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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Continua rígido e impetuoso, mas guarda a qualidade técnica e a criatividade fora das quatro linhas: assim é o FC Porto de Sérgio Conceição

A explicação para o empate do FC Porto frente ao Belenenses SAD, e para a fraca prestação coletiva dos últimos tempos, está aqui: "Quem comanda os pupilos do Estádio do Dragão acha que a criatividade e a qualidade técnica são atributos que apenas têm mais valor do que outros no Teatro Sá da Bandeira; a equipa fica refém da força, da combatividade, da potência, das bolas paradas, e da sorte nas segundas bolas"

Blessing Lumueno

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O estilo de jogo contundente praticado pelo FC Porto é o reflexo da personalidade do seu treinador. Agressivo a atacar e a defender, mas sem a agilidade tática que lhe permitiria catapultar o jogo da sua equipa para outro nível.

É um treinador que compromete os jogadores a cumprirem com as missões táticas que lhes exige por saber muito bem o que quer, e o perfil de jogador que entram melhor dentro do seu modelo de jogo. É coerente nas escolhas que faz tendo em conta o perfil de jogo que defende.

Dirão, por isso, que estão reunidas as condições para triunfar uma vez que o rumo a seguir está bem definido; mas, o futebol é um jogo cruel a fazer valer os constrangimentos que as suas regras criam e apenas no médio longo prazo demonstra a falência de determinadas ideologias, ou a força de outras.

Como é óbvio, é possível vencer a jogar de todas as formas. E, no contexto nacional, com jogadores muito fortes fisicamente e que arrombam constantemente as linhas adversárias, consegue-se garantir uma percentagem de vitórias suficiente para se lutar pelos troféus mais importantes. Para ser campeão, e até mais do que uma vez, não é preciso um jogo de muitos passes, de muitos toques na bola: basta cruzar bolas para a área e ter naquele espaço jogadores com um perfil físico de assinalar e com alguma capacidade técnica, a ganhar o duelo ou forçar a segunda bola. A realidade é que há nichos onde o físico predomina, sobretudo por faltar critério e criatividade na oposição.

Um exemplo claro é a forma unânime como todos em uníssono repetem que se o corredor central está fechado a solução passa por atacar os corredores laterais. Isto é, se uma equipa fechar o corredor central e decidir que apenas ativa a sua pressão quando a bola se encaminha para os corredores laterais e salta agressivamente para a bola quando a bola entra por fora, tem meio caminho andado para ter sucesso. Por ser fácil de prever e trabalhar a forma de limitar o jogo interior, e a forma de encaminhar para zonas onde quer roubar a bola – montando armadilhas de pressão, ou zonas pressionantes -, do ponto de vista defensivo o desafio acaba por não ter um grau de dificuldade de assinalar.

A previsibilidade que a rigidez e o ímpeto que os comandados de Sérgio Conceição exibem facilita a vida aos adversários mais audazes. Reparem, o Belenenses SAD não precisou de fazer um jogo brilhante para conseguir parar este Porto. É verdade que teve a sorte do jogo, é verdade que ter marcado primeiro ajudou, e também é verdade que até nem marcou no período em que foi mais arrojado na forma de jogar; mas olhamos para a performance coletiva dos dragões até antes da entrada de Shoya e Sérgio Oliveira, e o jogo foi muito fraco.

Ofensivamente não conseguiu colocar constrangimentos em ataque posicional e apenas saiu forte em contra-ataque e nas situações de bola parada criou algum frisson. Do ponto de vista defensivo esteve muito vulnerável no lado defendido por Pepe e Manafá, e poderia até ter sofrido o 2-0.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Há equipas começam a perceber que a bola é que manda no jogo, e que a estratégia para os jogos contra os “grandes” não poderá passar apenas por lhes roubar o espaço, mas também, e sempre que possível, roubar-lhes a bola. Quando isso acontece, percebem-se erros que até então tinham sido difíceis de descortinar porque a equipa não era obrigada a determinado tipo de comportamento defensivo. Olhando para o poderio das duas equipas seria difícil imaginar um FC Porto mais perigoso em contra-ataque do que em ataque posicional, mas, o treinador do FC Porto decidiu guardar a mais-valia individual, aquilo que realmente distingue as duas equipas, no banco de suplentes, na bancada, e no Olival.

Aquilo que se viu no jogo quando Corona e Otávio conseguiram associar-se é algo que poderia aparecer regularmente nos jogos do Porto, mas como quem comanda os pupilos do Estádio do Dragão acha que a criatividade e a qualidade técnica são atributos que apenas têm mais valor do que outros no Teatro Sá da Bandeira, a equipa fica refém da força, da combatividade, da potência, das bolas paradas, e da sorte nas segundas bolas.

São muito poucos os golos que se fazem de forma limpa e sem esforço, onde a equipa em ataque posicional consegue desmontar a organização defensiva adversária. Quando os há, quase acusamos o treinador de lirismo por ter conseguido criar um golo com uma sequência de passes superior a cinco, ainda que tal apenas suceda a cada dois meses.

E quem tem visto os jogos do FC Porto sente a crueldade da lógica do jogo que se impõe de forma lenta e gradual: muitos adeptos já entenderam que apenas garra e atitude não chegam; não estivéssemos nós a falar de um jogo onde as regras ainda beneficiam, em competições a longo prazo, quem é mais vezes capaz de CRIAR situações para colocar a bola na baliza do adversário.