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A casa às costas

“Na Bulgária, logo após uma derrota, o presidente mandou-nos para o campo chutar à baliza, com neve e temperaturas negativas”

Nesta segunda parte, Arsénio, o 'Cenourinha' do FC Arouca, recém chegado à I Liga, conta as aventuras que viveu em dois clubes da Bulgária, com o mesmo presidente, e as impressões com que ficou da Arábia Saudita. Pelo meio ainda houve um regresso ao Moreirense, do qual se tornou verdadeiro adepto. Casado de fresco com a mulher com quem vive há 11 anos, conta que tentava imitar Messi e que um dia quer ter um restaurante de peixe fresco

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Vai para a Bulgária em 2015, porquê? Porque queria sair ou porque foi o melhor que apareceu?
Na altura foi a proposta que apareceu, eu tinha mais um ano de contrato com o Moreirense, mas eles não queriam renovar comigo nem aumentar o salário. Eu preferia ficar cá. O clube não se atravessou por mim porque também ia receber dinheiro, acho que na altura foram quase 200 mil euros de transferência. O clube ganhava dinheiro comigo, eu ia ganhar mais algum dinheiro, foi bom para todas as partes. Eu também fiquei com aquela expectativa, por ser um clube que ia disputar o apuramento da Liga Europa, e decidi arriscar.

Como foi o primeiro impacto quando chegou à Bulgária?
Foi algo difícil. Fui para uma cidade um bocado feia [Lovech]. Mas depois correu tudo bem, as pessoas foram muito amáveis comigo, o clube nunca faltou com nada e foi uma boa experiência. Fui com a minha mulher e com a nossa cadela Bulldog francês, que se chama Wendy.

Quando chega ao Litex Lovech o treinador é o Balakov, que jogou no Sporting?
Exatamente. O meu pai falava muito dele e por isso eu lembrava-me que ele tinha passado pelo campeonato português.

Que tal ele era como treinador?
Não deu para conhecer muito, estive 15 dias com ele porque depois falhámos o apuramento para a Liga Europa, e ele vai logo embora. Mas daquilo que privei com ele era uma pessoa espetacular, falava com os jogadores cara a cara, era amigo, falava português perfeito connosco, na altura estava lá o Diogo Viana também e mais uns sul americanos e ele falava muito bem connosco, gostava muito de nós, foi uma boa experiência, foi pena não ter durado muito.

Arsénio chegou ao Litex Lovech, da Bulgária, em 2015/16

Arsénio chegou ao Litex Lovech, da Bulgária, em 2015/16

D.R.

O futebol búlgaro era muito diferente daquilo a que estava habituado?
Sim, mais físico e muito menos tático do que aqui. Tecnicamente um pouco pior jogado, digamos assim, um futebol que não era tão bonito. Mas a nossa equipa tinha bastantes jogadores estrangeiros que davam muita qualidade ao campeonato.

Sofreu muito com o frio? Que tal foi jogar na neve?
Aquilo a partir de finais de novembro começa a esfriar muito, depois começa a nevar e jogar com neve é horrível [risos]. Parece que estamos a correr no cimento, sempre a escorregar e é muito frio.

O que fazia nos tempos livres?
Às vezes íamos passear para uma rua grande em que não passavam carros, mas não tinha grande coisa, íamos ao café ou ficávamos em casa a ver filmes. O bom daquela cidade era que nos obrigava a focar só mesmo no futebol e não pensávamos em mais nada. De vez em quando também íamos a Sofia, à capital, que ficava a hora e meia. Passávamos lá os dias de folga e aproveitávamos para ir comer em restaurantes melhores.

A festejar um golo pelo Litex Lovech

A festejar um golo pelo Litex Lovech

D.R.

Entretanto, como se dá a ida para o CSKA de Sofia?
O presidente do Litex é adepto ferrenho do CSKA, que atravessava uma crise e ele comprou o clube, pegou na licença do Litex e pôs no CSKA, ou seja, basicamente estávamos a jogar no mesmo clube, mas que mudou de nome. Uma confusão que até teve uns contornos complicados, chegou a ir para a FIFA e para os tribunais.

Mas mudaram-se para Sofia.
Sim, mudamos tudo para Sofia e começamos a jogar pelo CSKA de Sofia, mas o plantel era praticamente o mesmo, houve umas contratações mas de resto era tudo igual.

Houve algum treinador que o tivesse marcado mais nesses dois anos na Bulgária?
Apanhei um treinador romeno, o Reghecampf, que chegou a treinar o Steaua de Bucareste e era um treinador diferente, muito físico, mas incutiu-nos um espírito muito bom. Depois apanhei o Lyuboslav Penev, que foi um grande avançado búlgaro que passou por Espanha, no Atlético de Madrid e no Valência, quase uma lenda desses clubes, e que era totalmente diferente, era um treinador que gostava mesmo que tivéssemos bola e que arriscássemos. Era um treinador mais do espectáculo. Foram os dois treinadores que me marcaram mais na altura.

Ainda na Bulgária, Arsénio jogou no CSKA de Sofia

Ainda na Bulgária, Arsénio jogou no CSKA de Sofia

D.R.

Não se lembra de nenhum episódio caricato que tenha vivido nesses dois anos na Bulgária?
A propósito do frio e da neve, no CSKA de Sofia, uma vez perdemos um jogo em casa, no último minuto, e chegamos ao balneário cabisbaixos, chateados com o resultado porque tínhamos perdido com uma equipa pequena. Era inverno, havia neve e temperaturas negativas, quando chegamos ao balneário queríamos despir rápido para tomar banho quente e trocar de roupa. Estamos a tirar as botas e nisto entra um diretor: “O presidente diz para ninguém se desequipar, é para irem todos para o campo outra vez fazer remates à baliza que vocês não marcam um golo, têm de treinar mais”. E foi toda a gente para o campo, o estádio vazio, temperaturas negativas e nós ali a chutar à baliza durante uma hora. Um frio danado [risos]. Mas, mais caricato e que não estava à espera foi o que aconteceu no primeiro ano em que cheguei à Bulgária, ao Litex Lovech.

Conte.
Fomos para o primeiro jogo da eliminatória de apuramento para a Liga Europa, era Balakov o treinador, eu tinha acabado de chegar à equipa. O jogo era na Letónia, estivemos quase a ganhar até final, mas eles empataram. Vínhamos um pouco tristes porque podíamos ter feito mais, embora estivéssemos na frente da eliminatória. Entretanto, estamos no aeroporto para voltar para a Bulgária e o presidente do clube manda-nos entrar para a loja Duty Free. “Vai, escolhe o que quiseres, escolhe o que quiseres”. Era a primeira vez que estava com ele e disse: “Mas eu não quero nada, não preciso de nada” e ele: “Não. Toda a gente tem de levar qualquer coisa. Vai escolher um perfume, qualquer coisa”. Então basicamente toda a comitiva teve de entrar na loja e levar um perfume ou outra coisa e ele estava na caixa só a mandar passar para depois pagar no final [risos]. Eles eram assim, muito espontâneos e boas pessoas.

A festejar um golo pelo CSKA fazendo referência à gravidez da mulher

A festejar um golo pelo CSKA fazendo referência à gravidez da mulher

D.R.

Porque é que regressa ao Moreirense?
A minha mulher engravidou, nesse último ano em que estivemos na Bulgária e eu meti na cabeça que não queria mais, estava muito desgastado porque na Bulgária passavam-se coisas absurdas.

Que tipo de coisas?
No dia a dia faltava sempre alguma coisa, íamos treinar e às vezes não tínhamos sítio para treinar. Uma vez, estávamos a treinar e as mulheres começaram a ligar-nos - nós vivíamos todos dentro do mesmo condomínio, estávamos lá cinco portugueses -, para dizer que tínhamos ficado sem luz. Eles não tinham pago a luz e desligaram. Era esse tipo de coisas. Eles não faziam por mal, mas aconteciam e aquilo ia desgastando.

Alguma vez teve ordenados em atraso?
Não. Sempre pagaram tudo certinho. Basicamente havia um bocado de desleixo às vezes, era o deixa andar. Tínhamos de andar em cima deles, passa-se isto e isto e eles: “Ah desculpem, nós vamos pagar”. E eu também meti na cabeça que queria que a minha filha nascesse em Portugal. Tinha mais um ano de contrato mas pedi-lhes para ficar cá. Foi aí que apareceu outra vez o Moreirense.

Regressa a Guimarães?
Não, fiquei a viver em Esposende, que já cá tinha casa. A minha filha, Leonor, nasceu em setembro, no hospital de Braga.

Assistiu ao parto?
Assisti, ainda foram algumas horinhas de trabalho de parto, mas correu tudo bem. Lembro-me que ela nasceu numa sexta feira às oito e um quarto da noite, eu ainda fiquei lá quase até à uma da manhã, e no dia a seguir tínhamos viagem para Lisboa porque íamos jogar no Estoril, no domingo. Foi um bocado tudo à pressa [risos].

Arsénio vive com Juliana há 11 anos, mas só casaram em 2021

Arsénio vive com Juliana há 11 anos, mas só casaram em 2021

D.R.

Quem era o treinador do Moreirense na altura?
Era o mister Manuel Machado que faz 10, 11 jogos e vai embora, não tínhamos muito bons resultados e vem o mister Sérgio Vieira que também faz oito, nove jogos e depois vem o mister Petit, que acabou a época. Conseguimos a manutenção com ele.

Dos três com qual é que se entendeu melhor ou de qual é que gostou mais enquanto treinador?
Todos eles são diferentes, mas aquele de que gostei mais a todos os níveis, foi o Petit. Tem uma ligação muito grande com os jogadores e a nível de trabalho foi melhor.

A época seguinte é com o Ivo Vieira.
Até hoje penso que foi o melhor treinador que apanhei em termos de ideias e de aprendizagem. Foi o ano em que aprendi mais e tenho de lhe agradecer muito.

Quando fala em aprendizagem, refere-se a quê?
Às vezes pensamos que sabemos tudo, mas o futebol tem muita coisa. Com o Ivo Vieira aprendi a posicionar-me melhor, aprendi a pressionar bem, esse tipo de coisas que muitas vezes nos desgastam durante o jogo. Como aprendi mais sobre isso, estava mais disposto fisicamente para ajudar a equipa noutros processos.

Porque é que só resolveu tirar a carta de condução aos 29 anos?
Quando a minha filha foi para a creche era uma logística muito complicada, eram os meus pais, a minha mulher, todos a desdobrar-se e eu pensei: “Tenho mesmo de tirar a carta”. Inscrevi-me e em três meses tirei a carta, foi das coisas mais fáceis que fiz na minha vida [risos]

Arsénio (à esquerda) voltou ao Moreirense na época 2017/18. Aqui com Arnold Issoko do V. Setúbal.

Arsénio (à esquerda) voltou ao Moreirense na época 2017/18. Aqui com Arnold Issoko do V. Setúbal.

Gualter Fatia

Mas acaba por ir para Arábia a seguir. Porquê?
Depois dessa época com o Ivo Vieira, em que fizemos o 6º lugar no campeonato, com os mesmos pontos do Vitória, que ficou em 5º, eu entro em final de contrato com o Moreirense. O Moreirense nunca me fez uma proposta de renovação, eu era o capitão e posso dizer que hoje é o único clube de que sou adepto porque passei lá coisas incríveis. Mas não me fizeram nenhuma proposta e apareceu-me o Jorge Simão, com quem já tinha trabalhado no Belenenses, que me quis levar para o Al-Fayah da Arábia Saudita.

Foi com a família?
Não, fui sozinho. Foi uma coisa completamente diferente, mas as pessoas trataram-me muito bem, nunca faltou nada, o clube pagou tudo.

A nível cultural houve alguma coisa que o tenha chocado mais?
O facto de as famílias comerem separadas das outras pessoas. Se estivéssemos só homens a jantar podíamos estar normalmente no restaurante. Se eu fosse com a minha mulher, já tinha que estar numa salinha; eles têm compartimentos com cortinas ou portas, ou seja, uma parte separada só para eu estar com a minha mulher. E se vai outro jogador com a mulher tem de estar separado noutra parte. Isso foi um choque grande. Mas depois habituamo-nos e agimos naturalmente. Eles respeitam-nos, nós respeitamo-los e as coisas fluem normalmente. Para os momentos das rezas eu já estava preparado, já sabia. Muitas vezes quando íamos para estágio, a viagem era adiada 40 minutos porque eles tinham de rezar antes, o treino parava para eles rezarem, esse tipo de coisas. Mas gostei muito da maneira de serem e como me trataram. A minha mulher em janeiro foi visitar-me e os diretores do clube estavam sempre a convidar-nos para irmos a casa delas, ofereciam-nos jantares; as pessoas estavam sempre a perguntar se a minha mulher e filha estavam bem.

Rúben Lima, Chiquinho, Pedro Nuno e Arsénio, num treino do Moreirense, em 2018/19

Rúben Lima, Chiquinho, Pedro Nuno e Arsénio, num treino do Moreirense, em 2018/19

D.R.

Como se deu com a gastronomia local?
Bem. Quando havia jantar de equipa, normalmente faziam aquele prato típico, em que vem o arroz e o cordeiro, e às vezes camelo. Sentamos todos à volta do prato e começamos a comer à mão. É uma experiência engraçada, mas para fazer uma vez [risos] . Para fazer sempre confesso que para mim é um hábito sujo, não quero desrespeitar obviamente, mas eu detesto comer com as mãos. Mas comia com eles na mesma, naturalmente, porque são hábitos que temos de respeitar.

Qual foi o hábito com o qual sentiu mais dificuldade?
Eles não usam muito o balneário. E eu gosto muito do balneário, daqueles minutos antes do treino, antes do aquecimento, do pessoal estar ali, a falar, a brincar, mas eles não usam o balneário para nada. Chegam equipadas de casa, mal acaba o treino vão embora e não se criou um espírito de grupo. Isso foi se calhar uma das coisas mais negativas.

E o futebol?
É completamente diferente da Bulgária, têm muita qualidade técnica, são jogadores que a nível físico correm muito, são rápidos, só que depois não trabalham muito para a equipa, são mais preguiçosos. Mas conseguia-se jogar melhor do que na Bulgária porque eram jogadores muito mais refinados a nível técnico.

E o calor, suportava-o bem?
[Risos] Eu nunca saía quando estava sol. Treinávamos praticamente à noite, com temperaturas de 38, 39 graus, era abafado mas não tínhamos o sol em cima de nós. Se durante o dia tinha que sair para ir ao supermercado ou mesmo para almoçar, chegava ao carro e tinha 50 graus, era horrível, horrível mesmo.

O Jorge Simão não ficou a época toda no clube pois não?
Não, a três jornadas do fim saiu, estávamos a lutar para não descer. Depois assumiu um treinador árabe [Yousef Alghadeer], mas era um treinador interino.

Já sabia que só ia ficar uma época?
Sim, eu tinha um ano de contrato e eles tinham opção, mas também não exerceram. Se o Jorge Simão tivesse ficado, talvez tivesse tido a hipótese de ter renovado, mas quando sai também percebi que, como tinha sido contratação dele, provavelmente não ficaria.

Veio embora na altura da pandemia?
Sim. Estava previsto o campeonato acabar no final de maio, eu tinha casamento marcado para início de junho. Eles têm o Ramadão e o campeonato pára quase um mês por causa do Ramadão e aquilo praticamente não se vive, é mesmo ficar fechado em casa; e nessa altura em que está quase a começar o Ramadão surgiu a pandemia. Eles também pararam o campeonato, ficamos um mês e meio fechados num hotel. Eu saía um bocado à socapa com o preparador físico, mais um ou outro jogador, para ir treinar ao complexo porque era impossível ficar o dia todo fechado no hotel. Entretanto a federação lá nos deixou vir e adiaram o campeonato por tempo indeterminado. Lembro-me que cheguei a meio de abril a Portugal e regressei à Arábia no final de junho, fizemos pré-época e recomeçou em agosto o campeonato.

Ainda termina o campeonato?
Sim, só depois é que vim embora.

Arsénio foi para o Al-Fayha, da Arábia Saudita, em 2019/20

Arsénio foi para o Al-Fayha, da Arábia Saudita, em 2019/20

D.R.

Quando regressou já havia o interesse do FC Arouca?
O Arouca é uma relação diferente porque eu conheço o Joel Pinho, filho do presidente, há alguns anos. A minha mulher estudou com a namorada dele, são amigas há bastantes anos e eu sempre tive uma relação fora do futebol com ele. Ele estava sempre a chatear-me: "Anda para o Arouca, anda para o Arouca". Na altura que venho da Arábia, a meio de setembro, queria continuar fora do país e estava à espera de algumas coisas. Não apareceu e entretanto eu estava a seguir os jogos em Portugal e comecei a ver o Arouca e a gostar da maneira deles jogarem. Liguei ao Joel: "Acho que estou preparado, vamos falar". Reunimos, acertamos as coisas em pouquíssimo tempo e comecei a jogar em janeiro.

Correu bem ao clube e a si já que subiram à I Liga.
Sim, acabou por correr tudo bem, tínhamos uma boa equipa, bons jogadores, foi dos melhores grupos que apanhei no futebol. Conjugaram-se ali vários fatores que ajudaram a termos muito sucesso.

O Evangelista, que tal?
Gostei muito de trabalhar com ele. Muito mais calmo e ponderado de todos os outros que apanhei, mas muito bom treinador, com boas ideias e potenciou-nos ao máximo.

Fica no FC Arouca até quando?
Na altura em que assinei com o Arouca disse que queria fazer um contrato longo, se era para ficar em Portugal, queria ter essa estabilidade. Assinei por dois anos e meio, portanto, neste momento tenho mais dois anos de contrato.

Está feliz com a sua opção?
Sim, porque também estou perto da família, fiquei a viver em Arouca, arranjei lá uma casa, a minha esposa está a trabalhar no hospital de Barcelos, é enfermeira. Eu vinha várias vezes a casa, elas muitas vezes iam lá, a vila é espetacular, muito calminho, come-se muito bem, faz-se tudo a pé, conhece-se toda a gente e estou a gostar muito de estar lá.

Quais são as suas perspetivas para estes dois anos?
A perspetiva do Arouca enquanto clube tem de ser a estabilidade na I liga, não cometer os erros que cometeu no passado e depois disso, talvez pensar noutro tipo de coisas. Mas neste momento tem de passar só pela manutenção e por estabilizar o clube que viveu momentos um bocado abruptos nos últimos anos. A nível pessoal espero poder ajudar o clube, contribuir com golos e assistências.

A festejar uma vitoria do Al-Fayha, com Nuno Santos, treinador de guarda-redes

A festejar uma vitoria do Al-Fayha, com Nuno Santos, treinador de guarda-redes

D.R.

Ao longo da sua carreira, alguma vez foi chamado a alguma seleção?
Aos Sub-19, na altura em que estava no Leixões, era Agostinho Oliveira o selecionador. Fui aos estágios praticamente todos durante a época e depois fiz um jogo com a Espanha, foi a única vez que joguei por uma seleção.

Essa é a maior frustração na carreira, não ter representado a seleção A?
Talvez seja, não o facto de não ter jogado mais nas seleções, mas o facto de eu, nesse jogo, não ter desfrutado. Acho que me arrependo disso, acho que devia ter desfrutado mais do jogo.

Mas porquê, estava muito nervoso?
Talvez estivesse um pouco nervoso, mas não me recordo bem, tenho um bocado de flashes desse jogo, talvez fosse nervosismo, não sei.

Tem seguido a seleção neste Europeu 2020?
Claro. Vejo sempre os jogos com a camisola da seleção vestida. No meu segundo ano na Bulgária, foi o Europeu de 2016 e, no aeroporto, eu e o Diogo Viana compramos uma camisola cada um, do Ronaldo. Todos os jogos que víamos, vestimos a camisola, depois no estágio pendurámos a camisola na varanda. Fomos campeões da Europa, sempre com a camisola vestida e desde aí que uso a camisola para ver os jogos da seleção.

É um jogador com esse tipo de superstições?
Às vezes tenho algumas, mas basicamente são hábitos, fiz isto naquele jogo, vou fazer igual. Mas é quando me lembro.

Qual é a sua ideia depois destes dois anos de contrato? Pendurar as chuteiras ou quer continuar a jogar?
Não tenho nenhuma meta para deixar de jogar, acho que vou vendo o que o meu corpo vai dando. Quando sentir que não posso mais, tenho que ter consciência de que acabou. Não tenho metas definidas, se é aos 34 ou 35, o que seja, é mesmo até onde der.

Arsénio trocou a Arábia pelo FC Arouca da II Liga, em 2020/21, e subiu à I Liga

Arsénio trocou a Arábia pelo FC Arouca da II Liga, em 2020/21, e subiu à I Liga

D.R.

Sente-se satisfeito com a carreira que fez?
Sinto que tenho feito uma carreira muita boa, porque em todos os clubes em que estive atingi os objetivos que era para atingir, alguns deles até foram superados. Tenho quatro subidas de divisão no currículo e três delas à I liga, ou seja, sinto-me muito orgulhoso daquilo que fiz. Gostaria obviamente de ter participado mais em provas europeias, por exemplo, ou de ter jogado na seleção, mas...

O que falhou para não ter conseguido singrar mais na I liga portuguesa, por exemplo?
Acho que sou de uma geração, e tenho alguns colegas que também lhes aconteceu o mesmo, que não teve tantas oportunidades. Comecei na III Divisão e quando cheguei à I Liga tinha 24, 25 anos. Não sou velho, obviamente que não. Mas hoje vemos jogadores que, aos 19, 20 anos, já estão na I Liga porque tiveram oportunidade logo no 1º ano de seniores de jogar na II Liga, por exemplo, numa equipa B, a nível profissional. Na minha geração isso não acontecia, não tínhamos essas oportunidades. Era raro o jogador que tinha. Acho que foi um bocadinho por aí, mas não tenho mágoa de nada, fiz a carreira que tinha de fazer, vim de baixo, a pulso, aquilo que conquistei foi pelo meu trabalho e não devo nada a ninguém. Só devo a mim e aos colegas que me ajudaram.

Há algum jogador que seja uma espécie de referência ou com quem se ache mais parecido?
Eu gostava de bastantes jogadores quando era miúdo, gostava muito do Roberto Baggio, ainda hoje vejo alguns vídeos dele, era um jogador requintado. Com o passar dos anos, diziam-me às vezes que tinha um bocado o estilo do Messi. Já fui mais rápido do que agora, uma pessoa começa a ficar mais velha e também começa a ficar mais lento [risos]. Mas lembro-me que tentava imitar um pouco o Messi. Gosto muito do Ronaldo apesar de não ter as características dele. Agora, neste último ano, tinha alguns colegas que me diziam que parecia o De Bruyne, na maneira de jogar. Claro que são comparações que não têm nada a ver, mas são jogadores que gosto bastante de ver porque são muito bons jogadores.

Já pensou no futuro pós carreira?
Tenho algumas ideias. Não gostaria muito de ficar ligado ao futebol.

Porquê?
Porque é um mundo que começa a fartar. Com o passar dos anos vamo-nos apercebendo de algumas coisas que se passam no futebol, do jogo de interesses.

Que tipo de interesses?
Aqueles jogos de interesses que há sempre, das pessoas do futebol e eu não gosto muito disso, nem gosto de me chatear. O meu objetivo era ter a independência de poder chegar ao fim e fazer o meu próprio negócio, uma coisa que eu gostasse, acabar o curso e montar o meu negócio.

Que tipo de negócio?
O meu avô é pescador e o que eu queria mesmo era ter um restaurante só de peixe. Isso ainda é uma coisa que está muito no papel, mas que avançar pode daqui a uns anos. Se não, gostava de estar ligado à atividade física.

Como PT?
Não, ainda não sei bem, mas se calhar noutra vertente, trabalhar mais com miúdos. Gosto muito de trabalhar com miúdos, de ensinar, de passar conhecimentos. Neste momento não me vejo a ser treinador de futebol, vejo-me mais por exemplo a trabalhar como olheiro, empresário, diretor desportivo, vejo-me mais se calhar nesse tipo de cargos. Mas ninguém sabe o futuro e quem sabe se daqui a dois não poderei até a dizer o contrário e posso querer ser treinador? [risos].

Com a bola num jogo pelo FC Arouca, frente ao FC Porto B

Com a bola num jogo pelo FC Arouca, frente ao FC Porto B

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Arábia.

Já se meteu em algum negócio?
Não, só em imobiliário, comprei um apartamento e um terreno onde vou construir casa. Ando em vista também com mais algumas coisas, mas para já tenho de acabar o futebol para depois estar ligado a esse tipo de negócios e poder estar mesmo em cima disso.

Terminar o curso é um objetivo que mantém?
Sim, talvez não o curso original que comecei de Educação Física e Desporto, mas ao nível de gestão desportiva, uma coisa desse género.

Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
Neste momento gosto de passar tempo com a minha filha, quando chego a casa é uma alegria.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida porque sim, porque podia?
Uma mala para a minha mulher, caríssima [risos]. Sou muito poupado e foi uma coisa que me custou muito.

Costuma viajar?
Sim, gosto muito de viajar.

Qual o sítio que mais lhe encheu as medidas até hoje?
Estados Unidos, de Nova Iorque principalmente.

Tatuagens, tem?
Não. Gosto de ver nos outros mas nunca tive.

É um homem de fé?
Sim, apesar de não ser praticante. Sempre que posso vou a Fátima ou tento ir à igreja. Não são muitas as vezes, mas sempre que posso faço-o.

Já falámos um bocadinho nas superstições enquanto jogador de futebol, mas tem algum outro tipo de superstição na vida?
Uso um colar que foi a minha esposa que me ofereceu e que tem duas medalhinhas, uma que é da minha filha, outra de Fátima. Cada vez que o tiro, peço proteção e saúde para a minha família. Acho que é a única coisa que faço mesmo diariamente.

Qual foi o adversário mais difícil que encontrou até hoje?
O Grimaldo.

Segue ou pratica outro desporto além do futebol?
Gosto muito de seguir todos os desportos, principalmente o ciclismo, adoro ver ciclismo. Às vezes nas férias, com os amigos, fazemos umas voltas de bicicleta, subir o monte, ainda fazemos uns quilómetros valentes, uns 40/60 quilómetros.

Com a mulher e a filha, Leonor, no dia do casamento

Com a mulher e a filha, Leonor, no dia do casamento

D.R.

Qual o maior arrependimento que tem na vida?
Não tenho nenhum arrependimento. Estou feliz e tenho uma família feliz também.

Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
Diogo Viana, David Simão, Rúben Lima. Tenho também o Tozé, o Frederic que são daqui de Esposende com quem me dou muito bem. O Paulinho, o André Simões na altura do Moreirense, ainda hoje nos falamos e estamos muitas vezes juntos, o João Pedro também, o André Marques. Basicamente são estes com quem tenho uma maior ligação neste momento.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Barcelona. Na altura do Ronaldo e do Figo, era um clube de que gostava mesmo muito, o meu pai foi a Barcelona e trouxe-me artigos do Ronaldo e do Figo; uns anos mais tarde com o Esposende fomos a um torneio a Barcelona e eu conheci o estádio, o museu, comprei uma camisola, foi um clube que sempre me fascinou.

Tem ou teve alguma alcunha no futebol?
Às vezes chamam-me o ‘Cenourinha’, por causa da cor do cabelo, mas de resto só o ‘Seninho’ que toda a família me chama desde que nasci. Saio à minha mãe que também tem cabelo ruivo.

Qual o momento mais difícil na sua vida até hoje?
Mais difícil... Não sei, ainda não passei por nada muito difícil ligado à família, não perdi ninguém querido. Se calhar a fase mais difícil por que passei foi quando estive sem clube, porque já tinha a minha filha e pensava que sem contrato não podia se calhar dar um futuro bom à minha família. Foi o momento em que estive mais apreensivo.

Tem algum talento escondido?
Cantar não é de certeza [risos]. Gosto muito de cantar, mas não tenho talento.

Que opinião tem sobre a introdução do VAR no futebol?
É uma ferramenta que, se for bem utilizada, tem uma utilidade muito boa. Agora, depende sempre do critério de quem estiver a ajuizar, mas foi uma boa introdução no futebol e tem que ser utilizada com mais qualidade.

Se pudesse alterar uma regra do futebol, o que alterava?
Não alterava nada, o futebol está bem assim. Gosto de futebol no estado puro e sem artimanhas, sem inventar muito. É futebol, só futebol. Estou a falar do jogo. Agora se falarmos a nível de tudo no futebol, sei lá, possivelmente alterava as comissões, porque esse tipo de interesses só faz com que os empresários ou mesmo os clubes muitas vezes queiram tirar o jogador do clube para receberem mais dinheiro. Só que o futebol é um negócio e não se pode tirar esse tipo de coisas. Uma coisa é eu não gostar disso, outra coisa é retirar isso, que é muito difícil neste momento.

Se não fosse jogador de futebol, o que acha que teria sido?
Talvez professor.

Não quer acabar com uma história?
Posso contar uma caricata que aconteceu no CSKA de Sofia. Os resultados não estavam a correr da melhor maneira e os dirigentes tiveram a ideia de chamar um, nem sei o que era aquilo, um “bruxo” ou algo assim desse género. Ele foi ao balneário, nós todos sentados, tudo caladinho, começou a fazer as rezas dele, entretanto, pegou numa chávena e começou a queimar um papel e a fazer fumo e andava a soprar aquele fumo, um a um, a todos os jogadores, depois atirava também para as meias e equipamentos, nao sei se era para retirar o mau olhado, mas sei que a mim e a outros colegas estrangeiros deu-nos vontade de rir e tivemos um ataque de riso, o treinador também começou a rir-se e ficou um ambiente um bocado desconfortável.