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A casa às costas

“No Cazaquistão, tinha de soprar no balão no balneário. Às vezes, os nossos jogadores estavam bêbados. Eram muçulmanos, mas bebiam muito”

Nesta segunda parte da entrevista, Abel Camará fala da passagem pelo Chipre, do azar que teve em Itália, dos muçulmanos que bebiam álcool no Cazaquistão, da desorganização do clube turco onde jogou e de como ficou sem passaporte e a treinar à parte no Irão, ante de regressar a Portugal. Depois de uma época no Feirense, resolveu ficar perto da família e aceitou representar o CD Mafra até 2022. Ainda há tempo para revelar os negócios que já tem em Cabo Verde e na Guiné e para dizer como é bom cozinheiro.

Alexandra Simões de Abreu

Tiago Miranda

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Como vai parar ao Pafos, do Chipre?
Foi uma grande cambalhota. Na altura, vou para a Turquia. Recebo uma proposta do Samsunspor, para tentar acertar o contrato, só que eles dizem que eu tenho um problema no coração e por isso não podiam ficar comigo. Eu e o meu empresário achamos aquilo tudo muito estranho, porque foi da noite para o dia e até fiquei assustado. Vim logo para Portugal, vou a um médico em Lisboa, faço exames e dizem-me que tinha coração para jogar mais 20 anos. Tinha um coração saudável e forte.

Percebeu o que aconteceu?
Viemos a saber que, passados uns dias depois de eu ter aterrado, chegou Samaras, um avançado grego. Aí comecei a perceber que no futebol existem estas negociatas. Disseram que eu tinha um problema no coração para não avançarem, o Samaras dever ter aceitado o que estavam a oferecer e acabaram por dizer que tinham um limite de estrangeiros e não assinamos. Entretanto, também há o interesse do Júlio Velázquez. Depois do nosso desaguisado no início da época acabámos por ficar amigos, falamos até hoje. Trocamos mensagens, ele queria levar-me para o Alcorcón de Madrid, mas não chegámos a um entendimento relativamente ao contrato e à duração. No último dia de mercado surge-me a proposta do Pafos e vou para o Chipre.

Foi sozinho ou com a família?
No início fui sozinho até arranjar casa e carro, para depois levar a família. No Pafos deparo-me com um clube que tem dinheiro, ambições, mas tinha 17 jogadores de nacionalidades diferentes, era o caos para comunicarmos. O país em si é muito bom, acho que foi dos melhores países onde eu já estive, tem sempre bom tempo. A qualidade do futebol não era muita e havia muitos jogos suspeitos, o Chipre é muito famoso por isso, mas gostei do país e da experiência.

Não esteve lá muito tempo. Porquê?
Porque as coisas não estavam a correr bem nem ao clube, nem a mim. É o que hoje digo aos mais jovens aqui, um jogador estrangeiro lá fora não tem tempo de adaptação, tem de chegar, impor-se e tem de resolver. Não há tempo para adaptação e eu cheguei em baixo de forma, sem pré-época feita, comecei logo a jogar e isso foi o grande problema. Entretanto, mandam o treinador embora e vem outro. Quando os clubes têm poder financeiro, mandam três, quatro embora, vão buscar outros três ou quatro, e na altura foi o que fizeram. Fomos despedidos, acertei os meus termos com eles e vim embora.

Para Portugal ou diretamente para Itália?
Primeiro vim para Portugal. Depois, em janeiro ou fevereiro, como tinha carta de jogador livre podia entrar em qualquer campeonato, a qualquer momento... Tive a proposta do Cremonese, em Itália. Fui sozinho porque não consegui arranjar casa, vivia no hotel, a Marina também estava com muito trabalho em Portugal, a Núbia era muito pequena para estar sempre a viajar. No Chipre ainda chegaram a ir duas vezes e estiveram lá comigo, mas em Itália não, porque até me arranjarem carro e um sítio onde ficar, demorou muito tempo.

Abel antes de partir para o Chipre, ainda regressou ao Belenenses, em 2016/17

Abel antes de partir para o Chipre, ainda regressou ao Belenenses, em 2016/17

D.R.

O que achou de Itália e do futebol italiano?
Quando era mais jovem e vivia em casa dos meus pais, eu e o meu irmão mais velho falávamos dos países que gostávamos de visitar e sempre dissemos Itália, Itália, Itália. Víamos muito a liga italiana, o Inter era um colosso, a Juventus, o Milan, toda a gente dizia que o futebol italiano era o melhor de todos os tempos. Na verdade, gostei muito de estar em Itália porque gostava da língua, da comida, da cultura italiana. Por mim estava lá até hoje.

Não continuou porquê?
São os azares do futebol. Quando cheguei, primeiro tive dificuldades porque não me respeitavam no balneário. Eu chegava, bom dia, boa tarde, ciao e ninguém me respondia. Estive um mês assim, até que disse para mim mesmo, não sou nenhum miúdo, tenho de começar a impor-me. Na altura, a equipa não estava a ganhar, estava a passar por muitas dificuldades, até que o treinador diz: "Eu quero ver se tu jogas como treinas". Eu dava tudo no treino e ele não mudava a equipa, jogava sempre com os mesmos jogadores, até que há um jogo com o Palermo, em que ele mete-me a jogar e as coisas correm muito bem, acabamos por empatar o jogo e os adeptos ficam encantados. No jogo seguinte mete-me a titular outra vez, acabo por fazer uma assistência e no terceiro jogo, faço um golo.

Então corria tudo bem.
Aí já estava a entrar na minha forma. O treinador começou a gostar de mim, o diretor-desportivo começou a falar comigo no sentido da próxima época e tal…. E são os dois despedidos. Porque não ganhávamos há "x" tempo são os dois despedidos. Acabei por ficar abandonado e sozinho no clube [riso]. Veio outro treinador e, apesar de eu estar num excelente momento de forma, ele decidiu que não era eu que tinha de jogar. Até ao final da época não joguei mais, nem sequer fui aquecer. Fiquei muito desanimado e desiludido porque as coisas estavam a começar a correr-me bem, quanto mais eu jogasse, mais iria aparecer e mais oportunidades teria. Até tive uma situação curiosa com ele em que pensei, este tipo não conta comigo.

Que situação?
Na altura, a Núbia fazia um ano, nós tínhamos ganhado um jogo em casa e eu pedi-lhe: "Mister a minha filha faz um ano, queria saber se me deixa ir a Portugal". Ia num dia e voltava noutro. Ele disse: "Ok, não há problema, podes ir". Venho a Portugal, assisto ao primeiro aniversário da Núbia, e quando chego lá, vou ao balneário dele, agora digo a rir, mas na altura chateou-me muito, e digo: "Mister já cheguei, correu tudo bem, muito obrigado". Ele: "Olha, voltaste? Pensei que já não vinhas mais". Liguei para o meu empresário e disse-lhe temos de começar a tratar da situação porque não vou ficar aqui com um treinador que me diz isto. Acabei a época e fui embora.

Para Portugal?
Sim, e recebo uma proposta do Cazaquistão. Na altura estava de férias e mais uma vez estava a ver se arranjava uma equipa em que conseguisse fazer a pré-época. Achava a proposta do Cazaquistão boa, mas eles já estavam a meio do campeonato. Insistiram muito que eu fosse para lá. O meu empresário: "Vai que é bom, é um bom país para estar", e acabei por ir.

Abel a festejar um golo pelo Pafos, do Chipre.

Abel a festejar um golo pelo Pafos, do Chipre.

D.R.

Como foi quando chegou ao Istysh?
Chego lá sem pré-época, sem nada e o treinador pergunta: "Tens treinado?"; "Tenho treinador no ginásio com um PT, não é a mesma coisa"; "Ok, vamos dar umas duas semanas para te pores em forma mas vamos precisar de ti o mais rapidamente possível". Ele mete-me a jogar na mesma semana em que eu chego. Cheguei numa quarta-feira e no sábado já estava a jogar 90 minutos, sem pré-época feita, sem nada, é de loucos.

Que tal correu?
Epá, joguei com quase 30 graus, um calor. E lá quase todos os clubes têm sintético. Empatámos o jogo e acho que estive quase duas semanas para recuperar daquele jogo por causa das dores no corpo, que não estava habituado ao sintético, à agressividade deles e tudo mais, foi complicado [risos].

O que achou dos cazaques?
Sinceramente, achei-os muito estranhos, porque a maior parte são muçulmanos. Os muçulmanos não podem beber álcool e eles bebiam muito álcool. Não tinham rigor tático, não tinham profissionalismo. Tínhamos vezes em que estava lá um dirigente que nos fazia soprar o balão [risos]. Havia jogadores que bebiam tanto que eles tinham de fazer o controlo. Havia jogos, em que os nossos jogadores estavam bêbados e acabámos por perder alguns jogos [risos]. Nós, os estrangeiros, só dizíamos, não nos podem cobrar a nós para resolver os jogos todos, quando temos jogadores aqui na equipa que se embebedam antes dos jogos e que cheiram a álcool mesmo no balneário. Na altura estava com mais dois portugueses, o Hugo Seco e o Carlos Fonseca, e passámos muito mal porque a responsabilidade era sempre nossa quando perdíamos.

Ficou a viver num hotel?
Estava a viver na base, como eles chamavam, era tipo uma academia em que vivíamos lá quase todos os jogadores estrangeiros. Estive lá cinco meses. O campeonato acabou em finais de dezembro. No último jogo com o Astana saí lesionado, fiz uma rotura. Foi a minha única lesão grave que fiz no futebol.

Que tipo de rotura?
Na coxa direita e venho para Portugal. Em janeiro, no último dia de mercado recebo uma proposta de um clube da Turquia, o Elazigspor. Acho que foi das maiores manhas que já vi no futebol.

Como assim?
Porque cheguei lá e a equipa não podia inscrever jogadores, eles falavam com os jogadores para irem, mas não informavam que não podiam ser inscritos. Estamos todos no escritório do presidente, uns sete, oito jogadores, cada um com o seu empresário, eles fumavam no escritório, estava um cheiro que não se podia, e enquanto o presidente estava a tratar da inscrição da equipa, nós íamos tratando, cada um no seu cantinho, do seu contrato. Lembro-me de começarem todos a fazer uma festa enorme dentro do escritório e eu perguntei: "Mas o que é que se passa?"; "Agora podemos inscrever a equipa, agora vocês já podem ser inscritos"; "Então, quer dizer, rejeitamos outras propostas e estivemos aqui sem saber se podíamos ser inscritos ou não?". Era o último dia de mercado, se não ficássemos ali, já não íamos para lado nenhum. Mas pronto, lá conseguiram inscrever os jogadores todos. Mas foi uma catástrofe, acho que foi uma decisão errada ter ido para a Turquia naquela fase porque tendo em conta o clube, a desorganização.

Abel, chegou ao Cremonese de itália em 2018

Abel, chegou ao Cremonese de itália em 2018

D.R.

Estava mesmo no meio da Turquia, como era o local onde ficou?
Não tinha nada, aquilo parecia uma vila, depois prometeram dar casa aos jogadores, mas nunca deram, prometeram carros, nunca chegaram. Vivíamos num complexo e não havia nada. De certa forma era para nos "prender", para terem algum controle sobre o que fazíamos. Vivíamos e treinávamos ali, só vivíamos para aquilo. Era um quarto para cada dois, fiquei com um grego. Mas havia uma grande desorganização, a nível de treinadores, de treino.

O clube era da II liga turca?
Sim, mas a II liga deles tem jogadores de muita qualidade e os contratos que conseguem pagar… Pagam mais do que a maior parte das equipas da I Liga aqui, tirando os quatro grandes.

Mas o futebol é fraquinho, ou não?
Sim, é muito na emoção, na correria e pouca organização tática. Por isso é que as equipas turcas quando jogam com equipas organizadas têm sempre muita dificuldade. Do que gostei mais foi da qualidade dos estádios e de estarem sempre cheios. Qualquer jogador gosta de jogar em estádios cheios. No início não jogava porque o treinador dizia que não estava em forma, e a equipa sempre a perder. Chegamos a ter três ou quatro treinadores. O segundo, eu chamava-o de general, tinha mesmo um ar de general turco [risos]. Acabou por ser despedido e veio outro. Com esse treinador comecei a jogar e a tornar-me um dos alvos de interesse da equipa. Quando falavam do Elazigspor, falavam de mim na televisão, de certa forma estava a conseguir chegar ao protagonismo que eu queria. Entretanto, esse treinador é despedido e veio outro. Acabei bem o campeonato e fico a aguardar que aparecesse uma proposta de um outro clube de lá. Mas não. Venho para Portugal mais uma vez e recebo uma proposta do Irão.

No Irtysh, do Cazaquistão

No Irtysh, do Cazaquistão

D.R.

Do Machine Sazi?
Sim. Cheguei ao Irão e achei aquilo muito estranho, a forma como o empresário estava a falar com o meu empresário da altura, a forma como eles estavam a organizar tudo, porque eu sempre opinei em todos os sítios onde ia com o meu empresário, sempre debatíamos as coisas, não era chegar e ele dizer, olha tens de ir para aqui ou para ali, sempre tive uma palavra a dizer e achei aquilo muito estranho, a forma como estava a desenrolar-se o processo para o Irão. Quando cheguei lá metem-me num hotel e dizem: "Tens treino hoje à tarde"; "Treino? Eu não posso treinar enquanto não tiver o contrato assinado"; "Então, mas porquê?"; "Não posso treinar porque se me aleijar, já tive "n" situações de amigos meus que aconteceu, e depois tiveram de pagar do próprio bolso a recuperação das lesões".

O que aconteceu depois?
Eles assinam o contrato e eu tiro logo uma fotografia do contrato e mando para o meu advogado, em Portugal. O presidente já tinha assinado e já tinha o carimbo, ou seja, era legal aquele contrato e portanto fui treinar. Faço dois treinos e eles vêm ter comigo e dizem que querem fazer uma alteração no contrato. "Ah, temos de baixar o valor, porque não vamos conseguir pagar este valor"; "Vim por este valor, agora não posso baixar, chego aqui e passado dois dias é que me dizem que temos de alterar as coisas? Tendo em conta que o mercado está quase a fechar, eu não posso ficar assim". Tivemos umas discussões e eles tiram-me do hotel onde eu estava, metem-me noutro hotel e retiram-me o passaporte. Estavam a prender-me no país.

O que fez?
Tive de ligar para o sindicato dos jogadores [SJPF], para o meu advogado e para o meu empresário, que ligaram para a embaixada de Portugal lá, para me deixarem sair do país. Não me atendiam o telefone, não me iam buscar. Eles é que iam buscar-me ao hotel para os treinos e começaram a dizer-me que eu tinha de treinar às seis e sete da manhã. "Eu treino à hora que vocês quiserem, mas têm que vir cá buscar-me". O meu advogado dizia-me: “Estão a mandar, tens de treinar, mas tens de gravar tudo o que se está a passar, porque podemos precisar disso". Foi o que eu fiz, levantei-me às quatro da manhã para ir treinar às seis da manhã e ninguém me foi buscar. Estive assim duas semanas.

Treinou mais ou não?
Acabei por treinar à parte, mas só durante a tarde, com um treinador-adjunto. Eu sabia as leis e esse era o problema. Dizia-lhes: "Para treinar vocês têm de me deixar um médico, um treinador e um roupeiro, é o que a lei diz". Eles ficavam chateados e deram-me treinos durante dois, três dias, até que chegarmos a acordo para a rescisão do contrato.

Isso durou quanto tempo?
Foram quase duas semanas. Nem cheguei a estrear-me e muita gente me perguntava "Então, mas tu não estavas no Irão?" [risos]. E lá tinha eu de contar a história toda do que se estava a passar.

Abel também passou pelo futebol turco, através do Elazigspor

Abel também passou pelo futebol turco, através do Elazigspor

D.R.

Veio para Portugal e esteve quanto tempo parado?
Setembro, outubro e em novembro recebo uma proposta do Feirense. Precisavam de um avançado. Eu não queria ir para a II Liga. Achava que podia ir para a I Liga, mas também não queria ficar mais tempo em casa, ia fazer 30 anos, em janeiro. E um jogador de 30 anos, parado há seis meses, a malta já começa a olhar de lado. O meu empresário insistiu: "Vai para o Feirense, é um bom clube, está a lutar para subir de divisão, vai fazer-te bem ires para lá". E fui. A Marina ia lá de vez em quando, mas, entretanto, engravida do meu segundo filho, o Moaky.

Tem algum significado esse nome?
Tem. Tanto o dele, como o da Núbia têm um significado.

Explique.
O da Núbia fui eu que escolhi. Na altura não quisemos saber o sexo do bebé, e decidimos que se fosse menina escolhia eu o nome, se fosse rapaz era ela. Foi uma dor de cabeça para achar um nome giro e diferente do que a maior parte dos pais está a dar agora. Achei muita piada ao nome Núbia porque é um nome egípcio, cujo significado é ‘perfeita como o ouro’. O Moaky, é o nome de um dos melhores amigos de infância da Marina e que acabou por falecer. Ele era uma espécie de protetor como ela diz e então prometeu à mãe dele que chamava o filho de Moaky e assim foi. Esse amigo dela era da Guiné-Bissau. Eu no início até não gostava muito do nome, mas com o passar do tempo comecei a achar piada.

O seu filho nasceu quando?
Em plena pandemia, julho de 2020. Não foi fácil porque não consegui assistir a nenhuma consulta, não deixavam. Mas assisti ao parto, fiz o exame do covid-19 e acabei por assistir.

Com alguns dos amigos que fez no futebol. Da esquerda para a direita: Pelé Gomes, Abel, Nelson Pina e Tiago Almeida

Com alguns dos amigos que fez no futebol. Da esquerda para a direita: Pelé Gomes, Abel, Nelson Pina e Tiago Almeida

D.R.

Onde viveu o confinamento durante a pandemia?
Para minha sorte quando comecei a ouvir que iam começar a fechar os distritos, dois dias antes, pedi autorização ao clube e vim para Lisboa. Passei a pandemia toda em casa.

O que foi mais difícil?
Foi estar em inferioridade numérica, eram duas mulheres e um homem só em casa [risos]. Não, foi a rotina que acabou por desgastar-me. Mas também aprendi muitas coisas. Houve uma altura em que estive muito em baixo, as coisas não estavam a correr como eu queria em termos de carreira, e aproveitei e fiz um coaching com a Susana Torres, na altura da pandemia. Aproveitei para passar tempo com a Núbia e com a família, coisa que já não acontecia há algum tempo por estar tantas vezes fora. Foram tempos chatos, mas consegui em termos físicos estar num bom nível, porque conseguia ter os horários regrados, as horas de descanso certinhas, tanto que quando cheguei a Santa Maria para a fase final de época, cheguei muito bem. Só que depois acabaram por cancelar o campeonato.

Porque é que não fica no Feirense e como se dá a ida para o CD Mafra?
O treinador disse que queria ficar só com os jogadores que tinham contrato e que queria fazer uma equipa nova e comunicou que não contava comigo. Depois das férias recebi uma proposta de Itália.

Para onde?
Para o Messina que estava na Serie C com um projeto de subida para a B. Os valores eram bons e o clube tinha um bom projeto, estavam a construir uma academia, tinham um autocarro novo, mas na altura a Marina pediu-me para ficar em Portugal, tinha nascido o Moaky e de certa forma seria complicado para ela ficar com os dois, sozinha. Falei com o meu empresário, disse-lhe que não podíamos aceitar aquela proposta e pedi para ele ver se conseguia arranjar alguma coisa em Lisboa, para ficar perto da família. E surgiu a oportunidade do Mafra. De certa forma também precisava de mostrar que estava bem e com vida e acabei por ir para o Mafra.

Abel representou a seleção da Guiné no CAN de 2017, no Gabão

Abel representou a seleção da Guiné no CAN de 2017, no Gabão

D.R.

Correu-lhe bem a época.
Correu muito bem, a diferença é que ao contrário das outras épocas, consegui fazer a pré-época. Fiz duas ou três semanas de pré-época, apanhei jogos amigáveis e consegui começar logo muito bem. Consegui ser um dos destaques da liga e fiquei extremamente orgulhoso. Mostrei a mim mesmo que era capaz e que quem sabe não esquece.

Assinou por quanto tempo?
Tinha assinado por um ano, na perspetiva de renovar ou ir para outro clube da I Liga ou para fora. Acabei por gostar de estar ali e renovei o contrato por mais dois anos, tendo em conta as garantias que me deram e o projeto do clube, que está a crescer.

Que tal o Ricardo Sousa como treinador?
Ainda joguei com ele, quando ele era jogador do Oliveirense, estava eu no Belenenses. Uma pessoa começa a olhar para trás e diz, epá, já estou aqui há algum tempo [risos]. Até os adversários já se tornam meus treinadores. Mas eu gosto dele, é um treinador jovem, ambicioso, também está a cimentar o nome dele como treinador. Tem as ideias dele e estou a gostar de trabalhar com ele.

Vai e vem todos os dias de Lisboa para Mafra?
Sim. Nós chamamos o “barco”, vamos três jogadores, no ano passado éramos quatro, e fazemos uma semana a cada um com o carro. Faz-se bem. São 20 minutos até Mafra, é rápido.

A mudar a fralda ao filho Moaky

A mudar a fralda ao filho Moaky

D.R.

Já pensou no que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Já venho a pensar há algum tempo, tenho alguns investimentos feitos em África.

Investimentos em quê e onde?
No imobiliário, em Cabo Verde, e tenho uma carrinha de transportes na Guiné-Bissau. E agora tenho uns projetos para ter mais investimentos aqui em Portugal, por isso, para além da família, dos miúdos, vou ter um negócio meu aqui.

Chegou a representar a seleção portuguesa nas camadas jovens.
Exato. Nos Sub-21. Na altura era o Rui Jorge o selecionador. Até foi curioso, apareceu em todos os jornais, porque recebi uma convocatória para a seleção de Sub-21 e uma convocatória para a seleção da Guiné-Bissau. Falei com algumas pessoas e disseram-me: "Para a seleção da Guiné, tens tempo para ir, mas em termos de currículo neste momento, o melhor é jogares na seleção de Portugal". Acabei por optar na altura pela seleção de Portugal. Foi o melhor e acho que qualquer jogador na minha posição tinha tomado essa decisão. Depois mais à frente é que acabei por ir para a seleção da Guiné.

Quando viu que não ia ser chamado à seleção principal?
Exatamente. Quando senti que não estava ao nível dos outros avançados, acabei por decidir ir para a seleção da Guiné, eles falaram comigo. Também foi para orgulhar os meus pais, eles queriam muito que eu fosse, acabei por ir para a seleção da Guiné e fui à CAN de 2017, no Gabão.

Que tal o ambiente de seleção e os seus colegas?
Gostei muito, alguns já conhecia da infância, outros conhecia de jogar contra eles, mas gostei muito. É um ambiente diferente, é um ambiente festivo, alegre e muito bom e a CAN foi o expoente máximo de todas as competições que joguei, equivale a um Europeu; e era a primeira vez que o país ia jogar uma competição daquele tamanho. Foi top. Apesar da nossa inexperiência, é uma experiência para guardar para toda a vida.

Tem alguma meta para deixar de jogar ou será até o corpo dar e/ou ter propostas?
O Ricardinho disse há pouco tempo algo que acho que tem razão: "Eu vou jogar até eu achar que tenho que deixar o futebol e não o futebol deixar-me a mim". Portanto, é assim que eu vou levar. Enquanto achar que estou capaz e estiver ao nível que acho que tenho de estar, vou continuar a jogar. E também acho que é cedo para pensar nisso, tenho 31 anos, ainda tenho mais três, quatro aninhos para jogar a um bom nível.

Em ação pelo Feirense onde jogou em 2019/20

Em ação pelo Feirense onde jogou em 2019/20

D.R.

Onde é que ganhou mais dinheiro até hoje?
Na Arábia Saudita.

Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
Gosto muito de ver séries e gosto de ler.

Tem alguma série preferida?
Neste momento é o “Prison Break”. É daquelas séries que uma pessoa acaba de ver um episódio e já tem que ver o próximo.

E livros, algum que lhe seja especial?
Gostei muito de ler o livro do Éder porque de certa forma passei por algumas situações que ele passou. E gostei do "O Homem Mais Rico da Babilónia". São os meus dois livros preferidos.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Foi ter ido para o Dubai de férias. É um sítio onde deixamos algum dinheiro, a vida lá é extravagante. Mas tinha o sonho de ir ao Dubai e fui.

Tinha quanto anos quando fez a primeira tatuagem e o que é?
Tinha 21 anos. É uma tatuagem maori, no antebraço e no peito. Fiz uma tatuagem que demorou quase um mês a completar porque não aguentava com as dores [risos].

Pensa fazer mais?
Gostava de fazer a cara dos meus filhos, mas ainda não me decidi pelo tatuador. Mas as que tenho, têm todas um significado especial para mim. A mais especial é a que tenho no pulso direito que é onde beijo quando faço os golos. É uma bracelete da sorte que diz, família e sorte.

Com os dois filhos Moaky e Núbia

Com os dois filhos Moaky e Núbia

D.R.

É um homem de fé?
Eu não tenho uma religião, mas sou uma pessoa de fé. Acho que há uma energia suprema que toma conta de nós, lá em cima.

E superstições tem ou teve?
Tenho, sempre tive. É calçar a bota esquerda primeiro e apertar, depois a bota direita e entrar sempre com pé direito no campo.

Qual foi o adversário mais difícil que encontrou pela frente até hoje?
O Otamendi.

Segue algum outro desporto para além do futebol?
Não. Acho piada porque quase todos os outros jogadores seguem a NBA e tudo mais, mas eu não. Gosto de ver as fases finais do Futsal, tenho lá amigos, mas de resto não sigo mais nenhum desporto.

Pratica algum desporto, além do futebol?
Não, tudo o que pratico tem a ver com o futebol.

Qual a maior frustração na sua carreira até agora?
Foi não ter continuado em Itália.

E o maior arrependimento?
Não ter continuado na Arábia Saudita. Eles queriam que eu renovasse.

O momento mais feliz da carreira?
Vou dizer três: a estreia na I Liga, ter representado a seleção portuguesa e a seleção da Guiné-Bissau.

Abel Camará tem contrato com o CD Mafra até 2022

Abel Camará tem contrato com o CD Mafra até 2022

D.R.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Fredy, sem dúvida, o Pelé Gomes e o Tiago Almeida, tenho muitas amizades [risos]. Nós até temos um grupo dos hermanos, mas estes e o Yazalde, são as amizades que melhor fiz no futebol.

Se pudesse escolher de todos os clubes no mundo, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
No Real Madrid.

Alcunha. Tem ou teve alguma?
Não, nunca aceitei as alcunhas [risos].Tive no início, que eles chamavam-me Drogba do Restelo, mas morreu rápido porque eu não dava seguimento à alcunha.

Tem algum talento escondido?
Ui não posso revelar, não posso revelar.... [risos]. Mas vou revelar outro: sou um bom cozinheiro. As pessoas não sabem, duvidam, mas eu sou um bom cozinheiro.

Qual é o prato de eleição, aquele que faz melhor?
Uns bifes que faço com molho bechamel, um bocadinho de noz e cogumelos, no forno.

Qual a sua opinião sobre o VAR?
Eu joguei com o VAR na Taça da Liga contra o Sporting, mas não senti o VAR em campo. Do que vejo, acho que é bom, porque traz a verdade ao futebol, mas acho que têm de arranjar um método para ser mais acelerado porque um jogador tem que esperar cinco minutos para saber se fez golo ou não e festejar duas vezes, acaba por tirar um pouco aquela emoção.

Se pudesse mudar alguma lei ou regra do futebol, o que mudaria?
Há uma lei que diz que os jogadores só podem ser contratados a partir dos 16 anos. Se acham que um jogador tem talento, reúnam as condições para a família ir e deixe-se contratar o jogador mesmo que tenha 10/11 anos. Já ouvi muitas histórias de jogadores passarem ao lado de grandes carreiras por causa dessa lei. E removia a lei da formação. Muitos jogadores chegam ao futebol sénior para assinar contrato profissional e não podem assinar porque têm que pagar toda a formação que o jogador fez. E há clubes que pedem balúrdios por miúdos que não sabem se vão dar grandes craques ou não. Tem que se arranjar um equilíbrio se não os clubes acabam por matar algumas carreiras.

Na sua opinião, qual é a sua mais-valia como avançado?
É ser imprevisível.