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A casa às costas

“O meu treinador na Polónia chegou a dizer-me que tinha de correr 12 km por jogo. Em Portugal, uma pessoa fica ‘o quê? mas isso interessa?’”

Depois de duas épocas e meia a jogar na Polónia, onde aproveitou para estar mais tempo com a família paterna e melhorar a língua, Tomás Podstawski está agora na Noruega, onde joga numa intensidade elevada, segundo ele, por causa do frio. Amante de viagens e de enologia, nesta II parte da entrevista confessa que a maior extravagância que fez na vida foi abrir uma garrafa de vinho com um amigo que custou entre 400 e 500€. E conta como, para a namorada poder entrar na Polónia durante o confinamento, contratou-a para a sua empresa: "acabei por não lhe pagar o salário e despedi-a passado um mês"

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Como surgiu o interesse do Pogon Szczecin, da Polónia, em 2018?
O tempo estava a passar e acabam por telefonar-me da Polónia, ofereceram-me condições salariais mais estáveis e muito mais atrativas do que tinha no Vitória de Setúbal, apesar de terem uma dimensão desportiva muito parecida.

Não hesitou?
Hesitei, disse que não queria ir, queria outras coisas. Mas estávamos em agosto, o tempo estava a passar, não dava para dizer que não, porque se ficasse em Setúbal ficava seis meses quase sem jogar ou com atrasos salariais, até à próxima janela de transferências de janeiro. Podia ficar uma época sem jogar com 23 anos e não era nada do que eu queria. Nunca pensei ir para a Polónia jogar. Mas acabei por ficar contente, foi uma mudança boa, dado o nível do Vitória de Setúbal. Não é uma mudança boa para quem vem de um FC Porto, mas para quem estava no Vitória de Setúbal. E quando cheguei à Polónia as coisas correram-me muito bem, especialmente na primeira época, em que se falou que eu poderia ser chamado à seleção polaca.

Se fosse chamado aceitava ou estava de olho na seleção portuguesa?
Estive sempre de olho na seleção portuguesa, pela quantidade de jogos que fiz, por ter representado Portugal ao mais alto nível nas camadas jovens, pela relação que tinha com as pessoas da federação e porque sempre me senti português. Nasci na Sé, no Porto, e representar Portugal era diferente. Mas claro que se houvesse uma oportunidade para jogar na seleção A da Polónia, se calhar era estúpido dizer que não, porque era uma oportunidade numa carreira tão curta e podia elevar a minha carreira a outro patamar, por isso, se calhar diria que sim. Mas nunca tive essa possibilidade em concreto, não posso falar do que não tenho.

Vai sozinho para a Polónia?
Sim, mas a minha namorada e o meu pai acompanharam-me numa primeira fase, depois tiveram de regressar a Portugal.

Quando conheceu a sua namorada e o que ela faz profissionalmente?
Conheci a Teté [Teresa] no meu último ano no FC Porto B, numa discoteca, em Matosinhos. No dia seguinte encontramo-nos no mesmo café coincidentemente e a partir daí começamos a falar. Ela acabou o curso de gestão, o ano passado, e por isso só desde o ano passado é que está a viver a tempo inteiro comigo.

A propósito de discotecas, gosta de sair à noite? Como era quando estava no FC Porto?
No Porto é sempre muito complicado, mas no Porto nunca saía, era impossível, era um controlo imenso, podíamos estar em qualquer lado, eles sabiam. Ainda por cima o Porto acaba por ser pequeno. A empresa de segurança privada que trabalha nesses locais é a mesma que o FC Porto tem para fazer o serviço no Olival e no espaço do Estádio do Dragão, por isso a informação corria muito rápido. Nós saímos de uma forma muito mais à vontade quando fomos campeões pela equipa B. Aí senti uma leveza, OK, podemos sair sem ser julgados porque tínhamos sido campeões. Fomos à queima das fitas no queimódromo mais à vontade, mas lembro-me que chegamos a ir com os carapuços na cabeça, a tapar, para ninguém ver. Ficávamos uma ou duas horas e sempre naquela "espero que ninguém nos veja", porque eles reconheciam-nos, mesmo aos da equipa B. Mas, durante a época, nunca saía. Saí a primeira vez com 17 anos, não era uma pessoa de sair muito à noite, só nas férias, e gosto sim, gosto de divertir-me, mas mais nas férias.

Tomas Podstawski (ao centro) assinou pelo Pogon Szczecin na época 2018/19

Tomas Podstawski (ao centro) assinou pelo Pogon Szczecin na época 2018/19

D.R.

Como foi quando chegou à Polónia? Teve apoio familiar?
Sim, tenho família espalhada por, mais ou menos, cinco, seis cidades na Polónia. Fui para uma cidade que se chama Szczecin, Estetino em português. Fica a 170 quilómetros de Berlim, no noroeste da Polónia, junto à fronteira, e é uma cidade boa. Não é uma super cidade para quem está habituado a viver no Porto, como segunda cidade de Portugal, até porque Estetino é como se fosse a 7.ª ou 8.ª cidade da Polónia, como um Setúbal, mas com estilo polaco e não estilo português. Há grandes diferenças a nível gastronómico, de língua, também não é qualquer pessoa que fala inglês, apesar de eu falar polaco. Falo disto mais por causa da minha namorada. Mas tinha lá a prima direita do meu pai, que acaba por ser minha tia, e o meu tio, que me deram um apoio enorme e, por isso, foi super fácil adaptar-me ao estilo polaco porque, no fundo, sou também polaco e tenho raízes polacas.

Do que gostou mais do tal estilo polaco de que fala?
Da entreajuda, da maneira como eles gostam do contacto com a natureza, que é diferente de Portugal. Em Portugal temos mar, lá gostam muito de “fugir” para as florestas, para os lagos de água doce, fazem muitas caminhadas, muitos passeios. Claro que não sou o típico polaco, acabo por ser mais português porque identifico-me mais com o clima e a comida portuguesa, por exemplo, do que com a polaca.

Há algum prato polaco que não consiga mesmo comer?
Não, até porque sou uma pessoa que gosta de tudo, não sou esquisito [risos].

E há um prato tipicamente polaco que adore?
Há coisas de que gosto, gosto de uma sopa chamada Zurek, uma sopa quente, mais ácida, com alguns pedaços de carne, batata, que também pode ter ovo. É uma sopa mais pesada, de inverno. Gosto do Pierogi que é como se fossem rissóis de massa tenra, que podem ser salgados ou doces. Não são fritos, são cozidos, e podem ter mirtilo, morango ou framboesa, ou então natas e cogumelos, carne, couve. Mas há outras coisas de que gosto. Na Polónia gostam muito de fazer churrascos, especialmente com carne, não comem muito peixe, e também gosto muito.

Com que outras coisas mais se identificou na cultura polaca?
São muito mais pontuais do que os portugueses. Combina-se um jantar às oito, as pessoas estão às oito, não estão às oito e trinta, nem às nove, como em Portugal. Na parte das regras, de serem mais cumpridores, sim, identifico-me com eles, mas por outro lado, vejo-me muito mais com a sociedade portuguesa, por sermos mais brincalhões, embora na Polónia também brincassem. Aquela ideia de que são muito frios, não é assim, eles também brincam, também se riem e também gozam uns com os outros.

Num treino do Pogon Szczecin

Num treino do Pogon Szczecin

D.R.

É muito diferente o balneário?
Senti que os polacos se fechavam muito entre eles. Eu não sou o típico polaco por isso não fazia parte daqueles 10, 11 onze jogadores polacos que tinham as suas conversas, que já têm os seus gostos. Se formos a ver, o tipo de casa e de apartamento que eles gostam não é o mesmo que eu gosto. Eu gosto de ir jantar às oito ou às nove, eles têm uma hora de jantar muito mais cedo, às seis, sete horas, para mim é demasiado cedo. A maneira como me visto, é mais típico português, não tanto polaco. O corte de cabelo igual, eles tinham um corte de cabelo muito curtinho de lado, aquele corte militar. O corte de cabelo, roupa, o que comem, rotinas, sou muito mais português do que polaco.

E o futebol?
No tipo de futebol também prefiro muito mais o português, porque acaba por ser muito superior no contexto geral, especialmente a nível de treinadores. Portugal tem muito bons treinadores e na Polónia foi isso que senti falta no campeonato, para eles poderem elevar-se. Porque têm muito bons estádios, boas condições financeiras, as taxas fiscais são mais baixas, conseguem encher os estádios, é um país com quase 40 milhões de pessoas, têm potencial, estão em grande crescimento e desenvolvimento económico também.

Porque não dão o pulo?
Na minha perspetiva porque nas academias trabalha-se mal do ponto de vista técnico e tático. Faltam mais treinadores, com mais formação, com outra competência e acho também que não há treinadores de alto nível, na I e II Ligas polaca. Quando os jogadores vêm de uma estrutura de um Benfica, um Sporting, um FC Porto e mesmo do Vitória de Guimarães e SC Braga, e já há muitos outros clubes a trabalharem bem em Portugal, eles já vêm com muito mais bases, com muito mais conhecimento tático, de posicionamento, de marcação, de passagem de marcação, defensivo, olhar a bola... Isso um jogador português com 16 anos já sabe, especialmente se estiver ao nível de seleção nacional. É muito superior ao jogador polaco com 16, 17 anos, que tem muita qualidade individual, consegue rematar, consegue cruzar, sabe conduzir bem a bola, mas depois não sabe posicionar-se no campo, não sabe ter leitura de jogo.

Não há na Polónia quem faça essa análise?
Está a mudar, mas não é de uma época para a outra, acho que o investimento só está a chegar mais agora, os estádios que eles têm vêm do Europeu de 2012, cresceram mais nestes últimos cinco, seis anos. O problema é que eles ainda olham muito para a vertente física, para a estatística, de ver quanto é que um jogador corre, quanto é que correram no final do jogo. Em Portugal, se eu perguntar a um treinador, em geral, ele não sabe quantos quilómetros é que a equipa correu num jogo. E o meu treinador na Polónia chegou a dizer-me especificamente que eu tinha de correra uma velocidade média entre sete e meio a oito e meio quilómetros por jogo. É uma coisa incrível. Na Polónia, não, tens de correr 12 quilómetros por jogo, tens de fazer 10 sprints acima de 26 quilómetros por hora, etc. É uma coisa que em Portugal uma pessoa fica, o quê? Mas isso interessa a quem? Eu estou dentro do jogo e estou a pensar se estou a correr a uma velocidade média de sete e meio ou oito e meio?

Tomas com a namorada Teté

Tomas com a namorada Teté

D.R.

É uma questão de mentalidade?
Sim, acho que é isso que tem de mudar porque já têm boas condições de trabalho e têm boas condições individuais. Falta-lhes conhecimento de jogo, porque mentalidade de trabalho eles são muito mais trabalhadores do que, por exemplo, os jogadores do Vitória de Setúbal. Estão mais predispostos para treinar, para trabalhar, querem aprender, acho é que tem de se mudar um bocado a forma de pensar de como é que vamos ganhar os jogos. Não vamos ganhar jogos a correr mais, vamos ganhar jogos a ter outro tipo de estratégia dentro do jogo, a circular a bola de maneira diferente, a criar espaços, a podermos criar oportunidades de maneira diferente, a defender melhor, a parte defensiva também são pouco conhecedores. A verdade é que não se vê um treinador polaco a nível internacional a ter sucesso estabelecido em lugar nenhum. Ou seja, os treinadores polacos estão dentro da Polónia.

Se calhar é uma oportunidade de futuro para si, tirar o curso de treinador e ir para a Polónia fazer esse trabalho.
Sim, quem sabe, quem sabe [risos]. E não é por acaso que este ano na Polónia, e começou desde que cheguei, Portugal é a nacionalidade estrangeira com maior número de jogadores na I Liga polaca, o que é bom. E são jogadores com muita qualidade, o Pedro Tiba no Lech Poznan, o Legia que tem o André Martins, que tem o Yuri Ribeiro, o Rafael Lopes. O RKS Rakow tem o Fábio Sturgeon, que foi um jogador internacional, está lá o Alexandre Guedes, internacional, são jogadores bons. O João Amaral que estava no Vitória de Setúbal, foi para o Benfica e do Benfica em duas semanas foi vendido para o Lech Poznan. Eles sabem que conseguem pagar bons salários aos portugueses, que não iam receber isso em Portugal, e que vão trazer outro tipo de competências que os jogadores polacos não têm.

O contrário não acontece, jogadores polacos a jogar em Portugal. Porquê?
Porque não vai fazer a diferença em Portugal e vão-lhe pagar menos dinheiro [risos]. Um jogador polaco não sai da Polónia, a não ser que seja um "Lewandowski" para ir para um Benfica ou para um FC Porto ou Sporting. Agora ir para um Boavista, para um Gil Vicente, para um Belenenses, para um Estoril, nunca vão, porque não têm as condições que têm na Polónia.

Quando chegou ao Pogon Szczecin na primeira época ainda fez muitos jogos, mas o que aconteceu na segunda?
Na segunda acabo por ter uma lesão, a meio da época, perco ali quatro, cinco jogos, mas depois continuo e faço 60% do campeonato, salvo erro. Acabei por fazer muito bons jogos, ganhámos três vezes contra o Legia nesse ano, o que foi histórico, nunca tínhamos ganho três vezes contra a equipa mais forte da Polónia. Ganhámos fora, ganhámos em casa, por isso acaba por ser uma época positiva e ficamos melhor qualificados do que no ano anterior, apesar de não fazer tantos jogos porque estava lesionado.

Em ação pelo Pogon Szczecin

Em ação pelo Pogon Szczecin

SOPA Images

Entretanto surge a pandemia. Onde passou o confinamento, na Polónia?
Tenho uma história engraçada a propósito disso. Lembro-me perfeitamente do início do covid-19, a 13 março de 2020, uma sexta-feira em que de manhã, numa reunião, o clube disse-nos que podíamos voltar para casa. Marquei logo um voo para Portugal nessa tarde. Só que a Polónia, ao final desse mesmo dia, dá indicação para serem fechadas as fronteiras no sábado à meia-noite. E quando o clube está a tentar avisar-me que afinal os estrangeiros, ou quem quisesse voltar, não podiam sair nem entrar do país, eu já estava dentro do avião. No sábado de manhã tenho o diretor-desportivo a ligar-me para eu voltar nesse mesmo dia. Ou seja, voei na sexta e no sábado tenho de regressar.

E conseguiu?
Os voos estavam todos caríssimos porque os polacos estavam também a querer voltar ao país. Eu consigo comprar um voo para Berlim, as pessoas do clube vão-me buscar e passo a fronteira às 11 da noite, uma hora antes de fechar. No seguimento disto tudo, ficamos dois meses sem jogar. Continuamos a treinar, depois passamos a treinar individualmente e mais à frente deixam-nos voltar para casa. Volto para Portugal, fiquei duas semanas no Porto e depois tenho ordem para regressar, porque vamos recomeçar os treinos em abril. Mas eu queria que a minha namorada fosse comigo. O problema é que só podia entrar no território polaco quem tivesse nacionalidade polaca, quem tivesse um contrato de trabalho ou quem fosse casado com um polaco ou uma polaca. A Teté não estava em nenhuma dessas condições.

Ela teve de ficar?
Por sorte, na Polónia abrimos uma empresa unipessoal de prestação de serviços e de direitos de imagem ao clube, para benefícios fiscais dos salários, prémios, pagamentos do clube. Ou seja, eu tinha uma empresa na Polónia. Então o que fiz? Telefonei ao advogado e à minha contabilista e perguntei se era possível contratar a Teté como minha assessora de marketing, para ela poder entrar comigo na Polónia e podermos viver juntos, porque não sabíamos quanto tempo íamos estar separados, podia ser um mês ou mais, e não queríamos ficar tanto tempo longe um do outro. E pronto, contratei a minha própria namorada como assistente de marketing, com o salário mínimo e a pagar-lhe a segurança social. Quando passamos a fronteira ela mostrou os documentos e entramos porque ela tinha um contrato de trabalho. No entanto, acabei por não lhe pagar o salário e despedia-a passado um mês [risos].

Como foi a adaptação dela à Polónia?
Não foi a mais fácil, eu como falo a língua é diferente.

Porquê?
Porque os dias são muito mais escuros, é muito mais frio, chove muito mais vezes. No inverno às três da tarde já está escuro, o céu está sempre cinzento e não azul. E depois, para quem gosta de estar nos cafés, como os portugueses, quem gosta de passear à beira-mar, que não há, nós temos o mar báltico no norte e estávamos numa boa zona e até íamos, mas não é o mesmo mar, não é a mesma praia, não é o mesmo calor. Cozinhávamos muito em casa, mas quando íamos comer fora, não se comparava. Quando alguém tem como prazer de vida comer bem, gastronomia, bom tempo, cultura, concertos, etc., e ainda por cima com a pandemia estava tudo fechado, foi difícil. É como alguém que mora no Porto e vai viver para Santarém, por exemplo, por mais respeito que eu tenha, acaba por ser uma cidade com uma oferta diferente. Mas sei que teve uma boa experiência na Polónia, também gostou.

Aproveitou para melhorar o seu polaco?
Melhorei o meu polaco, estive muitas vezes com os meus avós. O meu avô infelizmente morreu em dezembro de covid, vai fazer um ano, e, por isso, foi bom o facto de ter conseguido estar muitas vezes com ele durante aqueles dois anos. Se estivesse em Portugal e se isto tivesse acontecido se calhar estaria mais triste por não ter tido tantos momentos com ele. Foi bom a proximidade que tive com a minha família da Polónia, fiquei contente nesse sentido.

De férias com a namorada Teté

De férias com a namorada Teté

D.R.

Entretanto como e porque vai para a Noruega?
Eu tenho outras possibilidades para continuar, o meu contrato acaba com o Pogon Szczecin, o clube está a crescer imenso, chegamos a um consenso, eles não queriam que eu continuasse e eu também não queria continuar e não fizemos renovação. Mantenho as melhores relações com o clube, tenho outras ofertas da Polónia, as quais tentei adiar ao máximo porque eu não queria continuar na Polónia.

Porquê?
Porque queria um espaço competitivo melhor, queria dar o tal salto, queria sentir alguma coisa diferente, uma Alemanha, uma Itália, uma Espanha, mesmo que fossem segundas divisões, para ter alguma visibilidade e por sentir que tenho qualidade para jogar a esse nível. Tinha a possibilidade de voltar para Portugal, mas lá está, a não ser que fosse um bom projeto, uma boa estrutura, também não me interessava voltar para algo do género do Vitória de Setúbal.

Os jornais anunciaram que o Marítimo estava interessado em si.
Sim, falou-se no Marítimo e noutros clubes, mas tinha que ser algo que mesmo que eu abdicasse do ponto de vista salarial, me fizesse sentir que podia ter boa visibilidade. E não se proporcionou de nenhuma forma em Portugal, ou seja, as possibilidades que havia não eram fortes e, por isso, não deu para ficar nem em Portugal, nem na Polónia, devido às minhas ambições. O tempo foi passando, sei que os meus empresários falaram com vários clubes, mas não deu para fazer essa transferência, por um ou outro motivo, que são imensos [risos]. Não podia ficar parado mais tempo e claro depois já não dava para voltar para a Polónia nem ficar em Portugal e tive de arranjar uma solução para estar dentro da competição e vim para este clube [Stabaek] que precisava de salvação, e que ainda precisa para se manter. Consegui aqui algo razoável, não era nada do que eu queria, mas também estou contente.

Porque não conseguiu nada do que queria em Portugal? O que tem falhado para dar esse salto que tanto ambiciona?
Acho que alguns clubes portugueses também não têm conhecimento daquilo que é a Polónia. Como é um mercado com pouca visibilidade... Mas eles são bem melhores do que aquilo que se pensa. A nível desportivo têm muito por onde crescer, é verdade, mas não é por acaso que estão lá 22 jogadores portugueses e não estão em Portugal, e podiam estar em Portugal. Ou seja, às vezes um clube português pensa que está muito acima daquele clube polaco, quando aquele clube polaco também pensa que está dez vezes acima do português. Nem oito, nem oitenta, porque eles muitas vezes olham para um Moreirense e pensam “Ó, o que é um Moreirense para nós”. Estão eles a falar assim, enquanto o Moreirense nem sabe como é que se chama aquele clube. Dos dois lados acham-se todos sempre os melhores do mundo, com o peito um bocado grande.

Tomas assinou esta época com o Stabaek da Noruga

Tomas assinou esta época com o Stabaek da Noruga

D.R.

Acha que não o souberam valorizar em Portugal?
Pelo facto de estar a jogar na Polónia olharam para mim como um jogador com menos valor, mas não viram jogos nenhuns, só vêem os dados estatísticos, não acompanharam jogos. E também tem a ver com o conhecimento dos treinadores e dos diretores-desportivos. Não tenho nenhum treinador na I Liga com quem tenha trabalhado antes, os meus treinadores estão na federação, estão noutros países ou neste momento não estão como treinadores. Agora é tentar ganhar o maior número de minutos, ter a maior competição possível cá na Noruega para não estar parado, para não desvalorizar. Porque não queria estar sujeito a ficar até abrir o mercado de janeiro, sem jogar.

Mas a Noruega também não é propriamente um mercado com uma grande visibilidade.
Sim, a questão é que eu já não tinha outras possibilidades. Ou era isto, ou era ficar sem jogar até janeiro. A Noruega não tem muita visibilidade, mas acaba por ter mais do que uma Roménia, uma Bulgária, ou uma Moldávia. Se fosse para a melhor equipa da Bulgária é uma coisa, se é para ir para uma equipa que nem se sabe onde é que é a cidade…

A época na Noruega termina em dezembro. E depois?
Depois é tentar dar outro passo.

Como estão a correr as coisas na Noruega, como está a ser a adaptação?
Estou muito contente, já tinha alguma noção do país, já tinha estado em Copenhaga na Dinamarca, mas nunca tinha estado em Oslo. É uma cidade e um país espetacular para se viver, tirando o tempo [risos].

É um futebol muito diferente do português e do polaco?
Muito diferente.

Em que aspecto?
A nível tático são pouco conhecedores. Muito verticais, sempre a 100, com intensidades máximas e depois essa intensidade baixa porque não conseguem mantê-la, porque é sempre a correr, sempre a correr. Está frio, então o futebol deles é sempre a correr, é o contrário do brasileiro onde está calor, e o futebol é lentinho. Aqui estão sempre a acelerar, acelerar, depois há muitas marcações individuais abrem-se muitos espaços, as equipas alongam-se muito, vou ter de me adaptar. É como se estivesse sempre a jogar um contra um no campo todo, mas pronto, vamos tentar. O meu objetivo aqui é destacar-me, fazer o maior número de jogos possível e continuar a minha carreira num espaço competitivo melhor.

Tem esperança de conseguir voltar a Portugal, para um clube que considera que o merece?
Tenho. Gostava muito de jogar num SC Braga, num Vitória de Guimarães, num clube com capacidade para lutar, com ambições, com boas condições de trabalho e que quer ganhar títulos. Jogadores com quem eu joguei estão nessas equipas e joguei com tantos deles nas duas equipas, por exemplo. Estou a falar de duas equipas que seriam uma possibilidade real e não uma possibilidade irreal.

Tomas Podstawski com a namorada nas Filipinas

Tomas Podstawski com a namorada nas Filipinas

D.R.

Já pensou no futuro pós carreira?
Sim, mas eu penso no que hei-de fazer daqui a dez anos. Se quero ficar ligado ao futebol, como treinador, como diretor-desportivo, enquanto representante, empresário, se não quero e vou fazer outra coisa. Tenho pensado nisso sim.

Nesta fase o que mais o entusiasma?
Jogar só. Não quero pensar muito nisso ainda. A vida de um treinador é de muito stress. Eu vejo os treinadores e vejo pelos nossos, portugueses, como eles gostam de estar, vejo o quanto eles precisam de descansar. Vejo o quanto da vida o futebol lhes retira, envelhecem todos muito cedo, ficam todos com o cabelo branco antes dos 50 anos, mas por outro lado têm uma adrenalina e um prazer de vida… Temos um André Villas-Boas que diz que só quer treinador até aos 50 e um Jorge Jesus que tem quase 70 e continua a ser treinador; temos um Paulo Fonseca que está agora a fazer uma pausa; um Mourinho que também já fez uma pausa. Ou seja, vê-se que é uma profissão de muito desgaste, muita pressão e claro tenho de pensar se é o que quero, continuar com essa pressão, com essa adrenalina, se quero assumir esse risco, essa responsabilidade ou então fazer algo um bocadinho diferente e não tão ligado ao futebol. É algo em que ainda vou ter que pensar. Também gostaria de acabar o meu curso de línguas e de relações internacionais que está congelado. Gostava de acabar para ter um nível académico como uma realização pessoal, gostava de acabar um curso superior.

Os seus irmãos estão a jogar onde?
O António, quando eu fui para a Polónia, foi comigo, para a equipa B do Pogon Szczecin, entretanto veio a pandemia, ele voltou para Portugal e agora foi para os EUA, onde está a estudar e a jogar ao mesmo tempo, no estado de Kansas City. Recebeu uma bolsa a 100%, por isso tem de jogar bem e ter boas notas para ter a bolsa. O Filipe, o mais novo, está a jogar na equipa B do Gondomar, tem 21 anos, acabou o 12.º ano, tinha entrado na faculdade, mas entretanto não gostou do curso e está a jogar no Gondomar. E está a ver se vai continuar ou se também vai para os Estados Unidos.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Na Polónia.

Tem investido?
Tenho investido no mercado financeiro e em imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Eh, essa é boa, talvez quando abri uma garrafa de vinho com um amigo, que também é jogador. Talvez tenha sido essa. A garrafa era cara, uns 400 ou 500€.

Tem alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
Gosto de enologia, gosto de mercados financeiros, gosto de ler e de viajar.

Que país visitou e mais lhe encheu as medidas?
Das melhores viagens que fizemos foi para as Filipinas, onde estivemos 15 dias e visitamos muitas ilhas diferentes. Foi intenso, com paisagens incríveis, vimos imensos oceanos de palmeiras cheios de cocos, praias paradisíacas com uma biodiversidade enorme, fizemos muito snorkeling, vimos peixes, tartarugas. Gostamos imenso das pessoas.

Tem tatuagens?
Zero.

É um homem de fé, acredita em Deus?
Não. Embora os meus avós sejam católicos e eu tenha feito a primeira comunhão.

Superstições, tem ou teve?
Não.

Qual o adversário mais difícil que apanhou pela frente até hoje?
A Alemanha nos Jogos Olímpicos de 2016 e no Europeu de 2019.

D.R.

Segue ou pratica outro desporto além do futebol?
Sigo ténis, mas não da forma como sigo futebol. Gosto muito do Nadal por ser canhoto e do Federer pelo perfil, pela postura, mais gentleman. Gosto de pugilismo também, ainda agora vi o Joshua contra o Usyk, pesos pesados.

A maior frustração que tem na carreira?
Não estar num dos cinco grandes campeonatos, Inglaterra, Alemanha, França, Itália e Espanha.

E qual o maior arrependimento?
Ter tomado uma decisão de gestão de carreira juntamente com um representante há uns anos. Não é agora. Agora estou satisfeito.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Rafa Soares, o João Graça que está no Rio Ave, o André Silva, Gonçalo Paciência, Luis Mata, Luka Zahovic.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
O Real de Madrid.

Tem algum talento escondido?
Algo que faça muito bem, não. Toquei violino, durante cinco anos estudei no conservatório de música do Porto, mas já não toco agora, por isso agora não o faço muito bem.

Sabe cozinhar?
Sei cozinhar. Ainda não estou ao nível que queria, mas estou a tentar melhorar [risos]. Bacalhau com natas é o meu melhor prato.

E o seu prato favorito?
Cabrito com batata assada e arroz no forno.

O pensa da introdução do VAR?
Acho bem. Não há na Noruega ainda porque é muito caro, por isso eles nem sequer introduziram isso cá. Isto aqui paga-se por tudo, impostos muito elevados [risos]. Mas o VAR é positivo. Os resultados são muito mais justos. Esse é o futuro. Mas espero que o futebol não seja demasiadamente tecnológico. O treinador do Bayern de Munique veio dizer que temos muito a aprender com a NFL e que no futebol americano o quarterback está sempre a ouvir o treinador no campo e que o futebol tem de caminhar para aí. Acho que isso já vai para um nível chocante.