

Alexandra Simões de Abreu

Marco Luzzani

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Foi uma sensação estranha aterrar na Suíça, sabendo que nasceu lá?
Foi curioso porque estava a fazer o sentido inverso do meu percurso de vida. Suíça, mais para a frente vou para Espanha e inclusive, antes Real Massamá. Ou seja, estava a passar pelos sítios onde já tinha vivido enquanto criança, enquanto adolescente e isso foi bastante engraçado. Cheguei lá com uma grande ilusão, e posso admitir agora que me fartei de chorar porque foi aí que me caiu a ficha. Foi a primeira vez que, aí sim, saía do ninho e da zona de conforto.

Ficou a viver sozinho?
Fui viver sozinho. Disseram-me, tens casa e carro pago. Quando chego à casa, vejo uma moradia, e penso: “sim senhor, isto é que é, só para mim, estão mesmo a investir bem em mim”. O roupeiro que estava comigo disse-me: “Não, ainda não é aqui". Começamos a subir as escadas, vou para abrir uma porta: "Não, aqui é o primeiro andar, tu és lá em cima". Era uma moradia, mas havia várias casas lá dentro e eu pensava que era tudo para mim [risos]. Quando chego lá acima, ao 3º andar, era um sótão. Uma sala/ quarto, uma casa de banho, deviam ser uns 20 metros quadrados no total. Muito velho por dentro, a cama era um armário, se levantássemos fazia de armário, se abrisse fazia de cama. Estava habituado a ter a minha própria casa, já mais moderna, o meu próprio espaço, foi um choque.

Que tal o João Alves?
Com o João Alves criei um laço forte. Tínhamos um grupo bastante coeso e muito engraçado. O João Alves também participava, os jogadores achavam muita piada ao sotaque dele, o francês com pronúncia portuguesa.

O Pedro sabia falar francês?
Na escola comecei por optar pelo inglês mas como não dava uma para a caixa mudei para francês e não sei porquê adaptei-me melhor. E ainda me lembrava de algumas coisas que tinha aprendido, fui começando a arranhar o francês e entrosei-me logo.

Havia outros portugueses na equipa?
Estavam o André Soares e o Saná e havia três filhos de emigrantes portugueses que falavam francês e português.

O futebol era muito diferente do que estava habituado em Portugal?
Sim, para já era II Divisão, havia uma variedade enorme de culturas porque a Suíça tem bastantes imigrantes, sérvios, bósnios, romenos, árabes, brasileiros, portugueses, espanhóis, uruguaios e isso fez-me crescer bastante. Enquanto em Portugal na IIB apanhamos maioritariamente portugueses e alguns brasileiros, na Suíça havia uma mescla de tudo.

Correu-lhe bem a época?
Bastante bem, fomos campeões, subimos à I Divisão. Foi uma festa enorme, eu não pude presenciar porque tinha sido chamado aos Sub-21 e recordo-me que quando havia seleção, o nosso campeonato não parava. Ou seja, eu tinha de optar ou ia à finalíssima com o meu clube, ou ia à seleção, onde tinha acabado de chegar o Rui Jorge. Optei pela seleção, claro. Acabámos por ser campeões, subimos mas eu falhei a festa.

Já sabia que só lá ia ficar só um ano ou não?
Sabia que aquilo era um momento de passagem. Supostamente era um empréstimo e eu pensei, como as coisas correram muito bem, que ia continuar, mas havia sempre a história do Sporting, o contrato era de um ano, portanto eu teria de regressar ao Sporting e negociar um novo empréstimo, uma nova renovação de contrato.

O que aconteceu a seguir?
Apareceu o Real Madrid. Nunca pensei, nem queria acreditar. Fizemos um brilharete na Suíça, já há muitos anos que o Servette não subia. O Jorge Mendes falou com o José Mourinho, avaliaram, gostaram e decidiram avançar. Mas para isso teria de renovar mais um ano com o Sporting, foi o que aconteceu.

Mas primeiro vai para o Real de Madrid B.
Sim, a intenção era ir para o Castilla, mas claro isso depois dependia de mim, se fosse um fenómeno, como aconteceu com o Fabinho por exemplo, ele começou no Castilla e a seguir foi para a equipa principal.

Como foi essa experiência em Madrid? Foi melhor do que a Suíça?
Foi melhor em todos os aspetos, mesmo no negativo foi melhor, porque tirei grandes lições de coisas que se foram passando no Real Madrid.

Como por exemplo?
Primeiro, passei do oito ao oitenta, em termos de dimensão, em termos de condições, em termos de estatutos, de egos, de ver os melhores do mundo logo ali ao lado. Depois, um grande peso de ter como empresário o Jorge Mendes. Começou logo a haver burburinho, do género, mais um que fazia parte do clã Mendes, mais um português... As pessoas dizem que os espanhóis são “nuestros hermanos”, mas há uma grande rivalidade, pelo menos no futebol. Eu vi o Cristiano Ronaldo ser assobiado em pleno Santiago Bernabéu. Porque não haveriam de ser assobiados outros jogadores como o Coentrão, eu ou o Pepe, se o melhor do mundo era assobiado quando não marcava golos? Punham logo em questão o trabalho dele e o profissionalismo e que ele este ano não está bom... Mas quando eles diziam isso, a máquina de fazer golos lá marcava, e eles tinham de engolir o que diziam. Mas pronto, ao início passei um bocado mal.

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