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A casa às costas

"Chegas à Roménia e se não jogas bem no primeiro jogo, põem-te logo a treinar à parte e dizem que estás dispensado. São muito impacientes"

Há dois anos a viver na Roménia, Cristiano Figueiredo prepara-se para ficar mais dois, mas agora a defender as redes do Cluj. Diz não ter vontade de regressar a Portugal, para já, até porque os romenos deram-lhe a importância e o estatuto que nunca conseguiu alcançar na I liga portuguesa. Assume que um dia gostava de ser treinador principal e que se pudesse acabava com o VAR no futebol

Alexandra Simões de Abreu

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Depois do empréstimo à Académica de Coimbra vai para a Grécia. Ainda tinha contrato com o SC Braga?
A seguir foi um grande problema [risos]. Aí é que acho que em vez de ter dado continuidade àquilo de bom que tinha feito na Académica, acabou por tudo se desmoronar, porque nada foi como eu imaginaria.

O que aconteceu?
Na minha maneira de ver as coisas, eu mostrei qualidade para conseguir jogar no SC Braga. Era o que eu pensava. Que tinha condições para jogar no SC Braga com todo o respeito por quem lá estava. Eu acabo a época muito bem, já com o mister Viterbo, e antes da época acabar ele fala comigo: "Como é? O que é que o SC Braga quer fazer contigo?". Eu respondi: "Não faço ideia. Tenho contrato com o SC Braga. Como é óbvio a minha ambição é jogar no SC Braga, mas se as pessoas entenderem que não deve ser assim, para voltar a ser emprestado aqui em Portugal, prefiro que seja então à Académica porque é um clube que conheço". Depois disso, tive alguns problemas. Porque tinha mais dois anos de contrato com o SC Braga a seguir ao ano da Académica.

Ainda não explicou o que aconteceu.
Até hoje não sei o que aconteceu entre o meu antigo empresário e o SC Braga. Não sei que problema é que houve, não sei, não sei explicar. Mas eu acabo por ficar a treinar à parte na equipa B.

Não teve a ver consigo, com alguma coisa que tenha dito, alguma ação sua? Foi só mesmo entre o empresário e o presidente?
Eu não me recordo de ter feito nada para que o presidente tomasse a atitude de me meter a treinar à parte

Confrontou-o?
Não, depois até acabei por não falar mais com ele quando me mandou treinar com a equipa B. Foi uma situação complicada, porque eu estive até à última para saber como é que ia ser, se ia ficar no Braga, se me queriam emprestar outra vez. Não sabia o que queriam fazer comigo. E fomos até à última.

O que é que o seu empresário lhe dizia?
Ele não dizia nada. E depois do que aconteceu nessa altura eu acabei por deixar o empresário. As inscrições acabavam dia 30 de agosto e apareceram algumas equipas, como Rio Ave e Estoril, se não me engano, para onde podia ter ido emprestado, mas nunca aconteceu. Até hoje não sei explicar.

Não pressionou o seu empresário?
Chateei-me com ele, mas depois de estar feito, depois de estar a treinar à parte, eu muito sinceramente já nem quis ouvir aquilo que ele tinha para me dizer. A verdade é essa. Fiquei de rastos.

Depois da Grécia, Cristiano jogou pelo Belenenses seis meses, em 2016/17

Depois da Grécia, Cristiano jogou pelo Belenenses seis meses, em 2016/17

Gualter Fatia

Quando recebeu ordens para treinar à parte não perguntou porquê?
Eles deram-me autorização para eu me apresentar mais tarde, para não me apresentar com o Braga e depois andamos até 30 de agosto, até à última, e não conseguimos arranjar nenhuma solução e aí eu fico seis meses a treinar com a equipa B. Mas eu treinava praticamente à parte porque quase nem entrava nos exercícios da equipa B, treinava só com o treinador de guarda-redes, porque era obrigatório. É tudo muito estranho, mas nem eu consigo explicar.

O SC Braga fez-lhe propostas que não aceitou?
Na altura lembro-me que queriam mandar-me para uma equipa da Eslovénia, que luta para ser campeã, mas eu disse que não queria ir. Não foi no último dia de mercado porque se fosse se calhar teria dito "vou já", porque não queria ficar a treinar à parte. Na altura disse que não estava interessado e que continuava à espera de outra coisa. Os dias foram passando, passando, a Académica queria-me lá mas não sei porque razão não me deixavam ir e a Académica acaba por contratar guarda-redes.

Acha que por não aceitar as propostas do SC Braga o presidente colocou-o a treinar à parte para ver se se fartava e rescindia?
Muito sinceramente não sei. As coisas com o meu empresário também acabaram por ficar um bocadinho feias, a nossa relação deteriorou-se. Não me cabia na cabeça ter jogado a época quase toda na Académica e não ter uma solução melhor do que a Eslovénia. Só que depois, parece que para eles tanto fazia eu estar ou não. Um jogador nunca quer treinar à parte, quer treinar numa equipa para poder lutar por um lugar, mas a partir do momento em que rejeitei aquela proposta parece que tomaram aquela atitude "Então ficas aí. Queres ficar a treinar à parte? Quando te fartares, decide o que é que queres fazer". Havia vezes em que tinha de treinar sozinho, de lado, nem sequer no campo com a equipa B podia treinar. Foram seis meses muito complicados.

Como é que se desenrola a situação?
Acaba por aparecer a Grécia, num momento em que eu queria chegar a acordo com o SC Braga para rescindir contrato.

Cristiano (à direita) com o irmão, Tobias Figueiredo

Cristiano (à direita) com o irmão, Tobias Figueiredo

D.R.

Mas o Panetolikos surgiu através de quem?
Da ProEleven, que já me tinha contactado quando eu estava na Académica, mas como na altura ainda tinha o anterior empresário... . Eu só assinei com eles quando já não tenho clube. Surge a proposta do Panetolikos mas eu vou numa fase já de quase a acabar a época. Praticamente não jogo, faço o último jogo.

Qual foi o primeiro impacto quando chegou à Grécia?
Foi diferente. Eu estava habituado a Portugal, praticamente sempre em Braga, uma cidade de que gosto muito e onde tenho casa, a minha mulher é de lá... Não foi o impacto que estava à espera.

Já era casado nessa altura?
Não. Eu conheci a Tânia, no ano em que estava em Coimbra. Sempre que tinha uma folga ia para Braga e foi nessa altura que a conheci, através de um casal amigo. Ela estudava arquitetura e trabalhava ao mesmo tempo. Fui sozinho para a Grécia.

Estava a dizer que não foi o impacto que estava à espera. Porquê?
Não é que o clube não tivesse as mínimas condições mas eu estava habituado ao SC Braga, à Académica, que tinham outro tipo de condições. Vou só dar um exemplo. Na Grécia, para ir para o jogo tínhamos de levar a nossa roupa, as botas, a roupa interior também e se nos esquecemos não tínhamos roupa para jogar. Eu sei que estamos para treinar e jogar, tratar das botas e das luvas OK, mas se eu me esqueço das meias, pronto, vou jogar sem meias? Isto para dizer que não eram as condições que eu esperava.

Tinha assinado por quanto tempo?
Dois anos e meio. Mas eu fiz meia época, o ano em que cheguei e no ano seguinte, só faço meia época também, depois vou seis meses para o Belenenses.

Na Grécia ainda apanha Leonel Pontes como treinador?
Não e esse é que foi um grande problema. Porque ele queria alguns jogadores portugueses e levou-os, mas acabamos por sair prejudicados quando ele vai embora porque vem um treinador grego daqueles à antiga e nessa meia época só joguei um jogo. A seguir fomos fazer a pré-época para Itália, eu já tinha falado com os dirigentes, tinha dito que não queria ficar por causa do treinador porque não gostava dele e acabei por ficar mais seis meses, antes de surgir a hipótese de ir para Belém.

O que achou dos gregos?
Não tenho nada a dizer, têm os costumes deles, tenho mente aberta, adapto-me bem nos outro países. A cidade em que eu estava não era aquilo que eu imaginava e não me adaptei como gostaria.

Cristiano defendeu as redes do V. Setúbal duas épocas

Cristiano defendeu as redes do V. Setúbal duas épocas

Carlos Rodrigues

Quando vai para Lisboa, vai sozinho ou a Tânia vai consigo?
Vou sozinho, a minha mulher ficou em Braga, mas ia visitar-me com frequência.

Chega ao Belenenses o treinador é o Quim Machado. Que tal?
É um treinador de que fiquei a gostar pela exigência que tinha no treino. Para ele o jogador tinha que treinar bem, sempre. OK, podia ter um dia em que estava menos bem porque tinha tido algum problema em casa ou assim, isso ele compreendia, mas o treino para ele era fundamental. E eu, como profissional, como levo muito a sério o treino, para mim era fantástico.

Ele não fica até final da época, pois não?
A mim custou-me perceber a razão pela qual o mandam embora, porque já tínhamos atingido a permanência, tivemos duas derrotas, penso eu, e mandam-no embora, do meu ponto de vista injustamente, porque já tínhamos garantido a permanência praticamente e faltavam uns três jogos para acabar.

Pessoalmente, como correu a época?
Para mim foi perfeito porque eu vinha de uma fase má, um ano e meio sem jogar e com ele joguei praticamente sempre.

Os pais de Cristiano com o sobrinho (à esquerda) e o filho dele

Os pais de Cristiano com o sobrinho (à esquerda) e o filho dele

D.R.

Não fica no Belenenses porquê?
O Domingos Paciência chega, vamos jogar contra o Marítimo, perdemos, ele ficou chateado e quis mudar a equipa. A dois jogos do final quereres mudar os jogadores, para mim não faz muito sentido. Nesses últimos dois jogos não joguei. Tinha assinado dois anos e meio com o Belenenses. No final da época temos um jogo contra o Torreense, se não me engano em Torres Vedras, era um jogo de festa, amigável, que costumavam fazer todos os anos, e nesse dia não me estava a sentir bem disposto. Antes de ir para o jogo fui falar com o adjunto, o Bruno Moura, e perguntei-lhe se era possível falar com o mister, ao que ele respondeu: "Não, o mister não quer falar agora"; "Então podes transmitir-lhe que eu estou indisposto hoje, não me sinto muito bem?"; "Está bem, está bem, eu vou transmitir ao mister". Veio a seguir e disse "Pronto, já falei com o mister, não há problema nenhum". Era um jogo de brincadeira. E pronto, acabou a época. Estou de férias, em Braga, e o meu pai ligou-me a dizer que tinha recebido uma carta, porque a minha morada ainda era a da casa dos meus pais. Era uma carta de rescisão por justa causa, da parte do Belenenses.

Porquê?
O treinador queria contratar outros jogadores, outro guarda-redes, tudo bem. Mas aquilo que eles alegavam para a rescisão de justa causa era dizerem que eu me recusei a fazer um jogo treino. Era mentira porque eu tinha falado com o adjunto. Mandei a carta para os meus empresários e como é óbvio aquilo não era justificação para rescindir um contrato. Não tinha fundamento nenhum. Eu sou uma pessoa que tem uma personalidade forte, quando não gosto de alguma situação, demonstro que não gosto, ou se são incorretos comigo eu demonstro que não gostei. Neste caso, a verdade é que fiquei "doente". Eu nem sequer queria acreditar que aquilo estava a acontecer. Fiquei chateado mesmo. O Domingos podia querer outro guarda-redes, outro lateral direito, o que fosse, tudo bem, mas tentaram arranjar ali um motivo para mandar embora um guarda-redes para que pudessem contratar outro, porque rescindindo por justa causa eu não teria de receber os meus dois anos e meio de contrato.

O que aconteceu depois?
Foi simples. Nesse tipo de situações, quando sinto que um treinador quer ou tem outras opções, e ainda por cima com uma coisa que não tem nada a ver, tentam justificar uma rescisão com uma mentira, para mim acabou. Não quis receber nada, só quis receber aquilo que trabalhei que foram os seis meses que lá estive. Chegamos a um acordo, rescindi contrato e fui para o Vitória de Setúbal.

Sozinho novamente?
Não, aí a minha mulher já foi viver comigo e acabamos por engravidar. O Lucas nasceu em 2018, na minha segunda época no Vitória. Não assisti ao parto porque nas últimas semanas de gravidez decidimos que era melhor a Tânia ir para Braga para estar perto dos pais caso precisasse alguma coisa. Durante a viagem para Braga ele acabou por nascer.

O guarda-redes chegou ao Hermannstadt da Roménia em 2019/20

O guarda-redes chegou ao Hermannstadt da Roménia em 2019/20

D.R.

Como foi a primeira época em Setúbal, com o José Couceiro?
Foi difícil, porque apesar de ter jogado quase 30 jogos, o Vitória estava com alguns problemas. Mas acho que não havia melhor pessoa que o Couceiro para estar à frente de um clube com tanto problema.

Porquê?
Porque o Couceiro era top a todos os níveis. Não vou falar como treinador, porque o histórico dele fala por si, vou falar em termos humanos, porque era fantástico. Ele conseguia colocar o grupo todo do lado dele. Jogassem, não jogassem, ele conseguiu manter o pessoal todo com ele. O clube tinha problemas todos os dias. Todos os dias faltava isto ou aquilo, ou era o sítio para treinar, mas ele conseguia manter tudo calmo.

Tinha assinado quanto tempo?
Três anos.

Chegou a ter ordenados em atraso?
Só dois ou três meses, não mais.

A segunda época acaba por não ser tão boa como a primeira. Porquê?
Eu tinha acabado a época bem, o guarda-redes que estava comigo na primeira época foi embora e eles tinham de ir buscar outro e veio o Joel, emprestado pelo Manchester United. E aconteceram coisas que não são muito normais na minha maneira de ver.

Como por exemplo?
Comecei a época como titular. Jogamos o 1º jogo, ganhamos 2-0 ao Aves, no segundo vamos a Alvalade perdemos 2-1 com o Sporting e no jogo a seguir saí da equipa.

Pode ter tido a ver com algum dos golos em Alvalade que eles considerassem que não esteve bem?
Nunca tinha assistido a um guarda-redes com duas jornadas, depois de uma vitória e de uma derrota, sair da equipa. Nada contra o Joel que entrou na equipa, mas sim a forma como entrou e a forma como vinha. É muito simples, vinha emprestado pelo Manchester United. Um jogador que está no Manchester United e vem emprestado para o V. Setúbal, como é lógico não vem para ficar no banco. Entende? Basicamente foi isso que aconteceu. Mas essa época também foi, não digo caricata, porque agora rio-me com essas coisas, mas na altura eu ficava chateado, revoltado com a situação. Porque não eram situações claras.

Manifestava essa sua revolta?
Nunca manifestei de forma direta, só que quando não gosto eu não consigo demonstrar que está tudo bem. Às vezes estava chateado no treino, não armava confusão, nada disso, mas de certeza que estava com a cara mais fechada em alguns treinos e demonstrava dessa forma o facto de não jogar.

Com a mulher e o filho

Com a mulher e o filho

D.R.

O que aconteceu entretanto?
O Joel entra, a equipa ganha. Entretanto, o Joel acaba por ter um jogo em que teve alguma culpa num golo e a seguir íamos jogar para a Taça e eu ia ter a minha oportunidade. Jogamos e ganhamos. O jogo correu-me bem e a partir daí comecei outra vez a jogar no campeonato até que de repente, íamos ter um jogo importante para a Taça de Portugal contra o SC Braga e o treinador, o Lito, diz-me: "Quero que tu jogues para Taça e o Joel joga para o campeonato". Percebi que ia ficar outra vez sem jogar no campeonato. Ele olha para mim e pergunta: "Mas estás chateado?"; "O mister é que sabe, o mister é que manda". Jogo para a Taça e a seguir para o campeonato, não. Mas como perdemos 3-1 com o Portimonense, voltei a jogar, até o Lito ir embora. Entra o Sandro e o Joel sai porque está descontente, até o próprio Manchester United queria que ele jogasse, como é normal.

E?
Contratam o Makaridze. Vinha um pouco debilitado porque tinha sido operado às costas. Entretanto, faço três jogos seguidos sem sofrer golos, até que vamos ao Dragão e perdemos 2-0. No dia a seguir eu tinha sido considerado o melhor em campo do lado do V. Setúbal, em todos os jornais. A seguir íamos jogar com o V.Guimarães. No treino em casa de manhã, o treinador de guarda-redes no final chama-me à parte e diz-me: "Cris, eu como treinador de guarda-redes tenho que te dizer que hoje não vais jogar"; "Mas porque razão?"; "O treinador assim decidiu e decidiu também que não tem que te dizer nada". A partir daí praticamente não joguei mais, joguei um ou dois jogos, mais nada. Acabo por só fazer 18 jogos no total, com campeonato e taça, mas não era aquilo que eu queria.

Como se dá a ida para o Hermannstadt?
Quando vou para o meu último ano de contrato, estou em estágio com a equipa do Vitoria e surge a hipótese da Roménia e como eu não queria estar a passar pelo que passei outra vez, decidi aceitar o desafio da Roménia.

Cristiano (à direita) com um colega e o treinador de guarda-redes do Hermanntadt

Cristiano (à direita) com um colega e o treinador de guarda-redes do Hermanntadt

D.R.

Como foi o impacto quando chegou à Roménia?
Acho que foi um pouco parecido com aquele que tive na Grécia, mas não tanto porque já sabia o que podia estar à minha espera.

Foi com a familia?
Em primeira instância fui sozinho e depois eles vieram, quando já tinha escolhido a casa.

Que balanço faz desses dois anos?
Profissionalmente muito positivo porque aqui tive regularidade total. Quando estou numa equipa eu gosto de me sentir importante, no sentido em que quero jogar sempre. Se sentir que posso ser titular, eu quero jogar sempre. Foi o que aconteceu aqui na Roménia. As pessoas deram-me essa importância, por isso é que acabo por fazer 70 jogos em duas épocas.

O que achou do futebol romeno?
Tenho que ser sincero, o nível do futebol português é superior, sem dúvida.

E dos romenos, gostou?
Não são fáceis, de todo. São muito desconfiados. Hoje dizem-te uma coisa, amanhã já dizem outra. Nem todos os jogadores que vêm de Portugal jogam bem na Roménia, não se adaptam da melhor forma. Aqui, se as coisas não correm bem a um estrangeiro, seja ele de que nacionalidade for, nos primeiros jogos, muito dificilmente voltará a jogar. Eles põem-te logo à parte, querem mandar-te embora. É uma realidade um bocadinho diferente de Portugal, os estrangeiros em Portugal sentem-se bem, porque nós portugueses somos mesmo gente boa e recebemos bem. Na Roménia, para sermos reconhecidos temos de demonstrar e é dentro de campo. Mas se o demonstrares, eles dão-te importância.

Gostou da cidade e do país?
A minha cidade, Sibiu, é top, comparativamente com as outras cidades, no geral, daqui.

Como e onde passaram os primeiros tempos da pandemia?
Ficamos na Roménia, tivemos dois, três meses em que tivemos de ficar fechados em casa e não foi fácil. Mas correu bem.

A defender a baliza do Hermannstadt

A defender a baliza do Hermannstadt

D.R.

Não tem histórias engraçadas desses dois anos no Hermannstadt?
Tenho uma incrível. Eu tinha um colega romeno que antes dos jogos metia nos pés o spray que levas quando vais ser assistido, quando levas uma pancada ou quando estás lesionado durante o jogo. Ele metia esse spray nos pés e dizia que era para não sentir a bola porque não gostava de sentir a bola nos pés, o que deixava o pessoal incrédulo. E até às vezes a rir, porque o futebol joga-se com os pés [risos]. Mas também houve histórias menos boas.

Conte.
Na Roménia eles são muito, muito impacientes. Se a primeira impressão não for positiva, a probabilidade de ser dispensado é muito grande. Se não jogares bem logo no primeiro jogo, o mais certo é ficares logo à parte. E neste último ano aconteceu várias vezes. Um jogador, normalmente estrangeiro, tinha um jogo menos positivo e no dia a seguir estava a treinar à parte porque ia ser dispensado ou mandavam-no para casa, diziam que era escusado voltar. Passado dois jogos ou três era outro jogador que jogava menos bem e estava dispensado, já não jogava com a equipa, começava a treinar à parte. Mas passados uns tempos o mesmo jogador voltava a treinar com a equipa, depois de estar uma ou duas semanas afastado e se fosse preciso jogava nesse fim de semana. Coisas surreais a que nunca tinha assistido. Isto também porque estamos a falar de um clube médio/baixo, em que a percepção do futebol, mentalidade e a paciência não é um dos fortes. Um jogador fazer um jogo, ser dispensado e passado duas semanas volta a jogar e a titular são coisas surreais que nunca tinha visto numa equipa profissional de futebol e estamos a falar da I divisão.

Acabou o contrato com o Hermannstadt e assinou pelo Cluj, certo?
Sim. Dois anos. Sinto-me bem na Roménia e neste momento não penso voltar a Portugal.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Não.

Já pensou no futuro, pós-carreira como guarda-redes?
Gostava um dia de ser treinador. Treinador principal, não de guarda-redes.

Cristiano vai jogar esta época pelo Cluj, da Roménia

Cristiano vai jogar esta época pelo Cluj, da Roménia

D.R.

Qual foi o guarda-redes que mais o impressionou até hoje?
O Neuer, da Alemanha.

Quais os seus pontos fortes e o mais fracos?
Dizer as minhas qualidades não é fácil. Mas posso dizer um ponto fraco, pé esquerdo. Se calhar uma coisa que tenho de melhorar é o posicionamento em cruzamentos, em bola corrida.

Mas de certeza que tem uma qualidade que consegue destacar.
Acho que sou forte no um contra um.

Qual o melhor colega de posição que teve?
Se formos falar de qualidade os melhores com quem já treinei foram os dois que tive no Valencia, o Diego Alves e o Guaita. Mas em Portugal também tive guarda-redes muito bons com quem treinei, o Eduardo, o Beto e o próprio Quim. E o Mário Felgueiras também, que do meu ponto de vista tinha umas condições fantásticas e podia ter feito uma carreira melhor, mas infelizmente as coisas nunca são como queremos.

O guarda-redes é quem joga na posição em que é mais difícil ter oportunidades?
Sim é uma posição ingrata porque só pode jogar um. E há países, como Portugal, em que muito dificilmente uma equipa troca um guarda-redes. O Nº1 é o Nº1, acabou. E nas principais ligas acontece isso.

Qual o pior frango que sofreu?
O pior golo que sofri num jogo a valer, um frango mesmo, foi nos juniores do SC Braga. Um dos centrais atrasa a bola, vou tentar dominar e a bola passou-me por baixo do pé, foi para a baliza e golo. Ficou-me marcado porque a bola passou-me por baixo do pé. Se eu corresse acho que ainda tinha tempo de chegar à bola, mas eu fiquei a olhar para o pé e para a bola, incrédulo. Quando me lembro disse dá-me vontade de rir. O treinador na altura era o Dito e chegou ao intervalo, e disse-me: "Eh pá, não estou chateado contigo por teres sofrido aquele golo. Estou é admirado com a tua postura depois de sofrer um golo daqueles. É como se não tivesse passado nada. Tu até te riste". Claro que me ri, por ter sido um lance que não podia acontecer, mas já não podia fazer nada.

E a defesa mais espectacular?
Não é para me gabar mas tenho algumas [risos]. Mas num passado recente, tenho uma no ano passado aqui na Roménia, contra o Voluntari. Há um cruzamento, a bola bate num defesa, vai para a minha baliza e tiro a bola mesmo em cima da linha.

Cristiano num treino do Cluj

Cristiano num treino do Cluj

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Valência.

Tem investido em quê?
Não investi. Simplesmente comprei a casa que tenho em Braga. Tenho visto projetos para poder investir, tudo dentro do imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Não tenho nada de especial. Só mesmo quando estava no SC Braga, com 21 anos, por aí, em que comprei um VW Sirocco. Depois quis metê-lo todo preto mate. Acho que foi a maior extravagância.

Tem algum hóbi?
Estar com a família. Também gosto de jogar futsal com os amigos, mas não como guarda-redes e sim como avançado, na frente.

Tatuagens tem muitas. Qual a primeira?
A primeira foi uma cruz no pescoço, cá atrás. Foi depois dos 18 anos porque o meu pai disse-me logo que a partir dos 18 anos podia fazer o que quisesse, tatuagens, brincos, o que fosse, mas só a partir dessa idade.

Qual a mais importante?
O nome dos meus pais, do meu irmão, e do meu filho.

É um homem de fé?
Acredito em Deus sim, apesar de não ir muitas vezes à missa.

Superstições?
Já tive mais. Calçar sempre a bota direita primeiro, meter sempre a luva direita primeiro e entrar com o pé direito. Essas mantenho.

Segue algum outro desporto além do futebol?
Costumo acompanhar o desporto em geral. Tanto futebol, como NBA, futsal, voleibol. Em Portugal comprava sempre os jornais, aqui na Roménia, não.

Com a mulher e o filho

Com a mulher e o filho

D.R.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
No Real Madrid.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Eu não tenho grandes amizades no futebol. Mas posso referir o Yazalde, por exemplo.

Tem algum talento escondido?
[risos] Acho que não.

O que acha que teria sido se não fosse jogador de futebol?
Quando era mais novo gostava de ter sido professor de educação física.

Se pudesse mudar alguma regra no futebol, qual mudava?
Tirava o VAR. Tira emoção ao momento do jogo, da celebração, de tudo. É normal o árbitro errar, porque os jogadores também vão errar, e o árbitro é um interveniente do jogo, pode errar também. Logo, para mim, é muito mais emocionante as decisões na hora, o que tiver de ser é, mesmo as vezes sendo um pouco injusto.

Qual o momento mais difícil da sua vida até hoje?
Não vou falar de futebol, porque não é o mais importante. Vou falar do meu pai. Eu estava na Roménia, na minha primeira época, o meu pai estava a trabalhar, em Portugal, e perdeu uma das vistas.

Como?
Ele trabalha na Câmara Municipal e estava a fazer manutenção rodoviária, com outros colegas, quando a máquina de cortar de um colega apanhou um arame da valeta que o atingiu na vista. Foi um momento difícil.

Para não terminarmos de uma forma tão triste, não quer contar mais uma história das suas vivências enquanto futebolista?
No primeiro ano da Roménia, mas antes de chegar ao Natal, que é época de transferências e trocas de treinador, vem um romeno com um estilo mais antiquado e logo que chegou meteu vários jogadores a treinar à parte. Eu não fiquei nesse grupo, mas infelizmente alguns colegas meus portugueses ficaram. Logo no primeiro ou segundo jogo dele, empatamos 0-0, e no final do jogo ficámos dentro do campo ainda a comentar coisas do género: “Bom jogo, 0-0, não foi mau”. Esse treinador vira-se para um colega que tinha estado o jogo todo no banco e começa a perguntar-lhe o que ele estava ali a fazer, se tinha vindo de férias e basicamente culpou-o do empate e ele nem sequer tinha entrado no jogo [risos].

  • "No Valência fui para o banco lesionado. Graças a Deus o Diego Alves não se aleijou, porque eu não conseguia jogar. Tinha rompido o menisco"
    A casa às costas

    Nesta primeira parte da entrevista ao guarda-redes Cristiano Figueiredo ficamos a saber que, apesar de ter começado a torcer pelo Benfica, quando o irmão, Tobias, foi para o Sporting, a paixão clubística esmoreceu completamente. A adolescência ainda meteu um travão na vontade de ser profissional, mas o empurrão dos amigos e de um treinador ajudaram-no a acreditar de novo no sonho de um dia vir a ser como Baía ou Kahn. Do Penalva do Castelo ao SC Braga não demora muito e chamou a atenção dos espanhóis do Valência, mas duas lesões seguidas nos joelhos fizeram-no regressar a Braga. A concorrência e a qualidade de Eduardo, Quim e Beto acabam por levá-lo para novo empréstimo, em Coimbra, antes de voltar a tentar a sorte no estrangeiro