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No clássico, o Benfica tentou combater o fogo com fogo e obviamente queimou-se

O treinador Blessing Lumueno analisa a chave do triunfo portista, sempre mais confortável a jogar com as emoções e a agressividade, perante um Benfica que quis igualar esses índices e perdeu, pela segunda vez. Veja e perceba como aconteceram os quatro golos do encontro que resultou no encurtamento de distâncias entre primeiro e segundo classificados da Liga

Blessing Lumueno

SOPA Images

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“Nenhuma equipa é invencível! Temos é de saber levar o jogo para a nossa zona de conforto”, Jürgen Klopp

A frase do treinador alemão é perfeita para percebermos o contexto em que o jogo ocorreu: um Porto agressivo com e sem bola, no seu registo habitual, que levou a equipa do Benfica a tentar apagar o fogo com fogo. No item da agressividade, os Dragões são muito superiores, porém. Sérgio Conceição trabalhou a sua equipa para jogar como joga sempre, com o ímpeto habitual que caracteriza uma equipa que vive de estados emocionais para se motivar.

Em verdade se diga, o Porto tem sido vilipendiado nos últimos tempos por força dos resultados, por se ter visto ultrapassar pelo adversário e por ter permitido ao seu rival abrir uma distância confortável na luta pelo título. Esse estado de espírito de equipa “underdog” acaba por ser decisivo no desfecho dos jogos entre a equipa de Sérgio Conceição e o Benfica, uma vez que os Dragões, por influência do seu treinador, ficam confortáveis nesse papel de lutar contra tudo e contra todos. Isto é, sempre que Sérgio Conceição precisou de vencer o Benfica por estar atrás na classificação, venceu (duas vitórias na Luz, vitória); por outro lado, quando jogou estando à frente da classificação nunca venceu (duas derrotas, um empate).

Chegar ao golo cedo permitiu ao FC Porto manter o moral com que abordou o jogo, impedindo o Benfica de criar situações de finalização, e não deixando a turma do Seixal respirar. A equipa de Bruno Lage não conseguiu usar dos seus melhores argumentos técnicos, não conseguiu colocar em evidência Pizzi, Grimaldo, Chiquinho, Adel e Weigl por não tentar levar o jogo para onde estes são melhores que o adversário: a jogar com bola.

A tentativa de combater agressividade com agressividade não funcionou e por isso a vantagem ao intervalo era justificada. O Porto foi melhor colectivamente porque conseguiu levar o jogo para onde queria - e por ter explorado a fragilidade do Benfica na sua organização defensiva. Dois avançados, alas por dentro para criar dúvida a André Almeida e a Grimaldo, e os laterais em largura e profundidade; Otávio e Corona conseguiram criar uma dinâmica ofensiva muito difícil de parar, sendo também esse o lado que o Benfica defende pior.

O Porto rodou sempre o jogo por onde quis, projectou os laterais sem que os encarnados conseguissem ameaçar essa subida com ataques nesse espaço, ou pressionar de forma a colocar dúvida aos jogadores do Porto. O Benfica perdeu por não ter conseguido ligar os seus ataques da melhor forma, e colocar em situações de vantagem (Pizzi demasiado preso a receber a bola de costas, dúvidas sobre quem deveria prender a linha defensiva do Porto ou quem deveria atacar a profundidade, Chiquinho completamente fora do jogo na primeira meia hora). E ainda que tenha entrado melhor na segunda parte, por força das correcções de Bruno Lage ao intervalo, as substituições resultaram na destruição de tudo o que tinha levado o Benfica a chegar ao segundo golo (os seus melhores 15 minutos do no jogo) e num jogo bem mais tranquilo para o Porto até ao apito final.

O segundo golo de Vinicius

A diferença da primeira-parte para os primeiros 15 minutos da segunda parte foi esta: a maior definição sobre que jogadores devem agarrar a linha (Vinicius) e que jogadores devem atacar o espaço (Rafa e laterais). Mais paciência no ataque posicional, e variabilidade entre jogadores a dar apoio e movimentos de ruptura entre lateral e central do lado oposto ao da bola (Rafa nas costas de Pepe). A melhor forma de quebrar o ímpeto pressionante que é fazer o adversário correr desmoralizando a pressão.

O autogolo de Rúben Dias

Sérgio Conceição muito bem a massacrar o lado esquerdo do Benfica e, sem precisar de elaborar muito o jogo, conseguiu expor a menor agressividade de Grimaldo, a pouca articulação entre Rafa e Adel (muito espaço entre eles no início do lance, e depois o marroquino pouco competente na cobertura à Rafa) e o espaço sempre existente nas costas de Ferro. Assim, Marega consegue aparecer em situações de vantagem, com tempo e espaço para definir o lance bem perto da baliza de Odysseas.

O golo de Alex Telles

Não tenho dúvidas que a abordagem de Ferro ao lance não é a melhor, mesmo assumindo que pode existir um toque que o desequilibra ele deve ser imperial neste tipo de lances. Sei também que Ferro tem passado o pior momento desde que está no Benfica. Todos os seus erros têm sido punidos pelo adversário com golos. Mas, no meio de tantos erros individuais, está um jogador com características ímpares (com bola) e que precisa do treinador, dos colegas, do clube, que invistam na sua melhoria individual e que o protejam colectivamente nos lances em que tem maior dificuldade.

O primeiro golo de Vinicius

Grimaldo e Pizzi a conseguiram combinar, com uma variação rápida de jogo que deixa a ala direita do Benfica em vantagem para atacar o espaço de Alex Telles. Com Marcano e Pepe em movimento para fechar rapidamente espaços centrais, e Corona a chegar num ritmo mais lento, o Benfica consegue colocar Vinicius e Chiquinho (que se esconde nas costas do central espanhol, para depois aparecer a surpreender) para os dois defesas do Porto. Essa igualdade numérica dita o final do lance uma vez que apenas dois jogadores não são suficientes para cobrir a baliza e ajudar Marchesin a defender o lance. A situação ideal era Corona ter chegado mais próximo do segundo poste, ficando assim ele mais perto do Vinicius não o deixando finalizar na recarga.

O golo de Sérgio Oliveira

O ataque declarado ao espaço de Grimaldo e Ferro, e o hábito que os médios ala do Benfica têm de participar pouco no processo defensivo quando a bola está no lado contrário. Falta claramente um médio (nem Chiquinho nem Pizzi são agressivos o suficiente para fechar) à frente da linha defensiva para proteger os passes atrasados e as segundas bolas - e é precisamente nesse espaço que surge o golo.

O Porto de Sérgio Conceição não é uma equipa de posse, o Benfica também não; mas tendo em conta o registo de pressão do jogo foi a turma de Bruno Lage que mais sentiu a falta da bola para conseguir ser ameaçadora como é noutros jogos. O problema de não serem equipas de posse, mas terem a posse por muito mais tempo consentida pela esmagadora maioria dos adversários que enfrentam na Liga, é ganhar vícios colectivos e individuais, ofensiva e defensivamente, que se transformam em problemas enormes quando o adversário é arrojado o suficiente para te fazer sair do conforto a que te habituaste. Por isso, não deixa de ser curioso que, neste jogo, quatro dos golos conseguidos tenham sido com o adversário organizado defensivamente no momento inicial do lance.