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A casa às costas

“Aos 10 anos já conhecia o Neno, já lhe dizia bom dia, boa tarde, já ouvia as gargalhadas dele. Quando soube da sua morte fiquei sem chão”

Cafú saiu de Portugal com 23 anos e ainda não regressou ao futebol português. Depois das passagens por França, Polónia e Grécia, mantém, aos 28 anos, a esperança de um dia chegar à Premier League, mas para já tem contrato com o Nottingham Forest do Championship. Dos dias mais tristes da sua vida salienta os que lhe levaram dois amigos muito especiais: o seu cão, que considerava como um filho, e o ex-guarda-redes Neno.

Alexandra Simões de Abreu

Nikos Mitsouras

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Vai para o Lorient, na França, em 2016/17. Era algo que ambicionava, jogar fora?
Sim, já pensava nisso, mas não sabia o que é que o destino me reservava. A época acabou, veio uma proposta da França, neste caso do Lorient, que dava 2,5 milhões e meio, três milhões ao Vitória para me levar. O Vitória era um clube que precisava de vender, mas lembro-me que na altura o presidente não me queria deixar sair. Depois apresentaram uma proposta ao clube e a mim, e o projeto, eu via aquilo com bons olhos, era a primeira vez também na minha carreira que ia ganhar dinheiro mais a sério, se é que me faço entender, e poder começar aí a construir um futuro para a minha vida.

Já sabia falar francês?
Não, não sabia francês, não sabia nada. Era a minha primeira experiência fora do país, mas a minha personalidade sempre foi, é para ali, epá vamos embora. O primeiro mês, no balneário, eles falavam e eu não percebia nada, ficava à toa, eles riam-se, eu às vezes ria-me também, mas da expressividade deles, de estarem a ser engraçados, não era porque percebia. Só que, pouco a pouco, ia ouvindo e observava muito e as coisas começaram a entrar. Todos os dias falava mais um bocadinho, falei, falei. E o facto de não ter portugueses, brasileiros ou espanhóis foi importante para eu aprender e falar. Hoje em dia sei falar francês, escrever também, não perfeitamente, mas posso dizer que falo bem.

O futebol era muito diferente do que estava habituado?
Sim, um futebol diferente e a primeira época acaba por não correr tão bem porque adquiri experiência, mas descemos. Assinei quatro anos com o Lorient e no primeiro ano que vou para lá, descemos [risos]. E o Lorient era uma equipa que já tinha uma presença assídua na Liga, já estavam na I Liga há 11, 12 anos e nós até tínhamos equipa para ficar nos primeiros 15.

Porque é que não correu bem?
Não sei, é difícil explicar. Tivemos dois treinadores. O Ripoll, o treinador que reúne comigo em Lisboa, com o diretor do Lorient, para me contratar, vai embora. Pronto, já se sabe que faz parte do futebol, mas não esperava que as coisas fossem assim. Entretanto, vem o Casoni que consegue melhorar ligeiramente aquilo, mas as coisas depois voltam a não andar tão bem, fizemos um ano que foi quase sempre com a corda na garganta e acabámos por descer. Foi uma deceção muito grande.

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