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A casa às costas

“Uma professora foi para o meu Facebook incentivar ao racismo. Fiquei chocado porque está a ensinar crianças de sete e oito anos”

Abel Camará, de 31 anos, fez formação no Oeiras, mas o seu coração foi conquistado pelo Belenenses. Chegou a ter uma proposta do Borussia Dortmund, mas começou a aventura de jogar fora na Roménia e experimentou depois o calor da Arábia Saudita, onde jogou com a cabeça ligada para disfarçar um penteado e ficou chocado com a forma como as mulheres são tratadas no país

Alexandra Simões de Abreu

Tiago Miranda

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Nasceu em Lisboa. Quem é a sua família de origem e o que faziam os seus pais?
Os meus pais são da Guiné. Quando nasci a minha mãe era empregada doméstica e o meu pai trabalhava numa firma de construção de bobines, que já não existe. Tenho dois irmãos, Bailo e Luís Camará, um mais velho, o outro mais novo. Jogaram ambos futebol. O mais velho agora é treinador de miúdos numa escola em Inglaterra. O mais novo está em Portugal, a trabalhar como eletricista.

Cresceu onde?
Monte Abraão, Queluz.

Como era em criança?
Era um puto reguila, como a minha mãe dizia, parecia que tinha bicho carpinteiro no corpo, não parava quieto. Mas com o passar do tempo fui acalmando. Acho que ajudou ter entrado no futebol, gastava muita energia.

Gostava da escola?
Não gostava muito da escola, mas era bom aluno. O que os meus pais arranjaram para nos motivar foi dar-nos a prenda que nós queríamos se passássemos de ano, portanto, esmerávamo-nos, apesar de não gostar.

O que dizia que queria ser?
Muita coisa. Dizia que queria ser médico, depois queria ser polícia. Mas nunca tive um foco de uma profissão que dissesse, epá, quero ser isto ou quero ser aquilo.

Como surge o futebol?
Através do meu irmão mais velho, porque até aos 13 anos eu não gostava muito de futebol, para ser sincero. Mas como o meu irmão andava sempre para trás e para a frente a jogar futebol no Real Massamá, e os meus amigos começaram a fazer captações, eu, para não ficar sozinho na rua, ia com eles e comecei a ganhar o bichinho pelo futebol.

Quando foi à captação no Real Massamá ficou logo?
Não, ainda foi duro para ficar. Acho que mandaram-me embora umas duas vezes. Depois, um amigo chamado Adalberto Pinto, que jogava com o Pedro Mendes, é que me disse: "A melhor altura para vires aqui à experiência é quando está só a equipa porque assim o mister consegue olhar mais para ti, pode apreciar-te melhor". E assim foi. À terceira vez é que acabei por ficar no plantel.

Tinha quantos anos?
Uns 12 anos, era iniciado. Fiquei no Real Massamá dois anos. Depois vou para o Oeiras.

Porquê?
Porque no final da época há um treinador do Belenenses que me chama para treinar no Belenenses, eu fui, mas ele achou que eu ainda não estava com as condições necessárias para ficar no Belenenses e aconselhou-me a ir para o Oeiras, que nesse ano ia jogar também o campeonato nacional. "Ok, vamos lá". Fiquei quatro anos no Oeiras.

Irá e Messem Camará, pais de Abel Camará

Irá e Messem Camará, pais de Abel Camará

D.R.

Na formação houve algum treinador que o tenha marcado mais?
Sim, o mister Álvaro Tomás porque foi o primeiro mister que mandou que eu assinasse pelo Real Massamá e de certa forma abriu-me as portas para o futebol. O mister Gonçalo Nunes também, pelo treinador que foi quando fui para o Oeiras. E o Rui Jorge. São estes os treinadores que mais me marcam na formação.

Quando começa a ganhar dinheiro com o futebol?
No Belenenses. Tínhamos feito um grande campeonato de juniores e acho que até acabámos com os mesmos pontos do Sporting e do Benfica. Nessa altura assinamos, uns sete ou oito jogadores, contrato de formação. Tinha 18 anos.

Recorda-se do valor do primeiro ordenado?
Perfeitamente, até porque achei irrisório na altura [risos]. Era 75 euros.

O que fez ao dinheiro?
Sinceramente já não me lembro, mas provavelmente deve ter sido para comprar o passe que na altura era caro [risos].

Como é que passou do Oeiras para o Belenenses?
Foi o mister Rui Jorge. No Oeiras estávamos no campeonato nacional de juniores e naquele tempo, quando se era do 1.º ano de juniores, normalmente não se jogava ou jogava-se muito pouco, era a cultura que os misteres tinham. Mas fomos jogar contra o Belenenses, ganhamos por 3-0, na casa do Belenenses, e eu fiz um golo e duas assistências. A partir daí o Rui Jorge falou com as pessoas do Oeiras, queria que eu fosse para lá na época seguinte, mas os misteres só me disseram no final da época. Cheguei ao Belenenses e ainda estive quase um mês à experiência, até o mister decidir que ficava.

Já tinha desistido dos estudos?
Eu só desisti dos estudos aos 18 anos quando assinei contrato com o Belenenses, porque treinava às três da tarde e no curso em que estava, de contabilidade, só saia às cinco. Não tinha como mudar de turno porque era um curso profissional. Falei com os meus pais e o meu pai disse-me: "Vais um ano para ver como é que as coisas correm e depois qualquer coisa, retomas os estudos. Mas se for para largar os estudos, tens que te aplicar a fundo, tens que levar a vida de um jogador profissional". Isto foi no meu último ano de júnior, um ano em que só me dediquei ao futebol.

Os primeiros namoros, as primeiras saídas à noite, já tinham começado?
Já [risos]. Aos 14 anos já saía à noite para os bares em Santos.

Nunca teve problemas no clube por causa dessas saídas?
Não, nós íamos clandestinamente. Éramos miúdos e eles pouco ou nada sabiam onde é que andávamos. E como jogávamos ao domingo, a malta gostava de sair à sexta feira, ainda tínhamos o sábado, em que não treinávamos, para recuperar.

Abel (à esquerda) com o primo Djaló

Abel (à esquerda) com o primo Djaló

D.R.

Fica no Belenenses um ano e depois é emprestado.
Sim. No final dessa época começamos todos a treinar com os seniores porque entretanto o mister Rui Jorge vai para os seniores. O treinador do seniores que lá estava é despedido e deram-lhe quatro jogos para ele tentar salvar o Belenenses. A equipa estava muito desequilibrada e ele chamou alguns juniores que tinham contrato de formação. A partir daí, em que somos chamados aos seniores, assinamos um contrato profissional. Fazemos quase todos a pré-época mas somos emprestados, à exceção do André Almeida, do Pelé e do Fredy.

Ficou chateado quando lhe disseram que ia ser emprestado?
Na altura falei com o meu empresário, o Luís Alves. Achei que estava a ser emprestado porque era miúdo e que não tinha condições para lá ficar. Mas o mister falou comigo. Aceitei bem o desafio porque de certa forma era um caminho que eu tinha de seguir. Um caminho difícil, toda a gente sabe dos problemas do Estrela da Amadora, mas aceitei ir para o Estrela.

Quando lá chegou apanhou António Veloso como treinador. Muito diferente do Rui Jorge?
Muito diferente. O Rui Jorge foi o melhor treinador que apanhei, mesmo tendo sido na formação e na seleção, mas sem dúvida o melhor treinador que apanhei. Mesmo na organização do futebol sénior era diferente. No Estrela apanhei gente muito mais velha, de outras nacionalidades, foi um impacto quando cheguei lá.

Como era a convivência no balneário?
Lembro-me que tínhamos o Paulo Renato, o Zezinando, o João Moreira que já tinha jogado no Valência e de certa forma tive de tentar impôr-me durante um tempo, mas graças a Deus consegui jogar e fazer golos, tanto que em janeiro o Belenenses queria que eu voltasse. Só que entretanto o Lima lembrou-se de começar a fazer golos e disseram-me para aguentar até ao final da época.

No final da época voltou ao Belenenses, mas o clube tinha descido à II liga.
Sim, o Belenenses desce de divisão, estava com algumas dificuldades financeiras e acabaram por dar uma oportunidade a todos os jovens. Voltamos todos para o Belenenses. O treinador já era o Rui Gregório.

Mas ele não fica a temporada toda, pois não?
Não, infelizmente as coisas não correm bem. Tínhamos jogadores de muita qualidade, só que não estávamos preparados mental e fisicamente para o que ia ser a II liga. Achávamos que éramos jogadores de um nível acima que ia ser fácil, mas não. E tivemos muitas dificuldades. O treinador é despedido e vem o José Mota.

Que tal?
Muito diferente, a mística do norte, muito aguerrido, muita gritaria. Lá conseguimos garantir a manutenção.

Não fica a época seguinte em Belém até ao fim. O que aconteceu?
Em janeiro, o Belenenses também estava com algumas dificuldades financeiras, precisavam vender e um dos ativos do clube era eu. E sou transferido para o Beira Mar, que na altura estava na I liga. Fui emprestado e estive lá um ano e meio.

Abel com o irmão Bailó Camará

Abel com o irmão Bailó Camará

D.R.

Quando vai para Aveiro deixa a casa dos pais pela primeira vez?
Sim, na altura em que ia assinar o contrato até me lembro que a minha mãe disse: "Filho, como não sabes cozinhar tens de pedir algum sítio para tu comeres". "Mas eu sei cozinhar, mãe, não há problema", dizia. "Não, não, tu só sabes cozinhar ovos mexidos e pouco mais" [risos]. E quando estava a negociar pedi um sítio para comer, como tinha dito a minha mãe [risos].

Foi duro sair do ninho?
Foi. Não foi fácil ir para uma casa e um sítio onde não conhecia ninguém, nem nada. Primeiro, vivi com um jogador, o Tiago Cintra, porque ele não tinha encontrado apartamento. Ficou um mês a viver comigo e depois foi para o apartamento dele. Não era fácil, muitas noites solitárias, saudades de casa, dos amigos, mas no final do dia sabia qual era o meu objetivo e o que estava lá a fazer.

Chega com Rui Bento aos comandos do Beira Mar e joga pouco.
Com o Rui Bento jogo pouco porque na altura eles tinham uns bons avançados, o Douglas e o Cássio, que tinha chegado ao mesmo tempo do que eu. Tive muitas dificuldades em afirmar-me. Estava habituado a um certo estatuto no Belenenses e quando ali cheguei era um ‘zé ninguém’. Hoje nem tanto, mas naquela altura um jogador que vem da II liga, pouco ou nada pode opinar e era miúdo. Faço um jogo com o V. Guimarães em que entrei nervosíssimo, na altura o V. Guimarães já enchia os estádios.

Foi a sua estreia na I liga?
Foi e acho que perdemos 1-0, já não me lembro bem, mas sei que perdemos e estava muito nervoso. As pernas tremiam, a equipa não estava bem. A partir daí deixei de jogar, devo ter feito muitas coisas erradas [risos]. Só volto a jogar com a entrada do Ulisses Morais.

Gostou dele?
Gostei, era um treinador que era muito direto, ajudou-me muito e consegui captar a atenção nos treinos. Era avaliado nos treinos não pelo estatuto ou pelo nome e acabei o campeonato a jogar.

Continua emprestado na época seguinte?
Sim. Entretanto começamos o campeonato com um empate contra a Académica e estive quase para ir embora no fecho do mercado.

Para onde?
Para o Dortmund, da Alemanha. Só que os dirigentes pediram mais dinheiro e à última hora acabaram por cancelar o acordo.

Ficou triste, calculo.
Fiquei com muita pena sim, até porque o meu empresário falou-me como se fosse certo: "Faz as malas que te vais embora"; "Já? Mas ainda agora cheguei ao clube"; "Temos uma boa proposta da Alemanha e vais para um bom clube". Comecei a ver as equipas da Alemanha mas nunca pensei que fosse o Borussia Dortmund. No fecho do mercado é que veio a notícia de que a proposta não tinha ido avante. Eles achavam que eu ia rentabilizar mais até ao final da época. Mas a meio o Ulisses é despedido e vem o Costinha.

E?
O Costinha é um treinador da nova geração, com uma outra visão, sem medo de jogar, gostava da qualidade e deixava-nos exprimir o nosso melhor futebol. Só que ele apanhou a equipa desequilibrada por causa dos resultados, estávamos sempre cá em baixo e não conseguimos manter-nos, infelizmente. No final da época a maior parte dos jogadores rescindiu e foi-se embora. Eu, como tinha ainda acordo com o Belenenses, vou para a Roménia. O meu empresário arranjou-me duas propostas, uma da Holanda e a da Roménia.

Abel foi emprestado pelo Belenenses ao Estela da Amadora em 2009/10

Abel foi emprestado pelo Belenenses ao Estela da Amadora em 2009/10

D.R.

Porque optou pelo FC Petrolul Ploiesti da Roménia?
Principalmente pelo contrato que eles apresentaram. Como as duas equipas jogavam na Liga Europa, não foi difícil decidir. O contrato era de um ano, com outro de opção.

Qual foi o impacto quando chegou à Roménia?
O meu empresário foi comigo, para me apresentar, mas para primeira experiência no estrangeiro foi muito complicado porque não falava a língua.

Falava alguma coisa de inglês?
Falava inglês minimamente, mas eles não. A comunicação não era nada fácil, a sorte é que na minha equipa tinha três brasileiros e dois portugueses, o que acabou por facilitar, porque eles já estavam há algum tempo na Roménia.

O que achou dos romenos?
Achei-os um bocado traiçoeiros no mundo do futebol.

Porquê?
Porque quando as coisas estavam a correr bem para a equipa, diziam que era graças a eles, e quando as coisas não estavam a correr muito bem, de certa forma acusavam os estrangeiros e acabavam por dividir um bocado o balneário.

E o futebol, em comparação com o português, é pior?
Não tem comparação, é um nível mais baixo. Mas as pessoas pensam que não há qualidade e há muita qualidade na Roménia, só que o jogador romeno é acomodado, eles gostam de ficar no país deles e pouco ou nada gostam de sair. Mas gostei do futebol, tínhamos sempre 15, 20 mil no estádio a cantar por nós e as condições do clube eram fabulosas, disso não tenho nada a queixar-me.

A nível cultural a que foi mais difícil habituar-se e do que gostou mais?
Acabei por gostar da língua. Aprendi porque houve uma altura em que o treinador dizia que eu não jogava porque não entendia a língua. Ai é? OK. E comecei a aprender pouco a pouco. Gostei muito da língua e do país. Num bom restaurante pagamos 15 ou 20 euros. Eles gostam muito de futebol, os adeptos na cidade eram muito calorosos quando as coisas estavam a correr bem, e disso levo boas recordações, tanto que sempre que podia passeava para conhecer o país.

Não fica mais do que uma época porquê?
Eles quiseram fazer uma reestruturação e quiseram investir mais. Acabaram por ir buscar o Adrian Mutu e eu voltei para Portugal.

Abel Camará chegou a representar a seleção portuguesa de sub-21

Abel Camará chegou a representar a seleção portuguesa de sub-21

D.R.

Ao Belenenses, de novo.
Sim, aí fiz um novo contrato com o Belenenses. O Belenenses tinha tido uma época complicada, acho que só se salvaram na última jornada com o Lito Vidigal e estava em reestruturação. Muitos jogadores que não tinham jogado na I liga ainda, muitos da época anterior, e foi assim que começámos o campeonato. Tive uma pré-época complicada.

Porquê?
O Lito Vidigal foi muito exigente na pré-época. Mas colhemos os nossos frutos, acho que tivemos um dos melhores arranques dos últimos 30 anos e acabámos por fazer uma excelente época porque conseguimos atingir a Liga Europa.

Mas não é com o Lito Vidigal que chegam ao fim da época, é com o Jorge Simão.
Não soubemos bem o porquê, mas o Lito Vidigal é despedido depois de um jogo com o Estoril e assume o Jorge Simão nos últimos seis jogos.

Um treinador bastante diferente, não?
Muito diferente, muito diferente. Na altura ele tinha vindo do Mafra e pegou em alguns jogadores já "batidos", conseguiu juntar as tropas e atingimos a Liga Europa, que nem era bem o objetivo do campeonato e tornou-se o nosso objetivo.

É nessa época que tem alguns problemas com adeptos?
O problema com os adeptos começa na altura do José Mota ainda. Foi aí que começou.

Explique lá o que aconteceu.
Tivemos um jogo na Covilhã, na altura as coisas não estavam a sair bem e alguns adeptos conseguiram aproximar-se do autocarro da equipa. Começaram a chamar-nos nomes e a dizer para honrarmos a camisola e tudo mais. Até aí tudo bem. A situação foi que um dos adeptos tentou agredir a mãe do nosso capitão, que era o Sérgio Vaz, e eu, o Celestino e o Tiago Gomes fomos tentar acalmar os adeptos. E houve um adepto que foi para o Facebook escrever que nós tínhamos batido nos adeptos, que tínhamos agredido os adeptos. Nós dissemos publicamente que não os tínhamos agredido, senão eles tinham feito queixa. Desde aí ficámos "marcados" pelo que se estava a passar. Entretanto o Celestino, o Tiago Gomes e o Vaz vão-se embora do clube e fico eu. E mais tarde acabo por ter problemas.

Continue.
No início da época 2014/15, começaram logo num jogo amigável em casa, a cantar e a chamar-me nomes. Tivemos de fazer uma reunião com os adeptos para tentarmos ter uma época tranquila. Isso foi com o Lito Vidigal no início, em que dissemos que queríamos ter uma época tranquila e que eles tinham de apoiar a equipa. Depois não se passou mais nada até mais recentemente.

Depois de regresso ao Belenenses, Abel volta a ser emprestado, na época 2011/12, ao Beira Mar

Depois de regresso ao Belenenses, Abel volta a ser emprestado, na época 2011/12, ao Beira Mar

D.R.

A época seguinte ainda inicia no Belenenses, com o Sá Pinto, mas acaba por ir para a Arábia Saudita. Porquê?
Aconteceu que fiz a pré-época toda a jogar, a fazer golos e tudo mais. Começámos a época e conseguimos garantir a entrada na Liga Europa, o que já não acontecia há muitos anos, e entretanto recebi uma proposta da Arábia Saudita que era muito vantajosa financeiramente. O mister tinha ido buscar mais avançados, o Luís Leal e o Kuca e já estava lá o Betinho e o Caeiro e eu sentei-me com ele e digo: "Mister para ser muito franco consigo, gostava de saber se o mister conta comigo ou não. Tendo em conta que temos um plantel muito extenso e vai ser complicado dar minutos a toda a gente". E ele diz-me que muito honestamente ia ter dificuldades para jogar sempre. Não percebo bem o porquê. Ele diz-me que são opções e decisões dele e eu então disse-lhe que me ia embora e acabei por aceitar a proposta da Arábia Saudita.

Quando regressou da Roménia para o Belenenses, voltou a viver em casa dos pais?
Não, não. Aí já não conseguia, desde que saí de casa para ir para Aveiro, não aceitei mais viver com os meus pais. Fiquei a viver com um amigo, até encontrar casa para viver. Quando vou para a Arábia Saudita, já tenho a minha casa.

Tinha alguma namorada?
Sim, já namorava com a Marina, a mãe dos meus filhos.

Como é que a conheceu?
Foi engraçado porque eu já lhe tinha mandado uma mensagem no Facebook em 2010 e ela não tinha visto a mensagem, ou viu e não respondeu, e mais tarde é que começamos a falar através do Facebook.

Mas como chegou até ela, através de amigos em comum?
[risos] No Facebook aparecem imagens das pessoas que talvez possamos conhecer ou com quem temos amigos em comum. Achei piada à foto de perfil e mandei a mensagem.

O que ela faz profissionalmente?
Ela tem um centro de solário. Com o passar o tempo conseguiu arranjar parcerias com alguns médicos que faziam implantes mamários e aquelas cirurgias de tirar as gorduras da barriga e começou a fazer esse tipo de parcerias.

Quando vai para a Arábia Saudita a Marina vai consigo?
Não, nós ainda estávamos no início do namoro e ela não podia ir porque ainda não éramos casados. Foram momentos complicados. Por causa das saudades, por causa da cultura do país, o fuso horário; a altura para nós falarmos pela internet era complicada, lá eram sempre mais três horas e a hora que ela saia já estava eu quase a dormir e foram meses complicados.

A primeira aventura fora de Abel é no FC Petrolul Ploiesti, da Roménia

A primeira aventura fora de Abel é no FC Petrolul Ploiesti, da Roménia

D.R.

O que mais o chocou na Arábia Saudita?
A forma como eles tratavam as mulheres. A mulher lá não tinha voz, não tinha poder, não podia dizer nada acima dos homens. O facto de elas andarem todas tapadas de preto, com 30, 35 graus por dia, chocou-me. Mas havia outras coisas que não gostava. Há uma altura em que venho a Portugal e rapo muito o cabelo de lado e deixo umas crista e eles: "Epá, não vais poder jogar assim. Penteados como o do Neymar aqui na Arabia não são aceites". E eu, tudo bem, vou arranjar maneira de jogar com o penteado assim. "Se conseguires jogar, vais ter de pagar uma multa ao clube". Falei com o médico e pedi-lhe para ele por uma ligadura como se eu tivesse partido a cabeça. Meti um bocado de Betadine, liguei a cabeça e fui para o jogo e o presidente só se ria porque achou piada à minha ideia, de ter fingido que tinha partido a cabeça para poder jogar. Lá consegui, apesar de termos perdido 4-0, mas pronto.

Jogou os jogos todos assim, com a cabeça ligada?
Não, só até o cabelo crescer minimamente. Depois o cabelo foi crescendo, pintava e já conseguia jogar. Lembro-me que na altura cortaram o cabelo a um jogador antes de ele ir para o campo. Disseram que ele não podia jogar e o treinador estava lá com uma máquina, cortou-lhe o cabelo no banco de suplentes para ele poder jogar. É uma cultura diferente da nossa. É um povo muito desconfiado, mas quando sabem que és jogador de futebol... Eles amam e adoram futebol, tanto que fazem grandes investimentos no futebol, tratam muito bem as pessoas no mundo do futebol e gostam muito do jogador quando as coisas estão a correr bem. Se não gostarem também são um pouco complicados.

Teve alguma chatice?
Não, graças a Deus as coisas correram-me muito bem, mas houve um jogador que mandaram embora e deu-me pena a situação dele. Porque o jogador estrangeiro, que vem da Europa, é protegido pelas leis FIFA e lá, o jogador de lá, da Arábia Saudita, é protegido pela lei implementada pela federação. E o presidente da federação dá-se sempre muito bem com os presidentes dos clubes. Ou seja, o jogador ali não tem muito poder de argumentação. E na altura o presidente para o mandar embora, para chatear o jogador, meteu-o a treinar quatro vezes por dia. Uma às seis da manhã, outra às dez, às duas e às seis da tarde. Era demais, o jogador acabou por ir embora.

Sofreu muito com o calor?
Sim, houve jogos em que apanhei 35 graus. Mesmo na rua, não dava. Nós vivíamos num hotel que era do clube, na cidade de Al Majma’ah e durante o dia se víssemos cinco carros era muito. Só saíamos para ir comer e voltávamos para o hotel, porque era o sítio mais fresco que havia, até à hora do treino. Treinávamos ao final do dia.

O que faziam nas horas livres?
Eu levei a minha PlayStation, ia jogando, comecei a ler livros. Na altura até estava a tirar o 12º ano, mas só que com o fuso horário não conseguia assistir às aulas. Às vezes íamos passear, mas a maior parte das vezes ficávamos no hotel. Descobrimos que havia uma televisão no hall de entrada em que conseguíamos ver os jogos de toda a Europa e passávamos quase tardes inteiras a ver futebol. Na altura fui para a Arábia Saudita com o Javier Balboa que tinha sido meu companheiro no Beira Mar, portanto também ajudou e facilitou a minha vida lá.

Fica até final da época?
Sim e no final da época eles querem comprar-me ao Belenenses e renovar comigo, mas eu disse que não conseguia, não aguentava outro ano ali. Ainda por cima o Balboa ia-se embora, eu tinha a minha namorada em Portugal... Não dava. Tinha muitas saudades de casa e acabei por não ficar.

A segunda saída é para o Al-Faisaly FC, da Arábia

A segunda saída é para o Al-Faisaly FC, da Arábia

D.R.

E regressa mais uma vez ao Belenenses.
Sim, já com o Júlio Velázquez. Quando cheguei ao Belenenses, o Velázquez não contava comigo. Cheguei perto dele e disse-lhe: "Se o mister não conta comigo, prefiro fazer trabalho de ginásio, acerto as coisas com o clube e vou-me embora" e ele "Ok". Entrei em conversações com o Feirense e com o Moreirense. Só que, entretanto, há um treino em que falta um jogador e o mister pede-me para entrar na posse de bola. Pede uma, pede duas, pede dez. Depois temos um jogo com o Tondela, em Fornos de Algodres, em que não joguei, perdemos e quando chegamos a Lisboa, o Rui Pedro Soares fala comigo e diz que quer que eu fique. "Senhor presidente eu não posso ficar porque se o treinador não conta comigo, não quero ficar de favor. O pior que pode haver é um jogador sentir que está num clube por favor". E chegámos a acordo para ir embora. Quando chegamos ao fim do estágio o Júlio Velázquez chamou-me ao balneário dele e disse-me que tinha cometido um erro, que gostava que eu ficasse porque acreditava que eu o podia ajudar muito, tendo em conta as minhas características.

Qual foi a sua reação?
Eu sentei-me e disse-lhe: "Mister acho que agora é um pouco tarde porque de certa forma tenho uma história neste clube, aqui toda a gente me conhece e sabe as minhas características, há uns que gostam mais, outros que gostam menos, mas o mister nem sequer chegou a ver-me treinar e disse que não contava comigo. Eu acho que isso demonstra uma enorme falta de respeito e agora, não vou ficar". Ele insiste comigo para ficar, e como eu gostava muito do Belenenses e também não me apetecia sair de Lisboa na altura, acabei por aceitar. Começo muito bem a época e acabo por estender o meu contrato.

Entretanto, fale-nos da sua vida familiar. Já tinha sido pai?
A meio da época a Marina engravida e nasce a minha filha Núbia, em maio.

A sua filha nasce já depois da situação que o leva a sair do Belenenses.
Exatamente.

Pode contar a sua versão dos acontecimentos?
Tivemos um início de época muito bom. Com a saída do Velasquez, entrou o Quim Machado e continuamos a fazer uma boa época, só que em janeiro metade ou quase metade dos jogadores titulares vai-se embora e a equipa ressente-se muito disso. Entretanto, os adeptos começam a enervar-se e alguns jogadores escondiam-se por causa dos assobios e da pressão quando tínhamos de jogar em casa. Nós até dizíamos que tínhamos mais pressão a jogar em casa do que fora. O campeonato segue e como os resultados não aparecem, os adeptos começam a insultar o mister Quim Machado e a mim. A mim, de certa forma por causa do problema que tínhamos tido anteriormente. Entretanto, vem o Domingos Paciência e num jogo com o Paços de Ferreira em casa, eu faço um penalti e logo a seguir sou substituído. Ao sair do campo, saio desanimado e triste comigo pelo resultado e pelo facto de ter feito o penalti e esboço um sorriso, mas não um sorriso de quem está contente. Mas - agora a culpa é minha - no sentido de os adeptos estarem ali a chamar-me nomes e tudo mais. E vou para o banco.

Depois há problemas fora do estádio?
Entretanto, o segurança vem ao balneário e diz: "Epá malta, aguentem aí mais um bocado porque os adeptos estão muito chateados". E eu nem o ouvi na altura. Acabo de tomar banho, estava toda a gente chateada, um ambiente pesado no balneário e peguei no carro para sair. Eles dão pontapés, cospem, dão murros no carro e tudo mais e eu até ali, tranquilo. É a ira deles, é a maneira de demonstrarem a raiva deles. Só que entretanto a minha mulher vai para entrar no carro e os adeptos reparam, começam a descer e a chamar-lhe nomes, e eu digo: "Entra no carro, entra no carro, vamos embora". Até que há um adepto que se aproxima dela. Ela estava grávida, já de oito meses e saí do carro para a proteger porque há um adepto que vai em direção a ela.

A fazer uma dedicatória à filha Núbia, depois de marcar um golo pelo Belenenses

A fazer uma dedicatória à filha Núbia, depois de marcar um golo pelo Belenenses

D.R.

Mas não fica por aí, pois não?
Depois estão lá amigos meus, está lá a polícia e instala-se uma grande confusão. Entro no carro e vou embora. Ela, naquele estado e a enervar-se começou com falta de ar. Eu disse-lhe: "A partir de hoje não vais aos estádios de futebol". Chego a casa de rastos, muito triste com a situação, tanto que no dia a seguir ligou o Zé Luís [diretor desportivo] e eu digo-lhe: "Epá Zé, não estou com cabeça e não vou treinar, não me sinto bem e não vou treinar" e ele: "Ok, tira os dias que precisares e quando te sentires bem, voltas". O jogo que temos a seguir é com o Sporting e os adeptos vão ao estádio um dia antes do jogo e dizem que querem uma reunião com os jogadores. Lá nos aproximamos e eu como era o capitão estava na linha da frente para ouvir o que queriam. Eles estavam chateados e pediram para que eu não usasse mais a braçadeira, que eu não podia ser mais o capitão do Belenenses.

Porquê?
Falaram da situação que tínhamos tido na Covilhã e após o jogo com o Paços de Ferreira. Nunca agredi ninguém, tanto que nunca foi feita queixa, foi uma invenção que acabou por manchar um pouco a minha imagem.

A verdade é que não jogou como capitão. Foi o próprio Domingos que lhe tirou a braçadeira ou foi o Abel que decidiu?
Antes do jogo com o Sporting, eu achava que ia ser o capitão independentemente de tudo, mas ordens superiores aceitaram a pressão dos adeptos, chamaram-me ao gabinete e disseram-me que não ia ser capitão nesse jogo, que o capitão ia ser o Gonçalo Silva. Disse que não concordava, mas que respeitava. Naquele dia senti que o clube ficou mais ao lado dos adeptos do que de mim, que tinha feito muito pelo Belenenses.

Sentiu-se revoltado?
Senti-me magoado, não posso dizer o contrário. O Belenenses é o meu clube do coração, tenho o maior respeito e carinho pelo clube, mas fiquei magoado na altura por não ter sido o capitão. Graças a Deus as coisas correram-me bem nesse jogo, ganhamos, consegui fazer um golo e nesse dia decidi que no final da época ia-me embora e já não jogava mais no Belenenses até ao final da época. Comuniquei no final do jogo, e demos uma conferência de imprensa em Alvalade a falar do que se ia passar e até ao final da época não joguei mais.

Abel Camará na semana em que foi entrevistado

Abel Camará na semana em que foi entrevistado

Tiago Miranda

Alguma vez foi ameaçado diretamente e/ou a sua família?
Fui ameaçado muitas vezes via Facebook, os adeptos comentavam na minha página de futebol, e houve até uma professora que fez um comentário racista. Foi um amigo, que tinha jogado comigo, que me disse: “Abel, esta senhora aqui é professora na minha escola. Se tu quiseres eu sei quais são os dias em que ela está lá, para fazeres uma denúncia sobre ela". E fiz a denúncia porque é alguém que está a ensinar crianças de sete, oito anos na escola e vai para o Facebook incentivar ao racismo e ao ódio. Ela teve de pagar uma sanção, ficou tudo resolvido em tribunal.

Qual foi o comentário que essa professora fez?
"Pretos como o Camará é para meter numa jangada e mandar para a África". Dito por uma professora acho que cai ainda pior, não é?

Pelos países por onde passou, Arábia Saudita, Chipre, Turquia, Irão, foi vítima de muitos comentários racistas? Ou sente mais racismo em Portugal?
Em todos os países por onde passei, não senti. Por exemplo, falemos de Itália. Sabemos que Itália é um país muito racista, são xenófobos, mas no tempo em que lá estive não senti racismo, nem da parte da equipa adversária ou dos adeptos, o insulto de macaco ou preto, nunca ouvi, felizmente. Sei que há, através de outros jogadores que lá jogaram, mas eu não senti. Nem em Chipre. Podia até haver mas não conseguiam transmitir-me esse racismo, porque eu também nunca dei muita abertura para as pessoas se sentirem à vontade para chegarem e fazerem comentários racistas. Não sou uma pessoa pequena e se calhar também impus aquele respeito. Mas já passei por situações em que, por exemplo, chego a uma loja e as pessoas começam a andar atrás de mim. Tenho uma história também num aeroporto.

Conte.
Uma vez, quando viajava para o Cazaquistão, pararam-me na Rússia durante quase uma hora, quase ia perdendo o voo. Perguntaram-me porque é que ia para o Cazaquistão, o que é que ia lá fazer e tudo mais. Não me chamaram nomes, mas tem tudo a ver com a minha cor, e isso é racismo. Revistaram-me a mala, perguntaram-me mil vezes por que é que ia. “Vou para o Cazaquistão porque vou jogar, tenho aqui o meu contrato, tenho aqui o papel do clube”. E mesmo assim, estiveram ali um bom bocado de volta a chatear.

Qual foi a situação ou a forma de racismo que mais o chocou e que mais o magoou até hoje?
Já tive algumas situações, mas acho que os ataques nas minhas redes sociais foram as piores, magoou-me muito o da professora, foi o que mais me magoou.

Voltando ao futebol. Decide que não quer continuar no Belenenses e quando toma essa decisão já tinha algum clube em vista?
Não tinha nada em vista. Só queria contratualmente ver-me livre do Belenenses, só queria ir embora. Tive algumas situações aqui em Portugal, mas precisava de ir para fora, precisava de ir para longe de Portugal.

Com a filha Núbia, recém nascida, ao colo

Com a filha Núbia, recém nascida, ao colo

D.R.

Entretanto nasceu a sua filha Núbia. Que tal a sensação de ser pai?
A vontade era tanta que ela estivesse cá fora que não consegui aguentar não assistir ao parto. Foi a melhor sensação do mundo. A nossa vida, a maneira de ver e a mentalidade muda drasticamente. Todas as decisões, todas as vontades que tens durante a vida, tens de passar a pensar sempre nos teus filhos. Isso acaba por ser tudo e por eles vamos para todo o lado.

O que aconteceu depois de rescindir com o Belenenses?
Fiquei algum tempo em casa. A minha ligação com a Núbia foi muito forte, cresceu muito, porque tinha muito tempo livre para estar com ela, a mãe também trabalhava e tinha o negócio dela e tive muito tempo para ela. Sempre fui um pai aplicado, aprendi tudo. Mudava fraldas, dava banho, a única coisa que eu não fazia era cortar-lhe as unhas [risos].

Por alguma razão especial?
Porque um dia a mãe pediu-me para cortar-lhe as unhas e cortei-lhe um bocado demais e ela sangrou. Até hoje não corto as unhas e ela pergunta-me: "Pai, mas porque é que não me cortas as unhas?" e, claro, conto-lhe a história. E ela como gosta de ouvir a história, pergunta sempre a mesma coisa [risos].

Não perca no domingo a parte II da entrevista a Abel Camará