Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
A casa às costas

“No Seixal, o Miguel Rosa tentou correr na passadeira com a velocidade máxima. Foi projetado contra as máquinas e arrebentou-se todo”

Rúben Lima faz parte do role de jogadores que são "pescados" cedo pelo Benfica, mas que após vários anos de formação e de empréstimos não conseguem vingar na equipa principal do clube da Luz. Nesta primeira parte da entrevista, conta como foi crescer no clube, onde conheceu um treinador especial, Bruno Lage, e fala das aventuras que viveu em Vila das Aves - onde apontou uma espingarda pela janela do vidro de um carro para assustar um colega -, em Setúbal e Aveiro antes de partir para a Croácia

Alexandra Simões de Abreu

Gualter Fatia

Partilhar

Nasceu em Lisboa. Apresente a família onde nasceu.
A minha mãe, Anabela, trabalhava numas lojas quando eu era pequenino, depois passou para auxiliar nas escolas, profissão que exerce até agora. O meu pai chama-se Leonardo e sempre foi funcionário da Câmara Municipal de Lisboa. Tenho uma irmã chamada Jessica que acabou recentemente o curso de comunicação social na universidade e é mais nova do que eu sete anos.

Cresceu em que zona da cidade?
Cresci no bairro Quinta da Calçada, que fica junto à 2.ª circular e ao Estádio da Luz.

Como era em criança, recorda-se?
Era reguila, mas quando fui para o 5.º ano houve uma mudança e acabei por ficar um bocadinho mais calmo. Até lá era um reguila, andava por Lisboa com os amigos, mais nas férias. Ia para o ringue perto de casa, agora é um pavilhão, passava lá horas e horas.

Estudou até que ano?
Não era muito fã da escola. Agora até estou a tentar fazer o 12º ano.

Sabe o que dizia querer ser quando fosse grande?
Isso é fácil: jogador de futebol. Desde pequeno, não havia outra coisa.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Que jogasse profissionalmente não. Tinha o meu avô materno que jogava futebol com os amigos e também jogou num clube que eu acabei por representar, o Palmense, que fica nas Laranjeiras. Ele jogou aí, mas depois continuou a trabalhar e seguiu o caminho dele.

Quem eram os seus ídolos e torcia por que clube?
Na minha posição era o Roberto Carlos, mas ídolos de uma forma geral, era o Zinedine Zidane. Na altura, torcia pelo Benfica.

Quando vai jogar para o Palmense?
Fui com os amigos. Dos seis aos nove anos joguei futsal no clube do meu bairro, o Fonsecas e Calçadas, e depois houve uma oportunidade, já não me recordo bem quem é que falou, mas acabámos por ir uns seis ou sete ao Palmense porque o clube ia iniciar os infantis. Eles fizeram captações, fomos naquela de só para ver o que ia dar. Aquilo era um pelado [risos].

Os seus pais nunca se opuseram a essa sua vontade?
Não. Nesse dia eles nem sabiam que eu lá tinha ido. Depois de treinar deram-me um papel, para pedir a autorização aos meus pais e quando cheguei a casa é que disse: "Pai, fui treinar ao Palmense e eles deram-me este papel para ver se tu me autorizas a que seja inscrito". Tinha nove, ia fazer dez anos.

Ruben (2.º em baixo à direita) começou a jogar futsal aos seis anos no Grupo Desportivo Fonsecas e Calçada

Ruben (2.º em baixo à direita) começou a jogar futsal aos seis anos no Grupo Desportivo Fonsecas e Calçada

D.R.

Só lá esteve um ano porque a seguir vai para o Benfica. Como é que isso aconteceu?
Foi tudo rápido. Num ano jogava futsal no ringue, no ano a seguir estou a jogar futebol de 11 e no seguinte assino pelo Benfica. Lembro-me que no final da temporada, o senhor Américo, que fazia parte do scouting do Benfica, estava a falar com um dos nossos treinadores e no final do treino chamaram-me. Estive um bocadinho à conversa com o Nené, que me perguntou se eu gostava de jogar no Benfica. Eu disse: “Claro que sim". As coisas foram correndo de forma natural.

Começou então a treinar no Benfica com 11 anos?
Só faço anos em outubro, por isso quando ingressei no Benfica ainda tinha 10 anos.

Notou muita diferença para o Palmense?
É lógico que notei porque na altura o campo do Palmense era pelado. No Benfica, ainda era o antigo estádio que à volta tinha os campos de treino. Eu jogava futebol de 11, mas como era muito jovem quando fui para o Benfica e os jogadores da minha idade ainda jogavam futebol sete, foi uma mudança radical. Em termos de condições, claro, também foi muito diferente. E tinham jogadores de muita qualidade. Era bastante diferente porque acabamos também por estar mais próximos do mais velhos. Isso no Palmense não acontecia.

Quando assina o primeiro contrato com o Benfica?
Primeiro foi um contrato de formação, quando era juvenil, devia ter 15 anos. Ganhávamos uns 250 euros, era um contrato de quatro anos.

Lembra-se do que fez ao primeiro dinheiro que ganhou?
Não me recordo, mas talvez tenha comprado roupa ou umas chuteiras.

Faz toda a sua formação no Benfica, só sai com 21 anos. Desses anos todos da formação, quem foram os treinadores que mais o marcaram?
No início, foi o João Paulo porque foi o meu primeiro treinador no Benfica e ele era um treinador muito especial porque nos incentivava. Estamos a falar de miúdos de 10 anos, portanto a gente nunca esquece. E as coisas acabaram por correr bem, fomos campeões e tudo. Depois tive outros que também me foram marcando à sua maneira, mas dito de uma foram mais geral, o que mais me marcou foi o Bruno Lage.

Porquê?
Já era juvenil a primeira vez que o apanhei e acabou por mostrar-nos outro tipo de coisas, como a nível tático. Ele explicava muitas das coisas que a gente depois olha e diz, isso faz sentido. Abriu-nos um bocadinho mais os olhos para aquilo que se passava no futebol. E nos juniores foi completamente fantástico porque tínhamos estado com ele no ano anterior, as bases já estavam feitas e evoluímos cada vez mais.

Seguiu-se o Palmense. Ruben é o 4.º em baixo à direita

Seguiu-se o Palmense. Ruben é o 4.º em baixo à direita

D.R.

Como é que se definiu a sua posição? Sempre jogou mais na defesa?
No Benfica fui sempre defesa esquerdo, mas era médio esquerdo no Palmense porque jogávamos futebol 11 e depois quando mudo para o Benfica com futebol 7, como jogamos com dois cá atrás, era eu e outro colega, o André Magalhães. Quando passamos a futebol 11, ele acabou por ser lateral direito e eu lateral esquerdo. Viram que era ali que eu tinha mais capacidades, foi definido assim.

As primeiras saídas à noite, os primeiros namoros, começam com que idade?
Saídas à noite foi com os meus 17 anos, nas folgas. Começamos a ir a alguns cafés à noite, eventualmente uma discoteca ou outra, mas tudo com calma. Saía com os colegas da escola e com os do Benfica, quando tinha tempo. Os meus pais também não me autorizavam muito a ir porque eu ainda vivia com eles.

Tem memória da primeira saída à noite?
A primeira, foi para o colégio alemão, eles faziam umas festas e acabávamos por ir muito para lá. Também era perto da minha casa, era só passar a ponte. Começou a ser aí, mas isto mais com os meus colegas da escola porque eu estudava em Telheiras.

E histórias para contar dos tempos de formação, não tem nenhuma?
Lembro-me de uma, quando era júnior. Uma vez estava no posto médico com outros jogadores e alguns fisioterapeutas, faltavam 10, 15 minutos para o treino e de repente chega o Miguel Rosa todo arranhado, cheio de sangue nas pernas e nos braços. Achamos aquilo um bocado estranho. Os fisioterapeutas perguntaram o que se tinha passado e ele “Nada, nada”. Eles começaram a fazer os curativos. O treinador, o Bruno Lage, tinha por norma passar pela fisioterapia para saber quem é que estava disponível ou não. Quando viu o Miguel assim, perguntou: “O que é que se passou contigo?”; “Nada, nada mister”; “Nada? Mas estás todo cheio de sangue, o que é que se passou?”; “Ó mister, vinha agora ali a correr, tropecei e caí nas escadas”. O treinador riu-se e óbvio que não acreditou muito no que ele tinha dito. Aquilo passou. Passados dois dias, o mister Bruno Lage, antes de iniciar o treino, chegou ao balneário e disse “Malta, tenho um vídeo para vos mostrar sobre o adversário”. Abre o computador, diz ao pessoal para se aproximar, assim que mete o play surge um vídeo onde está o Miguel Rosa e o André Carvalhas no ginásio, em que vemos o Rosa a ser projetado da passadeira. Então qual foi a brincadeira? O André Carvalhas meteu a passadeira no máximo, subiu, agarrou com as duas mãos e muito ao de leve passou os pés e saiu. O Rosa quis imitá-lo, só que em vez de fazer o mesmo, não, meteu os pés e tentou correr. Foi projetado para as outras máquinas e arrebentou-se todo. O pessoal começou a rir e ele todo envergonhado [risos].

À beira de completar 10 anos Ruben ingressou no Benfica

À beira de completar 10 anos Ruben ingressou no Benfica

D.R.

Quando é chamado a primeira vez à equipa principal do Benfica?
Foi para um jogo amigável, entre o Benfica e o Nacional, na Madeira, para a inauguração da bancada. Tinha 18 anos. Acabamos por ser convocados, eu e outros colegas que também estavam na equipa de juniores. Recebemos a notícia de que ia haver um amigável e que tínhamos sido selecionados, dois ou três, para ir à Madeira, em menos de 24 horas. Viajámos de manhã, descansamos um bocadinho no hotel, almoçamos, à noite jogamos e nessa mesma noite regressamos ao continente.

Quem era o treinador?
O Camacho.

Como foi o impacto de chegar à equipa principal?
Pensas estar preparado, mas nunca estás, porque o futebol é completamente diferente. Jogadores muito bons, Rui Costa, Nuno Assis, Petit, Nuno Gomes, Simão Sabrosa... Nós parecíamos estar num parque de diversões, a olhar [risos].

Houve algum que tenha sido mais simpático?
O Nuno Assis porque acabei também por privar com ele como colega de quarto depois nos estágios. Mas muitos deles, o Nuno Gomes, o Rui Costa, eram simpáticos.

Qual foi a primeira impressão do Camacho?
É assim, gostei dele, mas para ser sincero não tive assim grande contacto, porque ele falava connosco, mas não era muito próximo dos jogadores mais novos. Se calhar por ser um processo inicial, era muito treino só.

Nessa altura ainda vivia em casa dos pais?
Não, fui viver para o centro de estágio do Seixal no ano zero, quando eles arrancaram com aquilo, fui logo. Foi uma opção. Pedi ao meu pai para falar com eles para ficar lá.

Porquê?
Porque sabia que mais à frente possivelmente não ia estar sempre ao pé dos meus pais, tinha de adaptar-me e acabei por pedir para ir para lá. Comecei a pensar que, se não ficasse ali, era muito difícil, que possivelmente teria de andar por aí, noutros clubes fora de casa e aquilo foi quase uma preparação para não ter tanto impacto depois. Tanto que a seguir sou emprestado ao Aves, no norte, com 18 anos.

Depois daquele amigável na Madeira, quando voltou a ser chamado à equipa principal?
Esse jogo se não estou em erro foi em setembro ou outubro, já não me recordo bem, mas depois fui logo chamado para um jogo da I Liga com o Setúbal, fora, e depois para um da taça com o Feirense, no Estádio da Luz. Passado um mês sou emprestado. Aconteceu tudo ali entre outubro e dezembro.

Ruben (em baixo ao centro), com 12 anos, nos iniciados do Benfica

Ruben (em baixo ao centro), com 12 anos, nos iniciados do Benfica

D.R.

É o Benfica que lhe propõe o empréstimo ou é o Rúben que pede?
Eles disseram que havia um clube da II Liga onde já estava o Miguel Vítor, o Romeu Ribeiro e o Yu Dabao, que eram meus colegas nos juniores, que precisava de um lateral esquerdo e perguntaram se eu queria ir. Eu disse que sim, ainda era júnior, ainda tinha mais seis meses de júnior.

Porque decidiu ir? Sentia que não ia conseguir vingar no Benfica?
Nessa altura o que senti foi que, mesmo estando a treinar nos seniores e ir jogar aos fins de semana aos juniores, evoluía nos seniores, mas, aos fins de semana nos juniores, estagnava. Chegar à primeira equipa do Benfica ia ser muito complicado, porque na altura o Benfica contratava muitos jogadores e não apostava tanto nos jovens como hoje. Então pensei, nos juniores não vou conseguir evoluir mais porque o campeonato de juniores na minha altura, só numa fase final da competição é que apanhamos o FC Porto, o Sporting, o Boavista, o Estrela da Amadora. Com aquela oportunidade de ir para a II Liga, que era muito forte, sentia que ia evoluir. Evoluir em qualquer aspeto porque era ir viver longe de casa. E era uma aventura porque tinha colegas lá que conhecia.

Foi viver sozinho para Santo Tirso ou com algum desses colegas?
Fui viver com o Romeu e com o Miguel.

Muitas partidas uns aos outros?
Não. Mas recordo-me de uma que fizemos ao Luís Zambujo. Eu estava em casa com o Romeu, lá nas Aves, e lembrámo-nos que o Luís, que tinha jogado na formação do Benfica e era mais velho, vivia sozinho, na parte de cima de uma moradia, em baixo vivia uma senhora, já com idade. Sabíamos que ele tinha receio de estar ali sozinho à noite. A pessoa que nos alugou a casa tinha lá umas espingardas antigas e resolvemos agarrar numa. O Romeu diz-me assim: "O que achas de irmos pregar um susto ao Zambujo" e eu, "bora". Chegamos lá de noite, tocámos à campainha e ele nada. Tocamos uma segunda vez, nada. Entramos dentro do carro e ele vem à janela e conforme vem à janela, nós baixamos um bocadinho o vidro e metemos essa espingarda com os canos de fora [risos]. Ele desapareceu. Ele pensava que era um assalto ou uma coisa assim. Depois ligámos para ele a dizer que éramos nós e fomos lá a casa passado meia hora. Ele acabou por dizer-nos: "Epá, eu durmo com uma garrafa de vinho vazia ao lado da cabeceira com receio e quando vocês me tocaram à porta, fui logo ver quem era. Quando vi a arma...Epá, vocês nunca mais me façam isso, apanhei um susto do caraças”. Nós só ríamos.

Ruben acabou por nunca conseguir vingar na equipa principal do Benfica

Ruben acabou por nunca conseguir vingar na equipa principal do Benfica

D.R.

Quando chegou ao Aves, como é que foi o impacto?
Foi complicado porque quando cheguei ao balneário, tinha 18 anos e vi jogadores já perto de terminarem a carreira, com 35, 36 anos. Do que conhecia da II Liga, sabia que não ia ser fácil, mas eu estava muito focado em evoluir. Adorei lá estar.

Esses mais velhos não os praxaram?
Não. Na altura havia os "Morangos com Açúcar" e como nós éramos novos, diziam que éramos os “Morangos com Açúcar” [risos]. Mas o grupo era muito engraçado, tanto que depois pedi para ser emprestado novamente para lá. Fiz seis meses bons e eles acabaram por dizer: "Não sei como é que vai ser, mas nós queremos-te cá para a próxima época" e eu: "Ok, não há problema. Eu tenho de apresentar-me agora para fazer a pré época - na altura, acho que era com o Quique Flores -, mas vou falar com eles, fazer uma pressão, para vir para aqui". Na altura o Benfica falou comigo sobre um projeto do Olhanense ,que tinha subido à II Divisão, mas acabei por dizer que não queria ir, como gostei tanto de estar no Aves, que queria mesmo voltar.

Já tinha empresário?
Sim, era o Pedro Romão. Foi ele que chegou até mim, num torneio da seleção de Lisboa, que se fazia ali no CAC da Pontinha. Estávamos a fazer o torneio e depois de um jogo veio um senhor que trabalhava com ele e falou comigo.

Chegou a ir ao Europeu de Sub-19, em 2007?
Sim. Foi na Áustria. Acabámos por não passar da fase de grupos, mas até ao último jogo podíamos ter passado. O nosso grupo era a Espanha, a Grécia, nós e a Áustria.

Quando vai para essa segunda época no Aves, continua a ser o Henrique Nunes, o treinador?
Sim, enquanto estive lá, foi sempre ele. Ajudou-me bastante também na adaptação. Era um treinador que gostava muito de intensidade, mas também tinha um lado humano espetacular, nos treinos podíamos estar a falar com ele na boa. Um treinador fantástico. Esse ano e meio no Aves correu-me muito bem e depois voltei ao Benfica. Entretanto estou a treinar no Benfica e surgiram algumas coisas da II Liga, só que eu tinha o foco de poder ir para a I Liga. Preferi esperar mais um bocado para ver se aparecia alguma coisa. Surgiu o Vitória de Setúbal e disse logo que sim.

Foi viver para Setúbal?
Não, voltei para a casa dos meus pais, porque também tinha colegas que viviam em Lisboa e acabamos por ir todos juntos para o treino. O primeiro mês não foi muito fácil porque já tinha a minha autonomia, de fazer as coisas à minha maneira como e quando queria e viver outra vez com os meus pais… Houve ali um mês que foi mais ou menos complicado.

Porquê?
Por exemplo, a seguir ao jantar ia beber café e eles começavam a dizer: "Olha que tens treino amanhã". Eu nas Aves, não tinha ninguém a dizer-me, olha vê lá, tens treino [risos]. Ou, por exemplo, ter de avisar se não vou jantar ou se vou fazer isto ou aquilo. Já não estava habituado a ter que ligar para ninguém a avisar. Mas depois eles começaram a ver quais eram as minhas rotinas e não houve mais stress.

Em 2009/10 Ruben foi emprestado pelo Benfica ao V. Setúbal

Em 2009/10 Ruben foi emprestado pelo Benfica ao V. Setúbal

Icon Sport

Quando chegou ao V. Setúbal, quem era o treinador?
Era o Carlos Azenha. Quando fui já sabia que iria ser segunda opção porque o Vitória queria contratar um jogador ao FC Porto, não me recordo quem era, um lateral esquerdo, acho que era um jogador sul-americano, e o treinador falou comigo: “Quero-te cá, mas é assim, há expulsões, há lesões, há isto, há aquilo, e conto contigo. Gosto de ser frontal com as pessoas e a minha primeira opção é…” o tal rapaz. Eu disse-lhe: "Mister, esteja à vontade, eu quero é poder ter oportunidade de jogar, com 19 anos, na I Liga, ganhar experiência e depois logo se vê”.

Custou-lhe deixar de jogar com frequência?
Não, porque acabou por não acontecer. Entrei para a pré-época, fiz tudo, jogos amigáveis, fomos andando e o tal jogador não apareceu, até que chegou à última semana de transferências, ele virou-se para mim e disse: "Rúben, já não quero mais aquele jogador, vou contar contigo, estou satisfeitíssimo com o que tu fizeste na pré-época e vais ser o meu lateral esquerdo, não vou buscar ninguém, portanto tens aí a tua oportunidade". Fiquei todo satisfeito. Joguei praticamente os jogos todos.

Mas o Carlos Azenha não fica até ao fim da época.
Não, é despedido, entra um treinador que estava nas camadas jovens para fazer duas semanas enquanto eles estavam à procura de treinador. Passadas essas duas semanas veio o Manuel Fernandes. Continuo a jogar com ele e acabei por fazer uma época, como primeira época, muito boa, porque joguei mais do que estava à espera.

Notou muita diferença da II para a I Liga?
Muita. É intenso na mesma, mas é de outra forma, tem mais qualidade, joga-se mais, pensa-se, não é que na II Liga não se pense, mas era muito mais combativa e havia essa diferença. A II Liga era mais física. A I Liga era mais intensa, mas de ritmo, de bola corrida. E também havia diferença nos jogadores.

Entretanto, acaba contrato com o Benfica?
Não, tinha mais um ano de contrato e volto outra vez ao Benfica. O Manuel Fernandes na altura disse-me "Vou falar com o Jorge Jesus para voltares para aqui, sou amigo dele". As coisas foram passando e a determinada altura acho que o Benfica e o V. Setúbal desentenderam-se, porque houve um negócio qualquer de uma outra coisa, não sei bem. Sei que acabei por não voltar, o Benfica acabou por dizer que não emprestava mais jogadores ao V. Setúbal. Aquelas coisas que às vezes acontecem, e depois no ano seguinte já está tudo bem.

Então fez a pré-época com o Benfica?
Fui fazer a pré-época com os que estavam à espera de colocação, os dispensados, os que iam ser emprestados e esporadicamente íamos treinar com o Jesus.

E que tal?
É diferente. Naquele curto período que estive com ele, é muito daquilo que falam. É chato em muitas coisas, mas é sempre o melhor para o jogador. Achei que era um treinador bom, muito exigente com os jogadores.

Levou alguma dura dele?
Não, ele com os miúdos não dava assim muitas duras, só se se fizesse uma coisa mais fora do normal. Mandava vir era com os jogadores da equipa principal, mas isso é o habitual.

Nunca se sentiu intimidado?
No início sim, éramos miúdos novos e o que queríamos era tentar mostrar que conseguíamos fazer bem. É normal.

Com os pais, a irmã, mulher e filhos

Com os pais, a irmã, mulher e filhos

D.R.

Mas acabou por não ficar no Benfica. O que aconteceu entretanto?
O Benfica apresentou-me a proposta de uma equipa de II Liga, mas como eu já tinha conseguido chegar à I, queria continuar na I Liga para continuar a evoluir. Eles disseram que iam ver e tal, as coisas começaram a arrastar-se e começamos a chegar ao período de agosto, em que as equipas começam a iniciar os jogos. Eu fui perdendo a pré-época noutra equipa, até que cheguei a um momento em que eu disse: "Tenho mais um ano de contrato, mas se calhar para o bem de todos o melhor é rescindirmos o contrato e eu vou à minha vida”. Entretanto, nesse período em que eu estou a dizer que quero rescindir, tinha o Beira-Mar a dizer que me queria, com o Leonardo Jardim. Quando rescindi com o Benfica, acabei por ir para lá, assinei por dois anos. Entrei no final de agosto, a equipa já estava montada, tinha a perfeita noção de que iria ser difícil para mim.

É preciso coragem para, tão novo, rescindir contrato com o Benfica.
No meu pensar, aquela coisa de ser emprestado, voltar à equipa, voltar a ser emprestado, chega a uma altura em que já não é tão bom para o jogador. Porque fazes uma boa época, regressas, e se for preciso até te sentiste bem naquele clube e se calhar queres continuar, mas entretanto há uma chatice com um diretor, entre clubes, e tu acabas por ser prejudicado porque houve uma discussão que não tem nada a ver contigo. Mas estava a contar que fui para o Beira-Mar, assinei dois anos, mas não joguei muito, fiz uns nove, dez jogos.

O que achou do Leonardo Jardim?
Gostei de trabalhar com ele. Notava-se que era muito exigente com o sistema tático, a questão dos cantos, dos livres, aquilo era tudo muito ao pormenor. Era um treinador muito exigente, mas no bom sentido, tanto que acabamos por fazer uma boa época, uma boa campanha visto que o Beira-Mar na altura tinha subido com ele da II para a I Liga. Ele acabou por sair a meio, para o SC Braga. Quem o substituiu foi o Rui Bento.

Diferente?
Sim, diferente, mas naquela fase a equipa já estava tão bem, já estava tão rotinada que ele não precisava mexer muito, foi andar para a frente e acabámos bem classificados. Não fiz muitos jogos porque, como disse, acabou por ser muito difícil entrar porque eu cheguei em agosto. A equipa estando bem, para quê mexer, certo? Quando ia tendo oportunidades tentava dar o meu melhor. Mas fiz muitos amigos lá, adorei viver em Aveiro.

Esteve a viver sozinho em Aveiro?
Estive porque na altura a minha namorada, que é hoje a minha mulher, estava a acabar a faculdade.

Quando é que conheceu a sua mulher?
Foi no ano em que estive a jogar em Setúbal. A Mariana é de Lisboa e acabámos por nos conhecer, através de amigos. Estava na faculdade a tirar Comunicação Social, na Católica. Depois eu tive de ir para Aveiro, ela continuou a estudar, vinha ter comigo nos fins de semana ou quando estava de férias da faculdade. Fomos andando assim.

Contava que fez amizades em Aveiro.
Sim, tenho lá um amigo, o Artur, que ainda joga e que eu cada vez que venho ao norte, passo sempre por Aveiro para ir jantar ou almoçar com ele e com a família. Foi uma pessoa muito importante na altura, ele fazia parte dos capitães e recebeu-me muitíssimo bem. Depois, como eu não estava a jogar muito, e como o meu empresário, o Pedro Romão, disse-me que tinha surgido uma oportunidade de ir para a Croácia, pedi para sair.

Era uma coisa que queria, jogar no estrangeiro?
Era uma coisa que ambicionava, não digo que fosse como foi, logo com 22 anos, mas era uma coisa que queria, mais à frente, poder experimentar um campeonato estrangeiro. Mas, entretanto, falei com os diretores do Beira-Mar, eles disseram que contavam comigo, mas eu expliquei-lhes que só tinha jogado nove jogos e que se a equipa fosse a mesma na época seguinte, possivelmente não iria jogar tanto como queria. Portanto, insisti que gostava muito de sair e eles até foram muito porreiros, deixaram-me sair.