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A casa às costas

“Na Roménia, quando cheguei ao Rapid Bucareste, haver porrada dentro do balneário parecia uma coisa completamente natural”

João Paulo esteve duas épocas no Rapid Bucareste onde aprendeu a falar e a escrever romeno, e depois de uma passagem pelo Leixões, voltou a sair, para o Chipre. Pelo meio ainda esteve no Azerbaijão onde diz ter vivido a pior experiência da sua carreira, tendo sido inclusivamente ameaçado. No regresso a Portugal, fixou-se no Norte, e acabou por ser treinador-adjunto e principal no FC Foz. Mas foi na pele de delegado sindical que descobriu a sua vocação após o final da carreira como jogador profissional de futebol

Alexandra Simões de Abreu

RUI DUARTE SILVA

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Disse que a decisão de ir para o Rapid Bucareste foi a mais difícil que tomou. Porquê?
Porque estava com 27 anos, a viver a minha melhor época de sempre, em termos de números, tinha sido pré-convocado para a seleção nacional, estava a marcar golos, tinha mercado. O Rapid era o melhor contrato até aquela data, o U. Leiria estava em zona de descida. Apesar de em termos desportivos eu estar super bem, o clube não estava, estava com algumas dificuldades.Tinha de pesar isso tudo, a idade, o estar bem, a fazer golos, e que podia ser a melhor proposta mas ao ir para o Rapid Bucareste, que é um clube enorme na Roménia, iria perder alguma expressão cá. Como já tinha sido pré-convocado, podia eventualmente um dia ser convocado e sabia que ao ir: ia “desaparecer”. No U. Leiria não sabia se ia continuar, porque o clube estava numa fase difícil, mas também queria ajudar a equipa a sair daquela posição. Por tudo isto, num momento em que se calhar podia estar a tomar a decisão mais fácil e mais feliz, tornou-se numa das mais difíceis da minha carreira.

Qual foi o clique final que o levou a ir?
Alguns exemplos que vamos vendo. Nem sempre tudo corre como desejamos e prevemos. Podia ter uma lesão e deixava de jogar ou de fazer golos e já não aproveitava. Pelo menos aquilo que tinha no imediato. Recordo-me do William, do Paços de Ferreira, que também estava a fazer muitos golos, tinha mil e uma opções para sair, entretanto tem uma lesão grave no joelho e vai tudo por água abaixo. Podia acontecer-me. Apesar de estar no meu auge, os 27 normalmente é aquela idade em que estamos mais fortes, decidi que se calhar o mais fácil seria ir e aproveitar. Ao mesmo tempo senti que podia valorizar-me ainda mais noutros mercados.

Foi para a Roménia sozinho também?
Sim, fui sempre sozinho.

Como foi o primeiro embate quando chegou a Bucareste?
Sempre tive facilidade em línguas, falava inglês, o que acho ser fundamental para qualquer jogador que vai para fora. Tinha essa vantagem. Foi tudo muito rápido, em dois dias. Tinha de ser inscrito nos últimos dias do mercado lá. Lembro-me que cheguei numa quinta-feira de madrugada e na sexta de manhãzinha fui fazer os exames médicos para ver se ainda era inscrito a tempo de poder jogar no sábado. Foi exatamente isso que aconteceu. Fiz um treino na sexta ao final do dia com a equipa e no sábado joguei. Foi dos momentos mais estranhos porque não conhecia ninguém. Apesar de falar de inglês, falar em inglês no campo para outros jogadores era uma novidade [risos].

Um futebol muito diferente do que estava habituado?
Não, foi uma das coisas com que me surpreendi. Às vezes julgamos que em Portugal é que temos tudo do melhor e não é assim, há muitos outros países que, apesar de não terem a dimensão que nós temos, têm campeonatos difíceis. O campeonato romeno é a prova disso. Mas gostei, até porque fui para um grande clube, com uma massa adepta fantástica, se calhar os melhores adeptos que tive até hoje, que viviam o futebol de uma maneira que não se vive em Portugal, verdade seja dita. Nós gostamos de futebol em Portugal, mas eles têm uma ligação e uma entrega ao futebol de forma diferente. Todos os campos estão cheios. Não é por acaso que foi o clube onde estive mais anos na minha carreira.

Que ideia levava na bagagem dos romenos e da Roménia?
Não era a melhor, confesso. Acho que tinha a ideia que quase todos temos. Mas nem todos os romenos são maus e Bucareste é uma cidade de eleição para mim. Tem uma qualidade de vida fantástica, é uma cidade lindíssima, conheci romenos espetaculares. Aprendi a ler e escrever romeno e tive a felicidade de com isso poder ter contacto com pessoas mais antigas que viveram também sob o regime de Ceausescu. Partilharam comigo as vivências deles, as suas ideias de um altura em que viveram tempos conturbados.

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  • “Com o Jaime Pacheco a pré-época era qualquer coisa de extraordinário. Levávamos belas tareias, fazia parte da mentalidade dele”
    A casa às costas

    João Paulo Ribeiro tem hoje 41 anos, é representante do Sindicato dos Jogadores na zona Norte e esta época voltou a jogar no clube que o viu nascer para o futebol, o USC de Paredes, mas agora nos veteranos. Foi com um golo seu que a seleção de sub-18 conquistou o Europeu da Suécia, em 1999, mas nem por isso conseguiu vingar no clube onde fez a maior parte da sua formação: o Boavista. Andou feito saltimbanco, emprestado ao Desp. Aves, Feirense, V. Setúbal, Varzim, Beira-Mar e Estoril Praia, antes de partir para Tenerife, onde teve uma passagem fugaz. Regressou a Portugal, ao Paços de Ferreira, mas foi no U. Leiria que acabou por chamar a atenção do Rapid Bucareste. Na segunda parte falamos da aventura na Roménia e do calvário que passou no Azerbaijão