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Tiago Teixeira

Tiago Teixeira

Analista de futebol

O que se passa com o Benfica? Oito pontos para discutir oito pontos perdidos

O analista Tiago Teixeira aferiu os problemas da equipa orientada por Bruno Lage que perdeu gás nas últimas jornadas, acabando ultrapassada pelo FC Porto na jornada de segunda-feira, após o empate com o Moreirense. Erros individuais, coletivos e de planeamento desportivo na origem de uma depressão inesperada

Tiago Teixeira

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Ponto prévio: A grande parte das dificuldades que o Benfica apresentou nos últimos jogos, não surgiu só agora, embora só agora tenha custado pontos. O aumento do desgaste físico, a importância de cada vitória nesta fase da época, e o fato de terem enfrentado vários adversários de nível mais elevado nos últimos tempos, apenas tornaram mais visíveis os
problemas que já existiam.

I. Controlo da profundidade.

Tem sido ao longo da época um dos principais fatores de desequilíbrio na organização defensiva do Benfica. A linha defensiva – o lado de Ferro e Grimaldo tem sido o mais castigado – demora a reagir à bola descoberta (não baixa quando o portador da bola se encontra sem contenção) e os adversários criam muito perigo através de movimentos de rutura para atacar a profundidade. Foi assim que o FC Porto chegou ao terceiro golo frente ao Benfica. Ferro não baixou, quando Corona recebeu a bola entre-linhas, e Marega conseguiu ganhar-lhe o espaço nas costas.

II. Médios-ala pouco defendem

Comportamento habitual na estratégia de Bruno Lage, que ao deixar os médios-ala – principalmente o do lado contrário à zona da bola – numa linha mais subida, ganha vantagem no momento da transição ofensiva. O problema é quando o adversário procura e consegue explorar o espaço concedido por causa dessa opção: nesse momento, o Benfica fica basicamente a defender apenas com quarto defesas, mais os dois médios, e o espaço para o adversário progredir torna-se maior. Além disso, é mais fácil criar superioridades numéricas, porque os médios-ala do Benfica (principalmente Pizzi), em muitas situações, não acompanham os laterais adversários. O golo do Moreirense é um exemplo perfeito disso: muito espaço na linha média do Benfica, com Rafa e Pizzi mais subidos em relação aos dois médios, e demasiadas facilidades para o Moreirense progredir e criar superioridade numérica (Abdu Conté, lateral esquerdo, avançou sem qualquer tipo de acompanhamento por parte de Pizzi).

III. Tomás Tavares e Ferro.

Não têm sido protegidos pelo coletivo, mas isso não pode desculpar todos os erros que têm cometido no momento defensivo. As más abordagens defensivas – pouca agressividade nos duelos, má colocação dos apoios, mau timing de ataque à bola – têm resultado em vários lances onde são facilmente ultrapassados no 1x1 e causam muitos desequilíbrios defensivos.

IV. Falta de profundidade do plantel

Coloco este ponto a seguir ao do Tomás Tavares e Ferro por um motivo. Numa fase de maior desgaste, fruto do maior número de jogos “decisivos”, e numa altura em que vários jogadores do Benfica estão em sub-rendimento, salta à vista a falta de soluções, por exemplo para o setor defensivo. É difícil de entender que uma equipa que tem Florentino e Gabriel para a posição de médio defensivo tenha preferido gastar 20 milhões em Weigl (não está em causa a sua qualidade) e ainda tenha tentado Bruno Guimarães, antes de sequer pensar em reforçar o setor defensivo.

V. Transição defensiva: ausência de Florentino e Gabriel.

Nos jogos de maior dificuldade, a presença de Gabriel e/ou Florentino ajudava a disfarçar muitos problemas defensivos do Benfica. Primeiro, porque permitia recuperar a bola em zonas mais altas; segundo, porque tinham mais capacidade para percorrer mais espaço e colmatar melhor a pouca participação dos médios-ala. Na transição defensiva, era tremenda a importância que os dois tinham quando o Benfica perdia a bola, quer pelo posicionamento e pela leitura dos lances, bem como pela agressividade com que condicionavam as saídas curtas do adversário. Atualmente, o Benfica é uma equipa que permite mais facilidades aos adversários no momento de retirar a bola da zona de pressão, permitindo-lhes sair com mais perigo em transição ofensiva.

VI. Dificuldades em ataque posicional

Não são problemas novos e já eram visíveis em vários jogos da época passada, mas o talento de Félix – a criatividade, velocidade de execução, a qualidade técnica – conseguia disfarçar muitos deles. Este ano não há Félix e o Benfica tem revelado ainda mais dificuldades em ataque posicional, principalmente em jogos onde o nível aumenta, tornando-se uma equipa previsível na maneira como procura chegar a zonas de finalização. A pouca preocupação em deixar os médios-ala enquadrados no corredor central e a excessiva procura do jogo exterior para sucessivos cruzamentos facilitam o trabalho de quem defende. A ideia que fica deste Benfica é que está demasiado dependente dos rasgos individuais para conseguir desorganizar estruturas defensivas com muitos jogadores. Os posicionamentos que Lage pede estão todos lá, mas as dinâmicas coletivas, que deviam ter como objetivo potenciar as individualidades, não têm surgido de maneira regular. E quando o adversário tem mais qualidade, isso paga-se caro.

VII. Equipa partida

Nos jogos contra FC Porto e Braga, a procura pelo resultado levou Lage a “partir” a equipa. Com as substituições feitas (Dyego Sousa, Vinícius e Seferovic na frente) e os posicionamentos adotados (muitos jogadores na mesma linha e pouca preocupação em garantir ligações entre a construção e a criação), o Benfica anulou quase por completo as possibilidades de conseguir evitar essas duas derrotas nos minutos finais.

VIII. Ineficácia ofensiva

É verdade que apesar dos problemas defensivos e ofensivos referidos nos pontos anteriores, o Benfica podia ter conseguido outros resultados se tivesse sido mais eficaz. A fase menos positiva que alguns jogadores do ataque
atravessam é notória, mas desengane-se quem acha que não tem relação com o momento coletivo. Quanto mais capacidade o Benfica tiver para criar situações claras de golo, mais fácil é finalizar, mesmo em momentos de menor confiança. E por falar em eficácia, se calhar dava jeito ter um tal de Raúl de Tomás no plantel, não?