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Como as dinâmicas do 3-4-3 do Sporting de Braga podem criar dificuldades ao FC Porto

É um dos dois jogos grandes da 17ª jornada da Liga: o FC Porto, 2º classificado com 41 pontos, recebe o Sporting de Braga, 5º com 24 pontos, e o analista Tiago Teixeira explica-nos o que devemos esperar das equipas de Sérgio Conceição e Rúben Amorim, respetivamente

Tiago Teixeira

HUGO DELGADO

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O Sporting de Braga de Rúben Amorim

O novo Sporting de Braga trouxe novidades, desde logo a começar pelo sistema de jogo. Rúben Amorim estruturou a equipa no “seu” 3x4x2x1 (sistema utilizado na passagem pelo Braga B) e a estreia não podia ter sido mais positiva: 7-1, em casa do Belenenses SAD.

No segundo jogo, mais uma vitória (2-1), mas esta muito mais complicada, apesar de inteiramente justa, com o bloco baixo e compacto do Tondela a criar mais dificuldades aos jogadores do Braga.

Posicionamentos e dinâmicas

Apesar do pouco tempo de treino, a frágil organização defensiva do Belenenses SAD – muito espaço entre a linha defensiva e a linha média, e dificuldades no controlo da profundidade – permitiu ao Braga pôr em prática muitas das dinâmicas que Rúben Amorim idealiza no seu modelo de jogo.

Através da paciência na primeira fase de construção e de passes verticais, o Braga demonstrou intenção e competência para chegar a zonas de criação de forma apoiada, onde Ricardo Horta e Trincão, com o apoio de Paulinho (muito importante nos apoios frontais), se movimentavam para receber. Se em zonas interiores apareciam estes três elementos, por fora a largura e profundidade era dada pelos alas, Esgaio e Sequeira, permitindo ao Braga ocupar os três corredores em organização ofensiva.

Aos movimentos de aproximação, juntaram-se movimentos de rutura para explorar a profundidade, como ficou demonstrado nos lances do terceiro e quinto golos frente ao Belenenses SAD.

No Dragão, não é de todo previsível que o Braga mude a sua estrutura nem as suas intenções com bola, pelo que veremos uma equipa a procurar sair a jogar de forma apoiada desde trás, com os três centrais bem abertos, o duplo pivô posicionado nas costas de Marega e Soares, e os alas, Esgaio e Sequeira, a oferecerem linhas de passe exteriores, e muitas vezes em profundidade.

Mas, contra o FC Porto, o Braga de Rúben Amorim vai ser muito testado do ponto de vista defensivo, ao contrário do que aconteceu contra o Belenenses SAD e contra o Tondela.

Nesses dois jogos, aquilo que ficou mais claro é que a intenção do Braga passa por condicionar a primeira fase de construção adversária, com preocupação para as coberturas defensivas e para a concentração defensiva (ocupação de dois corredores). Foi através da pressão alta que surgiram o segundo e o quarto golos na goleada frente ao Belenenses SAD.

Quando se posicionam num bloco mais baixo, os bracarenses organizam-se em 5x4x1, com Ricardo Horta e Trincão a fecharem os corredores laterais, na mesma linha dos dois médios. Paulinho surge sozinho na primeira linha defensiva.

Os perigos e as dificuldades do FC Porto dos últimos jogos (e de que maneira é que isso pode influenciar o jogo frente ao Braga)

Apesar das vitórias nas deslocações a Alvalade (2-1) e a Moreira de Cónegos (4-2), o FC Porto de Sérgio Conceição sentiu dificuldades em muitos momentos de ambos os jogos.

1- Falta de critério e qualidade em fases de construção, mesmo em momentos em que o adversário não pressionou de forma agressiva. Os primeiros 45 minutos contra o Moreirense, bem como vários momentos contra o Sporting, demonstraram um FC Porto com muitas dificuldades para entrar em zonas de criação de forma apoiada, muito por culpa da falta de paciência em zonas recuadas – demasiados passes longos. Quando saíram de forma curta, raramente procuraram o homem livre para progredir. Essas dificuldades impediram o FC Porto de chegar ao último terço de forma mais limpa e regular.

Se o Braga pressionar alto, como fez nos dois primeiros jogos, é de esperar que o FC Porto passe por dificuldades para sair de forma apoiada, e que isso se reflita na quantidade de vezes que irá chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média do Braga em condições vantajosas.

2- Impedir a entrada do adversário no último terço. Foi mais visível na segunda parte frente ao Sporting, mas o Moreirense também o conseguiu várias vezes na primeira parte. O FC Porto vem sentindo dificuldades para impedir a progressão adversária, principalmente pelos corredores laterais.

Com o Braga a projetar muito os seus alas (Esgaio e Sequeira) fruto do seu sistema de jogo, e com a aproximação de Ricardo Horta e Trincão, pode estar aí um fator de desequilíbrio na organização defensiva do FC Porto que, como referido, tem apresentado dificuldades para impedir as combinações nos seus corredores laterais.

Os perigos

O futebol mais associativo que se viu na receção ao Tondela e na primeira parte frente ao Santa Clara - Uribe e Otávio no duplo pivô, e com muita mobilidade entre linhas por parte de Luís Diaz, Nakajima e Corona - não teve seguimento, e o FC Porto voltou a demonstrar ser mais forte nos momentos que sempre caracterizaram a ideia de jogo de Sérgio Conceição.

1- Bolas paradas ofensivas. Não há como negar a importância que este momento do jogo tem no FC Porto de Sérgio Conceição. Seja através de cantos ou de livres laterais, cada bola parada é uma oportunidade de ouro para os jogadores do FC Porto criarem situações de finalização. Foi assim na vitória em Alvalade, para a Liga, e frente ao Varzim, para a Taça de Portugal.

A cada esquema tático, o Braga terá de ser uma equipa muito concentrada, organizada e agressiva, ou então passará por muitos sobressaltos.

2- Ataque à profundidade. Seja em ataque posicional ou em contra-ataque, no último terço, o ataque à profundidade será sempre uma das principais armas ofensivas do FC Porto. Se a linha defensiva adversária não reage à bola descoberta para defender o espaço nas suas costas, Soares, mas principalmente Marega, procuram receber a bola em profundidade, como aconteceu no primeiro golo em Alvalade.

Com um Braga que se espera num bloco médio, o controlo da profundidade terá de ser perfeito, sob pena de permitirem lances na cara do seu guarda-redes.

Nos momentos da transição ofensiva, o espaço entre o central e o ala do Braga pode ser aproveitado pelo FC Porto que, como sabemos, procura sempre que um dos avançados se movimente de dentro para fora, como aconteceu neste lance frente ao Moreirense.

3- Jogo exterior. Com laterais como Alex Telles e Corona, com muita qualidade no cruzamento e facilidade em chegar ao último terço, e com avançados como Soares e Marega, muito fortes fisicamente e agressivos em zonas de finalização, o FC Porto é uma equipa perigosa nos momentos de cruzamento, como ficou visível no golo de Soares frente ao Moreirense.

Terá de ser um Braga muito competente no controlo de cruzamentos quando o FC Porto chegar ao último terço. Nesse momento, é de prever que o FC Porto procure explorar o segundo poste nos cruzamentos a partir do seu lado direito, dadas as maiores dificuldades de Esgaio no jogo aéreo.

As figuras

Se há uma coisa certa no jogo entre FC Porto e Braga, é que não vão faltar jogadores capazes de desequilibrar a favor da sua equipa.

Gualter Fatia

Corona (FC Porto)
Joga como lateral e ataca como extremo. Responsável pela largura no corredor lateral direito, esteve envolvido numa grande percentagem dos golos marcados pelo FC Porto nos últimos dois jogos para o campeonato. À qualidade no 1x1 ofensivo, junta muita competência no momento do cruzamento e nos passes em profundidade.

Luís Diaz (FC Porto)
Com a esperada ausência de Nakajima, Luís Diaz deve voltar a ser titular para o campeonato. Mais aberto para combinar com Alex Telles ou mais por dentro para receber entre linhas, o extremo colombiano será, através da sua qualidade técnica, uma das principais armas ofensivas do FC Porto.

Soares (FC Porto)
Com nove golos marcados nos últimos nove jogos, Tiquinho tem sido o elemento mais decisivo em zonas de finalização, seja através de lances de bola corrida ou nas bolas paradas, seja pelo ar ou pelo chão. Com a sua presença na área, os defesas do Braga não poderão ter um segundo de desatenção, ou Soares aparecerá para finalizar.

Gualter Fatia

Trincão (Braga)
Pouco utilizado por Sá Pinto para campeonato, Trincão é agora titular com Rúben Amorim, e o Braga só tem a ganhar com essa decisão. Acrescenta qualidade técnica, velocidade na execução e criatividade, o que lhe permite ser uma mais valia em termos ofensivos, mesmo em zonas com pouco espaço.

Ricardo Horta (Braga)
Já leva 13 golos e 6 assistências esta época, o que revela bem a influência que tem na organização ofensiva do Braga. Não sendo tão criativo como Trincão, acrescenta muita qualidade quando aparece em zonas de finalização e no último passe, e tanto procura receber a bola no pé como no espaço.

Paulinho (Braga)
É o melhor marcador do Braga na presente época, já com 15 golos. Além da qualidade em zonas de finalização, Paulinho oferece movimentos de aproximação para ser apoio frontal e tocar no médio de frente para o jogo, e movimentos de rutura para receber a bola no espaço.

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