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João Almeida Rosa

João Almeida Rosa

Treinador de futebol

A posse de bola voltou a Camp Nou. Mas, afinal, para que serve?

A chegada de Quique Sétien parece conduzir o FC Barcelona a voltar a monopolizar a bola, como fazia com Pep Guardiola, mas os golos (e os remates) não foram assim tantos. Já se fala numa ideia de jogo estéril, mas as conclusões podem ser precipitadas. É que o Barça não quer monopolizar a bola, quer monopolizar o jogo

João Almeida Rosa

Soccrates Images

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Não é novo o ideológico debate sobre a posse de bola e sua utilidade num jogo de futebol, mas com a chegada de Quique Sétien ao FC Barcelona, a casa mãe deste ideal de que o jogo se controla com a bola nos pés, o assunto voltou à baila.

É que nos dois primeiros jogos com o seu novo treinador, a equipa de Messi e companhia venceu pela margem mínima, com dificuldades à mistura. Nada que não tivesse acontecido já por 6 ocasiões esta época (era este o número de vitórias por um golo de diferença com Valverde), além das 10 partidas não vencidas pelos blaugrana até então, mas agora a equipa teve, respetivamente, 83% e 78% de posse de bola nos seus jogos. E isso faz soar os alarmes da fação que não vê a posse como Cruyff e seus seguidores.

A verdade é que, de facto, o FC Barcelona frente ao Granada atirou apenas por 6 vezes à baliza adversária e, com o UD Ibiza, o registo foi ainda pior: somente 3 remates na direção pretendida. Ainda que este dado estatístico possa ser curto para avaliar a qualidade do jogo culé, foi notório que, numa partida ou noutra, aos comandados por Sétien faltou ainda alguma variabilidade na sua organização ofensiva, nomeadamente mais ataques à profundidade e uma maior fluidez e criatividade na circulação de bola.

Contudo, limitar a influência da posse de bola exclusivamente ao momento ofensivo é dividir o jogo de uma forma simplista e redutora, não entendendo que aquilo que as equipas fazem a atacar influência a forma como defendem e vice-versa. Por isso, ainda que sobrem vários aspetos a desenvolver na posse catalã para que a equipa ataque melhor, a primeira vantagem que tanto tempo com bola traz remonta a um dos pilares da identidade de Cruyff (que o próprio explica no vídeo em baixo): enquanto a equipa tem bola, não pode sofrer golo.

Este princípio básico foi o que levou, nos dois jogos com Sétien, o FC Barcelona a conceder somente um total de 3 remates à sua baliza (1 ao Granada, 2 ao UD Ibiza). Entende-se assim que a equipa e o treinador que são considerados (ou acusados, muitas vezes) excessivamente românticos na forma como abordam as partidas… talvez sejam bem mais pragmáticos do que se julga.

Este facto torna-se consideravelmente mais relevante se recordarmos que foi precisamente por não conseguir segurar vantagens que os blaugrana sentiram o sabor do insucesso com Valverde: foi assim em 17/18, frente à Roma, quando sofreram três golos sem resposta na 2.ª mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões; história semelhante repetiu-se um ano mais tarde, nas meias, com o Liverpool, e mais recentemente, nas meias-finais da Supercopa espanhola em que o FC Barcelona desperdiçou uma vantagem de 2-1 face ao Atlético de Madrid.

Mais do que voltar a monopolizar a bola, a ideia do Barça é voltar a monopolizar o jogo. O primeiro não passa de um meio para atingir o segundo.