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A casa às costas

“O Astori não apareceu naquela manhã e o Gil Dias acordou-me: 'Ele morreu'. Fiquei sem reação, até ouvir os choros e os gritos no corredor”

Na segunda parte de "A Casa Às Costas", Bruno Gaspar recorda uma manhã trágica na Fiorentina em que a equipa perdeu um capitão de equipa adorado e seguido por todos. E também relembra passagens pelo Sporting, a admiração por Keizer, a relação com Pedro Martins no Olympiacos e a viagem para a América

Alexandra Simões de Abreu

Gabriele Maltinti

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A propósito, como é que surge a Fiorentina?
A Fiorentina surgiu dois ou três meses antes da época acabar. O meu empresário, que já é o atual, o Carlos Gonçalves, falou-me da Fiorentina e de outro clube francês, mas eu disse logo que queria ir para Itália. Agradava-me mais a ideia do campeonato italiano e de viver em Florença. E o contrato também era um pouco melhor.

O seu filho nasceu em Itália ou em Portugal?
Eu fui para Itália sozinho, mas o clube deu-me a autorização para viajar até Portugal para assistir ao parto. Cortei o cordão e tudo.

Como foi o embate em Itália?
Os italianos são muito diferentes dos portugueses, não são tão dados. Enquanto em Portugal quando chega um jogador estrangeiro os portugueses metem-no logo na mesa deles e à vontade, o italiano não dá tanta abertura, tens de ser tu a ir ter com eles. Mas tive a sorte também de ter o Davide Astori, que era o nosso capitão e que me ajudou imenso na chegada a Itália, tanto para comprar carro, como qualquer coisa que eu precisasse de comprar, ele fazia questão de me ajudar. O Astori era muito importante nesse sentido, fazia-nos sentir como se tivéssemos chegado ao clube há mais tempo, deixava-nos à vontade.

O futebol italiano era o que estava à espera?
Sim, muito físico, muito posicionamento, muito tático.

Isso agradava-lhe?
Eu gostava daquele tipo de jogo. Acho que cresci muito taticamente devido a eles. O treinador, Stefano Pioli, ajudou-me muito a crescer no sentido tático e a ser um jogador mais responsável dentro de campo.

Havia mais jogadores portugueses na equipa?
Havia o Gil Dias que hoje está no Famalicão e o Vítor Hugo que é brasileiro que agora joga no Trabzonspor.

O que mais o marcou nessa temporada?
A morte do Astori. Tínhamos um jogo em Udine e estávamos a jantar no hotel, tudo normal e no dia a seguir o Astori não apareceu para o pequeno almoço.

Como soube da notícia?
Na Fiorentina tomávamos o pequeno almoço das nove às dez. Eu e o Gil fomos logo no início do pequeno-almoço e voltamos ao quarto para dormir outra vez. Estou a dormir e o Gil de repente acorda-me e diz-me "Bruno acorda, o Astori morreu". Acordei mas acho que não consegui interiorizar a notícia logo. Ele diz-me aquilo e eu fiquei sem reação até que começo a ouvir os choros e gritos no corredor. A partir daí é que comecei a ter noção daquilo que me estavam a dizer e fui ao corredor onde estavam todos a chorar e a gritar. Ninguém estava à espera que aquilo acontecesse.

Mexeu muito com a equipa, obviamente. O que mudou no resto da época?
Esse jogo foi adiado mas no fim de semana seguinte tivemos de jogar. Na altura, quando aconteceu, fomos para casa, tivemos o funeral e desde aí que falámos entre todos que daí em diante tinha que ser pelo Astori. Lembro-me que estivemos cerca de oito jogos, se não me engano, sem perder. O objetivo era muito claro, deixávamos tudo em campo e tudo era feito por ele. O grupo ficou de alguma maneira fortalecido e houve muita entreajuda para superar esse momento difícil.

Não continua na Fiorentina porquê? Só tinha assinado por um ano?
Não, eu tinha assinado por quatro ou cinco anos, mas não estava a jogar muito.

Porquê?
Não me estava a dar muito bem com o futebol italiano porque era muito físico e sentia que não tinha a mesma capacidade física que eles. Entretanto surge o Sporting e eu disse que queria voltar para Portugal.

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