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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

De 15 em 15 minutos, a minuciosa análise aos 90 minutos do Sporting - FC Porto

Aqui encontrará a análise técnica mais detalhada ao que se passou no clássico de domingo, em que a equipa de Sérgio Conceição se superiorizou à rival nos pormenores

Blessing Lumueno

NurPhoto

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0-15’

As duas equipas ainda procuravam encontrar-se e o Futebol Clube do Porto chega ao primeiro golo bem cedo no jogo. Num lance que Silas diz não admitir sofrer, por ter trabalhado para travar este tipo de lance, e em que Sérgio Conceição aproveita para reforçar o mérito que teve em colocar Marega naquele posicionamento no corredor esquerdo, entre Ristosvki e Coates (que pode ter surpreendido). Há, como é mais que evidente, mérito dos jogadores do Porto pela forma como conseguiram aproveitar o desacerto defensivo do Sporting, mas não menos evidente é que a debilidade que o treinador portista identificou e trabalhou para aproveitar apareceu apenas por uma vez no jogo.

Nem sequer vimos outros lances onde Marega tivesse conseguido com o mesmo movimento receber a bola para enfrentar a última linha ou Maximiano. Há uma linha defensiva descoordenada onde Mathieu é o elemento mais recuado, Coates está fixo pelo posicionamento de Soares numa linha mais adiantada, e Ristovski não percebe o movimento de Marega a tempo de o parar. Há falta de pressão no portador da bola, por isso, Corona consegue um passe com o pé esquerdo (não dominante) que atrapalha Max - e o avançado maliano apenas teve de receber mal a bola para ultrapassar o guarda redes e fazer golo.

15-30’

A pior fase do jogo começou neste período, com a agressividade, os duelos, o pouco discernimento, e as constantes perdas de bola. Ainda assim, o Sporting a pressionar mais alto e um FC do Porto a montar uma zona de espera, na tentativa de criar armadilhas de pressão. Não é que as equipas tenham encaixado na forma de uma e de outra jogar, mas sucediam-se as precipitações na tomada de decisão e por isso a qualidade do jogo foi baixa. O Sporting começou a ser ligeiramente superior aqui porque os posicionamentos que Silas promove tiraram algum conforto à forma de defender do Porto, e os leões conseguiram uma ou outra recuperação e consequente saída para contra-ataque no momento de saída de bola dos dragões que não tiveram sucesso pela má definição ou por terem terminado em falta. A lesão de Pepe acaba por marcar negativamente este período.

30-45’

Mbemba tinha entrado e é ele que consegue travar Bruno Fernandes no um contra um depois de uma saída longa por Coates. O médio português, que até então somava acções negativas e decisões erradas, conseguiu um domínio de bola espetacular, mas não conseguiu enganar o seu adversário para que pudesse ter finalizado sem oposição que não o guarda redes.

Nesta fase, Nakajima foi superior, o melhor em campo, e ajudou os comandados de Sérgio Conceição a sair da pressão com a bola controlada. Quando baixava para receber ou quando recebia entre linhas, ligava, construía, criava, e tentou inclusivamente finalizar numa arrancada onde serpenteia por entre as linhas do bloco defensivo do Sporting; sem solução de passe à direita, optou pelo remate. As duas equipas estavam sem arte nem engenho para conseguir aproveitar as debilidades defensivas, excetuando alguns impulsos individuais que foram aparecendo de Nakajima ou de Vietto, até que perto do intervalo Marchesin erra a decisão no momento em que iniciava a construção de mais um ataque, Acuna recupera, Luiz Phellype faz parede, e Vietto define para a finalização do ala argentino que tinha recuperado a bola. Apesar de ter sido uma perda de bola na zona de meio campo, a equipa não estava preparada para perder a bola naquele momento, e com as acções rápidas e precisas dos jogadores do Sporting o jogo foi para o intervalo com justiça no marcador.

45-60’

O Sporting entrou forte, e ter acabado a primeira parte com o golo do empate pode ter ajudado. Nesta altura, Vietto começa a destacar-se, e a passar por cima de Nakajima na luta pelo homem do jogo. A equipa de Silas apareceu mais serena, com mais discernimento, e nem a entrada do Bombeiro para retirar a tocha impediu a criação de um lance, e consequente entrada na área de Vietto, que com alguma sorte na forma com ultrapassa Marcano e Uribe apenas consegue atirar ao poste.

O massacre ao lado direito da defesa do Porto continuou: Otávio, Danilo e Uribe tiveram muita dificuldade para travar a dinâmica ofensiva do Sporting nesse lado. Por seu lado, o FCP apenas por uma vez conseguiu ameaçar e entrar na área do Sporting numa combinação entre Nakajima, Danilo e Otávio que deixa Marega em boas condições para atacar Coates já dentro da área. O avançado opta por tentar de primeira assistir Soares, mas Mathieu antecipou o lance e cortou para canto. O Sporting insistia em atacar pelo seu lado esquerdo, onde se juntava Mathieu, Acuna, Bruno Fernandes, e sobretudo Vietto, em combinações ou em contra-ataque.

60-75’

O momento de superioridade da equipa de Silas era evidente para todos. No jogo percebia-se que a forma como os seus jogadores estavam posicionados e a mobilidade de Bruno e Vietto baralharam e muito a pressão do Porto - e com essa maior confiança a equipa chegou por diversas vezes a situações de finalização dentro da área. Com mais acerto, Vietto, principalmente, ou Bruno Fernandes poderiam ter feito a balança pender para o lado do Sporting que já justificava a vantagem, e porque não permitiu ao Porto entradas na área, excepto num lance individual (mais um) de Nakajima.

À avalanche ofensiva leonina, Sérgio Conceição responde com a saída daquele que estava a ser o seu melhor jogador e lança Luís Díaz. Disse-nos o treinador portista que o fez para estancar o corredor direito, mas poderia tê-lo feito alterando outro jogador que não o seu melhor elemento, mantendo a nova forma como dispunha a equipa em campo: um 1x4x3x3 mais conservador.

Com a alteração, Marega passou definitivamente para o lado direito do ataque e Otávio para o meio campo. A alteração quebrou o ímpeto do Sporting e o Porto sentiu menos dificuldade em defender a sua baliza, no momento ofensivo apenas em contra-ataque os dragões chegaram perto da área de Max.

De bola parada surge o segundo golo do jogo. Numa zona onde Doumbia e Bolasie não se responsabilizam por defender o seu espaço, Soares aparece imperial para fazer mais uma vez notar o seu jogo de cabeça e o poder que a equipa de Sérgio Conceição demonstra neste tipo de lance.

75-90’

Silas altera e, com as alterações estruturais e o golo sofrido, a equipa nunca mais foi capaz de se encontrar. Quando até aí parecia muito serena, voltou a precipitação, chegou o desespero por estar atrás no marcador e a frustração por não ter conseguido traduzir em golos a superioridade que teve até àquele momento. O Porto foi capaz de aproveitar a maior fragilidade emocional e criou em contra-ataque situações para fazer o terceiro que apenas por algum desacerto não foram concretizadas.

Resumindo: o jogo não teve muita qualidade. O Sporting criou mais lances e pode apenas queixar-se de si próprio por não ter conseguido outro tipo de resultado. O meio campo do Sporting deve ser repensado, e há, no clube, ainda que estejam emprestados, dois jogadores capazes de catapultar o nível da equipa para outro patamar. É ou não possível resgatar Daniel Bragança? É ou não possível resgatar Francisco Geraldes? Se sim: o treinador e o clube querem? Há que esclarecer este tipo de assuntos porque um clube não se pode queixar de falta de qualidade quando há nomes que podem claramente acrescentar qualidade - e todos estamos interessados em perceber quais são os planos do clube para estes jogadores. O Porto teve um jogo muito difícil onde não só não criou em número e em qualidade suficientes boas situações de finalização, como não defendeu bem; pelo menos até ao segundo golo.