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A casa às costas

“Antigamente os sócios iam ver os treinos e o Allison, quando via que estavas a facilitar, chegava ao pé de ti e só dizia: "Don't fuck me"

Na primeira parte desta entrevista à Tribuna Expresso, Carlos Xavier recorda a infância passada em África, onde começa a paixão pelo desporto, e o início da carreira de jogador já em Portugal, para onde veio viver com os pais e irmãos, aos 12 anos. Depois do Casa Pia e da chegada ao Sporting, lembra a ida forçada para a Académica, em 1986/87, onde jogou com o irmão gémeo Pedro Xavier, e os anos em Alvalade, antes de rumar Espanha

Alexandra Simões de Abreu

Nuno Botelho

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Nasceu em Moçambique. Filho de quem, quantos irmãos, o que faziam os seus pais?
Nasci em Lourenço Marques, para mim vai ser sempre Lourenço Marques, nunca hei-de chamar Maputo. Filho de um Carlos também e de uma Maria do Céu, cujos nomes de guerra são o Beco e a Babi. A minha mãe nasceu na Índia porque o meu avô era militar e andava nas colónias e na altura ele estava na Índia. O meu pai era aluno casapiano, conheceu e namorou a minha mãe cá, porque ela entretanto veio para Portugal. O meu pai jogava futebol no Casa Pia e o meu avô, que também era casapiano, disse-lhe: "Se quiseres casar com ela tens de ir para Moçambique". Embarcaram, o meu pai foi jogar para lá, casaram-se e nascemos todos em Moçambique, eu, o Pedro e o Paulo.

Quem é o mais velho?
Sou mais velho cinco minutos do que o Pedro [risos]. O Paulo tem menos seis anos.

Em Moçambique o seu pai jogou futebol em que clube?
No Benfica Lourenço Marques e também no 1º de Maio, salvo erro.

A sua mãe fazia alguma coisa profissionalmente?
A minha mãe sempre foi ligada às artes. Fez uma série de coisas ligadas às artes. Ainda hoje, com 87 anos, pinta. Anda a fazer coretos espetaculares. Fazia muito mapas/ cartografia. Sempre esteve ligada às belas-artes. Só que nenhum dos três filhos herdou esse jeito, só para os pés [risos].

Quando era puto era muito reguila?
A minha mãe diz que nós não parávamos quietos, ainda por cima em Moçambique não havia televisão, andávamos sempre na a rua e fazíamos tudo o que era desporto, pulávamos muros, subíamos às árvores para comer mangas. E lembro-me de jogar muito basquete. Porque toda a gente tinha um cesto de basquete em casa ou na rua. Jogava pouco futebol. Há uns anos até perguntei ao meu país se a gente jogava futebol. "Então não jogavam? Ias para a praia com o teu irmão jogar de baliza a baliza, ficava tudo a olhar para vocês". Como nos habituámos a fazer desporto na rua, tínhamos uma boa coordenação e então fazíamos tudo. Fiz judo, hóquei, natação, tinha jeito. Tínhamos coordenação, que é o que faz falta hoje aos miúdos porque não saem de casa.

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