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O que ficou deste jogo com o Luxemburgo: Portugal não evoluiu nada

O analista Tiago Teixeira viu o Luxemburgo - Portugal e concluiu que a equipa de Fernando Santos tem de jogar mais, porque tem jogadores para o fazer

Tiago Teixeira

Catherine Steenkeste

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Qualificação alcançada mas apenas com os serviços mínimos. Apesar da vitória por 2-0, e de ter sido a seleção com mais posse de bola e com mais remates à baliza, a exibição de Portugal foi bastante fraca, principalmente na primeira parte, onde revelou enormes dificuldades na sua primeira fase de construção e ainda permitiu ao Luxemburgo aproximar-se algumas vezes e com muito perigo da baliza de Rui Patrício.

Como se pode ver na imagem seguinte, relativa ao posicionamento médio dos jogadores portugueses (dados do site SofaScore), Bernardo Silva (10), Bruno Fernandes (16), Pizzi (21), Ronaldo (7) e André Silva (23) apareceram muito em zonas interiores, como já tinha acontecido contra a Lituânia, mas aí com Gonçalo Paciência no lugar de André Silva.

Apesar do posicionamento idêntico ao do último jogo, Portugal revelou mais dificuldades na sua primeira fase de construção. É certo que o péssimo estado do relvado não ajudou, e que a seleção do Luxemburgo é mais organizada e pressionante que a da Lituânia, mas a principal diferença teve a ver com a falta de critério. A calma na circulação de bola deu lugar a vários passes longos, o que acabou por resultar em várias perdas de bola (os 65% de eficácia no passe vertical atestam isso).

É difícil de entender, e na minha opinião bastante prejudicial, que num jogo onde a dupla de centrais são José Fonte e Rúben Dias – dois centrais com claras dificuldades no momento da construção – não se utilize Rúben Neves, ele que é o médio defensivo que mais capacidade tem para ligar a fase de construção com a de criação.

Com tantas perdas de bola, não só Portugal não conseguiu chegar ao último terço de forma apoiada e em boas condições para finalizar, como permitiu ao Luxemburgo ter mais posse de bola do que seria esperado.

Além da falta de critério na primeira fase de construção, a seleção portuguesa mostrou dificuldades na transição defensiva (pouca agressividade e pouca preocupação em fechar o corredor central), permitindo ao Luxemburgo, na primeira meia hora, sair algumas vezes das zonas de pressão e explorar o lado contrário. O lance aos 14 minutos, que curiosamente teve origem numa perda de bola após um passe longo, é bom um exemplo disso.

Como tudo depende do contexto, há passes longos que tem mais probabilidade de criar perigo do que outros. O primeiro golo de Portugal é um exemplo perfeito disso. Em primeiro lugar, porque quem fez o passe foi Bernardo Silva e não um dos centrais (Fonte e Rúben Dias), logo, é muito mais provável que a execução (força e precisão) seja melhor.

E em segundo lugar, porque os defesas do Luxemburgo estavam todos desalinhados e havia muito espaço para explorar nas suas costas. Bruno Fernandes (um dos melhores em campo) fez muito bem o movimento de rutura e após uma excelente receção fez o primeiro de Portugal.

Na segunda parte, e apesar de Portugal praticamente não ter criado perigo com exceção do lance do segundo golo, houve maior controlo de jogo e com isso afastou-se o Luxemburgo da baliza da Rui Patrício, garantindo assim a 11ª presença consecutiva numa fase final.

O que ficou deste jogo com o Luxemburgo, e que já tinha ficado em outros jogos da qualificação e Liga das Nações, é que Portugal continua a não evoluir nada a sua fase de construção, revelando imensas dificuldades contra adversários que pressionem um pouco mais alto.

Havendo jogadores como Rúben Neves, Pizzi, Bruno Fernandes, João Moutinho, Bernardo Silva, entre outros, é impensável que Portugal salte etapas na construção, e procure ligar o jogo com passes longos dos defesas para os avançados.