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A casa às costas

"Na Croácia, a nossa claque foi expulsa e ameaçou-nos: se jogássemos sem eles, teríamos dissabores. Só se ouviam tiros e explosões na rua"

Das aventuras na Croácia onde jogou em três clubes e esteve a treinar à parte alguns meses, ao regresso a Portugal, Rúben Lima, de 31 anos, fala nesta segunda parte da entrevista de um período em que esteve sem jogar porque o presidente do clube não queria. E de como a espera por clubes estrangeiros podem de alguma forma prejudicar a carreira. Diz que, se mandasse, o festejo dos golos com o tirar da camisola deixava de ser punido.

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Em 2011/12, assinou por quanto tempo com o Hajduk Split da Croácia?
Por dois anos. O meu primeiro treinador foi o Balakov, o ex-jogador do Sporting. Gostei dele, falava português o que era ótimo para mim.

Foi sozinho para a Croácia?
No início fui sozinho, até porque a minha mulher estava no último ano de faculdade. No primeiro mês foi difícil, eu quase nem tinha apetite por causa do impacto de sair de Portugal, de ir para outro sítio onde não conhecia ninguém, era a língua, era tudo...

Sabia falar inglês?
Na altura não falava muito, percebia um bocadinho mais. Tivemos um tradutor, mas era de croata inglês. Na altura pensei, "estou lixado, não vai ser fácil". Mas visto agora, foi a melhor coisa que fizeram porque tive de começar a aprender, a desenrascar-me.

Gostou da cidade e dos croatas?
Adorei. No início, como estava a contar, foi um bocado difícil porque é aquela questão de ir para um balneário que, querendo ou não, olham um bocadinho de lado para ti, mas depois do primeiro estágio, eles viram que eu também estava ali para ajudar e então acolheram-me bastante bem. Era um clube com adeptos fantásticos, é o que tem mais adeptos, sem dúvida fui para um ambiente completamente diferente. Eu vinha de Portugal, onde não havia assim tantos adeptos e de repente vou para um clube em que és abordado na rua, vais a um restaurante ou um café e não te deixam pagar nada, uma realidade muito diferente.

Um futebol também muito diferente do português?
Sim, não era tão intenso porque havia um fosso muito grande entre os clubes grandes, naquele ano era o Hajduk Split e o Dinamo de Zagreb. Havia um fosso muito grande, mas ao longo dos anos em que fui estando lá percebi que houve algum investimento, foram comprando jogadores com mais qualidade e acabou por ser mais competitivo.

Quando é que a sua mulher vai ter consigo?
No ano seguinte. Tive um período em que a minha mãe esteve lá, de finais de outubro a dezembro, depois vim de férias, porque as férias lá são em dezembro, regressei com a minha mãe, ela esteve lá um bocadinho comigo e em janeiro começámos a pré-época, de janeiro a maio fiquei sozinho e na época seguinte a Mariana foi ter comigo e começamos a viver juntos, até hoje.

E dos croatas, gostou deles?
Sim, mas é como estava a contar, no início há aquele impasse, somos estrangeiros, é o normal. Mas quando eles veem que tu és dedicado, profissional, que também és uma pessoa porreira, que não estás lá só na perspetiva de ganhar dinheiro e não fazer nenhum, eles acabam por te aceitar muito bem.

Rúben (à esquerda, em baixo), chegou ao Hajduk Split em 2011/12

Rúben (à esquerda, em baixo), chegou ao Hajduk Split em 2011/12

D.R.

Na segunda época ganha a taça.
Sim, foi uma coisa incrível. Era a duas mãos, quando jogámos a primeira mão, em casa, tínhamos o estádio cheio. Fomos para a segunda mão contra o Lokomotiv de Zagreb no estádio do Dínamo, e lembro-me que quando fomos para o aquecimento, olhámos e não estava praticamente ninguém no estádio. De repente, quando estamos a subir para o relvado, ouvimos uma ovação enorme e quando olhamos estava a bancada cheia de adeptos do Split. Tinham feito 500 quilómetros, o estádio estava cheio e nós acabámos por ganhar a final. Foi um dia inesquecível, eles ficaram à nossa espera para festejarmos com eles. Fomos de autocarro até Split, são sensivelmente seis horas de autocarro, e quando chegamos ao estádio, já lá estavam as famílias à nossa espera, tinham os holofotes acesos e estavam todos dentro do estádio para nos receber. Foi uma coisa incrível, foi espetacular.

Na época seguinte vai para o Dinamo de Zagreb. Como?
Acabei o contrato com o Split, eles queriam renovar comigo, mas acabei por dizer: "Não quero continuar mais na Croácia". Era a realidade, não tinha nada na Croácia, tinha outras coisas fora.

De onde?
Da Alemanha, mas não era nada certo. Só que eu já não conseguia mais estar na Croácia, queria mudar.

Porquê?
Porque houve muitas coisas ali pelo meio, salários em atraso e chegou um ponto em que eu só pensava que tinha de ir para uma equipa financeiramente estável, apesar de tudo, dos adeptos serem fantásticos. Mas o Split estava a passar por dificuldades financeiras e por vezes tínhamos quatro meses de salários em atraso.

Com que dinheiro vivia nessas alturas?
Tinha que viver com o salário que me pagassem, tinha de arranjar forma. Na altura também não tinha muitas coisas para pagar. Não pagava a habitação, era só a alimentação, portanto conseguia gerir. Havia a dificuldade de não poder fazer a minha vida à vontade, se eu quisesse ir a um restaurante várias vezes, não podia. Poder dar uma passeio na folgas, ir a um sítio ou outro, não podia. Era muito isso, saberes que tens de viver controlado porque podem não pagar mais um mês. Mas no final ficou tudo acertado, não houve problema algum.

A dar um autógrafo, na Croácia, a um fã com a camisola da seleção portuguesa

A dar um autógrafo, na Croácia, a um fã com a camisola da seleção portuguesa

D.R.

Estava a contar que então não queria continuar na Croácia. E depois?
Disse-lhes que não queria ficar e eles, "ok, não queres ficar, não ficas". Saí de lá a bem, sem qualquer tipo de problema. Entretanto, o meu empresário surge com uma proposta do HNK Rijeka, onde na altura tinha entrado um investidor, que ainda hoje está lá e que começou a ir buscar jogadores melhores na Croácia. Uma vez que eu estava sem contrato, ofereceram-me contrato. Só que nessa mesma altura pensei: “Vou sair de um clube enorme como o Split e vou para o HNK Rijeka que está a iniciar? Não faz sentido”. Disse ao meu empresário que não queria voltar à Croácia. As coisas foram andando e entretanto ele aparece-me com uma proposta do Dínamo que me dava quatro anos de contrato. Continuei a dizer que não queria voltar.

O que o fez mudar de ideias?
A minha mulher virou-se para mim: "Rúben, eu acho que é bom para nós, temos quatro anos, também é um clube que joga na Champions. Entretanto, passou uma semana e o empresário: "Como é que é? Vamos ou não? Eles querem-te"; "Está bem, pronto, vamos lá então". No dia em que aterrei lá comecei a receber mensagens dos adeptos do Hajduk Split.

Com ameaças?
Sim, sim, no Facebook e nas redes sociais. Ameaças de morte mesmo. Mas pronto foi uma coisa com que tive de aprender a lidar. Desativei a conta naquele momento.

Chegou a ficar assustado?
No início um bocado, mas depois aquilo foi passando e também não me aconteceu nada. Tanto que quando fui jogar, pensei que ia ser assobiado e não. Eles assobiavam os jogadores que tinham trocado de clube, mas não me assobiaram. Foi um bocado estranho, mas pronto, ainda bem.

Gostou mais de Zagreb do que de Split?
Em termos de cidade é um bocado difícil dizer porque Zagreb tinha tudo na altura e Split estava a crescer, é um bocado mais como o Algarve, é mais praias. Zagreb como é a capital estava mais evoluída. Mas para mim que sou de Lisboa e gosto de praia, gostei mais de Split, até mesmo porque é mais calmo e tudo. Adaptei-me às duas, mas se tivesse de escolher para viver, escolheria Split.

A época correu muito bem, ganhou a Supertaça e foi logo campeão, certo?
Foi. Também jogamos na Liga Europa. Mas foi uma época que não foi normal para eles porque normalmente iam com um treinador até ao fim e tivemos cinco nesse ano. No início, acabámos por não entrar na Liga dos Campeões, despediram o treinador; entramos na Liga Europa, fomos às fases dos grupos, fizemos uma campanha normal, mas acabamos também por não passar e entrou outro treinador, foi uma confusão. A nível pessoal joguei praticamente todos os jogos. Na Liga Europa também joguei três ou quatro, foi bom.

Na época 2012/13, Rúben (à esquerda) festejou a conquista da Taça da Croácia

Na época 2012/13, Rúben (à esquerda) festejou a conquista da Taça da Croácia

D.R.

O que é mais difícil em ter de lidar com cinco treinadores numa mesma época?
O difícil é que cada treinador acaba por ter a sua ideia, depois há uma mini pré-época porque eles acham que os jogadores não estão preparados e querem prepará-los. O mais difícil é isso. Ter um treinador com ideias diferentes e termos que nos adaptar o mais rápido possível a elas.

O que aconteceu depois?
O que acontece depois é uma longa história. Acabou o campeonato, venho de férias para Portugal e recebo uma chamada do diretor de lá a dizer "Precisamos de falar quando cá chegares, por causa da tua continuidade aqui"; "Ok, mas o que é que se passa?"; "Nós não contamos contigo para a próxima época"; "Não contam comigo!? Então fizeram-me mudar do Hajduk Split para aqui, deram-me quatro anos de contrato, joguei praticamente os jogos todos, não faz muito sentido"; "Quando vieres, a gente depois fala". Cheguei lá e ele disse-me a mesma coisa, que me davam uma parte do contrato, para rescindir e ir à minha vida.

Não aceitou?
Não. Tinha mais três anos de contrato e o valor que me estavam a dar, nem sequer era metade de um ano, portanto não fazia sentido. Disse-lhe: “Por isso vou continuar aqui, é claro que vou tentar arranjar colocação, mas enquanto não arranjar vou estar aqui". No início foi assim, muito tranquilo, mas depois as coisas começaram a azedar. Cada vez que eu aparecia com uma equipa, eles: "Epá não, aí não. Não queremos que vás para Portugal; "Ok, então empresta-me para a onde?". E eles mandavam-me para clubes da Croácia e eu: "Epá não, também não vou jogar aí. Para isso prefiro ir para Portugal, vocês pagam-me uma parte do salário, o outro clube paga-me a outra parte e está tudo ok"; "Ah não e tal...". Pronto, a partir daí começou o braço de ferro. Eles meteram-me depois na equipa B e a treinar à parte também, essas coisas que normalmente as equipas fazem, que não é legal.

Rúben (à esquerda) com a Taça da Croácia conquistada pelo Hajduk Split

Rúben (à esquerda) com a Taça da Croácia conquistada pelo Hajduk Split

D.R.

Mas acaba por ser emprestado ao HNK Rijeka.
No período de dezembro, no último dia, disse-me: "Arranjamos-te o Rijeka. Queres ir?". O HNK Rijeka tinha entrado na Liga Europa. E fui. Chego lá, sou convocado, entro no primeiro jogo, depois fui sempre convocado e chega uma altura em que deixo de ser convocado. Tive um período em que joguei pouco, era convocado para a Liga Europa, mas nunca saia do banco. Até que chega dezembro e o diretor liga-me a dizer que tinha de voltar ao Dinamo porque não estava jogar e eu disse-lhe que ia dizer-lhe o mesmo, que queria sair, porque não fazia sentido estar ali a fazer basicamente nada, e que queria voltar para o Dínamo". Voltei, fui para a equipa B e estive a jogar. Umas vezes diziam para ir para a equipa B, outras vezes diziam que tinha de ficar a treinar à parte e eu sempre na minha, nunca arranjei problemas porque era o clube que basicamente não me queria. Em janeiro treinava sozinho, depois em fevereiro ia para a equipa B e jogava na equipa B, na II Liga. Depois acabava e voltava a casa, de férias, depois acabava as férias, voltava e entrava.

Isso cria um grande desgaste psicológico, não?
Sim, não desejo a ninguém, mas também neste caso ajudou-me em várias outras situações mais à frente, porque aprendi a ser mais resiliente. Por um lado é mau, mas por outro lado também tentei tirar o máximo proveito daquela situação que me estava a acontecer.

Já tinha sido pai?
Sim, nessa altura tinha nascido o Gustavo, em junho de 2015. Eles deixaram-me ficar mais uma semana em Portugal e assisti ao parto e tudo.

Histórias para contar da Croácia? Não tem nenhuma?
Uma vez, pouco depois de ter chegado à Croácia, o Hajduk Split foi convidado por um clube da Bósnia, para um jogo amigável de festejo de aniversário desse clube de Sarajevo. Fomos de autocarro, dormimos no hotel porque o jogo era no dia seguinte. Fomos para o estádio, fomos ver o relvado, como o clube fazia anos as coisas estavam todas direitinhas e bonitinhas para fazer a festa. Recolhemos para ir equipar. E quando subimos ao campo para o aquecimento, vimos a nossa claque num sítio, mas reparamos que havia uma outra parte do estádio em que as coisas estavam já com um bocado de mau aspecto, com tarjas rasgadas. Percebia-se que tinha acontecido alguma coisa ali. Estamos a iniciar o aquecimento e às tantas o nosso capitão sai do aquecimento e vai para junto da nossa claque. Quando volta diz que os seguranças e a polícia estavam a expulsar os adeptos do Hajduk porque eles tinham passado antes pelo topo sul e estragaram as tarjas da outra claque. Só que o líder da nossa claque disse ao capitão que se os expulsassem de lá nós não podíamos entrar em campo, porque jamais o Hajduk entraria em campo sem a claque.

E jogaram?
Aquilo meteu diretor e tudo, o nosso capitão disse que o chefe da claque lhe disse para não jogarmos porque senão quando chegássemos a Split podíamos ter algum dissabor, ameaçaram-nos caso entrássemos no jogo sem eles lá. Acabamos por voltar ao balneário para saber o que ia acontecer. Vinha alguém e dizia para irmos, mas os jogadores já não queriam com medo do que pudesse acontecer em Split. Até que chegou a decisão final e não jogamos. Tínhamos sido convidados, mas acabamos por nem jogar. E ficamos três ou quatro horas junto do autocarro na zona dos balneários à espera que as ruas ficassem livres, porque só se ouviam tiros, explosões e confusão. Quando finalmente saímos no autocarro, na estrada estavam polícias de choque de cinco em cinco metros de um lado e do outro das ruas, a fazer um cordão de segurança até ao hotel, que ficava a uns 3 ou 4 km do estádio. Foi surreal.

Rúben chegou ao Dínamo de Zagreb em 2013/14

Rúben chegou ao Dínamo de Zagreb em 2013/14

Mike Egerton - EMPICS

Entretanto, como se desenlaça a situação com o Dínamo e vai parar à Madeira?
Faltava um ano e meio para acabar o contrato. Entretanto, o presidente do Dínamo é preso e tive mais facilidade em negociar com as pessoas que assumiram o clube. Deram-me metade do contrato. Eu já tinha o União da Madeira interessado. Negociamos e eles aceitaram tudo o que eu pedi, consegui a rescisão e fui para a Madeira em janeiro.

Gostou de viver numa ilha?
Claro que gostei, é uma ilha espetacular, com muito bom tempo. Vir para Portugal novamente era uma coisa fantástica. Não joguei foi muito, fiz dois jogos, se não estou em erro.

Era Norton de Matos o treinador?
Era.

Porque é que jogou tão pouco, sabe?
Quando cheguei eles tinham 26 pontos, estavam bem classificados em janeiro e o treinador já tinha a equipa montada, era a equipa dele, os jogadores em quem ele tinha confiança. Eu chego porque lesionou-se um lateral e eles precisam de um lateral. Mas acabei por não jogar tanto por opção do treinador que apostava mais no outro jogador e foi assim até ao fim.

Acabam por descer de divisão.
Sim. E como eu tinha vindo de fora, já estava fora há algum tempo, foi um bocado complicado arranjar clube, acabei por continuar no União e jogar na II Liga. Foi uma decisão difícil, mas hoje olho com grande orgulho porque acho que voltar lá não me fez nada mal, tanto que acabo por fazer mais de quarenta e tal jogos e ficamos em 3.º lugar. Foi uma época desgastante porque eram muitos jogos, mas também foi fantástica a nível de grupo. Gostei de estar lá.

Rúben com a taça do campeonato conquistada ao serviço do Dínamo em 2013/14

Rúben com a taça do campeonato conquistada ao serviço do Dínamo em 2013/14

D.R.

Como apareceu o Moreirense?
O mister Manuel Machado ligou-me a perguntar como é que estava a minha situação, eu expliquei-lhe que tinha acabado o contrato, ele perguntou se eu gostava de ir para lá e disse logo que sim. Voltar à I Liga era o meu objetivo e assinei por dois anos. Foram dois anos fantásticos.

Que tal foi trabalhar com Manuel Machado?
Gostei muito dele, é muito calmo, muito descontraído, até mesmo a nível de treinos e tudo, o falar dele também é bastante diferente dos outros, o discurso dele, era um falar fácil connosco, embora nas entrevistas fosse diferente.

Depois de Manuel Machado, chega Sérgio Vieira, que não fica muito tempo.
As coisas até estavam a correr bem e de um momento para o outro o Sérgio Vieira também saiu e veio o Petit, para ajudar na manutenção. Fez um excelente trabalho em um, dois meses. Era o que precisávamos, era uma mentalidade diferente em termos de grupo, no balneário é muito forte, no treino também, mas em termos de balneário é muito forte.

Como assim? Tente explicar.
Ele sabe, ele viveu, esteve com grupos muito bons, nas seleções, no Benfica, no Boavista. Penso que ele tirou um pouco daí e em termos de balneário consegue unir, consegue fazer com que a gente trabalhe todos para uma causa, tenta elevar-nos, mas ao mesmo tempo incentiva a nunca estarmos à espera que as coisas nos caiam em cima, para darmos mais e mais e mais. Há almoços e jantares, tudo isso faz parte para o grupo relaxar um pouco, mas a mensagem que ele passa é especial.

No ano seguinte entra Ivo Vieira?
Sim, já é com o Ivo. Também gostei porque era um futebol muito atrativo, era e é, um futebol pensado, chegar à baliza com mérito e não só com pontapé para a frente. Acabamos por fazer uma época fantástica, em que também tínhamos um grupo muito bom, acho que foi dos melhores grupos que apanhei. Andámos sempre em 5.º lugar até à última jornada, acabámos por ficar em 6.º com os mesmos pontos que o Vitória.

Depois da passagem pelo União da Madeira, Rúben chega ao Moreirense na época 2017/18

Depois da passagem pelo União da Madeira, Rúben chega ao Moreirense na época 2017/18

D.R.

Tinha assinado dois anos. Queria renovar?
Esse foi o lado chato de estar no Moreirense. Estávamos bem, o presidente veio falar comigo sobre a renovação, em fevereiro se não me engano. Não chegamos a acordo e o presidente achou que ao não chegar a acordo, eu não devia jogar, devia jogar outro, para ver se contava com o outro ou não. Mas ainda havia coisas para conquistar, como um lugar na Liga Europa. Só que, para ele, a manutenção que já estava garantida na altura, chegava. Então começou a preocupar-se logo com o plantel do ano seguinte. O problema foi que a equipa como era muito forte em termos de grupo, olhou para aquilo como algo errado. Porque se formos a ver, se o Moreirense tivesse que lutar para não descer, como na época anterior, se calhar ele não me iria pedir para renovar, ia esperar que acabasse a época, não sabia se ia ficar na I ou na II. Mas como ali a manutenção já estava garantida, ele foi do género deixa-me ver se consigo renovar com os jogadores. O problema foi que eu fui o primeiro e a reação de todos não foi muito boa, pelo facto de ele estar-me a fazer aquilo. Acabou por não fazer a mais ninguém.

O que o Ivo Vieira lhe disse ou fez quando recebeu indicações do presidente para não o pôr a jogar?
O Ivo, como é lógico, como treinador não pode fazer muito mais, ele está a servir o clube, é empregado do clube.

É essa a razão por que jogou metade dos jogos da época anterior?
Sim, joguei até ao ponto em que o presidente dizia que eu não ia jogar. É o lado mau do futebol. Mas gostei de jogar no Moreirense, acredite que gostei. E tenho lá amigos, dentro da estrutura. Quando vou lá é com grande satisfação.

Em 2019/20 Rúben Lima assina pelo Belenenses SAD

Em 2019/20 Rúben Lima assina pelo Belenenses SAD

D.R.

Entretanto a época acabou. Já tinha o interesse do Belenenses?
Não. Estive esse período sem jogar, entretanto estive a tentar resolver a minha vida, acabei por ter empresários na altura que me estavam a sugerir umas coisas para a Turquia. Esperei, esperei. Houve situações de clubes em Portugal, e até de fora, que me foram surgindo, mas eu estava obcecado com a situação de ir para a Turquia, porque também me falavam de uma maneira que parecia estar quase adquirido. Mas as coisas não foram acontecendo e eu acabei por perder contratos, porque fui dizendo que não a várias equipas. Esse foi o lado da minha carreira de que me arrependo um bocado. Acabei por chegar ao final de agosto sem ter clube, porque estive à espera que me aparecesse alguma coisa como eles diziam que ia aparecer.

Então não fez pré-época.
Mas nunca estive parado, estive sempre a treinar com o Francisco, um PT de Lisboa. Foi uma pessoa que me ajudou bastante nesse período, eu ia treinar todos os dias com ele. Depois, em dezembro recebo uma chamada do mister Petit a perguntar como é que eu estava e tal, se queria ir para lá e eu, claro que sim. E foi isso. Deu-me a mão quando eu mais precisei e eu tentei retribuir dentro de campo, ajudando em tudo o que pudesse.

Veio outra vez com a casa às costas para Lisboa.
Sim. Assim que saí do Moreirense mudei-me para Lisboa.

Já tinha voltado a ser pai?
Sim, na segunda época do Moreirense, fui pai do Tomás.

Faz época e meia no Belenenses, sempre com o Petit como treinador. Porque não continuou?
Neste último ano tínhamos um grupo também muito bom, foi um ano muito intenso e diferente por jogarmos sem público.

Causou-lhe muita estranheza ou adaptou-se bem?
Agora já estamos um bocado adaptados, mas no início claro que sim, parece que é um jogo de treino

Acha que essa falta de público refletiu-se na intensidade dos jogos? Diminuiu?
No início, como foi a adaptação, talvez sim, mas depois já nem tanto, porque se formos a ver, muitas equipas foram fazendo frente a outras, o que às vezes não acontecia se calhar com o estádio cheio. Vimos muitas equipas grandes a perder muitos pontos, às vezes em campos onde não perdiam, ou até mesmo em casa. Acho que o campeonato por si só está muito forte.

Mas não respondeu. Porque não continuou em Belém?
Não continuei no Belenenses porque o presidente falou comigo muito honestamente, disse que me oferecia dois anos de contrato, isto muito antes da época acabar. Eu disse-lhe: "Ok, vou pensar sobre a situação", mas eu queria ir para fora. Só que também não queria correr o mesmo risco que corri no ano anterior, portanto se aparecesse naquele período de tempo alguma coisa para ir para fora, tudo bem. Senão, tinha de decidir. Acabou por acontecer esta questão do Famalicão, que me ligou, e apresentaram-me um projeto. O Famalicão também é uma equipa apetecível e acabámos por chegar à conclusão, em família, que para ficar em Portugal queria três anos de contrato e o Belenenses só me dava dois. Com o Famalicão, eu disse que queria três anos e eles disseram logo que sim. Isso e a forma como me falaram do projeto, cativou-me.

Na época que agora começa 2021/22 Rúben vai representar o FC Famalicão

Na época que agora começa 2021/22 Rúben vai representar o FC Famalicão

D.R.

E apareceu mais algum clube de fora?
Depois sim, da Turquia [risos]. Mas também já tinha assinado.

Ficou chateado?
É o que é, não vale a pena estar a pensar muito nisso. Porque eu gastei tantas energias naquele ano, a pensar que ia para a Turquia que acabei por ficar um bocado desiludido com essa situação. Como dizia há pouco, aquela situação que passei no Dínamo ajudou-me a criar resiliência, então fui buscar um pouco disso, para esse momento para o qual nunca estamos preparados. Acabei por pensar, agora as coisas vão acontecer naturalmente. Não vou ficar a pensar que quero ir para a Turquia porque tem bons valores, bom dinheiro.

Já se mudou para Famalicão com a família?
Não, a família ainda está em Lisboa, só devem vir quando começar a escola dos miúdos, em final de agosto, setembro. Vamos viver em Guimarães, vivemos lá quando estive a jogar no Moreirense. Já conhecemos a cidade e tudo.

O seu objetivo é ficar os três anos no Famalicão ou está na expetativa de aparecer uma proposta boa de fora?
Como toda a gente sabe, o futebol hoje é uma coisa e amanhã é outra. O que vai definir isto é o jogar, se estás bem, se estás mal, isso é que vai definir as coisas. Aquilo que eu posso controlar é a questão de trabalhar, de treinar, de focar-me e depois o resto vai acontecendo. Agora, como é lógico, jogando, estando bem, pode aparecer alguma coisa, mas também pode não parecer. Hoje o que penso é em desfrutar ao máximo o futebol.

Ainda teve Bruno Alves como colega uns tempos. Que tal?
Espetáculo, vê-se que é um jogador de grande carisma e com muita qualidade. Quem me dera chegar aos 39 anos e estar com a forma física como ele está.

Já pensou no futuro pós pendurar as chuteiras?
Ainda não. Estou a tentar acabar a escolaridade para poder ter as portas abertas para outras coisas. Não sei, ainda não pensei muito nisso. Eu gostava como é óbvio de continuar ligado ao futebol, mas depende também da oportunidade.

Com a mulher e os dois filhos

Com a mulher e os dois filhos

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro até hoje?
No Dínamo de Zagreb.

Tem investido o seu dinheiro em algum negócio, em imobiliário?
Comprei casa, tenho uma empresa de Uber, tenho um motorista a trabalhar para mim, porque neste momento ainda só tenho um carro, em Lisboa. Com a pandemia as coisas ficaram mais ou menos paradas.

Tem algum hóbi?
Jogar ténis com os amigos.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Comprar um carro a pronto para a minha mulher.

Tatuagens. Qual foi a primeira que fez?
Um amigo meu faleceu quando era muito novo de leucemia, era o meu melhor amigo na altura e quando fiz 18 anos, fiz uma tatuagem com as iniciais e a data de nascimento dele. Mas tenho mais. Tenho as iniciais dos meus pais e da minha avó e da minha irmã , tenho o nome do meu filho Gustavo, ainda vou ter que fazer do Tomás. Estas são as mais importantes.

Acredita em Deus?
Tenho a minha fé, mas não vou à igreja.

E superstições?
Tenho algumas, entrar com o pé direito, essas pequenas coisas só.

Segue algum outro desporto para além do futebol?
Ténis talvez. Gosto muito do Nadal.

Qual foi o adversário mais difícil que apanhou pela frente até hoje?
O Hulk.

E quem foi o seu maior rival de posição?
Talvez quando estive no Dinamo, o meu colega que também jogava na seleção, o Josip Pivaric.

Qual a maior frustração na carreira?
Essa questão de não poder dar continuidade no Dínamo.

O momento mais feliz?
Sem sombra de dúvidas que foi ganhar a taça com o Hajduk Split. Ele já não ganhavam há muitos anos.

Rúben no jogo da Taça da Liga, contra o Feirense.

Rúben no jogo da Taça da Liga, contra o Feirense.

D.R.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
A maior amizade que fiz no futebol foi o Artur, quando estive no Beira Mar. Mas fiz muitas, o Miguel Cardoso, com quem estive outra vez no Belenenses e já tinha estado com ele no União da Madeira. Estar a individualizar é um bocado chato porque tenho os meus companheiros do Benfica, o Miguel Carvalho, o Miguel Rosa, ainda hoje falamos, ainda temos um grupo em que estamos muito perto uns dos outros. É um bocado difícil individualizar.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
No Real Madrid.

O que pensa da introdução do VAR no futebol?
É boa quando tiram o máximo proveito daquilo e não têm medo de assumir as coisas. Acho que nos campeonatos funciona lindamente, em Portugal por vezes parece que ainda há ali um receio de decidir, mas veio fazer bem ao futebol.

Há alguma lei no futebol que mudaria?
Acho que o tirar da camisola quando se festeja um golo que acabamos de marcar não devia ser punido.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Se calhar gostava de ser professor de educação física.

Costuma ver programas desportivos sobre futebol?
É muito raro. Hoje em dia já se fala muito pouco de futebol, fala-se de outro tipo de coisas e falam só dos grandes, nunca falam dos outros. É lógico que vende mais, eu percebo, só que acabam por nem falar de futebol, estão mais vezes a falar do que o outro fez e o que não fez. E por isso não vejo.